As cinco vias de Santo Tomás de Aquino
Vamos analisar os argumentos do biólogo
ateu Richard Dawkins contra as provas da existência de Deus, de Santo Tomás de
Aquino.
Dawkins afirma que as cinco
provas “não provam nada” e é fácil
mostrar como são vazias. E nesse ponto reconhece ainda assim a eminência de
Santo Tomás.
Diz que as três primeiras dizem a
mesma coisa de modos diferentes. Todas envolvem uma regressão infinita. Ele se
põe a analisar as três vias juntas.
Os que concordam com Dawkins
geralmente acreditam assim, e agem de modo semelhante. De fato, ele é um
mestre, um erudito entre os ateus. Muitos concordam com ele nesse ponto.
O erudito escreve que não há
justificativa para afirmar que Deus é imune à regressão. E a conjuração de uma
terminação para a regressão infinita seria arbitrária. Por que somente Deus não
deve ser imune à regressão infinita?
Ainda assim, a terminação não
seria Deus: não seria onipotente, onisciente, bom, criativo de design, nem atenderia preces, nem
perdoaria pecados, nem leria os pensamentos mais íntimos.
E a onisciência e a onipotência
seriam logicamente impossíveis. Assim, o big
bang seria melhor explicação ou outras quaisquer para encerrar a regressão
infinita. E, nisso, mostra que algumas regressões chegam a uma terminação, como
cortar pedaços de carne, ou cortar o ouro até o nível de átomo, fazendo o ouro
desaparecer. O átomo seria a terminação natural ao tipo de regressão
exemplificado.
A terminação natural de Santo
Tomás seria isso, considerada obscura. Mas o que Santo Tomás ensina sobre essa
regressão não poder ser infinita é que há três coisas importantes, nas
primeiras três vias, que não são iguais, mas inter-relacionadas, e mostram que
o filósofo Dawkins não as entende e nem pode destruí-las.
A primeira via demonstra que Deus
deve ser o ser único que Move todas as coisas pelo Seu poder e não é movido por
nada. A única forma de haver o movimento no universo.
No mundo há movimento e tudo que
há é movido por outro. Até o ser vivo que se move por si é movido pela energia
de vida que vem da alma. O cadáver evidentemente não é movido pela alma, e, portanto,
não se move mais.
Assim, para que haja movimento
deve haver um motor que cause o movimento no mundo. Olhando em sentido amplo
para a criação deve haver o primeiro motor de tudo. Regressando ao infinito
significaria que não há começo. Não havendo começo não há primeiro motor. Não
havendo primeiro motor, não há movimento algum. Mas existe movimento. Então, há
o primeiro motor, e esse é Deus. É algo evidente.
A destruição do ouro não mostra
como se deu sua origem. Deve haver um momento em que uma causa eficiente tenha
o efeito de criar o átomo do ouro, pois o ouro não existe antes dessa
partícula. Assim, para existir o ouro, uma causa é necessária.
O exemplo de Dawkins faz o
contrário, partindo da destruição do elemento, através de cortes imaginários
até o ponto de não haver mais aquela substância. Portanto, o primeiro corte é a
causa eficiente primeira da destruição do ouro, caso isso chegue ao termo. O
argumento de Santo Tomás permanece intacto.
Mas o exemplo de Dawkins não é o
mesmo que a via do movimento nem da causa eficiente, digamos. De fato, o que
está sendo causado é o corte do ouro em pedaços menores e não a explicação de como
o elemento veio a existir.
Dessa forma, essa regressão
destruidora não é o mesmo que a regressão para entender a origem do movimento
por exemplo. Ainda, a regressão para destruir o ouro deve necessariamente
terminar.
Ela não vai ao infinito,
mostrando que o ouro tem início. Como foi feito? Que força o criou? Deve haver
algo que faça uma substância passar a ser outra, ou seja, que algo se torne o
átomo do ouro e desenvolva o metal. Deve haver uma causa para isso, uma causa
eficiente, anterior ao surgimento do átomo. A primeira causa em toda a cadeia,
levando ao máximo, deve ser o poder de Deus.
Dawkins pensa que Deus não
deveria ser imune ao infinito. Então pensa que o mundo poderia ser sem
princípio.
Mas exemplifica com algo que
chega necessariamente ao fim, como cortar a carne ou o ouro. Algo poderia
existir apelando-se à explicação através de causas eficientes ad infinitum, como o mundo físico, que
deveria ser eterno sem causa alguma. Mas as provas de Santo Tomás mostram que
isso é impossível. E Dawkins, sem refutar nada disso usa exemplos que mostram
que de fato não conseguiu seu intento.
Ainda, afirma que crer em Deus
como fim da regressão é algo arbitrário. Poderia ser o big bang ou outra coisa. De fato, parece não ter entendido as três
primeiras vias.
A do movimento demonstra que é
necessário o primeiro motor. De onde teria vindo a força para o início do
processo do big bang? Não seria
possível ad infinitum. Então, o big bang não explica, como nenhuma outra
causa física.
A via da causa eficiente prova
que sem primeira causa não há a última e nem intermediária ou intermediárias.
Não haveria nada. Porém, o mundo existe. Então deve haver uma causa eficiente.
Deus.
O que causou o big bang? De onde veio a matéria ali
comprimida? Você deve refletir.
A terceira via demonstra que
somente um ser deve ser necessário e que dá necessidade a todos os outros
seres. Somente Deus é esse Ser.
Há coisas que podem existir e não
existir. São chamadas contingentes. Não é verdade que todo ser é necessário. O
que pode não existir, ou seja, o que é contingente, não existe eternamente e
sem causa.
Se tudo é possível não ter
existido, então houve tempo em que não havia nada. Se isso fosse verdadeiro,
não haveria nada. Mas o mundo existe. Então, deve haver um ser que é
necessário. É Deus, único ser absolutamente necessário e não necessita de outro
para vir a ser. Se nada existisse, sem a causa eficiente não poderia chegar à
existência. Então, Deus é o criador.
O argumento de grau. As coisas no mundo diferem entre si. Há graus
de bondade e perfeição. O julgamento dos graus é somente possível pela
comparação a um máximo. Os seres humanos podem ser bons ou ruins, e então o
máximo de perfeição não está entre os humanos. Deve haver um máximo para
estabelecer o padrão de perfeição, e a esse chamamos Deus. É dessa forma,
aproximadamente, que Dawkins explica o argumento de Santo Tomás.
E, após isso, questiona: “Isso é um argumento? Também seria possível
dizer: as pessoas variam quanto ao fedor, mas só podemos fazer a comparação
pela referência a um máximo perfeito de fedor concebível. Tem de haver,
portanto, um fedorento inigualável, e a ele chamamos Deus”.
Isso poderia ser feito em
qualquer dimensão de comparação chegando-se a uma conclusão igualmente idiota,
escreve Dawkins.
Com isso, ele termina a resposta
aos argumentos de Santo Tomás. Agora, vejamos o caso do argumento acima.
Segundo Dawkins, como entre as
pessoas há variação de FEDOR, por esse raciocínio tem de existir o máximo de
fedor, que seria Deus, possuindo essa característica. Obviamente, ele considera
isso idiota, e pensa que tal raciocínio vem da quarta prova de Santo Tomás.
E, vejamos se funciona mesmo
essas comparações. Há o cheiro e o fedor. O máximo de cheiro, o cheiroso
inigualável seria também DEUS.
Também nas coisas há moleza e
dureza. O máximo de moleza seria um deus plenamente mole e o máximo de dureza
estaria num deus maximamente duro.
Essas características estariam em
deuses, a extrema moleza e a extrema dureza. A claridade máxima estaria em um
deus totalmente luz e a máxima escuridão em outro deus. E assim em todas as
comparações.
Continuando, em outro sentido, teríamos
as comparações de perfeições de bondade e justiça. Somente um ser maximamente
bom e justo possui essas duas características em grau supremo e modelo para
todos. Esse é Deus.
Mas se dissermos o contrário da
bondade, haveria a maldade, e assim o máximo da maldade em um ser se tornaria
um deus mau.
E quanto ao contrário da justiça,
o máximo da injustiça estaria num deus injusto. Assim, como não pode haver a
máxima bondade junto com a máxima maldade, teríamos dois deuses, um bom e um
mau, como já ensinava o gnosticismo.
Seríamos criaturas do Bom Deus,
nesse caso, pois tendemos ao bem como valor supremo, e haveria também o mau deus.
No entanto, para Santo Tomás, o
Ser de Deus é a máxima perfeição. O mal é o afastamento de Deus, e não possui
ser.
Da mesma forma que não existe escuridão,
mas falta de luz. Assim também a injustiça. Portanto, não há lugar para a
existência do sumo mal e do sumo injusto, pois não há tal possibilidade de ser
na qualidade de Deus eterno.
Dessa forma, em primeiro lugar,
não é toda comparação que leva à formulação da prova da existência de Deus.
Deve haver comparação em cada gênero analisado.
Santo Tomás utiliza como exemplos
de gradação, como o bom, o verdadeiro, o nobre e etc., sempre coisas positivas,
virtudes.
E quanto às demais comparações,
há o exemplo do fogo. O máximo de calor, considerado em seu tempo. Assim, o
fogo é a causa de todas as coisas quentes, mas não há lugar para pensar que há
um deus quentíssimo, como seria se se seguir a conclusão de Dawkins. O que há é
na criação algo que é quente e considerado fonte de calor e causa de calor em
toda a criação. Ou seja, não haveria calor sem contato com essa causa primeira.
Santo Tomás afirma que “o máximo em cada gênero é a causa de tudo
naquele gênero” e disso o princípio geral de que deve haver “algo que é para todos os seres a causa do
seu ser, bondade e toda e qualquer perfeição; e isso nós chamamos Deus.”.
Portanto, o fedor de Dawkins é
algo imperfeito é contrapõe-se ao cheiro. Não pode ser o máximo de perfeição,
por ser negativo, sendo assim o máximo de imperfeição, o que não pode metafisicamente
comparar-se ao máximo de negação do cheiro como ser, porque não existe o mal
como ser. Dessa forma, Dawkins falha em considerar o argumento tomista e está
refutado radicalmente.
Analisemos agora duas objeções do
ateísmo contra passagens bíblicas
As duas narrativas da criação. Quando a crítica do ateísmo recai
sobre o texto bíblico da criação do mundo, em duas narrativas, no Gênesis, está
pensando nos moldes modernos, da filosofia e cultura pós-moderna, de forma a
não ver que o autor do livro compôs o mesmo com as duas narrativas, e os
intérpretes antigos, durante séculos e milênios não viram os dois textos como
algo contraditório. Nunca viram isso como problema. A realidade histórica
transmitida no texto está posta sob moldes diferentes, e não segundo a maneira
de escrever a história de hoje.
Partir daí e dizer que há
contradição, e que portanto é obra humana e cheia de erros, é pensar em estar
acima da compreensão que os próprios autores, mesmo do ponto de vista puramente
humano, tinham de suas obras. Quando temos que são autores inspirados, a coisa
fica ainda mais séria. Aliás, a objeção é fraca por desconhecer a história. É
não compreender a cultura antiga e impor sobre essa o pensamento científico e
filosófico dos dias atuais de forma não-crítica. É lastimável esse tipo de
objeção. Não se pode julgar os textos antigos com pressupostos pós-modernos,
mas compreendê-los e expor seu sentido na forma compreensível para a
pós-modernidade. E o resultado disso resiste às objeções.
A moral revelada na Bíblia. Outra questão levantada no ateísmo gira
entorno da moralidade dos antigos hebreus. A Bíblia não teria moral perfeita, e
Deus estaria lidando como povo segundo os costumes da época, submetendo-se às
contingências.
Primeiro, quando o filósofo ateu
faz esse tipo de objeção, está afirmando que Deus, segundo a razão, com suas
perfeições, não poderia agir de modo a expressar-se imperfeitamente, mas
deveria agir perfeitamente, impondo leis e corrigindo todos os erros e equívocos,
e etc.
Por trás desse raciocínio, tem-se
a existência de Deus, pressuposta, e provada pelos ditames racionais, contra a
revelação da Bíblia, como se as duas apresentações da divindade fossem
incompatíveis.
Mas, o ateísmo nega a existência
de divindades. Então não pode presumir das perfeições de Deus que a razão prova
e delas formular objeções contra a revelação bíblica, mas apenas supor que
entre o Deus da razão e o Deus revelado haveria incompatibilidade.
O ateu age como que usando as
provas filosóficas da existência de Deus para formular objeções contra a
revelação do mesmo Deus.
É como se usasse a frase: “se
Deus existisse, deveria ser assim, e agir assim e assim, etc.”, mas como a
Bíblia, a qual rejeita também, não traz esse modo de agir de Deus, nem essas
características conforme as exigências ateístas, então parte do pressuposto que
a objeção que nasce do princípio correto de Deus, e baseado na razão, contraria
o dado da revelação.
Mas o próprio pressuposto está
sobre nenhum fundamento, pois o ateu não crê na existência de Deus, negando os
dados da razão, e por isso não creria na revelação de qualquer forma, mesmo se
no cenário bíblico houvesse somente relatos palatáveis ao gosto ateu.
Seria como ter na imaginação
certas características de Deus e compará-las ao que é encontrado na Bíblia e
julgar os dados bíblicos pelos imaginários, o que faz pouco sentido. Se Deus,
na Bíblia, se mostrasse claramente como ato puro, como sumo bem, até
textualmente assim, e agisse como estão nas exigências das objeções ateístas, mesmo
assim não creriam. Volta-se ao início. Aceite o que a razão determina: Deus
existe. E peça a Deus a fé.
Pois bem. Considerando a crítica,
essa parte do pressuposto de que Deus deveria necessariamente criar o melhor
dos mundos. Como há, na realidade, sucessão e aperfeiçoamento moral, concluem
que isso seria uma objeção à existência de Deus.
No entanto, é totalmente possível
provar a existência de Deus pela razão, e compreender que Deus cuida do povo de
forma a levar a humanidade à perfeição. Uma das notas da verdade é a evidente
superioridade da moral do povo bíblico em comparação com as outras culturas da
época, o que por si só é evidência de um povo que é instruído pelo Deus
verdadeiro.
Não vale aquela exigência de que
a revelação deveria conter todos os dados da moral desenvolvida atualmente,
como a proibição da escravidão, como a liberdade religiosa, a abolição da penas
de morte, etc., pois essa exigência parte do pressuposto de que Deus deveria
ter feito o mundo de tal maneira e se revelado de tal forma.
Deus criou o mundo de forma que o
mesmo caminha para a perfeição, e isso está de acordo com a razão, e é notável
que o povo bíblico é superior na fé e na moral em comparação com os demais
povos, o que também se espera do verdadeiro Deus.
Essas duas coisas andam juntas e
perfeitamente são suficientes para entender a questão: Deus instrui a
humanidade na caminhada rumo à perfeição moral. O povo de Deus deve ter moral
mais desenvolvida que os demais. A primeira afirmação é naturalmente observada
na realidade da vida humana. A segunda é um fato histórico comprovado.
Não há fábulas. A serpente fala na Bíblia. Esse animal é o que
tenta a mulher. De fato, parece uma fábula para os incautos. O ateísmo utiliza
dessa passagem para dizer que a Bíblia contem fábulas. No entanto, a Bíblia
ensina a doutrina de diversas formas. Mesmo literalmente Deus pode permitir sua
criação a agir de certa forma espetacular, como também intervém na história com
milagres.
Assim, o Demônio usou a serpente
para comunicar-se com a mulher criada, Eva. Em termos gerais, a serpente é o
Demônio, tornando-se seu símbolo, pois esse espírito é o tentador. Não se trata
de uma fábula, mas de uma passagem que expressa um fato real.
O símbolo da serpente nas
culturas antigas não é o mesmo que aparece no Antigo Testamento. Há, porém,
alguns pontos de contato, mas a Bíblia não tem uma teologia desenvolvida em
torno do símbolo da serpente, apenas utilizando-a como símbolo de Satanás. O
poder do mal, essa pessoa espiritual, é o Demônio, que age sob diferentes
formas. A ação do mal é algo inegável na realidade, reconhecido em todas as
religiões e culturas. Não se pode negar isso. E a forma com que a Bíblia
apresenta a explicação do mal na humanidade é essa, que não pode ser refutada,
não se submete a críticas irrefletidas.
O argumento da quinta via é que aquilo que não tem inteligência não pode mover-se a um fim a não ser por algum ser que tenha conhecimento e inteligência. Dawkins explica o argumento como se fosse "as coisas só podem parecer projetadas se tiverem sido projetadas". Assim, se elas não tiverem sido elas não vão parecer ter sido projetadas.
E afirma que a evolução pela seleção natural possui níveis incríveis de complexidade e elegância. Por exemplo, os sistemas nervosos que manifestam comportamentos de busca a um alvo semelhantes a um míssil guiado a calor. Tal coisa é o mesmo que argumenta Santo Tomás, pois não pode um sistema nervoso agir assim tão determinado e com precisão em uma das suas necessidades básicas se não houver uma inteligência que projetou esse sistema para funcionar assim. A prova de Santo Tomás permanece com toda sua força.
Gledson Meireles.