quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Mais sobre Santo Irineu e a tradição


Precisamos entender o que era a Tradição à qual Santo Irineu mencionou e empregou em sua luta pela verdade contra as heresias de seu tempo. Já escrevi sobre isso, como por exemplo aqui e aqui, e creio que ficou claro.

Nos debate a respeito da doutrina Sola Scriptura, ou do princípio Sola Scriptura, sabemos que temos que entender também o sentido da Sagrada Tradição, o seu devido valor, assim também como a autoridade da Igreja. Vejamos, nesse caso, como Santo Irineu a considerava a Bíblia e a Tradição quando tratava de combater as heresias.

Para muitos, a tradição é somente aquilo que é ensinado nas Escrituras. Quando aparece o termo tradição nos escritos patrísticos, afirmam que deveríamos entender o ensino oral das doutrinas que estão registradas por escrito na Bíblia Sagrada, e não mais do que isso. Por assim dizer, a tradição teria o mesmo conteúdo da Bíblia, e no final das contas poderia ser identificada com a Bíblia. Pregar a Bíblia seria pregar a tradição. Isso é essencialmente o que afirma o seguinte artigo.

Se os ensinos da tradição são os mesmos da Bíblia, no sentido de que não há nenhum dado a tradição que esteja fora da Bíblia, mas que, ainda assim, em consonância com ela, como entendemos, então isso seria o que Santo Irineu estaria afirmando, e nada mais.

Mas não parece com o que Santo Irineu chama de tradição a maioria da vezes. É óbvio que como cristão católico apostólico romano, como mostrei aqui, Santo Irineu cria na mesma doutrina que era a doutrina da Igreja Católica em todo o mundo, como escreve em Contra Heresias, Livro I, capítulo 10. O resumo do credo não mostra, por ser um resumo geral, cada ponto de doutrina. Embora até hoje rezemos o credo na Igreja, não há inclusão de que cremos na imaculada conceição, na infalibilidade papal, na assunção da virgem Maria, e etc., e isso não significa que deixamos de crer nessas versas, mas somente que essas doutrinas estão no rol de ensino da Igreja, dentro do credo apostólico, mas não aparecem no Símbolo que rezamos.

Assim também as duas naturezas de Cristo, o juízo particular, a virgindade perpétua, os dons do Espírito Santo e etc., não estão ditas claramente, mas subentendidas. Portanto, o que Santo Irineu resumiu é o credo, e isso não prova que seu entendimento de tradição não inclua mais nada do que aquilo que está expressamente contido nas Escrituras, de modo o mais explícito possível.

O dogma da divindade de Cristo seria proclamado depois do tempo de Santo Irineu, por exemplo, e no Credo apostólico não está explicito essa doutrina, de forma que não podemos supor que santo Irineu negasse qualquer outra doutrina explícita própria da tradição pelo fato de que em sua exposição essa não foi mencionada.

A tradição é confiada ser o meio seguro de ensinar a verdade salvífica. Obviamente, Santo Irineu acreditava na harmonia de ensino entre a tradição e a Escritura, pois sendo Palavra de Deus não há tensão entre os dois modos de transmissão. No entanto, afirmar que o conteúdo de ambas é igualmente idêntico em sua apresentação, isso é ultrapassar aquilo que foi deixado por Irineu. O conteúdo de ambas as vias são idênticos em sua natureza, e diferentes em sua comunicação. Desse modo, qualquer dado da Tradição pode ser encontrado ao menos implicitamente na Escritura, e nela ter sua sustentação e prova, e nenhum ensino que contradiga à Bíblia pode ser adotado. Somente a Tradição que possui confirmação bíblica é que deve ser mantida. Tal é o que podemos ver em Santo Irineu.

No livro IV, capítulo 32, 1, de Contra as Heresias, Santo Irineu refuta a mentira de que Deus não seria o Autor de ambos os testamentos. Para isso, ao invés de somente endereçar o leitor à Escritura, para que a leiam, e por si mesmo sejam confirmados nessa verdade, ele por uma forma diversa ensina o que deve ser feito.

Para provar a asserção de que Deus é o Autor de todos os testamentos, do Antigo e do Novo Testamento, um presbítero que seja discípulo dos apóstolos, ou seja, que tem a tradição apostólica deve ser ouvido: “E então toda palavra parecerá consistente a ele, se ele ou sua parte diligentemente ler as Escrituras em companhia com aqueles quem são presbíteros na Igreja, entre os quais está a doutrina apostólica, como eu apontei.”

Não significa que o leitor deve procurar um bispo ou padre e sentar-se ao seu lado e ler as Escrituras na sua companhia para que a doutrina seja encontrada. Não é isso. A verdade é que a leitura das Escrituras tem estar conforme o líder da igreja local que é sucessor dos apóstolos. Como uma rede de unidade com toda a Igreja. De fato, Santo Irineu afirma que a doutrina dos apóstolos aí está, onde encontra-se um presbítero, que é um sucessor dos apóstolos.

Ao invés de afirmar que a doutrina está nas Escrituras, como de fato está, e cremos que toda a doutrina está na Bíblia, Santo Irineu afirma que devemos ter a opinião dos presbíteros da Igreja na leitura da Bíblia, pois é aí que está a verdadeira doutrina de Deus.

A doutrina foi ensinada pelos apóstolos, está escrita na Bíblia, e pode ser lida por quem quer que tenha a possibilidade de fazê-lo. Mas o que Santo Irineu aponta é que essa tarefa deve ser feita em companhia, ou seja, em conformidade, em harmonia, em concordância com a doutrina que os presbíteros ensinam na Igreja.

Santo Irineu então ensina em Contra as Heresias, Livro IV, 33, 1, que no advento de Cristo, que muitos estavam negando por sua conduta e fé contaminada, não sabendo que há dois adventos, por exemplo, ou seja, duas vindas de Cristo, uma na carne, quando veio como Homem para sofrer, morrer e ressuscitar, e outra quando virá na glória.

Da primeira vinda Santo Irineu menciona um dado importantíssimo. Ele afirma que Jesus ajuntou os filhos de Seu Pai no Seu rebanho, todos aqueles que estavam dispersos pelo mundo, e lembrou-se dos Seus próprios mortos, que dormiram, “e veio a eles para que pudesse libertá-los.” Essa é a fé na descida aos infernos, que é a mansão dos mortos, o lugar onde estavam as almas dos justos. Cristo foi até eles, diz Santo Irineu, para libertá-los.

Para provar sua asserção, de que Deus é o mesmo em ambos os testamentos, contra a doutrina dos gnósticos, Santo Irineu também menciona a Eucaristia, quando Cristo pegou o pão e reconheceu ser Seu corpo e o cálice Seu sangue, que são elementos da criação, e somente poderiam ser Seus se fossem criados por Deus, Seu Pai. Santo Irineu mostra a fé na identificação do pão e do vinho com o Corpo e Sangue de Cristo assim que Cristo os fez assim.

E, mais adiante, no mesmo capítulo, Santo Irineu ensina isso de forma mais esclarecida:

1.     A verdadeira doutrina vem dos apóstolos.

2.     Vem também da constituição antiga da Igreja.

3.     Alicerçada na sucessão episcopal.

4.     A Igreja em toda parte tem nessa linha sua sustentação.

5.     A doutrina é guardada nas Escrituras com exatidão plena.

6.     A exposição da doutrina deve ser conforme a Escritura.

Por tudo isso, devemos reconhecer que a Tradição está em íntima ligação com a Escritura e a Igreja, e que essa forma de ter a verdade pura do Evangelho foi expressa por Santo Irineu.

Gledson Meireles.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Santo Irineu ensina a conformidade com a Igreja de Roma

De acordo com Santo Irineu, todos os cristãos têm possibilidade de ver a verdade por “contemplar a tradição dos apóstolos manifestada em todo o mundo”. Isso quer dizer que cada cristão católico, na igreja em que estiver, pode ver a tradição que ali é mantida, e que vem dos apóstolos de Jesus Cristo Nosso Senhor, e por isso encontrar a verdade nessa tradição.

Afirma também, por isso, a instituição dos bispos, que sucedem aos apóstolos. É um trabalho grandioso mostrar a tradição dos apóstolos em cada igreja, e para colocar os hereges em confusão, ele o faz mostrando a tradição de Roma. De fato, os hereges não podem traçar sua fé até os mesmos apóstolos. A Igreja de Roma é, segundo Santo Irineu, “a maior, a mais antiga, e universalmente conhecida Igreja fundada e organizada em Roma pelos dois mais gloriosos apóstolos, Pedro e Paulo; como também [apontando] a fé pregada aos homens, a qual vem ao nosso tempo por meio das sucessões dos bispos.”

Não tendo espaço para apresentar a tradição em todas as Igrejas, ele mostra a tradição de Roma, e com ela resume toda a autêntica e legítima tradição apostólica, que nos vem através da sucessão dos bispos.

E, continuando, afirma que é necessário ter comunhão com Roma. Ele escreve: “Pois é uma questão de necessidade que toda igreja concorde com esta Igreja, por causa da sua preeminente autoridade, que é, o fiel em toda parte, na medida em que a tradição foi continuamente preservada por aqueles [homens fieis] quem existem em toda parte.”

Falando da sucessão apostólica da Igreja de Roma, ele mostra que São Lino sucedeu a São Pedro. Lino recebeu o episcopado das mãos de Pedro e Paulo. Depois sucede Clemente, e desse escreve santo Irineu: “Esse homem, como tinha visto os bem-aventurados apóstolos, e tinha conversado com eles, pode ser dito de ter a pregação dos apóstolos ainda ecoando [em seus ouvidos], e suas tradições diante de seus olhos”.

Assim, santo Irineu traz uma nota para compreendermos a tradição. Ele cita a pregação oral e as tradições visíveis, uma distinção interessante. Certamente, refere-se sob o termo tradição às instituições e costumes que os apóstolos deixaram.[1]

Portanto, ser cristão é guardar a tradição apostólica que vem através da sucessão de bispos da Igreja Católica, e está em conformidade com a Igreja na cidade de Roma. Portanto, devemos ser cristãos católicos apostólicos romanos.

Gledson Meireles.



[1] Santo Irineu, Against Heresies, Livro III, 3.
 

A autoridade do papa Vítor I na controvérsia da Páscoa

A respeito do poder do papa nos primeiros séculos, muita coisa é escrita, e o essencial é negado pelo Protestantismo. De fato, o protestante não está sob a autoridade do papa, e não reconhece a mesma.

O interessante artigo: A controvérsia pascal – um dos primeiros episódios que atestam o primado do bispo de Roma? do blog Conhecereis a Verdade, nega veementemente o primado do papa. Entre as afirmações estão o que resume a argumentação e a conclusão do artigo:

1.    O bispo Vítor não exerceu o imaginário primado.

2.    O bispo extravasou suas funções.

3.    Ataca o argumento católico de que o bispo nunca teve sua autoridade questionada naquela controvérsia.

4.    Argumento “interessante”, mas, não compatível com os fatos.

5.    Argumento importante está em: “Portanto, não necessitavam de ser convencidos nem que se lhes ordenasse que se adaptassem ao uso que já era tradicional para eles; em tais circunstâncias não é de admirar que a posição que já no tempo de Vítor sustentava a maioria dos bispos fosse promulgada como a prática universal em Niceia. O tempo não deu razão a Vítor mais do que deu a Teófilo de Cesareia, Narciso de Jerusalém, Ireneu de Lyon, e tantos outros que observavam a Páscoa no domingo.”

6.    O erro, tratando da convocação dos concílios: “Mesmo se Vítor tivesse sido quem solicitou em primeiro lugar que se realizassem sínodos, isso não prova algum primado; antes demonstraria o contrário, ou seja, que não podia impor a sua vontade e necessitava do consenso do resto dos bispos.”

7.    Ninguém negou a autoridade de Vítor porque ele não ordenou nada. Foi apenas um pedido.

8.    A autoridade foi negada a Vítor. “Gostaríamos de saber como se chega a esta conclusão de que ninguém questionou a autoridade de Vítor.”

9.    Vítor certamente decretou a excomunhão, que foi ineficaz.

10. Vítor “não tinha a autoridade para proceder como queria”.

11. Se fosse Vítor que tivesse escrito a exortação a Irineu, isso teria sido usado como prova da supremacia papal. (Conhecereis a Verdade citando em comentário George Salmon)

 

O texto pode ser visto neste link. Vou apresentar uma apreciação geral que, acredito, refuta o que foi escrito nos artigos mencionados aqui.

Pensemos que um filho que desobedece o pai, chegando a desrespeitá-lo, em alguma ocasião de sua vida, não estabelece com isso que a autoridade do seu pai seja inexistente. Mostra apenas uma divergência, e o exercício da autoridade do pai, que está sendo balançada, pela rejeição de obediência. O filho poderia até afirmar: “você não tem autoridade sobre mim”, o que mostraria apenas revolta, insubmissão, etc., não provando que aquilo seja fato.

Bem. Pelo que notei no artigo referido acima ensina-se que o papa, bispo romano, Vítor I, foi impelido por um zelo pouco refletido, ultrapassou as devidas fronteiras de sua jurisdição, agiu de forma ilegítima, ninguém submeteu-se a ele por isso, e a autoridade do mesmo foi portanto negada pelo fato de que muitos a ele opuseram-se, e chegaram a combatê-lo com dureza.

A circunstância que, talvez, levou Vítor I a preocupar-se com aquele assunto teria sido uma disseminação de heresia semelhante em Roma. Isso explicaria o modo de proceder de Vítor. Além do mais, o papa Vítor apenas pediu que outros convocassem o Concílio, debatessem a questão, pois não tinha autoridade para ordenar. E quando decidiu excomungar quem não pensou conforme sua decisão, ninguém deu ouvidos, ele recebeu duras repreensões, talvez tenha decretado a excomunhão, mas não tendo alguém para preocupar-se com isso as coisas continuaram como estavam. Isso foi o que ensinou o artigo anterior, e que estaria de acordo com os “fatos”.

Mas, pensemos bem. Uma heresia em Roma que pregava o judaísmo fez com que o bispo de Roma quisesse por fim àquela heterodoxia, sugerindo que os cristãos da Ásia comemorassem a festa da Páscoa na mesma data em que é comemorada em Roma, e que após não ter seu “pedido” atendido ele excomunga a todos os cristãos daquela região.

Se Vítor excomunga uma região inteira por não terem os cristãos submetido-se à sua “petição”, poderíamos considerá-lo louco, pois sabendo que não podia ordenar, apenas pediu, e quando os outros não quiseram atender, como esperava, então os excomungou. Não é isso que os fatos expressam.

Com isso, o bispo de Lyon, que era homem de paz, escreve ao bispo Vítor e leva-o a pensar em sua atitude, mostrando ser aquela questão de pouca importância, e que os bispos antes dele conviveram bem com isso (inferindo que tinha autoridade para fazer o mesmo, se pensassem ser o caso), e também que outros bispos da mesma forma foram duríssimos contra a decisão de Vítor.

A forma com que Santo Irineu interfere na questão mostra que seu desejo era realmente de exortar os irmãos na fé, e procurar a paz, como mostra Eusébio de Cesareia. A atitude de Vítor só teria razão de ser se sua jurisdição alcançasse outras regiões fora daquela de Roma, pois do contrário isso seria acusado pelos demais bispos. Contrariamente, os outros não disseram nada a respeito, apenas opondo-se à intolerância do papa, e não à sua autoridade de fazer o que fez, como filhos que discutem com o pai, conforme analogia apresentada no início.

Ainda em outro artigo que conclui fortemente o mesmo contra a autoridade de Roma afirma-se: “Este artigo é uma continuação ao tema, que abordará a divergência pascoal entre os bispos romanos e asiáticos no século II, divergência essa que é outra prova de que Roma locuta est; causa non finita est.”. Pode ser lido neste link.

Afirma-se que o bispo Vítor era orgulhoso: “Diferente de seu antecessor Aniceto, Vítor era orgulhoso e queria obrigar todo mundo a concordar com ele, chegando até mesmo a ameaçar excomungar os bispos da Ásia(!) na ocasião.”

“Note ainda que Eusébio diz que até Irineu estava entre os bispos que repreenderam a Vítor.”

E concluindo: “O mito papista de que a palavra do bispo romano sempre encerrará qualquer discussão não passa de puro engodo para ludibriar os mais ingênuos e facilmente adestrados por este sistema apóstata e falido.”

Em Roma viviam cristãos de origem asiática, e que comemoravam a Páscoa em data diversa daquela observada na igreja de Roma, e em todas as outras localidades, exceto a Ásia. Isso fez com que o papa Vítor escrevesse ao bispo da Ásia.[1]

Realizou em Roma um sínodo para isso, e pediu aos bispos que fizessem o mesmo. De certa forma isso é uma “convocação”. Pode-se lembrar do papa Pio IX ao declarar o dogma da Imaculada Conceição, mas que antes disso pediu opinião de todos os bispos do mundo a respeito da questão. Esse fato refuta radicalmente o item 6 acima.

Então, ao ter a conclusão da questão, o papa Vítor não escreveu aos cristãos da Ásia com termos fracos e apenas convidativos para a discussão ulterior, mas quis que a questão chegasse a um termo, e que esse fosse conforme a prática de Roma, e o costume geral em todos os outros lugares. Somente o papa pode agir assim.

Não fizeram isso nem Teófilo, nem Narciso, nem Irineu. Mas, somente Vítor. Como naturalmente fizeram várias vezes, quando necessário, os outros papas, ou seja, sempre os bispos de Roma.

Essas questões, e outras, mostram um papa zeloso e enérgico, não orgulhoso. Talvez sua severidade naquele momento fosse sem necessidade, mas certamente o papa não pode ser jugado de orgulho por isso. Não sabemos o que ocorreu imediatamente após aquela excomunhão, se foi realmente promulgada, ou se o papa Vítor voltou em sua decisão e permitiu aos cristãos da Ásia continuar sua tradição local. O fato é que anos mais tarde ninguém mais observava o preceito da Ásia. Isso significa que o costume geral chegou ali também, e os cristãos admitiram o que foi apresentado pelo papa Vítor.  Pelo ocorrido, Roma locuta est, causa finita est, de fato.

Escrevi sobre essa questão da controvérsia da páscoa neste artigo.



[1] http://www.newadvent.org/cathen/15408a.htm.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Batismo infantil por Tertuliano, São Cipriano e Santo Agostinho

Abaixo uma reflexão breve sobre três documentos que falam do batismo infantil, e da natureza do batismo.
A respeito da forma do batismo usual no início da Igreja, que foi por infusão ou mesmo aspersão, segundo o que testemunha a Bíblia, pode ser conferido aqui.

Tertuliano e o batismo infantil

Tertuliano escreveu em seu tratado sobre o batismo, capítulo 18: “E, então, de acordo com as circunstâncias e disposição, e até idade, de cada indivíduo, a demora do batismo é preferível; principalmente, entretanto, no caso de crianças pequenas.” [1]

Para Tertuliano o batismo era muitíssimo valoroso, um dom preciosíssimo que não deveria ser entregue de forma imprudente, e para quem evidentemente não tivesse a possibilidade de guardá-lo como era necessário. Que as pérolas não fossem jogadas aos porcos, conforme Mateus 7,6.

Os casos em que as Escrituras mostram pessoas sendo batizadas imediatamente, depois da conversão, são porque Deus, segundo Tertuliano, proporcionou o conhecimento de que aquelas pessoas receberiam responsavelmente a graça, como que uma iluminação que apontava a adequada realização do batismo para aquela pessoa. Assim, Tertuliano afirma que: A aprovação de Deus envia sinais premonitórios seguros diante dele; cada petição pode enganar ou ser enganada.[2]

Fora disso, as circunstâncias deveriam ser analisadas, e a disposição da pessoa conhecida, para que de forma segura fosse percebida a bondade própria dessa disposição para o recebimento de tão grande dom. E até da idade, diz Tertuliano, pois como no batismo infantil era preciso pensar que a tenra idade poderia ser perigosa para a recepção do batismo, pois aquele indivíduo poderia, mais tarde, negar o dom recebido sem a devida consciência de seu valor. Mais ainda a respeito dos bebês.

Nesse caso, os padrinhos da criança estariam em perigo, pois responderiam por aquele ato. Talvez, veriam a pessoa batizada crescendo de forma contrária àquilo que deveria ocorrer em sua vida de batizado. O batismo ali, então, não era tão necessário, visto essas exigências.

Então, Tertuliano aconselhava esperar que se tornem cristãos aqueles que pedirem, que estiverem aptos a conhecer a Cristo. E, também, porque o bebê estaria na fase da inocência, a qual não deveria haver tanta pressa para o batismo. Pois as crianças não são responsáveis por assuntos mundanos importantes, quanto mais pelas coisas divinas.  Quem entender o sentido do batismo temerá mais sua recepção que sua demora: “a fé sadia é segura de salvação”. Veja então o tamanho valor do batismo.[3]


São Cipriano e o batismo infantil

São Cipriano discutiu uma questão, em Concílio, a respeito do batismo infantil. Havia quem pensasse não poder ser batizada uma criancinha com dois ou três dias de nascimento, mas somente após o 8º dia, como estava na lei de Moisés concernente à circuncisão. Assim, São Cipriano esclarece, pelo que podemos notar no tom de suas palavras, que esse não é o costume da Igreja, não foi o consenso dos padres do concílio, pois Deus quer a salvação de todos, independente da idade. Assim, a Igreja batiza a todos. Diz São Cipriano: Devemos nos esforçar que, se possível, que nenhuma alma seja perdida. Temos aqui explicitamente o batismo ligado à salvação, mesmo dos pequeninos.[4]

São Cipriano fala do tempo que foi designado por Tertuliano como período da inocência. Ele escreve: “sendo ultimamente nascido, não pecou, exceto que, tendo nascido da carne segundo Adão”. A criança “não pecou”, mas tal não significa que o infante não tenha pecado nenhum, pois há o pecado original, aquele que herdou de Adão.[5]


Santo Agostinho e o batismo infantil

Santo Agostinho afirmou que as pessoas levavam os infantes (criancinhas pequeninas, bebês) para serem batizadas por causa do pecado original que elas haviam herdado do nascimento natural, para serem purificadas pela “regeneração do segundo nascimento”, que é o batismo.[6]


Conclusão:

Esses testemunhos, sobre o batismo, do século 2º, 3º e 4º são de importância imensa. Tertuliano escreve de forma a deixar subentendido que o batismo de crianças era a norma em seu tempo, e que o mesmo não se opunha a ele em sua essência. Sua opinião apenas lidava com a importância do mesmo. Não negou o batismo infantil em si, opinou somente para que fosse esperado o momento para que pedissem o mesmo.

São Cipriano deixa mais clara a questão, e mostra, como Tertuliano, que o batismo é para a salvação, mas que deve ser conferido a todos, sem limite de idade, e que ainda que as criancinhas não pequem, são nascidas no pecado. Tertuliano não deixou claro seu “período de vida inocente”. Certamente esteja se referindo ao período em que as crianças não podem cometer pecados pessoais, e nesse sentido estão inocentes diante de Deus. Não são cristãos ainda, não são salvos, segundo o mesmo texto, pois ele diz que deve-se esperar que peçam para serem batizados e recebam a salvação. Devemos, antes, entender o contexto para o que Tertuliano colocou essa precaução para a realização do batismo. Não foi, porém, uma prática geral da Igreja Católica. Hoje também pode haver circunstâncias em que a Igreja Católica entenda ser preferível não batizar uma criancinha, até que certas exigências sejam supridas.

E São Agostinho testemunha da prática do batismo infantil, da fé no pecado original, e de que o batismo é para a salvação.

Em todos esses documentos, aprendemos que no segundo, terceiro e quarto século, a mesma fé sobre o batismo foi mantida. Em nenhum momento alguém objetou que o batismo devesse ser somente para crentes, nem que o mesmo fosse apenas um testemunho público da conversão e novo nascimento, e de que as criancinhas não devessem ser batizadas por não terem a capacidade de exercer fé. Esses argumentos não existiam.

O único argumento que poderia ser usado para a realização do batismo após a idade da razão é aquele de Tertuliano, mas o mesmo usou de outros motivos. O batismo é para remissão dos pecados, e como a criança não havia cometido ainda nenhum pecado, o batismo poderia ser esperado. Esse é o argumento. Não parece em nada com a argumentação de muitas igrejas atuais, onde o batismo seria apenas um símbolo do novo nascimento, e como esse somente pudesse ser realizado mediante a fé, somente o batismo de crentes seria o batismo “bíblico”. Tertuliano não subscreveria tal noção de batismo.

Além do mais, a posição de Tertuliano quanto à idade para o batismo não foi o costume da Igreja, mas tem seu valor, enquanto leva-nos a entender o sentido profundo do sacramento do batismo.

Para os dois santos, São Cipriano e Santo Agostinho, o primeiro entre o segundo e o terceiro século, e o segundo entre o terceiro e o quarto, temos a doutrina apostólica testemunhada. Todos criam no batismo como o sacramento da fé, o sacramento da salvação, onde o perdão dos pecados é realizado, e que as criancinhas são candidatas ao batismo como todos os adultos. Aliás, para santo Agostinho as crianças mortas sem o batismo não poderiam entrar no céu, mas seriam condenadas ao inferno, embora suas punições fossem as menores possíveis, visto não terem cometido pecados. Assim, a eclesiologia de santo Agostinho é puramente católica, onde é necessário fazer parte da Igreja Católica visível, e participar dos seus sacramentos.

Enfim, o batismo é o sacramento da salvação, e deve ser conferido a todos, infantes e adultos.

[as fontes citada estão disponível em www.newadvent.org]

Gledson Meireles.


[1] Tertuliano, On Baptism, 18.
[2] Ibid.
[3] Ibid.
[4] São Cipriano, Epistle 58, 2.
[5] São Cipriano, Epistle 58, 5.
[6] Santo Agostinho, On Marriage and Concupiscense, Livro II, cap. 4.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Papias e a tradição

O bispo Papias, Padre Apostólico, mostra que a tradição apostólica guardada pelos presbíteros era de importância fundamental:

“Mas quando encontrava alguém que tivesse sido seguidor dos presbíteros em qualquer lugar, fazia questão de inquirir quais eram as declarações dos presbíteros. O que foi dito por André, Pedro ou Filipe. O que foi dito por Tomé, Tiago, João, Mateus ou qualquer outros dos discípulos de nosso Senhor. O que foi dito por Arístion e pelo presbítero João, discípulos do Senhor; pois não penso que eu me tenha beneficiado com os livros tanto quanto me beneficiei com a voz viva dos que ainda vivem.”[1]

Segundo Papias, ele havia aprendido mais por essa via da tradição do que através da leitura dos livros. E, como trata da doutrina cristã, sua explicação tem em comparação a tradição apostólica e as Escrituras Sagradas, e em sua experiência pessoal ele havia ajuntado mais informações por meio da viva voz do que por suas interpretações nas leituras da Bíblia. E isso porque fazia questão em inquirir sobre a doutrina que foi ensinada pelos santos apóstolos. Por isso, disse ter tido mais benefícios com a tradição.

Eusébio afirma que Papias escreveu outros relatos como “tradições não escritas recebidas, assim como certas estranhas parábolas de nosso Senhor e sua doutrina e algumas outras questões um tanto fabulosas demais.”[2]

Para Eusébio Papias incluiu em suas narrações intepretações que não condiziam com dados da tradição apostólica, mas que eram opiniões suas, não compreendidas em sua acepção mística e de figuras, mas literalmente, como fez ao apresentar o reino milenar: “Nesses ele afiram que haverá certo milênio após a ressurreição e que haverá um reinado corpóreo de Cristo nesta terra; coisas que parece ter imaginado, como se fossem autorizadas pelas narrações apostólicas, não compreendendo corretamente aquelas questões que propunham misticamente e suas representações”.[3]

Pela menção de Eusébio o milênio não era a doutrina mais difundida na Igreja, e nessa questão a interpretação espiritual era aquela reconhecida como parte da tradição apostólica. Assim, Eusébio pensa que Papias não compreendeu bem essa distinção quando escreveu sobre o milênio, e o fez erradamente como se esse dado estivesse na tradição dos apóstolos. Menciona, então, Santo Irineu, que havia adotado, por influência de Papias, por esse ser escritor antigo, assim como muitos, que adotaram a interpretação milenar literal de Papais.

Sabendo, contudo, que Irineu foi reconhecidamente correto na doutrina, pois no Livro 4, capítulo XXI, Eusébio escreve, depois de citar vários escritores da Igreja: “Musano, também, e Modesto e, por fim, Irineu, cujas opiniões corretas acerca da fé saudável têm chegado a nós nas obras escritas por eles, conforme a receberam da tradição apostólica.”[4] Isso mostra que, ainda que certa interpretação não fosse aceita geralmente na igreja, e que estivesse contida na obra de uma padre, esse ainda era considerado saudável em sua doutrina, pois aquela opinião era aceitável, embora ainda discutível, e que esperava o tempo para ser, se possível, cabalmente compreendida. É por isso que santo Irineu escreveu a respeito do milênio e reconhece que outros não adotavam aquela compreensão, e que esses eram igualmente fieis, corretos na doutrina. Essa constatação é uma prova de que o milenarismo ali ensinado não foi entendido como indiscutível doutrina apostólica por santo Irineu, mas uma interpretação possível, que em seu fundamento não era entendida como herética, e naquele momento não havia sido recusada pela Igreja.

É importante notar o valor da tradição em Papias. Muitas das informações que traz estão pautadas unicamente na transmissão que outros fizeram a ele, e que o mesmo tinha registrado, e guardado na memória, como ele escreve alhures. Diversos dados são passados, os quais não possuem a rigidez técnica usada posteriormente para compreender cada um, como nós os compreendemos hoje. 

Assim é que, ao falar da escritura do Evangelho por São Marcos afirma: “Assim Marcos não errou em nada ao escrever algumas coisas como ele as recordava; pois teve o cuidado de atentar para uma coisa: não deixar de lado nada que tivesse ouvido nem afirmar nada falsamente nesses relatos.” Não menciona alguma consideração a respeito da inspiração sob a qual São Marcos estava ao fazer o seu trabalho, mas a falta dessa informação específica no relato não indica mais que o mesmo não tinha em foco tratar da inspiração bíblica, mas mostrar conteúdos que eram guardados na Igreja por tradição.

Gledson Meireles.




[1] Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro III, XXXIX.
[2] Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro III, XXXIX.
[3] Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro III, XXXIX.
[4] Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro IV, XXI

sábado, 19 de dezembro de 2015

Tertuliano e a tradição

Tertuliano viveu na segunda metade do século 2º, e primeiras décadas do século 3º. Portanto, estamos em uma época bastante próxima da era apostólica. Escrevendo contra as heresias, Tertuliano deixa algumas indicações quanto a forma de combater as heresias, e o entendimento da tradição católica.

No capítulo 20 de sua obra Prescription Against the Heretics, Tertuliano afirma que a tradição é uma das características das igrejas, as quais, todas elas, que formam uma única Igreja. Os apóstolos: “Eles então, da mesma maneira, fundaram igrejas em cada cidade, das quais todas as outras igrejas, uma após a outra, derivaram a tradição da fé, e as sementes da doutrina, e estão todo dia derivando-as, para que elas tornem-se igrejas”. Entende-se, portanto, que a tradição é fechada com os apóstolos, e que as igrejas subsequentes não são fontes, ou criadoras de tradição, mas que derivam a tradição das igreajs apostólicas, como órgãos de transmissão dessa tradição ao longo do tempo. E continua, no capítulo 21, que: “Disso, portanto, nós elaboramos nossa regra”, referindo-se à regra de fé.
No capítulo 28 temos uma das mais claras de suas asserções quanto à tradição apostólica. Ele afirma: “Erro de doutrina nas igrejas deve necessariamente ter produzido várias questões. Quando, no entanto, aquilo que é depositado, entre muitos, é encontrado como um e o mesmo, não é o resultado do erro, mas da tradição. Pode alguém, então, ser descuidado o suficiente para dizer que estavam em erro quem transmitiu a tradição?” Quem ousa afirmar, segundo Tertuliano, que um dado da fé está errado, daquilo que é legitimamente aceito na Igreja, esse é descuidado, em outras palavras, imprudente.
Vemos que Tertuliano mostra que a Igreja tem a possibilidade, desde o seu início, de ter em seu meio erros de doutrina, e que muitos desses erros foram ocasiões de debates, de controvérsias, das “várias questões”, como escreve. No entanto, há uma regra elementar para reconhecer entre as várias tradições antigas aquela que é a tradição apostólica, a qual é Palavra de Deus e transmite necessariamente a verdade. Segundo Tertuliano, quando há uma concordância geral, em questão de doutrina, na fé da Igreja, esse resultado não é um erro. De fato, com esse pensamento Tertuliano exclui a possibilidade de que no consenso da Igreja possa haver erro. E conclui que esse resultado é o da tradição. Essa é a tradição apostólica, que entre muitas opiniões que pode ter surgido, entre debates de discussões teológicas, quando algum item doutrinal tem o sentido único reconhecido, e é idêntico na interpretação geral da Igreja.
Desse ensino de Tertuliano, nessa pequena porção de sua obra, pode-se ver que a tradição é regra de fé, tem o fundamento nas igrejas apostólicas, que formam uma só Igreja, e que o sinal de sua identidade é o consenso geral, quando “aquilo que é depositado, entre muitos, é encontrado como um e o mesmo”.
 
(traduções com auxílio do google translator)
 
Prescipion against heretics. Disponível em: newadvent.org
 
Gledson Meireles.

Santo Irineu e a tradição

Santo Irineu, em seu livro III, capítulo 4, parágrafo 1, mostra que os cristãos devem ater-se à tradição dos apóstolos. Ele diz que não é necessário procurar a verdade entre outras pessoas, pois é possível obter isso da Igreja. Os apóstolos depositaram nela a verdade, como que uma riqueza em um banco, de modo que qualquer um pode ter a verdade por meio da Igreja.

Nas questões disputadas, sobre assuntos de importância, e desse modo podemos pensar, por “questões importantes”, que são coisas relativas à fé e que tocam a salvação, Santo Irineu afirma ser necessária a tradição. Ele refere-se, para isso, como meio de saber da tradição, às igrejas mais antigas, que tiveram contato com os apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

E a pergunta retórica que faz é de uma importância magnífica nesse contexto de relação entre Escritura e Tradição. Ele diz: “Pois como seria se os mesmos apóstolos não tivessem nos deixado escritos?”. Essa questão mostra que as Escrituras eram o fundamento da fé, juntamente com a Tradição, e que o princípio cristão que englobava essas duas formas de transmissão da Palavra de Deus era totalmente estabelecido, pois não poderia haver um questionamento assim por alguém que cresse na possibilidade de que após a era apostólica somente os ensinos vindos por meio das Escrituras é que seriam autoridade infalível, como norma de fé, e única via, e ligassem todos os cristãos, se por essa afirmação a tradição seria algo comparável à brincadeira infantil do “telefone sem fio”.

Para santo Irineu, pelo contrário, se os apóstolos não tivessem deixado as Escrituras, nenhum escrito, de fato, seria possível ter a Palavra de Deus preservada ao consultar as igrejas antigas, aquelas comunidades que tiveram contato direto com os apóstolos, e por elas receber a doutrina verdadeira, e assim dirimir a questão nas disputas. Essa é uma possibilidade real, totalmente apresentada por Santo Irineu, caso as Escrituras não existissem. Por isso, ele mostra que é dever dos cristãos perguntar à Igreja sobre a verdade, pois nela está depositada, desde os apóstolos, pelos mesmos apóstolos, a verdadeira doutrina.

Então, ele continua da seguinte forma, com a pergunta: “Não seria necessário, [nesse caso,] seguir o curso da tradição que eles transmitiram àqueles a quem eles confiaram as Igrejas?”. Ou seja, seria necessário, se não tivéssemos a Bíblia, seguir a tradição e examiná-la para ver a doutrina que os apóstolos deixaram aos bispos nas respectivas igrejas. Essa tradição contém a Palavra de Deus, assim como a Bíblia, e ainda que tendo as Escrituras é correto e útil e necessário obter a verdade da Igreja, que a possui, como guardiã. É isso que Santo Irineu ensina.

Se a pergunta fosse feita a alguém que cresse no princípio Sola Scriptura, onde somente a Escritura guarda o ensino infalível, e que é a única forma a ser buscada para dirimir questões, então a resposta deveria ser que se os apóstolos não tivessem deixado as Escrituras não haveria mais como saber da verdade, e a resposta seria da impossibilidade de saber do verdadeiro evangelho. Muitos creem isso atualmente, mas não no tempo de Santo Irineu, e nem por Santo Irineu. Sua exposição é bastante clara nesse sentido. (cf. Livro III, cap. 4, parágrafo 1)

Continuando no parágrafo 2 esse ensino é tornado ainda mais reluzente. Santo Irineu exemplifica a vida da Igreja entre os bárbaros que não possuem as Escrituras. Em outras palavras, ele fala das nações, que falam outros idiomas, os bárbaros, as quais não têm a Bíblia para reger a sua fé e moral. Para isso seguem o curso da tradição. Ele afirma que esses bárbaros são cristãos, pois creem em Cristo, e têm a salvação em seu coração, pelo Espírito Santo, mas não possuem a Palavra em papel e tinta, “mas cuidadosamente preservando antiga tradição”, que em resumo significa que creem em Deus, o único, criador do céu e da terra, por meio de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que por amor nasceu da virgem, unindo o homem a Deus, sofrendo sob Pôncio Pilatos e ressuscitando, subiu aos céus e virá na glória, que virá julgar e mandar para o fogo eterno os condenados; esses bárbaros os são em relação ao idioma, mas não no que concerne à fé, pois aí eles são sábios. Tudo isso sem ter a Bíblia. Eis a força da tradição, mostrada por Santo Irineu.
Against Heresies, Livro III. Disponível em: newadvent.org.

Gledson Meireles.

Santo Irineu ensinou a Bíblia e a Tradição


Santo Irineu, em seu livro III, capítulo 2, versos 1 e 2, enfrentou heresias em que, uma vez confrontadas com as Escrituras, o seus defensores negavam as próprias Escrituras. Afirmavam que as Escrituras eram, entre outras coisas, imprecisas, não autoritativas, e não podiam ser entendidas por quem não conhecesse a tradição. Essa era a tradição segundo a opinião dos hereges gnósticos, e não a tradição apostólica. Isso será provado abaixo. Para essa seita a doutrina teria vindo aos cristãos por viva voce e não por escritos.

Em debates a respeito da autoridade da Bíblia Sagrada e da Tradição Apostólica, essa exposição de Santo Irineu certamente pode ser usada, com a ideia acima, contida na opinião dos gnósticos, sem as devidas qualificações, para intimidar os cristãos católicos que creem na validade da tradição ao lado das Escrituras como de valor idêntico, por serem modos de transmissão legítimos da Palavra de Deus. Mas, uma coisa deve ser entendida. Santo Irineu afirma que aquela heresia negava que os ensinos tivessem vindo por meio escrito, o que não é o que ocorre na doutrina cristã católica, nem mesmo na doutrina cristã protestante. Muito pelo contrário. Assim, aquela heresia não coaduna-se com nenhum dos lados referidos do debate.

Entretanto, quando a Igreja, por meio dos apologistas da época (pois Santo Irineu refere-se a ele e outros na exposição da verdade, como a posição oficial da Igreja), afirmava a tradição dos apóstolos para provar a doutrina verdadeira àqueles que afirmavam crer na tradição, no ensino de viva-voz, então, Santo Irineu escreve: “Mas, novamente, quando referimos a eles àquela tradição a qual origina-se dos apóstolos, [e] a qual é preservada por meio da sucessão dos presbíteros nas Igrejas, eles objetam a tradição...”. (tradução minha) De fato, nem mesmo a tradição apostólica eles seguiam, pois, diz Santo Irineu, esses achavam-se mais aptos a encontrar e a ensinar a verdade do que os apóstolos, os quais eram acusados por esses hereges quanto à sua fidelidade no ensino da doutrina verdadeira. É uma lástima já naqueles tempos, onde os hereges acusavam os próprios apóstolos do Senhor, e consequentemente os bispos [presbíteros] que os sucederam de não ter transmitido puramente o ensino.

E, se isso é um absurdo, blasfêmia é afirmar que o mesmo Senhor Jesus não tivesse ensinado a verdade incontaminada. Até mesmo a esse ponto chegaram os gnósticos em suas invectivas contra a Igreja Católica no tempo de santo Irineu. Então, conclui o defensor da fé, que esses hereges não criam nem nas Escrituras, nem na tradição. (Livro III, cap. 2, 3)

Essa contextualização é necessária para mostrar que Santo Irineu não igualou Escritura e tradição como se referissem à mesma coisa. Pelo contrário, citou ambas as vias de ensino da Palavra de Deus, sendo as Escrituras aquela Palavra deixada pelos apóstolos por escrito, e a tradição o ensino que os apóstolos deixaram oralmente, e que foi preservado pelos bispos nas igrejas. Embora ambas tenham a mesma verdade, o mesmo conteúdo, por ser Palavra de Deus, não são uma única via, mas duas. E Santo Irineu ensina ambas.

Gledson Meireles.
 
fonte: Against Heresies. Disponível em: newadvent.org.