sábado, 14 de março de 2026

Debate Ariel vs. Elizeu


No presente comentário o leitor verificará o que o pastor apresentou para defender sua posição sobre a idolatria, bem como seu conhecimento sobre a doutrina católica, que se reflete em sua resposta.

No início o pastor explica idolatria como culto àquilo que é visível. Mas, de fato, mesmo ao invisível pode haver idolatria, pois a latria é o culto que somente Deus pode receber. Assim, a explicação está incompleta. Entretanto, o que ficou patente foram as incoerências.

 

1)      Imagens para conectar-se com Deus. Isso não é católico

A noção que o pastor apresenta sobre as imagens e seu uso é que essas são objetos pelos quais se tem conexão com Deus. Sendo objetos não criados por Deus, mas confeccionados pelo homem, seriam proibidos.

É preciso explicar esse ponto. A doutrina católica não ensina que as imagens são para se ter contato com Deus, não são usadas para ter contato com o divino, como o pastor pensa.

Esse problema de compreensão é radical, e formula as argumentações. Se há alguém que pensa assim das imagens, está errado. O pastor pensa estar refutando uma doutrina católica, mas está apenas respondendo a algo que não é católico de forma alguma.

Imagens são representações, e recebem o culto pelo que representam, e não possuem poder algum e nem são meios de conectar com Deus e nem com os santos. São objetos de valor religioso por seu símbolo. Esse é o ponto básico, que o pastor não compreende. Passou despercebido em todo o debate.

 

2)      Encarnação de Cristo e as imagens

 

O pastor parece compreender que a humanidade viu a Deus através de Cristo. Mas acredita que a encarnação não permite imagens, que a dimensão corporal de Cristo não é de proveito para a Igreja, e que é preciso crer sem ter visto.

 

No entanto, essa argumentação é falha. A fé em Cristo existe mesmo para aqueles que o viram. Os apóstolos e discípulos viram Cristo e creram, exercendo fé. Assim, a fé em Cristo não foi invalidada pela presença dEle e também não o é por suas imagens, aquelas que O representam.

 

Tomé não havia visto Cristo ressuscitado, e é disso que a passagem trata quando o Senhor afirma que felizes os que creram sem terem visto. Todos nós não vimos a Cristo nem vimos Sua ressurreição, mas cremos. Isso é o que basta.

 

Desse modo, argumentar que imagens de Cristo não seriam permitidas porque a Lei continua em vigor e que as imagens invalidariam a fé é algo sem sentido. Primeiro, a Lei contra os ídolos é eterna, e por isso está em vigor. Mas não há proibição às imagens em si. Muito menos às imagens religiosas. É o ponto número um para entender a questão.

 

 

3)      Imagens em ambiente de culto

As imagens do Antigo Testamento como a arca e os querubins estavam no Templo, lugar de culto por excelência. Assim, é permitido o uso de imagens em ambiente de culto. A argumentação protestante cai aqui.

Quando o pastor argumenta que a confecção das imagens do Antigo Testamento é tratada na Bíblia em passagens narrativas, ou seja, supondo que não há ordem para confeccionar imagens e concluindo que as mesmas são proibidas, é também bastante falha.

Primeiro, o pastor tenta definir as imagens da arca e dos querubins para refutar as imagens cristãs, dizendo que não são imagens de quem já morreu.

Mas, quando diz que a arca representa o trono de Deus e os anjos representam aqueles que protegem a Sua santidade, está mudando de argumento de forma sutil. Está tentando justificar o uso daquelas imagens religiosas, que possuem grande significado espiritual, mas não pode negar o fato de que as mesmas existem no Templo de Deus, lugar de culto. Explicou o sentido daquelas imagens mas não pode negar que as mesmas estavam em lugar de culto. É esse o principal ponto da doutrina católica.

Quando diz que não há ordem para se prostrar diante da Arca, parece que o mesmo não conhece bem a Bíblia, pois é parte integrante da espiritualidade do povo de Deus reverenciar a arca com a prostração. É uma tentativa de refutação bastante falha. Todo o povo de Deus venerava a arca de vários modos, principalmente com a prostração.

Ainda, quando se diz que não se pode justificar algo por uma passagem narrativa da Escritura, isso é um princípio que não há na própria Escritura. O apologista católico, Ariel, mostrou bem essa questão quando apresentou a passagem em que Jesus justifica a Sua atitude por meio de uma passagem narrativa. O pastor tentou refutar explicando o contexto da passagem, mas não o fato de que a mesma é narrativa e foi utilizada pelo Senhor Jesus para justificar Sua autoridade e a permissão que os discípulos tinham para agirem como agiram.

Ou seja, a explicação do pastor sobre as imagens e a explicação do mesmo sobre a passagem narrativa foram utilizadas no lugar em que deveria haver resposta sobre os fatos: 1º - há imagens no lugar de culto e 2º - passagem narrativa é usada para validar um comportamento. Contra fatos não há argumento.

Outra questão é que o que Deus mandou fazer seria ornamento. Mas a Arca não é ornamento, mas um símbolo de verdade espiritual sublime. Ela não foi feita para ornamentar, mas para ensinar uma verdade espiritual. A Arca não é mero objeto de decoração, mas símbolo do trono de Deus, como o pastor mesmo acredita. Assim, deve sujeitar-se a mais essa refutação.

Outro ponto é que nem todas as imagens feitas foram ordenadas diretamente por Deus, mas os artistas tinham a inspiração de Deus para agirem livremente e enfeitar o templo com imagens sagradas. Imagens que serviam de ensino de verdades espirituais.

E, por fim, Josué naquele momento, em Josué 7, estava em momento de frustração, como diz o pastor, mas isso nada tem a ver com sua prostração diante da arca, ou seja, com o gesto de prostração em si mesmo, já que era o modo comum do povo de Deus de venerar a Arca da Aliança.

Quando Deus manda que Josué se levante não está ligado ao fato de que tenha reverenciado a arca, mas manda que o mesmo não fique ali parado, pois estava ali há horas, mandando-o agir conforme era o seu dever: tirar o interdito e ir santificar o povo (vv. 11-13).

Até mesmo as palavras do Senhor a Josué mostram isso, pois não questiona sua atitude para com a Arca, mas pergunta por que estava ele com o rosto por terra. E depois manda-o fazer o necessário para a santificação do povo que havia pecado.

Assim como o comportamento de Davi que comeu os pães da proposição não é norma para todos fazerem isso, mas justificou a ocasião em que os discípulos colhiam espigas milho no sábado para alimentarem-se, assim os exemplos citados da Bíblia orientam e mostram a essência do comportamento cristão de acordo com a doutrina bíblica em todos os assuntos necessários.

Quando a arca saía do templo, carregada em procissão solene, o povo devia manter certa distância. Não é uma ordem para afastar-se da arca, como se fosse uma doutrina bíblica para todos os tempos, mas uma medida de afastamento por reverência bastante profunda. Usar essa passagem simplesmente como uma ordem para afastar-se da arca é uma explicação bastante frágil. De fato, a arca era muito reverenciada, com a aprovação de Deus, por todos os fieis judeus. Desse modo, as imagens no Antigo Testamento estavam no ambiente de culto e eram veneradas.

 

4)      Sábado e Domingo e as imagens

 

O apologista católico mostrou que a autoridade da Igreja apostólica e os indícios bíblicos fundamentam a guarda do domingo e não do sábado, mas argumentou que essa mudança não está clara na Bíblia. Por que os protestantes a aceitam?

O pastor acredita igualmente que o princípio para a guarda do domingo está na Bíblia e por isso aceita essa observância, mas diz que não guarda um dia apenas, e diz que não há os princípios em relação às imagens. O argumento católico é que assim como na questão do domingo há princípios bíblicos, como mostrados acima, para o uso correto das imagens.

 

O pastor defende que não é permitido uso de imagens no culto, que as mesmas não podem ser usadas para se conectar com Deus, e que a prostração, e qualquer reverência às imagens constitui idolatria. Contudo, a Bíblia mostra que as primeiras imagens estavam no Templo, ambiente de culto, e eram muito veneradas. Ainda, em nenhum lugar há o ensino de que as imagens são usadas para conectar-se com Deus, e isso é um erro básico que o pastor acredita e que pode ser empecilho para que o mesmo entenda a verdadeira doutrina, ou seja, de que as imagens na Bíblia e na Igreja são usadas com fins de ensinar verdades espirituais.

 

5)      A imortalidade da alma

 

O tema veio à tona no debate, e o pastor crê que os santos estão no céu, sabe que há discussão no meio protestante sobre a possibilidade de que os mesmos intercedam pelos vivos, mas nega que possamos pedir intercessão aos santos. Nega também que os mesmos estejam em oração, pois crê que há somente descanso no céu para as almas. Ou seja, nem mesmo oração poderiam fazer, o que redunda na conclusão que o pastor acredita que a oração dos santos no céu seria para eles algo cansativo. Há momentos no debate em que há clara alegação de que oração, combate, etc., é cansativo e por isso os santos estão descansando.

 

O problema é que: no céu, junto de Deus, há somente felicidade. Não há cansaço. A alma, sendo espiritual, não pode se cansar. Para os que não creem na imortalidade da alma, devem estudar o tema para aprender a doutrina bíblica.

 

Enfim, essas foram as considerações sobre o que o debatedor protestante apresentou no debate sobre a Idolatria.

 

6)      A prostração

 

Primeiro, o pastor argumenta que a prostração em si é adoração. O exemplo de Naamã foi usado para isso. Ele argumenta que se Naamã pediu perdão porque iria com o seu patrão ao templo e se prostraria diante de um deu falso com ele, então o gesto em si era adoração. Mas é justamente o contrário.

 

De fato, Eliseu permitiu que Naamã continuasse a frequentar o templo a trabalho e ali prostrar-se. O pastor afirma que seria um gesto civil, social. Mas, essa explicação não responde, porque não é permitido saudar um ídolo mesmo civilmente. Assim, o pastor está refutado. Mas continuemos.

 

A verdadeira adoração começa no coração e é mostrada no ato. Se Naamã foi convertido, não mais adorava deus falso, mas apenas o Deus verdadeiro, a sua prostração, se fosse em si adoração, o tornaria idólatra. Ele não poderia adorar aquele ídolo em seu íntimo e nem prostrar-se com essa intenção.

 

Portanto, Naamã iria prostrar-se com o seu patrão no culto ao deus falso apenas como acompanhante do patrão, mas sem a intenção de adorar, o que tornava o gesto um simples gesto, sem sentido.

 

Desse modo, o gesto em si pode ter vários sentidos conforme o que é definido no íntimo do coração daquele que o faz. Naamã não mais servia ao ídolo, e sua prostração não tinha nada mais a ver com aquele deu falso.

 

Veja como a verdade é sublime.

 

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

FONTE: VÍDEO 


Gledson Meireles.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Livro: A Reforma Protestante, uma visão adventista, Glauber Araújo, 2017.

Um cristão no século primeiro, nos dias de Cristo e dos apóstolos, nos quarenta dias em que Cristo ficou na terra após a ressurreição, não tinha ainda a clareza da fé e da doutrina da Igreja como temos hoje. Também, mesmos nos anos posteriores, até o final do século primeiro.

Esse é o primeiro princípio que o cristão católico precisa ter. Os apóstolos criam em Jesus, criam em Sua obra de salvação, criam que Ele é o Filho de Deus, em unidade com o Pai, e criam no Espírito Santo prometido. Criam no Pai, no Filho e no Espírito Santo, e batizavam nesse Nome.

No entanto, se perguntássemos a eles, e aos demais cristãos, o que é a Trindade, não saberiam dizer, porque o termo trindade ainda não havia sido usado. Existia a realidade, mas não o nome. De igual modo, não havia a doutrina sobre Deus toda desenvolvida.

Os apóstolos e primeiros cristãos conheciam os familiares de Jesus. Conheciam de perto a virgem Maria, e sabiam que Jesus era seu filho único. Por isso, na cruz ela foi entregue aos cuidados do discípulo amado, São João apóstolo.

Assim, não tinham tido nenhum problema quanto a esse fato, e ninguém pensava em dizer que Maria teve outros filhos. Chamavam alguns de seus familiares próximos, criados no núcleo familiar de Jesus, de seus irmãos e irmãs, na língua aramaica, mas conheciam as verdadeiras relações parentescas desses com o Senhor.

Dessa forma, se fossem perguntados por algum desavisado se os irmãos de Jesus eram filhos de Maria, diriam que não, obviamente, pois Ele fora filho único. Essas questões não estavam em discussão no primeiro século.

São João recebeu Maria em sua casa, como mãe. Esse sentimento do discípulo amado era o mesmo de todos os demais apóstolos, que nutriam carinho especial pela mãe do Senhor. Então, todos os cristãos tinham amor filial para com a virgem Maria.

Mas, é esperado que não houve uma doutrina completa sobre a pessoa de Maria, já que não havia tido questionamentos que impulsionassem o desenvolvimento nesse campo. A realidade existia, da virgem mãe, mãe dos discípulos, e etc., mas não uma mariologia como mais tarde foi se desenvolvendo no mesmo sentido original.

O mesmo sobre o pecado original, a imaculada conceição, e outras doutrinas, que existiam em seu núcleo e eram cridas, estão na Bíblia, mas não são respondidas todas as dificuldades claramente. Os cristãos criam na santidade total de Cristo, como criam na santidade perfeita da Sua mãe Maria. No entanto, não havia questionamentos a respeito desses temas. Sabiam que Cristo é Deus, que Maria é humana, mas não havia ainda explicação da santidade de Maria, recebida por graça, desde o nascimento, ao mesmo tempo em que todos são salvos por Cristo.

Todos criam que Jesus é o Messias, o Cristo, o Filho de Deus, verdadeiro homem, vindo do céu, igual ao Pai. Mas não tinham toda a doutrina da união hipostática pronta, nem esses termos eram utilizados. Sabiam que não se podia negar que o Cristo veio na carne, mas não tinham o repertório preparado para enfrentar objeções à doutrina das duas naturezas de Cristo, por exemplo, pois essas questões feitas desse modo ainda não haviam surgido.

A respeito da justificação, também era doutrina revelada e conhecida, mas não nos termos que vieram ser desenvolvidos mais tarde. Não poderiam dizer a exata relação entre fé e obras, não podiam falar de justificação forense, como afirmam os protestantes, não tinham fórmulas prontas para explicar a doutrina. No entanto, a mesma já existia.

Se questionássemos sobre o dia de culto cristão, saberiam que se tratava do primeiro dia da semana, dia do Senhor, o dia em que reuniam-se para ler as Escrituras, fazer orações, comer do Corpo e do Sangue de Jesus, como cristãos.

Mas, se colocássemos a questão do sábado e do domingo para discussão, eles não estavam prontos a responder com todo o desenvolvimento apologético que os cristãos católicos possuem hoje em dia. Sabiam falar do sábado da Antiga Aliança como dia de repouso, hoje cumpriam as muitas prescrições legais, e sabiam do dia da ressurreição, que agora festejavam reunindo-se para cumprir o que Cristo disse: Fazei isso em memória de mim, mas não viam uma coisa contra a outra.

Assim, é preciso muita cautela quando se diz que uma doutrina não existia no primeiro século e que não está na Bíblia, porque não se encontra a mesma explícita nas Escrituras, e também não se vê a mesma claramente defendida nos padres da Igreja no período apostólico. Deve-se fazer a justa distinção entre o que é de fato um são desenvolvimento e uma ruptura.

O cristão adventista que lê as linhas acima certamente fica surpreso com o que está acompanhando e, por certo, já entrevê objeções sérias ao que está sendo apresentado. Mas, com calma verá que essas coisas são irrefutáveis.

Pois bem. O autor concorda que a Reforma Protestante fragmentou a cristandade, e apresenta dados de que há 47 mil denominações, algo que incomoda muitos apologistas protestantes. Também afirma que a reforma foi uma verdadeira revolução religiosa.

Enfim, sabendo que os adventistas do sétimo dia vieram trezentos anos depois da reforma, apresenta o livro como reflexão sobre o que une os adventistas ao movimento iniciado pelo padre Martinho Lutero.

O primeiro capítulo é escrito por Jean Rukowski. Nessa apresentação convidamos o leitor adventista a refletir mais, a mergulhar em águas mais profundas, em busca da verdade.

Rukowski afirma que a simples expressão “reforma” já indica que há algo anterior que está sendo reformado. De fato, há a Igreja Católica. Não se trata da Igreja Ortodoxa, já separada de Roma há algum tempo, nem de quaisquer outras igrejas orientais, que também se afastaram da unidade eclesiásticas em 451 d. C., nem de outros grupos heréticos que se opunham à Igreja Católica na Idade Média, como cátaros e valdenses. Nenhum desses tantos partidos estava sendo reformado naquele momento. A Reforma iniciou-se no seio da Igreja Católica Apostólica Romana, por membros insatisfeitos, em sua maioria padres.

Isso já é curioso. Deus está olhando para uma parcela importante do Seu povo. Imagine a Igreja espalhada em toda a terra, mas a Reforma inicia-se no Ocidente, naquela Igreja que tem a sede na cidade de Roma.

Ainda, todos criam que aquela igreja era a mesma que vinha dos tempos apostólicos, mas que havia abusado do seu poder, afastado da sua mensagem em vários pontos, e propunham um retorno às origens, uma volta à piedade da igreja apostólica, como afirma Rukowski.

Portanto, a Igreja Católica é a Igreja verdadeira. Os adventistas dirão que muitos dos membros verdadeiros estão no meio católico, mas que a mesma não seria a Igreja verdadeira, mas apenas uma das igrejas, a maior, a mais importante, a mais influente. No entanto, mesmo essa ideia é problemática, porque Deus estaria lidando com a maior parte do seu povo em um sistema diferente daquele que seria o verdadeiro, o que não faz o menor sentido, uma vez que o Cristianismo já tinha quase quinze séculos de existência. Assim, a tentativa de reforma da Igreja é mais um indício histórico da sua veracidade.

Gledson Meireles.