domingo, 31 de maio de 2026

Livro: Do Sábado para o Domingo. Estudo capítulo 4.

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Comentário:  Como, por que e por quem foi feita a mudança?


A Igreja primitiva sempre guardou o domingo, o verdadeiro sábado, e a tese de que a Igreja primitiva caiu em apostasia não é bíblica. Não houve introdução de falso sábado, porque a Igreja não pode, em matéria de fé e moral, cair em apostasia, porque Cristo prometeu estar com ela todos os dias e o Espírito Santo guia a Igreja para toda a verdade.

Quando Carlyle afirma que a apostasia “se cristalizou no sistema católico romano” ele está admitindo que a Igreja Católica tem suas raízes na Igreja primitiva, o que é um fato inegável. Porém, o que é preciso corrigir, a Igreja católica é a mesma Igreja primitiva, o mesmo sistema cristão que se desenvolve na história.

O autor adventista, Carlyle, apresenta a tese de que as razões para a mudança do sábado foi o desejo de evitar semelhanças com os judeus e o desejo de conquistar os pagãos que adoravam o deus Sol para conseguir adesão à igreja.

Quando São Paulo escreve aos tessalonicenses que a iniquidade já opera (2 Ts 2, 7), e sobre os lobos vorazes (Atos 20, 29.30) isso significa as doutrinas errôneas e o mal que assolava a Igreja, mesmo em seu meio, mas que nunca poderia vencê-la, a ponto de fazê-la apostatar da fé. Isso é impossível, pelo que já foi apresentado acima.

Comentário: O anticristo, o autor da observância do domingo

A apostasia da fé é um dado que sempre existiu na Igreja, mas que nunca pode suplantá-la, não pode fazê-la cair totalmente. O anticristo, o espírito do anticristo, como escreve São João em 1 Jo 4, 3, iniciou sua operação nos primeiros dias da Igreja mas não tem poder total contra ela como instituição divina.

A fé foi guardada nos primeiros séculos, e quando o imperador Constantino converteu-se ao Cristianismo, que já existia, obviamente, a fé e a conduta dos verdadeiros cristãos católicos de então não mudou, embora a liberdade tenha trazido novos obstáculos. A doutrina desenvolveu-se na ortodoxia, intacta, como será demonstrado em relação à guarda do dia de domingo.

Quando o escritor adventista do sétimo dia afirma que a verdade foi mudada em erro, ele adota o equívoco de que a Igreja pode cair totalmente no erro deixando de ser como instituição a Igreja de Deus, o que não pode em termos bíblicos. A partir da verdade sobre o sábado e o domingo isso será constatado.

A citação que o autor faz de William D. Killen sobre os ritos e cerimônias que foram surgindo no decorrer dos séculos, na liturgia, são os desenvolvimentos históricos da fé cristã, e se levadas ao exagero poderia voltar-se mesmo contra o que o autor almejou, pois estaria argumentando contra a própria denominação que surgiu no século dezenove, a IASD. Assim, todo desenvolvimento da doutrina católica tem sua base divina e sua marca apostólica.

A Igreja que observa a ordenança do domingo é a Igreja de Cristo, e não uma igreja caída. As provas bíblicas são suficientes para demonstrar isso.

Portanto, a apostasia não pode ser geral. Ainda, a observância do domingo tem suas raízes na Bíblia. Então, as causas para a adoção do domingo devem ser buscada nas Escrituras Sagradas e comprovadas pela tradição da Igreja. Desse modo, os testemunhos históricos que serão apresentados devem ser lidos na linha de continuação da fé e da prática cristã e não como uma ruptura dessa mesma fé e prática.

No entanto, há que se ter em mente que as explicações dadas pelos protestantes a respeito da origem da observância do domingo são uma das causas que levam muitos protestantes a adotarem a observância do sétimo dia. O modo de expor esse fato foi o estopim para que os descendentes da reforma radical voltassem ao texto bíblico de modo mais radical que os demais ramos da reforma, levando-os a adotar o sábado do Antigo Testamento ao invés do sábado do Novo Testamento.

Tal circunstância parece ter sido engendrada especialmente na história e apologética cristã nos Estados Unidos.

A começar pela citação do historiador protestante Wilhelm August Johann Neander (1789-1850), esse afirma que a oposição ao judaísmo introduziu o festival do domingo no lugar do sábado. Afirma, ainda, que o festival do domingo é uma ordenança humana, e que os apóstolos não cogitaram estabelecer uma ordem divina sobre o domingo, transferindo as ordenanças do sábado para o domingo, o que teria sido feito, talvez, no fim do segundo século, quando pensaram ser pecado o trabalho no domingo. Essa é a síntese do que diz a citação de Neander e que agrada bastante aos defensores do sétimo dia, pois afirma que o domingo foi criado para opor-se ao judaísmo, que não foi instituição apostólica e que começou a ocorrer mais tarde, em fins do segundo século. Muitos estudiosos adventistas do sétimo dia desenvolvem suas teses sobre essa base apresentada pelos eruditos protestantes.

No entanto, o que Neander apresenta é histórica e teologicamente indefensável, pois a prática do domingo está alicerçada fortemente na doutrina apostólica e na fé bíblica.

 

Comentário: A observância do sábado não foi interrompida

A constatação de que a observância do sétimo dia não foi interrompida é parcial. De fato, a Igreja Católica permitiu desde o início a observância dos dois dias, sábado e domingo, onde o sábado era o dia de guarda do AT, não mais obrigatório para os cristãos, e o domingo o dia litúrgico por excelência.

O poder e a força do papado, como escreve Carlyle, não afastou a observância do sábado até que os judaizantes tentaram introduzi-la como necessária para a salvação. Nesse contexto houve sínodos e concílios para que os cristãos não judaizassem. O primeiro concílio foi o de Jerusalém e desenvolveu essa mesma temática.

Quando se diz que uma semente de justos guardava o sábado, isso faz pensar que muitos cristãos ensinavam a doutrina correta e eram observadores do sábado e foram perseguidos pela Igreja, o que não se encontra respaldo histórico.

Na verdade, os que observavam o sábado eram cristãos católicos de origem judaica, ou mesmo gentia, mas prosélitos, acostumados à guarda da lei, de forma que o faziam em termos de piedade, e não como necessária à salvação. Sendo assim, os santos da época admitiam esse proceder, sem ver nisso qualquer problema para a fé cristã. No entanto, o crescimento dessa prática levava à ideia de que era necessário ser judeu para ser cristão, ou seja, a guardar a lei para ser salvo. Então, ressurgia sempre a questão e a necessidade de esclarecer sobre esse ponto básico da fé, onde a Lei foi inteiramente cumprida, restando apenas o que é de cunho divino e natural, que é também observado na lei do evangelho.

Morer afirma que o sábado foi respeito pelos cristãos primitivos, que haviam aprendido dos apóstolos; Edward Brerewood (1565-1613) afirma que os cristãos no Oriente guardaram o sábado por trezentos anos após a morte de Cristo; Lyman Coleman (1796-1882), um congregacional, afirma que até o quinto século o sábado judaico foi guardado na Igreja, até que deixou de ser observado. Essas citações são de eruditos protestantes, e é patente que fornecem a base para a teologia adventista defender sua posição.

O historiador Sócrates, do quinto século, afirma que as igrejas celebravam os sagrados mistérios no sábado, com exceção de Alexandria e Roma, que por causa de uma antiga tradição deixaram de fazer isso, e Sozomen, também historiador do quinto século, escrevendo a história de 324 a 440 d. C., afirma que o povo de Constantinopla e de quase todas as partes se reúne no sábado e no primeiro dia da semana, mas que isso não é observado em Roma ou em Alexandria.

Com essas fontes históricas antigas, do quinto século, o intuito é fornecer a base de que Roma foi causa da observância do domingo e da proibição de guardar o sábado. O problema é que toda a Igreja estava unida nesses séculos, com a fé de Roma, e se elas observavam o sábado, bem como o primeiro dia da semana, isso está em consonância com o que já foi apresentado antes, pois essas práticas estavam no contexto em que não oferecia o perigo de entender essas observâncias como algo contrário à fé cristã.

Para contextualizar o que Sozomen escreve a respeito do sábado. A igreja adotava vários usos em relação à Páscoa naquele tempo. São Vítor, bispo de Roma, ou seja, o papa, e São Policarpo, bispo de Esmirna, decidiram sobre a controvérsia da páscoa, e Sozomen afirma que foi uma decisão muito sábia.

Havia uma divisão, entre os bispos que afirmavam estar seguindo a tradição de São Pedro e São Paulo e os da Ásia, que diziam seguir a tradição de São João evangelista. Sozomen afirma que isso era um mero ponto de disciplina, ou seja, não era doutrinal, pois todos professavam a mesma fé.

Quando afirma que o povo de Constantinopla, e outras cidades se, reúne no sábado e no dia próximo e que isso nunca é feito em Roma e Alexandria, isso está entre as coisas disciplinares, não consideradas na época como diferentes na fé, mas apenas mostrando que havia uma costume fixo de fazer certas coisas relativas ao culto que não eram as mesmas em outros lugares.

Assim, em Roma havia 7 diáconos, como foi o número estabelecido pelos apóstolos em Jerusalém, mas em outros lugares o número de diáconos era incontável. Desse modo, a citação de Sozomen não permite uma leitura que contraponha a guarda do sábado e do domingo, pois a mesma está em contexto de unidade de fé naqueles tempos.

Esses costumes estavam ligados à doutrina, por causa de homens santos que haviam estabelecidos esses costumes diversos em vários lugares mas continuava a ser restritos à disciplina eclesiástica, como a leitura de livros na missa que não eram considerados sagrados pelos antigos, como o Apocalipse de Pedro, lido em algumas igrejas na Palestina, quando era feito o jejum antes da comemoração da paixão do Senhor, e o Apocalipse do apóstolo Paulo era estimado pela maioria dos monges, afirma Sozomen. Em nenhum momento há divisões por essas práticas.

 

Comentário: Uma instituição pagã transplantada para o cristianismo

A mesma ideia protestante está na citação do Smith and Cheetham´s Dictionary of Christian Antiquities, de 1823, afirmando que a ideia da substituição convencional do sábado pelo domingo e etc., era desconhecida nos primeiros séculos do cristianismo.

Na citação de Hutton Webster (1875-1955), esse afirma que aos poucos uma instituição pagã foi sendo introduzida no cristianismo. Outra autoridade que reforça a tese adventista do sétimo dia. No entanto, os dados da história não mostram a tensão que esses eruditos apontam e nem a influência que os mesmos afirmam.

 

Comentário: Corrupção do cristianismo

No respectivo tópico, Carlyle admite que a observância do domingo começou em uma fase inicial da história da igreja, mas não crê que seja autêntica e aponta para a falta de ordem escriturística.

John William Dowling (1807-1878), pastor batista, escrevendo em 1845, aponta a época prematura do que considerava muitas corrupções do cristianismo que estão incorporadas no sistema romanista. Certamente, afirma isso por encontrar doutrinas católicas muito antigas, embora não concorde com elas.

Carlyle faz essas citações por saber que o domingo tem origens remotas. Mas, deve-se admitir, a observância do domingo não é somente antiga, mas de origem apostólica e portanto está na regra da fé.

 

Comentário: O dia do Sol tomado emprestado do paganismo

Outra citação de T. H. Morer, clérigo anglicano, afirma que o dia do sol foi achado apropriado pelos cristãos para ser guardado, e conservado o mesmo nome.

No entanto, os cristãos não chamavam o dia de domingo dia do Sol, mas apenas usavam essa referência quando tratavam do assunto com os gentios.

Ainda, a guarda do domingo não tem origem no paganismo, mas na Bíblia, atestada pela prática dos apóstolos.

Assim, do kyriake hemera, o dia senhorado, o dia senhorial, como pode ser entendido do termo grego, em latim é traduzido domo dominica dies, o dia do Dominus, Senhor, o dia senhorial, portanto, levando a ser chamado em português como domingo (proveniente de dominus). Assim, a língua inglesa e a língua alemã conservaram o nome pagão, mas não as línguas latinas.

 

Comentário: Uma fusão de cristianismo e paganismo corrompidos

Carlyle afirma que paganismo e cristianismo produziu o catolicismo. Ou seja, o catolicismo seria o cristianismo mesclado com o paganismo, onde haveria o surgimento do domingo.

Na verdade, o domingo tem origem bíblica. Como visto, a Igreja não pode ser destruída e a observância do domingo não poderia surgir e suplantar a do sábado se não fosse por autoridade divina. Essa tese deveria ser abandonada por todo estudioso das Sagradas Escrituras.

Então, Carlyle afirma que o catolicismo e o domingo procuram ter base apostólica. O papa como sucessor de Pedro e o domingo proveniente do dia da ressurreição de Cristo. Afirma que não tem pretensão legítima nem confirmada. Para o papado basta ler o livro Resposta ao livro a História não contada de Pedro e verá a forte base para o papado. Sobre o domingo, o leitor está seguindo a argumentação no presente estudo sobre a origem bíblica da observância dominical.

Como o domingo, o dia do Senhor, dia em que se comemora Jesus Cristo, vivo, Senhor, Salvador, poderia ser um dia que lançou o Senhor da vida fora da Igreja, como diz Carlyle? Não tem sentido.

Tertuliano trata daqueles que pensavam que o Sol era o Deus dos cristãos, porque os cristãos rezam em direção leste ou fazem do domingo um dia de festividade. Tertuliano não afirma que adota o dia do sol, mas que aqueles pagãos que acusavam os cristãos de adorarem o Sol o faziam por ignorância, por verem que os cristãos tinham práticas que assemelhavam essa adoração, como rezar para o lado onde nasce o Sol e por guardar o domingo.

Mas Tertuliano nota que eles tinham práticas que se assemelharam à dos judeus, embora não fossem, e  termina afirmando que vós que nos reprovam com o sol e o domingo deveriam considerar sua proximidade a nós. Nós não estamos longe do seu Saturno e de seus dias de festa.

1º Eles supunham que o sol é o deus dos cristãos.

2º porque os cristãos rezam para o leste.

3º porque os cristãos fazem do domingo dia de festividade.

4º mas os pagãos não fazem menos: muitos adorando os corpos celestiais rezam para o leste também.

5º Também admitiram o sol no calendário.

6º Selecionaram o seu dia ao invés do dia precedente (o sábado)

7º abstendo-se do banho.

8º ou por repousar ou por fazer banquete.

9º Fazendo isso (acima) vocês desviam-se de sua religião para as dos estrangeiros.

10º Pois as festas judaicas do sábado e da purificação, bem como as cerimônias das lâmpadas, jejuns, pães ázimos e orações litorâneas são alheias aos seus deuses.

11º E termina afirmando que os cristãos não estão longe do Saturno e dos seus dias de descanso.

Com essa argumentação Tertuliano testemunha a guarda do domingo em seu tempo e também a familiaridade que tinha das festas judaicas, fazendo voltar aos pagãos as objeções que os mesmos fizeram contra os cristãos quanto ao sol e ao domingo, apresentando argumentos quanto ao sábado e demais festividades judaicas.

Tertuliano não diz que seguia o exemplo dos pagãos e que por isso não podiam os cristãos serem censurados por eles, mas que tinham coisas em comum, e por isso a crítica dos pagãos era infundada.

Ademais, os pagãos tinham coisas em comum com os judeus, como visto acima, e nem por isso o sábado foi guardado por causa de Saturno. Assim, a crítica não tem a ver com influência, mas apresenta pontos de contato. E mais, os pagãos interpretavam erroneamente as práticas cristãs. Tertuliano objetou contra eles que os mesmos adotavam práticas contra sua própria religião. Em nenhum momento é dito que a origem do domingo tenha sido causada por práticas dos pagãos, nem há indicação disso na argumentação de Tertuliano. Esses pagãos certamente eram adoradores de Saturno e guardavam o sétimo dia, e por isso Tertuliano menciona a fé judaica e termina afirmando que não estão os cristãos longe da de Saturno e dos dias de descanso, pois esses tinham coisas em comum com os cristãos.

O que Tertuliano utiliza nessa argumentação são os pontos de contato. No capítulo anterior ele defende a fé cristã de venerar a cruz, quando os pagãos afirmavam que os cristãos eram sacerdócio de uma cruz. Ele afirma que há figuras entre os pagãos que são feitas de madeira, e que há objeto que é cultuado feito em madeira. Os pagãos tinham um deus em madeira na forma de homem. Os cristãos tinham a cruz de madeira. Sem ter em mente a forma, o argumento usa o material, a madeira, para refutar os pagãos.

Ele afirma que os deuses procedem dessa cruz odiosa, que eles odeiam. Com esse tipo de raciocínio, Tertuliano continua com o que se vê acima, onde o domingo é o dia cristão, mas não tem a ver com o sol e nem com o dia do sol pagão, mas apenas na sua semelhança, assim como as imagens dos pagãos feitas de madeira tem sua semelhança na cruz. A objeção é que eles, de outra forma, também cultuam cruzes, e por isso não podem acusar os cristãos de possuírem sacerdócio de uma cruz.

O que Carlyle tentou fazer não é proveniente do raciocínio de Tertuliano nem do contexto. Assim como os cristãos venerarem a cruz não tem a ver com a idolatria dos pagãos com seus deuses de madeiras, não há cristãos seguindo exemplo pagão, como se isso tivesse dado origem à observância do domingo.

Comentário: A mais antiga lei dominical conhecida da história

O autor cita a lei de Constantino, em 321 d. C. Essa lei ordena que se deve repousar no domingo, que chama de “venerável dia do Sol”. De fato, Constantino ainda usa a terminologia pagã. O imperador havia aceitado o cristianismo, mas não era batizado ainda. Não era cristão de fato.

Os trabalhadores do campo podiam trabalhar se não tivessem outro dia apropriado para a semeadura ou plantio de vinhas. Essa inspiração da lei mostra como a Igreja compreendia o domingo, que em casos justificáveis alguns poderiam trabalhar. Certamente o imperador consultou os bispos para formular a lei. De fato, não havia lei pagã para repousar no dia do sol.

Com isso, o dia de domingo como lei no império foi uma vitória de Cristo ao instituir legalmente o dia de repouso para os cristãos, que os mesmos já praticavam enquanto cristãos. Agora, podiam mais livremente cultuar a Deus sem as perseguições imperiais.

Constantino ainda demorou a ser batizado. A sua conversão se deu em 312 d. C. Foi batizado no leito de morte, então, em 337 d. C. Portanto, não podia votar em concílio nem ensinar coisa alguma da Igreja, mas estava sendo evangelizado. Suas atitudes em favor da Igreja foram resultado de sua adesão à fé cristã.

O tempo da conversão de Constantino foi o do papa Melquíades (311-314). Veio então o papa Silvestre (314-335), sucedido pelo papa Marcos (336-336) e Júlio I (337-352), tempo em que Constantino faleceu. Durante a vida de Constantino viveram quatro papas.

 

Comentário: O domingo e a adoração do Sol

Carlyle cita a Encyclopedia Britânica e a Chambers´s Encyclopdia para a origem da lei dominical. E com H. Webster, o autor afirma que a lei do domingo não tem nenhuma relação com o cristianismo, mas o imperador estava apenas acrescentando o dia do Sol aos outros dias festivos.

No entanto, como visto, a Igreja obteve esse direito do imperador, que por certo foi inspirado pela fé cristã para instituir a lei. Anteriormente, os pagãos não guardavam o domingo no Império.

 

Comentário: Reforçada a observância do domingo por lei

Outras leis que foram promulgadas para a observância do domingo refletem a situação histórica do seu tempo.

H. Webster chama de ordenança pagã que terminou como regulamentação cristã, o que não confere com a realidade. O domingo é de origem cristã que recebeu com o tempo a sua legislação para ordenar a vida civil como direito alcançado pelos cristãos.

Carlyle cita o ano 386 onde os litígios e negócios devem cessar aos domingos, e a carta do papa em 416 que prescreve o domingo como dia de jejum. Em 425 foi imposta abstinência de espetáculos teatrais e de circo no domingo, e em 538 o Concílio de Orleáns ordena abster-se do trabalho com arado, ou em vinha, seja ceifa, debulha, cultivo, cercagem para que as pessoas frequentem a igreja.

Interessante que nesse tempo o jejum estivesse sendo praticado no domingo, quando em outras circunstâncias o mesmo foi feito no sábado os adventistas do sétimo dia consideram tal coisa como um meio de pesar a observância do sábado. No entanto, trata-se apenas de uma prática cristã católica tradicional que pode ser observada em dias diversos.

No ano 590 o papa Gregório é citado chamando de Anticristo aqueles que ensinassem que o trabalho não devesse ser feito no sétimo dia. Nesse tempo, afirma Carlyle, é indicado no final da carta que havia os observadores do sábado, e que esses ensinavam sua observância. Esse exemplo seria o da observância do sábado por parte de uns poucos fieis.

Carlyle faz um recorte citando as palavras de São Gregório fazendo parecer que a Igreja estava afastando os fieis da guarda do sábado em seu tempo. No entanto, isso não é o que transparece na carta do papa. Quando se nota o contexto geral, a ideia é outra, bem abrangente, e muito importuna para conhecer.

A esse respeito é preciso ater-se às palavras do papa, que não foram mencionadas no contexto e que revelam uma interpretação importante a respeito da doutrina relativa à observância do sábado e do domingo.

O papa começa a carta com o título papal “servo dos servos de Deus”, o que é bastante importante notar. Ele escreve para combater erros contra a “fé santa”. Uma dessas heresias era proibir fazer qualquer trabalho no dia de sábado.  A esses pregadores ele os chama “pregadores do Anticristo”.

E, agora é o mais importante. O papa afirma que quando o Anticristo vier ele “causará o dia de Sábado bem como o Dia do Senhor para sejam mantidos livres de todo trabalho”.

Com isso, afirma que o Anticristo pretenderá morrer e ressuscitar, e, portanto, reverenciará o domingo, e porque ele compele as pessoas a judaizar, para que possa trazer de volta o rito exterior da lei, e subjugar a si a perfídia dos judeus, ele deseja que o sábado seja observado, escreve o papa.

De fato, o papa afirma que o anticristo usará do domingo e do sábado para enganar. Nessa epístola, o papa mostra que o domingo é o dia de observância cristão, e o sábado era o rito exterior da lei, guardado pelos judeus, o que foi de grande valor no AT. E como os dois dias estão na Sagrada Escritura e unem AT e NT, o Anticristo usará leis para inculcar a ambos os dias para enganar cristãos e judeus.

Com isso, naqueles dias, os judaizantes mais uma vez ensinavam a guarda do sábado. Também é impressionante que está nessa tradição a noção de que o Anticristo tem planos para lidar com o dia de guarda dos dez mandamentos. E, diferentemente do que ensina Ellen Gould White e a IASD, no século dezenove, o papa afirma, no sexto século, que o Anticristo enganará por meio do ensino da observância do sábado e do domingo.

De fato, o sábado é guardado pelos judeus e o domingo pelos cristãos. Ao inculcar a lei sabática e a lei dominical ao mesmo tempo, não está introduzindo novidade para os respectivos campos, mas usando de astúcia para enganar. Não se trata de enganar promulgando lei a favor do domingo e contra o sábado, como ensina a IASD, mas de juntar ambos os dias. Com isso, o engano poderá afetar os cristãos observadores do domingo que também honram o sábado, como o faz a Igreja Católica Romana, pois o sábado está integrado na espiritualidade católica.

Obviamente, a interpretação adventista do sétimo dia é referente à Igreja Romana. Assim, caso a Igreja fomente uma lei civil em prol da observância dominical, essa será vista como cumprimento da Escritura e engano do Anticristo. É certo que a Igreja possui um dia de guarda, e esse é o primeiro da semana. Uma lei cristã sempre deverá convergir com a doutrina da Igreja. Assim, o sábado não seria o dia promulgado, por questões já claramente expostas.

Entretanto, o Anticristo, sem compromisso com a verdade, tentará agir para a causa judaica e cristã, causando confusão.

Como visto, a citação de Carlyle sobre a carta do papa Gregório deixou muito a desejar e fez um recorte que não concorda com o tema geral e nem com a causa que o mesmo se propôs a defender.

Depois cita Neander, supondo que os valdenses fossem a sobrevivência de cristãos judaizantes dos tempos antigos. Com isso pensa ter uma tradição de observadores do sábado. Porém, esses cristãos não evidenciaram historicamente as características da Igreja de Cristo, mas foram apenas cristãos divergentes, sempre oriundos de alguma forma dos ramos judaico e católico.

Por fim, traz as palavras de Eusébio de Cesareia, citadas por Robert Cox, que afirma que todas as coisas obrigatórias de serem feitas no sábado foram transferidas para o dia do Senhor. Essas palavras do bispo Eusébio provam que em seu tempo o dia de domingo era o dia de observância para os cristãos.

De fato, Eusébio trata dos ebionitas em seu tempo. Esses tinham apreço pela Lei, e essa “era totalmente necessária, como se não pudessem ser salvos só pela fé em Cristo e a vida correspondente” (Hist. Ecl. Livro III, 27). Essas palavras testemunham o entendimento católico de que as práticas da Lei apenas são proibidas de forma veemente quando são colocadas para fins de salvação.

Como observado antes, no início os cristãos judeus guardavam certos preceitos da lei, desde que o fizessem como judeus e não ensinavam aos novos convertidos que tal prática era necessária. O mesmo aparece no tempo de Eusébio, no século quarto.

Entre os ebionitas havia divisão, mas todos tinha zelo pela lei. Esse grupo “observava o sábado e outras disciplinas dos judeus”, mas “também celebravam os dias do Senhor como nós, para comemorar sua ressurreição”. Eusébio viveu entre 263 d. C. e 340 d. C., e esses fatos históricos são de grande relevância. Eles demonstram que mesmos os hereges tinham apreço pelo sábado e pelo domingo. O sábado por causa do AT e o domingo por do NT. Não faziam oposição entre um dia e outro, o que mostra terem entendimento católico nesse aspecto.

 

Comentário: A substituição do dia de Deus por um dia pagão

A IASD acredita que o domingo é um dia pagão instituído pela autoridade da ICAR. Isso certamente tem a ver com a posição que a Igreja tenha tomado no século dezenove e vinte para fazer frente às novas intepretações surgidas no Protestantismo de então, especialmente nos Estados Unidos da América.

O padre Peter Geiermann (1870-1929), no catecismo de 1919, explicou a transferência da observância do sábado para o domingo com origem no Concílio de Laodiceia em 336 d. C.

Também as palavras de Stephen Keenan, quando afirma que a substituição do sábado pelo domingo foi feita pela Igreja e que “para a qual não há nenhuma autorização escriturística” são usadas para a causa adventista.

Henry Tuberville (1612-1678), publicou em 1649 o catecismo An Abridgmente of the Christian Doctrine, causando enorme impacto, tornando-se obra fundamental para instrução religiosa dos católicos em tempos de perseguição na Inglaterra.

O padre Henry usou a concordância protestante sobre o domingo para argumentar que o ato de mudar o sábado para o domingo é de autoridade católica, o que demonstra incoerência dos protestantes ao não aceitarem outros dias de guarda observados pelos fieis católicos.

O que se nota aqui é a insistência na apologética católica pelos autores de língua inglesa em mostrar incoerências na doutrina e prática protestante, por sua alegação de fundamentar-se somente na Bíblia.

Uma vez afirmando que creem no Sola Scriptura, os protestantes estariam agindo de forma contrária ao texto bíblico ao não observarem o sábado, visto que a guarda do domingo não aparece claramente como ordenança cristã, segundo as exigências que os próprios protestantes fazem ao fundamentar as doutrinas na Sagrada Escritura.

Com isso, surge uma nuance doutrinal que deu origem à tese adventista do sétimo dia. De fato, ao frisar a falta de ordem bíblica para o domingo e a prática do domingo comum no Protestantismo geral, que segue a Bíblia somente, estaria o fato de seguirem, nesse ponto específico, a autoridade católica.

Essa mesma ênfase, fez surgir a ideia de que para ser fiel às Escrituras dever-se-ia abandonar aquelas doutrinas e práticas que são oriundas “somente” da autoridade da Igreja Romana, não tendo base escriturística. Com isso, a observância dominical foi grandemente utilizada pelos observadores do sábado como exemplo de fidelidade ao princípio Sola Scriptura, uma vez que os apologistas católicos admitiam ser uma prática não encontrada nas Escrituras e da mesma ser sinal de autoridade da Igreja em mudar um mandamento da Lei de Deus.

Essa nuance sutil está alicerçada em tal fundamento. Esse fundamento é, por sua vez, equivocado.

De fato, a Igreja Católica crê firmemente que a observância do domingo é de autoridade divina, ensinada por Jesus Cristo e inspirada pelo Espírito Santo, observada desde a páscoa de Jesus Cristo, pelos apóstolos e primeiros cristãos.

Entretanto, afirmam também que a mesma prática é evidente na Bíblia, mas não possui uma clareza tal, diga-se de passagem, como exigida pelos protestantes, de forma que é uma doutrina da tradição apostólica, que a mostra de forma categórica e possui seu fundamento nos princípios da Bíblia.

Isso é bem diferente de afirmar a conclusão que aparentemente fluem das palavras dos apologistas católicos citados. Por enfatizar muito a autoridade da Igreja deram a entender que a doutrina surgiu dessa mesma autoridade, como se a mesma se opusesse à autoridade divina ou pudesse mudar a própria lei divina. Assim, essa conclusão errônea tornou-se comum na apologética adventista, mas não condiz com a doutrina católica.

Essas ênfases na autoridade da Igreja, e certamente na tradição, que fazem frente ao princípio Sola Scriptura dos protestantes, deram origem a interpretações equivocadas por parte da IASD sobre o posicionamento da Igreja Católica a respeito do domingo.

 

Comentário: Nem uma linha bíblica em favor da observância do domingo

Na mesma linha de pensamento está a citação do Cardeal Gibbons, em 1893, onde o mesmo afirma que a santificação do domingo não é encontrada nas Escrituras e o dia de sábado nunca é santificado pelos cristãos.

Essa afirmação tem o mesmo sentido explicado antes: o sábado não tem sua substituição explicitamente escrita na Bíblia. No entanto, sabemos que o sábado deu lugar, com a lei, à lei do evangelho, que tendo como fundamento a lei eterna de Deus, a lei moral está estabelecida, e um dia permanece para a observância sabática, ou seja, do repouso. Esse é o primeiro dia da semana.

Sendo assim, há muitas passagens bíblicas em favor da observância do domingo, ao contrário do que pensou Carlyle Haynes.

 

Comentário: “A Igreja Católica [...] mudou o dia”.

A citação do The Catholic Press, do ano de 1900, tem o objetivo de mostrar que o entendimento católico é que a observância do domingo é de origem exclusivamente católica. No entanto, a qualificação dessa frase ainda é necessária.

Quando se diz que a origem é exclusivamente católica deve ser pensado que isso tem a ver com a autoridade da Igreja para ensinar a verdade, e que essa foi outorgada a ela pelo próprio Deus. Sendo assim, quando a mesma guarda o domingo, conforme o testemunho das Escrituras, isso é devido ao fato de que essa prática é de origem divina e não humana.

Assim, a citação afirma o que já foi explicado antes, ou seja, não há passagem explícita na Bíblia para autorizar a guarda do domingo: “não há uma única passagem”, afirma o The Catholic Press. Isso quer dizer que não há passagem clara e direta sobre isso, mas há princípios e as evidências práticas pelas quais conhecemos a doutrina, o que é também confirmado pela tradição.

O texto do Monsenhor Segur (1820-1881) afirma isso claramente, pois afirma que a transferência do dia de repouso foi feita pela Igreja Católica “por autorização de Jesus Cristo”. Esse dado está em toda a doutrina católica. Muitas vezes as palavras são interpretadas sem ter esse princípio em mente, como a que ocorre na respectiva citação de Carlyle Haynes do livro Plain Talk About the Protestantismo of Today.

Esse texto do livro de padre Segur é de 1868, e afirma o que os demais textos já analisados ensina, ou seja, que os protestantes homenageiam a Igreja Católica ao guardarem o domingo. Eles o fazem sem autorização, pois crendo no Sola Scriputra não encontram texto explícito para a ordenança dominical, mas seguem a tradição católica.

Por sua vez, a Igreja Católica o faz porque conhecendo as Escrituras desde o início, e tendo a autoridade dada por Jesus, guarda o domingo com toda a certeza, de modo a não deixar dúvida na interpretação dos textos bíblicos que tratam do domingo no Novo Testamento, como é aqui demonstrado.

É nesse mesmo sentido que devem ser entendidas as palavras citadas pelo cardeal Gibbons, em 1893 no The Catholic Mirror, afirmando o reconhecimento da Igreja Católica pelo mundo protestante.

Essas considerações levaram os adventistas do sétimo dia, herdeiros da tradição protestante de reforma radical, a não compactuarem em nada com a Igreja Romana, tentando fundamentação bíblica para a guarda do sábado. E com isso, por meio das palavras ousadas da apologética católica, foi gerada em contrapartida a radical recusa de aceitar a autoridade romana para algo que alegadamente entendem não ter base na Bíblia Sagrada.

Ao mesmo tempo, essa postura coloca os observadores do sábado, os chamados sabatistas, em contradição com as demais denominações da reforma, todas elas adeptas do Sola Scriptura. Essa relação será tratada quando Carlyle abordar a posição do Protestantismo nesse particular da observância do domingo.

Assim, temos que a postura radical do adventismo a respeito do sábado herdou opiniões que foram gestadas no debate católico e protestante relativas à autoridade da Igreja, especialmente no que se trata à guarda do dia de repouso nos Dez Mandamentos, com afirmações que nasceram nos escritos católicos, mas que tiveram objetivo diverso daquele que se consolidou na apologética da IASD.

Comentário: A observância do domingo sem autorização divina

Citando Burns e Oates, que foi um proeminente publicador católico britância, a ideia sobre a guarda do domingo é a mesma explicada acima.  A Igreja, representada nesses trabalhos apologéticos, está afirmando que os protestantes guarda o domingo, e “ides contra a clara letra da Bíblia e pondes outro dia no lugar daquele que a Bíblia ordenou”, não no sentido de que a doutrina do domingo está contrariando a doutrina bíblica, mas que o texto bíblico não fornece claramente a ordem para a transferência do dia de repouso, como foi mostrado acima.

Nesse sentido, o texto confronta os protestantes, que seguem somente a Bíblia, e afirma que se quiserem ser coerentes devem apresentar alguma porção do NT para que o mandando do sábado seja “expressamente alterado”, ou seja, é evidente que o contexto dessas citações tem o intuito de rebater afirmações protestantes oriundas do princípio Sola Scriptura.

É uma forma de afirmar que o princípio protestante Sola Scriptura não é suficiente, e que as igrejas protestantes necessitam de autoridade para interpretar o texto bíblico, de algo que acompanhe a Bíblia, e que seja autoritativo. Assim, apresenta-se a autoridade da Igreja. Em nenhum momento é afirmado que a doutrina do domingo é totalmente alheia ao texto bíblico ou que contenha qualquer coisa contrária à doutrina bíblica. Que o leitor entenda esse detalhe sutil profundo que surgiu das palavras e expressões usadas nos documentos católicos e permitiram gerar esse argumento contrário ao domingo na mente dos eruditos adventistas do sétimo dia.

Desse modo, a Bíblia e a história mostram que o primeiro dia da semana é o dia de descanso para os cristãos. Com isso, essa prática encontra autoridade na Bíblia. Nunca houve alteração de um verdadeiro sábado para um falso sábado. O sábado antigo foi cumprido, e em sua parte cerimonial, referente ao dia, cessou, dando lugar ao sábado novo, na sua acepção moral, no primeiro dia da semana: mia ton sabbaton (Mt 28, 1).

Assim, o domingo é cristão, e nunca um “dia puramente pagão” como afirma Haynes. O preceito do domingo é divino. Os apóstolos só adotavam práticas que aprendiam de Jesus. A ideia de que o sábado deve ser restaurado no coração é prática da Igreja, no lugar do domingo, vem da ideia formada no entendimento adventista, como foi demonstrado antes.


Gledson Meireles.

 

 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Para pensar em alguns argumentos ateus

 

Jesus é o príncipe da paz. Mas, Jesus disse que veio trazer a espada e colocar filho contra mãe e nora contra sogra (Mt 10, 35). Esse texto é usado como argumento contra o Cristianismo. O que subjaz pro trás do argumento? Ele afirma que por essas passagens a Bíblia, e Jesus mesmo, ensina a desunião e a rivalidade, por exemplo. Ou seja, o ensino bíblico é que Jesus traz a guerra, e sua doutrina é para desunir as pessoas. Bela interpretação.

Mas, se não é assim a Bíblia estaria se contradizendo, e Jesus mesmo não saberia o que estava ensinando. Então, apenas os que não creem na Bíblia estariam com a interpretação certa. Portanto, quem lê a Bíblia deveria ter ciência de que o papel de Jesus é trazer a guerra à humanidade, ou já do início perceber que Jesus ensina a paz e a guerra ao mesmo tempo, pois do contrário não estaria entendendo a Bíblia.

Já se vê a pouca força desse argumento.

 

Em Lucas 14, 26 o ensinamento seria para odiar pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e a própria vida. Esse seria o ensinamento claro da Bíblia. Mesmo os cristãos que entendem o grego, os falantes nativos do grego, antigo e atual, não entenderam que Jesus ensina o ódio e não o amor nessa passagem.

Por essa passagem seria impossível entender o contrário, e deveria haver uma explicação melhor. Se não, há contradição no ensino bíblico, porque o ensino nesse contexto é para odiar a todos mesmo. O verdadeiro discípulo estaria cheio de ódio. Quem não entendeu assim ao ler a Bíblia não estaria interpretando bem, pois os que não creem na Bíblia entendem assim, e o texto não teria nenhuma outra interpretação.

Outro argumento evidentemente falso.

 

E sobre o livre-arbítrio dizem que, por exemplo, numa agressão o livre-arbítrio do agressor seria respeitado enquanto não o seria o da vítima. Isso supõe que Deus poderia livrar a todos de todas as misérias e defenderia de tudo e qualquer mal a toda a humanidade, defendendo a vítima da agressão, respeitando imediatamente a liberdade do mais fraco e indefeso, evitando que qualquer atrocidade fosse cometida. Nesse caso não haveria livre-arbítrio como conhecemos e Deus estaria a todo momento agindo nas ações humanas, e assim deveria ser.

Caso contrário, não haveria Deus, pois o mal explicado sem Deus, ainda que transpareça toda injustiça e nenhuma esperança de justiça futura, seria melhor que aceitar a existência de Deus, porque o mal em si não poderia existir no mundo criado por Deus e ponto. Esse é o fundamento do argumento ateísta.

Se Deus não evita o mal que poderia evitar seja injusto. Se admoesta que punirá todo pecador impenitente não resolveria o problema dos males e pecados práticos, porque já teriam sido feitos. Se o pecador se arrepende e recebe o perdão os males ficariam impunes, o que seria injusto.

Mas no mundo sem Deus os males impunes são aceitos pelos ateus, como de acordo com a cosmovisão ateísta, onde não há possiblidade de remediar essa realidade. Ao mesmo tempo essa realidade é transformada em argumento porque não se admite que Deus pudesse criar essa realidade que os mesmos defensores do ateísmo aceitam como natural e compreensível, desde que Deus não exista.

É interessante e bastante primário.

Sã esses argumentos que os que não creem em Deus guardam em sua consciência e se mostram satisfeitos com eles.

domingo, 17 de maio de 2026

LIVRO: Do sábado para o domingo, de Carlyle Haynes, estudo dos capítulos 2 e 3

 Estudo dos capítulos 2 e 3.

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Comentário: O sábado bíblico

 

O sábado criado na primeira semana da criação é o repouso (Gn 2, 1-3), e não em primeiro lugar o dia. O tempo em que o sábado foi criado foi o fim da primeira semana da criação, afirma Carlyle. No entanto, o mesmo se refere ao “sétimo dia”, como se somente nesse dia a bênção de Deus é derramada na humanidade que observa o repouso. Assim, somente o sétimo dia seria estabelecido por Deus para repousar, abençoar e santificar.

Uma vez criado o tempo, o dia sucede naturalmente, sendo o primeiro, o segundo e assim por diante. No entanto, como Deus não necessita de descanso, fazendo-Se repousar, deu à humanidade o exemplo e a bênção para repousar do trabalho, e o fez dentro de um período de sete dias, estabelecendo o descanso de um dia em sete.

Comentário: O sábado é um dia, não uma instituição

Carlyle entende que o “material” do qual Deus fez o sábado foi o sétimo dia. Essa separação do sétimo dia seria imutável, apenas sendo observado o descanso semanal naquele dia. Assim, seria o tempo do sétimo dia separado para o repouso. Mas, tal não parece ser o que a Bíblia está ensinando. Não há essa ênfase radical no dia.

Para provar essa asserção, Carlyle afirma que “Não nos é mandado “lembrar do sábado, para santifica-lo”, mas o mandamento diz: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar”. O dia seria o ponto importante aqui.

No entanto, como visto antes, o dia não é parte da lei moral, mas apenas o descanso. Essa necessidade moral está na lei de Deus, e o dia é parte cerimonial.

Tal compreensão de que o dia e o sábado são inseparáveis não parece estar nas palavras de Jesus: O sábado foi estabelecido por causa do homem (Mc 2, 27). De fato, o dia já havia sido criado, mas não o descanso.

Assim, o sábado no sétimo dia estabeleceu o descanso de um dia em sete. Não se trata da criação de um dia somente como possível para descansar e receber a benção divina. Por isso, a Bíblia afirma que o sábado é uma sombra (cf. Cl 2, 16).

Lembra-te de santificar o dia de sábado (Ex 20, 8).

O Senhor disse a Moisés: “Dize aos israelitas o seguinte: Eis as festas do Senhor que anunciareis como devendo ser santas assembleias: essas são as minhas solenidades:  Trabalhareis seis dias, mas no sétimo dia, sábado, dia de repouso, haverá uma santa assembleia. Nele não fareis trabalho algum. É o repouso consagrado ao Senhor, em todos os lugares em que habitardes (Lv 23, 1-3).

Embora seja conhecida a contagem do tempo desde o início da criação, a Bíblia ordena trabalhar seis dias e descansar no sétimo, como modelo desse descanso. Ainda, o texto sagrado afirma do repouso (sábado) consagrado ao Senhor, não se limitando à referência do dia. Ambos estão interligados, pelo modelo criado por Deus, mas o repouso é o fim desse mandamento, e não o dia em si.

O texto bíblico afirma que “o sábado é do Senhor em todos os lugares que habitardes” e não o sétimo dia é do Senhor em todos os lugares em que habitardes. O repouso é consagrado ao Senhor, o que inclui o dia, mas o sétimo dia é o resultado da contagem do tempo para o repouso.

Carlyle afirma que “O sétimo dia é o sábado; o sábado é o sétimo dia”, como dogma fixo de que o sábado não poderá ser feito em nenhum outro dia. Mas a Bíblia não fornece essa fixação referente ao dia.

De fato, em Levítico 23 os demais sábados continuam a ser promulgados. Desse modo, na Páscoa há o primeiro dia de santa assembleia, assim como no sétimo dia. Todos de igual importância na Lei.

Aliás, sobre o Pentecostes, em Lv 23, 21, está escrito: Nesse mesmo dia, anunciareis a festa e convocareis uma santa assembleia: não fareis nenhum trabalho servil. Essa é uma lei perpétua para vossos descendentes, em qualquer lugar onde habitardes. Então, o repouso é enfatizado, enquanto o dia o é dentro da contagem. Assim, nessas assembleias o primeiro e o sétimo dia são sábado.

Dessa forma, lê-se em Dt 5, 12: “Guardarás o dia de sábado e o santificarás, como te ordenou o Senhor teu Deus”, e no verso 15: “Lembra-te que foste escravo no Egito, de onde a mão forte e o braço poderoso do teu Senhor te tirou. É por isso que o Senhor, teu Deus, te ordenou observasses o dia do sábado”.

Trata-se do dia de descanso. O dia em que Deus descansou e também o dia em que Deus libertou o povo da escravidão do Egito. Esses dois motivos substanciam a guarda do repouso sabático. Dessa forma, o repouso é ligado ao dia, mas não de forma fixa e imutável, como se vê nas Escrituras mencionadas, sendo o dia de sábado a menção de Deus enfatiza o sábado, que no Novo Testamento é visto sendo celebrado em outro dia.

E “Este é o dia que o Senhor fez: seja para nós dia de alegria e de felicidade (Salmo 117, 24). Essa profecia sugere um dia criado por Deus, de descanso para os fieis do NT, para celebrar o dia que o Senhor fez. Com isso, vemos que as celebrações estão atreladas ao dia, mas são elas mesmas a ênfase do Senhor.

Com isso, temos o sábado como repouso em honra de Deus no sétimo dia, sendo o repouso o ponto principal da doutrina, e um novo dia feito pelo Senhor.

 

Comentário: O sábado é de duração eterna

 

Citando o Salmo 111, 7-8, Carlyle tenta fazer do sétimo dia o único sábado, de duração eterna, pois está escrito que os mandamentos permanecem firmes para todo o sempre. No entanto, como visto, estão entre os mandamentos que são a lei perpétua os demais sábados, como o de Pentecostes. Dessa forma, não se pode afirmar que da perpetuidade da Lei de Deus não se possa esperar alguma alteração.

“Essas são as solenidades do Senhor nas quais anunciareis santas assembleias, para oferecer ao Senhor sacrifícios queimados pelo fogo, holocaustos e oblações, vítimas e libações, cada coisa em seu dia, sem falar dos sábados do Senhor, de vossos dons votos e de todas as ofertas espontâneas que fizerdes ao Senhor” (Lv 23, 37-38).

Essas festas são o sábado, a páscoa, a primeira paveia, o pentecostes, o sétimo mês e a festa dos tabernáculos, e ainda os sacrifícios, holocaustos, oblações, vítimas, libações, votos e ofertas. Portanto, há que seguir o princípio bíblico para discernir a respeito do que foi cumprido e do que permanece na lei da liberdade (Tg cf. 2,10).

Quando o autor afirma que mesmo na Nova Terra o sábado será observado, incluiria também a festa da Lua Nova, o sacerdócio levítico, pois é algo citado em Isaías 66, 21-23:

Escolherei mesmo entre eles sacerdotes e levitas, diz o Senhor. Pois assim como os novos céus e a nova terra que vou criar devem subsistir diante de mim, declara o Senhor, assim devem subsistir vossa raça e vosso nome. E assim, cada mês, à lua nova, e cada semana, aos sábados, todos virão prostrar-se diante de mim, diz o Senhor.

A leitura literal sugere a aliança eterna com o povo judeu, a continuidade do sacerdócio levita, a festa da lua nova e o sábado, o que introduziria princípio que fere a totalidade da Escritura. Dessa forma, o texto tem cumprimento espiritual, pois é clara a introdução das nações em Israel, enxertados na mesma oliveira santa (cf. Rm 11), como é o fim do sacerdócio levítico, com o único sacerdócio de Cristo segundo a ordem de Melquisedeque, como também o cumprimento das festas, luas novas e sábados (cf. Cl 2, 16). Em sentido geral tem-se que a leitura descontextualizada, procurando estabelecer o sétimo dia como o sábado perpétuo não é o ensino bíblico.

A razão do sábado antigo é o repouso de Deus (Ex 20, 11), porque o sétimo dia é um repouso em honra do Senhor (Ex 20, 10), é o repouso do Senhor (Dt, 5, 14), e por causa da criação (Ex 20, 11) e pela razão da libertação do Egito foi dada a observância do sábado: “É por isso que o Senhor, teu Deus te ordenou observasses o dia do sábado” (Dt, 5, 15).

Por meio desse mandamento se recorda de Deus, o Criador. Entretanto, também, é lembrado de Deus, o Libertador. Os dois memorais se cumprem no primeiro dia, o dia da ressurreição de Cristo.

 

Comentário: Sinal de santificação

Carlyle afirma: “O poder criador de Deus foi exercido a segunda vez na obra da redenção, a qual é, na realidade, uma nova criação”. Isso confirma o significado do domingo. Cristo é a nossa páscoa.

O domingo sinaliza o repouso em Cristo que nos santifica. Ele santificou a Igreja no domingo, quando soprou o Espírito Santo sobre os apóstolos, como também no domingo de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre a Igreja reunida em Jerusalém. É o memorial da santificação do Espírito Santo no Novo Testamento.

 

Comentário: Sinal de libertação do pecado

O sinal do poder criador de Cristo seria o sábado, segundo Carlyle. A guarda do repouso do sábado faz entrar no repouso divino, como está em Hb 4, 10. Nisso o autor tem razão. No entanto, tal coisa não diz que o sétimo dia não poderia ser substituído pelo domingo, pois o repouso no primeiro dia cumpre a ordem moral e espiritual do repouso em Cristo, em vista do repouso divino no reino anunciado em Hebreus 4.

Se Josué lhes houvesse dado repouso, não teria depois disso falado dum outro dia”.

De fato, Hebreus quatro ensina algo profundo. Há uma promessa para entrar no descanso de Deus (v.1). A boa nova foi dada aos antigos e a nós, mas aqueles entraram na descrença (v. 2). Pela fé entraremos no descanso (v. 3).

 “Ele disse: Eu jurei na minha ira: não entrarão no lugar do meu descanso.” Tratava-se da terra prometida. Hoje é o reino espiritual que os salvos esperam.

O versículo 6 afirma que outros são chamados a entrar no descanso de Deus.  É anunciado o repouso de Deus no qual devem entrar os que têm fé. Esse descanso deve ser atual (v. 11).

Lembrando que o dia de pentecostes ocorreu em dia de repouso, um domingo, esse repouso na fé do NT anuncia do sábado futuro. O sábado, portanto, não é o do sétimo dia, como no AT, mas no primeiro dia, conforma a prática da igreja apostólica.

Comentário: Começo e fim do sábado

A contagem dos judeus, do pôr do sol de um dia ao pô do sol do outro não é um padrão imutável no NT, que muitas vezes reflete a contagem da meia noite como início do novo dia.

Aliás, o texto de Lv 23, 32, citado por Carlyle para ilustrar desde a tarde do dia nove do mês até à tarde do dia seguinte, refere-se ao sábado do sétimo mês, no dia da expiação.

Esse tempo santo do sábado antigo está ligado ao tempo santo do domingo no NT, santificado pela ressureição do Senhor.

 

Comentário: O propósito da observância do sábado

O sábado era o culto público para os judeus. O sábado (repouso) é para o homem. Cristo o cumpriu com excelência.  Entretanto, após a ressurreição de Jesus os cristãos cumprem o mandamento do primeiro dia da semana. Esse é o novo sábado.

Esse novo dia que o Senhor fez anuncia do reino eterno (cf. Sl 117, 24). Nele são cumpridos os requisitos morais e espirituais, o descanso físico e espiritual, o culto a Deus, e etc.

 

Comentário: Fundamental para os ideais edênicos

O sábado lembra a criação e repouso de Deus. O domingo lembra a libertação do pecado e da morte. O mandamento moral do sábado é cumprido no domingo, o primeiro dia da semana.

 

Comentário: O sábado no Novo Testamento

Carlyle afirma que o NT não modificou em nada a obrigação do sábado no sétimo dia. Mas não cita qualquer texto, pois não há texto obrigando o sétimo dia antigo na Nova Lei.

Antes da páscoa, Cristo e os apóstolos guardavam o sábado no sétimo dia. Após a ressurreição de Jesus, as Escrituras mostram os apóstolos e discípulos observando o primeiro dia da semana. Nesse dia, celebravam a fração do pão, que é outro termo para falar da eucaristia.

Quando o autor afirma que no NT não há registro de guarda do domingo como sábado, ou seja, para o descanso, está se esquecendo das ocasiões em que os apóstolos estavam reunidos no primeiro dia da semana com fins litúrgicos, sugerindo o repouso para tal fim.

3

Comentário: Ausência de autoridade divina para a mudança

 

Afirma-se que Jesus Cristo não mudou o sábado. Mas Jesus fez várias pregações para aperfeiçoar o sábado. E nessas ocasiões, afirmou que é Senhor do sábado. Com isso, temos princípio de que preparava algo especial relativo a esse dia.

O sábado foi memorial da criação e da redenção. No entanto, como o NT apresenta, o domingo é mostrado nesse sentido espiritual, pois é o dia em que é cumprido o mandamento de celebrar a ceia em memória de Cristo.

Afirmar que os discípulos de Cristo e as primitivas igrejas cristãs não ouviram jamais falar da mudança do dia de observância do sábado é extrapolar os dados bíblicos. De fato, os apóstolos não introduziram mudanças por suas próprias autoridades, mas as receberam de Cristo e por inspiração do Espírito Santo. Desse modo, as suas reuniões litúrgicas no primeiro dia da semana expressam a ordem divina para essa prática.

Dessa forma, a origem da guarda do domingo é apostólica, e não “posterior aos tempos da Bíblia”, como afirma o autor adventista do sétimo dia.

As passagens evangélicas sobre o ensino e trabalho de Cristo sobre o sábado tiveram por objetivo aperfeiçoá-lo. No entanto, como demonstrado, esse sentido está primeiramente conectado ao repouso, à forma de observar esse dia, e não limitado ao dia em si. De fato, o dia está conectado ao repouso, o que é um dado da doutrina católica, e por isso admite-se que Cristo tenha ordenado aos apóstolos a prática dominical como novo dia de observância cristã. Sendo assim, há autoridade divina para essa mudança.

É importante que o sábado foi feito para o homem e Cristo é o Senhor do sábado. Está escrito que o sábado foi feito para o homem, e não que o dia de sábado foi feito para o homem, e que Cristo é o Senhor do sábado, e não do dia do sábado, para lembrar da ênfase adventista. Com isso, deve-se pensar na literalidade do texto, usada para argumentar da ligação imutável do sábado ao sétimo dia.

Pelo evangelho, vemos que não há tal correlação rígida. Jesus afirma ser o Senhor dessa instituição do descanso sabático. Com isso, Ele pode mudá-lo para outro dia, como de fato o fez, pois do contrário a Igreja não observaria o domingo como fez desse o início.

Não se trata de uma contraposição aos sétimo dia, como também nenhuma recusa dos apóstolos e primeiros discípulos em cumprir outros mandamentos da lei antiga. De fato, é apenas a nova obrigação da eterna aliança que começou a ser praticada. Os ensinos de Jesus para a guarda do sábado são cumpridos na observância dominical.

 

Comentário: milagres no sábado

Curiosamente, Carlyle argumenta que Cristo criou as oportunidades propositalmente escolhendo o sábado para realizar milagres e obras de misericórdia. Isso é verdadeiro. Jesus sempre criou oportunidades para ensinar o evangelho.

Do mesmo modo, de propósito Jesus escolheu o domingo para ensinar a Igreja, aparecendo aos discípulos e confirmando-os na fé, conferindo o dom do Espírito Santo, realizando milagres. Esse padrão ocorre após a ressurreição.

Foram momentos que o Senhor utilizou para reformar o sábado. Esse princípio espiritual é guardado no descanso dominical.

 

Comentário: Cristo arriscou a vida para libertar o sábado

De fato, Jesus arriscou a vida para ensinar a verdadeira observância do sábado.

 

Comentário: Libertando o sábado de restrições molestas

Jesus reformou o sábado. Não foi uma abolição, mas o cumprimento do sábado. Hoje, essa prática é realizada no primeiro dia da semana.

 

Comentário: O primeiro dia mencionado seis vezes nos evangelhos

Essas passagens dos evangelhos (Mt 28, 1; Mc 16, 1.2.9; Lc 23, 56; 24, 1; Jo 20; 1.19) indicam a guarda do domingo. As aparições de Cristo quando os discípulos estavam reunidos.

De fato, os textos não tratam da mudança do sábado, e não enfatizam o domingo com algum título especial, como também não dão ao sábado nenhum título novo. Esse não é o intuído das passagens. Elas mostram a nova concepção cristã, e expressam uma prática que a Igreja adotou desde os primeiros dias, a reunião litúrgica aos domingos. Essa prática teve a presença de Cristo, que propositadamente apareceu no primeiro dia da semana aos discípulos.

 

Comentário: Nenhuma autoridade para a santificação do domingo

De fato, não é encontrada no NT uma discussão a respeito de uma nova instituição apostólica a respeito do dia de observância sabática. Tal não foi um assunto controverso.

O domingo surgiu na prática, mostrando a nova concepção cristã, mas não como oposto ao sábado, mas como um cumprimento do mesmo. Assim, os apóstolos muitas vezes praticavam o que é próprio do evangelho bem como o que é da tradição judaica sem ver nisso uma contraposição.

O assunto maior foi o do sacrifício. Uma vez que o sacrifício de Cristo cumpre os tipos da Lei, não é mais necessária a realização dos sacrifícios no templo. O véu foi rasgado de alto a baixo.

Ainda assim, coisas relacionadas à lei eram guardadas, como orações em determinadas horas do dia no Templo, votos, esmolas, jejuns, alimentos, sábado, circuncisão. Não obstante, essas práticas não foram ensinadas aos cristãos em seu conjunto, pois foram reformuladas. Os votos, as esmolas e os jejuns foram ensinados Jesus no evangelho. Os alimentos foram declarados puros, no contexto em que tratava das purificações antes de comer, e o sábado não aparece nenhuma vez sendo cumprido por algum cristão. Pelo contrário, é mostrado como uma sombra (Cl 2, 16).

A observância do domingo está nos princípios que são percebidos no Novo Testamento relativo à prática cristã nesse dia.

Comentário: O primeiro dia mencionado uma única vez no livro de Atos

O texto de Atos 20, 7-8 menciona explicitamente uma reunião cristã. Essa menção concorda em essência com o que os textos dos evangelhos sugerem, ou seja, os cristãos reuniam-se aos domingos com fins litúrgicos.

Certamente, essa reunião na noite de domingo reflete a contagem do tempo ao modo romano, onde o dia vai até à meia noite. De qualquer forma, a ocasião se deu no primeiro dia da semana.

A noite pode ter sido no sábado à noite, afirma Carlyle, mas também é provável que a reunião se deu no domingo à noite. A questão da contagem do tempo não é clara.

De qualquer forma, São Paulo passa uma semana em Trôade e celebra a eucaristia no domingo, o que é por si sugestivo dessa prática cristã.

A análise do argumento do Dr. Horatio B. Hackett, em 1882, de que São Paulo esperou o sábado para celebrar o serviço religioso é curioso. Por que deveria ter deixado passar o sábado para celebrar com os irmãos?

E a observação de Carlyle de que não há nenhuma menção ao caráter sagrado do domingo, mas apenas é referido como um dos sete dias da semana, o mesmo pode ser dito do sábado, que não possui nenhum título especial nos evangelhos e epístolas, sendo mencionado normalmente como sábado. O dia do Senhor, que é encontrado no Ap 1, 10, é a nova referência do domingo, que começou a ser usada na última década do século primeiro, como aparece nesse texto do Apocalipse.

Comentário: A última menção ao primeiro dia

Aqui, Carlyle não tenta uma refutação, afirmando apenas que essa passagem de 1 Cor 16, 2 é a única que menciona o primeiro dia em conexão com outra coisas, e que presumir que fosse o dia de culto público em Corinto e na Galácia é ir além do que o texto quer dizer.

O texto afirma: “No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que tiver podido poupar, para que não esperem a minha chegada para fazer as coletas”.

São Paulo havia dado diretrizes na Galácia e em Corinto. Não era necessário reunir o dinheiro e esperar a chegada do apóstolo, mas em cada semana, no primeiro dia, cada um deveria reservar uma quantia. Essa diretriz sugere de fato uma reunião religiosa no primeiro dia da semana, o que está em consonância com os demais textos citados anteriormente.

O versículo 3 diz o seguinte: “Quando chegar, enviarei, com uma carte, os que tiverdes escolhido para levar a Jerusalém a vossa oferta”.

O texto deixa claro que o apóstolo não iria fazer a coleta em todas as casas quando chegasse, mas havia pessoas escolhidas para reunir a quantia e levá-la a Jerusalém quando ele chegasse. Eles não deveriam esperar o apóstolo para fazer as coletas. Isso significa que todas as semanas essas pessoas recebiam as coletas que eram provavelmente levadas aos lugares de reunião litúrgica, no primeiro dia da semana, e, assim que São Paulo chegasse esses iriam a Jerusalém levar a oferta. O contexto de fato sugere uma reunião litúrgica geral.

E, com isso, é provado que o sábado não mais era observado pelo apóstolo? Não necessariamente, pois não era o assunto e nem havia tensão sobre isso. O apóstolo poderia ir à sinagoga no sábado, como judeu cristão, mas usava dessas ocasiões para falar de Jesus Cristo. Da mesma forma, em 1 Cor 16, 8 é citada a festa de Pentecostes, onde o apóstolo certamente fazia questão de participar, embora não obrigasse os cristãos gentios a isso: “Ficarei em Éfeso até Pentecostes”. De modo especial, as reuniões cristãs não eram realizadas aos sábados, mas aos domingos.

 

Comentário: Nenhuma reunião dominical

Nesse tópico, o autor tenta refutar a ideia de que havia reuniões dominicais. Mas, o contexto não afirma que cada cristão deveria fazer sua própria acumulação, pois São Paulo afirma que isso não deveria ser feito, mas que no primeiro dia a oferta deveria ser separada. Essa separação da oferta implica que a mesma era recolhida. O primeiro dia da semana para isso sugere o costume de reunir-se para a fração do pão. As pessoas escolhidas receberiam a oferta e acumulariam para levar a mesma até Jerusalém.

Por de parte o dinheiro no primeiro dia da semana leva a inferir o motivo de ser esse dia. Não dever esperar a chegada para entregar a oferta é algo que fortalece a leitura acima demonstrada. É, portanto, na reunião dominical que deveria ser coletada a oferta.

Isso pode ser demonstrado da seguinte forma: São Paulo deu instruções gerais para que o dinheiro fosse separado no primeiro dia da semana. Ele instruiu a não deixar para ofertar quando ele chegasse. Então, as ofertas não eram guardadas em casa até que o apóstolo chegasse, mas deviam ser separadas e, certamente entregues, no primeiro dia da semana, ao responsável pelas ofertas.

De fato, havia os escolhidos pela comunidade para levar a oferta a Jerusalém. O apóstolo não iria fazer a coleta quando chegasse, como ficou evidente. Também, a coleta semanal não implica que alguém faria o recolhimento das ofertas quando o apóstolo chegasse, pois isso iria contra o que o mesmo desejava evitar, o acúmulo até aquele dia para que fossem buscadas as ofertas nas casas. Então, as ofertas eram feitas no culto litúrgico do domingo. Os coletores já estariam com as ofertas preparadas quando da chegada do apóstolo, e seriam enviados a Jerusalém com a carta apostólica.

Caso contrário, os lucros da semana deveriam ser separados na sexta, ou mesmo no sábado, pois descansando no sábado, já teriam o acumulado da semana. O primeiro dia seria o menos apropriado para guardar os lucros semanais.

Ainda, o texto bíblico original não possui a palavra “casa” para a tradução “por de parte em casa”, e mesmo que a tradução seja permitida, essa coleta separada deveria nesse dia ser entregue, pois o acúmulo total em casa era o que deveria ser evitado.

Entretanto, como os cristãos guardavam o domingo, ao trabalharem durante a semana e já estando com a oferta pronta até o sábado, deviam separar o valor para entregarem na reunião dominical.

 

Comentário: Os sábados cerimoniais cessaram

Talvez esse seja até agora o principal texto bíblico estudado. Trata-se de Colossenses 2, 16. De fato, essa passagem é evidente de que o sábado foi uma sombra.

Carlyle interpreta o texto como se referindo apenas às festividades, dias santificados e sábados anuais, e não ao sábado semanal. Aqueles teriam durado até ao tempo da correção (Hb 9, 10), mas o sábado semanal continuaria.

E afirma: “O crente em Cristo não devia, portanto, voltar a esses tipos e sombras”. Também, nessa ocasião, o autor cita Lv 23, 38, afirmando que os sete sábados eram guardados “além dos sábados do Senhor”.

Esse texto já foi referido nas refutações anteriores. Mas, aqui o autor adventista do sétimo dia usa do texto destacando o sábado semanal dos demais sábados do calendário judaico. No entanto, a leitura do texto bíblico contraria a interpretação do autor adventista.

Façamos a comparação das conclusões de cada texto, o da interpretação de Carlyle e do texto sagrado.

 

Não precisava ele observar seus sete sábados anuais (Levítico 23:4, 24, 32, 29), todos os quais deviam ser guardados juntamente com ou “além dos sábados do Senhor” (Levítico 23, 38).

“Essas são as solenidades do Senhor nas quais anunciareis santas assembleias, para oferecer ao Senhor sacrifícios queimados pelo fogo, holocaustos e oblações, vítimas e libações, cada coisa em seu dia, sem falar dos sábados do Senhor, de vossos dons votos e de todas as ofertas espontâneas que fizerdes ao Senhor” (Lv 23, 37-38).

 

 

O intérprete adventista compara os sete sábados anuais “juntamente” com o sábado semanal. Contudo o texto bíblico compara “sacrifícios queimados, holocaustos, oblações, vítimas, libações” juntamente com “os sábados do Senhor”, e etc. O texto bíblico não faz a diferenciação como tentou fazer o autor adventista do sétimo dia.

“Essas são as solenidades do Senhor nas quais anunciareis santas assembleias, para oferecer ao Senhor sacrifícios queimados pelo fogo, holocaustos e oblações, vítimas e libações, cada coisa em seu dia, sem falar dos sábados do Senhor, de vossos dons votos e de todas as ofertas espontâneas que fizerdes ao Senhor” (Lv 23, 37-38).

O interessante é que, no mais, o autor admite que essas observâncias não são mais obrigatórias para os cristãos. O problema foi não reconhecer que esses sábados incluem o sétimo dia, ou melhor, são primordialmente os sábados do sétimo dia.

A interpretação citada do Dr. Adam Clarke, de que o sabbaton poderia ser as festas das semanas não é convincente e trai o contexto, já que em Cl 2, 16 são separadas as festas e os sábados.

A observação do Dr. Albert Barnes é também importante, já que não vêm em Cl 2, 16 uma abolição do sábado como abolindo um dos mandamentos do decálogo. Argumenta sobre o uso do plural “sábados” e da lei moral não poder ser dita “sombra” das coisas futuras.

O problema com essa intepretação presbiteriana é que os demais textos bíblicos correlatos tratam os sábados incluindo o sábado semanal, como o de Ezequiel 20, 22. Também, é equivocado não reconhecer que o sábado (como repouso) é um princípio moral, mas o dia, o sétimo, contem significado cerimonial.

Assim, o uso dos sábados no plural, bem como sua acepção moral nos Dez Mandamentos e seu caráter figurativo em Colossenses são fatos compatíveis com o sábado do sétimo dia.

A tese de Ron du Preez, em 2008, defende a interpretação tradicional da IASD de que os sábados são somente os cerimoniais em Cl 2, 16, embora eruditos adventistas dos sétimo dia, como o Dr. Bacchiocchi, tenham admitido que o texto se refere realmente ao sábado semanal.

De fato, o apóstolo não pretende provar que não exista sábado para os cristãos, nem tenha a intenção de negar a santidade do antigo sábado, pois o mesmo cria na significância espiritual da circuncisão e da lei, e ele mesmo se utiliza de várias práticas judaicas em sua evangelização. A questão gira em torno da não obrigatoriedade da lei, incluindo o sábado do sétimo dia, visto que o domingo já cumpre esse papel no NT.

Outra leitura seria que o apóstolo apenas estaria se referindo ao modo de guardar a Lei e não à prática em si. Ele estaria guardando a Lei, confirmando os colossenses nessa guarda, e apenas afirmando que não deveriam preocupar-se com aqueles que julgam-nos por guardar a lei de uma forma diferente.

Mas isso levaria à conclusão de que os cristãos continuaram a observar toda a Torah, como parte da fé cristã, menos o sistema sacrificial, o que não é provado em nenhuma parte do NT, e contradiz diversas passagens, como o próprio contexto de Colossenses, bem como a proibição da circuncisão encontrada em Gálatas 5, 2.

De fato, os cristãos não são obrigados a guardar essas leis, de forma alguma, especialmente os de origem gentia, e em certas circunstâncias, como da heresia judaizante em voga no século primeiro, estão proibidos de praticá-las.

As sombras da lei são belas em si, cumpriram seu papel, estão revogadas, como a circuncisão, não mais obrigatória, mas útil aos judeus: “Em que, então, se avantaja o judeu? Ou qual é a utilidade da circuncisão? Muita, em todos os aspectos. Principalmente porque lhes foram confiados os oráculos de Deus” (Rm 3, 1-2), mas podem tornar-se prejudiciais quando praticadas como obrigatórias na lei do evangelho: “se vos circuncidardes, de nada vos servirá Cristo” (Gl 5, 2). Isso significa, evidentemente, que a Igreja apostólica não observava o sábado do sétimo dia, como não observada a circuncisão.

Vemos que Romanos 3 afirma a vantagem espiritual da circuncisão, ao mesmo tempo em que ensina aos gentios convertidos que não devem circuncidar. Descontextualizando Romanos 3 poderia ser ensinado que a circuncisão continuava em vigor, o que entraria em contradição com Gl 5. Portanto, o mesmo deve ser afirmando do sábado, que é parte da antiga lei, e que é cumprido no primeiro dia da semana na nova lei.

A conclusão, portanto, é que o NT indica a mudança do sábado para o domingo, sem qualquer tensão com o sábado, já que a Igreja continuou a respeitar o sábado, como toda a Lei antiga, sem obrigação para os cristãos, e que pelos princípios demonstrados há autoridade divina para a mudança do sábado para o primeiro dia da semana, e base sólida para a observância do domingo.

 Gledson Meireles.