quinta-feira, 16 de abril de 2026

Livro: Conselhos de Ellen White. Conselhos 57 e 58

Comentário do Livro: Conselhos de Ellen White..., do autor Davi Caldas. 

Conselho 57: O sábado e o Sola Scriptura. Quando se diz que a Igreja modificou o dia de guarda temos que essa mudança foi feita pela Igreja no tempo dos apóstolos, pelos próprios apóstolos, que receberam ordem direta de Cristo e/ou foram instruídos pelo Espírito Santo quanto a isso. Não se pode pensar que foi uma mudança tardia. Não foi uma ordem do papa. A guarda do domingo é parte do depósito de fé, da tradição apostólica. É o mesmo que acontece com outras doutrinas, como a do cânon, da divindade de Cristo, da trindade e outras. Todas essas doutrinas possuem base bíblica. É óbvio que em alguns momentos os defensores de uma doutrina exigem que seja-lhes mostrado um texto bíblico explícito sobre determinada doutrina para que a aceitem. Mas, como podemos ver, a Bíblia ensina muitas coisas explicitamente e outras menos claramente, mas por meio de princípios, e etc., de forma que o estudo bíblico sobre as doutrinas cristãs deve ser meticuloso, sincero, bem orientado e guiado pelo Espírito Santo, segundo a mente da Igreja, que conserva o depósito da fé. E a teologia do sábado como dia de repouso é totalmente clara, e preservada na guarda do domingo cristão. Esse ponto pode ser melhor compreendido quando pensamos nas doutrinas menos explícitas na Escritura. A trindade é uma doutrina bíblica, mantida na tradição, crida como doutrina divina e revelada, definida como tradição apostólica. No entanto, o único Deus do Antigo Testamento é agora revelado como subsistindo em Três Pessoas iguais e distintas, o que não é claro por nenhum texto bíblico, não tem o “Assim diz o Senhor”, como frase literal explicitamente escrita, mas tem o Assim diz o Senhor em princípio, como doutrina revelada na Sagrada Escritura, não possui texto explícito afirmando o nome trindade nem uma passagem clara com o conceito inteiro da doutrina, de modo que um estudioso que crê somente na Bíblia e não tem em consideração a tradição pode chegar a doutrinas divergentes, como acontece com alguns grupos. Por outro lado, os que creem na doutrina da trindade aceitam a autoridade da Igreja Católica. O documento Nisto Cremos afirma: “Embora o Antigo Testamento não ensine explicitamente que Deus é triúno, ele alude à pluralidade interna da Divindade”. É verdade, mas outros grupos que leem a Bíblia, e a aceitam como única regra de fé, discordam dessa “pluralidade interna da Divindade”, que é um dado bíblico. Isso é o mesmo que está afirmando os teólogos quando dizem que os guardadores do domingo estão sob a autoridade da Igreja Católica. Não significa que a doutrina não esteja na Bíblia, mas que, como dizem alguns, não está no sentido de não haver sido escrita de modo claro e inequívoco. Assim, crer na trindade, guardar o domingo, não seguir as leis alimentares do Antigo Testamento é admitir a autoridade da Igreja. Alguns protestantes aceitam umas doutrinas e divergem em relação a outras. O sábado é uma doutrina em que os adventistas discordam do catolicismo, não que a doutrina não seja bíblica, mas porque sua mudança não é explícita como exigem os adventistas nesse pormenor, e por sua adesão à Bíblia somente como regra de fé, e sua confirmação sobre o sétimo dia por meio da profetisa Ellen White, tal doutrina tornou-se dogma para o adventismo. Uma vez que Ellen White a confirma em seus escritos, não é esperado que a IASD tente mudá-la por meio de estudos bíblicos, nem pense que isso seja possível, pois tem a doutrina como indiscutível. O modo de entender o sábado está na Bíblia assim como está o conceito da trindade. Uma vez crendo na autoridade da santa Igreja Católica, como ensinada nas Escrituras, essas doutrinas se tornarão claras ao leitor da Bíblia. Para o cristão católico, a Sagrada Escritura é suficiente para provar a guarda do domingo. A Tradição confirma essa doutrina e prática.

A afirmação que “a igreja tinha autoridade acima das Escrituras” não é correta. O que John Eck estava afirmando a Lutero era que a guarda do domingo não era clara, e a autoridade da Igreja apostólica é que era responsável pela mudança, deixando a prática sem um escrito inspirado explícito sobre a mesma. Com isso ele provava que a autoridade da Igreja era necessária para questões de fé. Nesse ponto, a Igreja está na mesma altura da Escritura pois ensina uma verdade da Escritura. O mesmo pode ser dito das palavras de Reggio, citadas, pois Cristo não disse expressamente para guardar o domingo, mas os apóstolos praticaram esse mandamento e deixaram a observância. Isso prova que Cristo e o Espírito Santo deixou para eles essa prática. Por isso, as palavras de Jonh O. Brien são claras: “e não sobre um texto explícito da Bíblia”. Não significa que não esteja na Bíblia, pois está implicitamente. A citação do livro Ciência e Religião: ensaio de Apologia do Catolicismo, volume 2, tem o mesmo sentido. Não se trata de dizer que o domingo não tem base bíblica, mas não a tem explicitamente, de modo que os protestantes que creem somente na Bíblia não poderiam mostrar a mudança, pois não há lei clara, direta, sobre esse ponto. O que o Cardeal Gibbons afirmou é que a Bíblia não contem todas as verdades necessárias para a salvação e não prescreve explicitamente os deveres, mas ao mesmo tempo conclui que os apóstolos ensinaram a guarda do domingo, mas as Escrituras não estavam nas mãos de todos para se certificarem disso e porque não há clareza em todos os pontos nem as mesmas contem todas as verdades salvíficas. Mas nesse particular a afirmação do cardeal não é correta, pois implicitamente a Bíblia contem todas as verdades necessárias para a salvação. A Bíblia ensina a observância do domingo.

Conselho 58: Os que observam o sábado (repouso) no primeiro dia da semana podem tomar a Bíblia e mostrar que sua posição é correta. Trata-se apenas de um estudo mais aprofundado do texto sagrado. Há doutrinas que não são facilmente encontradas pelo leitor superficial. Assim o é a trindade, a divindade de Cristo, a não obrigatoriedade da circuncisão, que são doutrinas que podem fomentar discussões quando leitores não acostumados com a fé cristã vão à Bíblia e se deparam com textos isolados que podem não levá-los ao entendimento correto da doutrina. As bases para a guarda do domingo estão na Bíblia e podem ser encontradas por um estudioso atento das Escrituras. O fato do sábado ser guardado desde a Antiga Aliança é algo evidente, e está no texto dos 10 mandamentos. Mas a mudança da Lei no Novo Testamento coloca certas questões no campo de discussão para maior aprofundamento e compreensão. Uma dessas é referente ao sábado, o dia de descanso. O Novo Testamento diversas vezes traz o tema, mostrando o Senhor Jesus Cristo ensinando a verdadeira forma de observar o dia de sábado. Mas, nesse ínterim há duas possibilidades, a da reforma do sábado, onde Cristo ensina o modo correto de observar esse dia, e a substituição do dia por outro, o novo dia, feito por Deus, na Nova Aliança. É um fato que o sábado tem foco importante na doutrina do evangelho. O motivo para isso deve ser procurado. A IASD pensa que se trata apenas de uma reforma do sábado não introduzindo mudança do dia, e a ICAR sempre ensinou que de fato há mudança de dia para a observância do sábado (shabbat). A visão de Ellen White é uma confirmação do sábado do sétimo dia para a IASD. Com isso, temos clara autoridade da profetisa sobre a interpretação oficial dos adventistas, de modo que não estão abertos à mudança quanto a esse ponto doutrinal. Há alusão das discussões a respeito do sábado entre os primeiros adventistas, por volta de 1850. Isso prova o que foi mostrado acima, que a Bíblia no Novo Testamento traz as doutrinas eternas de modo perfeito, e essa transição do AT para o NT deve ser compreendida de modo profundo. Não se trata, portanto, de afirmar que o domingo não tem base bíblica e que o sábado é a forma correta e clara apresentada no NT, como o era no AT. De fato não é assim, e o irmão adventista do sétimo dia é convidado e aprofundar-se no tema, ainda que seja difícil abrir-se para essa jornada. As discussões bíblicas sobre esse assunto tendem a levar o estudioso a entender a espiritualidade do sábado, que é cumprida hoje no domingo. Com essa atividade os adventistas poderão ver o quanto os católicos são bíblicos em suas doutrinas. Essa postura no diálogo pode mudar o olhar que o cristão adventista tem para com o catolicismo.

Conselho 59: A Bíblia é nosso guia. Isso pode igualmente ser dito pelo cristão católico. Hoje muitos afirmam na apologética que a Bíblia é território protestante, como se o católico devesse evitar discussões referentes à Bíblia. Nada mais contrário à realidade. A Bíblia é terreno católico por excelência. As doutrinas que dependem da tradição para serem demonstradas estão todas em conformidade com a Bíblia. E uma vez que o adventista do sétimo dia não aceita a sagrada tradição apostólica como norma de fé, por meio da Bíblia é possível mostrar toda a doutrina e prática católica, de forma a fazer entender a profundidade da Palavra de Deus, e não deter-se apenas em leituras superficiais.

Conselho 60: A ICAR também tem essa visão da história, onde Deus está no controle. Santo Agostinho escreveu nesse sentido. Podemos dialogar sobre essas questões, principalmente ao tratarmos eventos escatológicos e ponderarmos o lugar que a ICAR tem nas profecias. Isso pode ajudar muito no entendimento da doutrina bíblica.

Conselho 61: Ellen White escreve que somente a Bíblia deve ser o nosso refúgio. É comum na Igreja Católica afirmar sempre que temos a Bíblia, a Tradição e o Magistério como fontes de autoridade. E o que a Igreja afirma quando o assunto é diretamente a Bíblia Sagrada? Para muitos protestantes, talvez a maioria, o ensino católico coloca a tradição acima da Bíblia, o magistério acima da Bíblia, e etc., de forma que a Escritura Sagrada seria, nesse caso, a menor em autoridade. No entanto, o caso não é tão simples assim. Não é como parece para os desavisados. Nessa tríade importante, quando lemos as afirmações da Igreja em referência à Bíblia, encontramos algo que os protestantes não compreendem: a Bíblia é para os católicos a única fonte de fé inspirada. Não há como acessar a tradição por meio inspirado. Ela não foi registrada por hagiógrafos. Assim, a autoridade da Igreja, que tem as luzes do Espírito Santo, que é o Senhor que guia a Igreja a toda a verdade, ela pode interpretar os dados da tradição e trazê-los à luz. Mas também não é inspirada a escrever. Ela possui a assistência do Espírito Santo para não afastar-se da Palavra de Deus. Assim, a tradição aparece nos escritos patrísticos, nos costumes católicos, na liturgia, na arqueologia, nos documentos dos sínodos e concílios, especialmente nos concílios ecumênicos, e nos documentos papais. E todas as doutrinas da tradição estão em conformidade com o texto bíblico, não podendo uma sequer estar em oposição a uma doutrina revelada. A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus. Veja o que afirma um livro católico sobre a Bíblia: “Não conseguiremos ter “os mesmos sentimentos de Cristo” (Fl 2, 5) sem ouvir, ler, meditar, estudar e conhecer a sua santa Palavra.” E, lembrando o que diz São Jerônimo, palavras que são trazidas, também, no Catecismo, quem não conhece o Evangelho não conhece a Jesus Cristo (cf. A Sagrada Escritura, coleção escola da fé II, ed. Cléofas.  No catecismo está da seguinte forma: “Porquanto ignorar as Escrituras é ignorar Cristo” (Catecismo da Igreja Católica, número 133). Não é preciso falar mais nada, por é imprescindível para o cristão católico conhecer a Bíblia.

Gledson Meireles.

domingo, 12 de abril de 2026

LIVRO: Deus é um delírio, Richard Dawkins e as cinco provas da existência de Deus e o relato da criação e a moral bíblica

As cinco vias de Santo Tomás de Aquino

Vamos analisar os argumentos do biólogo ateu Richard Dawkins contra as provas da existência de Deus, de Santo Tomás de Aquino.

Dawkins afirma que as cinco provas “não provam nada” e é fácil mostrar como são vazias. E nesse ponto reconhece ainda assim a eminência de Santo Tomás.

Diz que as três primeiras dizem a mesma coisa de modos diferentes. Todas envolvem uma regressão infinita. Ele se põe a analisar as três vias juntas.

Os que concordam com Dawkins geralmente acreditam assim, e agem de modo semelhante. De fato, ele é um mestre, um erudito entre os ateus. Muitos concordam com ele nesse ponto.

O erudito escreve que não há justificativa para afirmar que Deus é imune à regressão. E a conjuração de uma terminação para a regressão infinita seria arbitrária. Por que somente Deus não deve ser imune à regressão infinita?

Ainda assim, a terminação não seria Deus: não seria onipotente, onisciente, bom, criativo de design, nem atenderia preces, nem perdoaria pecados, nem leria os pensamentos mais íntimos.

E a onisciência e a onipotência seriam logicamente impossíveis. Assim, o big bang seria melhor explicação ou outras quaisquer para encerrar a regressão infinita. E, nisso, mostra que algumas regressões chegam a uma terminação, como cortar pedaços de carne, ou cortar o ouro até o nível de átomo, fazendo o ouro desaparecer. O átomo seria a terminação natural ao tipo de regressão exemplificado.

A terminação natural de Santo Tomás seria isso, considerada obscura. Mas o que Santo Tomás ensina sobre essa regressão não poder ser infinita é que há três coisas importantes, nas primeiras três vias, que não são iguais, mas inter-relacionadas, e mostram que o filósofo Dawkins não as entende e nem pode destruí-las.

A primeira via demonstra que Deus deve ser o ser único que Move todas as coisas pelo Seu poder e não é movido por nada. A única forma de haver o movimento no universo.

No mundo há movimento e tudo que há é movido por outro. Até o ser vivo que se move por si é movido pela energia de vida que vem da alma. O cadáver evidentemente não é movido pela alma, e, portanto, não se move mais.

Assim, para que haja movimento deve haver um motor que cause o movimento no mundo. Olhando em sentido amplo para a criação deve haver o primeiro motor de tudo. Regressando ao infinito significaria que não há começo. Não havendo começo não há primeiro motor. Não havendo primeiro motor, não há movimento algum. Mas existe movimento. Então, há o primeiro motor, e esse é Deus. É algo evidente.

A destruição do ouro não mostra como se deu sua origem. Deve haver um momento em que uma causa eficiente tenha o efeito de criar o átomo do ouro, pois o ouro não existe antes dessa partícula. Assim, para existir o ouro, uma causa é necessária.

O exemplo de Dawkins faz o contrário, partindo da destruição do elemento, através de cortes imaginários até o ponto de não haver mais aquela substância. Portanto, o primeiro corte é a causa eficiente primeira da destruição do ouro, caso isso chegue ao termo. O argumento de Santo Tomás permanece intacto.

Mas o exemplo de Dawkins não é o mesmo que a via do movimento nem da causa eficiente, digamos. De fato, o que está sendo causado é o corte do ouro em pedaços menores e não a explicação de como o elemento veio a existir.

Dessa forma, essa regressão destruidora não é o mesmo que a regressão para entender a origem do movimento por exemplo. Ainda, a regressão para destruir o ouro deve necessariamente terminar.

Ela não vai ao infinito, mostrando que o ouro tem início. Como foi feito? Que força o criou? Deve haver algo que faça uma substância passar a ser outra, ou seja, que algo se torne o átomo do ouro e desenvolva o metal. Deve haver uma causa para isso, uma causa eficiente, anterior ao surgimento do átomo. A primeira causa em toda a cadeia, levando ao máximo, deve ser o poder de Deus.

Dawkins pensa que Deus não deveria ser imune ao infinito. Então pensa que o mundo poderia ser sem princípio.

Mas exemplifica com algo que chega necessariamente ao fim, como cortar a carne ou o ouro. Algo poderia existir apelando-se à explicação através de causas eficientes ad infinitum, como o mundo físico, que deveria ser eterno sem causa alguma. Mas as provas de Santo Tomás mostram que isso é impossível. E Dawkins, sem refutar nada disso usa exemplos que mostram que de fato não conseguiu seu intento.

Ainda, afirma que crer em Deus como fim da regressão é algo arbitrário. Poderia ser o big bang ou outra coisa. De fato, parece não ter entendido as três primeiras vias.

A do movimento demonstra que é necessário o primeiro motor. De onde teria vindo a força para o início do processo do big bang? Não seria possível ad infinitum. Então, o big bang não explica, como nenhuma outra causa física.

A via da causa eficiente prova que sem primeira causa não há a última e nem intermediária ou intermediárias. Não haveria nada. Porém, o mundo existe. Então deve haver uma causa eficiente. Deus.

O que causou o big bang? De onde veio a matéria ali comprimida? Você deve refletir.

A terceira via demonstra que somente um ser deve ser necessário e que dá necessidade a todos os outros seres. Somente Deus é esse Ser.

Há coisas que podem existir e não existir. São chamadas contingentes. Não é verdade que todo ser é necessário. O que pode não existir, ou seja, o que é contingente, não existe eternamente e sem causa.

Se tudo é possível não ter existido, então houve tempo em que não havia nada. Se isso fosse verdadeiro, não haveria nada. Mas o mundo existe. Então, deve haver um ser que é necessário. É Deus, único ser absolutamente necessário e não necessita de outro para vir a ser. Se nada existisse, sem a causa eficiente não poderia chegar à existência. Então, Deus é o criador.

O argumento de grau. As coisas no mundo diferem entre si. Há graus de bondade e perfeição. O julgamento dos graus é somente possível pela comparação a um máximo. Os seres humanos podem ser bons ou ruins, e então o máximo de perfeição não está entre os humanos. Deve haver um máximo para estabelecer o padrão de perfeição, e a esse chamamos Deus. É dessa forma, aproximadamente, que Dawkins explica o argumento de Santo Tomás.

E, após isso, questiona: “Isso é um argumento? Também seria possível dizer: as pessoas variam quanto ao fedor, mas só podemos fazer a comparação pela referência a um máximo perfeito de fedor concebível. Tem de haver, portanto, um fedorento inigualável, e a ele chamamos Deus”.

Isso poderia ser feito em qualquer dimensão de comparação chegando-se a uma conclusão igualmente idiota, escreve Dawkins.

Com isso, ele termina a resposta aos argumentos de Santo Tomás. Agora, vejamos o caso do argumento acima.

Segundo Dawkins, como entre as pessoas há variação de FEDOR, por esse raciocínio tem de existir o máximo de fedor, que seria Deus, possuindo essa característica. Obviamente, ele considera isso idiota, e pensa que tal raciocínio vem da quarta prova de Santo Tomás.

E, vejamos se funciona mesmo essas comparações. Há o cheiro e o fedor. O máximo de cheiro, o cheiroso inigualável seria também DEUS.

Também nas coisas há moleza e dureza. O máximo de moleza seria um deus plenamente mole e o máximo de dureza estaria num deus maximamente duro.

Essas características estariam em deuses, a extrema moleza e a extrema dureza. A claridade máxima estaria em um deus totalmente luz e a máxima escuridão em outro deus. E assim em todas as comparações.

Continuando, em outro sentido, teríamos as comparações de perfeições de bondade e justiça. Somente um ser maximamente bom e justo possui essas duas características em grau supremo e modelo para todos. Esse é Deus.

Mas se dissermos o contrário da bondade, haveria a maldade, e assim o máximo da maldade em um ser se tornaria um deus mau.

E quanto ao contrário da justiça, o máximo da injustiça estaria num deus injusto. Assim, como não pode haver a máxima bondade junto com a máxima maldade, teríamos dois deuses, um bom e um mau, como já ensinava o maniqueísmo.

Seríamos criaturas do Bom Deus, nesse caso, pois tendemos ao bem como valor supremo, e haveria também o mau deus.

No entanto, para Santo Tomás, o Ser de Deus é a máxima perfeição. O mal é o afastamento de Deus, e não possui ser.

Da mesma forma que não existe escuridão, mas falta de luz. Assim também a injustiça. Portanto, não há lugar para a existência do sumo mal e do sumo injusto, pois não há tal possibilidade de ser na qualidade de Deus eterno.

Dessa forma, em primeiro lugar, não é toda comparação que leva à formulação da prova da existência de Deus. Deve haver comparação em cada gênero analisado.

Santo Tomás utiliza como exemplos de gradação, como o bom, o verdadeiro, o nobre e etc., sempre coisas positivas, virtudes.

E quanto às demais comparações, há o exemplo do fogo. O máximo de calor, considerado em seu tempo. Assim, o fogo é a causa de todas as coisas quentes, mas não há lugar para pensar que há um deus quentíssimo, como seria se se seguir a conclusão de Dawkins. O que há é na criação algo que é quente e considerado fonte de calor e causa de calor em toda a criação. Ou seja, não haveria calor sem contato com essa causa primeira.

Santo Tomás afirma que “o máximo em cada gênero é a causa de tudo naquele gênero” e disso o princípio geral de que deve haver “algo que é para todos os seres a causa do seu ser, bondade e toda e qualquer perfeição; e isso nós chamamos Deus.”.

Portanto, o fedor de Dawkins é algo imperfeito é contrapõe-se ao cheiro. Não pode ser o máximo de perfeição, por ser negativo, sendo assim o máximo de imperfeição, o que não pode metafisicamente comparar-se ao máximo de negação do cheiro como ser, porque não existe o mal como ser. Dessa forma, Dawkins falha em considerar o argumento tomista e está refutado radicalmente.

 

Analisemos agora duas objeções do ateísmo contra passagens bíblicas

As duas narrativas da criação. Quando a crítica do ateísmo recai sobre o texto bíblico da criação do mundo, em duas narrativas, no Gênesis, está pensando nos moldes modernos, da filosofia e cultura pós-moderna, de forma a não ver que o autor do livro compôs o mesmo com as duas narrativas, e os intérpretes antigos, durante séculos e milênios não viram os dois textos como algo contraditório. Nunca viram isso como problema. A realidade histórica transmitida no texto está posta sob moldes diferentes, e não segundo a maneira de escrever a história de hoje.

Partir daí e dizer que há contradição, e que portanto é obra humana e cheia de erros, é pensar em estar acima da compreensão que os próprios autores, mesmo do ponto de vista puramente humano, tinham de suas obras. Quando temos que são autores inspirados, a coisa fica ainda mais séria. Aliás, a objeção é fraca por desconhecer a história. É não compreender a cultura antiga e impor sobre essa o pensamento científico e filosófico dos dias atuais de forma não-crítica. É lastimável esse tipo de objeção. Não se pode julgar os textos antigos com pressupostos pós-modernos, mas compreendê-los e expor seu sentido na forma compreensível para a pós-modernidade. E o resultado disso resiste às objeções.

A moral revelada na Bíblia. Outra questão levantada no ateísmo gira entorno da moralidade dos antigos hebreus. A Bíblia não teria moral perfeita, e Deus estaria lidando como povo segundo os costumes da época, submetendo-se às contingências.

Primeiro, quando o filósofo ateu faz esse tipo de objeção, está afirmando que Deus, segundo a razão, com suas perfeições, não poderia agir de modo a expressar-se imperfeitamente, mas deveria agir perfeitamente, impondo leis e corrigindo todos os erros e equívocos, e etc.

Por trás desse raciocínio, tem-se a existência de Deus, pressuposta, e provada pelos ditames racionais, contra a revelação da Bíblia, como se as duas apresentações da divindade fossem incompatíveis.

Mas, o ateísmo nega a existência de divindades. Então não pode presumir das perfeições de Deus que a razão prova e delas formular objeções contra a revelação bíblica, mas apenas supor que entre o Deus da razão e o Deus revelado haveria incompatibilidade.

O ateu age como que usando as provas filosóficas da existência de Deus para formular objeções contra a revelação do mesmo Deus.

É como se usasse a frase: “se Deus existisse, deveria ser assim, e agir assim e assim, etc.”, mas como a Bíblia, a qual rejeita também, não traz esse modo de agir de Deus, nem essas características conforme as exigências ateístas, então parte do pressuposto que a objeção que nasce do princípio correto de Deus, e baseado na razão, contraria o dado da revelação.

Mas o próprio pressuposto está sobre nenhum fundamento, pois o ateu não crê na existência de Deus, negando os dados da razão, e por isso não creria na revelação de qualquer forma, mesmo se no cenário bíblico houvesse somente relatos palatáveis ao gosto ateu.

Seria como ter na imaginação certas características de Deus e compará-las ao que é encontrado na Bíblia e julgar os dados bíblicos pelos imaginários, o que faz pouco sentido. Se Deus, na Bíblia, se mostrasse claramente como ato puro, como sumo bem, até textualmente assim, e agisse como estão nas exigências das objeções ateístas, mesmo assim não creriam. Volta-se ao início. Aceite o que a razão determina: Deus existe. E peça a Deus a fé.

Pois bem. Considerando a crítica, essa parte do pressuposto de que Deus deveria necessariamente criar o melhor dos mundos. Como há, na realidade, sucessão e aperfeiçoamento moral, concluem que isso seria uma objeção à existência de Deus.

No entanto, é totalmente possível provar a existência de Deus pela razão, e compreender que Deus cuida do povo de forma a levar a humanidade à perfeição. Uma das notas da verdade é a evidente superioridade da moral do povo bíblico em comparação com as outras culturas da época, o que por si só é evidência de um povo que é instruído pelo Deus verdadeiro.

Não vale aquela exigência de que a revelação deveria conter todos os dados da moral desenvolvida atualmente, como a proibição da escravidão, como a liberdade religiosa, a abolição da penas de morte, etc., pois essa exigência parte do pressuposto de que Deus deveria ter feito o mundo de tal maneira e se revelado de tal forma.

Deus criou o mundo de forma que o mesmo caminha para a perfeição, e isso está de acordo com a razão, e é notável que o povo bíblico é superior na fé e na moral em comparação com os demais povos, o que também se espera do verdadeiro Deus.

Essas duas coisas andam juntas e perfeitamente são suficientes para entender a questão: Deus instrui a humanidade na caminhada rumo à perfeição moral. O povo de Deus deve ter moral mais desenvolvida que os demais. A primeira afirmação é naturalmente observada na realidade da vida humana. A segunda é um fato histórico comprovado.

Não há fábulas. A serpente fala na Bíblia. Esse animal é o que tenta a mulher. De fato, parece uma fábula para os incautos. O ateísmo utiliza dessa passagem para dizer que a Bíblia contem fábulas. No entanto, a Bíblia ensina a doutrina de diversas formas. Mesmo literalmente Deus pode permitir sua criação a agir de certa forma espetacular, como também intervém na história com milagres.

Assim, o Demônio usou a serpente para comunicar-se com a mulher criada, Eva. Em termos gerais, a serpente é o Demônio, tornando-se seu símbolo, pois esse espírito é o tentador. Não se trata de uma fábula, mas de uma passagem que expressa um fato real.

O símbolo da serpente nas culturas antigas não é o mesmo que aparece no Antigo Testamento. Há, porém, alguns pontos de contato, mas a Bíblia não tem uma teologia desenvolvida em torno do símbolo da serpente, apenas utilizando-a como símbolo de Satanás. O poder do mal, essa pessoa espiritual, é o Demônio, que age sob diferentes formas. A ação do mal é algo inegável na realidade, reconhecido em todas as religiões e culturas. Não se pode negar isso. E a forma com que a Bíblia apresenta a explicação do mal na humanidade é essa, que não pode ser refutada, não se submete a críticas irrefletidas.

O argumento da quinta via é que aquilo que não tem inteligência não pode mover-se a um fim a não ser por algum ser que tenha conhecimento e inteligência. Dawkins explica o argumento como se fosse "as coisas só podem parecer projetadas se tiverem sido projetadas". Assim, se elas não tiverem sido elas não vão parecer ter sido projetadas.

E afirma que a evolução pela seleção natural possui níveis incríveis de complexidade e elegância. Por exemplo, os sistemas nervosos que manifestam comportamentos de busca a um alvo semelhantes a um míssil guiado a calor. Tal coisa é o mesmo que argumenta Santo Tomás, pois não pode um sistema nervoso agir assim tão determinado e com precisão em uma das suas necessidades básicas se não houver uma inteligência que projetou esse sistema para funcionar assim. A prova de Santo Tomás permanece com toda sua força.

Gledson Meireles.

sábado, 11 de abril de 2026

Guilherme Freire vs Edson Toshio: a existência do mal

Comentando o livre-arbítrio em uma objeção ateísta


De forma resumida, o ateu acredita que é capaz de raciocinar criticamente na sua interpretação da Bíblia e provar que Deus não existe porque o mal existe. Vejamos um pouco sobre o livre-arbítrio é a falha que está por trás da aparente erudição do argumento ateísta.

Sabemos que o livre-arbítrio explica o mal moral no mundo. No entanto, o debatedor ateu critica o conceito dando o exemplo de alguém cometendo o mal contra outro, uma vez que o mal praticado por aquele estaria sendo respeitado por Deus enquanto que o mal sofrido pela outra pessoa significaria que Deus não estaria respeitando o livre-arbítrio da mesma. Nesse sentido, o livre-arbítrio seria sempre o do mais forte.

A objeção acima é sutil é cheia de problema. O livre-arbítrio é a capacidade moral de agir ou não agir. Nesse caso acima, aquele que age mal teria o livre-arbítrio e a vítima não. Portanto, o livre-arbítrio citado aí não é o mesmo que a doutrina cristã católica ensina. Esse é um problema em debater e usar um termo  com sentido diverso sem saber ao certo o que se está debatendo e contra o que exatamente. De fato, isso não é livre-arbítrio.

Em segundo lugar, a ideia subjacente na consciência do ateu exige que para a existência de Deus, que é o Sumo Bem, não poderia haver o mal na criação. Assim, o livre-arbítrio de uma pessoa deveria ser garantido como o da outra, e assim de todos, segundo o conceito advindo do exemplo acima, e desse modo, é óbvio que a conclusão é a extinção do livre-arbítrio.

Uma vez que alguém deseja fazer algo que ultrapassa a liberdade de outro, ele não poderia fazê-lo, pois estaria limitado a isso pelo poder de Deus que garantiu as leis naturais impedindo que um sofresse a ação advinda da liberdade de outro. Nessa situação, o mal deixaria de existir e somente a Vontade de Deus prevaleceria. É o mundo desejado. Como o ateu não crê em Deus, uma razão para isso seria a existência do mal.

Nesse caso, o ateu está raciocinando segundo as exigências da razão de que a justiça perfeita é condizente com a existência do Bom Deus, e a existência do mal incompatível com a natureza divina.

Com isso, tem-se que no íntimo da consciência o ser humano rejeita totalmente o mal e deseja justiça contra ele. É o instinto natural que diz que o mal deveria ser extinto. Dessa forma, isso é usado pelo ateísmo como argumento contra o Sumo Bem.

Uma vez que a realidade demonstra que há o mal, nessa lógica, por meio de um raciocínio mais complexo, Deus não deveria existir. No entanto, a simples existência do mal não é categoricamente uma prova da não existência de Deus.

De fato, como explica o catecismo, Deus criou o mundo em estado de caminhada, permitindo o mal físico, por exemplo. E, com isso, a existência do mal moral advém da liberdade já tratada acima, o que é plenamente compreensível.

Desse modo, temos que o ateu raciocina segundo a exigência da razão de que haja o bem, na criação como obra de um Deus bom, mas não pode prescindir da realidade de que esse dado da consciência é superior à natureza humana, não é uma opinião individual, mas um apelo da razão universal, de modo que há uma origem desse senso de justiça, que só pode ser Deus, e somente Ele pode dar a resposta.

Nisso, temos que Deus, sendo Bom e Todo-Poderoso pode acabar com o mal, e o fará, de modo a cumprir as exigências da Sua justiça que é refletida na mente humana.

Assim, temos que o desejo de justiça não é algo que meramente existe e não tem outra finalidade, como seria em um mundo sem Deus. Nesse caso, esse senso de justiça seria vão, já que todos esperariam uma vida imanente que terá um fim e toda a injustiça não terá remédio algum. O acaso seriar a explicação e a esperança de algo melhor seria pura ilusão. Mas o acaso não explica nada, e a ilusão não podes ser radicada em um instinto tão forte.

Entretanto, na fé cristã, fundamentada na razão, temos a promessa de que essa exigência da justiça perfeita será cumprida por Deus totalmente, de modo que não é um senso sem sentido, mas que indica sua futura realização. E isso só pode ser realizado por Deus.

Sendo assim, o raciocínio usado contra a existência de Deus por causa da existência do mal é algo que esconde a esperança de que o mal não exista e que o mundo seja bom e a vida feliz, onde todos ajam segundo uma Vontade que não permita o mal em nenhum sentido, e mais, de que isso será possível, o que somente Deus pode fazer. Temos assim a refutação radical da objeção ateísta por meio do problema do mal.

Com efeito, o ateu raciocina segundo as leis naturais do pensamento, onde a bondade de Deus exige a bondade de tudo. Doutro modo, não poderia formular nenhuma objeção pelo problema do mal.

Não pode, porém, entender que Deus, em Sua sabedoria, pode criar um mundo em vias de perfeição, onde a existência do mal é possível e permitida, e somente possível porque é permitida, mas que no fim tudo se conformará à natureza de Deus, o que está refletido nos raciocínios acima, que revelam o desejo último de que somente exista o Bem e a justiça seja plena. Isso é filosofia, pois segue os rumos da razão, e não abraça a desistência de pensar.

A própria existência do ateísmo mostra o livre-arbítrio em ação. O homem decide não crer por certos motivos.

O ateísmo raciocina segundo o senso de justiça.

Acredita-se, talvez, que esse senso seja natural e proveniente do acaso.

Com isso, seria um senso de justiça inexplicável e insaciável, já que a curta existência humana não daria nenhuma expectativa de que o mesmo pudesse ser satisfeito.

O cristianismo, por sua vez, como ensina a Igreja Católica, seguindo os ditames da razão e da revelação, crê em Deus, bom e todo-poderoso.

O senso de justiça é algo que está na natureza criada por Deus.

A justiça de Deus será manifestada no fim, e todos viverão em Deus, quando tudo estiver a Ele submetido.

Isso explica que o mal é passageiro, que a consciência moral não é vã, e que esperamos o fim do mal e a vida eterna em felicidade.

Aquilo que o ateu pensa do que deveria ser a criação é o que está na promessa de Deus para o reino eterno, onde tudo será bom e justo, onde Deus será tudo em todos. Homem busca a Deus.

Gledson Meireles.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Debate: 1 evangélico vs. 25 católicos

O apologista Bruno Lima comentou a respeito do debate "1 evangélico vs. 25 católicos" e fez certas colocações sobre o celibato e a invocação dos santos.

Segue abaixo uma breve reflexão que serve de refutação às colocações feitas.

Celibato obrigatório

Se a Bíblia não oferece uma regra a respeito do celibato ou do matrimônio, isso significa que há liberdade para escolha entre os dois modos de vida. Isso significa também que não há a regra de que deve haver liberdade para a escolha, mas que essa é a situação, sem prescrição nenhuma.

Exposição. Se a Igreja introduzir a disciplina de que os sacerdotes devem ser escolhidos entre homens casados, essa regra é conforme a doutrina bíblica, porque há liberdade para isso. Se a Igreja optar por ordenar homens que tenham a vocação para o celibato, essa também é uma norma bíblica, porque a Igreja tem liberdade para agir assim.

O que os protestantes atuais tentam defender na apologética é algo que não percebem. De fato, o que propõem contra o celibato pressupõe a existência de uma lei que proíbe promulgar lei nesse sentido.

É como se houvesse uma lei da liberdade de escolha entre matrimônio e celibato, e assim não poderia haver qualquer uma das alternativas como lei, pois seria proibido à Igreja optar por uma delas somente. Mas não há lei alguma dessa natureza na Bíblia.

Em outras palavras, a Bíblia não diz que é proibido legislar nesse sentido. Não diz que não se deve impor o celibato nem que não se deve impor o matrimônio nem que se deve deixar o caso aberto para cada candidato escolher. A Igreja tem liberdade para escolher o que parece mais conveniente e de acordo com a participação no único sacerdócio de Cristo.

Assim, a Bíblia não ensina:

1.      É necessário ser celibatário.

2.      É necessário ser casado.

3.      É necessário deixar livre a escolha entre ser celibatário ou ser casado.

Isso tornaria a questão assim:

1.      É proibido ser casado (no caso 1)

2.      É proibido ser celibatário (no caso 2)

3.      É proibido impor uma lei nessa questão (no caso 3)

O protestante não pode provar biblicamente a questão 3.

Portanto, está refutada essa posição.

 

Oração aos santos

Em Ap 5, 8 está escrito: “quando recebeu o livro, os quatro Animais e os vinte e quatro Anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um uma cítara e taças de ouro cheias de perfume (que são as orações dos santos).

Em Ap 8, 3 está escrito: “Adiantou-se outro anjo e pôs-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foram-lhe dados muitos perfumes, para que os oferecesse com as orações de todos os santos no altar de ouro, que está adiante do trono”.

O texto afirma que os anciãos e os quatro seres viventes estão com as orações dos santos. Não está revelado que as orações a Deus não poderiam ser por meio da intercessão dos santos do céu. Apenas diz que eles estão com as orações dos santos da terrra.

Depois, o anjo recebe perfumes para que coloque no altar de ouro junto com as orações dos santos.

Deus recebe as orações. No entanto, elas são oferecidas por meio dos santos e anjos no céu. Não está escrito que essas orações não foram feitas através de pedidos de intercessão, mas somente que são orações dos santos.

Dessa forma, qualquer ideia que negue a invocação para intercessão dos santos do céu é algo que não está no texto bíblico. Pelo contrário, toda a cena implica que há essas ações.

Gledson Meireles.

 

 

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

1 Evangélico x 25 Católicos: comentário

Debate Lucas vs. 25 católicos

Abaixo há apenas algumas considerações sobre pontos do debate, de forma a deixar o leitor instigado a estudar mais. Os dois primeiros itens serão tratados mais longamente, e os últimos terão apenas comentários breves.

O debate em geral. A postura dos debatedores não contribuiu muito para o esclarecimento de cada tema. Muitas interrupções.

Os temas debatidos foram o celibato obrigatório do clero antibíblico, a Bíblia não ensina rezar para santo, a tradição oral romanista não é confiável, o magistério católico contradiz a si mesmo e os católicos acrescentaram 7 livros ao Antigo Testamento.

Os argumentos apresentados foram bons, e as respostas muitas vezes não tão claras e, às vezes, a lógica dos argumentos falhava em certos momentos por parte dos católicos, embora estivessem corretos na doutrina, mostrando pouco treino em debater essas questões.

As citações bíblicas não foram muitas, em ambos os lados, mas suficientes para apresentar o tema.

O uso da razão e da lógica por parte do debatedor protestante foi bem utilizado nas argumentações, mas falhando nos pontos importantes, como será demonstrado abaixo.

Os fatos históricos mencionados são importantes para a compreensão dos temas e deveriam ser melhor aproveitados.

A base bíblica para a doutrina católica mostrou-se sólida, mas houve mal-entendidos nas argumentações, não deixando-a clara.

 

1)      Celibato obrigatório

 

Contexto: Tito 1, 6: Devem ser escolhidos entre quem seja irrepreensível, casado uma só vez, tenha filhos fieis e não acusados de má conduta ou insubordinação.

Explicação. Esse é o conselho geral para escolha dos candidatos ao sacerdócio: moral irrepreensível, casados uma só vez, com filhos fieis e obedientes. Não havia um número considerável de celibatários naquele tempo. Não houve uma lei para escolha de homens apenas celibatários para o sacerdócio. Também não era lei que os candidatos fossem casados. Assim, há uma espécie de costume e não de lei imutável.

Um homem que houvesse tido vida repreensível, ou casado mais de uma vez, ou tenha tido filhos acusados de má conduta, ou seja, que causaram escândalo, não seria aceito, pelo motivo que exclui o mesmo como apto para o sacerdócio. O contexto imediato não proíbe que sejam escolhidos homens celibatários.

Se a Bíblia dissesse que deveriam ser escolhidos somente homens entre os celibatários, não haveria proibição de casamento para os demais homens, mas uma escolha entre aqueles que já haviam decidido não se casar, como faz a ICAR, no rito latino. E, automaticamente, os homens casados estariam fora dessa possibilidade de ser tornarem parte do clero.

São Paulo era celibatário, sendo assim desde a juventude, ou mesmo se fosse viúvo não há diferença nesse particular, pois ele claramente defende o celibato como estado de vida superior ao do matrimônio. Desse modo, o apóstolo não iria ensinar uma lei contrária àquilo que o mesmo ensinava ser preferencial.

Se se objetar que São Paulo opinou sobre o celibato voluntário e não obrigatório, ainda assim a contradição da intepretação protestante continua. Biblicamente, o protestante tem de reconhecer que sua interpretação coloca uma passagem contra a outra. Portanto, está refutado.

Demonstração. Se há uma regra que diz que devem ser escolhidos apenas homens casados, então São Paulo estaria advogando um estado de vida superior como proibido para o sacerdócio. O celibatário não poderia ser ministro do evangelho. Assim, a interpretação protestante está errada.

Exposição. Com isso, temos que assumindo a realidade geral, onde poderiam haver celibatários, como São Paulo e outros apóstolos, a regra seria escolher homens celibatários, de preferência, ou se não houvesse, que fossem moralmente ilibados, casados uma única vez, e tivessem filhos de conduta moral irrepreensível. O próprio São Paulo estava na categoria dos celibatários.

A Igreja, com o tempo, adotou a disciplina mais conveniente e mais de acordo com o espírito do evangelho. De fato, o celibato é apresentado como preferível ao matrimônio. Assim, o rito latino exige que os candidatos ao clero seja celibatário, o que é um estado de vida com fundamento bíblico.

O argumento protestante era contrário ao celibato em si. Hoje é contrário à obrigação do celibato pela Igreja, de modo a manter a oposição.

A interpretação de 1 Cor 9, 5 da mulher irmã como esposa cristã encerra a mesma contradição acima. São Paulo não estava advogando o direito de ter esposa cristã, pois ele outros apóstolos eram celibatário. Tratava-se de mulheres irmãs, como diz o texto original e contexto bíblico já apresentado.

Em Mateus 19, 12 Jesus mostra a superioridade do celibato. Obviamente, não está tratando da obrigação dos sacerdotes serem celibatários, mas mostra que há aqueles que escolhem esse modo de vida por causa do Reino dos Céus. Afirmar que a Igreja não pode escolher somente entre os celibatários para compor o clero é negar a autoridade da mesma e afirmar algo que vai além da questão, como se o casamento do clero fosse algo obrigatório, contrariamente ao que já foi explicado. Portanto, a Igreja usa da sua autoridade para incluir na disciplina essa norma. E não há objeção contra a autoridade da Igreja em escolher normas santas de vida.

E um argumento quase foi formado durante o debate, tendo a ver com a imoralidade, que seria combatida por meio do casamento do clero. Isso hoje é empiricamente provado ser sem grandes efeitos. A esmagadora maioria dos pastores protestantes são casados. No entanto, é possível perceber facilmente que a imoralidade não é rara nesse meio, já que, assim como há entre o clero católicos, muitas notícias de escândalos são veiculadas em referência aos ministros protestantes. A vida cristã com suas normas santas é que se mostra eficaz contra tais coisas. O casamento em si não parece ser uma barreira importante nesse sentido.

Desse modo, a ideia contrária à obrigação do celibato para os que serão parte do clero não pode tornar-se motivo de alguém contra a ICAR, como motivo de não ser católico. Seria um argumento falho demais, uma opinião privada bastante frágil.

Proposições bíblicas:

1.      Não há regra bíblica para o casamento ou não dos ministros do evangelho.

2.      Celibato é superior ao matrimônio.

A Igreja, nesse caso, escolhe adotar a forma de vida mais conveniente para o clero, e possui esse direito.

Em determinado momento o apologista protestante questiona se a igreja tem autoridade para mudar essa norma. Segundo o que ele pensa, deveria haver liberdade para casar-se ou não. O argumento do apologista protestante poderia ser formulado da seguinte maneira: a Bíblia deixa livre ao ministro casar ou não. Essa é a lei. Impor o celibato é errado.

Esse ponto entra na questão da autoridade da Igreja que com sabedoria maior adota a norma mais conveniente para o ofício do clero. Essa norma não fere qualquer lei bíblica. Pelo contrário, como visto, auxilia na maior conformidade com o estilo de vida de Jesus.

A citação de História Eclesiástica III, 30 não ajuda muito nesse sentido, já que contem erro, pois é dito que São Paulo era casado, não andava com a esposa para facilitar seu ministério e menciona a sua esposa em suas epístolas. Trata-se de um erro de interpretação bíblica.

Conclusão.

Se há uma regra e a Igreja escolhe outra, isso é antibíblico.

Se não há regra alguma e a Igreja decide formular uma, isso não contraria a Bíblia.

A formulação da regra desse ser bíblica.

É essa a posição da Igreja Católica.

 

2)      Rezar para santos

O apologista protestante tentou refutar a oração aos santos com base em Ap 5, 8 citado pelo debatedor católico, dizendo que a fumaça subiu, o que significa que não estava no céu, mas veio da terra. O problema é que o argumento católico fica de pé, pois a ênfase não é se as orações vieram da terra e subiram até o trono de Deus, mas que foram intermediadas pelos anciãos. Os anciãos possuem uma função nessa entrega das orações.

Mas, alguém orou para os anciãos? O texto não diz. O fato é que os anciãos participam das orações. Se é assim, é portanto bom pedir aos santos que intercedem por Deus, pois eles realizam esse ofício.

O tema é intercessão, ou tem a ver com isso. De fato, o Lucas quer que seja mostrado um texto claro onde um cristão no NT esteja orando a alguém que já morreu e pedindo que interceda por Deus. É uma exigência pensada, já que assim, uma vez não havendo o texto, venceria o debate. O problema é que deve ser tratada a doutrina em seus fundamentos, com princípios bíblicos, e não apenas textos com certas exigências.

Alguém poderia pedir um texto em que o Pai, o Filho e o Espírito Santo estejam sentados em um trono. Ou em três tronos. Não há tal texto, embora a Bíblia, no Apocalipse, mostre o Pai e o Filho no trono e os sete espíritos de Deus diante do trono, em linguagem simbólica para tratar do Pai do Filho e do Espírito Santo, mostrando a trindade. Assim, não havendo um  texto em que mostre o Espírito no trono não é prova alguma contra a trindade, assim como não é prova alguma contra a prática de rezar aos santos a falta de uma passagem mostrando alguém na Bíblia orando diretamente ao santo por intercessão. É necessário entender a doutrina.

Há ou não direito de dirigir-se aos santos do céu. Biblicamente sim. É preciso entender a doutrina. Se os anciãos levaram os pedidos da terra até Deus, está implícito que podemos pedir aos anciãos a sua intercessão. De fato, dessa passagem não se pode dizer que é proibido pedir aos anciãos, o que seria um non sequitur. E em nenhum texto bíblico há proibição de rezar aos santos. O que existe são implicações favoráveis, como a citada acima.

O termo santo: se todos os cristãos são santos, é correto afirmar que os que estão na glória do céu são santos.

E exigido exemplo de oração aos santos já falecidos na Bíblia. Não há exemplo direto, mas princípios que corroboram a prática. E não há qualquer proibição dessa prática.

Deveria haver o ensino direto para rezar aos santos e um exemplo disso explicitamente no texto bíblico. Embora no debate tenha sido mostrado, de certa forma, o princípio da intercessão, parece que não foi suficiente.

Diga-se, de passagem, o caso de Onesífero não é exemplo de intercessão dos santos no céu, mas de oração pela alma de um falecido.

1ª razão: As orações são sempre para Deus.

São os exemplos de orações encontrados na Bíblia. Não se pode deles afirmar que é proibido rezar pedindo intercessão aos já falecidos.

2ª razão: Estado de inconsciência dos mortos.

Os mortos estão conscientes. Leia o livro A imortalidade da alma não é lenda.

 

3)    3) A tradição “romanista” não seria confiável

 

Sobre a questão de Petros e Petra o aramaico seria desfeito pelo grego, que diferencia os termos. Mas isso não procede uma vez que petros e petra são intercambiáveis no grego e são o mesmo termo em aramaico. Então, não se pode partir desses termos em grego para incluir outro sentido além do original e contra o original a não ser para desenvolver um significado  secundário.

O único modo de saber com exatidão sobre o que foi pregado por Jesus é a Escritura Sagrada. O conteúdo da tradição apostólica está em fontes não inspiradas, e somente por meio da autoridade da Igreja é que se pode chegar à certeza desse depósito, pois a Igreja tem a promessa de ser guiada à verdade, e poder ler os santos padres e demais escritores cristãos, como identificar nas fontes litúrgicas, arqueológicas e nas decisões conciliares e documentos magisteriais dos papas, aquilo que é tradição apostólica. Isso ocorre no caso da do batismo infantil, da imaculada conceição e assunção de Maria, por exemplo.

 

4)  4) O magistério católico se contradiz

Em questões de fé e moral o magistério não se contradiz. Há mudança na aplicação de princípios em períodos diferentes da história. Certas mudanças de ensinos da Igreja não são de fato contradições como os protestantes entendem. Esse ponto é complexo.

 

5) 5) Os católicos acrescentaram 7 livros ao Antigo Testamento

Essa questão é ampla e complexa, não será feita considerações aqui. O fato é que o cânon católico que foi estabelecido em Trento é o mesmo que o dos antigos concílios, incluindo o de Florença. Contra fatos não há argumentos.

Gledson Meireles. 

domingo, 29 de março de 2026

Ateus detonam, supostamente, ao explicar a realidade

Aqui segue um comentário sobre o que filósofos ateus afirmaram sobre a existência de Deus.

Filósofos ateus apelam para a intersubjetividade para explicar a existência de Deus. Deus seria criação da intersubjetividade.

A realidade criada pela intersubjetividade seria uma realidade não empírica, mas real, pois produz efeitos, tendo consequências empíricas. O ser humano viveria na objetividade, subjetividade e intersubjetividade, e Deus estaria como criatura da intersubjetividade.

Entretanto, Deus não seria a estrutura da realidade no seu aspecto mais fundamental. Nesse caso, quem seria? O ser humano, é óbvio. Seria o seguinte: os seres humanos criadores da realidade fundamental por meio da intersubjetividade.

Então, tudo seria criado pelo cérebro, mas não reduzido ao cérebro.

O exemplo dado, do ponto desenhado e apagado continuar a existir, seria que o ponto desenhado constitui apenas a representação do ponto objetivo real mas virtual, ou seja, ideal, e não o próprio ponto. Vamos analisar esse argumento. Antes, vejamos outro. O personagem Batman existe na realidade intersubjetiva.

Raciocinando com os pressupostos apontados acima, quando a humanidade começou a existir, por acaso, por variados e complexos processos evolutivos, que seguiram leis evolutivas que teriam trazido à existência corpos complexos a partir de seres simples, não sabendo como isso ocorreu, de que forma isso veio a ser realidade, como a existência foi possível. Pois bem.

Nesse tempo não havia o poder para criar as leis intersubjetivas, nem os personagens virtuais que transcendem a matéria, pois não havia um número x de indivíduos capazes de criar essa realidade intersubjetiva. Então não havia ética, moral, bom, belo, justiça, etc. Havia apenas a realidade com suas leis objetivas naturais, que o ateísmo não sabe explicar de onde se originam.

O problema é que há uma inteligência superior por trás do surgimento da humanidade, e não sendo assim, não há realidade. O surgimento dos dois sexos, a possibilidade de união entre os dois para a propagação da espécie, implicando uma teleologia, e etc., já é um obstáculo para o ateísmo.

A intersubjetividade que cria leis e valores que transcendem os próprios indivíduos e não se reduz ao cérebro implica a objetividade dessas leis e não a origem dela nos seres racionais. Se elas são objetivas, não são intersubjetivas na origem. E os filósofos citados concordam até aqui.

Na verdade os seres apenas percebem essa realidade através da razão. Não há uma criação das leis, mas de uma estrutura que suporta e realiza essas leis.

Um personagem fictício que é criado pela imaginação e está na mente, na memória, e não existe objetivamente, não é uma realidade física, nem espiritual, mas imaginária, virtual, ainda que com ela se faça muitas coisas, e a mesma tenha consequências empíricas na realidade, essas consequências não provem dela, mas dos seres que a criaram na mente. Assim, essa noção não tem a ver com a verdade de Deus. Entretanto, os personagens fictícios não são necessários para existir na mente dos seres humanos. Deus é.

O exemplo do ponto que foi desenhado e depois apagado. O mesmo passou a existir no desenho, deixou de existir quando foi apagado, mas continuou a existir na memória e na sua forma fundamental de ponto. O arquétipo do ponto da mente ou na memória não é o mesmo que a existência do ponto em algum lugar. O ponto existe objetivamente na ideia e veio à existência empírica no desenho.

Depois da morte de uma pessoa, essa pode continuar existindo na memória das outras pessoas e nas suas consequências no mundo. Isso não tem a ver com a sua existência objetiva, mas com a existência na recordação. A sua existência na recordação de outros não é a mesma e nem antecede sua existência empírica. Também, sua inexistência empírica não tem a ver com uma ideia sua, que não existia antes e que agora existe na memória de outros.

Entretanto, antes disso, a pessoa real e empiricamente existiu. Agora, basta provar que a mesma exista em outra realidade que transcende a física. Ao invés de apelar para a imaginação, onde a ideia deixada na memória por uma pessoa que existiu, deve-se utilizar a razão e estabelecer os princípios que demonstram a realidade da pessoa existindo em seu princípio vital espiritual, que é a alma humana, após a morte.

A existência ontológica e intersubjetiva não é a mesma que a existência objetiva. A pessoa deixou de existir permanecendo a alma, em sentido objetivo.

Exemplo do ponto não pode ser usado em comparação com a existência de uma pessoa, pois se o ponto existe idealmente e não é o que é representado graficamente por meio físico, isso não é o que ocorre com uma pessoa, pois do contrário a sua existência real, empírica, física, seria um reflexo da sua existência ideal, e sua existência no mundo seria menor que a existência na ideia.

Menor por estar fadada ao desaparecimento, enquanto a ideal seria permanente, intocável. Ou seja, haveria uma pessoa x ideal, sem consciência, sem estrutura alguma, sem existência real, a não ser a imaginária, e a mesma pessoa na realidade tangente apenas representando essa idealidade, o que é um absurdo.

Na verdade, o que se está tentando substituir com esses raciocínios é a existência da alma, que é parte da pessoa que sobrevive após a morte da mesma. E também a existência ideal da pessoa na mente de Deus, antes de criá-la, e sua existência real na alma, depois da morte. Não se trata de uma existência subjetiva, nem intersubjetiva, mas objetiva, real, embora espiritual.

Vejamos o caso ainda mais. Um ponto existe. Existe na ideia. Na realidade ele pode ser desenhado. Após ser apagado, continua a existir, pois não era o próprio ponto, mas apenas a representação do ponto.

Uma pessoa existe. Na realidade, essa pessoa nasceu e morrerá. Após a morte, continuará a existir na estrutura ontológica, na intersubjetividade.

Mas, o ponto existe idealmente, e a pessoa, antes de vir à existência estava na ideia de quem?

Uma imagem da pessoa representaria a pessoa, assim como o ponto desenhado representaria o ponto ideal. No entanto, o ponto desenhado está na realidade como a pessoa viva, e não a imagem daquela pessoa viva. Assim, o ponto ideal continua intacto após o apagamento do ponto no desenho.

Em relação à pessoa, que é real, física, empírica, após a morte nada idealmente dela está intacto, pois nem existia. E na realidade também, nada continuou intacto, pois houve corrupção e a alma se separou.

Isso acontece porque não é possível que o ser contingente exista sem ter sido criado. Primeiro, porque sem o Criador não havia ideia daquela pessoa. Segundo, porque na realidade essa pessoa existe, está viva, e na morte deixa de existir fisicamente. Não tendo idealidade anterior, pois não foi criada por seres humanos, nem em suas intersubjetividades, não existe desse modo, ficando a existir no modo criado após sua existência na intersubjetividade, na memória. A ideia criada da mesma veio após a sua existência e não antes. Por isso, o exemplo do ponto é bastante imperfeito.

Ainda, a ideia da pessoa está na memória e não é uma criação intersubjetiva, mas um dado da realidade que permaneceu gravado. Por fim, a existência intersubjetiva da pessoa é apenas a recordação da realidade objetiva da mesma. É o mesmo que lembrar de qualquer outra coisa, até mesmo de uma coisa imaginária. Não há nesse ponto a explicação da realidade da pessoa em si.

Portanto, o exemplo do ponto não é idêntico, e a intenção de provar a realidade intersubjetiva como criação de Deus na própria intersubjetividade se mostra equívoca.

Sabemos que um fenômeno observado e não explicado, pode ser explicado por hipóteses, já que existe algo que explique o fenômeno e é necessário, para conhecê-lo, partir de raciocínios válidos. Esse algo existente é necessário, por conta do efeito que é real.

Isso estaria na antropologia, sociologia, filosofia: há realidade não observáveis diretamente. Os efeitos são mensuráveis. Para explicar os efeitos observados, é possível retroativamente afirmar o que deveria ser para que o efeito exista.

Essa realidade estudada não tem realidade física, mas tem consequências na mesma, e portanto ela existe objetivamente.

Há realidades que são empíricas, mas não observáveis diretamente. Deus seria essa realidade, com seus efeitos claros, na sociedade religiosa, por exemplo. Deus não seria a estrutura da realidade no seu aspecto mais fundamental, mas é uma realidade intersubjetiva, porque faz diferença, uma diferença empírica, que depende da coletividade.

O filósofo fez tudo isso para provar que Deus não é a realidade objetiva, mas criada intersubjetivamente. No entanto, partindo da sua própria apresentação, com o rigor científico que o mesmo advoga, vejamos:

É fácil ver que o mundo é uma realidade. O mundo é um efeito. Não é razoável crer que o mundo exista desde sempre com toda a complexidade existente, com suas leis objetivas. Postular isso, é apenas uma afirmação, sem prova racional, o que não é nada filosófico.

O mundo, portanto, é o efeito. Para explicar o mundo há que retroativamente encontrar o que poderia tê-lo feito vir à existência. Essa realidade que, não é empírica no sentido material, pode ser conhecida pelos seus efeitos, no mundo que existe. Essa realidade é Deus.

O filósofo parte de outro pressuposto. De fato, olha para a intersubjetividade e vê os efeitos da humanidade no mundo realizados a partir da ideia de Deus e conclui que Deus passou a existir dessa ação intersubjetiva. Mas não explicou a origem da própria humanidade, como feito acima, onde há explicação de toda a criação.

Com isso, se tenta provar a realidade de Deus que transcende a individualidade e subjetividade, ao mesmo tempo que provoca efeitos empíricos no mundo. Tenta-se com isso entender o que é do espírito agindo na realidade empírica.

O problema é que o raciocínio parte do dogma de que o cérebro produz tudo, ainda que reconhecendo que a criação intersubjetiva supera os limites das ideias criadas pelo cérebro. Como pode algo produzido humanamente superar os limites das individualidades humanas, se isso não for espiritual?

Deus seria, de algum modo, independente do ser humano, ao menos subjetivamente, mas estaria acima do controle da mente subjetiva e agiria no mundo material por meio da ação da coletividade humana. Com isso, tem-se a ideia do poder de Deus e de sua ação no mundo. Apenas os meios usados para estabelece-las são errôneos.

Entretanto, esses lampejos da verdade estão no meio de uma estrutura frágil e equivocada de pensamento, pois pressupõe que a humanidade tenha sido originada pela força do acaso, quando na verdade essa mesma realidade humana deve entrar no problema da busca da sua origem. E essa origem, como mostrado acima, é Deus.

 Deus está acima da humanidade, influencia toda a realidade, e assim aparece nas leis naturais, morais, éticas, e é percebido na intersubjetividade. O método filosófico para provar a existência de Deus é eficaz.

 

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=srYsJuPoQzk.

 

Gledson Meireles.