domingo, 8 de fevereiro de 2026

Livro: Os batistas e o resgate da tradição cristã, em direção a uma catolicidade batista, comentário do cap. 9

Comentando: Capítulo 9

Batistas, a ceia do Senhor e a tradição cristã

Ernest A. Payne afirmou que entre os batistas não havia unanimidade quando à Ceia do Senhor, e que não existia uma tradição dominante. Essa afirmação será confrontada por Michael A. G. Haykin, que afirma ser “pouco preciso” a conclusão de Payne e também que tal posição deve ser “seriamente considerada”.

Para nós cristãos católicos, que temos uma tradição milenar, e que essas questões foram debatidas ao longo dos séculos, podendo ser definida no século XIII, ainda que outras tantas divergências tenham surgido após essa definição, nós podemos ficar tranquilos quanto à precisão e veracidade da doutrina clara da eucaristia. Entre nós há unidade e a tradição é clara.

No entanto, para os batistas, que rompem com a tradição no sentido de ter o texto bíblico como autoridade única e final em matéria de fé, lendo os padres da Igreja, concílios e etc., e aceitando somente o que a interpretação vigente na denominação aceita, tem-se que tal opinião de renomados historiadores de que não há unidade de fé entre os batistas ao longo dos séculos de sua existência, que é relativamente recente, do século 17 ao 21, é mais um ponto negativo para essa tradição.

De fato, quanto tempo tivemos para definir questões cruciais para a vida cristã, e uma denominação surge em cena e reinventa a doutrina com intuito de buscar resgatá-la.

À primeira vista isso já parece fora daquilo que Jesus prometeu aos apóstolos, de que o Espírito Santo guiará a Igreja para toda a verdade. Mas no século 17 a questão da eucaristia já havia sido esclarecida satisfatoriamente, pois a Igreja Católica havia trabalhado para isso, em muitas ocasiões, inclusive no Concílio de Trento. Assim, não é prudente abraçar a decisão de um grupo cristão dissidente que destoe da tradição cristã apostólica.

O padre Zwínglio deixou a Igreja e ensinava que a ceia era um memorial. Debates recentes mostraram que na sua opinião a ceia era também algo mais. Disso podemos esperar, já que um padre que cria na transubstanciação e conhecia a grandeza dessa doutrina certamente preservou algo dela.

No entanto, a ideia básica de que a Ceia era um memorial apenas dominou a fé de muitos cristãos dissidentes, e os batistas abraçaram essa doutrina, no século 19. Assim, um padre cristão católico diverge da Igreja e influencia uma tradição cristã protestante surgida no século dezessete.

No século 19 a doutrina batista predominante era zwingliana, ou seja, os elementos da ceia do Senhor eram meramente memoriais.

Haykin mostra que antes dos batistas havia prevalecido no Protestantismo a visão de João Calvino, onde a ceia possui a natureza de sinais e garantia de uma realidade presente. Pela fé é transmitido o que é simbolizado na ceia, o próprio Cristo. Os elementos seriam simbólicos, mas ocorria a realidade espiritual no momento da celebração. Entre os batistas, mais tarde, a opinião de apenas símbolo prevaleceu.

Esse reviver sincero da alma...: Um texto-chave para a compreensão precisa da doutrina batista é a Segunda Confissão de Fé de Londres (1677 e 1689). Assim, temos um testemunho extra-bíblico, uma confissão de fé, um resumo doutrinal, para entender melhor o entendimento de uma doutrina bíblica em determinada denominação. Embora o documento não seja tido como infalível, ele é um testemunho, uma bússola prática, uma expressão da interpretação bíblica ali alcançada.

Assim, para entender como pensam os batistas não basta ler o que o texto bíblico está afirmando, mas ler a confissão denominacional e ver como o texto bíblico é interpretado pelas igrejas batistas. Essa reflexão é importante para entender que a tradição molda a forma de entender a doutrina.

Desse modo, para início de conversa, os cristãos batistas não possuem qualquer vantagem em relação aos cristãos católicos quando esses são criticados por aderirem à tradição. Eles precisariam provar que sua interpretação é melhor, exata e correta para substituir a doutrina católica, e mostrar que a Confissão de Fé acima citada expressa a doutrina fielmente a ponto de suplantar as definições do Concílio de Trento. Se não, deve-se continuar com a definição oficial do Concílio de Trento de 1546.

A declaração de fé batista de 1677 e 1689 tem em consideração confissões de fé presbiteriana e congregacionalista, com concordâncias doutrinárias demonstrando solidariedade fundamental com essas comunidades reformadas, como afirma Haykin.

Assim, os batistas opõem-se à doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana em união com a tradição reformada. O corpo e o sangue de Cristo estariam presentes espiritualmente “na fé dos Crentes”.

Outra observação feita por Haykin é que os batistas tratam não mais de sacramento, mas de ordenança. É uma boa observação, já que católicos, luteranos, presbiterianos e congregacionalistas não haviam se oposto ao termo. Os batistas se colocam mais radicalmente nesse sentido. Os batistas negaram até a explanação luterana. Afastam-se da tradição católica e luterana.

Nesse momento, os batistas virtualmente se unem aos reformados, na doutrina desenvolvida por João Calvino. A comunhão com Cristo, que tem o Seu corpo no céu, é feita pelo Espírito, como escreve o pastor batista Hercules Collins, que morreu em 1702.

E é citado o apologeta batista Benjamin Keach, para o qual a ceia transmite ou comunica os méritos de Cristo por meio da fé. E o ensino da Segunda Confissão de Londres é abrangente quanto à ceia: há obrigação de observá-la, ela é uma lembrança perpétua, confirma na fé nos benefícios trazidos por Cristo, nutre e faz crescer espiritualmente, para o compromisso com Cristo e comunhão com ele e uns com os outros, e etc. Isso é apenas um resumo. Vemos que a importância da Ceia é mantida entre as igrejas que se separaram da Igreja Católica, mas depois dos luteranos todos negam a presença física sacramental de Cristo.

Os batistas estavam unidos com os puritanos, e esses contrariavam o pensamento de zwínglio. Assim, os batistas afastaram-se do zwinglianismo nesse ponto, pode-se afirmar. Os batistas ainda criam na doutrina e pensamento reformado, de Calvino. Essa é a doutrina que prevaleceu nos primeiros tempos batistas.

Sua presença, que refrigera a alma. Interessante que Haykin mostra o batista William Mitchel (1662-1705) apresentando a doutrina da ceia em termos calvinistas e enfatizando o caráter memorial. Ele seguia “Calvino e seus antepassados batistas”, onde a ceia é meio de nutrição espiritual e onde há encontro com Cristo. É impressionante como o escritor batista se esforça por enfatizar que a participação do Corpo e Sangue de Jesus não é feita de maneira corporal e carnal, para negar a transubstanciação.

Anne Dutton (1692-1751) escreve que na ceia Jesus se comunica, “tendo seu corpo entregue e seu sangue derramado”, o que tem semelhança com autores católicos e que seria uma frase criticada por batistas se lida fora do contexto. Outros a criticariam de qualquer jeito. Essas observações são feitas para o leitor entender a importância do tema e a profundidade da doutrina cristã católica da eucaristia.

Também é citado o jovem batista Staveley, para o qual, pelas suas palavras, que concordam com a doutrina de Calvino, a ceia do Senhor era mais que um memorial.

Um memorial do Salvador ausente: Os batistas começaram a adotar a doutrina de que a Ceia é primária ou meramente um memorial, um ensino de inspiração zwingliana. Isso se deu no último trimestre do século XIII. Haykin cita Abraham Booth (1734-1086) falando da ceia como memorial.

A visão memorialista da ceia é reconhecida como “mais pobre”. De fato, a visão católica é riquíssima, bíblica, original. As demais vão afastando-se aos poucos, mas há teólogos protestantes que tentam aproximar-se novamente.

A mudança para o memorialismo. Segundo Michael Walker, como reação ao reavivamento do catolicismo inglês os batistas adotaram a visão memorialista, a partir de 1830, reforçando aquilo que iniciara com Stutcliff.

Assim, vemos que a tradição batista tem uma teologia fraca a respeito da ceia do Senhor, e com isso abre-se o apelo ao resgate da tradição cristã, pode-se dizer.

Gledson Meireles.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Livro: Revelação de Jesus Cristo: comentário sobre o livro da revelação, de Ranko Stefanovic

Apocalipse 4: A visão do trono celestial

O texto abaixo é um breve estudo com base no Comentário ao Apocalipse, de Carlos Nougué, e também no comentário Revelação de Jesus Cristo, do teólogo adventista Ranko Stefanovic, para um diálogo com os irmãos adventistas do sétimo dia.

O cristão adventista que esteja estudando a doutrina católica encontrará um material importante aqui.

Versículo 1: O comentador cristão católico lembra que alguns supõem ser esse verso uma alusão a 1 Ts 4, 14-17. Podemos assim dizer que seria o arrebatamento da Igreja. Mas, como Ezequiel 1, 1, que escreve: “e eis que os céus se abriram e tive visões de Deus”, as portas dos céus se abrem. Então, trata-se apenas de mais uma visão, em comparação a Ap 1, 9. A porta aberta no céu não necessariamente indica que o arrebatamento do apóstolo signifique o arrebatamento da Igreja, mas que o apóstolo subiu ao céu para ter as visões.

Ranko Stefanovic, comentador adventista, explica que a porta aberta é a do templo celestial. O que concorda com o comentário cristão católico.

Versículo 2: A visão de Deus sem nomeação e em sua essência invisível simbolizada: Alguém sentado. É o Senhor Deus. Na interpretação católica antiga, na Idade Média, houve quem entendesse tratar-se de Cristo sentado aqui, mas isso não é correto, visto que Cristo ainda não entrou em cena nessa visão.

Versículo 3: Deus é apresentado com aparência de pedras preciosas, de jaspe e sardônica. A  Bíblia de Jerusalém traduz jaspe e cornalina. Deus é a luz das criaturas que já habitam ou ainda habitarão no céu, diz o comentador. O texto de Ez 18, 13 e Ap 21 são lembrados. O jaspe pode ser da cor verdade, conforme diz André de Cesareia, e o arco-íris, continua o comentador, simboliza em Gênesis e Ezequiel a misericórdia, é aqui apresentado com a tonalidade verde de esmeralda.

Versículo 4: há muitas interpretações católicas sobre a identidade dos 24 anciãos. O comentador expõe a sua opinião, de que se trata de anjos. Muitos dos antigos comentadores afirmam que os 24 anciões simbolizam todos os eleitos. Ou seriam os 12 patriarcas e os 12 apóstolos. Allo afirma que se trata do senado de Deus, como aparece em Isaías e Daniel, e seriam anjos. Os anciãos são entendidos como anjos, pois em 7, 13 aparecem distintos daqueles que chegam da grande tribulação vestidos de branco. Então seriam os anjos reitores do tempo, da história humana e das revoluções do universo. Mas, aqui creio que podemos continuar com a intepretação antiga em bem fundada de que se trata de um símbolos dos santos eleitos do AT e NT no céu.

Para os adventistas os 24 anciãos representam a humanidade redimida e glorificada. Mas, pergunta-se: como foram aos céus? Isso porque os adventistas não creem na imortalidade da alma, e então para ir ao céu haveria necessidade da ressurreição. No entanto, a ressurreição ainda não ocorreu. Assim, pensam que os santos que foram ressuscitados em Mt 27, 52 teriam ido com Jesus ao céu. E para isso também cita o texto de Efésios 4, 8, onde Jesus tendo subido às alturas levou cativo o cativeiro.

Primeiro, é verdade que na ascensão Jesus levou os santos ao céu.

Segundo, Jesus subiu aos céus em Atos 1, 9, e ninguém foi visto subindo com Ele. Assim, os que subiram com Jesus foram invisivelmente.

Terceiro, antes da ressurreição de Jesus Cristo não há santos glorificados. Se os santos que foram ressuscitados e vistos foram ressuscitados glorificados, estariam glorificados antes de Jesus ressuscitar, o que não é exato. Assim, esses santos ressuscitaram assim como Lázaro, em João 11, em uma ressurreição para a vida física. Eles não subiram ressuscitados ao céu. Subiram em espírito.

Quarto, o texto de Efésios 4, 8 diz respeito aos santos que estavam cativos na morte, santos do Antigo Testamento e todos os que morrem até a ressurreição de Cristo, os quais Jesus levou ao céu em suas almas. Desse modo, eles podem estar no céu na glória em suas almas imortais.

Entretanto, diz Efésios 2, 6: e com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, em Cristo Jesus. Em vida, estamos espiritualmente assentados em Cristo nos céu. Após a morte, os salvos estão com Cristo (cf. Fl 1, 23). Dessa forma, os vinte e quatro anciãos são pessoas redimidas, mas ainda não ressuscitadas, e estão espiritualmente, nas suas almas, no céu.

Veja que Efésios 4, 9 afirma que Cristo desceu às profundezas da terra e depois subiu: Que significa “subiu”, senão que ele também desceu às profundezas da terra?. Isso significa que é após a ressurreição que Jesus levou os cativos salvos, todos eles, e não somente um grupo de cativos. O texto é geral.

Caso contrário, os ressuscitados deveriam ficar à espera de Cristo por três diz para depois subir. Estariam ressuscitados glorificados antes do redentor. E seriam um grupo apenas, e não todos os salvos. Por isso, essa intepretação adventista não tem respaldo bíblico.

Assim, crendo na alma imortal, todos os redimidos que estavam na prisão da morte foram levados ao céu quando Cristo subiu para o céu.

Versículo 5: os relâmpagos, vozes e trovões figuram o poder de Deus. As sete lâmpadas, que são os sete espíritos, já foram entendidos, pelos antigos, como anjos de Deus. Mas a interpretação comum na Igreja Católica é de que se trata do Espírito Santo, como está também em Ap 1, 4. O comentador afirma que mesmo André de Cesareia, que entendia tratar-se de anjos, afirmou que poderia não o ser, e assim seriam as energias do Espírito vivificante. Temos que se trata realmente do Santo Espírito de Deus.

Versículo 6: o mar de vidro é a infinitude do reino espiritual e a imensidão do universo material, afirma o comentador. Comentadores medievais virão a imensidão dos santos nesse símbolo. Poderiam ser também símbolos de qualidades de Cristo, como da realeza, do sacerdócio, da humanidade e da obra de dispensação do Espírito vivificante. Os quatro animais cheios de olhos simbolizam anjos que governam, sob Deus, a criação.

Mas, outras intepretações comuns, como dos quatro animais simbolizando os quatro evangelistas ou os quatro evangelhos, são plausíveis. Nougué afirma que isso “é difícil de aceitar”, visto que é incomum um superior figurar um inferior. Mas, se os evangelhos são tidos em sua acepção real de Palavra de Deus, são assim superiores aos anjos. Portanto, o símbolo tradicional referente aos evangelhos pode manter-se razoavelmente. Também, ainda assim, podem simbolizar o conjunto dos pregadores do Verbo, referida por Allo como a intepretação dos comentadores que estenderam a interpretação dos 4 evangelhos. É importante notar que essas noções lançaram luz sobre o que pensam os cristãos adventistas sobre certas passagens do Apocalipse.

Versículo 7:  os quatro animais são anjos.

Versículo 8: Santo, Santo, Santo é parte da liturgia da missa.

Versículo 9-11: os anciãos falam em nome dos homens, segundo o comentador. Mas, como vimos acima, os anciãos são santos redimidos, e por isso falam da própria salvação. Os santos que morreram já estão no céu.

A respeito do templo celeste e dos templos terrestres. O sacrifício cruento antigo é figura do sacrifício incruento cristão, diariamente celebrado, onde Cristo está presente pela transubstanciação.

O templo antigo é figura do templo novo. A liturgia no templo celestial é o protótipo para a liturgia da missa, que aos domingos principalmente celebra o sacrifício de Cristo até que Ele venha. Nas igrejas há o altar, sob o altar há relíquias muitas vezes, lembrando as almas debaixo no altar no Apocalipse. Sobre o altar há Cristo nas espécies pão e vinho, o Cordeiro imolador, o mediador, e diante do altar há incenso, também usado na liturgia em dias especiais, e prostrações e cânticos. Interessante essas palavras citadas de Bacuez, inclusive quando diz que na liturgia tem também o livre que não é dado a todos ler e compreender. Certamente fala da Escritura, onde a leitura não era comum a todos e a compreensão deve ser conforme o magistério da Igreja. De qualquer forma, mostra a origem bíblica da liturgia cristão católica.

Fonte: NOUGUÉ, Carlos, Comentário ao Apocalipse, Edições Santo Tomás, 2025.

STEFANOVIC, Ranko. Revelation of Jesus Christ, Andrews University Press, Michigan, 2002.