Escravidão
Deus
legislou sobre a escravidão, sabendo que isso causaria o problema que culminaria na escravidão moderna.
O
contexto cultural e a pedagogia divina explicam isso. Deus ensina o ser humano
a partir da realidade em que ele vive. É verdade que o bem e o mal no mundo são
ações humanas. O bem é a ação de acordo com o padrão de Deus, e o mal é aquilo
que se afasta desse padrão.
O
ateu pensa que tudo deveria sair da mente de Deus de um modo pronto e acabado e
transcender o tempo e a cultura, de um modo direto, certo, sem interferências e
de acordo com as exigências dos ateus, pois os mesmos não acham suficientes as
provas da existência de Deus que são apresentadas na realidade. Mas essa
totalidade de evidências não se dá nos pormenores, senão nos princípios. Deus é
claro em seus princípios. E, nesse caso, é nítida a correção dos princípios da
Bíblia que mostra a igualdade espiritual entre os seres humanos e a
fraternidade.
Na
Bíblia, isso pode ser visto na proibição do sequestro e contra os maus tratos
dos escravos, como a lei relativa aos escravos fugitivos (Dt 23, 15-16), que não
deveriam ser devolvidos aos senhores, mas deveriam ter a liberdade de escolher
onde ficar em Israel, e a lei de não opressão ao escravo fugitivo, o que é
claro estar segundo a vontade de Deus, como também na lei de repouso do sábado.
É algo sublime e bastante além do espírito da época, e que evoca um dado da
mente perfeita de Deus. Então, não é tão simples o argumento ateísta, mas falho
em não reconhecer isso.
Se
a escravidão fosse correta e aceita na Bíblia, era de se esperar que a mesma
contivesse os excessos que aquelas culturas praticavam contra os escravos, e
inculcasse isso. Mas não. É justamente o contrário, onde a mensagem do amor
prevalece e começa a quebrar a dureza de coração generalizada na antiguidade. Esse
é o ponto que o ateísmo perde em suas elucubrações. Ao invés de pensarem que a
Bíblia deveria conter a expressa condenação da escravidão nos moldes do século
21, para ser reconhecido como um livro inspirado, eles deveriam ver que as
coisas nem sempre se alinham sempre às suas exigências.
Deveriam
entrar no assunto e pensar melhor, revendo seus argumentos e as respostas
cristãs, com mente aberta, entendendo o problema e vendo como foi a sua
solução. E de fato há sinal do poder de Deus nessa questão inteira.
Para
Santo Tomás, por exemplo, a escravidão não é natural, como pensam os ateus a
respeito da posição cristã sobre o tema. Isso já é outra forte pancada na
posição ateísta, que não conhece o tema profundamente.
Outra
questão é que Santo Tomás aceitou a escravidão apenas como “instituição”
histórica, da humanidade caída, mas mostrou que os homens são iguais e
espiritualmente livres perante Deus. Isso criou a base moral para reconhecer a
liberdade como direito fundamental, e essa base é fundamentada na Bíblia, de
onde Santo Tomás partiu para escrever sobre o assunto e corrigir os erros que a
filosofia antiga continha. Assim, na Suma Teologia Questão 96 artigo 4, a
escravidão é consequência da queda, e portanto algo negativo. Sendo assim, a
escravidão surgiu do pecado, do erro humano, e a partir disso Deus agiu aos
poucos para curar essa ferida profunda na natureza humana, assim como fez com
outros erros humanos.
É
bastante interessante que a Bíblia não possua nenhuma autorização para
escravizar, nenhum mandamento para isso, mas apenas transmite o costume
daqueles tempos e introduz leis que melhoraram a condição humana já naquela
circunstância. Isso é um avanço, o mesmo que o ateu procura enfatizar em seus
argumentos, não vendo que já existe avanço em prol da liberdade humana no texto
bíblico. Portanto, o ateísmo é refutado aqui.
Existe
na Bíblia algum texto onde a escravidão é mostrada como desejada por Deus?
Obviamente não. Portanto, tudo o que está acima é um problema para o ateísmo.
Os
frutos morais dos cristãos é algo citado na avaliação do debate. Os argumentos
dos frutos morais escassos (Paul Draper). Se for bem analisado, de um modo mais
objetivo, é verdade sim que os cristãos oferecem exemplos de santidade, frutos
morais, em maior escala e mais profundamente, quando comparado o Cristianismo e
outras religiões. São valores muito elevados vivido pelos santos. Também os
direitos humanos, a caridade e as instituições de apoio ao próximo, que são
valores inquestionáveis, são obras cristãs, e se destacam na história
universal. Parece que o argumento de Paulo Draper não tem tanta força assim.
A
respeito dos males horrendos, é preciso notar que a liberdade do homem explica
isso. Por exemplo, um animal que sofre no incêndio florestal até a morte. Seria
um mal sem propósito. Como Deus permite isso?
É
preciso entender que se trata do desequilíbrio da natureza, um mal, é claro,
causado na maioria das vezes pelo ser humano, que põe fogo nas florestas. Dessa
ação má sofrem todos ali, e isso será cobrado no juízo. É racional o pensamento
de que a desordem não vem da criação, mas de algo que atingiu a criação depois.
E a ciência mostra que a ação humana causa desordem na natureza. Sabemos que se
trata do pecado, que faz até a criação gemer as dores do parto.
Do
ponto de vista ateu, que vê a maldade do sofrimento daquele pobre animal, e a
falta de propósito para aquela dor, esse mesmo ateu deverá resignar-se ao
pensar que de fato é assim, não há propósito, o mal venceu naquele momento e
para sempre, e tudo continua como se nada tivesse ocorrido. E mais, se for um
mal causado pela má ação do ser humano, aquele ser que causou o incêndio o fez
determinado por inúmeros fatores, pois não era livre. E assim, um mal
determinado pela natureza e que não tem propósito algum e ficará impune
eternamente. Esse é o credo ateísta aqui delineado nesse argumento.
A
fé em Deus garante que tudo será renovado, e a justiça prevalecerá, como a
nossa inteligência exige que seja. O ateísmo possui mais essa lacuna.
Gledson Meireles.