Tese: A Bíblia que temos é obra da Igreja Católica.
Vamos
pensar um pouco sobre o cânon bíblico. Nos vários continentes temos nações
cristãs. Essas nações foram formadas durante a história por povos cristãos
católicos, em sua maior parte, que levaram a fé em Cristo Salvador, em Deus
verdadeiro, e celebraram a liturgia cristã, ensinando as Sagradas Escrituras,
Antigo e Novo Testamento, com seus 73 livros. O Brasil foi uma dessas nações
formadas pela fé cristã. Nossos irmãos judeus não tiveram papel proeminente na
propagação da Bíblia em toda a terra como teve a Igreja Católica. Também eles
não levariam o Novo Testamento, por motivos óbvios. Então, pode-se afirmar que
a Bíblia está disseminada em toda a terra, nesse trabalho de séculos de missões
e evangelização, pela influência eminente da Igreja Católica.
Mesmo
as igrejas orientais que não estão na comunhão de Roma tiveram papel menor
nesse avanço. Assim, é a Igreja do Ocidente, a Igreja Católica Apostólica
Romana, aquela que levou a Bíblia a inúmeros lugares da terra. Mesmo o
Protestantismo nasceu no seio da Igreja do Ocidente. Os pré-reformadores eram
católicos, Lutero era padre, Calvino era sacristão, Zuínglio também foi
sacerdote, e a propagação da Bíblia pelas mãos protestantes, também importante,
teve o fundamento católico. Basta pensar que Erasmo de Roterdã, erudito católico
humanista, foi quem organizou os manuscritos gregos do Novo Testamento que
serviram para as traduções protestantes, incluindo a de Lutero.
Portanto,
a Igreja Católica tem papel preponderante na preservação da Bíblia, nas suas
primeiras traduções, na sua defesa contra ataques, na sua propagação. Assim, é
muito correto afirmar que a Igreja Católica nos deu a Bíblia.
Isso
não diminui o papel da Igreja Ortodoxa e das igrejas protestantes, mas o seu
trabalho foi feito também a partir daquilo que a Igreja Católica havia
preservado.
O
adventista e ex-católico Michelson Borges afirma que é estranho afirmar que a
Igreja Católica nos legou a Bíblia porque o Antigo Testamento existe antes da
Igreja. Tal objeção é ridícula, em si mesma. Isso não é um ataque ao autor da
afirmação, mas é para que o mesmo saiba que sua posição não foi refletida. Ela não refuta nada.
A
Igreja Católica quando afirma que é responsável pela Bíblia que temos hoje está
afirmando o que foi explicado acima, e não que tenha sido anterior até mesmo ao
Antigo Testamento, como se isso fosse desconhecido da erudição cristã católica.
Usar tal objeção na retórica é fazer parecer estar apresentado algo erudito, quando de
fato não o está. Essa tese católica está
correta, basta estudá-la corretamente.
O
autor apresenta na palestra a inspiração da Bíblia, o cânon do AT na
perspectiva judaica, o cânon do NT na perspectiva protestante e tenta refutar
que a Igreja Católica que definiu a
Bíblia e que estaria “acima” da Bíblia.
A
primeira asserção ele não consegue refutar porque é irrefutável. A Bíblia foi
definida pela Igreja. A segunda asserção é errônea, e a Igreja não a ensina. Lutar
contra ela é combater um espantalho. Assim, temos essas coisas logo no início
da palestra.
Ele
afirma que a Igreja lega a Bíblia e a
Bíblia é que dá fundamento à Igreja. Isso é o que a Igreja Católica ensina.
Assim, bater no espantalho e afirmar o ensino católico logo em seguida como se
fosse a conclusão protestante faz parecer que o espantalho era a posição católica,
quando na verdade a conclusão que o palestrante adventista está afirmando é que
é o ensinamento católico. Se você concorda com ele que a Bíblia é autoridade
para a Igreja, então não há novidade alguma para o católico saber isso.
Portanto, como ex-católico ele demonstra que não tinha bom conhecimento do
tema, nessa profundidade que estou apresentando, e esse com certeza foi motivo
para sua saída do catolicismo.
1) O
cânon judaico, tanach. Reconhecido e
preservado pelo povo de Israel antes do cristianismo. Não é verdade. É meia verdade. Os livros em totalidade foram
escritos antes de Cristo. Mas o cânon não estava fechado, havia variações,
algumas dúvidas e discussões sobre alguns livros. Portanto, não havia
definição. Essa definição foi feita em tempos cristãos.
A Bíblia hebraica termina em crônicas
(Torá, Nevi´im, Ketuvim) e a Bíblia cristã em Malaquias. Foi a Igreja Católica
que fez essa organização.
2) Flávio
Josefo e o Cânon Judaico. Esse escritor cristão afirma que os judeus consideravam
apenas os livros escritos até Artaxerxes, excluindo com isso os
deuterocanônicos. Será que apenas uma citação do historiador judeu define a
questão? Obviamente não.
Por que são chamados deuterocanônicos os livros de Judite,
Tobias, I Macabeus, II Macabeus, Sabedoria, Baruque e Eclesiástico? Porque
foram disputados, houve muitas
discussões sobre eles e foram negados pelos judeus mas aceitos na Igreja.
Assim, fazem parte do cânon, sendo o
segundo cânon em unidade com o primeiro aceito com menor discussão. Assim, protocanônicos e deuterocanônicos formam a Bíblia. A designação é para que se
especifique o que ocorreu na história antes da definição final.
Uma informação que o palestrante não
passou é que os judeus liam os deuterocânonicos em suas escrituras e somente
depois esses foram rejeitados.
A obra Contra Apião, de Flávio Josefo,
escrita em 93-95 d. C., já mostra o estado de coisas dessa época, em que os
judeus certamente já tinham excluído o Novo Testamento cristão e os livros
deuterocanônicos.
Essa tese judaica foi feita depois da
fundação da Igreja e não possui autoridade sobre os cristãos.
Quem
que você vai ouvir, um historiador daquele tempo ou religiosos posteriores que
quiseram adicionar livros para sustentar dogmas?,
questiona o palestrante.
A resposta é: devemos ouvir quem tem
autoridade. Se o cânon foi entregue por Jesus à Igreja, é à Igreja que devemos
ouvir. Josefo fala do que se passava entre os judeus, mas a Bíblia dos judeus
não inclui nenhum livro exceto o que os rabinos do seu tempo admitiram, e isso
exclui todos os escritos cristãos. Portanto, não podemos aderir ao pensamento dos
judeus de então.
E mais, a Igreja fechou o cânon muito
tempo depois e descobriu quais os livros eram inspirados verdadeiramente,
guiada pelo Espírito Santo, e portanto, incluiu o Novo Testamento que os judeus
não aceitavam. Veja que nos anos 93 a 95 talvez apenas o Apocalipse não havia
sido escrito. Assim, a decisão dos judeus não era tida entre os cristãos.
E quanto à Septuaginta? Vimos acima que o cânon judaico não foi o cânon
cristão. E a versão dos Setenta, foi o cânon cristão? Também não. Mas, como a
Septuaginta foi a tradução grega, a Igreja usou essa versão para ensinar a
Bíblia aos povos. Os apóstolos liam a Septuaginta e Jesus não a proibiu. Essa
versão incluía os protocanônicos, os deuterocanônicos e os apócrifos. A Igreja
exclui os apócrifos. Os judeus definiram o cânon, talvez em Jâmnia ou mais
tarde. No entanto, Jâmnia possivelmente ocorreu em 90 d. C., e é a isso que
Josefo se refere ao afirmar que somente 22 livros eram aceitos pelos judeus.
Era um assunto recente. Perceba o leitor que os judeus estavam com isso
rejeitando toda a literatura cristã, e excluindo de seus escritos os livros
inspirados do Novo Testamento que foram escritos por judeus convertidos em sua
maior parte: Mateus, Paulo, Pedro, João, Tiago, por exemplo. Lucas era
convertido de origem gentia. Os cristãos não estavam unidos aos judeus nesse
tempo e não se submeteram às decisões judaicas, e continuaram a ler os
deuterocanônicos do Antigo Testamento escrito depois de Artaxerxes juntamente
com os protocanônicos e também os livros do Novo Testamento. Contudo, o cânon
não havia sido fechado entre os cristãos.
Conclusão: os judeus fecharam o cânon em
tempo cristão, contrariamente ao uso cristão, e assim a Igreja não se submete à
decisão judaica a respeito do cânon.
Veja a incoerência: debate sobre alguns livros já aceitos. Se houve debate é porque
essa aceitação não era totalmente unânime, e estava aberta à mudança. Uma vez
havendo definição não há mais espaço para discussão a respeito de que livro
permanece no cânon.
O palestrante afirma que Josefo é
autoridade suficiente para entender que os livros bíblicos inspirados são
somente o que ele informou. Assim, esse cristão adventista coloca sua fé na
informação histórica do historiador judeus nos anos 93-95 d. C. Ele afirma que
não há mais nenhum livro inspirado? E o Novo Testamento? É claro que Josefo
está afirmando que os judeus rejeitaram o Novo Testamento? Você fica com a
autoridade de Josefo, com a decisão dos judeus nos anos 70 a 95 d. C.? Sim ou
não? Obviamente a questão se complica aqui.
São
Jerônimo e a Vulgata? São Jerônimo, no século IV, foi
influenciado pelos judeus e não queria incluir os deuterocanônicos. O que isso
significa? Significa que entre os cristãos não havia os apócrifos (III Esdras,
IV Macabeus, etc.), mas eram aceitos os deuterocanônicos. No entanto, por
influência dos judeus são Jerônimo preferia seguir a lista judaica e excluir os
7 livros. No entanto, ele os traduziu e aceitou a decisão da Igreja.
O palestrante afirma que é conveniente
que Macabeus esteja na Bíblia porque sustenta a doutrina do purgatório. Mas é
justamente o contrário, já que os protestantes no século 16 tentaram excluir
esses livros por esses motivos, já que o purgatório era uma das doutrinas
combatidas por Lutero e pelos outros reformadores.
O palestrante ainda diz que a partir do
livro de Macabeus é possível sustenta o purgatório, o que não seria por meio de
outros textos da Bíblia aceita pelos protestantes. No entanto, é possível sim,
como em 1 Coríntios 3, 11-15.
E cita 2 Mc 15, 37-38 onde o autor diz
que sua narração foi a melhor que pôde fazer, e pede desculpas se ficou
imperfeita ou medíocre. Obviamente ele fala do seu estilo, da sua “narração”, e
não do conteúdo inspirado, e o faz por humildade. O mesmo escreveu São Paulo em
suas cartas, o que não invalidade a inspiração de nenhuma delas. Assim, também,
2 Macabeus é inspirado.
O
cânon protestante. Quando São Pedro fala das cartas de
Paulo e as demais Escrituras ele está falando do cânon, mas não havia uma
definição conhecida ainda, dos limites do cânon, nesse tempo.
Critérios de inspiração: apostolicidade,
ortodoxia, uso na igreja primitiva, inspiração divina. Esses critérios definiram
o Novo Testamento na Igreja Católica, em concílios regionais, e foram
ratificados pelo papa. Os critérios de ortodoxia, uso na igreja primitiva e
inspiração divina incluíram 46 livros do AT. Nenhum possui heresia.
Vejamos a incoerência do palestrante,
ex-católico: ele afirma que a Igreja Católica baseou-se na definição da igreja
cristã primitiva e dos padres da Igreja.
Mas, a Igreja Católica foi fundada no
primeiro século, e o cânon já vai sendo percebido no 2º século. Os padres primitivos
da Igreja eram católicos. Assim, a Igreja Católica definiu o cânon no 4º
século.
Ainda, se a Igreja Católica aceitou a definição
da igreja antiga então a mesma não havia excluído nenhum livro, mas aceitou 73
livros como está no cânon católico.
Para que o leitor tenha maior certeza
disso: todas as igrejas antigas leem os protocanônicos e os
deuterocanônicos e chegam a acrescentar
outros. Essas igreja separaram-se da comunhão católica a partir de 451 d. C.,
mais exatamente. Então, não é comum entre os cristãos ater-se ao cânon que os
judeus estabeleceram. Trata-se de uma novidade proveniente das doutrinas modernas
no século 16.
De fato, a Igreja Católica em outros
concílios “vai reconhecer o que estava
estabelecido”, como disse o palestrante, e o que foi estabelecido foram os
73 livros. Mais uma refutação.
Concílio
de Niceia. Historiadores cristãos católicos não afirmam que o
cânon foi definido no concílio de Niceia. Então, é questão inócua.
Afirmar que a Igreja primitiva
reconhecia 39 livros do AT e 27 do NT é errôneo. O palestrante não provou isso,
mas apenas mostrou que os judeus em 90 d.C. haviam definido o cânon e que os
padres da Igreja já reconheciam 27 livros no Novo Testamento, mas não mostrou
as inúmeras controvérsias que incluíam mais livros, como O Pastor de Hermas e
outros, no NT, embora saibamos que ainda não havia definido o cânon entre os
cristãos. Havia certa percepção do cânon, mas não havia definição formal ainda
na Igreja.
O
Concílio de Cartado em 397 d. C. O palestrante afirma
que o concílio de Cartado estabeleceu o cânon mas não o criou. Corretíssimo.
Isso é o que a Igreja Católica ensina. Ele tentou fazer parecer diferente, o
que forma virtualmente um espantalho, e agora apresenta uma conclusão católica,
que é correta, e a apresenta como protestante. O concílio reconhece o que já
existia. Correto. Nenhuma novidade.
O que o palestrante não mostrou foi que
o Concílio de Cartago 397 d. C. definiu os livros de toda a Bíblia e não
somente os 27 do NT, e quando o fez listou 73 livros, igual ao cânon cristão católico
atual, como ele mesmo disse anteriormente, onde a Igreja posterior apenas
reconheceu o livros que já eram do cânon.
Será que o mesmo refutou a alegação católica que a Igreja definiu a Bíblia?
NÃO. Quando ele afirma que a Igreja
reconheceu o que já estava aceito, é isso que a mesma Igreja Católica ensina,
pois o cânon foi reconhecido e recebido pela Igreja, e não uma criação
arbitrária dela. Assim, o ponto 1 não refuta nada, apenas bate no espantalho
criado antes.
Jesus e os apóstolos não reconheceram o cânon judaico. Jesus subiu aos céus em 33 d. C., e o cânon foi estabelecido apenas depois de 70 d. C., mais exatamente após 90 d. C. No tempo de Cristo não havia cânon definido ainda, ou seja, os livros inspirados do Antigo Testamento não estavam todos reconhecidos como inspirados, e havia dúvidas sobre alguns.
Os reformadores voltaram ao cânon original? Não. Eles adotaram o cânon judeus, com organização cristã, e aceitaram o cânon católico do Novo Testamento.
O palestrante usado o seguinte argumento: até o século 16 os católicos discutiam sobre os livros deuterocanônicos. Se discutiam é porque não havia consenso. Isso foi o mesmo que refutou a alegação que ele fez anteriormente, quando disse que havia discussão no concílio judaico sobre livros já aceitos. Então, não havia consenso entre os judeus. Simples.
Então, a discussão entre os cristãos
católicos, com os debates suscitados na Reforma Protestante, mostra que o
concílio de Trento pôs fim às dúvidas e definiu o cânon em conformidade com
outros concílios anteriores.
Ele cai em certa incoerência ao dizer
que a Igreja em concílios posteriores apenas aceitou o que a igreja primitiva
havia definido e depois afirma que a igreja não havia definido, mas apenas em
1546, em Trento. No entanto, a definição católica foi a mesma nos concílios
anteriores.
O palestrante conclui que o cânon foi reconhecido ao longo do tempo pelo povo de Deus. Correto.
Agora, o leitor compreende melhor que a Igreja Católica definiu o cânon por sua obra de reconhecimento dos livros aceitos, guiada pelo Espírito Santo, e foi por meio dela que a Bíblia chegou até nós e em tantas partes do mundo. O que o palestrante não conseguiu refutar, pois contra fatos não há argumentos.
E quanto à afirmação que a Bíblia vai contra os dogmas católicos é apenas falta de conhecimento do tema. O leitor encontra muitos estudos no blog que refutam isso, basta conferir: aqui está provada a imortalidade da alma, o purgatório, há estudo sobre a imaculada conceição, etc.
Outra coisa: a Igreja Católica teria escondido a Bíblia em mosteiros. Mas como? Para que copiar a Bíblia à mão, como faziam os monges, formar um livro, publicá-lo, e colocá-lo na biblioteca para que todos os que forem ali possam ler, se era para escondê-la? A própria acusação já se desmonta.
Fonte: vídeo
Gledson Meireles.