quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

John Owen: estudo dos capítulos 16 e 17, livro III

 Capítulo 16

 

Cristo morreu em lugar do pecador, Rm 5, 6-8; Gl 3, 13; 2 Cor 5, 21. Como estamos vendo, a expiação ilimitada é a doutrina bíblica. Uma vez que todos são pecadores, Cristo então morreu por todos.

 Mas, Owen argumenta que há a ideia de comutação de pessoas, uma no lugar da outra. Se se considera essa realidade a todos, então todos são redimidos, restaurados, justificados e feitos justos em Cristo. Owen considera isso estar em oposição às Escrituras. E apresenta razões pelas quais Cristo não satisfez a justiça de Deus por todo e qualquer homem.

Uma das razões é que ser satisfeito e exigir satisfação são contraditórios, e não pode ser afirmado do mesmo em respeito ao mesmo. E Deus irá exigir o último centavo, Mt 5, 26. Primeiro, tal passagem, como a de Mateus 18, 34, refere-se antes ao purgatório, podendo ser lida quanto ao perdão das penas, à purificação devido às faltas, aos pecados dos fieis já perdoados, que podem sofrer danos ainda que estejam sobre o verdadeiro fundamento que é Jesus. Dessa forma, a passagem não contradiz o valor da obra da cruz.

 Caso fosse o castigo relativo às penas do inferno, não se pode afirmar que Jesus tenha sofrido a separação total de Deus, pelo Seu próprio ser divino, mas sofreu a mesma dor e separação por meio de Sua natureza humana, em favor de nós, pecadores, obtendo-nos o perdão dos pecados. Assim, ainda assim, ao que não se apropriar pela fé do sacrifício, não poderá ter parte nele, e não usufruirá do seu valor.

 Segundo, ainda que a obra da cruz tenha eficazmente aplacado a ira divina e resgatado a todos, ainda resta a parte do pecador, que é possuidor do livre-arbítrio, e que irá a Cristo ou não, após o chamado externo e interno, para que possa ser beneficiado pela graça proveniente do sacrifício de Jesus. Toda a fé bíblica e a interpretação da Igreja afirma que o homem pode negligenciar sua salvação e Deus não irá efetuar nada senão em atenção ao dom do livre-arbítrio que concedeu ao ser humano.

 Mas, pode-se objetar, como o faz Owen, de que há almas no inferno, então não houve satisfação por elas, embora essa dificuldade já esteja desfeita pelo que foi colocado anteriormente. O sangue de Cristo foi posto sobre quem o Salvador não quis nenhum bem? Morreu Cristo por Caim ou pelo Faraó?

 A resposta de que Cristo morreu por eles e eles poderiam ser salvos caso tivessem acreditado não é suficiente para Owen, porque eles não ouviram essa condição. Cristo sabia que eles não tinham cumprido a condição, sem teriam mais a possibilidade de cumprir, qualquer intenção de fazer o bem seria em vão e frustrada, o que não deve ser dita do Filho de Deus. Rejeita por fim a redenção sob a condição de crer.

Owen argumenta que a mediação de Cristo é mostrada obtendo o bem a todos pelos quais morreu, como está em Hebreus 9. Mas, o texto diz respeito à eficácia objetiva, e não à aplicação garantida a todos, visto a condição imposta pela sabedoria e propósito de Deus.

Cristo entrou no céu “adquirindo-nos uma redenção eterna” (cf. Hb 9, 12) está agora como “intercessor nosso ante a face de Deus” (v. 24). O sacrifício de Jesus foi suficiente “para destruição do pecado pelo sacrifício de si mesmo” (v. 26).

Em nenhum lugar é dito que o preço da redenção eterna, a intercessão e o perdão dos pecados será aplicado a todos pelos quais Cristo morreu. Esses são os efeitos da morte de Cristo, o bem que Ele adquiriu, o ofício que Ele obteve por isso, e o efeito que é o perdão dos pecados.

Antes, então, a Escritura está apresentando o valor da sua morte, que nos trouxe a redenção eterna, a todos nós neste mundo. A intercessão, que já está em vigor e em funcionamento, para todos na Igreja, está aberta a todos os que irão crer. E o perdão dos pecados está garantido ao que crê, pois que o pecado foi destruído pelo sacrifício, mas continua no pecador até o arrependimento e confissão individual, até a sua justificação.

Quanto às afirmações expressamente feitas quanto à vinda de Cristo para salvar o Seu povo dos seus pecados, Se entregou pela Igreja, e etc., temos também, com idêntica definição, Hebreus 10, 30, citando o Salmo 134, 14, que trata do julgamento do Povo de Deus (cf. julgar, krinei, em grego, e יָדִ֣ין -ḏîn, em hebraico), onde está escrito: “O Senhor julgará o seu povo”, e o verso 31 de Hebreus continua no contexto de juízo: “É horrendo cair nas mãos do Deus vivo”.

Pelo que estamos estudando desde o início do livro, diante de tantas objeções, com profundo raciocínio partindo das afirmações da Sagrada Escritura, vimos que o Senhor Jesus morreu por todos. Dessa forma, nessa concepção, não se estranha que Deus julgará o “seu povo”. Com isso, não se exclui o julgamento de ninguém, pois a Escritura ensina que todas as nações serão julgadas (cf. Mateus 25), e que nós temos que comparecer diante do tribunal de Cristo (cf. 2 Coríntios 5, 10).

Caso as argumentações de Owen estivessem corretas, teríamos aqui um exemplo de afirmação expressa e específica do julgamento de Deus no Seu povo, deixando todos os demais povos e nações, os que não pertencem ao povo de Deus, fora do juízo, contrariando toda a Escritura. De fato, definir o juízo ao “seu povo” é idêntico em extensão a vir salvar o “seu povo” (cf. Mt 1, 21) dos seus pecados, e restringir a salvação somente ao “seu povo” por tal motivo é o mesmo que afirmar que haverá somente o julgamento do “seu povo” sem estrapolação de limites. Novamente essa alegação que tenta fundamentar a expiação limitada não passa no crivo da Escritura.

Por essa razão, há passagens na Escritura onde o Senhor mostra seu desejo de salvar a todos. Assim, diz o Senhor Jesus: “Porque o Filho do Homem veio salvar o que estava perdido” (cf. Mateus 18, 11) com indefinição total, mostrando que todos estão perdidos. O contexto de amor de Deus, pressupõe o Senhor indo atrás da ovelha desgarrada. As ovelhas que já estão no aprisco são aqueles salvas por Cristo e já convertidas. As demais ainda deverão entrar no aprisco. O convite é feito a todos, e todos podem ser envolvidos por essa graça.

É conhecida a explicação reformada sobre 1 Timóteo 2, 6, onde “todos” (por todos, hyper panton) indicaria somente algo de todo tipo de toda espécie, de toda qualidade, com relação ao verso 1, não incluindo a todos em geral, não significando a todos e a cada um.

Por isso, explica a teologia reformada, o texto segue com exemplos para mostrar os sujeitos que compõem “todos os homens”, que seriam os reis, todos os constituídos em autoridade. Dessa forma, “todos os homens” seria explicado como referindo-se aos reis e governantes, e não a todos sem exceção.

No entanto, a passagem é clara ao ensinar a oração de intercessão “por todos os homens”. De fato, orar por todos os reis e pessoas constituídas em autoridade exclui algum rei ou governante, ou quer dizer mesmo todos os reis sem exceção e todos os governantes? Por essa razão, o termo todos em relação às autoridades nesse contexto é geral, não excluindo ninguém.

Mas, bem mais abrangente é o que temos no contexto. Assim, o verso 4 passa a repetir o alcance universal que está no verso 1: “o qual deseja que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”, falando do desejo de Deus, que certamente não está se referindo a todos os reis e governantes, que são sujeitos de receberem oração para que tenhamos uma vida calma e tranquilo em um governo de justiça, mas que trata do desejo de Deus de salvar a todos. Dessa forma, devemos orar por todos, em especial por todos os reis, mas não restringindo o sentido de todos os homens, antes, apenas realçando a importância de orar pelas autoridades constituídas.

Outra vez, no verso 5, Jesus é mediador “entre Deus e os homens”, o que não alude a nenhum exceção. E o verso 6, tratando expressamente e diretamente do resgate efetuado na cruz, ensina: que Jesus “se entregou como resgate por todos”. E, naturalmente, não há qualificação para a palavra todos, e ninguém diria que se refere o desejo de Deus e o resgate de Cristo em favor da salvação seria somete das autoridades. Seria uma leitura desastrosa.

O contexto é claríssimo sobre o desejo de Deus de salvar a todos e o resgate de Cristo entregue em favor de todos. A intenção e a obra de redenção estão aí delineadas. O exemplo dos reis, todos os reis, e todas as autoridades, foi apenas uma referência especial ao lembrar a importância de oração de intercessão por esses homens que estão em posição de influência acima de tantos outros. Dessa forma, todos os homens do verso 1 é igual é todos os homens do verso 4, corroborado pelos versos seguintes, 5 e 6. Todo o contexto imediato.

Continuando nesse contexto, para ilustrar mais essa verdade, o verso 8 diz: “Quero, pois, que os homens orem em todo lugar...”. A palavra homens (andras) aí, sem maiores qualificações, pelo contexto direto, quer dizer todos os homens. Todos os homens são ensinados a orar. Depois, seguem orientações às mulheres.

Em 1 Timóteo 2, 5, Jesus é o único mediador entre Deus e os homens (anthropon), indicando a todos os homens, toda a humanidade. O mediador é o Homem (anthropos) Jesus. Mais uma vez é claro o ensino de que a cruz tem valor salvífico em favor de toda a humanidade pecadora.

Outra passagem importante, que não ensina a expiação limitada, e contem alusão à possibilidade de perda da graça, é 2 Coríntios 5, 5.9. O texto diz que temos o penhor do Espírito (cf. penhor, arrabona em grego). Nós temos esse penhor por estarmos unidos a Cristo, para sermos recebidos no céu, e para que tenhamos a vida eterna.

O verso 10 diz que devemos comparar diante do tribunal de Cristo, e nesse contexto, o verso 9 é imprescindível para desfazer qualquer dificuldade dentro do assunto que estamos tratando: “nos esforçamos por agradar-lhe”, porque teremos de ir ao tribunal (cf. 2 Coríntios 5, 9-10). No contexto que já vimos acima, do julgamento do Povo de Deus, entende-se que o penhor do Espírito não está afirmando impossibilidade de cair da graça, o que implica novamente que a morte de Cristo não se restringe aos eleitos. Assim, somos exortados a nos esforçar para agradar a Deus, pois teremos de comparecer diante do tribunal.

Dessa forma, o texto continua: “O amor de Cristo nos constrange, considerando que, se um só morreu por todos, logo todos morreram”, mas que devemos viver para Cristo (v. 15).

Essa verdade informa o conteúdo e modo de pregação do evangelho, como diz em 2 Coríntios 5, 20: “Em nome de Cristo vos rogamos: reconciliai-vos com Deus”. O apelativo “Vos rogamos” é uma forma de dizer “vos imploramos” (do grego δεόμεθα, deometha). Uma forma cristã católica de chamar o pecador à salvação, à reconciliação com Deus, no ministério entregue aos apóstolos e à Igreja docente.

Isso não parece em nada com o modo reformado de pensamento, onde o evangelho é pregado para distinguir os eleitos, e é afastada qualquer menção e semelhança a uma súplica, a um convite menos incisivo ao pecador, no anúncio do evangelho, pela ênfase que se dá à eleição e predestinação, conteúdos que dão forma a todo discurso calvinista. A Escritura, porém, costuma usar também formas do amor, rogando ao pecador para que se entregue à salvação, o que está no contexto da expiação ilimitada.

Os apóstolos procuravam persuadir os homens para que cressem, e se reconciliassem com Deus, pois Cristo morreu por todos, um só morreu por todos (vv. 11.20, cf. v. 14.). A razão disso é para que ninguém receba a graça de Deus em vão (cf. 2 Cor 6, 1).

Seria impossível que a graça de Deus fosse em vão se não houvesse a expiação ilimitada, que comprou a todos, resgatando-os do pecado, dando-lhes a graça sob a condição da fé livre, em resposta ao dom da fé conferido pela graça da cruz. O contexto trata da graça da salvação, o que na teologia reformada é unicamente dada pela graça eficaz.

Dessa forma, o texto estritamente compreendido não faz sentido para o reformado. Pode ser lido, porém, naturalmente na fé católica, que reconhece a graça suficiente e necessária a todos, que somente será eficaz nos eleitos, pela sua abertura à graça. Por tudo isso, São Paulo, inspirado pelo Santo Espírito, diz: “exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão” (no grego, em vão “eis kenon”), no mesmo sentido do texto de Gálatas, comentado em outro lugar.

Como poderia a graça ser vã nos eleitos? Como poderia a Escritura exortar os eleitos a não receber a graça de Deus em vão? Isso não seria eficaz, psicologicamente, naqueles que não creem na possibilidade do “não-eleito” receber a graça, e não se sentiria sinceramente no perigo de possuir a graça salvífica em vão, lendo a passagem e não tendo proveito do seu sentido.

Primeiro, por crer que sua fé é verdadeira, e sua confiança no perdão dos pecados pelo sangue de Cristo é genuína, o cristão reformado não irá crer que a graça possa ser vã para o eleito, e para si, que acredita ser um dos eleitos.

Segundo, porque não crê que a graça salvífica, que efetua a reconciliação, possa ser dada a todos, e não se incluiria fora do número dos predestinados.

Terceiro, porque somente a opinião de que o texto é um mero auxílio para fomentar a vida de santidade e união com Cristo com uma exortação contendo uma ameaça “impossível” de ser realizada, não é o que a Escritura apresenta em qualquer lugar.

Somente a fé na expiação ilimitada é que se pode entender o dever de receber a graça da salvação e não deixá-la em vão, pois é uma possibilidade real, resultado da fraqueza do pecador, da negligência voluntária, pelo mau uso do livre-arbítrio com o dom da graça. Parece que o argumento baseado na expiação limitada já está refutado.

O motivo dos sofrimentos por que passa o evangelizador é a “esperança em Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens” (cf. 1 Tm 4, 10). Essa passagem não necessita ser lida como tratando da Providência geral a todos, e em especial dos eleitos, como não se tratasse de salvação espiritual, mas de cuidado com as coisas temporais, unicamente porque são mencionados fadigas e ultrajes, pois a real verdade é de fato que o “Deus vivo é o Salvador de todos os homens, sobretudo dos fieis”.

Menos provavelmente o apóstolo diria que o motivo de seus sofrimentos era a esperança no Deus vivo que cuida de todos, mas mais ainda dos crentes. Parece mais digno de fé ter que Deus é o Salvador (Soter) de todos os homens (panton anthopon), especialmente dos fieis (malista piston), pois os especiais cuidados de Deus para com os fieis está realmente incluso na Providência geral, assim como o governo de toda a criação. No entanto, as penúrias dos cristãos por motivo da esperança em Deus estão diretamente relacionadas à salvação, pela qual sofrem ao anunciá-la. Nesse contexto, Deus é Salvador de todos os homens por ter enviado Seu Filho ao mundo para que o mundo seja salvo por Ele, conforme as Escrituras. E pelo que já foi exposto antes, tal leitura não apresenta qualquer problema.

 

 

Capítulo 17

 Da santificação e da causa da fé e do que foi adquirido pela morte de Cristo.

 Argumento tirado do efeito e fruto da morte de Cristo para a santificação, pode ser resumido da seguinte forma: Se o sangue de Cristo lava, purifica, limpa e santifica aqueles pelos quais foi derramado, ou pelos quais ele foi um sacrifício, então certamente ele foi o sacrifício somente por esses considerados no evento, que são lavados, purificados, limpos e santificados. Sabendo que todos não o são, o que é muito aparente, a fé sendo o primeiro princípio da purificação do coração, uma vez que todos não tem fé, conforme 2 Ts 3, 2, e a fé é dos eleitos, como diz Tt 1, 1, a consequência entendo, diz Owen, é inegável. Então passa a mostrar os argumentos pelos tipos e pelas claras expressões referentes ao assunto. Passemos agora a apresentar a doutrina bíblica em consideração aos argumentos de Owen, refutando-os.

O texto de 2 Tessalonicenses 3, 2 afirma “nem todos possuem a fé”. Em Tito 1, 1 está escrito, na Almeida Corrigida e Fiel: “Paulo, servo de Deus, e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus, e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade”, e na versão da Ave-Maria: “Paulo, servo de Deus, apóstolo de Jesus Cristo para levar aos eleitos de Deus a fé e o profundo conhecimento da verdade que conduz à piedade.

No grego “(kata) segundo (pistin) a (eklekton) dos eleitos (Theou) de Deus”. Nem todos os homens possuem a fé, e a Palavra de Deus fala da fé dos eleitos, ou em outra tradução, que Deus enviou a Igreja para levar a fé aos eleitos? O que se pode concluir daí? O original grego afirma “a fé dos eleitos”, e é nesse sentido que devemos formular a doutrina, de acordo com a Palavra de Deus.

Que os eleitos têm a fé, e nem todos possuem a fé, conclui-se que nem todos são eleitos. Isso é bíblico. Que nem todos possuem a fé, e os eleitos possuem a fé, não se pode afirmar que Jesus não morreu por todos. Não se pode afirmar que alguém que não seja eleito possa ter fé. Parece haver um salto aqui. Uma conclusão que não está nas premissas.

Nos versículo 3 e 4 do mesmo capítulo, Deus Pai é chamado de Salvador (Soter) e Jesus também é chamado de Salvador (Soter). O Pai é o Salvador, pois enviou o Filho para nos salvar. É por tal motivo de 1 Timóteo 4, 10, ao chamar Deus de Salvador está ensinando a mesma verdade.

No capítulo 2 verso 10-11 temos essa verdade evangélica: “Não defraudando, antes mostrando toda a boa lealdade, para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador. Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens.” O verso 11 literalmente afirma: “Apareceu para a graça de Deus trazendo salvação a todos os homens”.

O contexto novamente chama Deus Pai de Salvador, e que Sua graça veio trazer a salvação a todos. Não se pode dizer daí que se trata da Providência em relação à criação, do cuidado da natureza e dos negócios temporais, mas da graça de Deus que manifestou-se, que veio, agora, em Jesus Cristo, para trazer a salvação a todos, ser fonte de salvação a todos, como está na tradução da Bíblia Ave-Maria.

Essa graça, como já explicada na apresentação de Tito 2, 14, foi dada para formar o povo de predileção, o povo eleito que é “zeloso na prática do bem”. Antes disso, a graça está aberta a todos, terminando finalmente antes da parusia com a reunião total dos eleitos. A graça manifestada a todos os  homens prova a graça geral, e a aceitação pelos eleitos testemunha a graça eficaz. A graça de Deus trazendo salvação a todos os homens, mostra que a cruz de Cristo, a causa meritória de salvação, foi realizada em favor de todos os homens. A graça da cruz por todos, e por isso pode-se dizer que Cristo com certeza se entregou por nós. Aos que serão resgatados, purificados e constituídos povo, a graça será aceita e aplicada eficazmente (cf. Tito 2, 14). Por isso, o sangue de Cristo purificará Seu povo, pois esse é o que irá receber o Salvador e perseverar na fé, embora todos possam aceitar a fé, mas que por culpa própria não perseveram.

De fato, a fé o primeiro princípio da purificação do coração (Atos 15, 9). No contexto do Concílio de Jerusalém, o apóstolo São Pedro faz a revelação que recebeu de Deus, como apóstolo a anunciar a verdade unificadora do Evangelho, que Deus o escolheu para que anunciasse aos “pagãos a palavra do Evangelho e cressem”. Essa proposição é universal, dizendo aos pagãos, e não somente a alguns pagãos, ou aos pagãos eleitos, mas a todos. O contexto está mostra a dificuldade que tinham os cristãos judeus de aceitar que o evangelho fosse aberto às outras nações.

O verso 8 diz: “E Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós”. O texto afirma que Deus conhece os corações (kardiognostes), dando aos pagãos o Espírito Santo. Isso mostra que Deus viu que aqueles estavam abertos à graça e suas moções. Por isso, deu-lhes o dom do Espírito Santo.

Por que antes de conferir o dom é dito que Deus conhece os corações? Isso não seria  compatível com o eterno conselho de dar a fé a uns e deixar outros na incredulidade, quando o Senhor antes de conferir Seu dom salvífico sonda os corações. Não são todos igualmente pecadores? Não estão todos na iniquidade, fora da graça, longe de Deus, e carecendo da glória? Por que o Senhor verifica os corações antes de derramar Sua graça? Temos assim, mais um exemplo de que o livre-arbítrio é considerado no plano de Deus para responder ao estímulo da graça divina.

Então diz: “Nem fez distinção alguma entre nós e eles, purificando pela fé os seus corações” (Atos 15, 9). E tal verdade foi proclamada no primeiro sermão aos pagãos, quando São Pedro, inspirado pelo Santo Espírito de Deus, disse: “Então, Pedro tomou a palavra e disse: “Em verdade, reconheço que Deus não faz distinção de pessoas, mas em toda e qualquer nação lhe é agradável aquele que o temer e fizer o que é justo”.

E continua, com algo tremendo: “Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos.” (Atos 15, 35-36). Jesus apareceu não a todo o povo mas às “testemunhas que Deus havia predestinado”, ou seja, aos apóstolos que comeram e beberam com Jesus após Sua ressurreição.

Temos aqui um exemplo onde todo o povo significa todo e cada um judeu. Cristão não apareceu a todo o povo, mas às testemunhas que Deus escolheu de antemão, os apóstolos, conforme a passagem lida acima. É um exemplo do uso da palavra “todo”, em sentido pleno, e também de um ato do decreto de Deus, em Sabedoria e Justiça, com toda a liberalidade que Lhe é própria, fazendo sempre o bem. Não há obrigação de Jesus aparecer a todos. O mesmo não é dito de uma eleição para a salvação eterna, onde somente alguns são eleitos e outros deixados para a eterna perdição. Nesse quesito entra a justiça de Deus, como nos é revelada nas páginas sagradas da Bíblia. Cristo é o Senhor de todos, sem exceção, mas salvará os que estão abertos à graça, aos que temem a Deus e fazem o que é justo, como revela a Escritura (cf. Atos 10, 36).

Agora, prossigamos com o argumento de Owen, que pretende provar que o sangue de Cristo eficazmente deverá atuar em todos pelos quais Cristo morreu.

Afirma que é evidente que o sangue de Cristo é eficaz para aqueles fins de lavar, purgar, e santificar. Primeira pelo tipo dele, e segundo pelas claras expressões em relação à oblação de Cristo.

O tipo é o sacrifício ou expiação, comparado ao sacrifico de Cristo, Hb 9, 13. O que foi carnalmente e legalmente no tipo deve ser espiritualmente no antítipo. O tipo purificava os corpos, o antítipo purifica os espíritos.

No entanto, devemos dizer que os sacrifícios antigos não purificavam legalmente e carnalmente a toda a humanidade pelo fato de ser realizados cotidianamente. Também, não se pode dizer que eram legalmente eficazes para os israelitas que não tivessem sido receptáculos dos seus benefícios. Em si eram bons e frutuosos em sua finalidade, mas cada israelita deveria oferecer por si quando tivesse de receber uma bênção. A mulher que dava à luz deveria oferecer o sacrifício pela sua purificação. Obviamente os sacrifícios diários não tinham a eficácia de purificar legalmente todas as mulheres que tivessem dado à luz, mas cada uma oferecia por si mesma. É apenas um exemplo.

Também, os sacrifícios diários valiam em favor do povo, pois todo judeu estava incluso na Aliança pela circuncisão, pela pertença natural, por sua convicção e fé firme no verdadeiro Deus. Legalmente eram todos beneficiados pelos sacrifícios cotidianos, pelo sacrifício do Dia da Expiação, e pelos sacríficos que porventura oferecessem particularmente. O sacrifício pelo povo agia legalmente em favor de todo o povo. No entanto, cada vez que pecassem deveriam satisfazer por mais um sacrifício.

Se agora o sacrifício de Cristo purifica as consciência, por sua intrínseca eficácia, não é possível afirmar que todos deverão ser purificados se Cristo morreu por todos. Resta ainda a condição de cada uma vir e oferecer-se a Deus, aproximando-se de Deus por meio de Cristo.

Owen não aceita a distinção de Armínio. A resposta de Armínio, de que o sacrifício santifica não pela oferta, mas pela aspersão, e o sangue purifica não em respeito à oblação mas por meio de sua aplicação, é considerado por Owen como fraca e insatisfatória.

Ainda que o teólogo reformado aceite a distinção e divisão da oblação e aplicação, tentará refutar a divisão entre oblação e aplicação. De fato, esse é o argumento que fundamenta as proposições acima, os argumentos que foram feitos. Embora esteja o leitor consciente de inúmeras outras provas que estão sendo fornecidas contra a expiação limitada.

Owen afirma que o sangue de Cristo santifica pela aplicação, mas que a aplicação é garantida a todos pelos quais Cristo foi uma oblação. Esse é ponto de discórdia. Afirma então, que a prova consiste no que é dito que o sangue santifica e purifica, e deve que deve responder ao tipo, que também santificava para purificação da carne.

Em segundo lugar seria porque o sangue de Cristo derramado e a morte do Salvador efetua a purificação, e etc., e que foi intencionado para esse propósito. Para isso, cita vários textos que serão analisados a seguir.

Romanos 6, 5-6, sobre a participação na morte de Cristo seguida da ressureição como efeito certo. Ninguém duvida que aquele que é batizado e crê firmemente em Cristo está crucificado com Ele e será ressuscitado com certeza. Não se pode dizer que os que não estão com Cristo não foram objetos da sua oblação, e de que não podem, pelo decreto eterno, vir a Cristo. O texto apenas está mostrando o efeito da cruz no salvo, e não afirmando que tal efeito irá a todos pelos quais Jesus Cristo ofereceu a sua oblação. Falta tal suposição.

Por isso, versículos adiante, no verso 16, há a exortação de que pela liberdade da graça, não devemos servir ao pecado, pois o mesmo leva à morte, a saber, a morte espiritual que é a condenação, e a obediência leva à vida. Cometer pecados, vivendo vida pecaminosa, servindo ao pecado, tem como fim a morte. A obediência é mostrada como via contrária, que leva à justiça, que leva à vida eterna, como está no verso 23. Mais uma vez o contexto não oferece o conceito de que aquele que está crucificado por Cristo e liberto do pecado não possa voltar e viver sob o domínio do pecado, mas exorta para que isso não ocorra, levando em conta o livre-arbítrio do crente, e mostrando a necessidade da vida de boas obras sob o conceito da obediência (cf. Romanos 6, 16.23).

Owen continua a argumentar, de forma eloquente e profunda, em favor da aplicação certa dos benefícios da cruz a todos pelos quais Cristo morreu, incluindo a condição, que é a fé, sendo a mesma fruto da aquisição da morte de Cristo. Dos textos citados para tirar seu argumento, estudemos os mesmos e concluamos a favor da doutrina bíblica, passando pelo crivo novamente os argumentos de Owen.

Que a morte de Cristo é objetivamente suficiente e poderosa para salvar a todos não é  dúvida para nenhum cristão. Que a mesma seja certa a ser aplicada a todos pelos quais Cristo morreu, não é algo que os textos bíblicos estudados ensinam. Tal ponto já está refutado. Basta agora tratar, com maior ênfase, da condição de crer para ser salvo.

Em 2 Coríntios 1, 20 está escrito que as promessas de Deus são sim. Owen afirma que isso significa “confirmado, ratificado, inalteravelmente estabelecido, e irrevogavelmente entregue a nós”. As promessas são a transmissão dos legados para nós, confirmado pela morte do testador, Hb 9, 16; 7, 22; confirmado com muitos, Daniel 9, 26-27. Que promessas são essas? A soma delas em Jer 31, 33-34 e Hb 8, 10-12. Santificação 10, 11 e justificação 12. Promessa de circuncisar e dar novos corações Dt 30, 6 Ez 36, 26. Promessas imutáveis pela morte Hb 9, 23; Cl 1, 14 para nos livrar Hb 2, 14-15.

Lugares mais claros, Tt 2, 14, Ef 5, 25-26 – intenão e certo efeito. O sangue de Crisot nos purifica de todo pecado 1 Cor 1, 30.

Tudo o que Owen argumenta como efeito certo da morte de Cristo deve ser entendido dos eleitos, mas não exclui a intenção de Deus e de Cristo e realizar e oferecer respectivamente a oblação por todos os homens e deixa-los inescusáveis perante Deus.

Uma palavra deve ser dita do texto de Daniel 9, 26-27 citado por Owen, da aliança com “muitos”, o que não é relativo ao Novo Testamento ou Nova Aliança.

A nova aliança é mais perfeita e contem melhores promessas (cf. Hb 8, 6).  O livro de Hebreus 3, 12 exorta para que “ninguém venha a perder interiormente a fé, a ponto de abandonar o Deus vivo”. Para ser santo é preciso primeiro crer e ser justificado. Para a justificação é necessário a fé e o batismo.

Para o leitor que acompanha o estudo desde o início, sabe que essa é a doutrina bíblica, que apresenta o crente ainda sujeito à fraqueza e mau uso do livre-arbítrio, capaz de perder a fé e abandonar a Deus. Dessa forma, toda a Igreja é exortada ao dever de uns pelos outros animar-se mutuamente, para que ninguém se apegue ao pecado (v. 13). E continua a Palavra de Deus com verdade luminosa: “Porque somos incorporados a Cristo, mas sob a condição de conservarmos firme até o fim nossa fé dos primeiros dias”.

Há, portanto, a possibilidade de perder a fé e afastar-se de Deus, e de endurecer o coração pela sedução do pecado (v. 13), pois há uma condição de continuar unido a Jesus Cristo, que é a conservação da fé até o fim. A perda da fé afasta o salvo de Cristo.

A passagem é suficientemente clara em si. Por esse motivo, os dispensacionalistas tendem a dizer que o livro de Hebreus é endereçado a outra dispensação, onde as obras terão parte na salvação, e a perda a mesma será uma realidade, a partir de passagens como essas, impossíveis de serem negadas nesse sentido que apresentam, e de admitirem outro sentido, e afirma que seriam endereçadas aos judeus apenas. Os que conservam-se no calvinismo e dispensacionalismo, conseguem por esse subterfúgio fugir desses lugares que mostram a possibilidade de cair da graça e a necessidade de conversar a fé para ser salvo, “dividindo” a palavra para outro público e tempo.

Por sua vez, os reformados que não pertencem ao dispensacionalismo deveram procurar outras explicações para passagens tão claras, que dispensam esclarecimentos nesses pontos. São obstáculos que denunciam erros teológicos do sistema reformado.

Por isso, a fé continua, pelo padrão bíblico do evangelho, das cartas de São Paulo, do livro de Hebreus, do Apocalipse, enfim, de toda a Bíblia, a fé é uma condição para receber os benefícios da cruz de Cristo e de continuar incorporado a Cristo. Os muitos outros textos que provam essa afirmação foram apresentados nos capítulos precedentes com suficiente estudo de cada contexto e do texto geral da doutrina bíblica.

Porém, continua o argumento de Owen, a fé é efeito da graça gratuita de Deus. De fato, a fé é um dom, e é parte do efeito da cruz de Jesus, da graça de Deus. Corretamente entendido isso, temos de considerar o livre-arbítrio informado pela graça, que responde livremente, e não que seja irresistivelmente convencido. Por isso, ainda à aqueles que já estão na fé, é exortado a esforçarem-se e manterem a fé até o fim, caso contrário a perderão, se afastarão de Deus e serão desligados de Cristo. Dessa forma, por essas passagens de luminosidade tamanha, temos que a fé que é fruto da aquisição da morte de Cristo está aberta a todos, mas não é eficazmente aplicada a todos, uma vez que muitos não perseveram. E havendo quem não persevera a receba a fé, conclui-se que Cristo não morreu apenas pelos eleitos, mas por todos os homens.

Sim, a santificação é enraizada na cruz, como proveniente dela, e a fé é um dom e fruto que nos vem pela graça trazida igualmente pela cruz. Todos os eleitos irão crer, ser santos e perseverar, mas não se pode restringir aos eleitos todos os efeitos da cruz, pois a Bíblia ensina que Jesus se entregou por todos, em resgate por todos, e muitos são os que voltam atrás, deixando a fé, e rejeitando o Senhor que os resgatou, como ensina a doutrina bíblica. A nova aliança foi inaugurada, está aberta a todos, e todos os que fizeram a aliança terão as promessas de Jeremias 31, 33-34 e Hebreus 8, 10-12, e a circuncisão do coração e o novo coração da parte de Deus, como ensina Deuteronômio 30, 6 e Ezequiel 36, 26, sob a condição que guardem a fé. Jesus destruiu o império da morte, libertou os que estavam escravizados pelo medo da morte, entregando-se pelos pecado do povo (cf. Hebreus 2, 17), em geral, e não somente de alguns. A unidade inseparável da oblação e intercessão não foi provada por Owen pelos motivos bíblicos estabelecidos.

 Cristo comprou tudo pelo seu sangue (1 Pedro 1, 18-19). Owen argumenta que tudo o que é feito por Deus e por Cristo não serviria em nada se não fosse aplicado a nós. Se há em nós algum poder para acreditar, e o ato de fé procede desse poder, estaria em nosso poder fazer a morte de Cristo eficaz em nós ou não. Sendo a fé tão necessária para a salvação, a sua causa é a primeira e principal para a salvação. Cristo mereceu ou adquiriu a fé para nós ou não, foi a fé fruto e efeito da morte de Cristo ou não? Mas não apenas isso. Cristo adquiriu a fé para todos pelos quais morreu ou deu-lhes condição? Se sim, todos crerão, e se não, qual a condição? Eis o argumento.

A resposta já foi dada pelos inúmeros textos apresentados, onde a graça de Deus é para todos e a fé pode ser perdida. Assim, como a fé é um dom, Deus pode concedê-la, gratuitamente, e o fiel, mais cedo ou mais tarde, por pura má vontade, negar a fé e deixar de tê-la. Assim, a fé é um fruto da cruz, alcançado pelo pecador por meio da graça de Deus, e é um meio necessário para se chegar à salvação, a condição sine qua non para todos os que têm o uso suficiente da razão, pode ser usufruída por todos, e pode ser perdida caso não houver perseverança.

Mas, continua Owen, a fé é dada a todos os membros da aliança. Sim, aos que já fazem parte da aliança, pois muitos creem e logo voltam atrás, como aquele que é comparado a um terreno árido que não é propício para que a semente germine. Todos os membros da aliança recebem a fé.

De fato, não há condição para ter fé, já que se trata de um dom de Deus, mas a mesma é mostrada na Escritura como algo que pode ser concedido e perdido. Assim, não está em nossa vontade crer ou não crer, efetivar a obra de Cristo ou não, fazer algo puramente espiritual por nossa própria força (cf. 1 Coríntios 2, 14). Não se trata disso, mas há uma cooperação entre Deus e nós, não por que queremos, mas porque esse foi o plano de Deus em nosso favor. Dessa forma, a fé pode vir a nós, vasos de barro sujeitos a trincas e quebras, que devemos nos confiar somente em Deus para que possa levar-nos até o fim à glória do céu.

E, por isso, não somos causa da nossa salvação, uma vez que não podemos pensar por nós mesmo algo de bom, mas que todo bem nos vem de Deus, e o sacrifício de Cristo permanece em todo o esplender ainda que muitos pecadores o rejeitem.

Como não podemos crer por nossas próprias forças, a fé é um dom, preparado e infundido pela graça, após uma preparação pelos movimentos internos da graça que convidam o pecador a abrir-se livremente. Uma vez tendo a fé, é dever guardá-la (Jd 4, aqui a fé no sentido de sistema de doutrina, que nutre a fé em Cristo Salvador.) ou pode-se perdê-la. Essa parte está em nossa responsabilidade, mas sabemos que não podemos por si só tudo conseguir. Podemos tudo naquele que nos fortalece.

Se Cristo adquiriu a fé para todos na cruz, e todos não creem não significa que Cristo não tenha morrido por todos, mas que nem todos abrem-se à graça. Esse elemento é negado no sistema doutrinal de Owen, que não admite o livre-arbítrio, por entendê-lo mal.

A distinção de que algumas graças são garantidas e outras dependem de nós não é tão exato para explicar essa relação da graça com o livre-arbítrio. Todas as graças nos vem de Deus, não podemos fazer nada por nós mesmo. Se mim nada podeis fazer, diz o Senhor Jesus.

Que fomos eleitos em Cristo para a santidade, isso é uma verdade, e será eficaz e cumprida totalmente nos eleitos, que são livres para acolher a graça e perseverar. Não foi o decreto de Deus que determinou que seriam santos, mas o decreto de santidade foi preparado para os que se entregariam aos motivos da graça de Deus.

Pensar no chamado de Deus, Rm 8, 30, é também pensar na resposta do homem. Deus chama, e só após o acolhimento do chamado é que há a justificação. Na presciência tudo é explicado, por isso o texto o diz com clareza que a predestinação é baseada na presciência de Deus.

Eis que Owen apresenta vigorosa e sinteticamente a tese da eleição e reprovação pelos textos de Ef 1, 9; 1 Cor 4, 7; At 13, 48 e Rm 9, 7, onde Deus faz crer os que estão destinados à vida eterna, causando a diferentes entre os que não creem, cegando-os.

Em 1 Cor 4, 3 São Paulo afirma que o Senhor é quem o julga, e que receberemos no julgamento o louvor que merecemos (v. 5). O verso 7 exorta a não considerar os dons como se não tivéssemos recebido. Isso, portanto, não sugere que o Senhor dá o dom a uns para diferenciá-los e distingui-los de outros, como se desse o dom da fé a uns e deixasse outros na cegueira determinada pelo decreto de reprovação. Os eleitos são aqueles que aceitaram a graça e receberam o dom da perseverança, conseguindo através da graça maiores graças.

Que todos os bens da aliança são seus efeitos, fruto e compra da morte de Cristo não há o que negar. O problema é garantir que pela aplicação certa nos eleitos os demais ficaram fora do escopo de intenção da oblação da cruz.

A fé pertence às boas coisas da aliança (Jer. 31:33, 34; Heb. 8:10-12; Ezek. 36:25-27), e é imprescindível para a salvação. No entanto, deve-se considerar também o elemento mínimo exigido para a fé salvífica, como já exposto antes, que é crer na existência de Deus e no Seu poder de retribuir aos que O buscam, e no caso da resposta ao anúncio do evangelho, a fé em Cristo salvador e o batismo. Quem não crer, não pode ser batizado, e, portanto, já está condenado. De fato, aquele que já possuí a fé, em Deus, aceitará o evangelho e o batismo. Ser justificado aí não é garantia total da perseverança, mas já testifica do bem que flui da cruz de Cristo.

Cristo nos salva perfeitamente, mas se formos a ele, diz o texto de Hb 7, 25. A redenção eterna, Hb 9, 12, é aplicada sob a condição já apresentada. Entretanto, a fé está no rol dos dons adquirido para nós na cruz, pois Cristo é o autor da fé (Hb 12, 2).

O fruto e efeito adquirido e realizado pela morte de Cristo é concedido a todos, sob a condição de que creiam, e não há ensino de que terão fé todos pelos quais Cristo morreu, mas que somente os que crerão serão salvos. A obra da cruz é para todos, e a salvação efetiva para os que crerem.

O argumento do tipo ao antítipo restringiria a oblação de Cristo aos eleitos. Tal caso já foi refutado. Israel como tipo da Igreja. Correto. No entanto, nem todos os israelitas naturais foram eleitos, assim como nem todos os membros da Igreja são eleitos.

Em termos novos, espirituais, já profetizados e revelados no Novo Testamento, o Israel verdadeiro é aquele da promessa. Assim, somente os que creem serão salvos. No entanto, pelo já exposto antes, nem todos os que creem perseveram. O verdadeiro israelita é um verdadeiro crente (cf. João 1, 47), mas somente será salvo o que fizer a vontade do Pai, o que pratica a Lei (cf. Rm 2, 13), que pratica os mandamentos (Jo 19, 17). E a Escritura mostra que há os que desobedecem, não praticam a palavra, não fazem a vontade de Deus. Israel não era o tipo de todo o mundo, mas da Igreja, conforme Gl 6, 16. Assim, a Igreja visível é recipiente de todas as promessas. Somente os eleitos perseverarão. No entanto, mesmo os hereges e apóstatas foram comprados por Cristo, e negaram o Senhor que os resgatou e santificou.

Gledson Meireles.

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