Santo Tomás explica a santificação de Maria: comentário sobre a doutrina
Maria
foi santificada antes do seu nascimento. A primeira objeção é que primeiro há o
natural, depois o espiritual. Santo Tomás responde que também em Maria há o
natural, e depois o espiritual.
Certamente,
ele não fala da imaculada conceição, mas da animação natural, depois da
purificação de Maria no ventre da sua mãe. O princípio é o mesmo: Santo Tomás
acreditava que Maria foi criada e teve contato com o pecado original e logo
após foi redimida. Na imaculada conceição isso ocorre no momento da concepção:
a concepção vai ocorrer no pecado e Deus redime aquela pessoa no mesmo
instante. É apenas uma diferença temporal. No tempo de Santo Tomás ainda não
havia esclarecido esse ponto básico, mas o mesmo ensina que Maria nasceu sem
pecado.
A
segunda objeção é que é necessário nascer na carne previamente e depois nascer
do espírito. Objetavam que a santificação deveria ocorrer após o nascimento de
Maria. Santo Tomás afirma que Deus pode conceder a graça a alguém que ainda não
nasceu.
A
terceira objeção é que se Maria foi santificada do pecado original antes de
nascer, se ela morresse poderia entrar no céu antes da morte de Cristo na cruz
(cf. Hb 10, 19). A resposta é que a santificação do pecado original, da mancha
pessoal, foi feita antes do nascimento, mas não foi tirada a culpa que está em
toda a natura, que somente pode entrar no Paraíso através do sacrifício de
Cristo. Com isso, Santo Tomás explica que assim como os santos padres que
viveram antes de Cristo, caso a virgem Maria morresse antes da morte de Cristo,
deveria aguardar a ressurreição de Cristo para entrar no céu.
A
quarta objeção tem o fato de que o pecado original é transmitido pela origem,
assim como o pecado pessoal o é pelo ato. Alguém no ato de pecar não pode ser
purificado. Assim, a bem-aventurada virgem Maria não poderia ser purificada no
ato da origem. Santo Tomás responde que nada impede que seja purificada após a
animação, ou seja, após receber a alma. Após isso ela permaneceu no ventre para
aperfeiçoamento do que recebeu.
Então,
surge a questão de que a mesma foi santificada antes da animação, pois ela
recebeu mais graça do que qualquer outro santo. Assim, a santificação de Maria
deve ser maior que a de Jeremias (cf. Jr 1, 5) e de João Batista (Lc 1, 15).
Santo Tomás responde que Jeremias foi conhecido antes de ser formado, mas foi
santificado antes do nascimento. Quanto a João Batista, que tinha a graça antes
de ter o espírito de vida, ele já tinha o espírito de vida, interpretado como o
ar que respiramos, não a alma. Assim, não haveria santificação de João Batista
antes do recebimento da alma, ou que a alma não tinha suas operações completas
ainda.
A
segunda objeção dessa sessão é que a santidade de Maria é, abaixo de Deus,
ninguém possui maior graça. Cita Ct 4, 7. Ela seria maior se nunca estivesse
com o pecado original. Assim, ela seria santificada antes que sua carne fosse
animada, ou seja, antes do recebimento da alma.
Assim,
Santo Tomás explica que Maria nunca tivesse incorrido na mancha do pecado
original isso seria derrogatório à
dignidade de Cristo. Essa é a dificuldade. Significaria que ela não foi
salva por Cristo. Então, depois de Cristo, que não precisou de salvação, a
pureza da virgem Maria está no mais alto lugar. Cristo não contraiu o pecado
(cf. Lc 1, 35), mas a virgem sim, afirma Santo Tomás, mas foi santificada antes
do seu nascimento.
Então,
para responder mais, cita Jó 3, 9 e Sabedoria 7, 25, afirmando que a virgem
Maria foi imune ao pecado original no seu nascimento.
No
contexto, temos que admitir que a virgem Maria, no pensamento de Santo Tomás,
precisou ser santificada em momento anterior ao do profeta Jeremias e de João
Batista, conforme a objeção, pois ela recebeu maior graça. A dificuldade é que
não havia lugar para ensinar que a mesma nunca tinha obtido a mancha do pecado.
A doutrina da imaculada conceição concede que Maria pecou em Adão e foi
santificada na concepção. No caso de Cristo, nunca houve santificação, pois Ele
não precisou, pois é santíssimo e não necessita de salvação. Há essa diferença
em todo o contexto, e as bases da imaculada conceição permanece. Maria tem
santidade maior entre os santos. Portanto, sua santificação foi em momento
anterior àquele que ocorreu nos maiores santos.
Percebe-se
que esse momento trata mais especificamente da imaculada conceição. Mas, ainda
há algo diferente, segundo o pensamento antigo. A santificação deveria ocorrer
na carne, antes da alma ser criada. Sabemos que isso não ocorre, pois a alma é
criada no momento da concepção. A doutrina da imaculada conceição significa que
a santificação ocorre no mesmo momento.
A
terceira objeção parte da festa da conceição de Maria. Objeta-se, assim, que
isso torna necessário que ela tenha sido santificada antes da animação. Essa
problemática não ocorre hoje, pois não se pensa que a alma seja infundida no
feto após a concepção.
A
resposta de Santo Tomás é que em Roma não havia a celebração da conceição de
Maria, como em outros lugares, e isso era tolerado na Igreja. Ainda, não havia
consenso sobre o momento em que ela foi santificada, e então a festa ocorria no
dia da sua conceição.
A
Bíblia não fala da santificação e do nascimento de Maria. Mas, como Santo
Agostinho, com razão, diz Santo Tomás, admitindo que o corpo da virgem Maria
foi levado ao céu, ainda que a Escritura não relate o fato. Santo Tomás afirma
que é razoável crer que Maria recebeu maior privilégio que todos, citando Lucas
1, 28. Como outros foram santificados no ventre, assim também Maria. Portanto,
se ela recebeu maior graça que todos, isso leva a crer que há algo diverso na
sua santificação. É a imaculada conceição.
Hoje,
sabemos que a conceição é o momento em que a alma é infusa, e a santificação
ocorreu o mais cedo possível. Assim, o princípio leva à crer na imaculada
conceição, ainda que no entendimento de que a mesma foi resgatada do pecado de
Adão que atinge a natureza humana.
A
quarta objeção é que a virgem foi santificada em seus pais, antes da animação.
Nesse ponto, Santo Tomás explica que a santificação é dupla: a santificação da
natureza inteira, livrando de toda corrupção e punição, o que será feito na
ressurreição. A outra é pessoal, que não é transmitida aos filhos, pois diz
respeito à mente. Assim, a virgem foi concebida no pecado original, pela
concupiscência carnal e relação entre homem e mulher.
A
resposta de hoje seria que a santificação no momento da concepção deve-se a
essa realidade do peado original atingir a natureza humana. Então, a virgem
Maria foi purificada da corrupção naquele momento, o que melhor se chama
preservação, já que sua pessoa passou a existir naquele instante.
As
coisas ocorridas no Antigo Testamento são figuras do novo. Assim, a
santificação do Tabernáculo (Sl 45, 5; 18, 6). E citando Ex 40, 31-32, conclui
que a santificação de Maria ocorreu quando tudo nela foi aperfeiçoado, ou seja,
seu corpo e sua alma. Atualmente sabemos que a santificação ocorreu na
concepção. Assim, ela foi santificada na sua conceição.
Santo
Tomás apresenta as razões porque não acreditar que a santificação de Maria
ocorreu antes da animação. Hoje também cremos que a santificação não ocorreu
antes da animação, mas no mesmo instante.
Como
antes da animação não existe pessoa racional, a virgem não poderia ter sido
santificada antes.
Somente
a criatura racional pode pecar. Se houve santificação antes da animação, não
haveria a mancha do pecado original, e então Maria não necessitaria de redenção
e salvação. Por isso, Santo Tomás ensinou que a santificação foi após a
animação.
Hoje,
uma vez que cremos que o pecado de Maria em Adão é o motivo para sua
santificação, e que o momento da concepção garante que a mesma foi preservada
do pecado e portanto salva por Cristo, temos que há toda a conciliação desses
princípios trazidos por Santo Tomás.
A
próxima e primeira investigação do tópico, diz respeito à purificação da
infeção dos fomes. Objeta-se que a virgem
não foi totalmente purificada. Santo Tomás afirma que a virgem Maria, para ser
conforme Seu filho, do qual sua plenitude de graça derivou, os fomes foram bloqueados e depois
eliminados.
A
segunda é tirada de 2 Cor 12, 9, onde o poder é aperfeiçoado na enfermidade.
Assim, a virgem não poderia ter sido totalmente purificada. Santo Tomás afirma
que a enfermidade da carne não é sine qua
non para a perfeição. A virgem tem virtude perfeita e graça abundante.
A
terceira objeção é fundamentada nas palavras de Damasceno, onde a virgem é
purificada antes de conceber Jesus. Mas, sendo que ela não cometeu pecados,
como afirma Santo Agostinho, então seria a purificação dos fomes, que não teria sido totalmente feita no ventre.
A
purificação que o Espírito Santo efetuou em Maria para prepará-la para a
maternidade não foi em relação ao pecado. Na concepção de Cristo pode-se dizer
que Maria foi totalmente purificada.
Santo
Tomás cita Ct 4, 7, o que significa que Maria não tinha pecado algum. Muitas
opiniões havia sobre isso. Alguns ensinavam que Maria foi totalmente purificada
no ventre. Outros afirmam que ela herdou a dificuldade em fazer o bem, mas não
a propensão ao mal. Outros afirmam que foi retirada a corrupção pessoal, que
inclina ao mal, e dificulta agir bem, mas teria ficado a corrupção da natureza.
Outros ensinam que os fomes ficaram
essencialmente na virgem Maria em sua primeira santificação, mas foram
bloqueados. Somente a imortalidade da carne não havia ainda sido concedida
Maria.
Na
quarta parte, a questão primeira é se a virgem foi santificada e preservada do
pecado atual, já que possuía os fomes,
a lei da carne. Mas, Santo Tomás explica que a providência preveniu a virgem,
aperfeiçoando o bloqueio dos fomes,
não permitindo o pecado.
A
segunda é que a espada de dor seria a dúvida de Maria. A resposta é que muitos
explicam essa espada como a tristeza. A dúvida seria de maravilha e discussão,
não de incredulidade.
A
objeção três há diversas citações que indicariam pecados de Maria. Santo Tomás
afirma que São João Crisóstomo vai longe demais. Santo Tomás afirma que Cristo
corrigiu em Maria não a vanglória de si mesma, aquilo que poderia estar no
pensamento de outros.
Santo
Tomás cita Santo Agostinho, que escreveu que em matéria de pecado é desejo
excluir todas as questões concernentes à virgem Maria, por causa da honra a
Cristo. Maria não seria digna de ser mãe de Deus se ela tivesse pecado. Cita
Provérbios 17, 6; 2 Cor 6, 15; 1 Cor 1, 24 e Sb 1, 4. Cumpre-se o que está em
Ct 4, 7.
Agora,
Santo Tomás responde objeções se Maria recebeu a completude da graça. A
primeira objeção afirma que só Cristo era cheio de graça. Ele afirma que Maria
recebeu a plenitude da graça por estar próximo do Autor da graça. Ele recebeu
dentro dela quem é cheio de graça e por dar à luz ela, em certo modo, dispensou
a graça a todos.
Na
segunda objeção é dito que nada pode ser acrescentado ao que já é cheio, mas
Maria recebeu graças adicionais. A resposta de Santo Tomás é que Maria recebeu
a santificação tripla: a primeira a tornou digna para ser a mãe de Cristo, a
segunda é a presença de Cristo em seu ventre e a terceira é a que ela tem na
glória. Ele aprofunda nessa questão de uma forma bela.
A
terceira objeção tem a ver com as graças recebidas que não são usadas. A
resposta é que Maria recebeu as graças de acordo com sua condição de vida.
E
o artigo seis responde se é apropriado a Maria ser santificada no ventre. Então
somente Maria foi santificada. Santo Tomás responde que Jeremias e João Batista
também o foram, mas Maria recebeu maior graça, graça mais completa.
A
segunda objeção é que homens mais próximos a Cristo não foram santificados no
ventre. E isso excluiria Jeremias e João Batista. Santo Tomás afirma que esses foram mais
próximo de Cristo por preanunciar sua santificação.
E
Jó afirma que a misericórdia cresceu com ele, desde o nascimento. A resposta é
que tal não é a santificação no ventre, mas uma certa inclinação natural ao ato
de virtude.
Desse
modo, vemos que Santo Tomás ensinou a imaculada conceição porque acreditava que
isso faria de Maria uma exceção ao fato de que Jesus é o salvador de todos. Uma
vez resolvido isso, tudo fica praticamente igual: Maria nasceu santa, é a mais
santa de todos os santos, não teve nenhum pecado, foi assunta ao céu.
Gledson Meireles.