domingo, 22 de fevereiro de 2026

A santificação da virgem Maria na Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás explica a santificação de Maria: comentário sobre a doutrina

Maria foi santificada antes do seu nascimento. A primeira objeção é que primeiro há o natural, depois o espiritual. Santo Tomás responde que também em Maria há o natural, e depois o espiritual.

Certamente, ele não fala da imaculada conceição, mas da animação natural, depois da purificação de Maria no ventre da sua mãe. O princípio é o mesmo: Santo Tomás acreditava que Maria foi criada e teve contato com o pecado original e logo após foi redimida. Na imaculada conceição isso ocorre no momento da concepção: a concepção vai ocorrer no pecado e Deus redime aquela pessoa no mesmo instante. É apenas uma diferença temporal. No tempo de Santo Tomás ainda não havia esclarecido esse ponto básico, mas o mesmo ensina que Maria nasceu sem pecado.

A segunda objeção é que é necessário nascer na carne previamente e depois nascer do espírito. Objetavam que a santificação deveria ocorrer após o nascimento de Maria. Santo Tomás afirma que Deus pode conceder a graça a alguém que ainda não nasceu.

A terceira objeção é que se Maria foi santificada do pecado original antes de nascer, se ela morresse poderia entrar no céu antes da morte de Cristo na cruz (cf. Hb 10, 19). A resposta é que a santificação do pecado original, da mancha pessoal, foi feita antes do nascimento, mas não foi tirada a culpa que está em toda a natura, que somente pode entrar no Paraíso através do sacrifício de Cristo. Com isso, Santo Tomás explica que assim como os santos padres que viveram antes de Cristo, caso a virgem Maria morresse antes da morte de Cristo, deveria aguardar a ressurreição de Cristo para entrar no céu.

A quarta objeção tem o fato de que o pecado original é transmitido pela origem, assim como o pecado pessoal o é pelo ato. Alguém no ato de pecar não pode ser purificado. Assim, a bem-aventurada virgem Maria não poderia ser purificada no ato da origem. Santo Tomás responde que nada impede que seja purificada após a animação, ou seja, após receber a alma. Após isso ela permaneceu no ventre para aperfeiçoamento do que recebeu.

Então, surge a questão de que a mesma foi santificada antes da animação, pois ela recebeu mais graça do que qualquer outro santo. Assim, a santificação de Maria deve ser maior que a de Jeremias (cf. Jr 1, 5) e de João Batista (Lc 1, 15). Santo Tomás responde que Jeremias foi conhecido antes de ser formado, mas foi santificado antes do nascimento. Quanto a João Batista, que tinha a graça antes de ter o espírito de vida, ele já tinha o espírito de vida, interpretado como o ar que respiramos, não a alma. Assim, não haveria santificação de João Batista antes do recebimento da alma, ou que a alma não tinha suas operações completas ainda.

A segunda objeção dessa sessão é que a santidade de Maria é, abaixo de Deus, ninguém possui maior graça. Cita Ct 4, 7. Ela seria maior se nunca estivesse com o pecado original. Assim, ela seria santificada antes que sua carne fosse animada, ou seja, antes do recebimento da alma.

Assim, Santo Tomás explica que Maria nunca tivesse incorrido na mancha do pecado original isso seria derrogatório à dignidade de Cristo. Essa é a dificuldade. Significaria que ela não foi salva por Cristo. Então, depois de Cristo, que não precisou de salvação, a pureza da virgem Maria está no mais alto lugar. Cristo não contraiu o pecado (cf. Lc 1, 35), mas a virgem sim, afirma Santo Tomás, mas foi santificada antes do seu nascimento.

Então, para responder mais, cita Jó 3, 9 e Sabedoria 7, 25, afirmando que a virgem Maria foi imune ao pecado original no seu nascimento.

No contexto, temos que admitir que a virgem Maria, no pensamento de Santo Tomás, precisou ser santificada em momento anterior ao do profeta Jeremias e de João Batista, conforme a objeção, pois ela recebeu maior graça. A dificuldade é que não havia lugar para ensinar que a mesma nunca tinha obtido a mancha do pecado. A doutrina da imaculada conceição concede que Maria pecou em Adão e foi santificada na concepção. No caso de Cristo, nunca houve santificação, pois Ele não precisou, pois é santíssimo e não necessita de salvação. Há essa diferença em todo o contexto, e as bases da imaculada conceição permanece. Maria tem santidade maior entre os santos. Portanto, sua santificação foi em momento anterior àquele que ocorreu nos maiores santos.

Percebe-se que esse momento trata mais especificamente da imaculada conceição. Mas, ainda há algo diferente, segundo o pensamento antigo. A santificação deveria ocorrer na carne, antes da alma ser criada. Sabemos que isso não ocorre, pois a alma é criada no momento da concepção. A doutrina da imaculada conceição significa que a santificação ocorre no mesmo momento.

A terceira objeção parte da festa da conceição de Maria. Objeta-se, assim, que isso torna necessário que ela tenha sido santificada antes da animação. Essa problemática não ocorre hoje, pois não se pensa que a alma seja infundida no feto após a concepção.

A resposta de Santo Tomás é que em Roma não havia a celebração da conceição de Maria, como em outros lugares, e isso era tolerado na Igreja. Ainda, não havia consenso sobre o momento em que ela foi santificada, e então a festa ocorria no dia da sua conceição.

A Bíblia não fala da santificação e do nascimento de Maria. Mas, como Santo Agostinho, com razão, diz Santo Tomás, admitindo que o corpo da virgem Maria foi levado ao céu, ainda que a Escritura não relate o fato. Santo Tomás afirma que é razoável crer que Maria recebeu maior privilégio que todos, citando Lucas 1, 28. Como outros foram santificados no ventre, assim também Maria. Portanto, se ela recebeu maior graça que todos, isso leva a crer que há algo diverso na sua santificação. É a imaculada conceição.

Hoje, sabemos que a conceição é o momento em que a alma é infusa, e a santificação ocorreu o mais cedo possível. Assim, o princípio leva à crer na imaculada conceição, ainda que no entendimento de que a mesma foi resgatada do pecado de Adão que atinge a natureza humana.

A quarta objeção é que a virgem foi santificada em seus pais, antes da animação. Nesse ponto, Santo Tomás explica que a santificação é dupla: a santificação da natureza inteira, livrando de toda corrupção e punição, o que será feito na ressurreição. A outra é pessoal, que não é transmitida aos filhos, pois diz respeito à mente. Assim, a virgem foi concebida no pecado original, pela concupiscência carnal e relação entre homem e mulher.

A resposta de hoje seria que a santificação no momento da concepção deve-se a essa realidade do peado original atingir a natureza humana. Então, a virgem Maria foi purificada da corrupção naquele momento, o que melhor se chama preservação, já que sua pessoa passou a existir naquele instante.

As coisas ocorridas no Antigo Testamento são figuras do novo. Assim, a santificação do Tabernáculo (Sl 45, 5; 18, 6). E citando Ex 40, 31-32, conclui que a santificação de Maria ocorreu quando tudo nela foi aperfeiçoado, ou seja, seu corpo e sua alma. Atualmente sabemos que a santificação ocorreu na concepção. Assim, ela foi santificada na sua conceição.

Santo Tomás apresenta as razões porque não acreditar que a santificação de Maria ocorreu antes da animação. Hoje também cremos que a santificação não ocorreu antes da animação, mas no mesmo instante.

Como antes da animação não existe pessoa racional, a virgem não poderia ter sido santificada antes.

Somente a criatura racional pode pecar. Se houve santificação antes da animação, não haveria a mancha do pecado original, e então Maria não necessitaria de redenção e salvação. Por isso, Santo Tomás ensinou que a santificação foi após a animação.

Hoje, uma vez que cremos que o pecado de Maria em Adão é o motivo para sua santificação, e que o momento da concepção garante que a mesma foi preservada do pecado e portanto salva por Cristo, temos que há toda a conciliação desses princípios trazidos por Santo Tomás.

A próxima e primeira investigação do tópico, diz respeito à purificação da infeção dos fomes. Objeta-se que a virgem não foi totalmente purificada. Santo Tomás afirma que a virgem Maria, para ser conforme Seu filho, do qual sua plenitude de graça derivou, os fomes foram bloqueados e depois eliminados.

A segunda é tirada de 2 Cor 12, 9, onde o poder é aperfeiçoado na enfermidade. Assim, a virgem não poderia ter sido totalmente purificada. Santo Tomás afirma que a enfermidade da carne não é sine qua non para a perfeição. A virgem tem virtude perfeita e graça abundante.

A terceira objeção é fundamentada nas palavras de Damasceno, onde a virgem é purificada antes de conceber Jesus. Mas, sendo que ela não cometeu pecados, como afirma Santo Agostinho, então seria a purificação dos fomes, que não teria sido totalmente feita no ventre.

A purificação que o Espírito Santo efetuou em Maria para prepará-la para a maternidade não foi em relação ao pecado. Na concepção de Cristo pode-se dizer que Maria foi totalmente purificada.

Santo Tomás cita Ct 4, 7, o que significa que Maria não tinha pecado algum. Muitas opiniões havia sobre isso. Alguns ensinavam que Maria foi totalmente purificada no ventre. Outros afirmam que ela herdou a dificuldade em fazer o bem, mas não a propensão ao mal. Outros afirmam que foi retirada a corrupção pessoal, que inclina ao mal, e dificulta agir bem, mas teria ficado a corrupção da natureza. Outros ensinam que os fomes ficaram essencialmente na virgem Maria em sua primeira santificação, mas foram bloqueados. Somente a imortalidade da carne não havia ainda sido concedida Maria.

Na quarta parte, a questão primeira é se a virgem foi santificada e preservada do pecado atual, já que possuía os fomes, a lei da carne. Mas, Santo Tomás explica que a providência preveniu a virgem, aperfeiçoando o bloqueio dos fomes, não permitindo o pecado.

A segunda é que a espada de dor seria a dúvida de Maria. A resposta é que muitos explicam essa espada como a tristeza. A dúvida seria de maravilha e discussão, não de incredulidade.

A objeção três há diversas citações que indicariam pecados de Maria. Santo Tomás afirma que São João Crisóstomo vai longe demais. Santo Tomás afirma que Cristo corrigiu em Maria não a vanglória de si mesma, aquilo que poderia estar no pensamento de outros.

Santo Tomás cita Santo Agostinho, que escreveu que em matéria de pecado é desejo excluir todas as questões concernentes à virgem Maria, por causa da honra a Cristo. Maria não seria digna de ser mãe de Deus se ela tivesse pecado. Cita Provérbios 17, 6; 2 Cor 6, 15; 1 Cor 1, 24 e Sb 1, 4. Cumpre-se o que está em Ct 4, 7.

Agora, Santo Tomás responde objeções se Maria recebeu a completude da graça. A primeira objeção afirma que só Cristo era cheio de graça. Ele afirma que Maria recebeu a plenitude da graça por estar próximo do Autor da graça. Ele recebeu dentro dela quem é cheio de graça e por dar à luz ela, em certo modo, dispensou a graça a todos.

Na segunda objeção é dito que nada pode ser acrescentado ao que já é cheio, mas Maria recebeu graças adicionais. A resposta de Santo Tomás é que Maria recebeu a santificação tripla: a primeira a tornou digna para ser a mãe de Cristo, a segunda é a presença de Cristo em seu ventre e a terceira é a que ela tem na glória. Ele aprofunda nessa questão de uma forma bela.

A terceira objeção tem a ver com as graças recebidas que não são usadas. A resposta é que Maria recebeu as graças de acordo com sua condição de vida.

E o artigo seis responde se é apropriado a Maria ser santificada no ventre. Então somente Maria foi santificada. Santo Tomás responde que Jeremias e João Batista também o foram, mas Maria recebeu maior graça, graça mais completa.

A segunda objeção é que homens mais próximos a Cristo não foram santificados no ventre. E isso excluiria Jeremias e João Batista.  Santo Tomás afirma que esses foram mais próximo de Cristo por preanunciar sua santificação.

E Jó afirma que a misericórdia cresceu com ele, desde o nascimento. A resposta é que tal não é a santificação no ventre, mas uma certa inclinação natural ao ato de virtude.

Desse modo, vemos que Santo Tomás ensinou a imaculada conceição porque acreditava que isso faria de Maria uma exceção ao fato de que Jesus é o salvador de todos. Uma vez resolvido isso, tudo fica praticamente igual: Maria nasceu santa, é a mais santa de todos os santos, não teve nenhum pecado, foi assunta ao céu.

Gledson Meireles.