terça-feira, 21 de abril de 2026

A Santificação do Domingo e o Sola Scriptura

A Santificação do Domingo

Entendendo o verdadeiro princípio Sola Scriptura

           

Para entender a observância do primeiro dia da semana, temos de recorrer ao significado do sábado, o sétimo dia. Vejamos um pouco o que diz o evangelho sobre o sábado.

 

Jesus observou o sábado perfeitamente

Em Mateus 12, 1-14 Jesus apresenta o espírito da observância sabática. Os discípulos colhem espigas de trigo para matar a fome. Jesus os apresenta como inocentes, e apresenta-Se a Si mesmo como Senhor do sábado. Após isso, Jesus foi à sinagoga e ensinou que é permitido fazer o bem no dia de sábado. Aí temos o espírito da nova lei na observância do dia do Senhor.

No evangelho de Marcos, 2, 23-28, o Senhor, que caminha pelos campos com seus discípulos, afirma que o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado (v. 27). Também, em Lucas 6, 1-5, Jesus mostra que é Senhor do sábado.

Assim, Jesus ensinou que o espírito da guarda sabática está em harmonia com a prática do bem, e que o sábado deve servir ao homem, para o seu repouso religioso.

Os fariseus ficavam perplexos quanto à posição de Jesus referente ao sábado. Afirmavam que não era permitido colher trigo, nem curar os doentes. Jesus se opôs a esses extremos. “Mas Jesus nunca profana a santidade desse dia”, afirma o Catecismo da Igreja Católica (n. 2173).

Há uma intenção de Jesus aos trazer atenção o tema do sábado. Cristo estava levando a lei à perfeição. Ensinou a verdadeira prática sabática, que deve servir ao homem, para o descanso, e para a prática do bem. Cumpriu a lei do sábado em sua perfeição.

 

A morte de Jesus na sexta-feira

“Os judeus temeram que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados” (João 19, 31).

Jesus morreu na sexta-feira e passou o sábado inteiro no sepulcro. É a forma implícita da Escritura de ensinar o cumprimento do sábado por Cristo.

 

A ressurreição no primeiro dia da semana e a reunião dos apóstolos

Jesus ressuscitou no domingo, o primeiro dia da semana (cf. Mt 28, 1-10; Mc 16, 1-10; Lc 24, 1-12 e Jo 20, 1-10).

Os discípulos estão reunidos na tarde de domingo, às portas fechadas, por medo dos judeus (Jo 20, 19).

Os dois discípulos de Emaús voltaram a Jerusalém, onde se acharam reunidos os Onze e os que com eles estavam (Lc 24, 33).

Também no domingo, oito dias depois, no mesmo lugar, os discípulos estavam reunidos (v. 26).

Nos Atos dos Apóstolos (20, 7), temos que: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite”.

Aqui os apóstolos estão reunidos no domingo para partir o pão. Ainda que o episódio tenha sido descrito para falar da ressureição de Êutico, é um testemunho de que os apóstolos se reuniam de forma especial para a celebração da eucaristia, e que nesse dia ocorriam milagres.

Em 1 Coríntios 16, 2 temos: “No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que tiver podido poupar, para que não esperem a minha chegada para fazer as coletas”.

“A coleta se fazia na reunião litúrgica dominical”, como explica a Bíblia de Estudos Ave Maria. A explicação para a coleta no primeiro dia é que esse era o dia em que os cristãos se reuniam para celebrar juntos a eucaristia.

 

Os apóstolos iam ao templo

Em Atos 2, 46 está escrito: “Unidos de coração, frequentavam todos os dias o templo...”. Isso significa que a prática dos judeus cristãos em relação ao judaísmo não havia mudado tanto. Assim, Pedro e João iam subindo ao templo para rezar à hora nona (Atos 3, 1).

No templo, os cristãos de origem judaica continuavam a rezar, a cumprir os preceitos que eram acostumados a guardar, e também anunciavam o Nome de Jesus. Eis uma diferença. Também, fora dos templos, nas casas, eles partiam o pão (cf. Atos 2, 46).

 

A fração do pão

Em 1 Coríntios 11, 20-34 temos a reunião dos cristãos em um lugar maior, sugerindo uma igreja, certamente uma casa dos mais abastados, onde todos podiam se reunir para celebrar a Eucaristia. São Paulo exorta-os a comer em casa (vv. 22.34), sugerindo que ali, naquele local escolhido, onde comporta grande número de pessoas, era o lugar para cear, comer do Corpo e do Sangue de Jesus.

Com isso, temos que a celebração da eucaristia era feita nas casas, com narrativas claras a respeito de reuniões feitas aos domingos, e que os apóstolos ainda iam ao templo.

Nenhuma observância do sábado pelos apóstolos

Em Atos 19, 8 lemos que São Paulo ensinava nas sinagogas: “Paulo entrou na sinagoga e falou com desassombro por três meses, disputando e persuadindo-os a cerca do Reino de Deus”.

No entanto, após a recusa dos judeus, ele passou a ensinar diariamente em outro lugar: “Mas, como alguns se endurecessem e não cressem, desacreditando a sua doutrina diante da multidão, apartou-se deles e reuniu à parte os discípulos, onde os ensinava diariamente na escola de um certo Tirano”.

A passagem é clara em mostrar que o objetivo de São Paulo em frequentar a sinagoga não era participar das suas reuniões na guarda do sábado como cristão, mas ali estava como judeu cristão anunciando o evangelho do Reino de Deus.

 

A santidade do domingo

Os adventistas do sétimo dia objetam que a ressurreição de Cristo e suas aparições, e mesmo as reuniões dos cristãos no domingo, não fariam do domingo um dia santificado. Por isso, rejeitam sua guarda.

No entanto, temos por certo que os apóstolos não ensinaram a guarda do domingo aos novos convertidos. Também é claro que nenhum apóstolo guardou o sábado como norma para os cristãos.

Desse modo, a preparação de Cristo ao ensinar sobre o sábado, a ressuscitar no domingo, a aparecer nesse dia e deixar inspiradas passagens na Bíblia sobre essas aparições, somadas às evidentes reuniões da Igreja para celebrar a eucaristia, que é uma ordem de Jesus, sugerem  que o dia de observância para a Igreja é o domingo e não o sábado.

 

Mandamento do domingo

Os objetores exigem um mandamento claro para a guarda do domingo. Não o encontrando, recusam-no.

Parece que o princípio que se encontra subentendido é que uma vez que não houve revogação clara de cada lei antiga, essas continuam em vigor. Do contrário, haveria mandamento da nova lei explicitamente escrito.

Como visto, porém, o caso do sábado e do domingo não é tão obscuro. Há nítida preocupação em preparar os cristãos quanto à verdadeira guarda do sábado. Depois, vemos a igreja observando o domingo para celebrar o principal mistério da fé, a morte e ressurreição de Jesus, ao partir o pão no primeiro dia da semana. Some-se a isso nenhuma guarda do sábado pelos apóstolos.

Toda doutrina está na Bíblia

De forma geral, está na Bíblia, implícita ou explícita, toda a doutrina salvífica. O cardeal James Gibbons, e outros, ao enfatizar a tradição, afirmaram que a Bíblia não contem toda as doutrinas necessárias para a salvação. Mas isso é apenas questão de ênfase, pois pelo contexto temos que isso se refere à coisas explícitas que podem ser facilmente apreensíveis pelo texto sagrado. Assim, o domingo não estaria nessa ordem, pois não há mandamento explícito. Dessa forma, é necessário um estudo, como o que se esboçou acima, para compreender que Cristo deixou aos apóstolos a guarda do domingo e isso aparece na Bíblia. A Igreja o ensina de modo claro.

 

Esse tipo de Sola Scriptura é insuficiente

A Bíblia não é nesse sentido a única regra de fé, pois necessita da interpretação legítima da Igreja e da comprovação da tradição para garantir aos fieis a veracidade da doutrina.

Houve tempo em que a Bíblia não estava completa. Assim, os primeiros cristãos aprenderam a doutrina sagrada por meio da pregação da Igreja. E mais. Nem todos eram, ou são, capazes de ler a Bíblia por si mesmos, necessitando da pregação oral.

A Bíblia contem passagens difíceis. Dirão os protestantes que essas não são difíceis ou obscuras no que se refere à salvação. Mas São Pedro (cf. 1 Pedro 3, 16) afirma que as passagens difíceis que alguns mal interpretação servem para a perdição deles. Desse modo, os erros de interpretação afetam a salvação.

A Bíblia também, se fosse única regra de fé, deveria satisfazer a todas as questões de fé e moral e modo a não necessitar da intervenção e intermediação de ninguém. Mas a pregação e autoridade da Igreja são necessárias. Portanto, esse Sola Scriptura não pode estar correto.

Com isso, o cardeal Gibbons provou que a Igreja é regra de fé para a pregação da verdade de salvação. Ela está ao alcance de todos, é clara e pode esclarecer a todos os fieis, é capaz de satisfazer em todas as questões relativas à fé e à moral, pois em seu depósito interpreta na Bíblia e tradição apostólica ensinando toda a verdade.

 

Mas somente através da Bíblia temos acesso ao que foi ensinado por Cristo

De fato. Contudo, uma vez interpretando-a mal, não há como compreender o que foi verdadeiramente ensinado por Cristo. É preciso ter exata compreensão e certeza da doutrina. E a Bíblia ensina que há coisas na Escritura que são difíceis (cf. 1 Pedro 3, 16), que a Escritura não é de interpretação particular (1 Pedro 1, 20) e que é necessário guardar as tradições (1 Ts 2, 14-15). Assim, temos que, por meio da Bíblia, estabelece-se a Tradição e o Magistério da Igreja. Temos, portanto, o correto princípio Sola Scriptura.

Gledson Meireles.

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