sexta-feira, 10 de março de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma, sobre as almas debaixo do altar

Refutação: As almas debaixo do altar 

A visão do Apocalipse 6, 9, onde as almas estão debaixo do altar, conscientes, e recebem vestes brancas, é problemática para o mortalismo, ainda que se trate de texto simbólico.

É uma passagem que demonstra a imortalidade da alma, e, caso se negue a existência da alma, deve-se fazer o maior esforço para explica-la. De certa forma, é inverter o sentido e fazer esforço para explicar algo que antes era simples.

De fato, toda a cena é uma simbologia, mas é um fato de que a visão descreve almas dos mortos que estão clamando por justiça e recebendo vestes. Isso é muito curioso, de forma a ser um texto dificílimo para o mortalismo explicar.

Mas então, para o mortalismo, o que significa a realidade espiritual concreta para essa cena do Ap 6, 9, já que essa doutrina ensina que as almas dos mortos não existem?

Um argumento seria que as almas não poderiam falar, assim como não falam os trovões e o altar (cf. Ap 10, 3; 16, 7), pois tudo é simbólico. Contudo, a hermenêutica ensina que um texto deve ser lido no seu sentido simples, a menos que o contexto exiga algo diverso. Sendo que as pessoas podem falar, suas almas logicamente também podem. Assim, não há necessidade de introduzir outro significado para o fato de que as almas estão falando.

Pelo contrário, quando se diz que o altar falou, isso deve indicar algo diverso, pois altares, que são coisas inanimadas, não falam, pois é algo patentemente claro que um altar não pode comunicar-se falando como pessoa. Então é natural que esse pormenor do texto é simbólico.  Afirma-se, no mortalismo, que os mortos salvos estão purificados, mas se não existem, porque aparecem ali, antes da ressurreição? Não se simboliza algo que não existe.

O autor fala de hermenêutica, das suas regras mais básicas. Contudo, para pensar que as almas falam e estão conscientes, não há nenhuma regra sendo quebrada. É apenas a leitura simples do texto, que harmoniza-se com a doutrina da imortalidade da alma perfeitamente. E que nega o mortalismo frontalmente.

De fato, os termos empregados no Apocalipse afirmando que os mártires estão pedindo por justiça debaixo do altar de Deus, e que receberam vestes brancas para descansarem um pouco mais até que a justiça de Deus se cumpra, era uma grande esperança para toda a Igreja que sofria perseguições naqueles dias. Sim, a justiça de Deus virá. Mas, o que os mártires já ganham no presente momento nessa história toda? Pelo ponto de vista do mortalismo, eles não recebem nada ainda, apenas há a promessa garantida. Então, toda a cena se enfraquece.

Na verdade, a visão não parece em nada como se os cristãos fossem mortalistas e não cressem em almas. Pelo contrário. O texto simbólico não requer nenhuma literalidade, mas indica que os mártires estão em paz, que seu pedido foi aceito, que estão em repouso aguardando o dia em que verão a justiça divina contra os maus. No entanto, esses símbolos não são tão difíceis assim.

De fato, isso concorda com o fato de que os mortos estão com Cristo (cf. Fl 1, 23), e que estar longe do corpo é estar com Cristo na morte (cf. 2 Cor 5, 8). Por isso, a passagem de Ap 6, 9 não está sozinha para provar a imortalidade da alma. Os mortos estão com Cristo, e a veste branca que recebem simboliza essa vitória já antecipada, algo que já consola antes da ressurreição e do juízo final.

Mesmo o texto de Ap 14, 13 significa que há algo diferente para os mortos a partir de Cristo, que morrem no Senhor, pois descansam e suas obras os acompanham.

Se os mortos não existissem, que diferença haveria nesse descanso, já que os ímpios também estariam figuradamente descansando, já que na realidade, por enquanto, os mortos nem salvos nem ímpios existiriam mais.

Diante disso, então, o Ap 14, 13 significa que noi Antigo Testamento os mortos experimentavam outro estado na morte, pois afirma que “de agora em diante” os mortos são bem-aventurados. Eles experimentam a bem-aventurança. Só a imortalidade da alma torna isso capaz. Assim, basta verificar que Ap 6, 9 diz que os mártires gritavam, mas a cena não para aí, já que eles foram atendidos ali na recepção das vestes e na mensagem de que poderiam descansar.

Isso desfaz toda a argumentação sobre o suposto “barulho” que essas almas estariam fazendo quando se explica a realidade da imortalidade da alma. Isso não é o que o texto implica, pois o mesmo diz que eles agora descansam vestidos de branco, na glória celestial.

Para o mortalismo é que o problema fica mais sério, já que esse novo estado das almas “de agora em diante” no Novo Testamento, e o poder estar vestido de vestes brancas até o dia em que Deus irá julgar a humanidade, são coisas que para o mortalismo não poderiam ser experimentadas pelas almas, pois nessa doutrina elas não existem, estão inconscientes por não existirem, não podem ser felizes nem receber nada no período intermediário, mas somente na ressureição. Porém, o texto aponta para o período entre a morte e a ressurreição no céu, o que faz a doutrina mortalista ruir.

Aquela cena do Apocalipse significa que os mortos estão na paz de Cristo (descanso das obras, vestes brancas) e que a justiça de Deus contra os injustos está garantida.

As almas estão debaixo do altar do sacrífico, como o sangue das vítimas, sugerindo a “morte não-natural dos mártires”, como está na citação do Dr. Bacchiocchi. Mas isso encontra um obstáculo ainda na visão mortalista. Basta pensar. São João não viu sangue, mas almas conscientes que vestiram roupas. Então, viu a forma dos corpos, as pessoas mortas ali, os mártires recebendo a graça da salvação para descansarem em Cristo.

Deus não se esqueceu dos mártires e irá vingar o seu sangue. Isso pode ser concebido tanto na doutrina mortalista, quanto na doutrina tradicional imortalista. Porém, os mártires recebem vestes. O que isso faz de diferente quando se tem em mente que na morte não haveria ser, mas a extinção completa do mesmo? Portanto, essa realidade só faz sentido se as almas já experimentam a glória e a presença de Deus e de Cristo.

São João não viu o sangue dos mártires, mas suas almas. A simbologia é praticamente a mesma, mas sua visão foi plena de significado de que existe alma imortal, fora do corpo, no céu, após a morte. É essa a implicação da cena inteira, simbólica por sinal, mas que implica consciência e existência para que possam receber algo de Deus.

A interpretação que o mortalismo apresenta é interessante. A cena de Ap 6, 9 seria o clamor de Israel pelo sangue daqueles que morreram. Então, Deus estaria respondendo aos vivos como se tivesse Se dirigindo aos mortos. A cena simbólica não teria nada a ver com alma debaixo do altar como espíritos que apareceram a São João.

Contudo, a explicação para “ὑποκάτω” (debaixo) não foi satisfatória. De fato, não pode ser que esse termo signifique sempre debaixo da terra, pois a expressão é “ὑποκάτω τοῦ θυσιαστηρίου” (debaixo do altar), diferentemente de Ap 5, 13 que diz: “ὑποκάτω  τῆς γῆς” (debaixo da terra).

Ademais, Ap 6, 9 afirma que São João “viu” as almas daqueles que foram mortos. Foi uma cena vista pelo apóstolo, onde as almas estavam ali, debaixo do altar, gritando, e que ouviram uma mensagem e receberam vestes brancas. Tudo conforme a visão, e não apenas uma mensagem que simbolicamente significa que Israel clamou a Deus e Deus respondeu que fará justiça contra os que mataram Seus servos. Essa explicação não tem a cena em consideração. Deus não falou aos vivos em relação aos mortos, mas a mensagem fois dada diretamente aos mortos.

Assim como ele viu cavaleiros, espada, a morte personificada, a morada dos mortos, etc, trazendo com isso uma mensagem, assim também viu as almas ali sob o altar, o que também possui sua mensagem própria.

O altar fala em Ap 16, 4-7 porque traz o apelo dos mártires, simbolicamente. Pode-se entender que, como o altar não fala, a voz seria a dos mártires.

No entanto, a cena dos mártires sendo vistos em suas almas é o fato em si que prova a existência das almas após a morte, assim como a visão dos anjos com vestes e coroas e etc., que é claramente simbólica, mas prova categoricamente que eles existem, ainda que estejam entre visões de animais, personificação da morte, da morada dos mortos acompanhando cavaleiros, de trovões que falam, etc.

Se existem outras coisas que são personificações, que em si são inanimadas e não existem como ser, a exemplo da morte, isso não prova que os demais elementos que compõem a visão também não existam, pois os anjos estão em toda a cena e se referem à realidade da existência dos anjos. Assim como os anjos em símbolos reportam aos anjos literais, as almas dos mortos em símbolo significam literalmente as almas dos mortos. Nenhum desses casos nega que anjos existam, assim como não interfere na existência da almas imortais que aparecem nesses símbolos apocalípticos.

Afirmar que a visão de Ap 6, 9-11 não foi literal não explica o fato, já que São João viu as almas falando, assim como Ap 20, 4 ele viu as almas que voltaram a viver. Essa expressão pode também significar que as almas voltaram ao corpo, à vida física, pois em si as almas não morrem.

Se em Ap 6 as almas dos mortos falavam e recebiam ação em seu favor, enquanto estavam no estado de morte, agora elas voltam a viver, voltam ao corpo para a vida física. Tudo conforme a imortalidade da alma, e não de acordo com o mortalismo.

O argumento é que esse texto é o único em que “uma alma falecida é apresentada com vida em algum lugar”. De fato não é bem assim. Entretanto, tudo isso está conforme a teologia bíblica. Basta lembrar que a parábola do rico e Lázaro fala de ambos os mortos em seu estado espiritual, como almas, pois mostra que tudo está se passando entre a morte e a ressurreição, o que está conforme a imortalidade da alma, e de acordo com a cena de Ap 6, 9-11. Já são duas passagens estudadas que estão conforme o imortalismo.

Para liquidar totalmente com o argumento mortalista, vamos reafirmar em outras palavras a argumentação bíblica sobre a cena.

É preciso notar que todos os sinais e símbolos do Apocalipse foram vistos e ouvidos por São João. Jesus aparece como Filho do Homem, vestido de linho, com cabelos brancos, etc., uma visão essa que faz o apóstolo cair como morto (cf. Ap 1, 12-16).

Também ele viu um cordeiro como que imolado. De fato, a visão foi do animal, parecendo que estava morto, mas de pé. Esse cordeiro significa Jesus, mas a figura do cordeiro foi vista. Isso porque Jesus é o Cordeiro de Deus.

Da mesma forma, a morte foi vista, em algum símbolo, como se fosse pessoa, certamente, mas o fato é que significa o estado de morte, que é algo real, pois a morte em si não se pode ver, mas apenas os seres mortos.

Assim, quando São João vê almas dos mortos, a cena é irrefutável, e destrói o mortalismo, visto que é possível ver almas dos que morreram, mostrando que há dualidade na natureza humana, pois o apóstolo não viu os que haviam morrido como vivos e ressuscitados, mas como almas fora do corpo que estavam conscientes, falavam, ouviam e agiam e podiam ser vestidas. Isso implica que a visão fundamenta-se na dualidade corpo e alma, onde as almas apareceram na visão. E a existência da alma no ser humano não é encontrada apenas nessa cena, mas é encontrada em muitas passagens bíblicas.

Caso não existisse alma imortal, como afirma o mortalismo, que não concebe a alma separada do corpo, a cena seria impossível, ou seria estranha. Como o apóstolo entenderia e explicaria a figura de almas dos mortos se essa concepção não existisse entre os cristãos?

Mais ainda. Se a veste branca é símbolo da vitória, e mesmo da ressurreição, como está em Apocalipse 3, 5, cada uma das almas ao receber as vestes brancas teria com isso a promessa de que já participam daquela glória de andar com Cristo, antes mesmo da ressureição, pois a passagem é clara que eles devem esperar e descansar ainda. Essa esperança alimente os cristãos vivos, mas seria inócua para os mortos, se não existissem os mortos que recebem vestes.

É muito importante notar que as vestes brancas chegam aos mortos, às almas dos mortos, antes do dia final, no estado intermediário, antes da ressurreição, o que indica que de fato estão no céu. Esse ato espiritual que ocorre aos mortos no estado intermediário seria vazio se os mortos não existissem.

Assim, a visão não é de sangue, nem de mortos no cemitério com vestes brancas nos túmulos, pois para isso dever-se-ia falar da ressurreição dos mártires na visão, fazendo-os receber as vestes e voltar ao túmulo, o que é absurdo e não tem a ver com a cena em questão. Isso seria uma implicação do mortalismo para explicar a visão. Não que o mortalismo afirme isso, mas diante das suas explicações surge essa implicação errônea.

Então, vestir-se de vestes brancas, de linho finíssimo e resplandecente (cf. Ap 19, 8) é existir, pois se os mortos caem na inexistência seria impossível que os mortos recebessem qualquer boa ação de Deus, e então não experimentariam nada.

Quando Cristo afirma que os que vencerem andarão com Ele vestidos de branco (cf. Ap 3, 4-5), isso prova que as almas já podem participar dessa promessa (cf. Ap 6, 9-11). Os mortos estão puros, sendo essa sua condição espiritual.

Poderíamos usar uma exemplificação a mais para entender essa passagem contra a intepretação mortalista. De fato, cada figura que o apóstolo são João viu representa uma realidade e, na maioria das vezes, o símbolo é a própria realidade.

De fato, em Ap 6, 8 aparecem um cavalo esverdeado com um cavaleiro que “tinha por nome Morte”. Quem era então o cavaleiro? A morte. Desse modo, o símbolo visto em forma de pessoa, e que tinha por nome morte, significava o poder da morte, aquilo que representa o fim da vida do ser humano na terra, esse poder maléfico que atinge o pecador.

Ainda, foi vista “a região dos mortos”, que seguia o cavaleiro. Essa região dos mortos vista em símbolo significa de fato o lugar onde estão os mortos. Isso pode ser a região física, o cemitério, e o lugar espiritual, o sheol, que aqui é simbolizada por uma imagem que aparece como a região dos mortos. Essa região chama-se “ᾅδης” (Hades) em grego. Então, a imagem do Hades que aparece a São João significa o Hades, a região dos mortos.

 

Assim, as almas que foram vistas sob o altar simbolizam verdadeiramente as almas dos mártires, e nada mais.

Símbolo

Significado

Cavaleiro Morte

A Morte

Hades

Hades

Almas dos mártires

Almas dos mártires

 

A morte e o Hades foram figurados para indicar a realidade dessas coisas inanimadas, mas as almas não, já que a alma é a vida do ser humano, e não algo inanimado. De fato, como os anjos, que significam anjos, as almas simbolizam as almas. Muito simples.

De maneira interessante, cada coisa invisível pôde ser vista pelo apóstolo: a morte, o Hades, as almas. A morte, esse poder mortal invisível foi visualizado. Também o lugar que detém os mortos apareceu ao apóstolo. E as almas dos mortos também foram vistas, simbolizando as almas de todos os mártires.

Podemos dizer, finalmente, que tudo o que foi visto aí tem a sua existência real no mundo: o fato da morte, o lugar dos mortos, as almas dos falecidos. Não há como negar que cada símbolo está ligado à sua realidade sem que tenha que fazer qualquer esforço para entender a visão.

No entanto, o mortalismo afirma que os mortos não existem. Se assim fosse, como o mortalismo ensina, a cena perderia toda a possiblidade e o sentido também seria afetado. É preciso aceitar que a verdade espiritual ensinada na cena parte da própria cena que foi vista pelo apóstolo São João, como explicado acima, e que fundamenta a dualidade da natureza humana, demonstrando a existência das almas imortais.

Gledson Meireles.

quinta-feira, 9 de março de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma, sobre a alma material

Refutação sobre o tópico: a alma material

Alma material

A ideia de que a alma na Bíblia tem também sentido material não significa que todas as vezes que a Bíblia usa a palavra alma ela tem esse significado. A alma é o eu, é a pessoa, é a vida, é o princípio de vida, é o espírito imortal. Esse último o mortalismo não consegue refutar. 

Assim como a alma nesses textos citados (Nm 19, 22; Lv 22, 6; 7, 21; Sl 105, 18, etc.) no respectivo tópico pode ser morta, destruída, tocada, e sofrer fisicamente, pois tem o sentido de pessoa, o que é conhecido por quem estuda a Escritura Sagrada, também em outras passagens, como o famoso e irrefutável texto de Mateus 10, 28, a palavra alma não pode ser atingida fisicamente. Portanto, esse tópico não prova que sempre a alma tem sentido material, não exclui que também tenha o sentido de parte imaterial e imortal do ser humano.

Gledson Meireles.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma: autores que adotam a visão mortalista

Como o livro mortalista é protestante, é normal e esperado que toda a argumentação aconteça no interior do Protestantismo, com a teologia protestante em consideração. Por isso, a presente refutação lembra esse fato quando necessário, e mostra ser uma resposta católica às argumentações do livro a respeito do tema, o que tem se mostrado poderoso e irrefutável cada vez que um argumento é analisado.

O autor traz citações de muitos teólogos sobre o tema, que dizem não haver vida fora do corpo no Antigo Testamento. É algo que não é corroborado pela teologia católica, ainda que apareça qualquer teólogo católico tentando defender essa opinião, já que os estudos bíblicos mostram que ela não pode resistir ao escrutínio, como o que está sendo realizado nessa refutação.

Segundo a teologia católica, como mostrado em cada refutação, a mesma doutrina do Antigo Testamento continua no Novo Testamento sobre a imortalidade da alma. No entanto, no Novo Testamento há textos mais claros, um desenvolvimento é percebido, assim também quanto ao tema da ressurreição. Portanto, para o católico é algo pacífico que a doutrina bíblica é sempre a mesma.

No livro há diversas citações, a maioria de autores protestantes, e algumas até de eruditos católicos, terminando com a Nova Enciclopédia Católica, para mostrar que a ala acadêmica tem um consenso de que o Antigo Testamento ensina que não há distinção corpo e alma, mas que o ser humano é expresso a partir de vários aspectos do seu ser.

Para melhor elaborar a questão e reforçar a doutrina de que a alma é imortal, como está sendo mostrado biblicamente ao escrutinar cada argumento, segue um resumo do que ensina a Enciclopédia Católica.

Primeiro, é importante notar que a imortalidade da alma está ligada à esperança da vida futura. Isso mostra que a ressurreição já pressupõe a alma imortal. A definição de alma é valiosa aqui, é significa que a alma é o princípio interno último pelo qual pensamos, sentimos e queremos e pelo qual o nosso corpo é animado, resumindo o que traz a enciclopédia.

O termo mente é o sujeito dos nossos estados conscientes e a alma também é a fonte da vida vegetativa. É bastante profundo esse conceito. Assim, a vida procede desse princípio que é capaz de subsistir por si mesmo, que á a alma em sua espiritualidade, não como algo corpóreo, perecível.

Interessante a informação de que na Grécia, nos tempos primitivos, em Homero, a alma é vista como “mera sombra, incapaz de vida energética”. Muitas teorias tentavam explicar a alma. Mesmo Platão, em Timeu, nega a imortalidade intrínseca da alma. Na doutrina estóica, com várias opiniões, há também a ideia mortalista de que a alma material chega ao fim com o corpo.

Falando da psicologia rabínica, afirma-se que três termos denotam a alma, sendo nephesh, ruah e neshamah. O primeiro tem a ver com a natureza animal e vegetal, o segundo com o princípio ético e o terceiro com a inteligência espiritual. E, após isso, afirma a enciclopédia que o Antigo Testamente afirma ou implica a existência da alma O cristianismo, então, trouxe contribuição explicando essa realidade. Portanto, o ensino da imortalidade da alma está na Bíblia, desde o Antigo Testamento, e seus desenvolvimentos possuem total fundamento bíblico.

Tudo isso já mostra que o sheol não é sepultura, que a alma não é apenas pessoa, o eu, ou algo somente material, e que o espírito não é apenas respiração, e finalmente que o deixar de existir não é aniquilar o ser, mas deixar de existir na terra, explicações que o livro mortalista tenta fundamentar com muita dificuldade quando se confrontam com os argumentos bíblicos profundos.

Gledson Meireles.

domingo, 5 de março de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma: sobre a essência do ser humano ser pó e cinzas

Será que o ser humano é essencialmente pó e cinzas? 

Diferentemente de Deus e dos anjos, o ser humano é formado da terra, mortal, e portanto volta ao pó da terra, é pó e cinzas. Isso não afeta em nada a doutrina da imortalidade da alma, já que se refere à separação da alma e do corpo, o que não acontece com Deus e com os anjos.

A doutrina católica não ensina que o homem é uma alma imortal presa em um corpo mortal, pois isso é doutrina grega, da filosofia platônica, e não a doutrina cristã. A doutrina católica ensina que o homem é formado de corpo e alma, uma única natureza, mas que é possível a separação dessas duas partes, constituindo a morte.

O que ocorre no Salmo 119, 25 onde a alma está apegada ao pó e no Salmo 7,5 onde, segundo o livro mortalista a alma é sinônimo de de vida e pó nessa passagem, o que não parece estar correto, já que o paralelismo é alma, vida e honra. Por isso, é dito que a honra, algo imaterial, que é concebível apenas no pensamento, já que não se pode ver a honra em si e nem manuseá-la, a honra é lançada no pó. Uma linguagem metafórica que não diz nada contra a imortalidade da alma, mas apenas diz da mortalidade e fraqueza humana.

Pegar a alma, jogar a vida na terra, e a honra no pó, é a ideia do Salmo 7,5. O livro mortalista frisou erradamente alma, vida é pó, quando deveria ver alma, vida e honra que são pegas e lançadas no pó. Tomar a alma, ação relacionada à alma, ou seja, à vida da pessoa, pisar a vida, outra ação contra a vida, lançar a honra no pó, uma ação contra a honra, tudo indicando a ação contra a pessoa em diferentes ângulos. Nada que beire a negar a imortalidade da alma.

 O argumento mortalista usou o verbo hebraico dabaq no verso 25 do Salmo 119 no intuito de ensinar que a alma é ligada à terra assim como o corpo, supondo materialidade da alma também. Mas eis que o mesmo verso no Salmo 63, 8 afirma que a alma está ligada ao Senhor, unida a Deus (דָּבְקָ֣ה  נַפְשִׁ֣י – dabeqah napsi), o que já poderia supor sua espiritualidade. Não são as passagens próprias para tratar de explicar a essência da alma, mas apenas para mostrar que não se pode apegar-se muito a certos trechos para criar argumentos que podem trazer esses problemas.

 Essa passagem do Salmo 63, 8 apenas significa que “eu estou” unido ao Senhor: “Minha alma está unida a vós, sustenta-me a vossa destra”, ou seja, eu estou unido a Vós, sustenta-me a vossa destra”, o que pode ser percebido no paralelismo no verso, onde alma equivale e eu(me), ou seja, a união da alma a Deus está dizendo do sustento que Deus dá ao servo. Nada aqui fala contra a imortalidade da alma, mas apenas uma passagem onde o verso usa o termo alma no sentido de pessoa, o que mostra que assim pode-se perceber o perigo de vida da pessoa, como no Sl 119, 25, que pode unir a alma ao pó, como também na relação espiritual com Deus, que pode unir a alma ao Senhor.

Gledson Meireles.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma, sobre 2 Cor 12, 1-4.

 A respeito do tópico: estar fora do corpo.

Na concepção mortalista, onde não existe dualidade, mas o ser humano é entendido como fundamentalmente um ser holista, no qual cada parte, material e espiritual, é apenas aspecto do ser e não algo que se separe, que possa ser separada. Com isso, o significado de “fora do corpo” seria apenas o da imaginação ou de uma experiência ocorrida “no corpo” mas onde se vê algo como se fosse do corpo, distante.

Assim, o arrebatamento de São Paulo ao céu teria sido material, onde o apóstolo foi de fato levado em corpo e alma ao céu, ou teria sido apenas uma experiência mística, onde o mesmo viu coisas do céu em espírito, estando na terra, pois não poderia nunca “sair” e estar “fora” do corpo, já que no monismo holista defendido no livro essa possibilidade não existe. Do contrário, afirma o autor, conceber que algo seja possível fora do corpo seria explicar o texto na perspectiva platônica, onde almas saem do corpo, e que na concepção bíblica isso seria impossível.

Dessa forma, afirma: “Por «fora do corpo», os imortalistas entendem que Paulo só podia estar falando da sua alma ou espírito que teria abandonado o corpo e se projetado em outra dimensão (algo que os espíritas e adeptos da Nova Era chamam de “projeção astral”). Mas isso é o que os imortalistas imaginam partindo do pressuposto do dualismo entre corpo e alma, não o que o apóstolo tinha em mente.

Mas, o mortalismo explica a expressão “fora do corpo” em 2 Cor 12, 2-4 afirmando que o contexto não indica a imortalidade da alma, mas que deve ser entendido como são os textos que falam de “fora do corpo” em 1 Cor 6, 18, ou “fora de si” em Mc 3, 21, ou “em espírito” em 1 Cor 5, 4.

Se o texto grego aqui for de valor para o mortalista, saiba que ele serve para fortalecer o argumento da imortalidade da alma. Pois bem, o texto de 1 Cor 6, 18 foi citado para explicar a expressão “fora do corpo”: “Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra o seu próprio corpo”. Aqui vemos que o próprio contexto explica que o pecado é “fora do corpo” no sentido de que é cometido contra algo que não está no corpo, mas está no mundo, fora do corpo.

Assim, a impureza, a porneia, a fornicação, é cometida “contra” o próprio corpo. O grego traz a partícula “eis”, que significa que o pecado é feito “ao” corpo, para o corpo, portanto, contra o corpo.

Dessa forma, o próprio corpo sofre com o pecado descrito acima, enquanto que os demais pecados são feitos em relação a outras coisas.

Vejamos agora que o texto grego diz: “ἐκτὸς τοῦ σώματός”, traduzido literalmente como “fora do corpo”. Textos como Mateus 23, 26 traz o termo ektos para falar do que está fora do prato. Em Atos 26, 22 o termo tem o sendo de “senão”, e em 1 Cor 14, 5 significa “exceto”. Portanto, ektos tou somatos e algo exterior ao corpo. Isso confirma o que está no contexto acima explicado.

Mas, eis que em 2 Cor 12, 4, a expressão usada é “χωρὶς τοῦ σώματος”, onde o termo “choris” traduzido por “fora” significa “sem”. Assim é que em Mateus 13, 24 diz que Jesus não fala sem parábolas. Em Mateus 14, 21 choris significa além: cinco mil homens, além das mulheres ou seja, sem contar as mulheres. Em Lucas 6, 49 a expressão “sem fundamento” é expressa com o termo choris.

Portanto, quando São Paulo afirma que não sabe se estava no corpo ou fora do corpo, o sentido mais literal foi que não sabia se estava no corpo ou sem o corpo, o que torna a doutrina da imortalidade da alma mais expressiva para explicar a passagem. Na concepção do apóstolo, é possível experimentar espiritualmente algo sem o corpo.

Porém, há o argumento de que se Paulo estivesse fora do corpo e “jamais teria dúvida” disso. Isso seria algo impossível de não ser notado. Então, São Paulo não sabia se estava no céu fisicamente ou apenas houve um êxtase, onde seus sentidos foram arrebatados, como em Atos 11, 15.

Essa explicação é plausível, é possui em si certa força. Assim, parece um ponto em que é possível explicar sem a doutrina da imortalidade da alma, mas o leitor pode perceber que nela não há nada contra a imortalidade da alma. Pelo contrário, há algo que se explica perfeitamente também pela doutrina da imortalidade da alma. Portanto, pode ser uma passagem neutra nessa discussão. E pelo que foi explicado acima usando o contexto e o texto grego, a posição mortalista se enfraquece ainda mais.

Agora, vejamos explicação que temos do texto citado de Atos 11, 5 com o fundamento da doutrina da imortalidade da alma. Vemos que São Pedro afirma que foi “arrebatado em espírito” e que teve “uma visão” onde algo como uma grande toalha “descia do céu até perto de mim”, diz o apóstolo. Isso significa que ele tinha completa certeza de que estava tendo uma visão do céu, onde um elemento vinha do céu até perto dele.

O verso 8 afirma que ele ouviu a voz que vinha “do céu” e que depois que tudo “tornou a ser levado ao céu” (v. 10). Portanto ele sabia que estava na terra, e que tudo foi um êxtase.

Isso é completamente diferente do que aconteceu com São Paulo, pois ele afirma que foi “arrebatado até o terceiro céu”, ou seja, que esse home foi até o terceiro céu e lá viu coisas impossíveis de serem descritas pela linguagem humana. Houve então um transporte dele até o céu e não um arrebatamento dos sentidos. Não foi nada que veio do céu até ele, mas que ele foi ao céu.

A dúvida então fica no seguinte: se no corpo ou fora do corpo, ou como vimos, se no corpo ou sem o corpo.  Essa expressão aparece duas vezes no verso 2 e 3. Da mesma forma, o fato do arrebatamento ao céu aparece no verso 2 como “arrebatado ao terceiro céu” e no verso 4 como “arrebatado ao paraíso”, afirmando que “ouviu palavras inefáveis”. Portanto, de alguma forma é dito que houve arrebatamento da pessoa mostrando que a mesma esteve lá, só não sabendo como isso foi realizado.

De fato, foram visões e revelações do Senhor (1 Cor 12, 1), mas o apóstolo cede à dúvida se isso foi no corpo ou fora dele, o que é bastante curioso. Ele não estava na terra tendo visão do céu, mas sentiu-se no próprio céu.

Caso não existisse nada possível fora do corpo, apenas o êxtase, como afirma o monismo holista defendido no livro, o apóstolo diria que não sabia se foi ao céu fisicamente ou se teve apenas uma visão do céu. Mas, caso algo fora do corpo seja possível, então o mesmo sabe que esteve no terceiro céu, não sabendo apenas se estava fisicamente lá ou em espírito, ainda que vivo. Esse modo de estar em algum lugar sem o corpo é algo sobrenatural.

A dúvida se explica por ter sido uma experiência muito real, de forma que ele não sabia se estava lá fisicamente ou não. Em um êxtase ele não estaria no terceiro céu, mas apenas estaria vendo coisas do terceiro céu. Essa é a força da interpretação tradicional, já que o apóstolo afirma ter estado no céu, que foi até (ἕως) o terceiro céu.

Tudo converge para a interpretação tradicional, e ainda que a explicação de que foi apenas um “êxtase” seja plausível, ela cria problemas, como foi mostrado, e mostra-se mais fraca.

Gledson Meireles.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma. Tópicos sobre cessação da existência e conceito de morte.

Cessação da existência

É verdade que os ímpios serão “destruídos”, mas apenas no sentido de condenados, não significando que deixarão de existir.

Deixam de existir na terra, enquanto os salvos duram para sempre. Eis que os ímpios não habitarão a nova terra, mas somente os salvos. Os condenados estarão no lago de fogo, o inferno, espiritual, que não estará na nova criação.

Mas, os salvos irão para o céu, e também habitarão a terra. Por isso o Apocalipse afirma que a Nova Jerusalém é a esposa do Cordeiro. Assim, temos que essa é a Igreja celestial. Portanto, a Igreja é simbolizada pela Cidade Santa de Jerusalém. Ela desce para a terra, tendo Deus com Ela. Isso não pode significar que os salvos irão habitar somente a terra, pois também significaria que Deus iria para sempre habitar a terra, esvaziando por completo o céu.

Por isso, Jesus ensinou que dos pobres em espírito é o Reino dos Céus e os mansos possuirão a terra (cf. Mateus 5, 1-8). Assim, temos que os salvos possuem o Reino dos Céus e também a terra. Magnífico. Viveremos para sempre com Deus no céu, mas também teremos a terra como nossa, podendo usufruir de todo bem que Deus nela criou.

Contudo, as Escrituras usam palavras fortes que denotam inexistência, aniquilamento dos ímpios, afirmando que deixam de existir, como o citado Sl 104, 35. Mas isso tem a ver com a existência na terra, e também na nova terra.

Uma explicação para a frase “como se nunca tivessem existido” talvez seja o sentido adquirido da perspectiva dos salvos, pois os ímpios serão como se nunca tivessem existido, não estarão no céu, e também não estarão na terra. Por isso diz o texto de Isaías citado: “Ainda que você procure os seus inimigos, você não os encontrará.

 

Morte na Bíblia significa “separação”?

Para o mortalismo a morte eterna é igual à morte física porque morte significa fim da existência. Assim, todos os que morrem caem na inexistência. A primeira morte e a segunda morte é igual em natureza na perspectiva mortalista. A diferença estaria na duração, na qual a primeira morte é desfeita na ressurreição e onde a segunda morte não tem fim.

Mas a Escritura afirma que a segunda morte é o lago de fogo e enxofre. Isso é curioso, porque a primeira morte não é outra coisa que o fim da vida física. Então, a segunda morte é algo espiritual, uma condenação, um lago de fogo e enxofre, o inferno.

Por isso, a segunda morte não é separação da alma e do corpo, pois a Bíblia afirma que a segunda morte é o lago de fogo e enxofre.

A morte dos animais é a separação da alma e do corpo, no sentido de que o princípio vital dos animais sai do corpo e perece, desaparecendo, caindo em inexistência. O ser humano possui algo diverso, por isso o livro do Eclesiastes sugere que o espírito do homem sobe a Deus, enquanto que o dos animais desce à terra.

Se o espírito aqui fosse apenas a energia vital que torna todos vivos, então seria que essa energia retornaria a Deus também. Mas, em algum sentido, Deus toma o espírito do homem para que o ressuscite no último dia, enquanto que isso não é feito com relação aos animais. Assim, Deus não guarda essa força vital que reunirá a alma e o corpo dos seres humanos. Dessa forma, os animais caem em inexistência.

O que Ecl 3, 19-20 está afirmando é que os animais e os homens morrem igualmente e sofrem a corrupção voltando ao pó, da mesma forma. Também, afirma que o espírito que vivifica ambos é o mesmo, ou seja, essa força vital de Deus que dá vida á criação.

No entanto, como explicado, o livro em Ecl 12, 7 afirma que o espírito do homem retorna a Deus. Isso mostra que há algo no homem que o diferencia do animal, fazendo com que o ser humano possa ter existência após a dissolução do corpo.

Então, afirma o sagrado livro do Eclesiastes: “Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens se eleva para o alto e o sopro de vida dos animais desce para a terra?” (cf. Ecl 3, 22).

Isso mostra que ninguém sabia responder a isso. Ninguém poderia afirmar diferença essencial entre homens e animais. Não se poderia saber o que acontece com o espírito de ambos. Mas, eis que em 12, 7 isso é respondido, como já ficou claro no tópico que trata diretamente desse assunto do Eclesiastes.

Por isso, a alma do ser humano permanece, e será reunida ao corpo pelo espírito de Deus na ressurreição. As almas dos animais são criadas com seus corpos, a partir de seus corpos, e não como o homem, que teve seu espírito criado dentro do corpo. Os animais que não possuem alma imortal, e que têm o espírito de vida cessando de existir com eles, pois esse espírito “desce à terra”, não podem ressuscitar. Isso é hermenêutica e exegese bíblica.

Então, os mortalistas que criticam a imortalidade da alma e citam bastante o conceito platônico para alma e para a morte, gostam de afirmar que a alma  “se liberta” do corpo na morte, o que não é conceito cristão, mas da filosofia grega.

Assim como Samuel aparece à necromante, como subindo da terra, em seu espírito, e em Isaías 14 vimos que a alma do rei desceu para o sheol e o corpo ficou fora da sepultura, e na parábola do rico e Lázaro ambos morrem e o mendigo é dito ser levado ao seio de Abraão, algo que ocorre antes do juízo final, e portanto, antes da ressurreição geral, temos que a morte significa separação do corpo e da alma.

Gledson Meireles.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Livro: Apóstolos. Por que os protestantes negam o primado de São Pedro?

Estudo do livro “Apóstolos, verdade bíblica sobre o apostolado”, do reverendo Augustos Nicodemus Lopes, das páginas 58, 59, 60.

Há vários motivos pelos quais os protestantes não aceitam o primado petrino. Nesses motivos, podem ser percebidos erros na compreensão da doutrina. O presente artigo irá demonstra-los.

É verdade evangélica que o apóstolo Pedro foi o primeiro dos apóstolos, um fato, que não pode ser negado. No entanto, muitos dizem que isso não prova o primado de Pedro. Por quê? Porque há erro na compreensão da doutrina católica.

Vejamos: o reverendo Augustus reconhece que Pedro foi destacado por Jesus em várias ocasiões, que estava entre os primeiros discípulos, que foi citado como primeiro nas listas dos apóstolos, que estava entre os mais próximos de Jesus, que foi o primeiro a “responder” à pergunta de Jesus sobre a identidade do Messias, mas também o primeiro a repreender e a negar Jesus, teve a incumbência de fortalecer os irmãos na fé, de apascentar as ovelhas e os cordeiros na Igreja, é citado em destaque entre os apóstolos, foi o que presidiu a substituição de Judas, pregou às multidões, defendeu o evangelho no Sinédrio.

É muita prova de que Pedro de fato é um apóstolo especial, que foi destacado entre os demais, e que isso tem um motivo. Mas diante de tantas provas, por que os protestantes ainda não creem no primado de Pedro? Como é possível?

Isso é respondido no livro: o motivo é que no entendimento protestante o próprio Pedro, os demais apóstolos e as igrejas da época não reconheciam Pedro como chefe!!! Onde está escrito isso: em lugar nenhum. Onde estão os sinais de que isso era o que acontecia na Igreja do primeiro século? Não há tais sinais. E quanto às provas acima, de que Pedro tinha atenção especial de Cristo, e da revelação do Espírito Santo?  Não são provas suficientes de que ele sabia que tinha missão especial, de que os apóstolos também a reconheciam, e que as igrejas da época pacificamente havia ouvido o evangelho com esse dado revelado desde os primeiros dias? Parece que a responde é sim. Tudo isso já está provando que Pedro recebeu o primado.

Outro problema é que para os protestante o primado petrino significa que Deus fez de Pedro o único canal de revelação, por onde Deus revela, inspira infalivelmente, para toda a igreja, e ensina ao povo. Essa é a noção protestante que o livro apresenta, e não é a doutrina católica.

O livro afirma que Pedro não foi visto como cabeça da Igreja e nunca se sobressaiu entre os demais? Como? Se as passagens acima provaram que ele sempre se sobressaiu? Foi destacado, foi próximo de Jesus, foi primeiro, etc, etc, etc, e ainda não se sobressaiu nunca? É algo que o leitor deve pensar.

Outra vez: o papa é servo de Cristo, um cristão que cumpre um papel importante na igreja, sucessor de Pedro, mas não é inspirado, não é fonte de revelação, não é infalível em seus atos, e etc. Portanto, o que o livro supõe ser a doutrina da Igreja está equivocado, e a crítica perde o sentido a partir disso.

Algo que o livro citado não frisou é que Pedro não apenas foi o primeiro a responder a pergunta sobre Jesus, mas ele foi iluminado do alto, teve uma revelação de Deus sobre a messianidade de Cristo, o primeiro entre os apóstolos a reconhecer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus por revelação do Espírito Santo. Isso é bíblico, é doutrina do primado, é um fato, e tal ênfase se torna necessária nesse pormenor.

Prossigamos no nosso estudo. Também negam que Pedro foi primus inter pares, o que muitos admitem. De fato, Pedro foi o primeiro, mas nunca creu que era o único canal inspirado e infalível, pois essa não é a doutrina de Jesus, e a Igreja Católica não a ensina.

Também, o livro afirma que 1 Pedro 2, 4-8 é interpretação da pedra em Mateus 16, 16-19, e que na Igreja do primeiro século ninguém entendeu que Pedro foi a pedra da Igreja. No entanto, isso vai contra o que foi apresentado antes, já que os muitos versículos citados provam que Pedro era o chefe, “a pedra” nesse sentido, instituída por Jesus, constituindo essas as provas do primeiro século. Para o segundo século em diante, temos mais provas da patrística, de que Pedro foi de fato o príncipe dos apóstolos e que dele sucedem os papas.

Outro equívoco é pensar que os sucessores dos apóstolos são “substitutos”, como iguais no cargo, como em idêntico patamar, como infalíveis iguais aos apóstolos, que pregavam e escreviam a doutrina inspirada de Jesus e etc. Essa é a noção que o livro combate, mas que não é a doutrina católica.

De fato, o autor afirma que os presbíteros que vieram após os apóstolos foram designados para interpretar e aplicar o legado apostólico. Muito bom. Mas isso é parte da doutrina da sucessão apostólica, não negando nada dela.

Ainda, a doutrina católica reconhece que os apóstolos, os Doze, e São Paulo, tiveram uma bênção única, exclusiva, e vitalícia para cada um deles, sendo temporário o ministério apostólico como dos Doze Apóstolos. Os bispos hoje são sucessores mas não são infalíveis na pregação, como eram os apóstolos, e não revelam ou escrevem inspiradamente como fizeram muitos dos apóstolos.

Gledson Meireles.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma. Tópico sobre a aparição de Moisés

Segue refutação do respectivo tópico.

Entender como mais uma evidência a imortalidade da alma na aparição de Moisés é utilizar o verso fora do contexto? Não, por tudo o que já está sendo provado nesta refutação.

Mesmo que sabendo que Elias antes estava no céu, o apóstolo São Pedro, sem pensar bem no que estava propondo, sugeriu construir tendas, inclusive para Elias. Então, ainda que pensasse em Moisés como apenas uma alma aparecendo ali, não é prova contra a existência da alma o pensamento de construir uma tenda, já que se tratava de um momento singular, e onde os pensamentos não estavam fluindo muito claramente, de forma a não raciocinar sobre esses pormenores, ou seja, construir algo material para abrigar espíritos e corpos glorificados através com a materialidade comum das coisas terrestres.

 Então, não é fato algum afirmar que Pedro pensava em Moisés como ressuscitado. Não há isso no texto, mas apenas uma interpretação mortalista, que é o único meio encontrado para explicar a presença de Moisés ali, pois o mortalismo não crê na existência das almas conscientes após a morte.

 A ideia de que Pedro pensou em Moisés como alguém limitado ao mundo físico já é uma contradição com o que se pretende provar. Certamente isso só pode ser harmonizado como feito acima, ou seja, Pedro não sabia bem o que estava falando.

Assim, da mesma forma que seria absurdo pensar em abrigar uma alma, é igualmente desnecessário construir abrigo para um homem glorificado, que não está preso ao mundo físico. São Pedro não pensou nisso, então, não há qualquer objeção contra a imortalidade da alma, como não há contra a glorificação dos corpos. Não se exige na passagem a ideia de que Moisés estivesse ressuscitado.

Terá sido Moisés ressuscitado, como ensinam os adventistas? O autor tenta provar isso por meio da Bíblia, numa inferência formidável. Será que consegue? Vejamos.

Pelo que foi afirmado, parece sugerir que o arcanjo Miguel veio ressuscitar Moisés, desenterrando-o, após não se sabe quanto tempo, e que o Diabo veio para tentar impedir isso, querendo para si o corpo de Moisés. Pensando dessa forma, não parece ter sido muito após o sepultamento. Talvez até, segundo pensamento hebraico, fosse antes dos quatro dias, entre o primeiro e o terceiro.

Dessa forma, Deus teria sepultado Moisés para esconder sua sepultura, e no mesmo dia mandando ressuscitá-lo, ou um ou dois dias após. De fato, ao se pensar que a ressurreição semelhante à de Lázaro, que ainda tinha seu corpo no sepulcro. Do contrário, tratar-se-ia da ressurreição como se dará no juízo final, recriando o corpo já desfeito no pó da terra. Tudo isso é bastante estranho, não é inferência do texto bíblico, mas suposições das explicações mortalistas.

Diga-se de passagem que a ressurreição de Maria é símbolo da ressurreição da Igreja em geral, pois foi a primeira criatura glorificada com Jesus. O seu fato é encontrado em obras dos primeiros séculos e concorda com os dados bíblicos.

A própria aparição de Moisés é praticamente prova da imortalidade da alma. Não é de se esperar outra coisa. A suposta ressurreição de Moisés é uma explicação quase obrigatória para quem nega a existência da alma imortal. E possui muitos inconvenientes.

Também não há nenhuma passagem bíblica que indique que Moisés ressuscitou. O livro afirma que “grande soma de passagens” falam disso, mas não há nenhuma. Nenhuma que indique que Moisés ressuscitou. Não há nem mesmo indicação.

Por outro lado, da ressurreição de Maria há passagens que indicam, fortemente, e uma teologia bastante desenvolvida que ultrapassa a doutrina da ressurreição de Moisés. Baseando-se na fraseologia do autor do livro, a doutrina da assunção de Maria possui indícios que a demonstram sem deixar dúvida.

É óbvio que não há necessidade de que todas as crenças bíblicas tenham de ser “explicitamente” afirmadas. Por isso a Igreja Católica crê na assunção de Maria e outras doutrinas. Assim, nenhuma delas é invenção, não são criadas pela tradição.

Interessante que a simples aparição de Moisés, que qualquer um leitor da Bíblia entende que se trata da alma de Moisés, é dito que esse entendimento é ultraje às Escrituras, ou que endosse o espiritismo.

Há duas formas bíblicas de estar com o Senhor diretamente, nesse caso, antes da ressurreição, a saber: a ressurreição ou a alma ir ao céu.

Elias e Moisés aparecerem por serem os representantes da Lei e dos Profetas. A argumentação de que isso se deve ao fato de que estariam vivos, um arrebatado e o outro ressuscitado, não é um fato, nem há como ter essa informação exegeticamente.

Assim, Jesus não trouxe mais ninguém, não porque não existiam outras pessoas no mundo dos mortos (e não no céu, como supôs o autor), pois ele poderia ter chamado Enoque, caso fosse uma ocasião em que estariam todos os mortos conscientes. Portanto, essa única constatação invalida esse exemplo que o autor utilizou para reforçar sua posição.

Em outras palavras, da mesma forma que Jesus não invocou o panteão de santos do céu, como disse o autor, desconhecendo a doutrina católica que afirma sempre que ninguém entrou no céu antes de Jesus, então prossegue afirmando que apareceram dois que não eram almas sem corpo. Isso indica que Jesus teria chamado mais outros, caso estivessem conscientes na morte. Mas, essa implicação não existe, visto que Enoque, que também foi arrebatado, não aparece na cena.

Outro problema é afirmar que Jesus foi o primeiro a ter o corpo glorificado para habitar permanentemente na glória, uma explicação que parece ter sido forjada para fundamentar a ressurreição de Moisés, que teria corpo não glorificado, mas que há milênios habita a glória de forma imortal, com todas as características dos corpos glorificados, como aparecer e desaparecer, e etc. É uma explicação fraquíssima em termos bíblicos.

Ou Moisés teria sido ressuscitado como Lázaro, por exemplo, para aparecer a Jesus, e voltado a morrer, se esse é o objetivo da explicação. É o que parece sugerir a mesma. Mas, como já refutado, se é essa a explicação, então não há como comparar a suposta ressurreição de Moisés com a de outros antes de Cristo, já que ninguém foi recriado fisicamente do pó da terra antes.

Contudo, se Moisés já havia sido ressuscitado há milênios para um dia aparecer a Cristo como representante da Lei, e Elias arrebatado para ser o representante dos profetas, não se explica como Moisés poderia ter sido ressuscitado como os outros que o foram antes de Cristo. Explicação que não se sustenta de uma forma ou de outra.

O que é conclusivo no texto é compará-lo com as outras inúmeras provas de que a alma é imortal. O texto apenas corrobora esse fato.

Gledson Meireles.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Livro: A História não contada de Pedro, refutação do capítulo 15

Será que essa resposta é “fraca”?

 

Capítulo 15

A Missão Secreta de Pedro

Roma é a Sé Apostólica, desde São Pedro, o primeiro dos apóstolos. O tempo em que Pedro viveu em Roma não é de todo conhecido. É um período que não é fácil calcular. No entanto, sua estadia lá é histórica, não uma “lenda”. Os 25 anos do episcopado de Pedro foram sugeridos por uma hipótese gerada de cálculos feitos a partir de listas episcopais, e registrada no Chronicon.

Portanto, mesmo esse período de vinte e cinco anos está registrado em obra histórica do século quarto.

A Bíblia não nega que São Pedro esteve em Roma, e isso já é um começo de conversa para quem tem tanta “certeza” de que o apóstola jamais pisou na capital do Império Romano da época.

No máximo, lendo as páginas sagradas do Novo Testamento, haveria um silêncio sobre isso. Não se falaria nada sobre Pedro estar em Roma, ter ido lá, ter lá permanecido, nem haveria qualquer negação desse fato histórico.

No entanto, há evidências desse fato em 1 Pedro 5,13, que será tratado em capítulo específico.

Quando Jesus menciona que Seu Nome será pregado em Jerusalém, Judeia e Samaria, que foram os primeiros centros do Cristianismo, isso não indica que Roma não fosse considerado importante local de introdução do Evangelho. É procurar demais em um versículo uma prova contra tamanha evidência histórica.

De modo algum, quando o Senhor fala de Jerusalém, a primeira e mais antiga sede, Judeia e Samaria, Ele sugere algo nesse sentido.

Certamente, nosso Senhor estava apenas falando dos primeiros locais onde o evangelho iria estabelecer-se, até chegar aos confins da terra. E antes de chegar aos confins da terra, com total certeza, iria à capital do Império, sob o qual estava a Palestina do tempo de Cristo. Ou alguém duvida que a fé cristã, tão importante, essencial, vida e salvação para a humanidade, não seria pregada em Roma logo no início? É óbvio que isso não faz parte da argumentação, e nem precisaria, mas é bom refletir.

 De fato, a Epístola aos Romanos prova que Roma tratava-se de local singular e de importância tamanha, que a fé dos romanos era conhecida em todo o mundo (cf. Rm 1,8; At 23,11). Isso é digno de nota, pois em outros lugares os cristãos do primeiro século já elogiavam, já tinham como algo de certa fama, a fé dos cristãos de Roma.

É verdade que até Atos 8,1 nenhum apóstolo arredou o pé de Jerusalém! É muito provável, pelo que os dados bíblicos apontam.

Pedro permanecia em ambiente Palestino. O livro passa boa parte de sua argumentação tentando desmentir os 25 anos do papado de Pedro em Roma. Mas isso não é preponderante, ou seja, os vinte e cinco anos sendo o período total ou não, não importa. Sendo que esse tempo não é essencial para a doutrina do primado, o livro desperdiça considerável parcela de energia contra algo de pouca monta, de importância menor.

Já temos aqui dois argumentos que caem fragorosamente: as fontes históricas falam da estadia de Pedro em Roma, e o Novo Testamento não nega isso, mas sugere fortemente, e evidencia esse dado histórico. Ainda, o tempo que São Pedro permaneceu em Roma não é importante para a doutrina do papado. O importante é o fato.

No tempo do Concílio de Jerusalém, Pedro estava naquela cidade, portanto, Pedro estava em Jerusalém. Esse Concílio se deu em 49 d. C. Possivelmente, e não com total certeza, São Pedro foi a Roma em 42 d. C. Certamente, porém, não permaneceu por lá, mas saiu com a expulsão dos judeus sob o imperador Cláudio. Então, é muito claro que não se pode afirmar que São Pedro nunca teria saído de Jerusalém até aquele tempo. Ele foi a Roma em 42 d. C., e estava em Jerusalém em 49 d. C. Ninguém poderia supor que o apóstolo não pudesse viajar naqueles tempos. Apenas há silêncio sob a questão.

O Edito do Imperador expulsou os judeus em 49 d. C., não de 41 a 54. Certamente, de 49 a 54 d. C., conforme Mark Bonocore.

Nesse tempo, é provável que Pedro foi expulso de Roma, com todos os judeus, e, por isso, estava em Jerusalém. O imperador reinou de 41 d. C. a 54 d. C., mas expulsou os judeus após cerca de 8 anos do seu reinado, em 49 d. C. Isso confirma os dados bíblicos.

Pensar que o tempo inteiro do governo de Cláudio identifica aquele período de expulsão dos judeus é um erro que o livro supõe para impossibilitar a presença de Pedro em Roma nesse período. É uma suposição falha do livro. É pensar que do primeiro ano de império daquele governante até o último nenhum judeu pisou mais em Roma. É um argumento falho.

Na época, se Pedro era perseguido, e havia sido libertado da prisão por Providência Divina, e pregou em Roma nessas condições, entende-se que não havia lá uma estrutura semelhante à do Vaticano atual, com construções imponentes, como uma basílica, e numa organização comparável à encontrada 20 séculos mais tarde. Não há lugar para isso no tempo de perseguição do século 1. Por isso, São Paulo mora em casa alugada, e não numa igreja que funcionasse como sé apostólica. Certamente, esse item já está respondido.

Considerando o período de 42 a 61 d. C. São Pedro deve ter estado em Roma de 42 a 48, ou 49. Se residiu lá ou não, não é possível afirmar com certeza. Pode certamente ter morado em Roma durante esses anos.

A respeito das saudações na carta aos Romanos, e a não referência a Pedro, deve-se ao fato de que nessa época o apóstolo estava em Antioquia (57-58). Pelo que consta, a volta de Pedro a Roma deu-se após os anos 60 d. C. Mais uma vez os dados bíblicos são confirmados por essas informações históricas.

A essa altura, o livro mostra que esse é o ponto do argumento mais forte que poderia apresentar contra o primado: “Se isso não é suficiente para mostrar que Pedro não era bispo de Roma sob nenhuma circunstância, não sabemos que argumento poderia ser capaz de abrir os olhos espirituais daqueles que “tem seus olhos tampados, e não conseguem ver; e suas mentes fechadas, e não conseguem entender” (Is.44:18).” [ênfase no original] (p. 160).

Se Pedro não estava em Roma nesse tempo, da escrita da Epístola aos Romanos, e esse é o motivo porque Paulo não o menciona, está respondido tal argumento que o livro julgou ser tão incisivo. Além do mais, por algum motivo silencia-se, em vários lugares, a respeito de Pedro. Quando Pedro saía de Roma, isso não significa que deixasse de ser o líder daquela Igreja. É muito simples entender isso.

Não é necessário referir-se pormenorizadamente ao argumento sobre a saudação da Igreja na “Ásia”, aludida no livro como premissa presente na apologia em sites católicos. O que foi escrito acima já é suficiente para mostrar que Pedro, na época em que Paulo escreve aos Romanos, está em Antioquia.

São Paulo deveria dar testemunho de Jesus em Roma. Mas, tal não significa que os romanos não conhecessem o Nome de Jesus, e que não fossem cristãos. Pelo contrário, São Paulo elogia sua fé. Quem havia evangelizado Roma? A História incontestavelmente mostra que foi São Pedro.

Há indícios de que os primeiros cristãos em Roma foram aqueles que vieram de Jerusalém após o Pentecostes, mas que o estabelecimento da Igreja na cidade eterna foi feito, em especial, por São Pedro, e também por São Paulo.

Em Atos 28,15 São Paulo chega, com prisioneiro, a Roma. São Pedro não é mostrado entre os visitantes do apóstolo. Onde estava? É possível que estivesse em Roma. Desde Atos 12,17, como mostra Bonocore, Pedro estava sendo procurado pelas autoridades judaicas, e não poderia visitar Paulo nessas condições, visto que o mesmo estava no cativeiro para ser julgado. Certamente, esse é o motivo pelo qual Pedro desaparece de cena a partir de Atos 12.

É um dado bíblico que mostra fundamento para não mencionar Pedro. De fato, nem mesmo o lugar o Espírito Santo quis revelar, por motivos óbvios da perseguição, e apenas afirma que o apóstolo foi para outro lugar.

Na página 159 o livro menciona a viagem de Paulo a Jerusalém, onde foi recebido por Tiago. Interessantemente, visto seu estilo, bastante esclarecedor de sua posição, o autor não elucida que essa ocasião se deu pela visita de Paulo a Pedro. Ou seja, São Paulo foi justamente a Jerusalém, onde São Tiago era bispo, para ver o apóstolo São Pedro. Ele não foi visitar Tiago, mas Pedro, é necessário frisar, visto que o livro não o fez, mas a Bíblia é clara nesse ponto.

Quando o autor faz menção desse fato, em outro lugar, não aponta essa especificidade importante, de modo a não refletir sobre o fato. São Paulo foi a Jerusalém justamente para conhecer o apóstolo São Pedro.

Mais tarde, em toda sua estadia em Roma, certamente Paulo viu a Pedro. Não o sabemos, porém. Mas é muito provável. A Bíblia não afirma, nem nega. E o argumento ex silencio é inócuo.

Na página 160 o livro alude à ideia de que em Roma havia apenas alguns cristãos, e por isso os judeus de lá não conheciam bem o Cristianismo. Mas, fica difícil entender que a fé dos “alguns” cristãos de Roma fosse tão elogiada, e conhecida em todo o mundo!

Isso não parece harmonizar com pequena quantidade de cristãos. Aliás, a História mostra que por nessa época Roma era habitada por grande quantidade de judeus cristãos, bem como de muitos cristãos gentios. Uma afirmação: Paulo foi visitar a Pedro em Jerusalém, não a Pedro e Tiago. Necessário frisar.

De fato, ele viu Tiago por acaso, e mais nenhum outro apóstolo. Há inconscientemente algo tentando fazer ofuscamento do status de Pedro nesse argumento!

Além do mais, se aqueles judeus que viviam em Roma não tinham conhecimento básico do Cristianismo, deve-se ao fato de ser imigrantes recentes, chegados em Roma após o fim do Edito de Cláudio, que havia proibido a estadia de judeus na capital do Império.

Desse modo, aqueles judeus não sabiam realmente muito a respeito do Cristianismo. No entanto, algo mais é necessário saber. Mark Bonocore mostra que os judeus queriam informação sobre o ministério de Paulo, sobre o Cristianismo entre os gentios, pois parece conhecer as características do Cristianismo em si, como aquele já fundado em Roma, por Pedro. Sabiam, porém, de forma rudimentar, como se fosse uma seita judaica. Assim, afirmam que não sabiam da referência de Paulo enviada de Jerusalém. Pediram a ele suas explicações, e desejavam saber o que Paulo pensava.

Certamente, esse era o motivo por que queriam conversar com Paulo. Além do mais, pode-se atentar ao fato de que se tratavam de judeus não abertos à mensagem cristã, para os quais o cristianismo católico não passava de “seita”.

Na página 165 o livro refere-se a Gl 1,18, e nesse momento tem de reconhecer que Paulo quis conhecer a Pedro, e por isso foi a Jerusalém. Obviamente, nesse tempo, São Pedro nunca tinha ido a Roma, mas essa viagem ocorreu após o ano 42. Quanto a Roma nessa época, estava repleta de judeus.

Sobre a questão do apostolado entre os judeus e entre os gentios, de Pedro e de Paulo, diz o livro: “É lógico que Paulo jamais imaginou que Pedro assim como ele também atuasse entre os gentios.” (p. 167). Essa afirmação deve ser entendida biblicamente.

Para quem lê Gálatas 2,7-8 como "prova" contra o primado de Pedro, e sua estadia em Roma, é necessário um conhecimento bíblico correto e mais aprofundado.

O ministério apostólico não foi instituído para um grupo de cristãos somente. De fato, Cristo ordenou aos apóstolos a pregar o Evangelho a toda criatura (cf. Mt 28, 19-20). Não disse que uns deveriam pregar aos judeus e outros aos gentios. Esse ministério restrito aos judeus foi o ministério de Cristo, antes da Sua morte, antes da cruz, preparando o povo Judeu.

De forma geral, os doze apóstolos iniciaram a evangelização entre os judeus, partindo do modelo deixado por Jesus, e somente depois voltaram-se aos pagãos, como havia ordenado o Senhor.

Assim o fez Nosso Senhor, que veio primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel. Ainda assim, voltava-se circunstancialmente aos pagãos.

Os primeiros doze apóstolos foram iluminados pelo Espírito Santo para anunciar a salvação ao Povo de Israel primeiramente. Então, Deus suscita São Paulo a pregar, também ele, primeiro aos judeus, e depois aos gentios, porém, com o ministério específico entre os gentios, de forma que ficou conhecido na Igreja Católica como o Doutor das Nações.

Tendo esse contexto em mente, sabe-se que São Pedro foi a Roma e ministrava para todos, embora sua especificidade evangélica estivesse endereçada aos cristãos de origem judaica.

Entende-se, portanto, que como chefe da Igreja sempre pregou a ambos os povos. Assim o foi em Antioquia, sua primeira e provisória sede episcopal. A sé do papa era, portanto, nesse tempo, a cidade de Antioquia, pois ali primeiramente lançou as bases da Igreja o apóstolo Pedro.

Mais tarde, foi para Roma. Mas, como visto na carta aos gálatas, Pedro convivia tanto com judeus, como com os gentios. Isso fica claro no fato que deu ocasião para que fosse repreendido por São Paulo. Isso prova cabalmente que o ministério petrino não era restrito aos judeus, como se não pudesse habitar com os pagãos, e falar de Cristo a eles. Nada disso. Trata-se, assim, do foco geral e do objetivo principal do ministério apostólico dos apóstolos Pedro (e dos outros onze) e Paulo (com seus colaboradores) [cf. Mark Bonocore].

O que o livro julga ser o golpe mortal contra o primado, afirmando que São Pedro permaneceu em Jerusalém, pois seu ministério não podia ser entre os gentios, está, portanto, refutado.

Como afirma Bonocore, a consideração de 2 Tm como referindo-se à “segunda” prisão de Paulo, isso se deve à Tradição da Igreja, pois não é um fato revelado explicitamente na Escritura. Se o livro aceita esse dado da Tradição, por que não render-se às provas de que Pedro foi bispo de Roma, que a História mostra sem rodeios?

O que houve foi uma leitura pouco atenta da História da Igreja na consideração desse fato. O que foi provado acima é incontestável, mas o livro não o citou corretamente. Por isso, sua argumentação assemelha-se a construir sobre fundamento arenoso.

Em Cl 4,11 São Paulo fala dos únicos colaboradores cristãos judeus entre os gentios. Isso não significa que não havia outros cristãos em Roma!!!! O livro conclui isso: Portanto, ao dizer “únicos”, ele exclui a possibilidade de haver algum judeu além daqueles citados que estivesse com ele em Roma.(p. 170).

Assim, em 2 Tm 4, ao afirmar que somente Lucas estava com ele, isso não significa que não havia cristãos em Roma, mas que do círculo mais próximo do apóstolo, dos seus colaboradores, somente Lucas continuava consigo naquele momento. Excluir a presença de autoridades cristãs em Roma, ou do Cristianismo em geral, no tempo de São Paulo, é algo que a Bíblia não o faz, e o livro conclui isso de um verso que não se refere à questão.

A própria presença de São Paulo em Roma, com seus colaboradores, indica a presença importante de cristãos naquela capital. A Epístola aos Romanos constitui outra prova de considerável peso nessa questão. Assim, de dois versos que não afetam o assunto, o livro usa-os para afirmar que os cristãos e suas autoridades, como conclui, não habitavam Roma. É lastimável tal conclusão.

Afirmar que o fato de Pedro não ser mencionado nas epístolas seria que ele estava sempre de viagem, realmente não explica o caso. Mas, acima, o mesmo foi explicado sem recorrer a tão simples afirmação.

Contudo, lendo os textos bíblicos que o Protestantismo apresenta, e que o livro cita, como prova contra o primado, os mesmos não afirmam o que o livro entende que o façam.

E Jesus, chamado Justo; os quais são da circuncisão; são estes unicamente os meus cooperadores no reino de Deus; e para mim têm sido consolação. (Cl 4,11).

É necessário entender que São Paulo fala dos seus cooperadores no Reino de Deus, como afirmado, indicando aqueles com os quais trabalhava no ministério. Não está afirmando que inexistiam cristãos naqueles tempos fora os citados. Não se pode deduzir isso.

Igualmente em 2 Tm 4,11:Só Lucas está comigo. Toma Marcos, e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério. Será que São Paulo está afirmando que em Roma somente havia ele e São Lucas como cristãos? Pela intepretação do livro essa é a única via para se chegar à resposta.

Mas, a Bíblia, e a história, em nenhum lugar afirmam isso. Apenas, a Bíblia mostra que o apóstolo estava sozinho na prisão, porque seus colaboradores o haviam deixado: Demas por apostasia, Crescente e Tito haviam ido, respectivamente, para a Galácia e Dalmácia. Somente Lucas permaneceu com ele. Esse é o assunto.

O livro tentou tirar a possibilidade de Pedro estar em Roma a partir desses versos, e por eles chegou a esvaziar Roma de cristãos. Provou demais. E, por isso, não provou nada.

Dessa forma, com intuito de “provar” algo além do argumento ex silencio, atribuiu-se a dois versos uma informação que os mesmos desconhecem, e que outras partes da Bíblia desaprovam. Ainda, a tradição mostra justamente o oposto daquilo que o livro tentou inculcar. Outra lacuna do mesmo.

Sendo assim, é necessário repetir que a Igreja não afirma categoricamente que houve um episcopado de 25 anos de São Pedro em Roma, mas que o apóstolo esteve naquela cidade, nela permaneceu, pregou lá o Evangelho, estabeleceu a Igreja e, por fim, foi martirizado sob o império de Nero. Foi o primeiro bispo de Roma, sucedido por Lino.

Gledson Meireles.