domingo, 16 de janeiro de 2022

Do Rev. Hernandes Dias Lopes, O Papado e o Dogma de Maria

Considerações a respeito do livro O papado e o dogma de Maria.

O protestante lê o livro pensando estar lendo o resumo da teologia bíblica sobre o assunto, algo que não deve ser ultrapassado sobre a questão de Maria na vida da Igreja. Assim, pensa que não deve mais nada com respeito à mãe de Jesus, do que tê-la como cristã, co-irmã, serva, etc. E ainda pensa que ela é pecadora, que teve muitos filhos, que morreu e espera a ressurreição, que não pode interceder. Isso é tudo o que os protestantes em geral oferecem como honra a Maria. Será mesmo isso que a Bíblia ensina? Foi assim que os cristãos trataram a virgem Maria durante a história?

O que segue abaixo é uma reflexão daquilo que foi dito no livro pelo pastor reformado, com as devidas correções, para que o cristão cresça na fé em Cristo, no conhecimento dele, e no conhecimento da Palavra de Deus.


Parte 1

O pastor afirma que o culto a Maria é uma desonra, uma ocasião de pecado, e que foi introduzido na Igreja depois que levas de pessoas não-convertidas entraram no cristianismo. Em primeiro lugar, deve-se compreender que o culto a Maria é reconhecer sua grandeza como mãe de Cristo, serva de Deus, modelo para a Igreja. A Igreja que a tem, a exemplo de Cristo, como mãe.

Então, o culto a Maria só pode honrá-la. Ainda, não é exato que com o Edito de Milão houvesse conversão em massa, mas é certo que as mudanças que ocorreram foram aos poucos facilitando as conversões. Contudo, não há qualquer alusão de que a mariologia como a conhecemos hoje tenha sido gerada pelos motivos acima. A mariologia não é fruto de multidões não convertidas, mas nasce do evangelho, e da prática dos cristãos que creem e amam Jesus.

A respeito do título mãe de Deus como relacionado à frase inspirada e bíblica “mãe do meu Senhor”, tudo está muito claro quando se tem em conta que o Senhor ao qual Isabel tinha em mente era o Deus de Israel, e que o Espírito Santo referiu-Se a Jesus como Filho do Altíssimo, sendo também da mesma natureza do Pai.

É por isso que sendo o Filho o mesmo Deus, Maria é de certa forma Sua mãe. E qual forma é essa? A da natureza, através da natureza, que é o meio da humanidade de Maria em relação a Cristo. Ela não é mãe da natureza de Cristo, mas mãe da Pessoa de Cristo segundo a natureza humana. E sendo única a Pessoa de Cristo, que é Deus, refuta-se o arianismo e crenças semelhantes, como também o nestorianismo, que divide Jesus em dois, ideia contrária as Escrituras e ao bom senso.

A ideia de que a virgem Maria é mãe de Deus de maneira alguma implica em que ela precedeu a Deus. Se assim fosse, não seria doutrina cristã católica. O autor parece não conhecer isso. Não houve esforço para estudar a doutrina católica.

Quanto à doutrina da imaculada conceição, essa está de acordo com a Escritura, pois ensina que Maria é filha de Adão, e foi preservada do pecado. Isso é o mesmo que afirmar a salvação de Maria, e essa salvação foi efetuada pelo sangue de Jesus Cristo.

A explicação de que Jesus é semente da mulher por si só não explica o motivo dEle não ter sido gerado com pecado original. Por isso, a Igreja foi tomando consciência de que Deus agiu na pessoa de Maria purificando-a totalmente para afastar qualquer pecado da mãe do Senhor. Ela foi salva por Deus (cf. Lucas 1, 47). E ainda foi purificada para ser mãe de Jesus.

Diz o pastor que os apóstolos não oraram a Maira e nem falaram de Maria. Não há como afirmar isso absolutamente. Esse “silêncio” seria uma reprovação ao culto mariano. Os protestantes reformados evitam o culto a Maria, diferentemente de todos os cristãos até o tempo de Calvino, que inclusive venerava a virgem Maria.

Mas, deve-se entender, quando há silêncio significa que o assunto em questão era pacífico e não o contrário. Nas controvérsias produzem-se muitos debates. Na concordância, não há o que objetar, a paz reina. Muitas doutrinas que não mereceram atenção são aquelas das quais não havia dúvida alguma. Isso porque a maior parte do Novo Testamento foi escrita para tratar de questões controversas. O pastor não soube lidar com essa questão.

Interessante que para falar contra a virgindade perpétua de Maria, o pastor usa 1 Coríntios 7, 5, como se não ter relacionamento conjugal fosse “desobediência” a um mandamento divino, quando o texto não diz isso, pois é dito que os casais devem ter momentos de privação do direito conjugal para oração, e não devem ficar assim por muito tempo porque ficariam à mercê das tentações do Demônio, e não porque Deus havia ordenado que devessem voltar a unir-se.

Em outras palavras, a Bíblia ensina que o casal deve deixar de unir-se sexualmente para ter maior tempo de oração, quando ambos estão de comum acordo, e aconselha que isso não demore muito, para não dar ocasião de tentação. Disso tiraram a ideia de que não ter relações é “desobediência”, algo que vai além do que o texto sagrado ensina.

Também, primogênito não significa um entre outros, mas o primeiro gerado, somente isso. Caso seja filho único, continua sendo primogênito. Dessa forma, não é necessário que nasça mais filhos para que o primeiro seja considerado o primogênito. Por isso, não é correto afirmar que “há provas” na Escritura da existência de filhos de Maria.

Outra questão é que a palavra usada para primo é anepsios, e que isso provaria que os irmãos de Jesus não eram primos. Deve-se dizer que trata-se de uma questão inócua. Isso já foi discutido em outro artigo, que prova que Maria não teve outros filhos.

Certamente, pelos motivos de estreito laço de familiaridade, aqueles primos de Jesus, que podem ter sido filhos de um irmão de José com a prima da virgem Maria, de mesmo nome, fossem sempre chamados irmãos.

A respeito do dogma da assunção, deve-se entender toda a questão sobre a imaculada conceição e suas implicações, assim como as referências bíblicas a respeito de Maria, e as afirmações históricas. Maria foi elevada ao céu.

 

Parte 2

A primeira observação que o pastor faz da anunciação do anjo Gabriel à virgem Maria (cf. Lucas 1, 28) é que a escolha de Maria teve origem na graça de Deus e não em mérito dela.

Essa observação não deve causar nenhuma estranheza para o católico, já que tudo o que a Igreja Católica ensina é justamente que Deus é a fonte de todo o bem e de toda graça, e, portanto, a virgem Maria foi escolhida por Deus, preparada por Ele, para ser a mãe do Salvador, e não que ela tenha tido mérito para oferecer a Deus para isso. Isso é o que parece entender a crítica reformada, que acusa a Igreja Católica de algo estranho à própria fé católica.

Aliás, o mérito que ela tinha era efeito da graça, que Deus concedeu para fazê-la participante do mistério da redenção, como mãe do Redentor.

Depois, o reverendo chama a atenção de que a ênfase do anjo estava na criança, em Jesus, e não em Maria. Essa constatação é tipicamente protestante, e tem como objetivo mostrar ao católico, especialmente, que a Bíblia não oferece base para venerar Maria, e que esse seria o ensino bíblico.

Não há o que objetar de forma especial sobre isso, já que a mensagem do anjo era a encarnação de Jesus, e nada mais natural que a ênfase seja Jesus em toda a passagem. O reverendo não contribuiu com nada nesse quesito, não tendo nada que possa refutar a posição católica sobre Maria.

No entanto, o que a Igreja também observa, e todos os santos doutores falaram disso, é que Maria é chamada por um nome diferente, que é traduzida do latim como cheia de graça, ou como agraciada, como preferem as traduções protestantes e mais modernas, a partir do texto grego. Contudo, seja cheia de graça ou agraciada, no sentido deve ser o mesmo.

Isso mostra que esse nome revela uma característica da virgem Maria, mostrando sua singular bênção, recebendo já de início a plenitude da graça. Singular porque ninguém na Escritura recebe saudação de um anjo. O anjo a saudou, como não havia feito em outras aparições. Por causa de Cristo há veneração a Maria.

Falando sobre Lucas 1, 38 o pastor lembra que Maria escolheu o título de serva, que não quis ser uma sócia de Deus, nem igual a Deus, mas Sua serva. Para o católico, outra vez, tais palavras não trazem nenhuma novidade, pois cremos que Maria é a serva de Deus por excelência, que serviu o Senhor de modo tão sublime que na Igreja é a primeira cristã, a primeira criatura modelo de fé para os irmãos de Cristo. É ainda a mãe da Igreja, que é espiritualmente o corpo de Jesus.

Por fim, entre outras coisas que não estão em contraste com a doutrina católica, o pastor observa que Maria não é bendita acima das mulheres, mas entre as mulheres. Ele quer dizer com isso que Maria não é diferente das demais mulheres de todo o mundo. Afirma que ela foi especial, mas pecadora como as outras, estando no máximo na mesma estatura de todos os demais crentes. Isso não é bíblico.

Dessa forma, observe que a Bíblia afirma que Maria é bendita e que Jesus é bendito, e ninguém dirá que por isso Jesus é tão bem-aventurado com todos os homens e não acima de todos os homens!

Portanto, antes de expressar opiniões, é preciso ponderar conforme o texto sagrado. Maria é bem-aventurada entre as mulheres, de forma especial e singular, o que a faz ser honrada entre todas as mulheres com maior honra, porque é mãe do bem-aventurado Filho do Altíssimo.

Como segunda razão o pastor afirma que na passagem a ênfase é toda sobre Jesus e não sobre Maria, que Isabel destaca o Filho e não a mãe, que João Batista estremeceu por causa de Jesus e não por causa de Maria, e que o personagem principal do encontro é Jesus e não Maria.

Contudo, para o leitor atento das Escrituras, a passagem mostra que Isabel honrou Maria logo que ficou cheia do Espírito Santo, e mostra que João Batista estremeceu em seu ventre assim que a saudação de Maria foi ouvida. Isso passou despercebido ao reverendo.

O protestante dificilmente honraria Maria dessa forma, raramente chega a tal ponto, se é que chega. E se caso chegar, está próximo do catolicismo. Talvez a teologia protestante previna esse nível de honra que a Bíblia apresenta sobre Maria. A Bíblia mostra as glória de Maria, a teologia reformada não.

Ao invés de trata-la como igual, Isabel a honra como maior. O leitor não deve deixar despercebido que a saudação da virgem foi ocasião para que o Espírito Santo santificasse o precursor e sua mãe Isabel. Foi nesse instante que o Espírito Santo encheu Isabel e João Batista.

No final dessa seção, para enfatizar algo mais católico nas observações do reverendo, é preciso notar que ele escreveu que Maria é campeã entre as mulheres, o que indica sua maior estatura na graça, embora não seja isso que o pastor tenha querido passar.

Ele transparece o desejo de mostrar que o protestante honra Maria, embora pelo que foi expresso acima, essa honra ainda não pode ser equiparada àquela que a Escritura oferece à mãe do Senhor. É comum os protestantes hoje em dia afirmarem respeito a Maria, o que já é um avanço. Mas ainda está aquém da honra que a mãe do Senhor merece.

Continuando, temos que em Lucas 1,48 a virgem Maria proclama, inspirada por Deus, que ela será lembrada em todas as gerações. Com certeza, essa lembrança é feita pelos cristãos católicos.

No que se refere à teologia protestante mais moderna, pouco lugar tem sido dado à lembrança de Maria, o que se reflete nos cultos, nas pregações, nos livros, nas conversas, e na vida de cristãos protestantes, que lembram de falar de Maria somente quando pregam para algum católico, lembrando ao católico que ela é uma mulher “qualquer”, (ou como o reverendo, que escreve eu seu livro sobre ela, afirmando que “era apenas umas mulher”), pecadora e salva por Deus, que teve filhos além de Jesus, que dorme no pó da terra, que não tem poder, e etc.

Essa é a visão popular criada no Protestantismo para combater o culto de veneração à virgem Maria. Por essa via, não se cumpre a profecia de Lucas 1, 48. Lembrar de Maria não é fazê-la igual a todos, pecadora, cheia de filhos, morta no pó da terra esperando a ressurreição, incapaz de interceder. Essa não é a fé da Igreja.

Esse cumprimento está na Igreja Católica, onde a virgem Maria é lembrada sempre com os maiores louvores, por um só motivo: ser a mãe Jesus. Ele subiu aos céus por ser mãe do Senhor, intercede pela Igreja por ser mãe do Senhor.

Na frase do pastor: “Seguir a orientação de Maria é de fato obedecer a Jesus”, mostra que ele está seguindo, sem o saber, o espírito da verdadeira Mariologia. Isso não é o Protestantismo ensinando sobre Maria, mas reflete algo que herdou do Catolicismo, após anos de controvérsia.

O que falta é crer na virgindade perpétua, na imaculada conceição, na assunção aos céus, e na intercessão dos santos. Fazendo isso de forma cristã, como ensina a santa Igreja, está honrando a Maria biblicamente.

A respeito de Lucas 11, 27, onde as relações físicas são menores que as espirituais, deve-se responder que certamente ninguém creu com tanta clareza em Jesus como Maria, e por isso ela é a primeira crente, tanto em razão de sua familiaridade física com Jesus, que era cem por cento geneticamente igual a Cristo, como em sua familiaridade espiritual. Ela recebeu a maior das graças, para ser mãe do Senhor, creu no Messias antes de todos. Portanto, é inevitável que, ao crer que Jesus é o Filho de Deus alguém naturalmente venha a venerar Maria.

Maria era já repleta do Espírito Santo desde sua concepção, com maior ênfase na encarnação de Jesus, e foi mais agraciada com dons do Espírito no dia de pentecostes. Sua vida foi sempre cheia do Espírito Santo, ao contrário dos demais discípulos, que foram santificados mais tarde. E, deve-se lembrar, Maria não teve outros filhos.

Essas são as considerações sobre o livro do reverendo Hernandes Dias Lopes, O Papado e o Dogma de Maria à luz da Bíblia e da história. Editora Hagnos, 2005.

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