sábado, 20 de janeiro de 2024

Livro: A imortalidade da alma: bispo Teófilo

 Refutação: • Teófilo de Antioquia (120-186)

 

São Teófilo, bispo cristão católico da cidade de Antioquia, que viveu no século segundo, é elencando como mortalista, ou seja, como aquele que não crê na imortalidade da alma e que ensina o aniquilacionismo. Vejamos as passagens alegadas para isso, para vermos se esse bispo ensinava tal doutrina.

Eusébio de Cesareia faz menção desse bispo, cita outras obras que não foram preservadas, e o apresenta como defensor da fé contra tantos hereges que existiam naqueles tempos.

Primeiro, é preciso ver que no seu Livro a Autólico I, 5, ele escreve:

 

“Do mesmo modo como a alma não pode ser vista no homem, pois ela é invisível para os homens, mas pode ser imaginada por causa dos movimentos do corpo, assim também acontece com Deus: ele não pode ser visto pelos olhos humanos, mas pode ser visto e imaginado pela sua providência e pelas suas obras”.

 

Nessa passagem, São Teólifo usa um exemplo para as condições do conhecimento de Deus, e expressa que a alma é invisível no homem. Parece não ser a mesma opinião dos mortalistas, que dizem que o homem é alma e que não possui alma. Ou ainda, que afirma que a alma é apenas a vida física que está no corpo.

As palavras de Teófilo concordam que a alma é de fato a parte espiritual do homem, que anima o corpo, e que é imaginada pelos efeitos que produz no corpo, e sendo assim, pode-se concluir por implicação, ela é imortal.

No capítulo 14 do mesmo livro ele menciona os tormentos eternos dos incrédulos: “Eu te peço: submete-te também a ele, para que, não crendo agora, forçosamente tenhas que crer mais tarde em tormentos eternos”. Portanto, é de se pensar que Teófilo ensinava a mesma doutrina católica de sempre sobre a alma.

Contudo, vamos aos argumentsos mortalistas apresentado no livro a respeito de Teófilo. Como o mortalismo interpreta a doutrina ensinada por Teófilo, e o motivo dessa interpretação estar equivocada, é o que será mostrado adiante.

A primeira citação é do livro II, 24. Ali, São Teófilo ensina que o homem foi criado para um dia ir para o céu. Esse foi o plano original de Deus, onde sem o pecado não haveria morte e o homem iria passar da vida física na terra e ir diretamente ao paraíso no céu.

Ensina que o ser humano não foi criado mortal nem imortal, mas capaz das duas coisas. Ou seja, o homem podia morrer, mas também podia não morrer, dependendo da sua vida em união com Deus. Trata-se, portanto, da morte física, que ainda não existia, e não tem nada a ver com o que aconteceria com o ser humano, com a sua alma, após a morte entrar no mundo.

Depois são citadas as passagens 26 e 27 do livro, e o autor mortalista critica o ensino da alma imortal como se o mesmo fosse o “antídoto” para a morte. Sabendo que isso não é o que Teófilo ensinou, mas enfatizando que ele cria na ressurreição, então conclui que o bispo era mortalista.

A comparação de Teófilo com o vaso quebrado que é refeito é oportuna para a ressureição, e correta. De fato, ali está sendo ensinada a ressureição do corpo, e nada mais. Não há implicação nenhuma sobre a alma.

E quando Teófilo afirma que: “Quando depuseres a mortalidade e te revestires da incorruptibilidade, verá a Deus de maneira digna”, o mortalismo entende que não há visão de Deus antes da ressurreição, no estado intermediário, pois o bispo afirma que é na ressurreição que o salvo poderá ver a Deus.

Essas seriam as provas de que Teófilo não era imortalista. De fato, em outra obra que o autor mortalista trata de Teófilo, ele fala de “claros indícios” de que o bispo não era imortalita.

Um exemplo seria a doutrina da conflagração universal, que Teófilo ensinava, e afirmou que também era a doutrina dos gregos. Mas, de fato, Teófilo escreveu das doutrinas que os filósofos ensinavam e que concordavam com a fé cristã, entre elas certamente está a conflagração universal, mas não na sua inteireza.

Como o próprio livro mortalista apresenta, essa doutrina ensina a destruição total do planeta pelo fogo, e que as almas durariam algum tempo após a morte até serem destruídas na conflagração. Teófilo não ensinava isso. Portanto, não é o fato do bispo também crer em certa conflagração universal que ele também iria crer no aniquilamento dos ímpios.

Ainda, quando Teófilo escreve ser “imortal”, o texto é interpretado como a doutrina da imortalidade condicional, ou seja, que haverá para os salvos a imortalidade após a ressurreição.

De fato, o bispo estava se referindo à ressurreição quando ele escreve: “...Deus ressuscitará a tua carne, imortal, juntamente com tua alma. Então, tornado imortal, verás o imortal””. No entanto, isso apenas significa que a alma se juntará com o corpo, e não que estava morta e foi ressuscitada.

Outra coisa, a posse da alma imortal não é o mesmo que ter imortalidade, pois a alma em si é imortal, mas na morte ela se separa do corpo, que é animado por ela, e isso é a morte. Portanto, trata-se de uma crítica errônea da doutrina da imortalidade da alma.

A doutrina católica não ensina que o homem é imortal hoje, como se a alma imortal significasse que a pessoa fosse imortal. De fato, a separação do corpo e da alma configura a morte, e se a alma continua em consciência e existência pós-morte, isso não é imortalidade da pessoa, mas somente de parte da pessoa que é a alma, e que por essa razão requer a ressurreição. Aliás, é a imortalidade da alma que explica o modo pelo qual a pessoa sente o estado de morte.

E sobre o cuidado de Deus com os salvos depois de mortos, que é uma referência do capítulo 38 do Livro II, tendo a ver com a ressurreição dos mortos, de fato, está correto. Contudo, isso não depõe contra a fé na imortalidade da alma, mas apenas mostra como o santo bispo estava ensinando a ressurreição.

Todas essas passagens foram interpretadas como implicando que a vida eterna só existirá após a ressurreição, que será o momento em que os salvos poderão ver a Deus e entrar no paraíso.

Mas, diante de tudo isso, temos outras passagens mais claras de Teófilo sobre a alma e o juízo, que implicam diretamente na imortalidade da alma e se harmonizam com essas outras passagens do autor nos seus livros.

Como exemplo, temos no Livro II, 29 que “a alma é chamada imortal”, ao fazer alusão à criação do homem em Gênesis 2, 7.

E no capítulo 38 ele faz uma comparação das doutrinas que os filósofos pagãos ensinaram uma vez, mas depois mudaram de opinião, sendo que essa segunda doutrina está conforme a fé cristã.

Assim, ele fala do politeísmo dos antigos escritores, mas afirma que depois de falar da “multidão de deuses”, eles passaram a “admitir a unicidade ou monarquia de Deus”.

Os que ensinavam a “não-providência”, passaram depois a ensinar a providência. Os que negaram o juízo, o ensinaram mais tarde.

Os que “negaram a sensação após a morte”, ou seja, que negaram a imortalidade da alma, “depois a confessaram”.

Em outras palavras, eles creram que a alma é imortal. E para isso, cita Homero que ensinou que a alma saía dos membros e voava para o Hades.

Dessa forma, ele afirma que os escritores chegaram a ensinar a verdade quando admitiram a unicidade e monarquia de Deus, a providência, o juízo e a sensação após a morte. Sabendo que a segunda doutrina é a correta, temos praticamente uma passagem clara sobre o que ensinva o bispo Teófilo.

Gledson Meireles.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Livro: A lenda da imortalidade da alma: sobre a tradição

 Refutação: O apelo à tradição

Quando se nega a autoridade infalível da tradição, que é a tradição apostólica, o afastamento da verdade é inevitável. E mesmo entre os protestantes, quando é negada a grande autoridade dos concílios protestantes, o fiel busca para si, e tem diante de si, autoridades menores, que ele cria para si mesmo involuntariamente, como por exemplo, segue impensadamente o que ensinam outros eruditos que se afastaram da tradição por seus estudos e interpretações particulares que, com o tempo, começam a formar uma pequena tradição para si mesmos, tradição essa que condiciona as novidades teológicas, o que na prática volta a ser, de certa forma, o que sustenta o dogma. Pensam estarem incondicionados, mas seguem uma tradição, ou criam dogmas sustentados por sua própria autoridade.

Assim é que, quanto à doutrina mortalista, vários estudiosos protestantes adotaram o sono da alma ou a inexistência da alma na morte, formando assim, uma nova tradição.

A possibilidade de que a doutrina não tenha sido preservada infalivelmente abre espaço para toda e qualquer falsa doutrina. É um perigo. Humanamente falando é impossível manter a verdade infalivelmente, mas o que se crê na Igreja Católica é que em se tratando de certas verdades importantes o Espírito Santo guia a Igreja à verdade.

Se em determinada época e Igreja viu-se na controvérsia sobre a imortalidade da alma e fez pronunciamento de que a alma é de fato imortal, então é impossível que isso tenha sido errado, pois a Igreja, em sua universalidade, é coluna e sustentáculo da verdade, como ensina a Escritura. Isso é o que traz a certeza.

Ainda, cada dogma consegue ficar de pé diante das mais terríveis objeções, como está sendo provado aqui, onde cada argumento mortalista é enfraquecido e refutado à medida que se aprofunda em cada um deles.

E mais. Há momentos em que as implicações dos estudos bíblicos tornam impossível a doutrina da morte da alma com o corpo.

Interessante é que sempre nas melhores interpretações possíveis, em todos os assuntos bíblicos, o que se chega é ao que a Igreja Católica já ensina. Por isso, mesmo que os mortalistas tenham certos argumentos bons e plausíveis, eles não conseguem vencer os argumentos que sustentam a posição tradicional de que a alma é imortal. Os mais fortes argumentos imortalistas não conseguem ser respondidos pelos mortalistas.

 

O autor afirma que a missa não poderia ser mudada nunca, segundo doutrina católica, citando a bula Quo Primum Tempore (1570), e que não existe a Tradição, mas somente tradições divergentes, etc.

Um exemplo de mudança de tradição seria o milenarismo que deu lugar ao amilenismo. Mas, pelo que se vê na Igreja, ainda que no tempo em que renomados autores ensinavam o milenarismo, a opinião geral era de que isso não podia dividir, não era dogma, e que muitos ensinavam o amilenismo, ficando portanto conforme a tradição católica aquilo que o magistério defendeu, mais tarde, o que está mais de acordo com o amilenismo.

 

Então, tudo deveria ser discutido à luz da Bíblia através de uma hermenêutica séria, como se isso não fosse feito por todas as igrejas. Na verdade, isso acontece sempre entre sérios eruditos, mas ainda assim pode haver erros. O Espírito Santo é que dirige a Igreja e a defende do erro.

 

A base comum sendo a Bíblia para definir com a confissão protestante está mais próxima da verdade ainda é um pouco problemático, porque as consciências individuais divergem. Assim, o conjunto do dos clérigos, papa e bispos, em uma doutrina geral promulgada é o que cremos ser o que ensina o Espírito Santo.

 

A lógica que o autor apresenta para a existência do magistério não é bem assim. Não é tão simples assim, como se o magistério se reunisse para interpretar a Bíblia para os demais membros da Igreja.

 

Os teólogos católicos estudam muito, são os mais profundos que existem em todas as confissões cristãs, basta dar uma olhada nas doutrinas e teses teológicas, basta ver o que diz a doutrina católica sobre a imortalidade da alma, como está sendo mostrado aqui. Os estudos acadêmicos na teologia católica contribuem para que o magistério da Igreja, em determinada ocasião, se assim for preciso, colha dados, informações, argumentos, etc., para fazer suas afirmações ordinárias e mesmo extraordinárias. Portanto, os católicos, leigos e clérigos, eruditos ou não, vão à Bíblia e contribuem, com toda a Igreja, no sensus fidelium, para que as doutrinas sejam esclarecidas para todos.

 

E se é a consciência individual que define tudo, então todos os católicos conscientes de que o magistério está correto e de acordo com a Bíblia e a Tradição estão certos e seguem corretamente a liberdade de suas consciências. E quanto à afirmação: “É o mesmo que dizer que você chegou à conclusão de que não pode interpretar a Bíblia interpretando a Bíblia”, certamente isso é um paradoxo e não uma contradição, já que todos sabemos que não podemos interpretar a Bíblia particularmente, pois a mesma é inspirada, e isso se conclui lendo a Bíblia.

 

Quem pensa estar livre para pensar, com sua consciência individual, que vai à Bíblia e usa as ferramentas hermenêuticas e exegéticas e tudo o mais que for possível, para concluir por si mesmo sem se submeter à tradição, ao magistério, e a quem quer que seja, ainda assim, em sua consciência individual terá que mostrar coerência, fé nas ferramentas que utiliza, dobrar-se diante das autoridades que cita, ainda que a contragosto e não admitindo, e com as quais concorda, que vieram antes dele e que indubitavelmente possui maiores conhecimentos naquele ponto do que ele, etc., trazendo tudo novamente para a mesma relação prática entre um católico fiel e a Bíblia, o magistério e a tradição.

 

A pesquisa que mostrou que mais da metade dos pastores nunca leu a Bíblia é bastante interessante. O autor diz: “imagine entre os padres”. Certamente, os padres, que supostamente leem menos a Bíblia que os pastores, na cabeça dos pastores é claro, em primeiro lugar, e da cultura geral em que os protestantes leem mais a Bíblia e possuem maior conhecimento dela. Certamente, os protestantes leem mais, mas não conhecem melhor a Bíblia.

 

Os padres devem ler a Bíblia e conhecê-la bastante bem para serem padres. Caso não a conheçam toda, nunca a tenham lido, vamos supor, ao se tornarem padres e participarem da missa diariamente, o que é comum acontecer, ao mesmo celebrarem a missa diariamente, estão lendo e ouvindo a leitura da Bíblia em sua quase totalidade em três anos, pois a liturgia católica apresenta aos fieis a Bíblia inteira em três anos litúrgicos.

 

A opinião de que a maioria dos padres, bispos e papas da história foram iletrados e etc., inclusive o magistério que se reunia em concílios, que não sabiam praticamente nada da Bíblia, e que os doutores de fato eram raros, é um equívoco.

 

De qualquer forma, é o Espírito Santo que guia a Igreja nesses momentos, e mesmo nos mais difíceis as doutrinas foram corretas, os dogmas podem ser estudados e confirmados pela maior erudição bíblica. A doutrina da imortalidade da alma está provada biblicamente. Alguém poderá ler a presente refutação é afirmar que ela não apresenta nenhuma refutação, que não mostrou nenhum argumento novo, que não merece resposta, que repetiu tudo o que já foi refutado no livro A lenda da Imortalidade da Alma, e etc. O mais difícil é apontar onde estão os erros, ainda que o leitor tenha diante de si o livro e a refutação, e é preciso apenas mostrar onde estão os erros, apresentando os motivos de serem erros. Esse tipo de abordagem é muito raro.

É certo que a verdade é imutável, e assim, as doutrinas verdadeiras não mudam, e são sinais da Igreja verdadeira. Por isso, os fieis são atraídos pela graça à verdadeira Igreja.

E sobre a leitura da Bíblia, que mais da metade dos pastores nunca leu, certamente isso não é a realidade dos padres, como os protestantes são inclinados a pensar, como se os pastores, que são solascripturistas, não leem a Bíblia como se imagina, os padres deveriam ler menos ainda. Porém, a realidade certamente é outra, e por que não pensar que os padres, por certo, na sua grande maioria, senão todos, leram a Biblia inteira.

Se os conciliares dos séculos passados, de cabelos grisalhos e barbas brancas, como afirma o autor do livro mortalista, tinham conhecimento questionável da Bíblia, e podem ter sofrido influências dos condicionamentos psicológicos do seu tempo, e que são tão humanos como qualquer pessoa, se esses tinham somente essas prerrogativas para decidirem questões de fé e moral nos concílios ecumênicos, então poderíamos duvidas. Mas, o que vemos é outro cenário. O que tudo evidencia é que esses homens de Deus tinham conhecimento profundo e viviam de acordo com a Palavra de Deus. E não somente isso. O Espírito Santo garante que tudo o que ali está decidido nas questões fundamentais para a vida espiritual e salvação das almas é  verdadeiro.

Obviamente, também, é natural que o conhecimento verdadeiro seja feito por instituições apropriadas para tal, de modo que nem em coisas menos significantes se pode esperar que cada indivíduo faça seu estudo de tudo para que se certifique de algo, mas os instrumentos e métodos para o ensino são ferramentas que fazem da transmissão do conhecimento algo mais rápido e eficaz, de modo que com o tempo aqueles que já estão bem formados possam por si mesmos verificarem aquilo que aprenderam e estão aprendendo. Dessa forma, é natural que todos sejamos ensinados pela santa Igreja, e cresçamos na fé em comunidade.

Mas, eis uma afirmação bastante ríspida: “Só que esses pastores e padres também não sabem nada, e só repetem aquilo que é a doutrina oficial da igreja, seja ela qual for.” Essa afirmação já está bem entendida, e por certo pode ser tomada apenas como um mínimo exagero.

E sobre o analfabetismo dos tempos medievais, onde mesmo membros do clero não sabiam ler e escrever, o que é atestado pelo historiador Ivan Lins, como citado no livro, isso se deve dizer que de fato houve tempos em que isso ocorreu, mas que o ensino oral era bastante eficiente e tudo indica que em muitos períodos daquela grande era medieval as pessoas simples podiam conhecer muito da cultura letrada por ouvir e assistir de teatros, encenações, etc.,que eram instrumentos bastante comuns para propagação da cultura, e da cultura bíblica, que estava de modo íntimo interligado a tudo o que pensava e sentia o povo medieval, que era muito cristão.

Dessa forma, a iluminação do Espírito Santo nos corações dos homens da Igreja, nos concílios e sínodos, principalmente nos concílios ecumênicos, garante a infalibilidade da doutrina cristã católica que perpassa os séculos.

Se os votos que aprovavam as doutrinas eram de “bispos iletrados, ignorantes, trapaceiros e depravados”, a mão de Deus foi mais poderosa ainda para garantir que nada daquilo que tais homens tinham de si mesmos em termos de crença pudesse ao menos influênciar a límpida e pura doutrina de Cristo. No entanto, por certo, que haviam iletrados, ignorantes, trapaceiros e depravados, isso existia, mas é de se pensar que a Igreja de Cristo foi sempre dirigida por santos papas, bispos, presbíteros e diáconos.

A tradição de cada demoninação tem enorme papel no credo. No entanto, a tradição apostólica é mantida na Igreja Católcia pela ação do Espírito Santo, e não por força meramente humana.

A Bíblia mostra que a alma é imortal, e os padres da Igreja em consenso geral ensinam o mesmo. Por isso, não é apenas por ser uma doutrina tradicional, mas por ser bíblica, e os argumentos mortalistas não conseguiram manter-se diante de cada refutação.

Será que a doutrina da imortalidade da alma recebeu crédito imerecido e se tornou imune às críticas só por ser doutrina tradicional? É claro que não, e a presente refutação é prova cabal disso, já que pelo estudo bíblico derruba todos os argumentos mortalistas.

Basta pensar um pouco, e ver que a objeção de que o homem é alma, e que isso significa que não tem alma, e que a alma é a pessoa, uma coisa física, ou a vida física usufruída pelo ser humano na terra, e nada mais, basta ver que esse argumento não pode provar que a alma imortal não existe, mas apenas mostra um sentido muito comum da palavra alma nas Sagradas Escrituras.

E, diante disso, quando se mostra que o termo alma possui de fato vários sentidos, e que desses se pode perceber a existência da espiritualidade da alma humana, que não pode morrer, diante de outras tantas passagens que demonstram que há no ser humano uma parte que permanece viva e consciente na morte, que esse argumento mortalista é refutado por completo. Dessa forma, a doutrina da alma imortal não é algo sem solidez e irracional, mas sólido e racional e bíblico acima de tudo.

Assim, a imortalidade da alma é bíblica, é verdadeira, e portanto é tradicional. E como São Cipriano, citado no livro, afirma que devemos procurar a origem da tradição, se é do Senhor, e do evangelho, das epístolas e dos apóstolos, então é verdadeira. Dessa forma é a doutrina da imortalidade da alma.

E é bom lembrar que São Cipriano, naquele momento, como explica o livro mortalista, estava em uma discussão como papa sobre o batismo de hereges. No entanto, o papa estava correto, e a verdade prevaleceu. Um santo também erra em suas interpretações bíblicas, mas a Igreja em peso não pode cair em heresia, pois o Espírito Santo não permite.

E lembrando que não foi Atenágoras o primeiro a ensinar a imortalidade da alma, como ficou claro no estudo dos primeiros padres da Igreja, na refutação de cada uma dos padres estudados.

Dessa forma, aqui são feitos estudos minuciosos para provar pela Bíblia que a alma é imortal, com exegese séria, à luz do ensino bíblico, e considerando de perto cada objeção mortalista.

Gledson Meireles.

domingo, 14 de janeiro de 2024

Livro: A lenda da imortalidade da alma: Hermas

Refutação: • Hermas (70-155)


O Pastor de Hermas, obra importante, que foi acreditada ser inspirada por muitos cristãos na antiguidade, afirma que o mundo futuro será verão para os justos e inverno para os pecadores. Depois afirma que os ímpios serão queimados, como maderia morta. Isso indica o aniquilamento ou é apenas uma simbologia para o inferno? Certamente, estando de acordo com a doutrina bíblica, é a segunda opção.

Em muitos lugares Hermas afirma a morte daqueles que não obedecem a Deus. Esses já vivem na morte. Há também a ideia de uma possibilidade de conversão de muitos, e impossibilidade para outros. Isso deve-se, por certo, da recusa desses de se converterem, pois em todo o livro pode-se perceber o livre-arbítrio.

Na sexta parábola, no parágrafo 62, encontramos o anjo da volúpia e do erro que “aniquila” as almas. Nos maus desejos, essas almas morrem. O anjos destrói esses infiéis. Uns morrem e outros se corrompem, diz o texto. Isso significa que a corrupção ainda deixa possibilidade de conversão, enquanto “a morte implica em perdição eterna”.

Essas expressões podem auxiliar no entendimento da questão da aniquilação. Tudo parece ser simbólico, pois muitos ds pecadores já estão mortos, aniquilados. Outros estão corrompidos. A corrupção deixa espaço para que haja restauração, enquanto que a morte leva à perdição. Essa linguagem está em conformidade com a doutrina do inferno.

Há também no número 97 a visão de mulheres que matam os condenados. Não há lugar para ler isso como uma alusão ao aniquilamento. De fato, no número 98 há a expressão dos que “não vivem e nem estão mortos”.

A ideia de que muitos não possuem mais esperançade serem salvos, como os que pecam gravemente e não querem arrependimento, vemos os que já não possuem esperança de viver, no parágrafo 103.

E no número 105, há a alusão à prisão: “se o nergares sereis entregues à prisão”, o que certamente é o inferno. De fato, não há como estar preso o que não existe. Temos assim que a vida é tirada dos pecadores que não fazem penitência, a isso não significa que eles deixaram de existir, mas que não possuem a vida em Deus e não entrarão no reino e não estarão do lado de Deus.

Por isso, a interpretação mortalista de algumas expressões em Hermas como se fossem aniquilacionistas é uma opinião bastante fraca, que não possui robustez, e tem toda indicação de que está equivocada.

Desse modo, quando Hermas afirma que os justos herdarão o Reino no futuro, isso não depõe contra a imortalidade da alma, já que a alma está em glória à espera da ressurreição para a herença do Reino. E quanto à distinção aludida entre justos e ímpios, isso será possível no juízo, onde serão manifestadas as obras de cada um. Nada disso é contra a doutrina da imortalidade da alma.

O livro mortalista cita Pastor de Hermas 53, 1-5 como prova de que na concepção de Hermas só haverá vida consciente após a ressurreição. Mas, como explicado acima, essa interpretação está equivocada.

No livro que trata os padres da Igreja mais diretamente, o autor cita Pastor de Hermas 7, 3; 10, 1; 53, 1-5; 62, 1.3-4; 64, 1-4; 65, 7; 72, 6; 73, 3; 74, 3-4; 75, 4; 77, 3; 93, 5; 95, 2; 96, 1-2; 98, 4; 100, 4; 114, 1.

Nessas citações pode-se ver que a morte é simbólica. Assim, os que pecaram e estão longe da verdade podem converterem-se e viver. Essa morte é espiritual, e não um aniquilamento.

Em Hermas 95, 2 há os que pecam sem conhecer a Deus, e são condenados à morte, e os que conhecem a Deus e pecam são “duplamente castigados”, morrendo para sempre. O que isso significa? Que a morte primeria que castiga uns é temporária e só a segunda é eterna? Certamente, significa que para uns é possível a conversão e viverão na graça de Cristo, enquanto que para os obstinados isso não é possível e serão condenados agora e na eternidade. Essa condenação é perder a vida, ser lançado na prisão, como visto acima.

Entretando, o autor mortalista não percebeu o que está no capítulo 93. De fato, em outra obra o autor faz a citação dessa passagem, lendo-a como condicionalista, pois afirma que a “linguagem condicionalista” é usada por Hermas quando escreve: “adormecidos no poder e na fé do filho de Deus”. Contudo, não é explicado o contexto dessa afirmação.

Parece que o mortalismo entende que “adormecidos” significa aniquilados, o que não está no contexto do Pastor de Hermas.

Ali está escrito que os espíritos dos mortos do AT foram batizados para terem vida e entrarem no Reino, pois antes estavam mortos, pois não tinha o selo do batismo de Cristo.

Deve-se entender mais. Aqueles que morrem antes de Cristo, ainda que “na justiça e na pureza”, como afirma Hermas, esses estavam mortos, ou seja, eram mortos literalmente que estavam mortos espiritualmente, mas não como condenados. Aqui há uma outra concepção para a morte aludida. Essa morte é não ter ainda o conhecimento de Jesus Cristo, não ter o batismo, que é o selo de Cristo para a vida.

Aqui fica claro que a morte desses espíritos era simbólica, por não conhecerem a Cristo ainda. Os apóstolos e doutores foram no espírito pregar a batizar os “que tinham morrido antes deles”.

Portanto, esses precisavam do selo do batismo. Se as expressões que colocam ênfase no futuro, para a ressurreição, podem ser lidas e entendidas por quem crê na imortalidade da alma, essa passagem é impossível que alguém que não creia na imortalidade da alma também possa acreditar que os mortos do Antigo Testamento ouviram a pregação do evangelho e foram batizados pelos apóstolos e doutores. Portanto, está refutado mais um argumento mortalista.

Que o leitor entenda que não há espaço para opinião, pois é um fato que não se adequa à interpretação mortalista apresentada, o que significa peremptoriamente sua refutação.

E por fim, fica mais um testemunho de que os primeiros cristãos criam na descida de Jesus aos infernos, como está nas Sagradas Escrituras e pode ser provado por um estudo sólido das passagens bíblicas que se referem a esse fato. 


Gledson Meireles.

 

 

sábado, 13 de janeiro de 2024

Livro: A lenda da imortalidade da alma: Nemésio de Emasa

 Refutação: • Nemésio de Emesa (350-420)

 

O cérebro como órgão responsável pelas funções do corpo não exclui que a energia usada pelo cérebro venha da alma. E certamente Nemésio cria na imortalidade da alma, aceitava essa conclusão.

Quando Nemésio diz que a alma não pode estar em algum momento sem o corpo e que ela não tem existência por si, isso significa que a alma foi criada no corpo, como sua forma, assim como está na Bíblia em Gênesis 2, 7. A alma forma com o corpo uma pessoa. Talvez se refira à separação da alma e do corpo enquanto a pessoa vive, o que não é possível, pois somente a morte de fato separa corpo e alma. Essa afirmação está conforme a imortalidade da alma, e é corroborada por Nemésio.

No mais, Nemésio ensinou que a alma é incorpórea e, portanto, imortal, como afirma a enciclopédia Britannica. Sendo assim, ele é um testemunho a favor da imortalidade da alma, e foi colocado como contra, com uma citação que não foi compreendida e não afirma o que o mortalismo pretendeu provar, o que está equivocado.

E como no livro mortalista não há nada sobre o que Nemésio de fato ensinou sobre a alma, aqui está um resumo para refutação do total da argumentação mortalista sobre esse escritor cristão.

Nemésio apresenta o estado da questão e afirma que é necessária uma longa refutação dessas múltiplas opiniões. Sobre a imortalidade da alma, afirma:

“É possível provar que a alma é imortal usando os mesmos fatos” (sobre o que ele estava argumentando anteriormente na sua obra). Então, continua: “Pois, se ela não é nem um corpo, o qual foi mostrado ser naturalmente capaz de ser dispersado e perecível, nem uma qualidade nem quantidade nem qualquer coisa perecível, está claro que ela é imortal”.

Ainda, afirma que há provas da imortalidade da alma em Platão e outros, que são difíceis de compreender, mas que “para nós”, cristãos, basta as Sagradas Escrituras:

“Para nós deixe o ensino dos livros sagrados, suficiente como prova da imortalidade da alma, pois é confiável em si mesmo, visto que é divinamente inspirado.”

Então, Nemésio baseia-se na Bíblia para as provas da imortalidade da alma, e afirma que para aqueles que não aceitam os escritos cristãos, é suficiente mostrar que a alma não é aquilo que pode perecer.

 Dessa forma, mais uma refutação do livro mortalista, e Nemésio foi mais um exemplo equivocado usado pelo mortalismo.

Gledson Meireles.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Livro: A lenda da imortalidade da alma: Taciano

 Refutação: • Taciano, o Sírio (120-180)

O mortalismo cita Taciano como ensinando a mortalidade da alma, a inseparabilidade da alma e do corpo. E isso seria mais um exemplo de um pai da Igreja contra a imortalidade da alma.

De fato, Taciano afirma que na morte o ser não existe, que a imortalidade foi perdida pelo pecado, e que a alma não pode aparecer sem o corpo e o corpo não pode ressuscitar sem a alma, o que é considerado um “golpe fatal no dualismo grego”, onde a alma não poderia existir fora do corpo e manter a consciência.

A doutrina de Taciano era que existe espírito em todas as coiss, mas há diferença entre os espíritos (cap. 11). E no capítulo 12, contra a doutrina grega. Taciano afirma que a alma é mortal.

De fato, ele ensinou a morte da alma, e que também a imortalidade foi perdida pelo pecado original, mas a sua doutrina não era tão simples como acima foi apresentada, nesse resumo feito a partir do livro mortalista.

Quando ele diz que a alma receberá imortalidade, e afirma que na morte os homens não recebem poder mais eficaz, mas deixam de existir, ao mesmo tempo ele afirma que existe a alma, que é separável do corpo, e que há possibilidade de que a alma não morra com o corpo. Seria então que alguns conseguiram tornar sua alma imortal?

Sendo Taciano um herege, ele pode ter vários pensamentos e doutrinas que não concordam com a Igreja, e não têm relação com o que pensavam os cristãos em sua época.

No caso, Taciano pensava na “morte” da alma, e isso, portanto, era uma heresia. Temos aqui um exemplo que não depõe contra a doutrina da imortalidade da alma, mas que serve para realçar o fato de que a Igreja ensinava justamente isso, e não é o fato de Taciano ensinar diversas doutrinas particulares que prova que tal era a crença geral.

Santo Ireneu condenou a heresia dos encratistas, que eram contrários ao matrimônio, que negavam a salvação de Adão, e inclusive cita Taciano, que foi herege, não seguindo os exemplos de São Justino (cf. Contra as Heresias, I, 28, I).

No entanto, Taciano afirmava que os ímipios receberão “pena na imortalidade” ou “morte na imortalidade”, ou seja, que não morrerão. Assim, ele cria na mortalidade da alma, mas não cria que os ímpios ressuscitados voltariam a morrer.

Mas, ainda, o que é interessante, na obra Discurso contra os gregos, ele afirma que a alma “é também capaz de não morrer”, e que aqueles que possuíram o conhecimento de Deus, não podem morrer: “Por outro lado, não morre, por mais que se dissolva com o corpo, se adquiriu conhecimento de Deus.” Ou seja, se o ímpio morreu, ainda que o corpo seja corrompido e se desfaça, ele não morre, pois a alma continua existindo e viva.

Os capítulos 14 e 15 da obra de Taciano explicam o fato de os demônios não poderem morrer facilmente. Ele ensina que a alma deve estar ligada ao Espírito Santo, pois isso foi perdido. Ele afirma que alma possui muitas partes, e só aparece com o corpo, e o corpo não pode ressuscitar sem a alma.

Ele afirma que os demônios irão manter sua imortalidade quando forem punidos. Eles irão “morrer”, mas “morrendo continuamente mesmo enquanto eles vivem”, ou seja, é uma morte espiritual, não literal, uma metáfora para a condenação dos demônios.

Ainda, ele afirma que, ao contrário das heresias gregas que ensinam que somente a alma possuirá a imortalidade, ele afirma que o corpo “também” a possui. E quando fala da ressurreição, Taciano usa a expressão “ressurreição de corpos”.

Gledson Meireles.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Livro: A lenda da imortalidade da alma - refutação sobre o fogo eterno

Refutação: • O “fogo eterno”

O autor do livro mortalista reconhece que as passagens claramente falam de um fogo eterno, que não se apaga, mas preocupa-se em frisar que nessas passagens não há as palavras tormeno eterno e consciente. A primeira simples resposta que deve vir à mente é que o fogo não faz sentido ser eterno se não há consciência. A segunda é que para que o fogo eterno tenha o sentido de algo que acabou, já que ficou completa sua ação, que foi finalizada, isso deve ser provado pelo contexto imediato, e, também, por outras passagens, pela doutrina bíblica sobre a questão, e pela teologia referente ao assunto. Mas, pelo contrário, tudo é claro de que existe de fato o tormento eterno pelo fogo, de maneira consciente, como está claro na expressão fogo eterno.

O fogo como metáfora, a exemplo de Isaías 34, 9-10, que diz que os ribeiros de Edom pegarão fogo para sempre, não serve para refutar o fogo do inferno. Da mesma forma outra passagens aludidas. De fato, tudo o que se diz tem sua acepção simbólica que indica algo literal por trás. Não se deve literalizar uma passagem simbólica.

Ainda, a terra de Edom ficou desabitada, e é curioso que o fogo eterno não diz que atormentará seus habitantes, mas que destruirá a cidade. É uma figura do castigo. E mais, os texto que tratam do inferno indicam o castigo eterno em comparação com a vida eterna, o que mostra que há existência de réprobos e salvos, onde uns experimentam tormento e outros vivem a felicidade. É uma cena diferente.

As refutações feitas ao mortalismo nos respectivos contextos onde aparecem as expressões fogo eterno e fogo que não se apaga já explicam o motivo dessas expressões denotarem de fato o inferno eterno.

Quanto à interpretação do inferno como Hades, o qual será lançado no Lago de Fogo após a ressureição, pode-se responder, segundo a doutrina católica, que o inferno é o hades, que é o mesmo que lago de fogo. Contudo, o significado do Hades no Apocalipse (Ap 20, 13-14), quando se refere à sua destruição no Lago de Fogo, é de Morte, ou seja, ali está se referindo à Morte, que será destruída, aniquilada mesmo, já que não é algo pessoal, tangível, consciente, mas um estado que surgiu por causa do pecado, não existindo mais, pois está sendo personificada ou objetivada nessa passagem.

O Lago de Fogo é o lugar do castigo, o inferno, mas o Hades como Morte não pode sofrer castigo, sendo tudo isso um simbolismo para o fim da morte. Não há na teologia católica a diferenciação entre inferno atual (Hades) e inferno final (Geena) como se encontra nos textos imortalistas protestantes, referidos no livro mortalista, e postos em discussão.

Para a doutrina católica o Hades é o inferno, como está na parábola do rico e do Lazáro, o que é uma prova clara, e assim é o mesmo que Geena, que é o Lago de Fogo, que são apenas nomes diversos para a mesma realidade.

Para isso, basta perceber que o Hades em Ap 20, 13-14 é a morte que atinge todos os seres humanos, a não o lugar de castigo dos ímpios, enquanto que em outras passagens se refere ao castigo, como o referido texto em Lucas 16.

E quanto à ira de Deus, ela é eterna para os réprobos, e em relação ao povo de Israel, que tem a promessa, esse nunca esteve sobe a ira eterna, mas somente provisória, por vezes na história, o que explica o texto. Assim, no perdão, a ira acaba. Não seria igual se se dissesse que a ira de Deus sempre termina, levando ao universalismo, para o perdão de todos os réprobos, o que não aparece na Bíblia em nenhum lugar.

Quando se diz que aion é usado para significar algo que dura até certo tempo, mas que quando se refere a Deus ou ao destino eterno dos salvos e ímpios significa de fato “para sempre”, é preciso discernir que aí só falta provar que castigo é o tormento, e não a destruição ou aniquilamento, o que já está feito em várias passagens. Dessa forma, o fogo eterno é o tormento eterno.

O fogo eterno seria o fogo que não se apaga até que complete sua função. Eis o argumento mortalista. Mas, como já estudado em tópico respectivo, a ideia do fogo devorador sempre está no contexto de uma destruição instantânea, e não é esse o momento do castigo eterno, como já explicado em tantas passagens.

Portanto, o fogo do inferno, como está nos evangelhos, é de fato eterno e atormenta os réprobos conscientes.

As provas do inferno já estão dadas no presente estudo, e não há porque entender as metáforas bíblicas literalmente, como se um fogo que queimou uma cidade no passado esteja queimando literalmente até os dias de hoje. Isso de fato é bastante pacífico para os cristãos. Dessa forma, o fogo do inferno indica o tormeno eterno pelas muitas razões já apresentadas em tópico apropriado.

A imagem simbólica do fogo que queima os cadáveres dos ímpios condenados em Isaías 66, 24 também já foi explicado, e trata-se de uma metáfora que mostra como os ímpios sofrerão no inferno, e não literalmente que os corpos permanecerão queimando para sempre. Literalizar isso é um erro.

E se o Eclesiástico 28, 26-27 afirma que o fogo consumirá sem se apagar é porque o fogo eterno não se apaga mesmo, pois o livro inspirado contem palavras claras que servem para esclarecer passagens menos claras. Assim, o mais provável não é que o fogo se apague assim que os cadáveres sejam totalmente queimados, mas que existe um fogo que realmente não se apaga para atormentar os condenados. Por esse motivo, o fogo que não se apaga é o mesmo que o fogo eterno expresso no evangelho.

O fogo queimará os ímpios de modo a não consumi-los, ainda que não sejam glorificados, pois se trata de um fogo espiritual, literal, mas certamente diverso do que há na terra. Então, a doutrina do fogo eterno não é diabólica e aberrante, mas bíblica.

Gledson Meireles.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Livro: A lenda da imortalidade da alma: refutação do item sobre Mt 25:46

Refutação: • O “castigo eterno” de Mateus 25:46

A palavra kolasin traduzida por imortalistas como “castigo” ao invés de “tormento”, daria ao argumento mortalista alguma força? A resposta mais simples é não, já que mesmo na doutrina imortalista ambas as traduções podem ser feitas, enquanto que para o mortalismo apenas a tradução como “castigo ou punição” podem ser usadas, já que tormento é um substantivo que aniquilaria a doutrina mortalista.

Após mostrar vários dicionários que traduzem o termo como castigo, o autor mortalista afirma: “Como se nota, kolasin tem muito mais a ver com extirpar alguém da vida do que com sofrimento contínuo e consciente.”.

Se o sentido de tormento é tirado e afastado do significado de kolasin, então isso afetaria até mesmo a doutrina mortalista que crê no tormento proporcional que esse castigo comporta. Então, não há refutação nenhuma por parte do mortalismo quando se argumenta com base no significado de kolasin.

Outro argumento é que o sentido mais apropriado para tormento deveria ser expresso pelas palavras kakopatheo, odin, ponos  e  pathema, com exemplos de textos: (1Pe 1:11; 2Tm 2:3; Tg 5:10; Mt 24:8; Ap 21:4).

Além do mais, na Concordância de Strong, número 2851, define a palavra como correção, sendo que kolasis significa, entre outras coisas, tormento: castigo, punição, tormento, talvez com a ideia de privação. A ideia de tormento é lembrada com 1 João 4, 18: “porque o temor envolve castigo”, na tradução da Bíblia Ave Maria. Certamente, o sentido mais claro é que o temor envolve tormento, pois é o que se sente quando há temor. Dessa forma, não é certo que o termo nunca tenha o sentido de tormento na Bíblia ou na literatura secular, como argumenta o autor do livro.

A palavra castigo é usada na tradução tanto de Mt 25, 46 quanto de 1 João 4, 8, o que mostra que não há viés doutrinário por parte dos tradutores católicos.

De fato, temor envolve já um tormento, o medo do castigo. Antes do castigo já há sofrimento pelo temor. E seria estranho que a Concordância de Strong disponibilizasse o sentido de “tormento” se esse não existisse.

O contraste constante entre vida e morte é uma realidade. A vida eterna e a morte eterna. Assim, o castigo final seria a morte eterna. Mas, como vimos em tantas e tantas objeções, não se pode dizer que a morte final seja inexistência, mas que comporta de fato um castigo, um tormento eterno.

De fato, é interessante o argumento que diz o seguinte: o homem morrerá uma só vez e depois disso haverá o juízo, como ensina Hebreus 9, 25. Para o mortalismo os ímpios morrem duas vezes. Para o imortalismo, os ímpios morrem literalmente uma vez e não mais, pois a segunda morte é uma metáfora para o castigo do tormento eterno, e não mais uma separação da alma e do corpo.

O verso 2 Ts 1, 9 já foi explicado, e contradiz o aniquilacionismo, já que a “destruição” é a “separação da presença do Senhor”, o que denota existência, pois os ímpios sofrerão por não estarem com o Senhor. E a palavra pipto, como mencionada na livro, usada para perder, significa cair, em sentido literal e metafórico.

O termo olethros é o número 3639 na Concordância de Strong. E aparece com o sentido de apollumi em 1 Tm 6, 9 “ruína e destruição” (olethron e apoleian) são usadas como intercambiáveis, como tendo mesmo sentido, o sentido interligado.

Um exemplo usado no livro para ilustrar a destruição completa e tentar refutar a ideia de tormento eterno é o seguinte:

“Para usar um exemplo didático, imagine se eu estivesse muito irritado com o meu celular e dissesse que vou destruí-lo para sempre. Com certeza ninguém em sã consciência entenderia que eu irei quebrá-lo de novo e de novo, dia após dia por toda a eternidade, mas que irei destruí-lo de tal modo que não sobrará mais nada – o celular estará permanentemente destruído.”

Diante disso, podemos dizer, com a Bíblia, que o castigo “dia e noite” (cf. Ap 14, 11), por esse mesmo raciocínio, não pode significar destruição completa e inexistência, pois a própria definição de algo que dura dia e noite, ou como diz o exemplo didático acima, “dia após dia” é o contrário de destruição completa.

De fato, quem padece a segunda morte nunca mais voltará à vida porque não poderá estar com Deus, que é a verdadeira Vida. Tudo em sentido metafórico, e não como morte significando intexistência.

A morte eterna não significa inexistência, pois não poderia haver tormento eterno, como fumaça que sobe eternamente, e que não há descando dia e noite, como está em Ap 14, 10-11, o que prova que a morte eterna, ou segunda morte, não é uma morte como a física, mas um castigo que separa o ímpio da vida de Deus.

A existência sem Deus não é vista como “vida” na Bíblia, e por isso está refutado esse argumento mortalista. A vida eterna é uma existência em felicidade com Deus, e a morte eterna é a infelicidade do lago de fogo, que é o inferno.

Gledson Meireles.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Livro: A morte da morte na morte de Cristo, de John Owen - argumento 2, capítulo 30.

 II.  Cristo veio salvar todos os pecadores, não somente alguns deles

John Owen tenta refutar essa doutrina de que Cristo veio salvar a todos os pecadores. Afirma que a Bíblia não coloca exceção ou restrição sobre as pessoas pelas quais Cristo morreu, pois isso seria contradição. Entretanto, apenas que uma parte da Bíblia interpreta outra, e entende que “todos” tem a ver somente com os eleitos.

Então, o reformado crê que Cristo morreu por todos, utilizando a mesma linguagem bíblica, porém interpretando isso como sendo “todos” no sentido restrito de igreja, eleitos, ovelhas, crentes, de toda sorte, de toda raça, de todas as nações e línguas.

É preciso dizer que isso não é o que a Bíblia afirma. Quando dizemos que cremos que Cristo morreu por todos, a palavra todos quer dizer literalmente todos os homens e mulheres, sem exceção. O reformado entende que todos quer dizer todos os eleitos. É uma fundamental diferença que o reformado tem para si interpretando de maneira diversa as passagens bíblicas que claramente ensinam a redenção universal.

Owen afirma que o argumento dado muda apenas de aparência, sendo o mesmo de antes. Também, que proposições indefinidas são tornadas universais. Por exemplo, Owen não crê que Cristo morreu pelos pecadores no sentido que morreu por todos os pecadores, mas apenas pelos pecadores eleitos, como esclarecido acima. Podemos ver que isso é forçar as Escrituras, já que sendo essas proposições indefinidas, elas são naturalmente universais, pois do contrário as Escrituras seriam claras ao restringir todas essas passagens somente aos eleitos.

Para provar sua asserção, Owen cita Romanos 4, 5 onde está escrito que Deus justifica o ímpio. Isso seria prova de que Deus não justifica todo e qualquer ímpio. Mas o problema é que a Bíblia está afirmando o que Deus faz ao justificar alguém, que é um ímpio, sempre sendo um ímpio, sem exceção. Isso está na Vontade de Deus, que justifica o pecador, seja ele qual for, sendo assim essa justificação aberta a todos. É isso que a passagem está afirmando, no seu sentido, não apenas nas suas palavras, como Owen exige que seja feito segundo as regras corretas de interpretação bíblica. Assim, mas um argumento refutado.

Quando é dito em João 3, 19 que os homens amaram as trevas, não sendo todos os homens, Owen está correto em trazer esse exemplo, mas erra ao torná-lo igual aos anteriores que mostram que Cristo morreu por todos. Isso porque em João 3, 19 podemos ver pelo contexto que esses homens que não creram foram muitos e não todos, pois são os que praticam o mal, e não os que praticam o bem, como está em João 3, 21. Mais um exemplo refutado.

Quando diz em João 1, 10 que o mundo não conheceu Cristo, também o contexto está claro que não é a todas as pessoas que a afirmação está se referindo, fazendo uma alusão à raça judaica que não aceitou a Cristo em contraposição aos que podem crer no Nome dEle, v. 12, que são todos, pois todos possuem essa possibilidade de crer, o que está aberto a todos e cada um dos seres humanos sem exceção. Dessa forma, o terceiro exemplo de Owen também está refutado.

Ainda, segundo 1 João 5, 19 todo o mundo jaz na iniquidade. O próprio verso já afirma que há pessoas que não estão na iniquidade: “Sabemos que somos de Deus, e que o mundo todos jaz sob o Maligno”. Então, as palavras “mundo todo” já estão explicadas no contexto, aliás, no próprio versículo, ou seja, o mundo está sob o poder do Maligno, mas não os que são de Deus, os que crêem em Cristo.

Essas “proposições indefinidas”, como Owen explica, são entendidas no seu contexto, e, portanto, os quatros exemplos citados estão refutados (Rm 4, 5; Jo 3, 19; Jo 1, 10; 1 Jo 5, 19). As proposição que tratam da morte de Cristo por todos estão explicadas no contexto, demonstrando que se referem de fato as toda e qualquer pessoa sem exceção.

No terceiro argumento de Owen, ele afirma que “todos” tem a intenção de dizer que são os pecadores e o mundo, pelos homens pecadores em diversas gerações, mas não um coletivo universal, que acredita ser um sofisma e falso.

Para isso, acredita que as passagens que falam de “todo o seu próprio povo” ou dos “filhos de Deus dispersos pelo mundo inteiro” explicam que todos se referem restritamente a esses que estão salvos.

No entanto, nada mais confuso, já que cada sentença chamada indefinida possui em seus respectivos contextos sua acepção de coletivo universal, e por isso cada vez que um pecador se converte, ou seja, é convertido por Deus, pode dizer claramente que foi salvo, que foi amado por Deus, que Cristo morreu por ele.

Se os textos de Romanos 3, 10.19.20.23 ensina algo claramente, é que Cristo morreu de fato por todos os pecadores. Basta ver que no v. 10 está escrito que não há justo, não há sequer um, o que é entendido como referente a todos, como uma prova do pecado original que atingiu toda a raça humana a partir de Adão. Então, todos quer dizer toda e qualquer pessoa.

O verso 19 afirma que “o mundo inteiro seja reconhecido culpado diante de Deus”, o que significa de fato o mundo inteiro sem exceção de ninguém. De fato, não há como alguém não ser considerado culpado, e, portanto, “mundo inteiro” é, como as palavras claras dizem, de fato o mundo inteiro, com todas as pessoas sem nenhuma exceção.

A justiça de Deus é para todos os fieis pois “todos” pecaram e estão destituídos da glória de Deus, afirma, o verso 23, o que novamente é prova do pecado original, que atinge toda e qualquer pessoa. Desse modo, quem crê é justificado. Deus justiça quem tem fé em Cristo (Rm 3, 26). Essa é uma proposição que está aberta a todos, e todos sem exceção, como fica claro pelo contexto.

Dessa forma, aqui em Romanos 3, 1-23, se faz a aberta da salvação a judeus e pagãos, a circuncisos e incircuncisos, de modo que não há exceção de ninguém. Sendo assim, mais um argumento Owen que cai por terra.

Gledson Meireles.