segunda-feira, 4 de maio de 2026

LIVRO: TIMM, Alberto R. O Sábado na Bíblia. A hermenêutica e os métodos de interpretação

Comentário: Princípios de interpretação bíblica

Para Alberto Timm, uma das razões para a observância do sábado do sétimo dia da semana e que em Gênesis 2, 2-3, Deus descansou nesse dia, o santificou e abençoou.

A partir disso, o autor afirma que os debates relacionados à guarda do sábado ou do domingo são em grande parte de natureza hermenêutica, nutridos por métodos de interpretação e tendenciosos filtros pessoas que condicionam o entendimento da doutrina bíblica.

Comentário: Métodos de Interpretação Bíblica

O autor afirma que os “intérpretes cristãos comprometidos com a filosofia grega” começaram a interpretar a Bíblia de forma alegórica, tornando o método predominante na Idade Média.

Com isso, refere-se em nota à obra de São Justino, Diálogo com Trifão, I Apologia, 67, onde o mesmo trata da guarda do domingo.

O texto de São Justino afirma o seguinte sobre esse ponto específico: “Celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos.

Nessa passagem, São Justino está apresentado a fé cristã ao imperador pagão, e por isso usa linguagem familiar ao mesmo, chamando o domingo de “dia do Sol”, assim adiante se refere ao sábado como dia de saturno.

Não está fazendo uma alegoria, mas mostrando o motivo dos cristãos observarem o domingo, o primeiro dia da semana. Uma das razões apresentada refere-se à criação. Trata-se do dia da criação da luz. Esse motivo é associado à ressurreição de Cristo. Com base nessa conexão entre a criação da luz e a ressurreição do Senhor, tem-se que o Senhor é a luz da nova e eterna aliança.

Isso não destitui o sábado do seu significado. Ao mesmo tempo, situa o cristão para a compreensão do domingo. É a teologia fundamental para a observância do sábado dominical.

Esse fato já aparece por volta do ano 155 d. C. e não traz sinais de que seja novo, mas expressa a compreensão cristã oficial da Igreja. Os cristãos observavam o primeiro dia da semana pelos motivos citados. Com certeza, São Justino utilizou a denominação dia do sol para apresentar o verdadeiro Sol que é Jesus, e não porque estava fundamentando a teologia cristã no costume pagão. O imperador, por meio dessa apresentação, vislumbrava Jesus Cristo.

São Justino não desenvolve toda a teologia do domingo, mas apenas mostra o motivo da sua observância, que é em última análise a ressureição de Jesus Cristo. Com isso, não há nenhum vestígio de destituição do significado do sábado.

O autor apresenta o alegorismo, o método crítico-histórico, o dispensacionalismo e o leitor como referencial de interpretação considerados nocivos para a compreensão a Bíblia.

O estudo sobre o sábado e o domingo, feito aqui, é fundamentado na Bíblia, em seus dois sentidos, o literal e o espiritual. Todo sentido é baseado no literal, e o espiritual deve acompanhá-lo, para que compreendamos a Lei com o coração circuncidado, entendendo o espírito da lei (cf. Rm 2, 29).

Os outros sentidos estão contidos no espiritual, que são o alegórico, moral e anagógico. No sentido alegórico os fatos são entendidos mais profundamente em Cristo. Portanto, trata-se de uma interpretação plenamente legítima da Sagrada Escritura.

Gledson Meireles.

domingo, 3 de maio de 2026

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

LIVRO: O Sábado na Bíblia: Por que Deus faz questão de um dia. Sobre o exemplo de São Paulo em relação ao sábado

O Sábado na Igreja Apostólica


Alberto Timm acredita que há várias evidências da observância do sábado no Novo Testamento. Essas passagens serão estudadas pormenorizadamente para entender o argumento adventista do sétimo dia.

Em primeiro lugar a evidência estaria relacionada ao exemplo de São Paulo e seus companheiros. O exemplo de São Paulo confirmaria que, assim como Jesus, ele frequentava a sinagoga nesse dia.

A evidência seria que em Lucas 4, 16 Jesus “Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume”. Essa expressão “segundo o seu costume” indicaria o mesmo que era praticado por São Paulo quando em Atos 17, 2 pode ser lido: “Paulo dirigiu-se a ele, segundo o seu costume, e por três sábados disputou com eles”.

Então, textualmente, teríamos que Jesus tinha o “costume” de ir à sinagoga no sábado assim também São Paulo frequentava a sinagoga “segundo o seu costume”.

Entretanto, em Atos dos Apóstolos, a passagem de Atos 13, 14.42.44 seria exemplo de ao menos dois sábados guardados por São Paulo e seus companheiros, a de Atos 17, 2, onde São Paulo e Silas vão três sábados à sinagoga e Atos 18, 4.11 onde São Paulo frequenta a sinagoga todos os sábados durante um ano e seis meses.

Assim, Alberto Timm afirma que o motivo de São Paulo ir às sinagogas não era apenas evangelístico, mas também litúrgico, pois ele mantinha o costume mesmo onde não havia sinagoga, como em Atos 16, 13. Esse fato sugere “uma reflexão espiritual condizente com a observância do sábado”.

Pois bem. São Paulo ia à sinagoga aos sábados como cristão para participar da liturgia e cumprir o mandamento, e não apenas para evangelizar. Esse é o argumento de Alberto Timm. Abaixo será feito um estudo para analisar o argumento.

Primeiro, é um fato que Jesus os apóstolos guardavam o sábado, que era o dia de guarda em todo o Antigo Testamento para todos os judeus. Por isso, é um fato que Lucas 4, 16 afirma do costume de Cristo de ir aos sábados na sinagoga para ali cultuar a Deus.

No entanto, a frase “segundo o seu costume”, em Atos 17, 2, está em outro contexto. A passagem literalmente pode ser vertida assim: “De acordo com, agora, o costume, com Paulo, ele foi a eles, por sábados três ele disputou com eles à base das Escrituras”.

Conforme a tradução da Bíblia Ave Maria, o costume dito no texto é dirigir-se aos judeus para pregar o evangelho. A informação sobre o costume é ir ter com eles, e depois, após a conjunção “e”, o texto continua: “e por três sábados...”, mostrando o período em que isso ocorreu.

Então, não está escrito que São Paulo tinha o costume de ir às sinagogas para cumprir o mandamento do sábado como obrigatório para o cristão. Está escrito, antes, que ele tinha por costume ir aos judeus para disputar sobre o ensino das Escrituras com eles e, aos sábados, debatia com eles, pois era nesse dia que os mesmos se reuniam.

Ainda que São Paulo fosse à sinagoga segundo o seu costume, isso não diz respeito ao seu ensino de que era necessário ir à sinagoga aos sábados. De fato, ele cumpria a lei como judeu, mesmo depois de convertido a Cristo, e ia ao templo fazer as orações, fazia votos, participava das festas judaicas, circuncidava, quando era necessário, e, também, obviamente, guardava o sábado.

No entanto, não fazia isso para obrigar os cristãos vindos de outras culturas, mas apenas como costume judeu. Ele não ensinava os convertidos a guardar o sábado, guarda as festas, fazer votos e sacrifícios, ir ao templo, etc. De fato, quando ia ao templo não levava nenhum cristão de origem gentia (Atos 20, 28). Isso é evidente de que não ensinava os cristãos gentios a guarda da lei, incluindo o sábado.

Desse modo, logo após o concílio de Jerusalém, que havia decidido não impor a circuncisão como requisito de salvação aos cristãos não judeus, ele circuncida São Timóteo, que era filho de mãe judia e pai grego, mas o faz “por causa dos judeus daqueles lugares, pois todos sabiam que o seu pai era grego” (Atos 16, 3).

Isso significa que mesmo pregando que não havia mais a necessidade da circuncisão, os judeus teriam dificuldade em aceitar a pregação de um não circuncidado, e por isso prudentemente São Paulo preferiu circuncidar Timóteo.

Pode-se, com esse exemplo, vislumbrar a guarda do sábado por São Paulo. Quando o mesmo cumpria práticas judaicas não era como exigência cristã, mas para não ofender aos judeus que ainda eram apegados à lei, e com isso facilitar a evangelização. Assim, o exemplo da circuncisão de Timóteo e as idas ao templo, mas nunca entrando no templo com um não judeu.

O texto de Atos 13, 14 afirma que Paulo e seus companheiros entraram na sinagoga e sentaram. Então, apresenta São Paulo pregando o evangelho naquela sinagoga.

São Paulo e São Barnabé foram enviados a pregar. Isso ocorreu em momento de culto, que, diga-se de passagem, provavelmente foi feito no domingo (cf. Atos 13, 2).

Assim, no verso 5 está escrito: “Chegados a Salamina, pregavam a Palavra de Deus nas sinagogas dos judeus.” O contexto do capítulo é o envio para a pregação da Palavra de Deus aos judeus.

Então, os judeus pediram a Paulo que voltasse à sinagoga no sábado seguinte. Esse é o verso 42. Em Atos 13, 44 é mostrado como isso ocorreu: “No sábado seguinte, afluiu quase toda a cidade para ouvir a Palavra de Deus”. Novamente o contexto da pregação da Palavra.

Após a rejeição dos judeus, São Paulo e São Barnabé vão anunciar a Palavra de Deus aos pagãos (Atos 13, 46).

O mesmo contexto explica Atos 16, 13. Em Atos 16, 9 São Paulo tem a visão de um macedônio rogando auxílio. Com isso, entendeu que Deus chamava-os para pregar o evangelho na Macedônia.

Nesse contexto, após dias na cidade de Filipos, São Paulo e São Timóteo foram no sábado onde perceberam haver oração. Era perto de um rio. Ali se assentaram e pregaram o evangelho. Batizaram Lídia e sua família naquele rio (Atos 13, 14-15).

Em Atos 18, 4 lê-se que “Todos os sábados ele falava na sinagoga e procurava convencer os judeus e os gregos”. Após a rejeição dos judeus “ele, sacudindo as vestes, disse-lhes: “O vosso sangue caia sobre a vossa cabeça! Tenho as mãos inocentes. Desde aogra vou para o meio dos gentios” (Atos 18, 6).

É certo que não voltou às sinagogas ali, e não pregou aos gentios que o dever de reunir-se aos sábados.

Entretanto, em Atos 19, 8-10, vemos que São Paulo prega sobre o Reino de Deus na sinagoga por três meses. Mas, devido ao endurecimento e incredulidade dos judeus, passou a reunir-se à parte, todos os dias, na escola de Tirano (v. 9).

Então, é evidente que São Paulo, São Barnabé, São Silas, etc., entravam nas sinagogas para pregar a Palavra e o Reino de Deus e não com motivos litúrgicos.

Quando isso não era mais possível, partiam para os pagãos e escolhiam outro lugar para as reuniões de ensino, que não eram mais feitas aos sábados, mas segundo a disponibilidade, como diariamente.

Desse modo, o costume de São Paulo tem a ver com a pregação aos judeus. O contexto dessas passagens era a pregação da Palavra de Deus. Em nenhuma delas é ensinado que São Paulo e seus companheiros guardaram o sábado como prática cristã obrigatória, e nenhuma os apresenta ensinando essa prática na igreja.

a)  A expressão segundo o seu costume diz respeito ao costume de pregar a palavra aos judeus.

b)  Todas as vezes em que São Paulo é mostrado nas sinagogas é com o objetivo de evangelizar.

    É evidente que o mesmo não ensinou o sábado aos novos cristãos, assim como não ensinou a circuncisão.

A segunda evidência apresentada por Alberto Timm é que a condição para os judeus se tornarem cristãos era a aceitação de Jesus Cristo, não incluindo a aceitação do domingo no lugar do sábado.

Os exemplos são Atos 2, 37, da conversão do das pessoas em Pentecostes, Atos 8, 36.37, do eunuco e Atos 16, 30.31, do carcereiro.

No entanto, também nessas passagens não é dito que não devem circuncidar-se, o que é claramente ensinado no Concílio de Jerusalém. Portanto, não há evidência alguma de que os cristãos deveriam continuar guardando do sábado.

A terceira evidência seriam as discussões no Concílio de Jerusalém, que não tratou da guarda do domingo porque não era um ponto em disputa. Os apóstolos não ensinavam a circuncisão, mas permitiam que fosse feita em casos como o de Timóteo. Também não ensinavam que os cristãos deviam orar no templo, mas iam ao templo todos os dias. Da mesma forma, não ensinavam o sábado, e reuniam-se aos domingos, embora pudessem frequentar a sinagoga aos sábados e pregar o evangelho. Não havia uma tensão entre a guarda do sábado e do domingo.

A quarta evidência estaria relacionada às declarações de São Paulo no contexto do seu julgamento, onde o mesmo afirma não ter pregado contra a lei, contra o templo, contra César.

Porém, pode-se contra argumentar, pois é certo que São Paulo não ensinava mais a circuncisão, e, como foi definido no concílio, a circuncisão não poderia ser realizada para fins de salvação, pois separaria de Cristo. Em geral, não era praticada pelos cristãos.

No entanto, ele mesmo não pregava contra a circuncisão, pois essa era proveitosa para os judeus, em todos os aspectos, como ensina em Romanos 3, 2.

E, em certos casos, para não escandalizar, praticou a circuncisão, como no caso de Timóteo, e submeteu-se a cumprir votos para testemunhar sua paz com a fé de Israel: Então, Paulo acompanhou aqueles homens no dia seguinte e, purificando-se com eles, entrou no templo e fez aí uma declaração do termo do voto, findo o qual se devia oferecer um sacrifício a favor de cada um deles (Atos 21,26). Isso ocorria por causa dos judeus, que abraçavam a fé sem abandonar seu zelo pela Lei (Atos, 21, 20).

O contexto inteiro mostra que o intuito era fazer crer que São Paulo não pregava contra a Lei aos cristãos convertidos de origem judaica e que ele mesmo praticava a Lei.

Deviam saber que não era verdade que o apóstolo pregava o abandono da lei aos judeus convertidos, como a circuncisão e os costumes mosaicos.

É evidente que a pregação sobre a liberdade em relação à Lei era direcionada aos gentios e não aos judeus, que podiam cumprir os preceitos da lei no espírito do evangelho sem problemas.

Foi vedado, porém, pelo Concílio de Jerusalém, a ensinar a obrigatoriedade da Lei aos conversos provenientes do paganismo. E, pois, evidente, que isso não era exigido dos que creram dentre os gentios (Atos 21, 25). Assim, a mesma prudência era tida com relação ao sábado.

TIMM, Alberto R. O Sábado na Bíblia: Por que Deus faz questão de um dia. CPB: Tatuí, SP, 2023.

Gledson Meireles.

domingo, 26 de abril de 2026

Livro: Sabbath under crossfire. Comentário do capítulo 1, parte 1. Autor: Samuele Bacchiocchi

Do livro: Sabbath under crossfire. Autor: Samuele Bacchiocchi

Comentário

 

CAPÍTULO 1

JOÃO PAULO II

E

O SÁBADO

 

            O capítulo 1 é uma análise do erudito adventista do sétimo dia, Dr. Samuele Bacchiocchi, da carta pastoral do papa João Paulo II, de 31 de maio de 1998, Dies Domini, sobre a observância do domingo.

            O Dr. Bacchiocchi parece ficar surpreso que o papa apele para o imperativo moral do sábado. Isso é curioso. Também porque o papa fala da necessidade de legislação civil para facilitar a observância dominical.

            Então, a análise não é dos aspectos da observância do domingo, mas como o papa lida com o sábado na tentativa de justificar e promover a guarda do domingo.

 

Parte 1: A conexão teológica entre o sábado e o domingo

 

O Dr. Bacchiocchi afirma que um “aspecto surpreendente” da carta pastoral é a defesa do domingo como expressão completa do sábado, e afirma que isso significa um distanciamento, em certos sentidos, da explicação tradicional católica de que a observância do domingo é uma instituição católica diferente do sábado.

Para isso, menciona os teólogos católicos, e cita diretamente Santo Tomás de Aquino. Na citação de Vincent J. Kelly, esse apresenta o entendimento tradicional da substituição do sábado pelo domingo, e afirma que então aquela “teoria” estava abandonada, pois Deus teria dado à Igreja o poder de escolher dias santos.

E o Dr. Bacchiocchi vê descontinuidade entre o sábado e o domingo na apresentação feita no catecismo, citando o número XXXXXXXXXXX.

Com isso, o Dr. Bacchiocchi afirma que o papa se distancia da distinção tradicional que a Igreja tem feito entre o sábado e o domingo, “presumivelmente porque ele quer fazer da observância do domingo um imperativo moral enraizado no próprio Decálogo”.

Após isso, Bacchiocchi alude ao contraste da visão do papa com os autores da Nova Aliança e Dispensacionalistas que ensinam a radical descontinuidade entre sábado e domingo.

Avaliação: O Dr. Bacchiocchi ficou surpreso com a abordagem teológica do papa João Paulo II em sua carta sobre a observância do Domingo, porque em sua concepção de estudioso adventista do sétimo dia, a doutrina católica ensina que o domingo é uma instituição eclesiástica e tem outra natureza que a do sábado, vindo a ser estabelecida por autoridade da Igreja e por costume.

No entanto, para a doutrina cristã católica, essa não é a posição oficial. Por isso, o papa está com certeza na esteira da teologia católica tradicional em sua doutrina sobre a guarda do domingo, e não se afasta em nada dessa teologia.

Por outro lado, as afirmações de autores, mesmo católicos, no sentido da citação de Vincent J. Kelly, são essas que se distanciam e contradizem a posição oficial da Igreja Romana.

Por esse motivo, nota-se que o Dr. Bacchiocchi concebe a doutrina do domingo a partir dos pressupostos adventistas, o que explica sua surpresa ao ver que o papa lida com o tema da mesma forma que os adventistas do sétimo dia fazem em relação do sábado. Isso mostra que mesmo os eruditos, lendo fontes católicas, muitas vezes não apreendem o sentido da doutrina da Igreja, por encontrarem afirmações pouco precisas e lerem outras através das lentes que da própria denominação. Os leitores podem verificar a doutrina do domingo em outros artigos no blog, que demonstram que o papa João Paulo II expressa a correta e tradicional teologia católica.

 

Os sentidos criativos e redentores do sábado. “should especially thrill Sabbatarians”. Bacchiocchi reconhece que a visão do papa é uma profunda visão teológica, e afirma que desenvolveu o mesmo sentido em um dos seus livros.

O sábado define nossa relação com Deus. Essa porção do documento é bastante elogiada por Bacchiocchi.

O domingo como cumprimento do sábado. Na citação da cara Dies Domini, o papa afirma que “mais” que substituição, o domingo é o cumprimento do sábado. Afirma que a tentativa do papa “é muito engenhosa, mas carece de suporte bíblico e histórico”. Entretanto, não encontra no NT os cristãos interpretando o domingo como a “personificação e cumprimento” do sábado, e afirma que o mesmo difere em autoridade, significado e experiência.

Avalição. Como cristão adventista, o mesmo exige algo claro na Bíblia, uma passagem, por exemplo, mostrando o entendimento do dia do Senhor, o domingo, como cumprimento do sábado. O papa entende essa doutrina pela totalidade da Bíblia, e não por uma passagem específica no NT, mas pela expressão doutrinal do NT como um todo, assumindo a doutrina inteira do AT em relação ao sábado. É uma expressão do espírito da doutrina e não a apresentação apenas de uma passagem expressa onde a mesma se encontra.

Diferença em autoridade. O sábado tem ordem explícita (Gn 2,2-3; Ex 20, 8-11; Mc 2, 27-28; Hb 4, 9), e o domingo derivaria de uma interação de vários fatores, como sociais, políticos, pagãos e religiosos. A falta de autoridade bíblica para a guarda do domingo seria também fato que contribuiria por sua crise.

Avaliação. O Dr. Bacchiocchi cita quatro textos para provar que o sábado tem ordem bíblica explícita para sua observância. No entanto, apenas as passagens de Gn 2, 2-3 e Ex 20, 1-11 cumprem esse objetivo, pois no NT não há ordem dessa natureza.

Os textos de Mc 2, 27-28 e Hb 4, 9 dizem o seguinte:

E dizia-lhes: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado; e, para dizer tudo, o Filho do Homem é senhor também do sábado”.

Por isso, resta um repouso sabático para o povo de Deus.

Jesus afirma que o sábado deve servir ao homem, e que Ele é Senhor também do sábado. E em Hebreus é afirmado que resta um repouso sabático, futuro, para o povo de Deus. Em nenhum momento há “uma ordem bíblica explícita” nesses textos. Na verdade, há uma teologia neles que indicam algo mais.

Jesus afirma que o sábado não era como os fariseus acreditavam, e deveria ser guardado de uma forma diversa, servindo ao homem e não sendo uma carga. Isso todos estamos de acordo, adventistas e católicos. E, ainda, em Hebreus o que está sendo tratado é o repouso definitivo no reino de Deus. Como isso, as duas passagens não são ordem explícitas da Bíblia para guardar o sábado.

O sábado (repouso) no sétimo dia foi observado até os dias de Jesus, e não mais após a sua ressurreição, como dia de adoração para os cristãos.

Diferença em significado. O papa reconhece a necessidade de fazer da observância do domingo um imperativo moral e tenta enraizar o domingo no próprio mandamento do sábado. Mas, diz o Dr. Bacchiocchi, o domingo não é o sábado.

Assim, afirma que o sábado é memorial da perfeita criação de Deus, da redenção completa, e da restauração final. Por sua vez, o domingo é, na patrística, a criação da luz no primeiro dia, o símbolo do novo e eterno mundo e o memorial da ressureição de Cristo.

A tentativa de transferir para o domingo a autoridade e significado do sábado falharia, pela mudança da data.

Avaliação. As objeções falham radicalmente. Em primeiro lugar, o Dr. Bacchiocci apresenta o resumo da teologia do sábado na bíblia e a compara com algumas afirmações sobre o domingo na patrística, fazendo um contraste e tirando uma conclusão. Essa desequilibrada comparação é falha, pois o que está sendo tratado é o domingo como cumprimento do mesmo sábado antigo, pelos textos sagrados da Bíblia. O imperativo moral não está atrelado ao dia, uma vez que a motivação no NT é outra: a ressurreição de Cristo, o principal artigo da fé. Assim, compreende-se que o dia do domingo é o novo repouso (sábado) para o cristão. A mudança não é arbitrária, mas entendida como expressa na própria prática apostólica demonstrada no Novo Testamento.

Diferença na experiência. O domingo seria a hora de adoração, enquanto o sábado compreende 24 horas consagradas a Deus.

Avaliação. O que parece da posição do autor, expressa nesse resumo, é que o Dr. Bacchiocchi entende que o domingo deve ser guardado apenas para participação da eucaristia, tornando-se depois dia como outro qualquer, enquanto que o sábado, como guardado entre os adventistas do sétimo dia, envolve maior quantidade de tempo, o que mudaria a experiência do dia. Mas isso é apenas questão do modo de guardar o dia. Nenhum lugar da carta pastoral ensina que o dia de domingo deve ser apenas de uma hora, e o liturgista citado que concorda que culturalmente o dia de domingo é guardado apenas para ir à igreja, sendo feriado normal após isso, trata-se de uma defesa de opinião privada e não a doutrina católica oficial, que está na carta Dies Domini, onde o papa mostra como o domingo deve ser inteiramente observado.

De fato, escreve: “Se a participação na Eucaristia é o coração do domingo, seria contudo restritivo reduzir apenas a isso o dever de «santificá-lo». Na verdade, o dia do Senhor é bem vivido, se todo ele estiver marcado pela lembrança agradecida e efectiva das obras de Deus”. Assim, o papa afirma que a Igreja não se contenta com propostas minimalistas.

Então, todo ele, ou seja, todo o domingo é santificado. A experiência do domingo cumpre moral e liturgicamente o que o sábado significa.

O leitor pode agora vislumbrar que o sábado tem conexão teológica que se desdobra no domingo cristão.

Gledson Meireles.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

REAÇÃO ADVENTISTA: artigo sobre a imortalidade da alma

Na explicação do texto de Mateus 10, 28, o apologista adventista traz algumas contribuições para o entendimento da passagem que reforçam o imortalismo, ao mesmo tempo em que ajuda a entender como os mortalistas leem a passagem. No entanto, traz uma comparação que não exprime bem a doutrina do adventismo.

Aqui não está sendo dito que o mesmo não entenda a doutrina que ele mesmo crê, pois de fato entende. E é competente ao defendê-la.

Também não é dito que o exemplo é totalmente errôneo, pois em si traz verdades, mas que e incompatível com o adventismo, pois que profundamente a comparação empregada não transmite a mensagem adventista. É a linguagem bíblica que redunda em dualidade, não em monismo. Nessa comparação, o "eu" na verdade não seria parte do ser, como de fato é, e é o sentido do evangelho, mas, na comparação feita pelo apologista, e contra a sua vontade, esse eu se torna algo como "a garantia da vida eterna". Vejamos.

De fato, ele afirma que Jesus, ao dizer que alguém pode matar o corpo e não a alma está essencialmente mostrando que a alma morre igual ao corpo: “Mas a essência do texto traz justamente o ensino oposto: Jesus deixa claro que a alma pode morrer igual ao corpo.”

Assim, Jesus estaria pretendendo ensinar outra coisa, que não implicaria na imortalidade da alma. Jesus ensinou que mesmo que alguém seja morto, um dia Deus o ressuscitará.

De fato, o cerne da questão ensina a salvação, mesmo dos mártires. Jesus quer mostrar que os homens não têm o poder de tirar a graça da salvação de alguém. Todos estamos de acordo com isso.

Contudo, a implicação da passagem permanece de pé. Jesus usa uma dicotomia entre corpo e alma, e o contraste mostrado é que o corpo pode ser morto por alguém e a alma não. Aqui estão duas partes da natureza humana.

Obviamente, que é levado à iniquidade, à corrupção interior, será morto também na alma, em morte espiritual. Mas isso o adventismo não ensina, pois não divide corpo e alma. Por isso, a crítica aqui.

Embora o apologista adventista não acredite que há separação entre corpo e alma, que não poderiam ser separados nunca, e que a alma morre como o corpo, sendo a alma vivente a própria pessoa, aqui, ao tentar explicar a passagem, revela um dualismo sem perceber. Dualismo nas palavras.

Por exemplo, ao escrever: “Ele ressuscitará com um novo corpo e a mesma identidade de antes. Alma, nesse texto, é um sinônimo para personalidade, identidade, “eu”.”

E prossegue: “É a parte que retornará no corpo redimido e viverá a eternidade.”

Com isso, ele, de algum modo, divide o corpo e o eu. O corpo pode ser morto, mas o eu não. E o “eu” parece sair do corpo, já que é dito que ele “retornará no corpo rediminido”. Não diz, é claro, retornará ao corpo redimido, mas que retornará no corpo.

Certamente a linguagem pretende não se confundir com o dualismo, mas esconde a dificuldade de explicar a passagem clara de Mateus 10, 28.

Obviamente, a citação de 2 Pedro 1, 13-14 requer essa expressão, pois o apóstolo fala de deixar o tabernáculo. Mas não se trata apenas de linguagem, mas de realidade. São Pedro, como imortalista, sabia que a alma consciente deixa o corpo na morte. Mas o adventista não tem essa compreensão, mas procura adequar-se à linguagem bíblica, com outra doutrina.

Ele afirma que o ‘velho corpo morre’, mas o redimido em Cristo ganha novo tabernáculo. Isso é o mesmo que ensina a imortalidade da alma. O corpo é morto, a alma não. Essa retorna ao corpo na ressurreição, no corpo redimido. A doutrina é diferente e é expressa pela mesma linguagem católica.

No entanto, na verdade, no monismo adventista, quando se diz que o velho corpo morre, significa que o redimido deixa de existir e depois será refeito, como novo tabernáculo. Não é o mesmo que a metáfora bíblica está apresentando.

Quando explica que quem mata um verdadeiro seguidor de Jesus Cristo não matou a pessoa como um todo, mas apenas o corpo, está usando de uma linguagem comum com os cristãos católicos, por exemplo, mas não partindo da mesma concepção.

De fato, na literalidade, a doutrina adventista do sétimo dia afirma que quem mata alguém mata-o totalmente, pois não há separação corpo e alma. A alma vivente morre. Para o católico, a alma literalmente não morre.

Quando se diz que: “A personalidade dorme até a ressurreição”, significa apenas que a personalidade morreu, deixou de existir, sob a metáfora do sono. De fato, para o adventismo a personalidade estava no corpo e deixou de existir no corpo e com o corpo vivo.

E conclui da seguinte forma: “Por outro lado, aqueles que conseguem corromper uma pessoa moral e espiritualmente estão levando a pessoa à morte plena no inferno. Morrerá corpo e tudo o mais, não restando nada.”

Desse modo, a corrupção de alguém leva-o a morrer inteiramente, corpo e tudo mais. Mas isso é o mesmo que ocorre com o salvo antes da ressurreição, onde o mesmo morre o corpo e tudo o mais não restando nada, e que no fim Deus deverá recriar o ser total. A tentativa de afirmar que o “eu” não pode ser morto com o “corpo” não é satisfatória.

De fato, a ideia que subjaz a esse linguagem é que na morte do “corpo”=tudo não morre a “esperança da salvação garantida”, o que é outra coisa. Essa garantia que não é destruída na morte seria a “alma”. Mas o próprio adventista explica que a alma é o “eu”. Essa explicação não se adequa ao texto de Mt 10, 28.

De fato, o “eu” deixando de existir quando o “corpo” morre, é o mesmo que afirmar que o eu foi morto, já que não há como separá-lo do corpo.

O “corpo” retorna ao pó e se torna pó (Gn 3, 19) e o espírito retorna a Deus (Ecl 12, 7). Esse espírito não é o eu da pessoa, mas a energia vital. E o corpo não é mais o eu, mas a alma vivente que morreu.

A explicação do apologista ao tentar criar um “eu” que se separa do corpo não tem respaldo na doutrina do adventismo, sendo apenas uma linguagem metafórica para dizer o mesmo, ou seja, que o eu foi extinto na morte e será recriado na ressurreição para a vida eterna, por causa da promessa de Deus aos salvos. É uma falha a adequação da doutrina adventista à doutrina bíblica.

A “alma” nesse conceito aqui apresentado pelo apologista adventista seria o núcleo da personalidade, da individualidade, da consciência, que no adventismo está totalmente ligada ao corpo e funciona somente no corpo.

Uma vez que o corpo é morto, também o seria a alma. Isso contradiz o que Jesus diz: os que matam o corpo e não podem matar a alma.

Somente os condenados têm o corpo e a alma jogados no inferno. Não se trata de aniquilamento, mas de condenação.

Desse modo, a alma aqui não é o eu. Isso pode ser demonstrado, uma vez que, se na morte tudo deixa de existir, o eu morre. Mas Jesus afirma que a alma não pode ser morte. Então, a alma não é o eu, conforme a explicação adventista.

Também, ao dizer que “Jesus deixa claro que a alma pode morrer igual ao corpo”, essa explicação é evidente que para o autor adventista o “eu” pode morrer igual ao corpo.

Se a alma é o “eu” no sentido metafórico, temos que:

Os que matam o corpo não podem matar o eu, já que esse é o que tem garantida a vida eterna. Os que matam o corpo não podem tirar essa garantia. A alma deteria o conceito de “garantida da vida eterna”.

Mas há a possibilidade, nos reprovados, do corpo e da garantia da vida eterna ser jogada no inferno. Isso não concorda com o texto sagrado. Assim, essa metáfora não funciona.

Se a alma é literalmente parte outra do ser humano, temos que:

Os que matam o corpo não podem matar essa parte do ser. Na condenação, há destruição do corpo e dessa outra parte do ser, no inferno. O que faz todo sentido. A alma pode ser separada do corpo.

Por fim: fazer perecer o corpo e alma no inferno seria fazer perecer o corpo(tudo) e a alma(eu) no inferno, seria o mesmo que perecer corpo e alma no sentido imortalista.

No entanto, fazer perecer corpo e não a alma (que estaria contendo o sentido de que a morte do corpo não incluiu a condenação à morte eterna), é o mesmo que dizer: fazer perecer o corpo e a garantia da vida eterna na geena, o que é absurdo. Ninguém com garantia da vida eterna vai para a geena.

Mas, retomando ao sentido que o apologista deu ao termo em sua apresentação: "Alma, nesse texto, é um sinônimo para personalidade, identidade, “eu”.", então, como já provado, ninguém pode matar o eu. Dessa forma, o eu é imortal, e somente o "eu" dos condenados pode ser dito como "morto".

Volta-se, assim, ao ponto inicial: a alma não pode ser morta. O eu não pode ser morto.

Se no adventismo a morte é a extinção do ser, então o "eu" pode ser morto, contradizendo o que o texto sagrado diz.

Dessa forma, o conceito de alma=eu, que foi declarado expressamente, e o conceito de alma=garantida da vida eterna, que apareceu como implicação do que foi apresentado, mostram o desequilíbrio da defesa da doutrina adventista nessa passagem.

Portanto, isso está refutado.


Gledson Meireles. 


terça-feira, 21 de abril de 2026

Livro: O sábado e o domingo nos primeiros três séculos, o testemunho completo dos pais da Igreja, de JN Andrews, capítulo 4

Capítulo 4

 

São Justino é apresentado como falando do sábado com desprezo, e também não tratando da ideia de mudança do sábado. Andrews afirma que a apostasia estava avançada em Roma, ainda que os escritos sejam bem próximos do tempo apostólico, ano 140 d. C.

Quando São Justino, escrevendo ao imperador, usa “o dia do sol” para tratar do domingo, não está usando palavras cristãs, mas explicando a um pagão da forma como lhe era familiar. Da mesma forma ele se refere ao sábado como dia de Saturno. Com isso, temos que São Justino apenas está explicando a fé cristã a alguém que não tem ideia do que é o Cristianismo.

Andrews não comenta isso, e ainda utiliza a fraseologia de Justino para argumentar que o mesmo não usa da denominação cristã dia do Senhor. Por isso, o argumento é inválido. São Justino, falando com um pagão, explica da forma que o pagão entenda, e usa os nomes para o sábado e para o domingo como era conhecido no paganismo, dia de Saturno e dia do Sol. Mas, Andrews não concorda com tal resposta, e afirma que em toda a obra Justino usa dia do Sol para referir-se ao domingo.

Para São Justino o sábado era o tipo do descanso de uma vida de santidade, em Cristo, o sábado perpétuo. Andrews interpreta esse pensameneto afirmando que para Justino todos os dias são iguais. Mas, o Dr. Bacchiocchi, que estudou de perto essa questão, afirma que para São Justino o domingo é superior ao sábado. Portanto, não há esse ensino da igualdade de todos os dias, pois o domingo é proeminente.

Quando São Justino afirma das observâncias legais, dadas por causa da dureza de coração, é devido ao fato de que a Bíblia afirma que a Lei foi dada por causa do pecado. E ainda afirma que a circuncisão, o sábado e as festas não nos prejudicam.

A teologia do domingo, em São Justino, não faz dele um substituto do sábado, já que afirma que o mesmo não mais é obrigatório.

No capítulo 27 São Justino afirma que Deus, por causa da dureza de coração e ingratidão, deu a Lei e continuamente proclama os mandamentos, e acreditava que antes de Moisés não havia a lei da circuncisão e do sábado. Muitos ainda mantêm tal argumento.

E no que é mencionado da resposta de São Justino no capítulo 47, tudo se harmoniza com a doutrina católica, visto que a Lei, especialmente o sábado, pode ser guardada, contanto que não seja obrigada ao cristão. Os cristãos que guardavam o sábado eram parentes e irmãos, na opinião de são Justino. Mas esses guardavam a circuncisão, o sábado e outras cerimônias, com piedade.

Para Andrews, devemos declarar que Justino defendia a anulação dos dez mandamentos, que o sábado não era obrigatório depois de Cristo e o domingo era o dia mais adequado para adoração pública.

De fato, essa doutrina está em conformidade, em termos gerais, com a doutrina da Igreja Católica. E, por sua vez, contradiz o adventismo do sétimo dia. Portanto, sendo essa obra do segundo século, ela testemunha a favor da verdade católica, e é uma prova contra a interpretação adventista.

Vemos assim que, como São Justino foi bastante claro em sua posição quanto ao sábado e o domingo, Andrews o vê com maus olhos, como um apóstata, como alguém que considera todos os dias iguais, como um que ensina a abolição da Lei dos Dez Mandamentos, e que adota o domingo como dia de adoração a Deus. É uma forma negativa de avaliar São Justino.

Quando no capítulo 29 São Justino afirma que Deus continua a trabalhar, certamente está apenas usando o argumento de Jesus, no evangelho: “Mas ele lhes disse: “Meu Pai continua agindo até agora, e eu ajo também” (João 5, 17). Isso não mostra um desrespeito de Justino para com o sábado, e a refutação de Andrews talvez não se aplique. Somente caso Justino tenha afirmado como Andrews entendeu sua refutação seria válida.

Por fim, o ensino de São Justino em relação ao sábado é o mesmo do evangelho. Assim, também, sua posição quanto ao domingo reflete a tradição apostólica.

Gledson Meireles.

A Santificação do Domingo e o Sola Scriptura

A Santificação do Domingo

Entendendo o verdadeiro princípio Sola Scriptura

           

Para entender a observância do primeiro dia da semana, temos de recorrer ao significado do sábado, o sétimo dia. Vejamos um pouco o que diz o evangelho sobre o sábado.

 

Jesus observou o sábado perfeitamente

Em Mateus 12, 1-14 Jesus apresenta o espírito da observância sabática. Os discípulos colhem espigas de trigo para matar a fome. Jesus os apresenta como inocentes, e apresenta-Se a Si mesmo como Senhor do sábado. Após isso, Jesus foi à sinagoga e ensinou que é permitido fazer o bem no dia de sábado. Aí temos o espírito da nova lei na observância do dia do Senhor.

No evangelho de Marcos, 2, 23-28, o Senhor, que caminha pelos campos com seus discípulos, afirma que o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado (v. 27). Também, em Lucas 6, 1-5, Jesus mostra que é Senhor do sábado.

Assim, Jesus ensinou que o espírito da guarda sabática está em harmonia com a prática do bem, e que o sábado deve servir ao homem, para o seu repouso religioso.

Os fariseus ficavam perplexos quanto à posição de Jesus referente ao sábado. Afirmavam que não era permitido colher trigo, nem curar os doentes. Jesus se opôs a esses extremos. “Mas Jesus nunca profana a santidade desse dia”, afirma o Catecismo da Igreja Católica (n. 2173).

Há uma intenção de Jesus aos trazer atenção o tema do sábado. Cristo estava levando a lei à perfeição. Ensinou a verdadeira prática sabática, que deve servir ao homem, para o descanso, e para a prática do bem. Cumpriu a lei do sábado em sua perfeição.

 

A morte de Jesus na sexta-feira

“Os judeus temeram que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados” (João 19, 31).

Jesus morreu na sexta-feira e passou o sábado inteiro no sepulcro. É a forma implícita da Escritura de ensinar o cumprimento do sábado por Cristo.

 

A ressurreição no primeiro dia da semana e a reunião dos apóstolos

Jesus ressuscitou no domingo, o primeiro dia da semana (cf. Mt 28, 1-10; Mc 16, 1-10; Lc 24, 1-12 e Jo 20, 1-10).

Os discípulos estão reunidos na tarde de domingo, às portas fechadas, por medo dos judeus (Jo 20, 19).

Os dois discípulos de Emaús voltaram a Jerusalém, onde se acharam reunidos os Onze e os que com eles estavam (Lc 24, 33).

Também no domingo, oito dias depois, no mesmo lugar, os discípulos estavam reunidos (v. 26).

Nos Atos dos Apóstolos (20, 7), temos que: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite”.

Aqui os apóstolos estão reunidos no domingo para partir o pão. Ainda que o episódio tenha sido descrito para falar da ressureição de Êutico, é um testemunho de que os apóstolos se reuniam de forma especial para a celebração da eucaristia, e que nesse dia ocorriam milagres.

Em 1 Coríntios 16, 2 temos: “No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que tiver podido poupar, para que não esperem a minha chegada para fazer as coletas”.

“A coleta se fazia na reunião litúrgica dominical”, como explica a Bíblia de Estudos Ave Maria. A explicação para a coleta no primeiro dia é que esse era o dia em que os cristãos se reuniam para celebrar juntos a eucaristia.

 

Os apóstolos iam ao templo

Em Atos 2, 46 está escrito: “Unidos de coração, frequentavam todos os dias o templo...”. Isso significa que a prática dos judeus cristãos em relação ao judaísmo não havia mudado tanto. Assim, Pedro e João iam subindo ao templo para rezar à hora nona (Atos 3, 1).

No templo, os cristãos de origem judaica continuavam a rezar, a cumprir os preceitos que eram acostumados a guardar, e também anunciavam o Nome de Jesus. Eis uma diferença. Também, fora dos templos, nas casas, eles partiam o pão (cf. Atos 2, 46).

 

A fração do pão

Em 1 Coríntios 11, 20-34 temos a reunião dos cristãos em um lugar maior, sugerindo uma igreja, certamente uma casa dos mais abastados, onde todos podiam se reunir para celebrar a Eucaristia. São Paulo exorta-os a comer em casa (vv. 22.34), sugerindo que ali, naquele local escolhido, onde comporta grande número de pessoas, era o lugar para cear, comer do Corpo e do Sangue de Jesus.

Com isso, temos que a celebração da eucaristia era feita nas casas, com narrativas claras a respeito de reuniões feitas aos domingos, e que os apóstolos ainda iam ao templo.

Nenhuma observância do sábado pelos apóstolos

Em Atos 19, 8 lemos que São Paulo ensinava nas sinagogas: “Paulo entrou na sinagoga e falou com desassombro por três meses, disputando e persuadindo-os a cerca do Reino de Deus”.

No entanto, após a recusa dos judeus, ele passou a ensinar diariamente em outro lugar: “Mas, como alguns se endurecessem e não cressem, desacreditando a sua doutrina diante da multidão, apartou-se deles e reuniu à parte os discípulos, onde os ensinava diariamente na escola de um certo Tirano”.

A passagem é clara em mostrar que o objetivo de São Paulo em frequentar a sinagoga não era participar das suas reuniões na guarda do sábado como cristão, mas ali estava como judeu cristão anunciando o evangelho do Reino de Deus.

 

A santidade do domingo

Os adventistas do sétimo dia objetam que a ressurreição de Cristo e suas aparições, e mesmo as reuniões dos cristãos no domingo, não fariam do domingo um dia santificado. Por isso, rejeitam sua guarda.

No entanto, temos por certo que os apóstolos ensinaram a guarda do domingo aos novos convertidos. Também é claro que nenhum apóstolo guardou o sábado como norma para os cristãos.

Desse modo, a preparação de Cristo ao ensinar sobre o sábado, a ressuscitar no domingo, a aparecer nesse dia e deixar inspiradas passagens na Bíblia sobre essas aparições, somadas às evidentes reuniões da Igreja para celebrar a eucaristia, que é uma ordem de Jesus, sugerem  que o dia de observância para a Igreja é o domingo e não o sábado.

 

Mandamento do domingo

Os objetores exigem um mandamento claro para a guarda do domingo. Não o encontrando, recusam-no.

Parece que o princípio que se encontra subentendido é que uma vez que não houve revogação clara de cada lei antiga, essas continuam em vigor. Do contrário, haveria mandamento da nova lei explicitamente escrito.

Como visto, porém, o caso do sábado e do domingo não é tão obscuro. Há nítida preocupação em preparar os cristãos quanto à verdadeira guarda do sábado. Depois, vemos a igreja observando o domingo para celebrar o principal mistério da fé, a morte e ressurreição de Jesus, ao partir o pão no primeiro dia da semana. Some-se a isso nenhuma guarda do sábado pelos apóstolos.


Toda doutrina está na Bíblia

De forma geral, está na Bíblia, implícita ou explícita, toda a doutrina salvífica. O cardeal James Gibbons, e outros, ao enfatizar a tradição, afirmaram que a Bíblia não contem toda as doutrinas necessárias para a salvação. Mas isso é apenas questão de ênfase, pois pelo contexto temos que isso se refere à coisas explícitas que podem ser facilmente apreensíveis pelo texto sagrado. Assim, o domingo não estaria nessa ordem, pois não há mandamento explícito. Dessa forma, é necessário um estudo, como o que se esboçou acima, para compreender que Cristo deixou aos apóstolos a guarda do domingo e isso aparece na Bíblia. A Igreja o ensina de modo claro.

 

Esse tipo de Sola Scriptura é insuficiente

A Bíblia não é nesse sentido a única regra de fé, pois necessita da interpretação legítima da Igreja e da comprovação da tradição para garantir aos fieis a veracidade da doutrina.

Houve tempo em que a Bíblia não estava completa. Assim, os primeiros cristãos aprenderam a doutrina sagrada por meio da pregação da Igreja. E mais. Nem todos eram, ou são, capazes de ler a Bíblia por si mesmos, necessitando da pregação oral.

A Bíblia contem passagens difíceis. Dirão os protestantes que essas não são difíceis ou obscuras no que se refere à salvação. Mas São Pedro (cf. 1 Pedro 3, 16) afirma que as passagens difíceis que alguns mal interpretação servem para a perdição deles. Desse modo, os erros de interpretação afetam a salvação.

A Bíblia também, se fosse única regra de fé, deveria satisfazer a todas as questões de fé e moral e modo a não necessitar da intervenção e intermediação de ninguém. Mas a pregação e autoridade da Igreja são necessárias. Portanto, esse Sola Scriptura não pode estar correto.

Com isso, o cardeal Gibbons provou que a Igreja é regra de fé para a pregação da verdade de salvação. Ela está ao alcance de todos, é clara e pode esclarecer a todos os fieis, é capaz de satisfazer em todas as questões relativas à fé e à moral, pois em seu depósito interpreta na Bíblia e tradição apostólica ensinando toda a verdade.

 

Mas somente através da Bíblia temos acesso ao que foi ensinado por Cristo

De fato. Contudo, uma vez interpretando-a mal, não há como compreender o que foi verdadeiramente ensinado por Cristo. É preciso ter exata compreensão e certeza da doutrina. E a Bíblia ensina que há coisas na Escritura que são difíceis (cf. 1 Pedro 3, 16), que a Escritura não é de interpretação particular (1 Pedro 1, 20) e que é necessário guardar as tradições (1 Ts 2, 14-15). Assim, temos que, por meio da Bíblia, estabelece-se a Tradição e o Magistério da Igreja. Temos, portanto, o correto princípio Sola Scriptura.

Gledson Meireles.