O Sábado na Igreja Apostólica
Alberto Timm acredita que há várias evidências da observância do sábado no Novo
Testamento. Essas passagens serão estudadas pormenorizadamente para entender o
argumento adventista do sétimo dia.
Em
primeiro lugar a evidência estaria relacionada ao exemplo de São Paulo e seus
companheiros. O exemplo de São Paulo confirmaria que, assim como Jesus, ele frequentava
a sinagoga nesse dia.
A
evidência seria que em Lucas 4, 16 Jesus “Entrou
na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume”. Essa expressão “segundo
o seu costume” indicaria o mesmo que era praticado por São Paulo quando em Atos
17, 2 pode ser lido: “Paulo dirigiu-se a
ele, segundo o seu costume, e por três sábados disputou com eles”.
Então,
textualmente, teríamos que Jesus tinha o “costume” de ir à sinagoga no
sábado assim também São Paulo frequentava a sinagoga “segundo o seu costume”.
Entretanto,
em Atos dos Apóstolos, a passagem de Atos 13, 14.42.44 seria exemplo de ao
menos dois sábados guardados por São Paulo e seus companheiros, a de Atos 17, 2,
onde São Paulo e Silas vão três sábados à sinagoga e Atos 18, 4.11 onde São
Paulo frequenta a sinagoga todos os sábados durante um ano e seis meses.
Assim,
Alberto Timm afirma que o motivo de São Paulo ir às sinagogas não era apenas
evangelístico, mas também litúrgico, pois ele mantinha o costume mesmo onde não
havia sinagoga, como em Atos 16, 13. Esse fato sugere “uma reflexão espiritual condizente com a observância do sábado”.
Pois
bem. São Paulo ia à sinagoga aos sábados como cristão para participar da
liturgia e cumprir o mandamento, e não apenas para evangelizar. Esse é o
argumento de Alberto Timm. Abaixo será feito um estudo para analisar o
argumento.
Primeiro,
é um fato que Jesus os apóstolos guardavam o sábado, que era o dia de guarda em
todo o Antigo Testamento para todos os judeus. Por isso, é um fato que Lucas 4,
16 afirma do costume de Cristo de ir aos sábados na sinagoga para ali cultuar a
Deus.
No
entanto, a frase “segundo o seu costume”,
em Atos 17, 2, está em outro contexto. A passagem literalmente pode ser vertida
assim: “De acordo com, agora, o costume,
com Paulo, ele foi a eles, por sábados três ele disputou com eles à base das
Escrituras”.
Conforme
a tradução da Bíblia Ave Maria, o costume dito no texto é dirigir-se aos judeus
para pregar o evangelho. A informação sobre o costume é ir ter com eles, e
depois, após a conjunção “e”, o texto continua: “e por três sábados...”, mostrando
o período em que isso ocorreu.
Então,
não está escrito que São Paulo tinha o costume de ir às sinagogas para cumprir
o mandamento do sábado como obrigatório para o cristão. Está escrito, antes,
que ele tinha por costume ir aos judeus para disputar sobre o ensino das
Escrituras com eles e, aos sábados, debatia com eles, pois era nesse dia que os
mesmos se reuniam.
Ainda
que São Paulo fosse à sinagoga segundo o seu costume, isso não diz respeito ao
seu ensino de que era necessário ir à sinagoga aos sábados. De fato, ele
cumpria a lei como judeu, mesmo depois de convertido a Cristo, e ia ao templo fazer
as orações, fazia votos, participava das festas judaicas, circuncidava, quando
era necessário, e, também, obviamente, guardava o sábado.
No
entanto, não fazia isso para obrigar os cristãos vindos de outras culturas, mas
apenas como costume judeu. Ele não ensinava os convertidos a guardar o sábado,
guarda as festas, fazer votos e sacrifícios, ir ao templo, etc. De fato, quando
ia ao templo não levava nenhum cristão de origem gentia (Atos 20, 28). Isso é
evidente de que não ensinava os cristãos gentios a guarda da lei, incluindo o
sábado.
Desse
modo, logo após o concílio de Jerusalém, que havia decidido não impor a
circuncisão como requisito de salvação aos cristãos não judeus, ele circuncida
São Timóteo, que era filho de mãe judia e pai grego, mas o faz “por causa dos judeus daqueles lugares, pois
todos sabiam que o seu pai era grego” (Atos 16, 3).
Isso
significa que mesmo pregando que não havia mais a necessidade da circuncisão,
os judeus teriam dificuldade em aceitar a pregação de um não circuncidado, e
por isso prudentemente São Paulo preferiu circuncidar Timóteo.
Pode-se,
com esse exemplo, vislumbrar a guarda do sábado por São Paulo. Quando o mesmo
cumpria práticas judaicas não era como exigência cristã, mas para não ofender
aos judeus que ainda eram apegados à lei, e com isso facilitar a evangelização.
Assim, o exemplo da circuncisão de Timóteo e as idas ao templo, mas nunca entrando
no templo com um não judeu.
O
texto de Atos 13, 14 afirma que Paulo e seus companheiros entraram na sinagoga
e sentaram. Então, apresenta São Paulo pregando o evangelho naquela sinagoga.
São
Paulo e São Barnabé foram enviados a pregar. Isso ocorreu em momento de culto,
que, diga-se de passagem, provavelmente foi feito no domingo (cf. Atos 13, 2).
Assim,
no verso 5 está escrito: “Chegados a
Salamina, pregavam a Palavra de Deus nas sinagogas dos judeus.” O contexto
do capítulo é o envio para a pregação da Palavra de Deus aos judeus.
Então,
os judeus pediram a Paulo que voltasse à sinagoga no sábado seguinte. Esse é o verso
42. Em Atos 13, 44 é mostrado como isso ocorreu: “No sábado seguinte, afluiu quase toda a cidade para ouvir a Palavra de
Deus”. Novamente o contexto da pregação da Palavra.
Após
a rejeição dos judeus, São Paulo e São Barnabé vão anunciar a Palavra de Deus
aos pagãos (Atos 13, 46).
O
mesmo contexto explica Atos 16, 13. Em Atos 16, 9 São Paulo tem a visão de um
macedônio rogando auxílio. Com isso, entendeu que Deus chamava-os para pregar o
evangelho na Macedônia.
Nesse
contexto, após dias na cidade de Filipos, São Paulo e São Timóteo foram no
sábado onde perceberam haver oração. Era perto de um rio. Ali se assentaram e
pregaram o evangelho. Batizaram Lídia e sua família naquele rio (Atos 13,
14-15).
Em
Atos 18, 4 lê-se que “Todos os sábados
ele falava na sinagoga e procurava convencer os judeus e os gregos”. Após a
rejeição dos judeus “ele, sacudindo as
vestes, disse-lhes: “O vosso sangue caia sobre a vossa cabeça! Tenho as mãos
inocentes. Desde aogra vou para o meio dos gentios” (Atos 18, 6).
É
certo que não voltou às sinagogas ali, e não pregou aos gentios que o dever de
reunir-se aos sábados.
Entretanto,
em Atos 19, 8-10, vemos que São Paulo prega sobre o Reino de Deus na sinagoga
por três meses. Mas, devido ao endurecimento e incredulidade dos judeus, passou
a reunir-se à parte, todos os dias, na
escola de Tirano (v. 9).
Então,
é evidente que São Paulo, São Barnabé, São Silas, etc., entravam nas sinagogas
para pregar a Palavra e o Reino de Deus e não com motivos litúrgicos.
Quando
isso não era mais possível, partiam para os pagãos e escolhiam outro lugar para
as reuniões de ensino, que não eram mais feitas aos sábados, mas segundo a
disponibilidade, como diariamente.
Desse
modo, o costume de São Paulo tem a ver com a pregação aos judeus. O contexto
dessas passagens era a pregação da Palavra de Deus. Em nenhuma delas é ensinado
que São Paulo e seus companheiros guardaram o sábado como prática cristã obrigatória,
e nenhuma os apresenta ensinando essa prática na igreja.
a) A expressão
segundo o seu costume diz respeito ao costume de pregar a palavra aos judeus.
b) Todas as vezes em que São Paulo é mostrado nas sinagogas é com o objetivo de evangelizar.
É evidente que o mesmo não ensinou o sábado aos novos cristãos, assim como não ensinou a circuncisão.
A
segunda evidência apresentada por Alberto Timm é que a condição para os judeus
se tornarem cristãos era a aceitação de Jesus Cristo, não incluindo a aceitação
do domingo no lugar do sábado.
Os
exemplos são Atos 2, 37, da conversão do das pessoas em Pentecostes, Atos 8,
36.37, do eunuco e Atos 16, 30.31, do carcereiro.
No
entanto, também nessas passagens não é dito que não devem circuncidar-se, o que
é claramente ensinado no Concílio de Jerusalém. Portanto, não há evidência
alguma de que os cristãos deveriam continuar guardando do sábado.
A
terceira evidência seriam as discussões no Concílio de Jerusalém, que não
tratou da guarda do domingo porque não era um ponto em disputa. Os apóstolos
não ensinavam a circuncisão, mas permitiam que fosse feita em casos como o de
Timóteo. Também não ensinavam que os cristãos deviam orar no templo, mas iam ao
templo todos os dias. Da mesma forma, não ensinavam o sábado, e reuniam-se aos
domingos, embora pudessem frequentar a sinagoga aos sábados e pregar o
evangelho. Não havia uma tensão entre a guarda do sábado e do domingo.
A
quarta evidência estaria relacionada às declarações de São Paulo no contexto do
seu julgamento, onde o mesmo afirma não ter pregado contra a lei, contra o
templo, contra César.
Porém,
pode-se contra argumentar, pois é certo que São Paulo não ensinava mais a
circuncisão, e, como foi definido no concílio, a circuncisão não poderia ser
realizada para fins de salvação, pois separaria de Cristo. Em geral, não era
praticada pelos cristãos.
No
entanto, ele mesmo não pregava contra a circuncisão, pois essa era proveitosa
para os judeus, em todos os aspectos, como ensina em Romanos 3, 2.
E,
em certos casos, para não escandalizar, praticou a circuncisão, como no caso de
Timóteo, e submeteu-se a cumprir votos para testemunhar sua paz com a fé de
Israel: Então, Paulo acompanhou aqueles
homens no dia seguinte e, purificando-se com eles, entrou no templo e fez aí
uma declaração do termo do voto, findo o qual se devia oferecer um sacrifício a
favor de cada um deles (Atos 21,26). Isso ocorria por causa dos judeus, que
abraçavam a fé sem abandonar seu zelo
pela Lei (Atos, 21, 20).
O contexto inteiro mostra que o intuito era fazer crer que São Paulo não pregava contra a Lei aos cristãos convertidos de origem judaica e que ele mesmo praticava a Lei.
Deviam saber que não era verdade que o apóstolo pregava o abandono da lei aos judeus convertidos, como a circuncisão e os costumes mosaicos.
É evidente que a pregação sobre a liberdade em relação à Lei era direcionada aos gentios e não aos judeus, que podiam cumprir os preceitos da lei no espírito do evangelho sem problemas.
Foi vedado, porém, pelo Concílio de Jerusalém, a ensinar a obrigatoriedade da Lei aos conversos provenientes do paganismo. E, pois, evidente, que isso não era exigido dos que creram dentre os gentios (Atos 21, 25). Assim, a mesma prudência era tida com relação ao sábado.
TIMM, Alberto R. O Sábado na Bíblia: Por que Deus faz questão de um dia. CPB: Tatuí, SP, 2023.
Gledson
Meireles.