domingo, 29 de março de 2026

Ateus detonam, supostamente, ao explicar a realidade

Aqui segue um comentário sobre o que filósofos ateus afirmaram sobre a existência de Deus.

Filósofos ateus apelam para a intersubjetividade para explicar a existência de Deus. Deus seria criação da intersubjetividade.

A realidade criada pela intersubjetividade seria uma realidade não empírica, mas real, pois produz efeitos, tendo consequências empíricas. O ser humano viveria na objetividade, subjetividade e intersubjetividade, e Deus estaria como criatura da intersubjetividade.

Entretanto, Deus não seria a estrutura da realidade no seu aspecto mais fundamental. Nesse caso, quem seria? O ser humano, é óbvio. Seria o seguinte: os seres humanos criadores da realidade fundamental por meio da intersubjetividade.

Então, tudo seria criado pelo cérebro, mas não reduzido ao cérebro.

O exemplo dado, do ponto desenhado e apagado continuar a existir, seria que o ponto desenhado constitui apenas a representação do ponto objetivo real mas virtual, ou seja, ideal, e não o próprio ponto. Vamos analisar esse argumento. Antes, vejamos outro. O personagem Batman existe na realidade intersubjetiva.

Raciocinando com os pressupostos apontados acima, quando a humanidade começou a existir, por acaso, por variados e complexos processos evolutivos, que seguiram leis evolutivas que teriam trazido à existência corpos complexos a partir de seres simples, não sabendo como isso ocorreu, de que forma isso veio a ser realidade, como a existência foi possível. Pois bem.

Nesse tempo não havia o poder para criar as leis intersubjetivas, nem os personagens virtuais que transcendem a matéria, pois não havia um número x de indivíduos capazes de criar essa realidade intersubjetiva. Então não havia ética, moral, bom, belo, justiça, etc. Havia apenas a realidade com suas leis objetivas naturais, que o ateísmo não sabe explicar de onde se originam.

O problema é que há uma inteligência superior por trás do surgimento da humanidade, e não sendo assim, não há realidade. O surgimento dos dois sexos, a possibilidade de união entre os dois para a propagação da espécie, implicando uma teleologia, e etc., já é um obstáculo para o ateísmo.

A intersubjetividade que cria leis e valores que transcendem os próprios indivíduos e não se reduz ao cérebro implica a objetividade dessas leis e não a origem dela nos seres racionais. Se elas são objetivas, não são intersubjetivas na origem. E os filósofos citados concordam até aqui.

Na verdade os seres apenas percebem essa realidade através da razão. Não há uma criação das leis, mas de uma estrutura que suporta e realiza essas leis.

Um personagem fictício que é criado pela imaginação e está na mente, na memória, e não existe objetivamente, não é uma realidade física, nem espiritual, mas imaginária, virtual, ainda que com ela se faça muitas coisas, e a mesma tenha consequências empíricas na realidade, essas consequências não provem dela, mas dos seres que a criaram na mente. Assim, essa noção não tem a ver com a verdade de Deus. Entretanto, os personagens fictícios não são necessários para existir na mente dos seres humanos. Deus é.

O exemplo do ponto que foi desenhado e depois apagado. O mesmo passou a existir no desenho, deixou de existir quando foi apagado, mas continuou a existir na memória e na sua forma fundamental de ponto. O arquétipo do ponto da mente ou na memória não é o mesmo que a existência do ponto em algum lugar. O ponto existe objetivamente na ideia e veio à existência empírica no desenho.

Depois da morte de uma pessoa, essa pode continuar existindo na memória das outras pessoas e nas suas consequências no mundo. Isso não tem a ver com a sua existência objetiva, mas com a existência na recordação. A sua existência na recordação de outros não é a mesma e nem antecede sua existência empírica. Também, sua inexistência empírica não tem a ver com uma ideia sua, que não existia antes e que agora existe na memória de outros.

Entretanto, antes disso, a pessoa real e empiricamente existiu. Agora, basta provar que a mesma exista em outra realidade que transcende a física. Ao invés de apelar para a imaginação, onde a ideia deixada na memória por uma pessoa que existiu, deve-se utilizar a razão e estabelecer os princípios que demonstram a realidade da pessoa existindo em seu princípio vital espiritual, que é a alma humana, após a morte.

A existência ontológica e intersubjetiva não é a mesma que a existência objetiva. A pessoa deixou de existir permanecendo a alma, em sentido objetivo.

Exemplo do ponto não pode ser usado em comparação com a existência de uma pessoa, pois se o ponto existe idealmente e não é o que é representado graficamente por meio físico, isso não é o que ocorre com uma pessoa, pois do contrário a sua existência real, empírica, física, seria um reflexo da sua existência ideal, e sua existência no mundo seria menor que a existência na ideia.

Menor por estar fadada ao desaparecimento, enquanto a ideal seria permanente, intocável. Ou seja, haveria uma pessoa x ideal, sem consciência, sem estrutura alguma, sem existência real, a não ser a imaginária, e a mesma pessoa na realidade tangente apenas representando essa idealidade, o que é um absurdo.

Na verdade, o que se está tentando substituir com esses raciocínios é a existência da alma, que é parte da pessoa que sobrevive após a morte da mesma. E também a existência ideal da pessoa na mente de Deus, antes de criá-la, e sua existência real na alma, depois da morte. Não se trata de uma existência subjetiva, nem intersubjetiva, mas objetiva, real, embora espiritual.

Vejamos o caso ainda mais. Um ponto existe. Existe na ideia. Na realidade ele pode ser desenhado. Após ser apagado, continua a existir, pois não era o próprio ponto, mas apenas a representação do ponto.

Uma pessoa existe. Na realidade, essa pessoa nasceu e morrerá. Após a morte, continuará a existir na estrutura ontológica, na intersubjetividade.

Mas, o ponto existe idealmente, e a pessoa, antes de vir à existência estava na ideia de quem?

Uma imagem da pessoa representaria a pessoa, assim como o ponto desenhado representaria o ponto ideal. No entanto, o ponto desenhado está na realidade como a pessoa viva, e não a imagem daquela pessoa viva. Assim, o ponto ideal continua intacto após o apagamento do ponto no desenho.

Em relação à pessoa, que é real, física, empírica, após a morte nada idealmente dela está intacto, pois nem existia. E na realidade também, nada continuou intacto, pois houve corrupção e a alma se separou.

Isso acontece porque não é possível que o ser contingente exista sem ter sido criado. Primeiro, porque sem o Criador não havia ideia daquela pessoa. Segundo, porque na realidade essa pessoa existe, está viva, e na morte deixa de existir fisicamente. Não tendo idealidade anterior, pois não foi criada por seres humanos, nem em suas intersubjetividades, não existe desse modo, ficando a existir no modo criado após sua existência na intersubjetividade, na memória. A ideia criada da mesma veio após a sua existência e não antes. Por isso, o exemplo do ponto é bastante imperfeito.

Ainda, a ideia da pessoa está na memória e não é uma criação intersubjetiva, mas um dado da realidade que permaneceu gravado. Por fim, a existência intersubjetiva da pessoa é apenas a recordação da realidade objetiva da mesma. É o mesmo que lembrar de qualquer outra coisa, até mesmo de uma coisa imaginária. Não há nesse ponto a explicação da realidade da pessoa em si.

Portanto, o exemplo do ponto não é idêntico, e a intenção de provar a realidade intersubjetiva como criação de Deus na própria intersubjetividade se mostra equívoca.

Sabemos que um fenômeno observado e não explicado, pode ser explicado por hipóteses, já que existe algo que explique o fenômeno e é necessário, para conhecê-lo, partir de raciocínios válidos. Esse algo existente é necessário, por conta do efeito que é real.

Isso estaria na antropologia, sociologia, filosofia: há realidade não observáveis diretamente. Os efeitos são mensuráveis. Para explicar os efeitos observados, é possível retroativamente afirmar o que deveria ser para que o efeito exista.

Essa realidade estudada não tem realidade física, mas tem consequências na mesma, e portanto ela existe objetivamente.

Há realidades que são empíricas, mas não observáveis diretamente. Deus seria essa realidade, com seus efeitos claros, na sociedade religiosa, por exemplo. Deus não seria a estrutura da realidade no seu aspecto mais fundamental, mas é uma realidade intersubjetiva, porque faz diferença, uma diferença empírica, que depende da coletividade.

O filósofo fez tudo isso para provar que Deus não é a realidade objetiva, mas criada intersubjetivamente. No entanto, partindo da sua própria apresentação, com o rigor científico que o mesmo advoga, vejamos:

É fácil ver que o mundo é uma realidade. O mundo é um efeito. Não é razoável crer que o mundo exista desde sempre com toda a complexidade existente, com suas leis objetivas. Postular isso, é apenas uma afirmação, sem prova racional, o que não é nada filosófico.

O mundo, portanto, é o efeito. Para explicar o mundo há que retroativamente encontrar o que poderia tê-lo feito vir à existência. Essa realidade que, não é empírica no sentido material, pode ser conhecida pelos seus efeitos, no mundo que existe. Essa realidade é Deus.

O filósofo parte de outro pressuposto. De fato, olha para a intersubjetividade e vê os efeitos da humanidade no mundo realizados a partir da ideia de Deus e conclui que Deus passou a existir dessa ação intersubjetiva. Mas não explicou a origem da própria humanidade, como feito acima, onde há explicação de toda a criação.

Com isso, se tenta provar a realidade de Deus que transcende a individualidade e subjetividade, ao mesmo tempo que provoca efeitos empíricos no mundo. Tenta-se com isso entender o que é do espírito agindo na realidade empírica.

O problema é que o raciocínio parte do dogma de que o cérebro produz tudo, ainda que reconhecendo que a criação intersubjetiva supera os limites das ideias criadas pelo cérebro. Como pode algo produzido humanamente superar os limites das individualidades humanas, se isso não for espiritual?

Deus seria, de algum modo, independente do ser humano, ao menos subjetivamente, mas estaria acima do controle da mente subjetiva e agiria no mundo material por meio da ação da coletividade humana. Com isso, tem-se a ideia do poder de Deus e de sua ação no mundo. Apenas os meios usados para estabelece-las são errôneos.

Entretanto, esses lampejos da verdade estão no meio de uma estrutura frágil e equivocada de pensamento, pois pressupõe que a humanidade tenha sido originada pela força do acaso, quando na verdade essa mesma realidade humana deve entrar no problema da busca da sua origem. E essa origem, como mostrado acima, é Deus.

 Deus está acima da humanidade, influencia toda a realidade, e assim aparece nas leis naturais, morais, éticas, e é percebido na intersubjetividade. O método filosófico para provar a existência de Deus é eficaz.

 

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=srYsJuPoQzk.

 

Gledson Meireles.

sábado, 28 de março de 2026

NISTO CREMOS: estudo do capítulo 7, sobre a natureza da humanidade

Estudo do capítulo 7

A natureza da humanidade

do documento da Igreja Adventista do Sétimo Dia

NISTO CREMOS

 

Caro leitor, o presente artigo é o início de um estudo dos documentos Nisto Cremos e do Catecismo da Igreja Católica sobre a natureza humana. O estudo será dividido em duas partes.

O comentário abaixo é a primeira parte, que resumirá o ensino expresso no documento Nisto Cremos, seguido de um comentário que tem o objetivo de fornecer a resposta fundamental ao que o tema aborda e convidar para o estudo do tema, para maior aprofundamento. Essa é a primeira parte.

A segunda parte será o estudo do tema no Catecismo da Igreja Católica, onde poderá ser visto como o mesmo é abordado na doutrina católica, qual a linguagem empregada, quais os pressupostos utilizados e como é feita a fundamentação da doutrina na Bíblia.

O leitor adventista do sétimo dia poderá comparar as duas doutrinas e fazer o devido estudo bíblico para confirmar o que cada uma ensina. Certamente ficará surpreso ao entender qual a verdadeira doutrina sobre a alma na Igreja Católica Romana.

 

A natureza da humanidade

Nisto Cremos, capítulo 7


Serão resumidas algumas partes e depois comentadas.

 A origem do homem. Muito interessante o documento adventista Nisto Cremos, quando fala de um concílio divino realizado no qual há a criação do homem, citando Gênesis 1, 26. É o propósito de Deus Uno e Trino criando o ser humano.

Depois disso, o documento afirma a criação do homem a partir do “fôlego de vida”, que transformou o homem em criatura vivente.

A afirmação de que existe uma clara descontinuidade entre os seres humanos e o reino animal é importante no debate. Adão é filho de Deus (Lc 3, 38).

Comentário: Entendamos melhor o que a IASD ensina sobre o fôlego de vida e a descontinuidade entre seres humanos e animais.

Esse fôlego de vida, para os cristãos adventistas, é apenas a energia que vivifica o ser humano, não sendo uma parte imaterial do mesmo. Com isso, pretende ter oferecido mais uma refutação da noção de alma imortal.

No entanto, nada aqui refuta essa doutrina. O que há no documento é uma explicação do texto bíblico, no original hebraico, onde o fôlego de vida é mostrado na criação no momento em que é infuso na imagem de argila e essa se torna um ser vivo.

Para o cristão católico, crer que esse fôlego é a energia divina criadora da vida não é problema algum, e está conforme a fé católica. Assim, o cristão adventista em diálogo com o cristão católico devem ajustar esse ponto. O diálogo deve deixar clara a questão do fôlego de vida em Gênesis 2, 7 em ambos os credos, adventista e católico.

Quando se diz que há descontinuidade entre os seres humanos e os animais, de alguma forma estamos de acordo que a inteligência humana não é apenas diversa em grau em relação aos animais, mas há algo que radicalmente diferencia seres humanos e reino animal.

Esse é outro ponto em que cristãos adventistas e católicos podem dialogar e reconhecer as concordâncias.

 

A unidade da natureza humana. Nesse tópico o documento se põe a estudar se os seres humanos são constituídos de partes independentes, como sendo corpo, alma e espírito.

Comentário: a concepção de dualismo que os adventistas possuem é fundamentalmente platônica. Assim, a refutação que fazem toca diretamente a doutrina grega sobre a alma.

De modo algum é o que o cristão católico pensa sobre a alma. O adventismo acredita que a doutrina da alma no catolicismo é basicamente a mesma do platonismo pelo fato de que ambas as abordagens ensinarem a imortalidade da alma. No entanto, há algo que é preciso conhecer e que faz bastante diferença.

Portanto, o que está sendo atingido pela doutrina adventista é a noção de alma segundo pressupostos gregos, onde há independência entre corpo e alma, como sendo duas partes independentes. A doutrina católica não ensina isso.

Esse ponto deve ser bastante conhecido, pois faz diferença importante. Isso aparece diversas vezes na apologética adventista, com todos os apologistas, que creem ser a doutrina basicamente idêntica à da filosofia grega. O livro A imortalidade da alma não é lenda corrige esses pressupostos. Vale a pena todo adventista ler.

Quando Deus converteu os elementos da terra em um ser vivente, “soprou” o “fôlego de vida” nas narinas de Adão, até então um ser inanimado.

Comentário: Na verdade, a noção de que Deus converteu os elementos da terra em ser vivente é concomitante ao soprar o fôlego, que é a energia vital criadora, pois o texto bíblico diz que o Senhor soprou nas narinas e o homem tornou-se ser vivente. Foi naquele instante que isso ocorreu. Ao que parece não havia o corpo humano ainda como temos hoje, antes do fôlego de vida.

De qualquer forma, há duas etapas na criação. A primeira é a formação do corpo a partir dos elementos da terra. A segunda é a infusão do fôlego de vida. Nesse momento, quando o fôlego de vida é insuflado nas narinas do corpo formado, esse se torna alma vivente.

O homem foi formado do barro da terra e recebeu o sopro de vida e se tornou alma vivente.

A respeito do sopro do todo-poderoso, Jó 33, 4, a comparação feita é a de correntes de eletricidade fluindo através de componentes elétricos que convertem um quieto e inanimado painel de vidro, feito de armação de madeira e metal, em uma sucessão de cores na tela do televisor ligado. “A eletricidade traz som e movimento” ao que antes não tinha essas condições.

Comentário: O corpo humano recebe o fôlego e torna-se vivo. Leiamos o texto sagrado:

O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gênesis 2, 7).

Mas ainda não há explicação do que faz cada indivíduo, já que todos possuem uma energia comum. Que energia individual existe em cada um? O que faz cada um ser uma pessoa com características individuais? A energia não faz as mesmas conexões neuronais em todos os indivíduos e não forma uma pessoa de igual inteligência, vontade, sentimentos e emoções. A energia que faz a televisão transmitir os canais é a mesma e tem o mesmo efeito em todos os aparelhos. No ser humano esse efeito pode apenas ser comparado ao da vida, e não mais quando à individualidade. Cada um tem suas próprias decisões. O que mais fez esse fôlego soprado por Deus? Esse ponto deve ser refletido. É o momento em que há divergência entre adventistas e católicos quanto à natureza do homem, e aqui é visto o momento em que o adventismo tenta uma conclusão a partir do texto bíblico, que o mesmo não fornece.

Homem – uma alma vivente. Assim inicia essa parte da explicação do Nisto Cremos: “O que realizou o fôlego de vida? Quando Deus formou o ser humano do pó da terra, todos os órgãos se achavam presentes: coração, pulmões, rins, fígado, baço, cérebro, etc. – todos perfeitos, mas sem vida. Então Deus assoprou seu próprio fôlego de vida para dentro desse ser inanimado, e o homem “tornou-se alma vivente”.

A equação é: “pó da terra (elementos terrestres) + fôlego de vida = ser vivente ou alma vivente.”

A união dos elementos da terra com o fôlego de vida resultou em alma. Esse fôlego de vida é a energia que vivifica a todos, não sendo parte individual, limitado às pessoas. O termo nephesh chayyah é usado para o ser humano e para os animais em Gn 1, 20.24, 2, 19). Esse termo é expresso em grego por psuche.

O homem passou a ser uma alma vivente, e o relatório da criação não diz que recebeu uma alma, entendida como “uma unidade separada que, na criação, foi unida ao corpo do homem”.

Comentário: Nesse momento, fica mais uma vez complicada a explicação adventista de que o fôlego realizou apenas a vivificação. Antes havia uma imagem feita de argila, mas depois há uma pessoa, com todas as características de ser humano. De fato, parece mais o que o fôlego realizou que apenas dar vida. Deus criou o ser humano dando-lhe corpo e alma ao formar os elementos e soprar-lhe o fôlego. Assim, o fôlego de vida não é a alma, mas é o que fez o ser humano viver, formando algo nele que sustente a vida. Esse é mais um ponto a ser discutido entre o cristão adventista e o cristão católico. A doutrina católica parte desse mesmo texto é conclui que o fôlego de vida criador fez o corpo e alma que sustenta a vida no ser humano. E isso é evidente nos efeitos de que o homem tornou-se alma vivente.

Uma unidade indivisível. No relato da criação a Escritura retrata o homem como um todo.

O significado bíblico de alma. Nephesh pode ser pessoa ou eu (a própria pessoa). Também pode ser vida, desejos, sede das afeições. A alma é mortal nesse sentido de pessoa. No NT o Nisto Cremos enfatiza que a alma é mortal: “não é imortal, mas sujeita à morte” e “Pode ser destruída”.

 

Depois afirma que não existe na Bíblia qualquer texto que indique possiblidade da alma sobreviver ao corpo, continuando a alma como entidade consciente.

 

Comentário: Nesse ponto o documento não avalia a questão em sua profundidade, mas continua a demonstrar que o termo nephesh tem o sentido de alma e que no contexto geral é mostrada como algo mortal. Ainda não há nenhuma profundida no estudo da natureza humana, com aludido acima, quando se questiona a sede da individualidade, o que há mais que corpo e energia de vida, que caracteriza cada uma a partir da criação. Há diferenças físicas e psicológicas em todos. Não basta mostrar que o temo nephesh é alma e significa pessoa, desejos, afeições, e que pode ser destruída. Há algo não explicado quando se estuda cada texto em particular. Isso fica bem claro no livro A imortalidade da alma não é lenda.

 

O cristão católico em diálogo como cristão adventista deve chamar a atenção a esse particular, que emerge da cena da criação e não se reduz ao significado do termo alma nesse texto.

 

O significado bíblico de espírito. Ruach é a “energizante centelha de vida”. Interessante que, como citado no Nisto Cremos, em 1 Sm 1, 15 é também sede das emoções, como em Gn 34, 3 é sede das afeições, e psuche, no Novo Testamento em Mc 14, 34 indica emoções. Isso quer dizer que a Bíblia usa os termos em sentidos similares, contendo vários significados tanto em hebraico como em grego.

Afirma o Nisto Cremos que o ruach do homem é idêntico ao dos animais, citando Ecl 3, 19.

Os termos ruach e pneuma não seriam usados em referência ao homem como sendo uma entidade inteligente capaz de existir independente do corpo físico, como existência consciente.

Comentário: Aparece nesse momento uma exigência de que o termo espírito esteja diretamente associado ao homem como tendo uma entidade imaterial imortal separável do corpo. Caso não se encontre uma passagem assim, estaria provada a afirmação de que espírito é associado ao ser humano somente como energia de vida, respiração, afeição, emoção, e nada mais.

Essa forma de estudar parece ter mais fundamento na filologia do que com a teologia. Parte-se do que um termo significa na maioria das vezes e se tira daí um conclusão teológica.

Entretanto, é certo que a Bíblia diz mais sobre o espírito em relação ao ser humano do que o que o Nisto Cremos traz. Também aqui é necessário convidar o leitor a estudar o livro A imortalidade da alma não é lenda. O estudo da Bíblia revela profunda doutrina que o termo espírito revela em referência à natureza humana, e que diz respeito à parte imaterial imortal do ser humano.

 

Unidade de corpo, alma e espírito. O documento questiona qual a relação entre corpo, alma e espírito?

 

Comentário: É um questionamento válido e importante. Ao pensar que o corpo recebeu vida e se tornou alma vivente não é a única coisa que o texto bíblico ensina. Há mais que isso na doutrina bíblica. Partindo da criação, onde Deus forma o homem do pó da terra e insufla nesse o fôlego de vida, tem-se que aquele corpo formado dos elementos terrestres foi vivificado pelo fôlego de vida dado por Deus e se tornou uma alma vivente com certas características que o diferenciam dos demais seres da criação. A inteligência humana está nesse rol. O que faz no homem ter a capacidade racional que o animal não possui?

União dupla. Reconhece o adventismo que a Bíblia “não define precisamente” esse relacionamento, e por vezes alma e espírito são sinônimos.

Também cita Mt 10, 28 como um exemplo em que o Senhor Jesus caracteriza o homem como corpo e alma. Em comparação com 1 Cor 7, 34, onde São Paulo identifica corpo e espírito. Em Mateus 10, 28 a alma se refere “às mais elevadas faculdades do homem”, a mente, e em 1 Cor 7, 34 o espírito é que se refere às mais nobres faculdades. O corpo inclui os aspectos físicos e emocionais da pessoa, explica o documento.

Comentário: Essa parte é muito importante, pois a Escritura não define com precisão a relação entre corpo e alma ou corpo e espírito na natureza humana. De fato, a relação corpo-alma ou corpo-espírito é algo que deve ser buscado em toda a revelação. Se alma é em Mt10, 28 o conjunto das mais elevadas faculdade do homem, essa parte não pode ser morta. É o que diz o texto. O homem não pode matar as mais elevadas faculdades humanas, e, portanto, ela permanece após a morte, pois é imortal. É o que podemos concluir da passagem, embora o Nisto Cremos apresente doutrina que negue tal conclusão. O estudo adventista possui esse salto, conforme aludido acima.

 

União tripla. Aqui o documento trata de 1 Ts 5, 23, uma exceção, onde São Paulo fala em termos de unidade tripla. Nesse texto, espírito é “o mais elevado princípio de inteligência e pensamentos”, e a alma seria a parte que expressa a natureza humana pelos instintos, emoções e desejos. A mente, a razão influencia a natureza inferior, os impulsos. A mente do homem é conformada à mente de Deus, a razão é santificada e a natureza inferior é influenciada, e os impulsos contrários a Deus se sujeitam à vontade de Deus. (Nota 6). A alma é explicada como desejos, sentimentos, emoções. Encontra-se embasado o conceito da unidade da natureza humana.

União indivisível e harmoniosa. Então, o Nisto Cremos afirma que é claro que todo ser humano é uma união indivisível. O corpo, a alma e o espírito funcionam em íntima cooperação.

Comentário: O problema é que vemos aqui reconhecido que os termos alma e espírito possuem sentidos variados e até sinônimos.  Assim, nesse texto espírito é o mais elevado princípio de inteligência e pensamentos e a alma seria a parte dos instintos, emoções e desejos. Também há referência à parte inferior da natureza. Essa antropologia é a mesma que ensina a Igreja Católica, como pode ser vista no Catecismo, usando termos diversos e forma diversa de explicação. Não é comum na doutrina católica associar alma a instintos, emoções e desejos, como pode ser visto no estudo exaustivo no livro A imortalidade da alma não é lenda. Essa forma de explicar é comum entre os protestantes. A doutrina católica possui uma forma mais definida de explicar os termos alma e espírito, e a concepção é inteiramente bíblica.

Gledson Meireles.