quarta-feira, 22 de abril de 2026

REAÇÃO ADVENTISTA: artigo sobre a imortalidade da alma

Na explicação do texto de Mateus 10, 28, o apologista adventista traz algumas contribuições para o entendimento da passagem que reforçam o imortalismo, ao mesmo tempo em que ajuda a entender como os mortalistas leem a passagem. No entanto, traz uma comparação que não exprime bem a doutrina do adventismo.

Aqui não está sendo dito que o mesmo não entenda a doutrina que ele mesmo crê, pois de fato entende. E é competente ao defendê-la.

Também não é dito que o exemplo é totalmente errôneo, pois em si traz verdades, mas que e incompatível com o adventismo, pois que profundamente a comparação empregada não transmite a mensagem adventista. É a linguagem bíblica que redunda em dualidade, não em monismo. Nessa comparação, o "eu" na verdade não seria parte do ser, como de fato é, e é o sentido do evangelho, mas, na comparação feita pelo apologista, e contra a sua vontade, esse eu se torna algo como "a garantia da vida eterna". Vejamos.

De fato, ele afirma que Jesus, ao dizer que alguém pode matar o corpo e não a alma está essencialmente mostrando que a alma morre igual ao corpo: “Mas a essência do texto traz justamente o ensino oposto: Jesus deixa claro que a alma pode morrer igual ao corpo.

Assim, Jesus estaria pretendendo ensinar outra coisa, que não implicaria na imortalidade da alma. Jesus ensinou que mesmo que alguém seja morto, um dia Deus o ressuscitará.

De fato, o cerne da questão ensina a salvação, mesmo dos mártires. Jesus quer mostrar que os homens não têm o poder de tirar a graça da salvação de alguém. Todos estamos de acordo com isso.

Contudo, a implicação da passagem permanece de pé. Jesus usa uma dicotomia entre corpo e alma, e o contraste mostrado é que o corpo pode ser morto por alguém e a alma não. Aqui estão duas partes da natureza humana.

Obviamente, que é levado à iniquidade, à corrupção interior, será morto também na alma, em morte espiritual. Mas isso o adventismo não ensina, pois não divide corpo e alma. Por isso, a crítica aqui.

Embora o apologista adventista não acredite que há separação entre corpo e alma, que não poderiam ser separados nunca, e que a alma morre como o corpo, sendo a alma vivente a própria pessoa, aqui, ao tentar explicar a passagem, revela um dualismo sem perceber. Dualismo nas palavras.

Por exemplo, ao escrever: “Ele ressuscitará com um novo corpo e a mesma identidade de antes. Alma, nesse texto, é um sinônimo para personalidade, identidade, “eu”.”

E prossegue: “É a parte que retornará no corpo redimido e viverá a eternidade.”

Com isso, ele, de algum modo, divide o corpo e o eu. O corpo pode ser morto, mas o eu não. E o “eu” parece sair do corpo, já que é dito que ele “retornará no corpo rediminido”. Não diz, é claro, retornará ao corpo redimido, mas que retornará no corpo.

Certamente a linguagem pretende não se confundir com o dualismo, mas esconde a dificuldade de explicar a passagem clara de Mateus 10, 28.

Obviamente, a citação de 2 Pedro 1, 13-14 requer essa expressão, pois o apóstolo fala de deixar o tabernáculo. Mas não se trata apenas de linguagem, mas de realidade. São Pedro, como imortalista, sabia que a alma consciente deixa o corpo na morte. Mas o adventista não tem essa compreensão, mas procura adequar-se à linguagem bíblica, com outra doutrina.

Ele afirma que o ‘velho corpo morre’, mas o redimido em Cristo ganha novo tabernáculo. Isso é o mesmo que ensina a imortalidade da alma. O corpo é morto, a alma não. Essa retorna ao corpo na ressurreição, no corpo redimido. A doutrina é diferente e é expressa pela mesma linguagem católica.

No entanto, na verdade, no monismo adventista, quando se diz que o velho corpo morre, significa que o redimido deixa de existir e depois será refeito, como novo tabernáculo. Não é o mesmo que a metáfora bíblica está apresentando.

Quando explica que quem mata um verdadeiro seguidor de Jesus Cristo não matou a pessoa como um todo, mas apenas o corpo, está usando de uma linguagem comum com os cristãos católicos, por exemplo, mas não partindo da mesma concepção.

De fato, na literalidade, a doutrina adventista do sétimo dia afirma que quem mata alguém mata-o totalmente, pois não há separação corpo e alma. A alma vivente morre. Para o católico, a alma literalmente não morre.

Quando se diz que: “A personalidade dorme até a ressurreição”, significa apenas que a personalidade morreu, deixou de existir, sob a metáfora do sono. De fato, para o adventismo a personalidade estava no corpo e deixou de existir no corpo e com o corpo vivo.

E conclui da seguinte forma: “Por outro lado, aqueles que conseguem corromper uma pessoa moral e espiritualmente estão levando a pessoa à morte plena no inferno. Morrerá corpo e tudo o mais, não restando nada.

Desse modo, a corrupção de alguém leva-o a morrer inteiramente, corpo e tudo mais. Mas isso é o mesmo que ocorre com o salvo antes da ressurreição, onde o mesmo morre o corpo e tudo o mais não restando nada, e que no fim Deus deverá recriar o ser total. A tentativa de afirmar que o “eu” não pode ser morto com o “corpo” não é satisfatória.

De fato, a ideia que subjaz a esse linguagem é que na morte do “corpo”=tudo não morre a “esperança da salvação garantida”, o que é outra coisa. Essa garantia que não é destruída na morte seria a “alma”. Mas o próprio adventista explica que a alma é o “eu”. Essa explicação não se adequa ao texto de Mt 10, 28.

De fato, o “eu” deixando de existir quando o “corpo” morre, é o mesmo que afirmar que o eu foi morto, já que não há como separá-lo do corpo.

O “corpo” retorna ao pó e se torna pó (Gn 3, 19) e o espírito retorna a Deus (Ecl 12, 7). Esse espírito não é o eu da pessoa, mas a energia vital. E o corpo não é mais o eu, mas a alma vivente que morreu.

A explicação do apologista ao tentar criar um “eu” que se separa do corpo não tem respaldo na doutrina do adventismo, sendo apenas uma linguagem metafórica para dizer o mesmo, ou seja, que o eu foi extinto na morte e será recriado na ressurreição para a vida eterna, por causa da promessa de Deus aos salvos. É uma falha a adequação da doutrina adventista à doutrina bíblica.

A “alma” nesse conceito aqui apresentado pelo apologista adventista seria o núcleo da personalidade, da individualidade, da consciência, que no adventismo está totalmente ligada ao corpo e funciona somente no corpo.

Uma vez que o corpo é morto, também o seria a alma. Isso contradiz o que Jesus diz: os que matam o corpo e não podem matar a alma.

Somente os condenados têm o corpo e a alma jogados no inferno. Não se trata de aniquilamento, mas de condenação.

Desse modo, a alma aqui não é o eu. Isso pode ser demonstrado, uma vez que, se na morte tudo deixa de existir, o eu morre. Mas Jesus afirma que a alma não pode ser morte. Então, a alma não é o eu, conforme a explicação adventista.

Também, ao dizer que “Jesus deixa claro que a alma pode morrer igual ao corpo”, essa explicação é evidente que para o autor adventista o “eu” pode morrer igual ao corpo.

Se a alma é o “eu” no sentido metafórico, temos que:

Os que matam o corpo não podem matar o eu, já que esse é o que tem garantida a vida eterna. Os que matam o corpo não podem tirar essa garantia. A alma deteria o conceito de “garantida da vida eterna”.

Mas há a possibilidade, nos reprovados, do corpo e da garantia da vida eterna ser jogada no inferno. Isso não concorda com o texto sagrado. Assim, essa metáfora não funciona.

Se a alma é literalmente parte outra do ser humano, temos que:

Os que matam o corpo não podem matar essa parte do ser. Na condenação, há destruição do corpo e dessa outra parte do ser, no inferno. O que faz todo sentido. A alma pode ser separada do corpo.

Por fim: fazer perecer o corpo e alma no inferno seria fazer perecer o corpo(tudo) e a alma(eu) no inferno, seria o mesmo que perecer corpo e alma no sentido imortalista.

No entanto, fazer perecer corpo e não a alma (que estaria contendo o sentido de que a morte do corpo não incluiu a condenação à morte eterna), é o mesmo que dizer: fazer perecer o corpo e a garantia da vida eterna na geena, o que é absurdo. Ninguém com garantia da vida eterna vai para a geena.

Mas, retomando ao sentido que o apologista deu ao termo em sua apresentação: "Alma, nesse texto, é um sinônimo para personalidade, identidade, “eu”.", então, como já provado, ninguém pode matar o eu. Dessa forma, o eu é imortal, e somente o "eu" dos condenados pode ser dito como "morto".

Volta-se, assim, ao ponto inicial: a alma não pode ser morta. O eu não pode ser morto.

Se no adventismo a morte é a extinção do ser, então o "eu" pode ser morto, contradizendo o que o texto sagrado diz.

Dessa forma, o conceito de alma=eu, que foi declarado expressamente, e o conceito de alma=garantida da vida eterna, que apareceu como implicação do que foi apresentado, mostram o desequilíbrio da defesa da doutrina adventista nessa passagem.

Portanto, isso está refutado.

Fonte: artigo.

Gledson Meireles.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Livro: O sábado e o domingo nos primeiros três séculos, o testemunho completo dos pais da Igreja, de JN Andrews, capítulo 4

Capítulo 4

 

São Justino é apresentado como falando do sábado com desprezo, e também não tratando da ideia de mudança do sábado. Andrews afirma que a apostasia estava avançada em Roma, ainda que os escritos sejam bem próximos do tempo apostólico, ano 140 d. C.

Quando São Justino, escrevendo ao imperador, usa “o dia do sol” para tratar do domingo, não está usando palavras cristãs, mas explicando a um pagão da forma como lhe era familiar. Da mesma forma ele se refere ao sábado como dia de Saturno. Com isso, temos que São Justino apenas está explicando a fé cristã a alguém que não tem ideia do que é o Cristianismo.

Andrews não comenta isso, e ainda utiliza a fraseologia de Justino para argumentar que o mesmo não usa da denominação cristã dia do Senhor. Por isso, o argumento é inválido. São Justino, falando com um pagão, explica da forma que o pagão entenda, e usa os nomes para o sábado e para o domingo como era conhecido no paganismo, dia de Saturno e dia do Sol. Mas, Andrews não concorda com tal resposta, e afirma que em toda a obra Justino usa dia do Sol para referir-se ao domingo.

Para São Justino o sábado era o tipo do descanso de uma vida de santidade, em Cristo, o sábado perpétuo. Andrews interpreta esse pensameneto afirmando que para Justino todos os dias são iguais. Mas, o Dr. Bacchiocchi, que estudou de perto essa questão, afirma que para São Justino o domingo é superior ao sábado. Portanto, não há esse ensino da igualdade de todos os dias, pois o domingo é proeminente.

Quando São Justino afirma das observâncias legais, dadas por causa da dureza de coração, é devido ao fato de que a Bíblia afirma que a Lei foi dada por causa do pecado. E ainda afirma que a circuncisão, o sábado e as festas não nos prejudicam.

A teologia do domingo, em São Justino, não faz dele um substituto do sábado, já que afirma que o mesmo não mais é obrigatório.

No capítulo 27 São Justino afirma que Deus, por causa da dureza de coração e ingratidão, deu a Lei e continuamente proclama os mandamentos, e acreditava que antes de Moisés não havia a lei da circuncisão e do sábado. Muitos ainda mantêm tal argumento.

E no que é mencionado da resposta de São Justino no capítulo 47, tudo se harmoniza com a doutrina católica, visto que a Lei, especialmente o sábado, pode ser guardada, contanto que não seja obrigada ao cristão. Os cristãos que guardavam o sábado eram parentes e irmãos, na opinião de são Justino. Mas esses guardavam a circuncisão, o sábado e outras cerimônias, com piedade.

Para Andrews, devemos declarar que Justino defendia a anulação dos dez mandamentos, que o sábado não era obrigatório depois de Cristo e o domingo era o dia mais adequado para adoração pública.

De fato, essa doutrina está em conformidade, em termos gerais, com a doutrina da Igreja Católica. E, por sua vez, contradiz o adventismo do sétimo dia. Portanto, sendo essa obra do segundo século, ela testemunha a favor da verdade católica, e é uma prova contra a interpretação adventista.

Vemos assim que, como São Justino foi bastante claro em sua posição quanto ao sábado e o domingo, Andrews o vê com maus olhos, como um apóstata, como alguém que considera todos os dias iguais, como um que ensina a abolição da Lei dos Dez Mandamentos, e que adota o domingo como dia de adoração a Deus. É uma forma negativa de avaliar São Justino.

Quando no capítulo 29 São Justino afirma que Deus continua a trabalhar, certamente está apenas usando o argumento de Jesus, no evangelho: “Mas ele lhes disse: “Meu Pai continua agindo até agora, e eu ajo também” (João 5, 17). Isso não mostra um desrespeito de Justino para com o sábado, e a refutação de Andrews talvez não se aplique. Somente caso Justino tenha afirmado como Andrews entendeu sua refutação seria válida.

Por fim, o ensino de São Justino em relação ao sábado é o mesmo do evangelho. Assim, também, sua posição quanto ao domingo reflete a tradição apostólica.

Gledson Meireles.

A Santificação do Domingo e o Sola Scriptura

A Santificação do Domingo

Entendendo o verdadeiro princípio Sola Scriptura

           

Para entender a observância do primeiro dia da semana, temos de recorrer ao significado do sábado, o sétimo dia. Vejamos um pouco o que diz o evangelho sobre o sábado.

 

Jesus observou o sábado perfeitamente

Em Mateus 12, 1-14 Jesus apresenta o espírito da observância sabática. Os discípulos colhem espigas de trigo para matar a fome. Jesus os apresenta como inocentes, e apresenta-Se a Si mesmo como Senhor do sábado. Após isso, Jesus foi à sinagoga e ensinou que é permitido fazer o bem no dia de sábado. Aí temos o espírito da nova lei na observância do dia do Senhor.

No evangelho de Marcos, 2, 23-28, o Senhor, que caminha pelos campos com seus discípulos, afirma que o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado (v. 27). Também, em Lucas 6, 1-5, Jesus mostra que é Senhor do sábado.

Assim, Jesus ensinou que o espírito da guarda sabática está em harmonia com a prática do bem, e que o sábado deve servir ao homem, para o seu repouso religioso.

Os fariseus ficavam perplexos quanto à posição de Jesus referente ao sábado. Afirmavam que não era permitido colher trigo, nem curar os doentes. Jesus se opôs a esses extremos. “Mas Jesus nunca profana a santidade desse dia”, afirma o Catecismo da Igreja Católica (n. 2173).

Há uma intenção de Jesus aos trazer atenção o tema do sábado. Cristo estava levando a lei à perfeição. Ensinou a verdadeira prática sabática, que deve servir ao homem, para o descanso, e para a prática do bem. Cumpriu a lei do sábado em sua perfeição.

 

A morte de Jesus na sexta-feira

“Os judeus temeram que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados” (João 19, 31).

Jesus morreu na sexta-feira e passou o sábado inteiro no sepulcro. É a forma implícita da Escritura de ensinar o cumprimento do sábado por Cristo.

 

A ressurreição no primeiro dia da semana e a reunião dos apóstolos

Jesus ressuscitou no domingo, o primeiro dia da semana (cf. Mt 28, 1-10; Mc 16, 1-10; Lc 24, 1-12 e Jo 20, 1-10).

Os discípulos estão reunidos na tarde de domingo, às portas fechadas, por medo dos judeus (Jo 20, 19).

Os dois discípulos de Emaús voltaram a Jerusalém, onde se acharam reunidos os Onze e os que com eles estavam (Lc 24, 33).

Também no domingo, oito dias depois, no mesmo lugar, os discípulos estavam reunidos (v. 26).

Nos Atos dos Apóstolos (20, 7), temos que: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite”.

Aqui os apóstolos estão reunidos no domingo para partir o pão. Ainda que o episódio tenha sido descrito para falar da ressureição de Êutico, é um testemunho de que os apóstolos se reuniam de forma especial para a celebração da eucaristia, e que nesse dia ocorriam milagres.

Em 1 Coríntios 16, 2 temos: “No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que tiver podido poupar, para que não esperem a minha chegada para fazer as coletas”.

“A coleta se fazia na reunião litúrgica dominical”, como explica a Bíblia de Estudos Ave Maria. A explicação para a coleta no primeiro dia é que esse era o dia em que os cristãos se reuniam para celebrar juntos a eucaristia.

 

Os apóstolos iam ao templo

Em Atos 2, 46 está escrito: “Unidos de coração, frequentavam todos os dias o templo...”. Isso significa que a prática dos judeus cristãos em relação ao judaísmo não havia mudado tanto. Assim, Pedro e João iam subindo ao templo para rezar à hora nona (Atos 3, 1).

No templo, os cristãos de origem judaica continuavam a rezar, a cumprir os preceitos que eram acostumados a guardar, e também anunciavam o Nome de Jesus. Eis uma diferença. Também, fora dos templos, nas casas, eles partiam o pão (cf. Atos 2, 46).

 

A fração do pão

Em 1 Coríntios 11, 20-34 temos a reunião dos cristãos em um lugar maior, sugerindo uma igreja, certamente uma casa dos mais abastados, onde todos podiam se reunir para celebrar a Eucaristia. São Paulo exorta-os a comer em casa (vv. 22.34), sugerindo que ali, naquele local escolhido, onde comporta grande número de pessoas, era o lugar para cear, comer do Corpo e do Sangue de Jesus.

Com isso, temos que a celebração da eucaristia era feita nas casas, com narrativas claras a respeito de reuniões feitas aos domingos, e que os apóstolos ainda iam ao templo.

Nenhuma observância do sábado pelos apóstolos

Em Atos 19, 8 lemos que São Paulo ensinava nas sinagogas: “Paulo entrou na sinagoga e falou com desassombro por três meses, disputando e persuadindo-os a cerca do Reino de Deus”.

No entanto, após a recusa dos judeus, ele passou a ensinar diariamente em outro lugar: “Mas, como alguns se endurecessem e não cressem, desacreditando a sua doutrina diante da multidão, apartou-se deles e reuniu à parte os discípulos, onde os ensinava diariamente na escola de um certo Tirano”.

A passagem é clara em mostrar que o objetivo de São Paulo em frequentar a sinagoga não era participar das suas reuniões na guarda do sábado como cristão, mas ali estava como judeu cristão anunciando o evangelho do Reino de Deus.

 

A santidade do domingo

Os adventistas do sétimo dia objetam que a ressurreição de Cristo e suas aparições, e mesmo as reuniões dos cristãos no domingo, não fariam do domingo um dia santificado. Por isso, rejeitam sua guarda.

No entanto, temos por certo que os apóstolos ensinaram a guarda do domingo aos novos convertidos. Também é claro que nenhum apóstolo guardou o sábado como norma para os cristãos.

Desse modo, a preparação de Cristo ao ensinar sobre o sábado, a ressuscitar no domingo, a aparecer nesse dia e deixar inspiradas passagens na Bíblia sobre essas aparições, somadas às evidentes reuniões da Igreja para celebrar a eucaristia, que é uma ordem de Jesus, sugerem  que o dia de observância para a Igreja é o domingo e não o sábado.

 

Mandamento do domingo

Os objetores exigem um mandamento claro para a guarda do domingo. Não o encontrando, recusam-no.

Parece que o princípio que se encontra subentendido é que uma vez que não houve revogação clara de cada lei antiga, essas continuam em vigor. Do contrário, haveria mandamento da nova lei explicitamente escrito.

Como visto, porém, o caso do sábado e do domingo não é tão obscuro. Há nítida preocupação em preparar os cristãos quanto à verdadeira guarda do sábado. Depois, vemos a igreja observando o domingo para celebrar o principal mistério da fé, a morte e ressurreição de Jesus, ao partir o pão no primeiro dia da semana. Some-se a isso nenhuma guarda do sábado pelos apóstolos.


Toda doutrina está na Bíblia

De forma geral, está na Bíblia, implícita ou explícita, toda a doutrina salvífica. O cardeal James Gibbons, e outros, ao enfatizar a tradição, afirmaram que a Bíblia não contem toda as doutrinas necessárias para a salvação. Mas isso é apenas questão de ênfase, pois pelo contexto temos que isso se refere à coisas explícitas que podem ser facilmente apreensíveis pelo texto sagrado. Assim, o domingo não estaria nessa ordem, pois não há mandamento explícito. Dessa forma, é necessário um estudo, como o que se esboçou acima, para compreender que Cristo deixou aos apóstolos a guarda do domingo e isso aparece na Bíblia. A Igreja o ensina de modo claro.

 

Esse tipo de Sola Scriptura é insuficiente

A Bíblia não é nesse sentido a única regra de fé, pois necessita da interpretação legítima da Igreja e da comprovação da tradição para garantir aos fieis a veracidade da doutrina.

Houve tempo em que a Bíblia não estava completa. Assim, os primeiros cristãos aprenderam a doutrina sagrada por meio da pregação da Igreja. E mais. Nem todos eram, ou são, capazes de ler a Bíblia por si mesmos, necessitando da pregação oral.

A Bíblia contem passagens difíceis. Dirão os protestantes que essas não são difíceis ou obscuras no que se refere à salvação. Mas São Pedro (cf. 1 Pedro 3, 16) afirma que as passagens difíceis que alguns mal interpretação servem para a perdição deles. Desse modo, os erros de interpretação afetam a salvação.

A Bíblia também, se fosse única regra de fé, deveria satisfazer a todas as questões de fé e moral e modo a não necessitar da intervenção e intermediação de ninguém. Mas a pregação e autoridade da Igreja são necessárias. Portanto, esse Sola Scriptura não pode estar correto.

Com isso, o cardeal Gibbons provou que a Igreja é regra de fé para a pregação da verdade de salvação. Ela está ao alcance de todos, é clara e pode esclarecer a todos os fieis, é capaz de satisfazer em todas as questões relativas à fé e à moral, pois em seu depósito interpreta na Bíblia e tradição apostólica ensinando toda a verdade.

 

Mas somente através da Bíblia temos acesso ao que foi ensinado por Cristo

De fato. Contudo, uma vez interpretando-a mal, não há como compreender o que foi verdadeiramente ensinado por Cristo. É preciso ter exata compreensão e certeza da doutrina. E a Bíblia ensina que há coisas na Escritura que são difíceis (cf. 1 Pedro 3, 16), que a Escritura não é de interpretação particular (1 Pedro 1, 20) e que é necessário guardar as tradições (1 Ts 2, 14-15). Assim, temos que, por meio da Bíblia, estabelece-se a Tradição e o Magistério da Igreja. Temos, portanto, o correto princípio Sola Scriptura.

Gledson Meireles.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Livro: Conselhos de Ellen White. Conselhos 57 e 58

Comentário do Livro: Conselhos de Ellen White..., do autor Davi Caldas. 

Conselho 57: O sábado e o Sola Scriptura. Quando se diz que a Igreja modificou o dia de guarda temos que essa mudança foi feita pela Igreja no tempo dos apóstolos, pelos próprios apóstolos, que receberam ordem direta de Cristo e/ou foram instruídos pelo Espírito Santo quanto a isso. Não se pode pensar que foi uma mudança tardia. Não foi uma ordem do papa. A guarda do domingo é parte do depósito de fé, da tradição apostólica. É o mesmo que acontece com outras doutrinas, como a do cânon, da divindade de Cristo, da trindade e outras. Todas essas doutrinas possuem base bíblica. É óbvio que em alguns momentos os defensores de uma doutrina exigem que seja-lhes mostrado um texto bíblico explícito sobre determinada doutrina para que a aceitem. Mas, como podemos ver, a Bíblia ensina muitas coisas explicitamente e outras menos claramente, mas por meio de princípios, e etc., de forma que o estudo bíblico sobre as doutrinas cristãs deve ser meticuloso, sincero, bem orientado e guiado pelo Espírito Santo, segundo a mente da Igreja, que conserva o depósito da fé. E a teologia do sábado como dia de repouso é totalmente clara, e preservada na guarda do domingo cristão. Esse ponto pode ser melhor compreendido quando pensamos nas doutrinas menos explícitas na Escritura. A trindade é uma doutrina bíblica, mantida na tradição, crida como doutrina divina e revelada, definida como tradição apostólica. No entanto, o único Deus do Antigo Testamento é agora revelado como subsistindo em Três Pessoas iguais e distintas, o que não é claro por nenhum texto bíblico, não tem o “Assim diz o Senhor”, como frase literal explicitamente escrita, mas tem o Assim diz o Senhor em princípio, como doutrina revelada na Sagrada Escritura, não possui texto explícito afirmando o nome trindade nem uma passagem clara com o conceito inteiro da doutrina, de modo que um estudioso que crê somente na Bíblia e não tem em consideração a tradição pode chegar a doutrinas divergentes, como acontece com alguns grupos. Por outro lado, os que creem na doutrina da trindade aceitam a autoridade da Igreja Católica. O documento Nisto Cremos afirma: “Embora o Antigo Testamento não ensine explicitamente que Deus é triúno, ele alude à pluralidade interna da Divindade”. É verdade, mas outros grupos que leem a Bíblia, e a aceitam como única regra de fé, discordam dessa “pluralidade interna da Divindade”, que é um dado bíblico. Isso é o mesmo que está afirmando os teólogos quando dizem que os guardadores do domingo estão sob a autoridade da Igreja Católica. Não significa que a doutrina não esteja na Bíblia, mas que, como dizem alguns, não está no sentido de não haver sido escrita de modo claro e inequívoco. Assim, crer na trindade, guardar o domingo, não seguir as leis alimentares do Antigo Testamento é admitir a autoridade da Igreja. Alguns protestantes aceitam umas doutrinas e divergem em relação a outras. O sábado é uma doutrina em que os adventistas discordam do catolicismo, não que a doutrina não seja bíblica, mas porque sua mudança não é explícita como exigem os adventistas nesse pormenor, e por sua adesão à Bíblia somente como regra de fé, e sua confirmação sobre o sétimo dia por meio da profetisa Ellen White, tal doutrina tornou-se dogma para o adventismo. Uma vez que Ellen White a confirma em seus escritos, não é esperado que a IASD tente mudá-la por meio de estudos bíblicos, nem pense que isso seja possível, pois tem a doutrina como indiscutível. O modo de entender o sábado está na Bíblia assim como está o conceito da trindade. Uma vez crendo na autoridade da santa Igreja Católica, como ensinada nas Escrituras, essas doutrinas se tornarão claras ao leitor da Bíblia. Para o cristão católico, a Sagrada Escritura é suficiente para provar a guarda do domingo. A Tradição confirma essa doutrina e prática.

A afirmação que “a igreja tinha autoridade acima das Escrituras” não é correta. O que John Eck estava afirmando a Lutero era que a guarda do domingo não era clara, e a autoridade da Igreja apostólica é que era responsável pela mudança, deixando a prática sem um escrito inspirado explícito sobre a mesma. Com isso ele provava que a autoridade da Igreja era necessária para questões de fé. Nesse ponto, a Igreja está na mesma altura da Escritura pois ensina uma verdade da Escritura. O mesmo pode ser dito das palavras de Reggio, citadas, pois Cristo não disse expressamente para guardar o domingo, mas os apóstolos praticaram esse mandamento e deixaram a observância. Isso prova que Cristo e o Espírito Santo deixou para eles essa prática. Por isso, as palavras de Jonh O. Brien são claras: “e não sobre um texto explícito da Bíblia”. Não significa que não esteja na Bíblia, pois está implicitamente. A citação do livro Ciência e Religião: ensaio de Apologia do Catolicismo, volume 2, tem o mesmo sentido. Não se trata de dizer que o domingo não tem base bíblica, mas não a tem explicitamente, de modo que os protestantes que creem somente na Bíblia não poderiam mostrar a mudança, pois não há lei clara, direta, sobre esse ponto. O que o Cardeal Gibbons afirmou é que a Bíblia não contem todas as verdades necessárias para a salvação e não prescreve explicitamente os deveres, mas ao mesmo tempo conclui que os apóstolos ensinaram a guarda do domingo, mas as Escrituras não estavam nas mãos de todos para se certificarem disso e porque não há clareza em todos os pontos nem as mesmas contem todas as verdades salvíficas. Mas nesse particular a afirmação do cardeal não é correta, pois implicitamente a Bíblia contem todas as verdades necessárias para a salvação. A Bíblia ensina a observância do domingo.

Conselho 58: Os que observam o sábado (repouso) no primeiro dia da semana podem tomar a Bíblia e mostrar que sua posição é correta. Trata-se apenas de um estudo mais aprofundado do texto sagrado. Há doutrinas que não são facilmente encontradas pelo leitor superficial. Assim o é a trindade, a divindade de Cristo, a não obrigatoriedade da circuncisão, que são doutrinas que podem fomentar discussões quando leitores não acostumados com a fé cristã vão à Bíblia e se deparam com textos isolados que podem não levá-los ao entendimento correto da doutrina. As bases para a guarda do domingo estão na Bíblia e podem ser encontradas por um estudioso atento das Escrituras. O fato do sábado ser guardado desde a Antiga Aliança é algo evidente, e está no texto dos 10 mandamentos. Mas a mudança da Lei no Novo Testamento coloca certas questões no campo de discussão para maior aprofundamento e compreensão. Uma dessas é referente ao sábado, o dia de descanso. O Novo Testamento diversas vezes traz o tema, mostrando o Senhor Jesus Cristo ensinando a verdadeira forma de observar o dia de sábado. Mas, nesse ínterim há duas possibilidades, a da reforma do sábado, onde Cristo ensina o modo correto de observar esse dia, e a substituição do dia por outro, o novo dia, feito por Deus, na Nova Aliança. É um fato que o sábado tem foco importante na doutrina do evangelho. O motivo para isso deve ser procurado. A IASD pensa que se trata apenas de uma reforma do sábado não introduzindo mudança do dia, e a ICAR sempre ensinou que de fato há mudança de dia para a observância do sábado (shabbat). A visão de Ellen White é uma confirmação do sábado do sétimo dia para a IASD. Com isso, temos clara autoridade da profetisa sobre a interpretação oficial dos adventistas, de modo que não estão abertos à mudança quanto a esse ponto doutrinal. Há alusão das discussões a respeito do sábado entre os primeiros adventistas, por volta de 1850. Isso prova o que foi mostrado acima, que a Bíblia no Novo Testamento traz as doutrinas eternas de modo perfeito, e essa transição do AT para o NT deve ser compreendida de modo profundo. Não se trata, portanto, de afirmar que o domingo não tem base bíblica e que o sábado é a forma correta e clara apresentada no NT, como o era no AT. De fato não é assim, e o irmão adventista do sétimo dia é convidado e aprofundar-se no tema, ainda que seja difícil abrir-se para essa jornada. As discussões bíblicas sobre esse assunto tendem a levar o estudioso a entender a espiritualidade do sábado, que é cumprida hoje no domingo. Com essa atividade os adventistas poderão ver o quanto os católicos são bíblicos em suas doutrinas. Essa postura no diálogo pode mudar o olhar que o cristão adventista tem para com o catolicismo.

Conselho 59: A Bíblia é nosso guia. Isso pode igualmente ser dito pelo cristão católico. Hoje muitos afirmam na apologética que a Bíblia é território protestante, como se o católico devesse evitar discussões referentes à Bíblia. Nada mais contrário à realidade. A Bíblia é terreno católico por excelência. As doutrinas que dependem da tradição para serem demonstradas estão todas em conformidade com a Bíblia. E uma vez que o adventista do sétimo dia não aceita a sagrada tradição apostólica como norma de fé, por meio da Bíblia é possível mostrar toda a doutrina e prática católica, de forma a fazer entender a profundidade da Palavra de Deus, e não deter-se apenas em leituras superficiais.

Conselho 60: A ICAR também tem essa visão da história, onde Deus está no controle. Santo Agostinho escreveu nesse sentido. Podemos dialogar sobre essas questões, principalmente ao tratarmos eventos escatológicos e ponderarmos o lugar que a ICAR tem nas profecias. Isso pode ajudar muito no entendimento da doutrina bíblica.

Conselho 61: Ellen White escreve que somente a Bíblia deve ser o nosso refúgio. É comum na Igreja Católica afirmar sempre que temos a Bíblia, a Tradição e o Magistério como fontes de autoridade. E o que a Igreja afirma quando o assunto é diretamente a Bíblia Sagrada? Para muitos protestantes, talvez a maioria, o ensino católico coloca a tradição acima da Bíblia, o magistério acima da Bíblia, e etc., de forma que a Escritura Sagrada seria, nesse caso, a menor em autoridade. No entanto, o caso não é tão simples assim. Não é como parece para os desavisados. Nessa tríade importante, quando lemos as afirmações da Igreja em referência à Bíblia, encontramos algo que os protestantes não compreendem: a Bíblia é para os católicos a única fonte de fé inspirada. Não há como acessar a tradição por meio inspirado. Ela não foi registrada por hagiógrafos. Assim, a autoridade da Igreja, que tem as luzes do Espírito Santo, que é o Senhor que guia a Igreja a toda a verdade, ela pode interpretar os dados da tradição e trazê-los à luz. Mas também não é inspirada a escrever. Ela possui a assistência do Espírito Santo para não afastar-se da Palavra de Deus. Assim, a tradição aparece nos escritos patrísticos, nos costumes católicos, na liturgia, na arqueologia, nos documentos dos sínodos e concílios, especialmente nos concílios ecumênicos, e nos documentos papais. E todas as doutrinas da tradição estão em conformidade com o texto bíblico, não podendo uma sequer estar em oposição a uma doutrina revelada. A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus. Veja o que afirma um livro católico sobre a Bíblia: “Não conseguiremos ter “os mesmos sentimentos de Cristo” (Fl 2, 5) sem ouvir, ler, meditar, estudar e conhecer a sua santa Palavra.” E, lembrando o que diz São Jerônimo, palavras que são trazidas, também, no Catecismo, quem não conhece o Evangelho não conhece a Jesus Cristo (cf. A Sagrada Escritura, coleção escola da fé II, ed. Cléofas.  No catecismo está da seguinte forma: “Porquanto ignorar as Escrituras é ignorar Cristo” (Catecismo da Igreja Católica, número 133). Não é preciso falar mais nada, por é imprescindível para o cristão católico conhecer a Bíblia.

Gledson Meireles.

domingo, 12 de abril de 2026

LIVRO: Deus é um delírio, Richard Dawkins e as cinco provas da existência de Deus e o relato da criação e a moral bíblica

As cinco vias de Santo Tomás de Aquino

Vamos analisar os argumentos do biólogo ateu Richard Dawkins contra as provas da existência de Deus, de Santo Tomás de Aquino.

Dawkins afirma que as cinco provas “não provam nada” e é fácil mostrar como são vazias. E nesse ponto reconhece ainda assim a eminência de Santo Tomás.

Diz que as três primeiras dizem a mesma coisa de modos diferentes. Todas envolvem uma regressão infinita. Ele se põe a analisar as três vias juntas.

Os que concordam com Dawkins geralmente acreditam assim, e agem de modo semelhante. De fato, ele é um mestre, um erudito entre os ateus. Muitos concordam com ele nesse ponto.

O erudito escreve que não há justificativa para afirmar que Deus é imune à regressão. E a conjuração de uma terminação para a regressão infinita seria arbitrária. Por que somente Deus não deve ser imune à regressão infinita?

Ainda assim, a terminação não seria Deus: não seria onipotente, onisciente, bom, criativo de design, nem atenderia preces, nem perdoaria pecados, nem leria os pensamentos mais íntimos.

E a onisciência e a onipotência seriam logicamente impossíveis. Assim, o big bang seria melhor explicação ou outras quaisquer para encerrar a regressão infinita. E, nisso, mostra que algumas regressões chegam a uma terminação, como cortar pedaços de carne, ou cortar o ouro até o nível de átomo, fazendo o ouro desaparecer. O átomo seria a terminação natural ao tipo de regressão exemplificado.

A terminação natural de Santo Tomás seria isso, considerada obscura. Mas o que Santo Tomás ensina sobre essa regressão não poder ser infinita é que há três coisas importantes, nas primeiras três vias, que não são iguais, mas inter-relacionadas, e mostram que o filósofo Dawkins não as entende e nem pode destruí-las.

A primeira via demonstra que Deus deve ser o ser único que Move todas as coisas pelo Seu poder e não é movido por nada. A única forma de haver o movimento no universo.

No mundo há movimento e tudo que há é movido por outro. Até o ser vivo que se move por si é movido pela energia de vida que vem da alma. O cadáver evidentemente não é movido pela alma, e, portanto, não se move mais.

Assim, para que haja movimento deve haver um motor que cause o movimento no mundo. Olhando em sentido amplo para a criação deve haver o primeiro motor de tudo. Regressando ao infinito significaria que não há começo. Não havendo começo não há primeiro motor. Não havendo primeiro motor, não há movimento algum. Mas existe movimento. Então, há o primeiro motor, e esse é Deus. É algo evidente.

A destruição do ouro não mostra como se deu sua origem. Deve haver um momento em que uma causa eficiente tenha o efeito de criar o átomo do ouro, pois o ouro não existe antes dessa partícula. Assim, para existir o ouro, uma causa é necessária.

O exemplo de Dawkins faz o contrário, partindo da destruição do elemento, através de cortes imaginários até o ponto de não haver mais aquela substância. Portanto, o primeiro corte é a causa eficiente primeira da destruição do ouro, caso isso chegue ao termo. O argumento de Santo Tomás permanece intacto.

Mas o exemplo de Dawkins não é o mesmo que a via do movimento nem da causa eficiente, digamos. De fato, o que está sendo causado é o corte do ouro em pedaços menores e não a explicação de como o elemento veio a existir.

Dessa forma, essa regressão destruidora não é o mesmo que a regressão para entender a origem do movimento por exemplo. Ainda, a regressão para destruir o ouro deve necessariamente terminar.

Ela não vai ao infinito, mostrando que o ouro tem início. Como foi feito? Que força o criou? Deve haver algo que faça uma substância passar a ser outra, ou seja, que algo se torne o átomo do ouro e desenvolva o metal. Deve haver uma causa para isso, uma causa eficiente, anterior ao surgimento do átomo. A primeira causa em toda a cadeia, levando ao máximo, deve ser o poder de Deus.

Dawkins pensa que Deus não deveria ser imune ao infinito. Então pensa que o mundo poderia ser sem princípio.

Mas exemplifica com algo que chega necessariamente ao fim, como cortar a carne ou o ouro. Algo poderia existir apelando-se à explicação através de causas eficientes ad infinitum, como o mundo físico, que deveria ser eterno sem causa alguma. Mas as provas de Santo Tomás mostram que isso é impossível. E Dawkins, sem refutar nada disso usa exemplos que mostram que de fato não conseguiu seu intento.

Ainda, afirma que crer em Deus como fim da regressão é algo arbitrário. Poderia ser o big bang ou outra coisa. De fato, parece não ter entendido as três primeiras vias.

A do movimento demonstra que é necessário o primeiro motor. De onde teria vindo a força para o início do processo do big bang? Não seria possível ad infinitum. Então, o big bang não explica, como nenhuma outra causa física.

A via da causa eficiente prova que sem primeira causa não há a última e nem intermediária ou intermediárias. Não haveria nada. Porém, o mundo existe. Então deve haver uma causa eficiente. Deus.

O que causou o big bang? De onde veio a matéria ali comprimida? Você deve refletir.

A terceira via demonstra que somente um ser deve ser necessário e que dá necessidade a todos os outros seres. Somente Deus é esse Ser.

Há coisas que podem existir e não existir. São chamadas contingentes. Não é verdade que todo ser é necessário. O que pode não existir, ou seja, o que é contingente, não existe eternamente e sem causa.

Se tudo é possível não ter existido, então houve tempo em que não havia nada. Se isso fosse verdadeiro, não haveria nada. Mas o mundo existe. Então, deve haver um ser que é necessário. É Deus, único ser absolutamente necessário e não necessita de outro para vir a ser. Se nada existisse, sem a causa eficiente não poderia chegar à existência. Então, Deus é o criador.

O argumento de grau. As coisas no mundo diferem entre si. Há graus de bondade e perfeição. O julgamento dos graus é somente possível pela comparação a um máximo. Os seres humanos podem ser bons ou ruins, e então o máximo de perfeição não está entre os humanos. Deve haver um máximo para estabelecer o padrão de perfeição, e a esse chamamos Deus. É dessa forma, aproximadamente, que Dawkins explica o argumento de Santo Tomás.

E, após isso, questiona: “Isso é um argumento? Também seria possível dizer: as pessoas variam quanto ao fedor, mas só podemos fazer a comparação pela referência a um máximo perfeito de fedor concebível. Tem de haver, portanto, um fedorento inigualável, e a ele chamamos Deus”.

Isso poderia ser feito em qualquer dimensão de comparação chegando-se a uma conclusão igualmente idiota, escreve Dawkins.

Com isso, ele termina a resposta aos argumentos de Santo Tomás. Agora, vejamos o caso do argumento acima.

Segundo Dawkins, como entre as pessoas há variação de FEDOR, por esse raciocínio tem de existir o máximo de fedor, que seria Deus, possuindo essa característica. Obviamente, ele considera isso idiota, e pensa que tal raciocínio vem da quarta prova de Santo Tomás.

E, vejamos se funciona mesmo essas comparações. Há o cheiro e o fedor. O máximo de cheiro, o cheiroso inigualável seria também DEUS.

Também nas coisas há moleza e dureza. O máximo de moleza seria um deus plenamente mole e o máximo de dureza estaria num deus maximamente duro.

Essas características estariam em deuses, a extrema moleza e a extrema dureza. A claridade máxima estaria em um deus totalmente luz e a máxima escuridão em outro deus. E assim em todas as comparações.

Continuando, em outro sentido, teríamos as comparações de perfeições de bondade e justiça. Somente um ser maximamente bom e justo possui essas duas características em grau supremo e modelo para todos. Esse é Deus.

Mas se dissermos o contrário da bondade, haveria a maldade, e assim o máximo da maldade em um ser se tornaria um deus mau.

E quanto ao contrário da justiça, o máximo da injustiça estaria num deus injusto. Assim, como não pode haver a máxima bondade junto com a máxima maldade, teríamos dois deuses, um bom e um mau, como já ensinava o maniqueísmo.

Seríamos criaturas do Bom Deus, nesse caso, pois tendemos ao bem como valor supremo, e haveria também o mau deus.

No entanto, para Santo Tomás, o Ser de Deus é a máxima perfeição. O mal é o afastamento de Deus, e não possui ser.

Da mesma forma que não existe escuridão, mas falta de luz. Assim também a injustiça. Portanto, não há lugar para a existência do sumo mal e do sumo injusto, pois não há tal possibilidade de ser na qualidade de Deus eterno.

Dessa forma, em primeiro lugar, não é toda comparação que leva à formulação da prova da existência de Deus. Deve haver comparação em cada gênero analisado.

Santo Tomás utiliza como exemplos de gradação, como o bom, o verdadeiro, o nobre e etc., sempre coisas positivas, virtudes.

E quanto às demais comparações, há o exemplo do fogo. O máximo de calor, considerado em seu tempo. Assim, o fogo é a causa de todas as coisas quentes, mas não há lugar para pensar que há um deus quentíssimo, como seria se se seguir a conclusão de Dawkins. O que há é na criação algo que é quente e considerado fonte de calor e causa de calor em toda a criação. Ou seja, não haveria calor sem contato com essa causa primeira.

Santo Tomás afirma que “o máximo em cada gênero é a causa de tudo naquele gênero” e disso o princípio geral de que deve haver “algo que é para todos os seres a causa do seu ser, bondade e toda e qualquer perfeição; e isso nós chamamos Deus.”.

Portanto, o fedor de Dawkins é algo imperfeito é contrapõe-se ao cheiro. Não pode ser o máximo de perfeição, por ser negativo, sendo assim o máximo de imperfeição, o que não pode metafisicamente comparar-se ao máximo de negação do cheiro como ser, porque não existe o mal como ser. Dessa forma, Dawkins falha em considerar o argumento tomista e está refutado radicalmente.

 

Analisemos agora duas objeções do ateísmo contra passagens bíblicas

As duas narrativas da criação. Quando a crítica do ateísmo recai sobre o texto bíblico da criação do mundo, em duas narrativas, no Gênesis, está pensando nos moldes modernos, da filosofia e cultura pós-moderna, de forma a não ver que o autor do livro compôs o mesmo com as duas narrativas, e os intérpretes antigos, durante séculos e milênios não viram os dois textos como algo contraditório. Nunca viram isso como problema. A realidade histórica transmitida no texto está posta sob moldes diferentes, e não segundo a maneira de escrever a história de hoje.

Partir daí e dizer que há contradição, e que portanto é obra humana e cheia de erros, é pensar em estar acima da compreensão que os próprios autores, mesmo do ponto de vista puramente humano, tinham de suas obras. Quando temos que são autores inspirados, a coisa fica ainda mais séria. Aliás, a objeção é fraca por desconhecer a história. É não compreender a cultura antiga e impor sobre essa o pensamento científico e filosófico dos dias atuais de forma não-crítica. É lastimável esse tipo de objeção. Não se pode julgar os textos antigos com pressupostos pós-modernos, mas compreendê-los e expor seu sentido na forma compreensível para a pós-modernidade. E o resultado disso resiste às objeções.

A moral revelada na Bíblia. Outra questão levantada no ateísmo gira entorno da moralidade dos antigos hebreus. A Bíblia não teria moral perfeita, e Deus estaria lidando como povo segundo os costumes da época, submetendo-se às contingências.

Primeiro, quando o filósofo ateu faz esse tipo de objeção, está afirmando que Deus, segundo a razão, com suas perfeições, não poderia agir de modo a expressar-se imperfeitamente, mas deveria agir perfeitamente, impondo leis e corrigindo todos os erros e equívocos, e etc.

Por trás desse raciocínio, tem-se a existência de Deus, pressuposta, e provada pelos ditames racionais, contra a revelação da Bíblia, como se as duas apresentações da divindade fossem incompatíveis.

Mas, o ateísmo nega a existência de divindades. Então não pode presumir das perfeições de Deus que a razão prova e delas formular objeções contra a revelação bíblica, mas apenas supor que entre o Deus da razão e o Deus revelado haveria incompatibilidade.

O ateu age como que usando as provas filosóficas da existência de Deus para formular objeções contra a revelação do mesmo Deus.

É como se usasse a frase: “se Deus existisse, deveria ser assim, e agir assim e assim, etc.”, mas como a Bíblia, a qual rejeita também, não traz esse modo de agir de Deus, nem essas características conforme as exigências ateístas, então parte do pressuposto que a objeção que nasce do princípio correto de Deus, e baseado na razão, contraria o dado da revelação.

Mas o próprio pressuposto está sobre nenhum fundamento, pois o ateu não crê na existência de Deus, negando os dados da razão, e por isso não creria na revelação de qualquer forma, mesmo se no cenário bíblico houvesse somente relatos palatáveis ao gosto ateu.

Seria como ter na imaginação certas características de Deus e compará-las ao que é encontrado na Bíblia e julgar os dados bíblicos pelos imaginários, o que faz pouco sentido. Se Deus, na Bíblia, se mostrasse claramente como ato puro, como sumo bem, até textualmente assim, e agisse como estão nas exigências das objeções ateístas, mesmo assim não creriam. Volta-se ao início. Aceite o que a razão determina: Deus existe. E peça a Deus a fé.

Pois bem. Considerando a crítica, essa parte do pressuposto de que Deus deveria necessariamente criar o melhor dos mundos. Como há, na realidade, sucessão e aperfeiçoamento moral, concluem que isso seria uma objeção à existência de Deus.

No entanto, é totalmente possível provar a existência de Deus pela razão, e compreender que Deus cuida do povo de forma a levar a humanidade à perfeição. Uma das notas da verdade é a evidente superioridade da moral do povo bíblico em comparação com as outras culturas da época, o que por si só é evidência de um povo que é instruído pelo Deus verdadeiro.

Não vale aquela exigência de que a revelação deveria conter todos os dados da moral desenvolvida atualmente, como a proibição da escravidão, como a liberdade religiosa, a abolição da penas de morte, etc., pois essa exigência parte do pressuposto de que Deus deveria ter feito o mundo de tal maneira e se revelado de tal forma.

Deus criou o mundo de forma que o mesmo caminha para a perfeição, e isso está de acordo com a razão, e é notável que o povo bíblico é superior na fé e na moral em comparação com os demais povos, o que também se espera do verdadeiro Deus.

Essas duas coisas andam juntas e perfeitamente são suficientes para entender a questão: Deus instrui a humanidade na caminhada rumo à perfeição moral. O povo de Deus deve ter moral mais desenvolvida que os demais. A primeira afirmação é naturalmente observada na realidade da vida humana. A segunda é um fato histórico comprovado.

Não há fábulas. A serpente fala na Bíblia. Esse animal é o que tenta a mulher. De fato, parece uma fábula para os incautos. O ateísmo utiliza dessa passagem para dizer que a Bíblia contem fábulas. No entanto, a Bíblia ensina a doutrina de diversas formas. Mesmo literalmente Deus pode permitir sua criação a agir de certa forma espetacular, como também intervém na história com milagres.

Assim, o Demônio usou a serpente para comunicar-se com a mulher criada, Eva. Em termos gerais, a serpente é o Demônio, tornando-se seu símbolo, pois esse espírito é o tentador. Não se trata de uma fábula, mas de uma passagem que expressa um fato real.

O símbolo da serpente nas culturas antigas não é o mesmo que aparece no Antigo Testamento. Há, porém, alguns pontos de contato, mas a Bíblia não tem uma teologia desenvolvida em torno do símbolo da serpente, apenas utilizando-a como símbolo de Satanás. O poder do mal, essa pessoa espiritual, é o Demônio, que age sob diferentes formas. A ação do mal é algo inegável na realidade, reconhecido em todas as religiões e culturas. Não se pode negar isso. E a forma com que a Bíblia apresenta a explicação do mal na humanidade é essa, que não pode ser refutada, não se submete a críticas irrefletidas.

O argumento da quinta via é que aquilo que não tem inteligência não pode mover-se a um fim a não ser por algum ser que tenha conhecimento e inteligência. Dawkins explica o argumento como se fosse "as coisas só podem parecer projetadas se tiverem sido projetadas". Assim, se elas não tiverem sido elas não vão parecer ter sido projetadas.

E afirma que a evolução pela seleção natural possui níveis incríveis de complexidade e elegância. Por exemplo, os sistemas nervosos que manifestam comportamentos de busca a um alvo semelhantes a um míssil guiado a calor. Tal coisa é o mesmo que argumenta Santo Tomás, pois não pode um sistema nervoso agir assim tão determinado e com precisão em uma das suas necessidades básicas se não houver uma inteligência que projetou esse sistema para funcionar assim. A prova de Santo Tomás permanece com toda sua força.

Gledson Meireles.

sábado, 11 de abril de 2026

Guilherme Freire vs Edson Toshio: a existência do mal

Comentando o livre-arbítrio em uma objeção ateísta


De forma resumida, o ateu acredita que é capaz de raciocinar criticamente na sua interpretação da Bíblia e provar que Deus não existe porque o mal existe. Vejamos um pouco sobre o livre-arbítrio é a falha que está por trás da aparente erudição do argumento ateísta.

Sabemos que o livre-arbítrio explica o mal moral no mundo. No entanto, o debatedor ateu critica o conceito dando o exemplo de alguém cometendo o mal contra outro, uma vez que o mal praticado por aquele estaria sendo respeitado por Deus enquanto que o mal sofrido pela outra pessoa significaria que Deus não estaria respeitando o livre-arbítrio da mesma. Nesse sentido, o livre-arbítrio seria sempre o do mais forte.

A objeção acima é sutil é cheia de problema. O livre-arbítrio é a capacidade moral de agir ou não agir. Nesse caso acima, aquele que age mal teria o livre-arbítrio e a vítima não. Portanto, o livre-arbítrio citado aí não é o mesmo que a doutrina cristã católica ensina. Esse é um problema em debater e usar um termo  com sentido diverso sem saber ao certo o que se está debatendo e contra o que exatamente. De fato, isso não é livre-arbítrio.

Em segundo lugar, a ideia subjacente na consciência do ateu exige que para a existência de Deus, que é o Sumo Bem, não poderia haver o mal na criação. Assim, o livre-arbítrio de uma pessoa deveria ser garantido como o da outra, e assim de todos, segundo o conceito advindo do exemplo acima, e desse modo, é óbvio que a conclusão é a extinção do livre-arbítrio.

Uma vez que alguém deseja fazer algo que ultrapassa a liberdade de outro, ele não poderia fazê-lo, pois estaria limitado a isso pelo poder de Deus que garantiu as leis naturais impedindo que um sofresse a ação advinda da liberdade de outro. Nessa situação, o mal deixaria de existir e somente a Vontade de Deus prevaleceria. É o mundo desejado. Como o ateu não crê em Deus, uma razão para isso seria a existência do mal.

Nesse caso, o ateu está raciocinando segundo as exigências da razão de que a justiça perfeita é condizente com a existência do Bom Deus, e a existência do mal incompatível com a natureza divina.

Com isso, tem-se que no íntimo da consciência o ser humano rejeita totalmente o mal e deseja justiça contra ele. É o instinto natural que diz que o mal deveria ser extinto. Dessa forma, isso é usado pelo ateísmo como argumento contra o Sumo Bem.

Uma vez que a realidade demonstra que há o mal, nessa lógica, por meio de um raciocínio mais complexo, Deus não deveria existir. No entanto, a simples existência do mal não é categoricamente uma prova da não existência de Deus.

De fato, como explica o catecismo, Deus criou o mundo em estado de caminhada, permitindo o mal físico, por exemplo. E, com isso, a existência do mal moral advém da liberdade já tratada acima, o que é plenamente compreensível.

Desse modo, temos que o ateu raciocina segundo a exigência da razão de que haja o bem, na criação como obra de um Deus bom, mas não pode prescindir da realidade de que esse dado da consciência é superior à natureza humana, não é uma opinião individual, mas um apelo da razão universal, de modo que há uma origem desse senso de justiça, que só pode ser Deus, e somente Ele pode dar a resposta.

Nisso, temos que Deus, sendo Bom e Todo-Poderoso pode acabar com o mal, e o fará, de modo a cumprir as exigências da Sua justiça que é refletida na mente humana.

Assim, temos que o desejo de justiça não é algo que meramente existe e não tem outra finalidade, como seria em um mundo sem Deus. Nesse caso, esse senso de justiça seria vão, já que todos esperariam uma vida imanente que terá um fim e toda a injustiça não terá remédio algum. O acaso seriar a explicação e a esperança de algo melhor seria pura ilusão. Mas o acaso não explica nada, e a ilusão não podes ser radicada em um instinto tão forte.

Entretanto, na fé cristã, fundamentada na razão, temos a promessa de que essa exigência da justiça perfeita será cumprida por Deus totalmente, de modo que não é um senso sem sentido, mas que indica sua futura realização. E isso só pode ser realizado por Deus.

Sendo assim, o raciocínio usado contra a existência de Deus por causa da existência do mal é algo que esconde a esperança de que o mal não exista e que o mundo seja bom e a vida feliz, onde todos ajam segundo uma Vontade que não permita o mal em nenhum sentido, e mais, de que isso será possível, o que somente Deus pode fazer. Temos assim a refutação radical da objeção ateísta por meio do problema do mal.

Com efeito, o ateu raciocina segundo as leis naturais do pensamento, onde a bondade de Deus exige a bondade de tudo. Doutro modo, não poderia formular nenhuma objeção pelo problema do mal.

Não pode, porém, entender que Deus, em Sua sabedoria, pode criar um mundo em vias de perfeição, onde a existência do mal é possível e permitida, e somente possível porque é permitida, mas que no fim tudo se conformará à natureza de Deus, o que está refletido nos raciocínios acima, que revelam o desejo último de que somente exista o Bem e a justiça seja plena. Isso é filosofia, pois segue os rumos da razão, e não abraça a desistência de pensar.

A própria existência do ateísmo mostra o livre-arbítrio em ação. O homem decide não crer por certos motivos.

O ateísmo raciocina segundo o senso de justiça.

Acredita-se, talvez, que esse senso seja natural e proveniente do acaso.

Com isso, seria um senso de justiça inexplicável e insaciável, já que a curta existência humana não daria nenhuma expectativa de que o mesmo pudesse ser satisfeito.

O cristianismo, por sua vez, como ensina a Igreja Católica, seguindo os ditames da razão e da revelação, crê em Deus, bom e todo-poderoso.

O senso de justiça é algo que está na natureza criada por Deus.

A justiça de Deus será manifestada no fim, e todos viverão em Deus, quando tudo estiver a Ele submetido.

Isso explica que o mal é passageiro, que a consciência moral não é vã, e que esperamos o fim do mal e a vida eterna em felicidade.

Aquilo que o ateu pensa do que deveria ser a criação é o que está na promessa de Deus para o reino eterno, onde tudo será bom e justo, onde Deus será tudo em todos. Homem busca a Deus.

Gledson Meireles.