sábado, 16 de maio de 2026

LIVRO: Do Sábado para o Domingo, de Carlyle B. Haynes, capítulo 1

Estudo do capítulo 1 do livro:

Do Sábado para o Domingo: a mudança indevida do dia de adoração

do escritor adventista do sétimo dia Carlyle B. Haynes.

1

Comentário: A mudança da observância do sábado

 

Já nos dias dos apóstolos foi instituída a observância do domingo. O sábado antigo era também guardado com zelo e amor pelos antigos judeus que abraçaram a fé em Cristo. Em nenhum momento houve uma contraposição radical entre sábado e domingo, nessa circunstância dos primeiro dias, embora os cristãos observassem as práticas próprias do evangelho no primeiro dia da semana e não mais no sábado.

Dessa forma, não foi após o tempo apostólico que o domingo começou a ser guardado, mas foi instituição seguida pelos próprios apóstolos e primeiros cristãos.

“No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro” (João 20, 1).

“Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-se no meio deles. Disse-lhes eles: “A paz esteja convosco!” (João 20,19).

“Oito dias depois estavam os seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco!” (João 20, 26).

“Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar” (Atos 2, 1).

Desde o dia da ressurreição os textos sagrados dos evangelhos indicam os discípulos reunidos. Jesus aparece a eles. Na primeira semana, a passagem indica que os apóstolos reuniram-se de novo no segundo domingo, quando São Tomé viu Jesus.

Esse fato é importante, pois sugere uma reunião dominical no dia da ressurreição, e oito dias depois, no mesmo lugar, inferindo que, ainda que os discípulos tenham repousado no sábado, conforme o costume judaico, estavam nas sinagogas com os demais judeus que não criam no evangelho. Somente no domingo, Cristo veio até eles em sua assembleia cristã.

Naquela primeira semana não haviam se reunido entre a segunda e a sexta-feira, mas o fizeram o primeiro dia, quando Jesus apareceu a Tomé, pois no primeiro domingo esse discípulo, ainda duvidando da ressurreição, não estava presente: “Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus” (João 20, 24).

Essas passagens mostram o costume cristão de reunir-se para celebrar a fé em Cristo no primeiro dia da semana, e a confirmação de Jesus ao aparecer nessas primeiras reuniões. Se no primeiro sábado após a ressurreição de Cristo os discípulos estavam temerosos, é certo que não foram à sinagoga, embora possam ter observado o descanso sábado em outro lugar.

Certamente, já cheios de fé, os discípulos, ainda com exceção de Tomé, almejavam que os demais irmãos judeus e prosélitos ouvissem o evangelho. Mas, não é certo que pregassem nas sinagogas nesses primeiros dias, pois temiam a reação dos judeus. Não se sabe onde passaram o primeiro sábado.

Assim, é forte a passagem da Escritura que revela a aparição de Jesus desde o primeiro domingo, dia em que os apóstolos estavam todos reunidos. Eles não se reuniram em outros dias, e o Senhor não escolheu os outros dias para ir até eles. Essas passagens, então, sugerem a observância dominical pelos apóstolos.

Contudo, veremos o que os discípulos pensavam a respeito do mandamento do sábado em Êxodo 20, 8-11: Lembra-te do dia de sábado, para o santificar (...). Não há expressamente uma ordem de Cristo para que os mesmos não observassem mais o sétimo dia. Ao mesmo tempo, a prática cristã evidentemente mostra a observância do domingo, com a presença de Jesus Cristo ressuscitado entre eles.

Por isso, o sábado do sétimo dia não é renovado no Novo Testamento, não havendo passagem onde os cristãos se reúnam nesse dia para fins litúrgicos. A ordem para a guarda do sábado no sétimo dia, dada no Antigo Testamento, não foi continuada no Novo Testamento. Os primeiros cristãos observavam o domingo.

É certamente claro que passando os dias depois de Pentecostes, e vencido o medo que tinham, os cristãos voltaram a frequentar o Templo e a sinagoga, como judeus cristãos devotos: “Pedro e João iam subindo ao templo para rezar à hora nona” (Atos 3, 1). Muitos desses costumes permanecem na Igreja Católica, como essa oração das três da tarde, a hora nona, na contagem dos judeus.

Então, como no templo, os mesmos também voltaram às sinagogas, e ali começaram a anunciar Jesus ressuscitado, o Messias, o único Salvador. Sem medo, São Pedro disse a eles que é preciso obedecer a Deus antes que aos homens (cf. Atos 4). Fizeram isso por um tempo, enquanto possível, até que a ruptura com a sinagoga foi necessária, uma vez que muitos não aceitavam a fé cristã.

Por essa razão, as igrejas apostólicas observavam o primeiro dia da semana, e podiam conservar observâncias judaicas, como o sábado, as orações no templo, e outras. No entanto, não há registros bíblicos de que o sétimo dia continuou a ser o dia de descanso dos cristãos. E as razões teológicas serão delineadas neste estudo, como também serão analisadas as informações de fundo histórico que os adventistas apontam como responsável pela mudança da observância do sábado.

O escritor adventista Carlyle se pôs a investigar a origem da observância do sábado para provar que o mesmo não poderia ser substituído pelo domingo, pois acredita que Deus deu razões para ordenar apenas o sétimo dia para observância do descanso como exigido nos Dez Mandamentos.

Com visto acima, nenhuma passagem mostra os cristãos ensinando a observância do sábado, ao mesmo tempo em que há evidentes reuniões cristãs no domingo. Esse fato será investigado no presente estudo, e as objeções de Carlyle Haynes serão devidamente analisadas.

Comentário: A lei proferida e escrita por Jeová

É interessante que o nome de Deus usado pelos cristãos católicos é Javé ou Iavé, e não Jeová. Pois bem. O argumento é que o sábado está entre os dez mandamentos, a lei escrita pelo dedo de Deus, a lei perfeita. Assim, não poderia ser mudada. Sendo o sábado um dos deveres do ser humano, não poderia ser mudado.

No entanto, é preciso entender que o sábado (repouso) é um mandamento divino, e ainda que estando atrelado ao sétimo dia, não é o dia sétimo que faz parte do mandamento, mas o repouso necessário no período de sete dias, para adoração a Deus e descanso do ser humano. Dessa forma, o sétimo dia foi abençoado porque nele Deus descansou (cf. Gn 2, 3).

Isso sugere que após seis dias de trabalho deve-se descansar por um dia, pois na lei eterna não há o dia fixo para essa observância, pois não é possível conhecer tal dia pela lei natural inscrita por Deus no coração do ser humano. O sábado como descanso é, portanto, moral, e é cerimonial quanto ao dia em que é observado.

 

Comentário: Cristo não mudou a lei

Cristo cumpriu a Lei e a levou à perfeição (cf. Mt 5, 17). O que é moral na Lei permanece para sempre, sendo cumprido e não mais necessário o que é cerimonial. Assim, a lei grande e magnífica (cf. Is 42, 21) é a do evangelho, a Lei da liberdade. O sábado (repouso) foi aperfeiçoado por Jesus, por deve servir ao homem. Portanto, há uma mudança em relação a essa lei, como indicado acima.

Cristo não mudou a lei em sua acepção moral, e por isso os cristãos devem observar o sábado (descanso). E o fazem. No entanto, os cristãos descansam e celebram a liturgia cristã especialmente no domingo. A parte moral do sábado permanece.

Quando São Paulo afirma que a lei é espiritual, santa, justa e boa, e essa lei contem o sábado (cf. Rm 7, 12.14), isso não implica que nenhuma mudança tenha ocorrido em questões cerimoniais. Assim, da mesma forma, ele afirma que a circuncisão é proveitosa em todos os sentidos (Rm 3, 1), embora não deva ser mais praticada (cf. Gl 5, 1-2).

Quando se cumprem os Dez Mandamentos, o repouso sabático é observado no primeiro dia da semana, após seis dias de trabalho, embora muitas vezes o sábado também seja tomado como descanso semanal. Esse costume tem sua origem na fé bíblica judaica e cristã.

Comentário: A lei permanece em vigor

O autor adventista afirma ser estranho que o preceito do sábado tenha sido mudado, por não entender essa distinção feita acima. Ele afirma: “Essa lei requer a observância do sétimo dia da semana”. Mas não é um mandamento bíblico no Novo Testamento para que o sétimo dia seja preservado para o descanso semanal. O que se nota é que a Igreja sempre reuniu-se no primeiro dia, desde o domingo de Páscoa.

Por que a Igreja celebra o domingo especialmente e não o sábado? Por que a maioria das denominações aceita o domingo como dia de culto? A resposta é que o domingo é o dia da ressurreição, a nova criação, e aponta para o sábado futuro no reino (cf. Hb 4), enquanto o sábado da primeira criação foi uma sombra que durou até o repouso de Cristo no sepulcro. A Luz de Cristo ressuscitado brilhou no primeiro dia da semana. E é evidente que o sábado não mais foi obrigatório aos cristãos no NT. Por essa razão, mesmo igrejas que creem somente no Sola Scriptura observam, de algum modo, o domingo e não o sábado.

Por sua vez, os adventistas do sétimo dia apegaram-se às passagens do Antigo Testamento sobre a Lei eterna de Deus, contendo o sábado, como se o dia não pudesse ser mudado. Pelo exposto anteriormente, já se viu que o sábado moral é o descanso e não o dia em si. E, também, o dia em que os cristãos se reuniram desde a ressurreição de Jesus é o primeiro dia da semana. Esse fato será importante para compreender a verdade bíblica sobre a observância dominical.

 

Gledson Meireles.

sábado, 9 de maio de 2026

Católico, cisma, primeiras igrejas locais, sábado, domingo

Os seguintes temas foram discutidos em um vídeo com o pastor Sezar Cavalcante. Abaixo seguinte um breve comentário.

Os primórdios da Igreja Católica Romana


As primeiras igrejas particulares do tempo apostólicos são, aproximadamente na ordem cronológica: Jerusalém, Samaria, Antioquia da Síria, Damasco, Éfeso, Corinto, Filipos, Tessalônica, Bereia, Roma. A fé de Jerusalém, por exemplo, é a mesma de Roma, já que os apóstolos que mudaram-se para a capital do Império pregaram ali a Palavra de Deus e confirmaram e estabeleceram a comunidade cristã naquela cidade.


A palavra católico

O termo católico vem do grego Kata holos, segundo todo. Isso mostra a abrangência da Igreja bem como do pensamento católico. Alguns assuntos foram tratados na conversa, e que serão brevemente comentados aqui, para maior orientação de quem pretende entender melhor o assunto.

 

O cisma

Não houve separação imediata em 1054 entre a Igreja do Ocidente e a Igreja do Oriente. Isso foi um longo processo histórico culminando em 1054. Dessa forma, para entender que parte da Igreja ficou com a doutrina correta, basta uma profunda análise histórica. Por exemplo, comece pelo cânon da Bíblia.

É necessário o protestante admitir, para início de conversa, que a Igreja Romana é de origem apostólica. Trata-se de um ponto básico.

 

Disparidade gigantesa entre padres apologistas e pastores, e os padres deixam a desejar

Certamente, no debate entre protestantes e católicos, os protestantes mostram-se mais preparados para o embate de ideias. Isso se dá pela maior existência de debates no meio protestante que no católico referente às doutrinas.

Tal coisa não significa despreparo teológico, já que grandes teólogos, com doutrina ortodoxa, podem não se sair bem na exposição da doutrina em uma disputa apologética.

 

O sábado e o domingo

Os adventistas do sétimo dia ensinam que os dez mandamentos estão em vigor, e o sábado do sétimo dia é o dia de observância.

Nisso, concordam com a Igreja Católica sobre a perpetuidade do Decálogo e da obrigação de um dia de guarda, mas diferem quanto ao dia. Os católicos guardam o domingo.

Os demais protestantes geralmente ensinam que o repouso é espiritual, em Cristo, não havendo dia santo para ser observando no decálogo. No entanto, por tradição guardam o domingo.

Esses protestantes mantem o ensino do repouso em Cristo, que também é ensino católico, mas negam a obrigatoriedade de um dia para cumprir o preceito do mandamento. Por outro lado, na prática observam o domingo para cultuar a Deus, mas negam que seja o dia de repouso.

Com isso, temos que os adventistas conservam uma parte do ensino católico e os outros protestantes preservam outra parte. É necessário um estudo aprofundado para desfazer os mal entendidos e chegar ao ensino católico sobre o repouso sabático.


Gledson Meireles.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Como entender o sábado na era cristã e na eternidade? Permaneceu imutável no sétimo dia?

O adventismo do sétimo dia advoga que Isaías 56, 1-8 e 58, 13-14 são textos que tratam da universalidade do sábado e da sua abrangência na vida humana (Timm, 2023). Além disso, o texto de Isaías 66, 22-23 reconheceria a perpetuidade do sábado. Dessa forma, o profeta Isaías teria apresentado a tríplice aplicação do sábado, que se destina a Israel, a toda a humanidade e aos remidos na eternidade, nos novos céus e na nova terra.

Essa é a mesma opinião de Charlyle B. Raynes, no livro Do Sábado para o Domingo, que afirma que o sábado será observados pelos salvos, com base no texto de Isaías 66, 23.

Assim, os que forem leais a Deus nos últimos dias antes da vinda de Cristo seriam observadores do sábado do sétimo dia. Essa leitura de Isaías 56, 1 mostraria a guarda do sábado nos últimos dias. Para entender bem essa questão, vejamos o que a Bíblia afirma.

O profeta Isaías é considerado o profeta messiânico, e falando dos dias de Cristo revelou muitos cumprimentos proféticos. Esses cumprimentos são espirituais na era messiânica.

Dessa forma, Is 56, 7 afirma: “eu os conduzirei ao meu monte santo e os cumularei de alegria na minha casa de oração; seus holocaustos e sacrifícios serão aceitos sobre meu altar, pois minha casa se chamará casa de oração para todos os povos”.

Nosso Senhor Jesus Cristo cumpriu essa palavra em Mateus 21, 13, quando a citou: Minha casa é uma casa de oração. Ele Se referia ao Templo, que havia se tornado lugar de comércio, e expulsou os vendilhões com seu zelo e autoridade santa.

Do mesmo modo, em Isaías 56, 6 está escrito: “Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor, para servi-lo e amar seu nome, para serem seus servos, e se observarem o sábado sem profana-lo, e se afeiçoarem à minha aliança”.

O versículo 6 menciona o sábado na profecia que se refere aos tempos do Messias, e o verso 7, como mostrado por Jesus, referiu-se ao tempo, a casa de oração do Senhor.

No entanto, sabemos que Jesus em João 2, 19.21 afirmou que o Templo é o Seu próprio corpo, e disse à mulher samaritana que vem a hora em que os adoradores verdadeiros adoração a Deus em espírito e em verdade, não mais necessitando do templo de Jerusalém.

Assim, entende-se que o zelo pelo templo é o ensino espiritual de Jesus que não inclui o templo literal como duradouro na era messiânica, no templo da Igreja, como se fosse obrigatório aos cristãos frequentar o templo em Jerusalém.

Também, em Isaías 58, 1-12 o profeta trata do jejum, mostrando o verdadeiro sentido do jejum, algo que foi aperfeiçoado por Jesus no Sermão da Montanha (cf. Mateus 6, 16-18). Não é mais costume cristão deitar sobre o saco e a cinza no jejum, como em Is 58, 5.

Então, o sábado em Is 58, 13-14, e em 66, 22-23, está em contexto de sua realização espiritual no cumprimento da Lei realizado por Cristo. Desse modo, assim como a lua nova não é mais observada no Novo Testamento, o sábado igualmente é mencionado sem ter sua permanência literal pressuposta:

“E assim, cada mês, à lua nova, e cada semana, aos sábados, todos virão prostrar-se diante de mim, diz o Senhor” (Is 66, 23).

Caso se tratasse de cumprimento literal, essas palavras estabeleceriam a diferença entre judeus e gentios, e ensinaria a continuidade do serviço do templo, como sacrifícios, luas novas e sábados.

Assim, quando trata dos eunucos e estrangeiros reunidos no povo de Deus, são mencionados o sábado, a casa de oração, ou seja, o templo, e o atar com os holocaustos e sacrifícios (cf. Is 56, 6-7). Da mesma forma, na profecia que remete aos novos céus e nova terra são citados a lua nova e o sábado.

Com isso, está provado que o Senhor Jesus tratou dessas passagens realidades levando-as ao cumprimento espiritual, pois doutro modo estaria estabelecida no Novo Testamento a perpetuidade do templo com o altar de holocaustos e sacrifícios, assim como o sábado. No entanto, pelo Evangelho é evidente que nenhuma dessas realidades está em vigor depois que o véu do templo foi rasgado.

Sendo assim, a interpretação adventista do sétimo dia, que tem a menção do sábado no contexto profético dos tempos da Igreja e da eternidade como prova de que o mesmo continua imutável não tem o respaldo bíblico, pois todas as realidades citadas foram levadas à perfeição pelo Senhor, sendo o templo, o sábado, o jejum, os sacrifícios, os holocaustos, as luas novas. Nada disso permaneceu como antes, mas forma cumpridos em Cristo.

Portanto, a Igreja em toda parte, com as construções de igrejas, substitui o Templo, que estava em um único lugar. O jejum foi levado à perfeição, como está na profecia de Isaías 58, assim como o sábado. E os holocaustos e sacrifícios chegaram ao fim no sacrifício de Cristo na cruz. Dessa forma, a interpretação da IASD não está de acordo com a totalidade da Escritura. Nenhuma dessas passagens indicaram que o sábado do sétimo dia deveria continuar, assim como não continuaram os demais elementos indicados acima.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

A observância do domingo na Bíblia

A observância do domingo, o sábado cristão

No estudo da doutrina da observância do sábado e do domingo, tem sido comum, especialmente na apologética americana, a afirmação dos apologistas católicos, ao longo do século 19 e 20, de que a observância do domingo não está na Bíblia mas tem foi uma promulgação da Igreja Católica. Dessa forma, para enfatizar essa realidade contra as Igrejas protestantes que guardam o domingo e são ao mesmo tempo adeptas do princípio da Sola Scriptura, afirmam que essas estão agindo incoerentemente, pois uma vez que a transferência do sábado para o domingo não está na Bíblia deveriam seguir o sábado, que é o dia que a Escritura obriga.

Com isso, os adventistas do sétimo dia, procurando ser mais radicais em sua reforma, aderiram à posição sabática, afirmando que a guarda do domingo foi uma mudança posterior, imposta pela Igreja Católica Romana, sem qualquer respaldo bíblico, e que as igrejas que observam o primeiro dia da semana estão seguindo sua autoridade e não a das Escrituras.

Essa postura deu ocasião para o surgimento dessa ideia de que a guarda do domingo teria origem puramente histórica e estaria sob a autoridade da Igreja.

Uma vez que no Protestantismo a ideia é que o dia de observância não está definido e que o primeiro dia foi escolhido como que arbitrariamente, essa nova posição histórica dos protestantes inculcou a ideia entre os adventistas do sétimo dia, de que a Igreja teria autoridade para instituir quaisquer dias de guarda, não importando qual fosse o dia da semana.

No entanto, as duas posições estão equivocadas. A guarda do domingo tem sua fundamentação bíblica. A Igreja recebeu autoridade de Deus para santificar o domingo, o que foi feito pelos apóstolos, não podendo ser qualquer outro dia, mas o primeiro dia da semana é o dia de descanso sabático, para observância do mandamento do decálogo.

A substituição do sábado pelo domingo foi feita na Igreja apostólica, com autoridade dos apóstolos, que seguiam as ordens de Jesus Cristo, e receberam dele autoridade para defender a fé e a moral cristã. Dessa forma, o dia de domingo é expresso no Novo Testamento como dia de observância na Igreja, e o sábado é apresentado como uma sombra da Lei. Partindo dessa correção, é possível entender a questão do sábado e do domingo de forma satisfatória.

Gledson Meireles.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

LIVRO: TIMM, Alberto R. O Sábado na Bíblia. A hermenêutica e os métodos de interpretação

Comentário: Princípios de interpretação bíblica

Para Alberto Timm, uma das razões para a observância do sábado do sétimo dia da semana é que em Gênesis 2, 2-3, Deus descansou nesse dia, o santificou e abençoou.

A partir disso, o autor afirma que os debates relacionados à guarda do sábado ou do domingo são em grande parte de natureza hermenêutica, nutridos por métodos de interpretação e tendenciosos filtros pessoais que condicionam o entendimento da doutrina bíblica.

Comentário: Métodos de Interpretação Bíblica

O autor afirma que os “intérpretes cristãos comprometidos com a filosofia grega” começaram a interpretar a Bíblia de forma alegórica, tornando o método predominante na Idade Média.

Com isso, refere-se em nota à obra de São Justino, Diálogo com Trifão, I Apologia, 67, onde o mesmo trata da guarda do domingo.

O texto de São Justino afirma o seguinte sobre esse ponto específico: “Celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos.

Nessa passagem, São Justino está apresentado a fé cristã ao imperador pagão, e por isso usa linguagem familiar ao mesmo, chamando o domingo de “dia do Sol”, assim adiante se refere ao sábado como dia de saturno.

Não está fazendo uma alegoria, mas mostrando o motivo dos cristãos observarem o domingo, o primeiro dia da semana. Uma das razões apresentada refere-se à criação. Trata-se do dia da criação da luz. Esse motivo é associado à ressurreição de Cristo. Com base nessa conexão entre a criação da luz e a ressurreição do Senhor, tem-se que o Senhor é a luz da nova e eterna aliança.

Isso não destitui o sábado do seu significado. Ao mesmo tempo, situa o cristão para a compreensão do domingo. É a teologia fundamental para a observância do sábado dominical.

Esse fato já aparece por volta do ano 155 d. C. e não traz sinais de que seja novo, mas expressa a compreensão cristã oficial da Igreja. Os cristãos observavam o primeiro dia da semana pelos motivos citados. Com certeza, São Justino utilizou a denominação dia do sol para apresentar o verdadeiro Sol que é Jesus, e não porque estava fundamentando a teologia cristã no costume pagão. O imperador, por meio dessa apresentação, tinha em mente Jesus Cristo.

São Justino não desenvolve toda a teologia do domingo nessa passagem, mas apenas mostra o motivo da sua observância, que é em última análise a ressurreição de Jesus Cristo. Com isso, não há nenhum vestígio de destituição do significado do sábado.

O autor apresenta o alegorismo, o método crítico-histórico, o dispensacionalismo e o leitor como referencial de interpretação considerados nocivos para a compreensão a Bíblia.

O estudo sobre o sábado e o domingo, feito aqui, esse é fundamentado na Bíblia, em seus dois sentidos, o literal e o espiritual. É totalmente bíblico, e tem sua confirmação na Tradição Apostólica.

Todo sentido da Bíblia é baseado no literal, e o sentido espiritual deve acompanhá-lo, para que compreendamos a Lei com o coração circuncidado, entendendo o espírito da lei (cf. Rm 2, 29).

Os outros sentidos estão contidos no espiritual, que são o alegórico, moral e anagógico. No sentido alegórico os fatos são entendidos mais profundamente em Cristo. Portanto, trata-se de uma interpretação plenamente legítima da Sagrada Escritura.

Gledson Meireles.

domingo, 3 de maio de 2026

Compartilhe o blog

As leituras do blog estão aumentando.

Compartilhe com os interessados em aprender mais da Palavra de Deus.

Louvado seja Deus.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

LIVRO: O Sábado na Bíblia: Por que Deus faz questão de um dia. Sobre o exemplo de São Paulo em relação ao sábado

O Sábado na Igreja Apostólica


Alberto Timm acredita que há várias evidências da observância do sábado no Novo Testamento. Essas passagens serão estudadas pormenorizadamente para entender o argumento adventista do sétimo dia.

Em primeiro lugar a evidência estaria relacionada ao exemplo de São Paulo e seus companheiros. O exemplo de São Paulo confirmaria que, assim como Jesus, ele frequentava a sinagoga nesse dia.

A evidência seria que em Lucas 4, 16 Jesus “Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume”. Essa expressão “segundo o seu costume” indicaria o mesmo que era praticado por São Paulo quando em Atos 17, 2 pode ser lido: “Paulo dirigiu-se a ele, segundo o seu costume, e por três sábados disputou com eles”.

Então, textualmente, teríamos que Jesus tinha o “costume” de ir à sinagoga no sábado assim também São Paulo frequentava a sinagoga “segundo o seu costume”.

Entretanto, em Atos dos Apóstolos, a passagem de Atos 13, 14.42.44 seria exemplo de ao menos dois sábados guardados por São Paulo e seus companheiros, a de Atos 17, 2, onde São Paulo e Silas vão três sábados à sinagoga e Atos 18, 4.11 onde São Paulo frequenta a sinagoga todos os sábados durante um ano e seis meses.

Assim, Alberto Timm afirma que o motivo de São Paulo ir às sinagogas não era apenas evangelístico, mas também litúrgico, pois ele mantinha o costume mesmo onde não havia sinagoga, como em Atos 16, 13. Esse fato sugere “uma reflexão espiritual condizente com a observância do sábado”.

Pois bem. São Paulo ia à sinagoga aos sábados como cristão para participar da liturgia e cumprir o mandamento, e não apenas para evangelizar. Esse é o argumento de Alberto Timm. Abaixo será feito um estudo para analisar o argumento.

Primeiro, é um fato que Jesus os apóstolos guardavam o sábado, que era o dia de guarda em todo o Antigo Testamento para todos os judeus. Por isso, é um fato que Lucas 4, 16 afirma do costume de Cristo de ir aos sábados na sinagoga para ali cultuar a Deus.

No entanto, a frase “segundo o seu costume”, em Atos 17, 2, está em outro contexto. A passagem literalmente pode ser vertida assim: “De acordo com, agora, o costume, com Paulo, ele foi a eles, por sábados três ele disputou com eles à base das Escrituras”.

Conforme a tradução da Bíblia Ave Maria, o costume dito no texto é dirigir-se aos judeus para pregar o evangelho. A informação sobre o costume é ir ter com eles, e depois, após a conjunção “e”, o texto continua: “e por três sábados...”, mostrando o período em que isso ocorreu.

Então, não está escrito que São Paulo tinha o costume de ir às sinagogas para cumprir o mandamento do sábado como obrigatório para o cristão. Está escrito, antes, que ele tinha por costume ir aos judeus para disputar sobre o ensino das Escrituras com eles e, aos sábados, debatia com eles, pois era nesse dia que os mesmos se reuniam.

Ainda que São Paulo fosse à sinagoga segundo o seu costume, isso não diz respeito ao seu ensino de que era necessário ir à sinagoga aos sábados. De fato, ele cumpria a lei como judeu, mesmo depois de convertido a Cristo, e ia ao templo fazer as orações, fazia votos, participava das festas judaicas, circuncidava, quando era necessário, e, também, obviamente, guardava o sábado.

No entanto, não fazia isso para obrigar os cristãos vindos de outras culturas, mas apenas como costume judeu. Ele não ensinava os convertidos a guardar o sábado, guarda as festas, fazer votos e sacrifícios, ir ao templo, etc. De fato, quando ia ao templo não levava nenhum cristão de origem gentia (Atos 20, 28). Isso é evidente de que não ensinava os cristãos gentios a guarda da lei, incluindo o sábado.

Desse modo, logo após o concílio de Jerusalém, que havia decidido não impor a circuncisão como requisito de salvação aos cristãos não judeus, ele circuncida São Timóteo, que era filho de mãe judia e pai grego, mas o faz “por causa dos judeus daqueles lugares, pois todos sabiam que o seu pai era grego” (Atos 16, 3).

Isso significa que mesmo pregando que não havia mais a necessidade da circuncisão, os judeus teriam dificuldade em aceitar a pregação de um não circuncidado, e por isso prudentemente São Paulo preferiu circuncidar Timóteo.

Pode-se, com esse exemplo, vislumbrar a guarda do sábado por São Paulo. Quando o mesmo cumpria práticas judaicas não era como exigência cristã, mas para não ofender aos judeus que ainda eram apegados à lei, e com isso facilitar a evangelização. Assim, o exemplo da circuncisão de Timóteo e as idas ao templo, mas nunca entrando no templo com um não judeu.

O texto de Atos 13, 14 afirma que Paulo e seus companheiros entraram na sinagoga e sentaram. Então, apresenta São Paulo pregando o evangelho naquela sinagoga.

São Paulo e São Barnabé foram enviados a pregar. Isso ocorreu em momento de culto, que, diga-se de passagem, provavelmente foi feito no domingo (cf. Atos 13, 2).

Assim, no verso 5 está escrito: “Chegados a Salamina, pregavam a Palavra de Deus nas sinagogas dos judeus.” O contexto do capítulo é o envio para a pregação da Palavra de Deus aos judeus.

Então, os judeus pediram a Paulo que voltasse à sinagoga no sábado seguinte. Esse é o verso 42. Em Atos 13, 44 é mostrado como isso ocorreu: “No sábado seguinte, afluiu quase toda a cidade para ouvir a Palavra de Deus”. Novamente o contexto da pregação da Palavra.

Após a rejeição dos judeus, São Paulo e São Barnabé vão anunciar a Palavra de Deus aos pagãos (Atos 13, 46).

O mesmo contexto explica Atos 16, 13. Em Atos 16, 9 São Paulo tem a visão de um macedônio rogando auxílio. Com isso, entendeu que Deus chamava-os para pregar o evangelho na Macedônia.

Nesse contexto, após dias na cidade de Filipos, São Paulo e São Timóteo foram no sábado onde perceberam haver oração. Era perto de um rio. Ali se assentaram e pregaram o evangelho. Batizaram Lídia e sua família naquele rio (Atos 13, 14-15).

Em Atos 18, 4 lê-se que “Todos os sábados ele falava na sinagoga e procurava convencer os judeus e os gregos”. Após a rejeição dos judeus “ele, sacudindo as vestes, disse-lhes: “O vosso sangue caia sobre a vossa cabeça! Tenho as mãos inocentes. Desde aogra vou para o meio dos gentios” (Atos 18, 6).

É certo que não voltou às sinagogas ali, e não pregou aos gentios que o dever de reunir-se aos sábados.

Entretanto, em Atos 19, 8-10, vemos que São Paulo prega sobre o Reino de Deus na sinagoga por três meses. Mas, devido ao endurecimento e incredulidade dos judeus, passou a reunir-se à parte, todos os dias, na escola de Tirano (v. 9).

Então, é evidente que São Paulo, São Barnabé, São Silas, etc., entravam nas sinagogas para pregar a Palavra e o Reino de Deus e não com motivos litúrgicos.

Quando isso não era mais possível, partiam para os pagãos e escolhiam outro lugar para as reuniões de ensino, que não eram mais feitas aos sábados, mas segundo a disponibilidade, como diariamente.

Desse modo, o costume de São Paulo tem a ver com a pregação aos judeus. O contexto dessas passagens era a pregação da Palavra de Deus. Em nenhuma delas é ensinado que São Paulo e seus companheiros guardaram o sábado como prática cristã obrigatória, e nenhuma os apresenta ensinando essa prática na igreja.

a)  A expressão segundo o seu costume diz respeito ao costume de pregar a palavra aos judeus.

b)  Todas as vezes em que São Paulo é mostrado nas sinagogas é com o objetivo de evangelizar.

    É evidente que o mesmo não ensinou o sábado aos novos cristãos, assim como não ensinou a circuncisão.

A segunda evidência apresentada por Alberto Timm é que a condição para os judeus se tornarem cristãos era a aceitação de Jesus Cristo, não incluindo a aceitação do domingo no lugar do sábado.

Os exemplos são Atos 2, 37, da conversão do das pessoas em Pentecostes, Atos 8, 36.37, do eunuco e Atos 16, 30.31, do carcereiro.

No entanto, também nessas passagens não é dito que não devem circuncidar-se, o que é claramente ensinado no Concílio de Jerusalém. Portanto, não há evidência alguma de que os cristãos deveriam continuar guardando do sábado.

A terceira evidência seriam as discussões no Concílio de Jerusalém, que não tratou da guarda do domingo porque não era um ponto em disputa. Os apóstolos não ensinavam a circuncisão, mas permitiam que fosse feita em casos como o de Timóteo. Também não ensinavam que os cristãos deviam orar no templo, mas iam ao templo todos os dias. Da mesma forma, não ensinavam o sábado, e reuniam-se aos domingos, embora pudessem frequentar a sinagoga aos sábados e pregar o evangelho. Não havia uma tensão entre a guarda do sábado e do domingo.

A quarta evidência estaria relacionada às declarações de São Paulo no contexto do seu julgamento, onde o mesmo afirma não ter pregado contra a lei, contra o templo, contra César.

Porém, pode-se contra argumentar, pois é certo que São Paulo não ensinava mais a circuncisão, e, como foi definido no concílio, a circuncisão não poderia ser realizada para fins de salvação, pois separaria de Cristo. Em geral, não era praticada pelos cristãos.

No entanto, ele mesmo não pregava contra a circuncisão, pois essa era proveitosa para os judeus, em todos os aspectos, como ensina em Romanos 3, 2.

E, em certos casos, para não escandalizar, praticou a circuncisão, como no caso de Timóteo, e submeteu-se a cumprir votos para testemunhar sua paz com a fé de Israel: Então, Paulo acompanhou aqueles homens no dia seguinte e, purificando-se com eles, entrou no templo e fez aí uma declaração do termo do voto, findo o qual se devia oferecer um sacrifício a favor de cada um deles (Atos 21,26). Isso ocorria por causa dos judeus, que abraçavam a fé sem abandonar seu zelo pela Lei (Atos, 21, 20).

O contexto inteiro mostra que o intuito era fazer crer que São Paulo não pregava contra a Lei aos cristãos convertidos de origem judaica e que ele mesmo praticava a Lei.

Deviam saber que não era verdade que o apóstolo pregava o abandono da lei aos judeus convertidos, como a circuncisão e os costumes mosaicos.

É evidente que a pregação sobre a liberdade em relação à Lei era direcionada aos gentios e não aos judeus, que podiam cumprir os preceitos da lei no espírito do evangelho sem problemas.

Foi vedado, porém, pelo Concílio de Jerusalém, a ensinar a obrigatoriedade da Lei aos conversos provenientes do paganismo. E, pois, evidente, que isso não era exigido dos que creram dentre os gentios (Atos 21, 25). Assim, a mesma prudência era tida com relação ao sábado.

TIMM, Alberto R. O Sábado na Bíblia: Por que Deus faz questão de um dia. CPB: Tatuí, SP, 2023.

Gledson Meireles.

domingo, 26 de abril de 2026

Livro: Sabbath under crossfire. Comentário do capítulo 1, parte 1. Autor: Samuele Bacchiocchi

Do livro: Sabbath under crossfire. Autor: Samuele Bacchiocchi

Comentário

 

CAPÍTULO 1

JOÃO PAULO II

E

O SÁBADO

 

            O capítulo 1 é uma análise do erudito adventista do sétimo dia, Dr. Samuele Bacchiocchi, da carta pastoral do papa João Paulo II, de 31 de maio de 1998, Dies Domini, sobre a observância do domingo.

            O Dr. Bacchiocchi parece ficar surpreso que o papa apele para o imperativo moral do sábado. Isso é curioso. Também porque o papa fala da necessidade de legislação civil para facilitar a observância dominical.

            Então, a análise não é dos aspectos da observância do domingo, mas como o papa lida com o sábado na tentativa de justificar e promover a guarda do domingo.

 

Parte 1: A conexão teológica entre o sábado e o domingo

 

O Dr. Bacchiocchi afirma que um “aspecto surpreendente” da carta pastoral é a defesa do domingo como expressão completa do sábado, e afirma que isso significa um distanciamento, em certos sentidos, da explicação tradicional católica de que a observância do domingo é uma instituição católica diferente do sábado.

Para isso, menciona os teólogos católicos, e cita diretamente Santo Tomás de Aquino. Na citação de Vincent J. Kelly, esse apresenta o entendimento tradicional da substituição do sábado pelo domingo, e afirma que então aquela “teoria” estava abandonada, pois Deus teria dado à Igreja o poder de escolher dias santos.

E o Dr. Bacchiocchi vê descontinuidade entre o sábado e o domingo na apresentação feita no catecismo, citando o número XXXXXXXXXXX.

Com isso, o Dr. Bacchiocchi afirma que o papa se distancia da distinção tradicional que a Igreja tem feito entre o sábado e o domingo, “presumivelmente porque ele quer fazer da observância do domingo um imperativo moral enraizado no próprio Decálogo”.

Após isso, Bacchiocchi alude ao contraste da visão do papa com os autores da Nova Aliança e Dispensacionalistas que ensinam a radical descontinuidade entre sábado e domingo.

Avaliação: O Dr. Bacchiocchi ficou surpreso com a abordagem teológica do papa João Paulo II em sua carta sobre a observância do Domingo, porque em sua concepção de estudioso adventista do sétimo dia, a doutrina católica ensina que o domingo é uma instituição eclesiástica e tem outra natureza que a do sábado, vindo a ser estabelecida por autoridade da Igreja e por costume.

No entanto, para a doutrina cristã católica, essa não é a posição oficial. Por isso, o papa está com certeza na esteira da teologia católica tradicional em sua doutrina sobre a guarda do domingo, e não se afasta em nada dessa teologia.

Por outro lado, as afirmações de autores, mesmo católicos, no sentido da citação de Vincent J. Kelly, são essas que se distanciam e contradizem a posição oficial da Igreja Romana.

Por esse motivo, nota-se que o Dr. Bacchiocchi concebe a doutrina do domingo a partir dos pressupostos adventistas, o que explica sua surpresa ao ver que o papa lida com o tema da mesma forma que os adventistas do sétimo dia fazem em relação do sábado. Isso mostra que mesmo os eruditos, lendo fontes católicas, muitas vezes não apreendem o sentido da doutrina da Igreja, por encontrarem afirmações pouco precisas e lerem outras através das lentes que da própria denominação. Os leitores podem verificar a doutrina do domingo em outros artigos no blog, que demonstram que o papa João Paulo II expressa a correta e tradicional teologia católica.

 

Os sentidos criativos e redentores do sábado. “should especially thrill Sabbatarians”. Bacchiocchi reconhece que a visão do papa é uma profunda visão teológica, e afirma que desenvolveu o mesmo sentido em um dos seus livros.

O sábado define nossa relação com Deus. Essa porção do documento é bastante elogiada por Bacchiocchi.

O domingo como cumprimento do sábado. Na citação da cara Dies Domini, o papa afirma que “mais” que substituição, o domingo é o cumprimento do sábado. Afirma que a tentativa do papa “é muito engenhosa, mas carece de suporte bíblico e histórico”. Entretanto, não encontra no NT os cristãos interpretando o domingo como a “personificação e cumprimento” do sábado, e afirma que o mesmo difere em autoridade, significado e experiência.

Avalição. Como cristão adventista, o mesmo exige algo claro na Bíblia, uma passagem, por exemplo, mostrando o entendimento do dia do Senhor, o domingo, como cumprimento do sábado. O papa entende essa doutrina pela totalidade da Bíblia, e não por uma passagem específica no NT, mas pela expressão doutrinal do NT como um todo, assumindo a doutrina inteira do AT em relação ao sábado. É uma expressão do espírito da doutrina e não a apresentação apenas de uma passagem expressa onde a mesma se encontra.

Diferença em autoridade. O sábado tem ordem explícita (Gn 2,2-3; Ex 20, 8-11; Mc 2, 27-28; Hb 4, 9), e o domingo derivaria de uma interação de vários fatores, como sociais, políticos, pagãos e religiosos. A falta de autoridade bíblica para a guarda do domingo seria também fato que contribuiria por sua crise.

Avaliação. O Dr. Bacchiocchi cita quatro textos para provar que o sábado tem ordem bíblica explícita para sua observância. No entanto, apenas as passagens de Gn 2, 2-3 e Ex 20, 1-11 cumprem esse objetivo, pois no NT não há ordem dessa natureza.

Os textos de Mc 2, 27-28 e Hb 4, 9 dizem o seguinte:

E dizia-lhes: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado; e, para dizer tudo, o Filho do Homem é senhor também do sábado”.

Por isso, resta um repouso sabático para o povo de Deus.

Jesus afirma que o sábado deve servir ao homem, e que Ele é Senhor também do sábado. E em Hebreus é afirmado que resta um repouso sabático, futuro, para o povo de Deus. Em nenhum momento há “uma ordem bíblica explícita” nesses textos. Na verdade, há uma teologia neles que indicam algo mais.

Jesus afirma que o sábado não era como os fariseus acreditavam, e deveria ser guardado de uma forma diversa, servindo ao homem e não sendo uma carga. Isso todos estamos de acordo, adventistas e católicos. E, ainda, em Hebreus o que está sendo tratado é o repouso definitivo no reino de Deus. Como isso, as duas passagens não são ordem explícitas da Bíblia para guardar o sábado.

O sábado (repouso) no sétimo dia foi observado até os dias de Jesus, e não mais após a sua ressurreição, como dia de adoração para os cristãos.

Diferença em significado. O papa reconhece a necessidade de fazer da observância do domingo um imperativo moral e tenta enraizar o domingo no próprio mandamento do sábado. Mas, diz o Dr. Bacchiocchi, o domingo não é o sábado.

Assim, afirma que o sábado é memorial da perfeita criação de Deus, da redenção completa, e da restauração final. Por sua vez, o domingo é, na patrística, a criação da luz no primeiro dia, o símbolo do novo e eterno mundo e o memorial da ressureição de Cristo.

A tentativa de transferir para o domingo a autoridade e significado do sábado falharia, pela mudança da data.

Avaliação. As objeções falham radicalmente. Em primeiro lugar, o Dr. Bacchiocci apresenta o resumo da teologia do sábado na bíblia e a compara com algumas afirmações sobre o domingo na patrística, fazendo um contraste e tirando uma conclusão. Essa desequilibrada comparação é falha, pois o que está sendo tratado é o domingo como cumprimento do mesmo sábado antigo, pelos textos sagrados da Bíblia. O imperativo moral não está atrelado ao dia, uma vez que a motivação no NT é outra: a ressurreição de Cristo, o principal artigo da fé. Assim, compreende-se que o dia do domingo é o novo repouso (sábado) para o cristão. A mudança não é arbitrária, mas entendida como expressa na própria prática apostólica demonstrada no Novo Testamento.

Diferença na experiência. O domingo seria a hora de adoração, enquanto o sábado compreende 24 horas consagradas a Deus.

Avaliação. O que parece da posição do autor, expressa nesse resumo, é que o Dr. Bacchiocchi entende que o domingo deve ser guardado apenas para participação da eucaristia, tornando-se depois dia como outro qualquer, enquanto que o sábado, como guardado entre os adventistas do sétimo dia, envolve maior quantidade de tempo, o que mudaria a experiência do dia. Mas isso é apenas questão do modo de guardar o dia. Nenhum lugar da carta pastoral ensina que o dia de domingo deve ser apenas de uma hora, e o liturgista citado que concorda que culturalmente o dia de domingo é guardado apenas para ir à igreja, sendo feriado normal após isso, trata-se de uma defesa de opinião privada e não a doutrina católica oficial, que está na carta Dies Domini, onde o papa mostra como o domingo deve ser inteiramente observado.

De fato, escreve: “Se a participação na Eucaristia é o coração do domingo, seria contudo restritivo reduzir apenas a isso o dever de «santificá-lo». Na verdade, o dia do Senhor é bem vivido, se todo ele estiver marcado pela lembrança agradecida e efectiva das obras de Deus”. Assim, o papa afirma que a Igreja não se contenta com propostas minimalistas.

Então, todo ele, ou seja, todo o domingo é santificado. A experiência do domingo cumpre moral e liturgicamente o que o sábado significa.

O leitor pode agora vislumbrar que o sábado tem conexão teológica que se desdobra no domingo cristão.

Gledson Meireles.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

REAÇÃO ADVENTISTA: artigo sobre a imortalidade da alma

Na explicação do texto de Mateus 10, 28, o apologista adventista traz algumas contribuições para o entendimento da passagem que reforçam o imortalismo, ao mesmo tempo em que ajuda a entender como os mortalistas leem a passagem. No entanto, traz uma comparação que não exprime bem a doutrina do adventismo.

Aqui não está sendo dito que o mesmo não entenda a doutrina que ele mesmo crê, pois de fato entende. E é competente ao defendê-la.

Também não é dito que o exemplo é totalmente errôneo, pois em si traz verdades, mas que e incompatível com o adventismo, pois que profundamente a comparação empregada não transmite a mensagem adventista. É a linguagem bíblica que redunda em dualidade, não em monismo. Nessa comparação, o "eu" na verdade não seria parte do ser, como de fato é, e é o sentido do evangelho, mas, na comparação feita pelo apologista, e contra a sua vontade, esse eu se torna algo como "a garantia da vida eterna". Vejamos.

De fato, ele afirma que Jesus, ao dizer que alguém pode matar o corpo e não a alma está essencialmente mostrando que a alma morre igual ao corpo: “Mas a essência do texto traz justamente o ensino oposto: Jesus deixa claro que a alma pode morrer igual ao corpo.”

Assim, Jesus estaria pretendendo ensinar outra coisa, que não implicaria na imortalidade da alma. Jesus ensinou que mesmo que alguém seja morto, um dia Deus o ressuscitará.

De fato, o cerne da questão ensina a salvação, mesmo dos mártires. Jesus quer mostrar que os homens não têm o poder de tirar a graça da salvação de alguém. Todos estamos de acordo com isso.

Contudo, a implicação da passagem permanece de pé. Jesus usa uma dicotomia entre corpo e alma, e o contraste mostrado é que o corpo pode ser morto por alguém e a alma não. Aqui estão duas partes da natureza humana.

Obviamente, que é levado à iniquidade, à corrupção interior, será morto também na alma, em morte espiritual. Mas isso o adventismo não ensina, pois não divide corpo e alma. Por isso, a crítica aqui.

Embora o apologista adventista não acredite que há separação entre corpo e alma, que não poderiam ser separados nunca, e que a alma morre como o corpo, sendo a alma vivente a própria pessoa, aqui, ao tentar explicar a passagem, revela um dualismo sem perceber. Dualismo nas palavras.

Por exemplo, ao escrever: “Ele ressuscitará com um novo corpo e a mesma identidade de antes. Alma, nesse texto, é um sinônimo para personalidade, identidade, “eu”.”

E prossegue: “É a parte que retornará no corpo redimido e viverá a eternidade.”

Com isso, ele, de algum modo, divide o corpo e o eu. O corpo pode ser morto, mas o eu não. E o “eu” parece sair do corpo, já que é dito que ele “retornará no corpo rediminido”. Não diz, é claro, retornará ao corpo redimido, mas que retornará no corpo.

Certamente a linguagem pretende não se confundir com o dualismo, mas esconde a dificuldade de explicar a passagem clara de Mateus 10, 28.

Obviamente, a citação de 2 Pedro 1, 13-14 requer essa expressão, pois o apóstolo fala de deixar o tabernáculo. Mas não se trata apenas de linguagem, mas de realidade. São Pedro, como imortalista, sabia que a alma consciente deixa o corpo na morte. Mas o adventista não tem essa compreensão, mas procura adequar-se à linguagem bíblica, com outra doutrina.

Ele afirma que o ‘velho corpo morre’, mas o redimido em Cristo ganha novo tabernáculo. Isso é o mesmo que ensina a imortalidade da alma. O corpo é morto, a alma não. Essa retorna ao corpo na ressurreição, no corpo redimido. A doutrina é diferente e é expressa pela mesma linguagem católica.

No entanto, na verdade, no monismo adventista, quando se diz que o velho corpo morre, significa que o redimido deixa de existir e depois será refeito, como novo tabernáculo. Não é o mesmo que a metáfora bíblica está apresentando.

Quando explica que quem mata um verdadeiro seguidor de Jesus Cristo não matou a pessoa como um todo, mas apenas o corpo, está usando de uma linguagem comum com os cristãos católicos, por exemplo, mas não partindo da mesma concepção.

De fato, na literalidade, a doutrina adventista do sétimo dia afirma que quem mata alguém mata-o totalmente, pois não há separação corpo e alma. A alma vivente morre. Para o católico, a alma literalmente não morre.

Quando se diz que: “A personalidade dorme até a ressurreição”, significa apenas que a personalidade morreu, deixou de existir, sob a metáfora do sono. De fato, para o adventismo a personalidade estava no corpo e deixou de existir no corpo e com o corpo vivo.

E conclui da seguinte forma: “Por outro lado, aqueles que conseguem corromper uma pessoa moral e espiritualmente estão levando a pessoa à morte plena no inferno. Morrerá corpo e tudo o mais, não restando nada.”

Desse modo, a corrupção de alguém leva-o a morrer inteiramente, corpo e tudo mais. Mas isso é o mesmo que ocorre com o salvo antes da ressurreição, onde o mesmo morre o corpo e tudo o mais não restando nada, e que no fim Deus deverá recriar o ser total. A tentativa de afirmar que o “eu” não pode ser morto com o “corpo” não é satisfatória.

De fato, a ideia que subjaz a esse linguagem é que na morte do “corpo”=tudo não morre a “esperança da salvação garantida”, o que é outra coisa. Essa garantia que não é destruída na morte seria a “alma”. Mas o próprio adventista explica que a alma é o “eu”. Essa explicação não se adequa ao texto de Mt 10, 28.

De fato, o “eu” deixando de existir quando o “corpo” morre, é o mesmo que afirmar que o eu foi morto, já que não há como separá-lo do corpo.

O “corpo” retorna ao pó e se torna pó (Gn 3, 19) e o espírito retorna a Deus (Ecl 12, 7). Esse espírito não é o eu da pessoa, mas a energia vital. E o corpo não é mais o eu, mas a alma vivente que morreu.

A explicação do apologista ao tentar criar um “eu” que se separa do corpo não tem respaldo na doutrina do adventismo, sendo apenas uma linguagem metafórica para dizer o mesmo, ou seja, que o eu foi extinto na morte e será recriado na ressurreição para a vida eterna, por causa da promessa de Deus aos salvos. É uma falha a adequação da doutrina adventista à doutrina bíblica.

A “alma” nesse conceito aqui apresentado pelo apologista adventista seria o núcleo da personalidade, da individualidade, da consciência, que no adventismo está totalmente ligada ao corpo e funciona somente no corpo.

Uma vez que o corpo é morto, também o seria a alma. Isso contradiz o que Jesus diz: os que matam o corpo e não podem matar a alma.

Somente os condenados têm o corpo e a alma jogados no inferno. Não se trata de aniquilamento, mas de condenação.

Desse modo, a alma aqui não é o eu. Isso pode ser demonstrado, uma vez que, se na morte tudo deixa de existir, o eu morre. Mas Jesus afirma que a alma não pode ser morte. Então, a alma não é o eu, conforme a explicação adventista.

Também, ao dizer que “Jesus deixa claro que a alma pode morrer igual ao corpo”, essa explicação é evidente que para o autor adventista o “eu” pode morrer igual ao corpo.

Se a alma é o “eu” no sentido metafórico, temos que:

Os que matam o corpo não podem matar o eu, já que esse é o que tem garantida a vida eterna. Os que matam o corpo não podem tirar essa garantia. A alma deteria o conceito de “garantida da vida eterna”.

Mas há a possibilidade, nos reprovados, do corpo e da garantia da vida eterna ser jogada no inferno. Isso não concorda com o texto sagrado. Assim, essa metáfora não funciona.

Se a alma é literalmente parte outra do ser humano, temos que:

Os que matam o corpo não podem matar essa parte do ser. Na condenação, há destruição do corpo e dessa outra parte do ser, no inferno. O que faz todo sentido. A alma pode ser separada do corpo.

Por fim: fazer perecer o corpo e alma no inferno seria fazer perecer o corpo(tudo) e a alma(eu) no inferno, seria o mesmo que perecer corpo e alma no sentido imortalista.

No entanto, fazer perecer corpo e não a alma (que estaria contendo o sentido de que a morte do corpo não incluiu a condenação à morte eterna), é o mesmo que dizer: fazer perecer o corpo e a garantia da vida eterna na geena, o que é absurdo. Ninguém com garantia da vida eterna vai para a geena.

Mas, retomando ao sentido que o apologista deu ao termo em sua apresentação: "Alma, nesse texto, é um sinônimo para personalidade, identidade, “eu”.", então, como já provado, ninguém pode matar o eu. Dessa forma, o eu é imortal, e somente o "eu" dos condenados pode ser dito como "morto".

Volta-se, assim, ao ponto inicial: a alma não pode ser morta. O eu não pode ser morto.

Se no adventismo a morte é a extinção do ser, então o "eu" pode ser morto, contradizendo o que o texto sagrado diz.

Dessa forma, o conceito de alma=eu, que foi declarado expressamente, e o conceito de alma=garantida da vida eterna, que apareceu como implicação do que foi apresentado, mostram o desequilíbrio da defesa da doutrina adventista nessa passagem.

Portanto, isso está refutado.


Gledson Meireles.