Mostrando postagens com marcador Livro Nenhum caminho leva a Roma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livro Nenhum caminho leva a Roma. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Livro: Nenhum caminho leva a Roma

Refutação do Capítulo 5: Refutando o purgatório

 

            Na apologética protestante é agora mais comum encontrar apresentações mais fidedignas do purgatório do que era de costume. No entanto, os apologistas ainda não entendem bem a doutrina.

            Quando tempo a alma de alguém deve passar no purgatório? Não sabemos. Pode ser por um instante ou por séculos! Quem sabe? Não foi revelado.

            Qual a base do purgatório? O apologista afirma que são suposições e crenças teológicas, e não evidências concretas.

            Também afirma que não há prova objetiva ou científica. Aliás, é bom lembrar, há protestantes que negam até mesmo a existência do inferno. A tradição protestante geral nega somente o purgatório.

            O purgatório entra em conflito com a doutrina da salvação pela graça? É claro que não. É somente por meio da graça, através da fé, que o mérito do sacrifício de Cristo é aplicado ao pecador. No entanto, o mesmo é responsável pelas suas ações, e deve sofrer penas do pecado, caso não as satisfaça.

            Deus é amor e misericórdia, mas também justiça. Davi pecou contra Deus, foi perdoado, mas perdeu seu filho primogênito como pena pelo seu pecado. Então, o fato do salvo ter alguma pena a sofrer não é contrário ao amor e misericórdia de Deus.

            Deus é todo-poderoso, compassivo e santíssimo. É por isso que pode haver sofrimento adicional, pós-morte, caso o salvo não tenha vivido o amor e a fé sem reservas, e tenha algo a purgar.

            Quanto às incertezas em torno do conceito de purgatório em relação ao tempo, isso não é problema. O importante é sabermos que os que estão no purgatório estão salvos.

            As evidências do purgatório na Bíblia são suficientes para não deixar dúvidas. Há uma boa base escriturística, sólida e razoável.

            Vamos à análise das Escrituras Sagradas e refutar cada objeção protestante (página 59).

            Em Romanos 8, 1 o texto diz que não há condenação para quem está em Jesus Cristo, mas não diz que não há sofrimento.  Quem está em Cristo está salvo, terá o céu. Quem não está, sofrerá condenação no inferno. O apologista protestante não ofereceu nenhum argumento citando esse texto. Apenas afirmou que não há “nem sofrimento” também para os que estão em Cristo. Mas isso o texto bíblico não ensina. Portanto, não há argumento nenhum aqui.

            Em Mateus 19, 25 o contexto é a dificuldade do rico entrar no Reino dos Céus e o milagre que é quando isso acontece. Não é o esforço humano que leva o pecador à salvação eterna, mas a intervenção de Deus. Porém, é preciso doação total a Deus, sem reservas.

            Quando se pensa no purgatório, entendemos que cada pecado, por mais simples que seja, se não for confessado, e satisfeito, terá suas penas no purgatório.

Desse modo, é óbvio que o cristão católico leva a sério a vida espiritual. Mesmo os pecados veniais são evitados, na santificação. A vida dos santos mostra isso.

Por sua vez, a maioria dos protestantes não crê na distinção entre pecado mortal e venial, e na sua crença da salvação somente pela fé ele acredita que está salvo, e que os pecados, sejam quais forem, que são perdoados, não deixam penas.

Desse modo, os fieis protestantes exercitam sua santificação, mas psicologicamente essa realidade leva o fiel a preocupar-se menos do que o devoto e piedoso católico que igualmente crê na sua salvação em Cristo. De fato, que pensa que os pecados não acarretam pena alguma após o perdão está mais tranquilo do que aquele que acredita nessa verdade, pois sabe da sua responsabilidade para santificar-se cada vez mais e na possibilidade de sofrer as penas dos pecados.

No quesito salvação ambos estão igualmente seguros na fé que têm em Jesus Cristo. Mas, na santificação o fiel católico frutifica mais em boas obras pela doutrina mais exigente que professa.

O texto de 1 João 2, 2 ensina que Cristo é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro. Isso não invalida o sofrimento no purgatório. De fato, como visto, a Bíblia mostra que o salvo pode ser perdoado e ainda sofrer penas. O rei Davi é um exemplo disso. Não se trata apenas de um exemplo do Antigo Testamento, mas é o modo pelo qual Deus trata o pecado. É Deus quem confere o perdão, mas somente Ele pode remir as penas. Essa parte é dada ao pecados esforçar-se com a graça para satisfazer as penas dos pecados perdoados.

Em Hebreus 9, 28 está escrito que Jesus foi oferecido para tomar sobre Si os pecados de muitos. Essa verdade não torna desnecessária a penitência pelos pecados. Somente Cristo garante o perdão e a entrada no céu, mas isso não significa que as consequências dos pecados sejam suspensas automaticamente. É preciso arrependimento perfeito, que nem sempre o pecador arrependimento possui.

A passagem de Hebreus 6, 4-6 fala dos que deixaram a fé, apostaram. Para esses, é claro, não há purgatório. Se o apologista tivesse compreendido bem, não usaria essa passagem. A mesma diz que esses que foram iluminados crucificaram Jesus Cristo. Portanto, não foram fieis. Se morrem assim, são condenados.

Essa passagem não tem nada a ver com o purgatório e é perfeitamente entendida na doutrina católica. Nesse caso, não há razão para o purgatório porque não morreram na graça de Deus.

Ainda, o purgatório é sofrido pelas almas, e não se trata de uma obra de pagamento pelos pecados. É uma forma de justiça que impõe penas por causa dos pecados.

A salvação é gratuita. Basta crer em Jesus e obedecer. Não são as obras que compram, mas as obas obras devem nascer dessa comunhão com Deus. Assim, é preciso operar a salvação. Nesse caso, explica-se esse processo de purificação adicional que muitos passam. Não todos, mas aqueles que Deus julga necessário que sofram as penas.

É verdade que muitos podem pensar que devem realizar obras e penitências para garantir a entrada no céu. Trata-se de um erro, e assim é preciso evangelização e estudo da Palavra de Deus. Do mesmo modo, o protestante pode pensar que uma vez que possui fé não deve preocupar-se com as obras. Pode ocorrer isso, e deve ser corrigido pelo estudo sério da doutrina cristã.

Em nenhum momento da doutrina do purgatório mostrou-se antibíblica, mas está de acordo com a revelação inteira. Está de acordo com o evangelho de Jesus e a pregação dos apóstolos.

Não há ação humana para comprar a salvação nem forma de pagamento pelos pecados, a não ser o pagamento que Cristo fez na cruz.

Uma vez que se entende que o purgatório não é remição dos pecados mas um castigo que ainda é devido às penas dos pecados que permaneceram, entende-se a gravidade do pecado, a santidade de Deus e sua justiça perfeita.

O apologista protestante afirma que 1 Coríntios 3, 15 é o principal texto distorcido pelos apologistas católicos.

O texto estaria se referindo ao juízo final e o fogo provaria a obra de cada um e não de uma pessoa individualmente.

A ideia do purgatório no texto é, porém, devido ao fato de que mesmo os que já morreram sofrerão danos, passando como que pelo fogo, que testará a obra que cada um tiver feito. Assim, esse fogo que testa ouro, prata, pedras, madeira, palha, feno, é o fogo que purifica. O que é queimado é obra ruim, pecaminosa. O que permanece é boa obra, fundamentada em Cristo. Assim, de fato há o purgatório. Ainda que no dia do juízo haverá uma purificação simbolizada por essa purificação com fogo.

 

O julgamento individual não está explicitamente descrito em alguma passagem, mas há princípios revelam esse sentido, como o texto de Hebreus 9, 27, onde a morte é seguida do juízo.

Também, a objeção de que cada pessoa passa por mais de um julgamento não é um bom argumento. De fato, um juízo já decide irrevogavelmente o destino do indivíduo. No entanto, o juízo final tem um objetivo diverso, que é o de mostrar a todos a justiça e a misericórdia de Deus.

Portanto, se 1 Coríntios 3, 15 refere-se somente ao juízo final, temos algo a considerar. Imagine milhares de salvos que já estão no céu, em suas almas, à espera da ressurreição.

No dia do juízo final, esses salvos compareceriam diante do tribunal de Cristo. Muitos deles sofreriam detrimento, sofrendo o juízo por suas obras de madeira, palha, e feno, o que significa que são obras pecaminosas.

Desse modo, se estavam ainda para receber o juízo por seus pecados, ainda que salvos, isso significaria que durante milênios, certamente, estavam no céu, na felicidade eterna, vendo a Deus, os anjos e os demais santos, e ainda estavam em pecado.

Também isso redundaria no absurdo de que após tantos anos de felicidade teriam de enfrentar julgamento e sairiam salvos, como que por meio do fogo, ou como o próprio apologista protestante admite, a expressão significa que a “salvação que ocorre com estreita margem” (p. 67).

Não faz sentido algum o salvo estar no céu, ser ressuscitado e sofrer perda no julgamento, sendo salvo por uma estreita margem no julgamento final.

Aos que acreditam que a alma morre, esses não têm que explicar a contradição, já que não creem que os salvos estão em algum lugar antes da ressurreição. O problema é que a Bíblia ensina de fato que a alma é imortal e que os salvos recebem recompensa no céu. Desse modo, quando se diz que o juízo segue a morte (cf. Hb 9, 27), deve-se entender que há o juízo particular.

Ainda. O leitor protestante tem que entender que 1 Coríntios 3, 15 ensina que no dia do juízo os salvos passam por um juízo de fogo. Certamente, os que estiverem vivos serão glorificados quando passarem pelo juízo final.

Esse é o momento descrito, onde cada um é provado por causa das suas obras feitam em Cristo. Muitos passam ilesos no teste e recebem galardão, enquanto outros perdem, sofrendo essa perda. Esse é o purgatório.

Se existe o purgatório para os que estiverem vivos no dia do Senhor, implica a existência do purgatório para todos os que morrem em Cristo, e que passam pelo juízo particular, já que não podem entrar no céu sem terem sido julgados. De fato, na presença de Deus não pode haver nada de impuro. Desse modo, a passagem ensina a doutrina do purgatório.

Só se entra no céu após o julgamento. No julgamento há um processo de fogo. Portanto, existe o purgatório: morte, juízo, e talvez o purgatório, e finalmente o céu, para os salvos.

Quanto ao fogo podemos afirmar que ainda que a passagem seja metafórica nesse quesito, não se pode negar que exista uma espécie de purificação ensinada no texto. Sendo assim, as traduções católicas seguem o sentido do texto original, pois não há nada que contrarie a interpretação do purgatório na Bíblia.

A ideia que o autor entendeu, ao estudar a passagem, de que o foto se refere a uma proximidade crítica à condenação é bastante curiosa. No Protestantismo não há espaço para tal entendimento. Esse é o que o texto bíblico de fato ensina.

Quando olhamos para o texto e vemos que muitos podem salvar-se em Cristo na comparação como alguém que escapa de um incêndio, temos que há graus de pecado, e que as obras possui valor na salvação. Doutro modo, não faria sentido. Assim, o entendimento do autor confirma a doutrina católica.

Também na interpretação de 2 Macabeus 12, 31-46, vemos que os judeus criam que podiam auxiliar seus irmãos mortos em batalha, e que haviam cometido um pecado. Essa noção só pode ser fundamentada na crença de que havia uma purificação pós-morte.

Desse modo, os judeus não criam que seus irmãos estavam irremediavelmente perdidos. Ainda. Aquele pecado certamente não foi de idolatria, pois é possível que os judeus tenham ficado com os objetos consagrados aos ídolos por seu valor material, mas que aquilo era proibido pela Lei judaica.

O episódio de Davi não tem nada contra o purgatório. O rei orava pelo seu filho para que não morresse. Uma vez morto, o rei disso: “Poderia eu trazê-la de volta à vida” Ele não estava orando pela alma de um morto, mas manter seu filho em vida. Esse exemplo do rei apenas prova que há penas pelos pecados e essa pena do rei foi a morte do seu filho. O pecado foi perdoado, mas a pena não. Davi passou pela pena do pecado.

E o último argumento é que todos os pecados levam à condenação eterna. Assim, é claro, uma vez perdoados o pecador está salvo. Sendo assim, a doutrina católica permanece, pois acredita que ninguém é salvo morrendo em pecado mortal, e que todos os pecados veniais precisam de arrependimento e perdão também. Esse perdão é pedido diariamente. Um exemplo é a oração do Pai Nosso.

E o apologista protestante cita 1 Coríntios 6, 9-10. Nessa passagem vários pecados e pecadores são citados: os perversos, os imorais, os idólatras, os adúlteros, os homossexuais (na tradução protestante usada no livro). A tradução católica da Ave-Maria traduz como “efeminados”. Também são citados os ladrões, os avarentos, os alcóolatras, os caluniadores, os trapaceiros.

Nenhum desses pecados é venial.

Vejamos os pecados e pecadores mencionados em Apocalipse 21, 8:

Os covardes, os incrédulos, os depravados, os assassinos, os imorais, os feiticeiros, os idólatras, e os mentirosos.

Todos são pecados mortais.

E, por fim, é citado Gálatas 5, 19-21:

Imoralidade sexual, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, desavenças, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções, inveja, embriaguez, orgias e etc. Mais uma vez, são pecados mortais. Todos esses o texto sagrado afirma que os praticantes não herdarão o reino de Deus.

A Escritura ensina que há pecado que leva para a morte. Isso implica que existe pecado que não leva para a morte. Assim, sabemos que há pecado mortal e pecado venial.

Enfim, toda a doutrina do purgatório está em conformidade com a Sagrada Escritura.

 Gledson Meireles. 

sábado, 28 de setembro de 2024

Livro: Nenhum caminho leva a Roma, de Juan Roberto de Oliveira

Refutação do livro: Nenhum caminho leva a Roma.

11.2 - Pecado de Maria

            A ideia de que a virgem Maria foi preservada do pecado original tem razão bíblica. O texto de Romanos 3, 23-24 ensina que todos pecaram e todos carecem da justificação. Assim, a virgem Maria pecou e precisou da justificação por meio de Jesus Cristo. Mas, em que sentido a virgem Maria pecou? Ele realmente teve que contrair o pecado original e pecar em sua vida pessoal? Vamos prosseguir antes de analisar essa questão.

O texto de Romanos 5, 12 afirma que a morte passou a todos e por isso todos pecaram. E o questionamento protestante é que, uma vez que Maria foi preservada do pecado original mesmo nascendo de uma mãe pecadora, por que o mesmo não poderia ter sido feito em relação a Jesus? Maria poderia ter permanecido pecadora e Jesus ter sido imaculado.

Essa doutrina levaria a considerar a mãe de Maria como preservada do pecado original, e sua avó e assim por diante, até chegar a Eva. No entanto, se temos que Deus é o autor do perdão, da purificação, da justificação, então vamos chegar à conclusão que Deus agiu na pessoa de Maria no momento da concepção e purificou-a do pecado original pelos méritos de Cristo. A sua mãe, que pela tradição chamava-se Ana, tinha o pecado original, assim como o seu pai Joaquim, e isso iria com certeza gerar uma filha com o pecado original. É preciso crer que Deus fez a purificação no instante da concepção, de modo que a virgem Maria foi salva naquele momento.

Por isso, o termo mais adequado não é purificação, mas preservação. No entanto, para ficar mais claro, a purificação se dá porque todos pecaram em Adão, inclusive a virgem Maria, e para a conceição no ventre materno sua natureza precisou ser purificada ou preservada do pecado.

Somente Cristo não podia pecar, por ser Filho de Deus, e Deus mesmo na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e não podia receber uma natureza maculada. Portanto, Deus podia purificar aquela natureza que Cristo recebeu, mas foi mais perfeito dar-lhe uma mãe purificada, de modo que na geração de Jesus não houve participação do pecado. Em outros termos, a virgem Maria não cometia pecado com Jesus em seu ventre. Por tudo isso, é concebível pensar na santidade de Maria, na sua imaculada conceição.

Jesus não foi concebido pelos meios naturais, e por isso não contraiu o pecado original, sendo um milagre sua concepção. Mas como vimos, também a mãe do Senhor Jesus não foi concebida com o pecado, de modo que Jesus foi gerado nessa “arca” santa, o que convinha à Sua dignidade de Deus.

A Escritura fala diretamente que Jesus não teve pecado, como está em Hebreus 4, 15. Isso não exclui outras pessoas. De fato, quando São Paulo escreve que assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram, ele não estava afirmando que todos morreram, pois a Escritura diz: Henoc andou com Deus e desapareceu, porque Deus o levou (Gênesis 5, 24). Isso quer dizer que Henoc não passou pela morte.

Também está escrito: Continuando o seu caminho, entretidos a conversar, eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo separou um do outro e Elias subiu ao céu num turbilhão (2 Reis 2, 11). Então, o profeta Elias também não morreu.

Portanto, todos morreram significa que morreram em Adão, que o salário do pecado é a morte, e que inevitavelmente todos morrerão. A única forma de não passar pela morte é por uma dádiva de Deus, diretamente agindo para que a morte não aconteça, como foi o caso de Henoc e Elias. Portanto, Romanos 5, 12 não diz que houve exceção, mas lendo as Escrituras descobrimos que pelo menos há duas exceções.

Também é preciso notar que o arrebatamento de Henoc e Elias não contradiz o texto de Romanos 5, 12, pois esse trata do estado natural de todos os seres humanos, e o arrebatando foi algo sobrenatural, feito por Deus como exceção. Por isso, vemos que a Escritura não indica claramente as exceções quando trata de um assunto geral. É preciso ler a Escritura inteira para percebermos essas verdades. Ainda, há verdades que são menos claras, e precisam de maior escrutínio do texto para aprendê-las.

Uma dessas verdade é a imaculada conceição, pois o texto afirma que todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, e a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram, incluindo a virgem Maria, que pecou em Adão, mas essa foi milagrosamente perdoada e justificada e recebeu a glória. O texto não trouxe claramente essa exceção, como vimos, pois não é da natureza da Escritura apontar sempre essas qualificações.

Outra forma de entender essa verdade é que Henoc e Elias pecaram em Adão, e morreram em Adão, mas foram perdoados e justificados, e foram livres da morte, que é a lei do salário do pecado, e foram para a glória. Eles morreriam naturalmente, mas foram individualmente preservados da morte. E o texto não diz isso nessa passagem, mas aprendemos essa verdade por exegese.

Do mesmo modo, a virgem Maria pecou em Adão, mas foi preservada do pecado em sua pessoa individual. É algo totalmente bíblico. É uma verdade que segue todos os parâmetros da revelação.

Há também a objeção de que Maria não foi escolhida por ser sem pecado. De fato, Deus não escolheu Maria porque a mesma não tinha pecado, mas, pelo contrário, Ele a fez sem pecado para que a mesma fosse a mãe do Messias.

Se o Messias teria de vir da descendência de Davi (cf. Is 9, 7, Lc 3, 23-38), não era qualquer casal israelita que poderia ser o escolhido, apenas por ser do povo judeus. Deus escolheu uma virgem, chamada Maria, e um homem justo, chamado José. Eles cumpriam o requisito, mas o chamado é que faz a diferença. Se Maria não fosse da descendência de Davi, Deus não a escolheria, não a teria preparado. Pelo exposto, a objeção não é importante.

Assim, da mesma forma que Romanos 5, 12 não contraria o fato de Henoc e Elias não terem morrido, não é contrário à imaculada conceição de Maria.

Mas, alguém poderia objetar, que no caso de Henoc e Elias o texto de Romanos não diz expressamente que houve exceção, mas que as outras passagens são claras a respeito do arrebatamento de Henoc e Elias, e que quanto à imaculada conceição a doutrina não tem texto tão claro.

De fato, mas não se pode exigir da Escritura que todas as doutrinas tenham textos inequívocos, diretos e claros, para que se possa crer. Antes, deve-se entender os princípios, e por uma exegese sadia compreender passagens menos claras através de outras mais claras, de modo que seja possível chegar a uma conclusão sólida. Assim acontece com a doutrina da trindade. Para muitos ela é clara, mas há até denominações inteiras que negam a doutrina usando passagens da Escritura. O fato é que a Igreja desde os primórdios ensinou a doutrina da trindade e a mesma pode ser compreendida por um estudo sério da Bíblia. O mesmo também acontece com a doutrina da imaculada conceição. Para compreender cada doutrina é preciso estar aberto no estudo bíblico, e pedir as luzes do Espírito Santo para levar ao entendimento correto.

Quanto à opinião de Santo Tomás de Aquino, que negou a imaculada conceição, é preciso notar que o mesmo cria na santidade de Maria, afirmando que a mesma foi purificada no ventre da sua mãe e nasceu sem pecado, não cometendo pecado em toda a sua vida.

Para Santo Tomás, a virgem foi concebida como pecado original por ter sido concebida naturalmente, pela união dos dois sexos, que transmitiram inexoravelmente o pecado original. Também, o santo doutor enfrentou a objeção de que se ela não fosse concebida sem pecado não teria sido remida por Cristo.

Não tendo como responder, Santo Tomás cria que a virgem Maria herdou o pecado original, mas foi “dele purificada de algum modo especial”. Podemos afirmar que esse modo especial foi feito na concepção, de modo que Cristo foi o preço para essa preservação do pecado. Desse modo, a virgem foi concebida sem o peado original e foi remida por Jesus Cristo. Isso está de acordo com a dignidade de Cristo.

O protestantismo tenta provar que a virgem Maria herdou o pecado original, não foi purificada, pecou durante sua vida inteira, morreu e não foi ressuscitada e nem levada do céu. Essa doutrina é estranha às Escrituras e nunca foi ensinada na Santa Igreja Católica Apostólica Romana. De fato, a teologia bíblica refuta cada ponto dessa doutrina, como o leitor está verificando ao ler o presente estudo.

Santo Tomás certamente aceitaria a posição oficial da Igreja, da forma como o dogma foi proclamado. Ele de fato não aceitava somente esse ponto da imaculada conceição, aceitando todo o resto da doutrina. A purificação teria ocorrido depois da conceição, e ainda no ventre.

 

11.3 PATRÍSTICA CONTRA O DOGMA DA IMACULADA

            O cristão católico deve crer na imaculada conceição de Maria. É uma doutrina santa, bíblica, razoável, bela. É verdade que ela está implicitamente na Bíblia. Também é verdade que a tradição leva a compreender que a virgem Maria não teve pecado algum. A pretensão de mostrar que essas afirmações estão incorretas não teve êxito.

            Abrindo um parêntese, quando o apologista protestante faz o resumo da doutrina, ele parece ter entendido. No entanto, como visto antes, isso é só aparência.

De fato, no resumo, ele diz que a virgem Maria foi preservada no momento da conceição, mas antes, em suas argumentações, usando um argumento bem conhecido, afirmou que para ser imaculada a virgem deveria nascer de uma mãe imaculada, o que torna a conceição imaculada algo transmissível de mãe para filha, não dependente da ação de Deus para fazer a preservação do pecado. Uma vez que se entende que Deus agiu na pessoa de Maria milagrosamente, o argumento cai por terra.

Então, a virgem Maria herdou as consequências do pecado, como fome, sede, cansaço, morte.

 

Refutação: O que não é a imaculada conceição

 

            O autor admite que a imaculada conceição não anula Cristo como Salvador de Maria. É um grande passo.

            Ter sofrido os efeitos do pecado não implica ter tido o pecado original. Outra grande admissão para prosseguimos no estudo.

 

Refutação: As Escrituras não apoiam

 

O apologista usa três passagens bíblicas que considera contrárias à doutrina da imaculada conceição.

A primeira é Lucas 18, 19: Jesus respondeu-lhe: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus”.

O texto é entendido como ensinando que a bondade per si é exclusivamente de Deus. De fato. Mas, o que isso tem a ver com a imaculada conceição?

O texto pode provar que Jesus é Deus: se Jesus é bom, e somente Deus é bom, então Jesus é Deus.

No entanto, isso não prova que todos os seres humanos sejam maus. Há pessoas boas, por participação. Ninguém é absolutamente bom, mas é bom em união com Deus, pela graça, pela participação na vida de Deus pelo influxo da graça.

O texto não diz que não há ninguém que não seja bom, mas que a bondade é algo que somente pode vir de Deus. O homem pode apropriar-se desse bem.

Também, se todos podem ser bons, todos devem procurar a bondade em Deus. Isso significa que os pecadores precisam de Deus para ser bom. Desse modo, a virgem Maria necessitou da graça de Deus para ser boa. Portanto, ela é boa por participação na graça de Deus, para ser a mãe de Jesus.

Como Maria não é exceção, e não é boa por si mesma, mas depende de Deus, o texto de Lucas 18, 19 não tem nada contra a imaculada conceição.

A regra universal de que “só Deus é bom per si” não exclui os anjos que são bons, e os santos que alcançaram a perfeição e são bons, e também os fieis cristãos que estão vivendo na graça e crescendo nas virtudes. Portanto, se Maria é sem pecado é porque esse privilégio foi dado a ela por Deus.

Assim, se a regra diz que somente Deus é bom por natureza, todos os seres bons deve ter união com Deus. Maria é boa. Então, Maria recebeu essa bondade de Deus.

Essa passagem permite um contraste conceitual, e nos leva a reconhecer a implicação desse contraste. Se somente Deus é bom, Maria não é boa “per si”, como diz o autor. O texto contradiz afirmações que dizem que há criaturas santas por si mesmas, como se pela sua liberdade puderam aperfeiçoar-se pelas suas próprias forças.

Então, como sabemos que Maria é boa, pois é o que nos apresenta a Escritura, pois ela é a serva que engrandece o Senhor, entregando-se totalmente a Deus, dizendo: faça-se em mim segundo a vossa palavra, podemos ter certeza que ela está em união com Deus.

Ela não é sem pecado por natureza, mas por graça. Não é boa por sua própria capacidade, mas por estar na amizade de Deus.

Também, o texto não trata do grau de bondade que as criaturas podem chegar, e por implicação não trata do grau de santidade. Mas sabemos que na glória os santos não têm mais o pecado, sendo totalmente santos. No entanto, estar em plena santidade não faz uma criatura ser deusa. Assim, Maria é sem pecado, toda pura, pois esse é o plano de Deus para os salvos. Ela é santa por participação, por efeito da graça imerecida recebida de Deus. Por isso, Lucas 18, 19 está conforme a imaculada conceição.

O segundo texto é Romanos 3, 23: Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.

Tal passagem sagrada já foi estudada. Mas continuemos. Esse texto não diz respeito a Cristo, mesmo não tendo a indicação clara e explícita para mostrar a exceção. Isso está bem explicado.

No entanto, em relação à virgem Maria podemos chegar á conclusão de sua santidade ao entendermos a santidade de Jesus Cristo e estudarmos textos bíblicos que falam da pessoa da mãe do Messias.

Na eternidade Deus viu todos como pecadores, caídos em Adão. Nessa queda estava a virgem Maria. Então, Deus preparou o meio de santificá-la, predestinando-a para ser a mãe do Salvador Jesus Cristo.

Ninguém pode ser visto por Deus como justo se Deus não o justificar primeiro. Deus justificou Maria. Portanto, Maria é justa.

O terceiro texto é Romanos 5, 12, também já estudo acima: Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso todos pecaram.

Todos pecaram em Adão por ser ele o arquétipo da humanidade. Então, é lógico que Maria pecou em Adão.

A morte está ligada ao pecado, e todos que possuem a natureza decaída morrem. Isso é o que diz o apologista. Tal afirmação já está refutada, quando tratamos de Henoc e Elias que não morreram.

Ainda, se os efeitos do pecado incluem a morte, como citados antes, e os efeitos não provam que o pecado original existe, pois Cristo passou pela morte, então a morte não prova a existência do pecado original naquele indivíduo.

Assim como Henoc e Elias não morreram e possuíam o pecado original, alguém que não tenha o pecado original pode morrer.

Mas, o apologista explica que Cristo morreu por fazer-se pecado por nós. De fato, Cristo morreu no lugar do pecador, sem ter Ele mesmo pecado. Ele de fato morreu, mas o pecado não foi associado ao seu ser, mas assumido para ser expiado como vítima inocente.

Desse modo, Cristo morreu verdadeiramente, mas não pecou. Se alguém assumir que o pecado foi de fato transferido para a pessoa de Cristo, o Salvador teria morrido como vítima culpada, invalidando sua morte vicária. Ele devia ser inocente, assumir a culpa, morrer de verdade, sem pecado. Assim, não foi o pecado que o fez morrer, pois não o tinha. Nem o pecado da humanidade, pois esse não podia ser transferido para Sua Pessoa que é divina.

Cristo morreu por ter herdado a natureza santa mas com efeitos da queda, como citados antes: fome, sede, cansaço, morte. É possível então que o santo pudesse morrer sem pecado.

De fato, a tradição mais antiga da Igreja admite que a virgem Maria morreu, e isso não é objeção contra a imaculada conceição, como ficou claro.

A ideia de que se Maria morreu ela herdou o pecado original não é um raciocínio católico, mas é feito pelo apologista protestante. Isso fica claro pelo fato de São João Damasceno e do papa São João Paulo II ter crido na morte de Maria e ao mesmo tempo ensinar a imaculada conceição, pois são duas verdades que caminham juntas.

O apologista protestante continua a afirmar que se Maria participou da morte isso é possível porque ela teve a natureza pecaminosa. Sim, ela teve a natureza humana idêntica a todos os seres humanos, mas sem o pecado, pois foi preservada. No entanto, é a mesma natureza, que possui os efeitos do pecado.

Outra contradição é a seguinte: Jesus herdou a natureza de Adão antes da queda, pois não poderia ter herdado a natureza pós-queda, pois teria herdado o pecado original. E o motivo seria que Ele foi concebido sem relações sexuais.

O problema é que Cristo foi gerado no ventre de Maria, sendo feito da Mulher (cf. Gálatas 4, 4). Se Maria herdou a natureza pós-queda, como dela seria gerada a natureza antes da queda para formar o corpo de Jesus?

De fato, a natureza antes da queda não tinha efeitos da queda como fome, sede, cansaço e morte. Jesus teve natureza idêntica a todos, com os efeitos acima assinalados.

Então, a natureza de Jesus, que é explicitamente santa, e que herdou essas fraquezas, mostra que esses sinais não são o pecado original. Assim, a natureza de Jesus foi herdada de Maria, pois Cristo nasceu de mulher. Então, é possível concluir sem problemas que Maria foi sem pecado.

Se Maria morreu de amor, no sentido de associá-la a Cristo, como co-redentora, isso não a faz “deusa”, já que é apenas uma associação da pessoa de Maria como discípula fiel de Cristo eleita por Deus para esse papel como a primeira que acreditou. A morte de Maria é uma participação da morte de Cristo. Por isso, ela ressuscitou com Ele.

Maria não herdou o pecado original, não cometeu pecados pessoais, morreu santamente, foi ressuscitada e elevada aos céus em corpo e alma para a glória celestial.

Dessa forma, não há na Escritura nenhuma base para contrariar a doutrina da imaculada conceição.

Gledson Meireles.