domingo, 23 de abril de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma, refutação do capítulo 11

 

O autor tenta provar que a alma não é imortal usando o método comparativo, onde julga se as provas são suficientes, em uma avaliação mais técnica e criteriosa. Assim, comparando o teor da Bíblia com outras obras imortalistas da época, para ver se as expressões são iguais.

Pelo que o autor escreve, o que se encontra na Bíblia e que é usado para provar a imortalidade da alma é algo escondido, nas entrelinhas, escrito de forma modesta e sutil, em parábolas, símbolos ou declarações subjetivas, onde que não, pois as obras mortalistas falam da alma imortal expressamente sem deixar dúvidas.

Por que os autores bíblicos não expressam o imortalismo explicitamente? Por que usavam expressões que nunca são usadas por outros autores imortalistas?

Os escritores do NT tinham a crença predominante, a de que a alma é imortal, por isso não tratavam do tema. Ou seja, se os escritores cristãos negassem o imortalismo, eles falariam abertamente contra a imortalidade da alma, apregoando sua nova fé, e isso não é encontrado em lugar nenhum. Desse modo, eles eram imortalistas e continuaram a ser depois que se tornaram cristãos, pois é um ponto de fé comum.

Se eles fosse mortalistas, teriam de falar abertamente contra a imortalidade da alma, não é mesmo?

Todos os judeus acreditavam na imortalidade da alma? Não, isso é óbvio, mas a fé majoritária e predominante era essa, que era a fé do ramo principal, o farisaico, o que parece ser o contrário do que ensinou o Dr. Bem Witherington.

Na tese mortalista, entre os judeus da Palestina havia mais mortalistas? Partindo do pressuposto de que a maioria dos judeus era “mortalista”, deveria haver na Bíblia grande teor imortalista, segundo o princípio apresentado. Na verdade, deveria haver grande teor contra a doutrina da imortalidade da alma, o que não há.

Entretanto, o problema é que não está provado que a maior parte dos judeus era mortalista, como diz o Dr. Ben. É um problema para o mortalismo resolver.

Agora, vejamos a situação onde os judeus da Palestina eram majoritariamente imortalistas.

O que pregariam como cristãos? Será que isso não explica a pouca ênfase dos apóstolos sobre o tema, já que é falsa a pressuposição “de que alguém que já cria em alguma coisa não tem interesse em expô-la e propagá-la”?

Por que os apóstolos pregam a ressurreição com tanta ênfase, mesmo que sempre tinham crido na ressurreição, escrevendo mesmo aos judeus?

A resposta é muito simples e fácil: a ressurreição de Cristo estava sendo negada em toda parte. A controvérsia geral gera a produção de provas. É muito simples e irrefutável.

Até os judeus negavam a ressurreição de Cristo, o que explica o tema sendo dirigido a todos, judeus e gregos, uma doutrina que era negada até mesmo em relação à ressurreição dos salvos, entre cristãos.

A imortalidade da alma não estava em disputa pelo teor do Novo Testamento. Não era um tema negado geralmente. Havia muitas doutrinas sobre isso, como está nos apócrifos, mas em geral havia a crença na alma imortal. Portanto, não havia ocasião para enfatizar esse ponto doutrinal. Ou há outra explicação?

Os dois exemplos usados para refutar a pressuposição “de que alguém que já cria em alguma coisa não tem interesse em expô-la e propagá-la” é a seguinte:

“Se essa lógica fizesse algum sentido, os adventistas deixariam de falar do sábado nos cultos deles, já que todo mundo ali sabe que deve guardar o sábado, e os católicos deixariam de falar da Virgem Maria em suas missas, já que todo mundo ali sabe decor e salteado que deve venerá-la e cultuá-la.”

Mas isso não refuta o que foi apresentado acima, de forma fácil. Há duas coisas que o autor não percebeu, e que refuta seus argumentos.

Os adventistas pregam o sábado enfaticamente, e sendo isso pacífico em seu meio, o mesmo não diminui a ênfase, mais apologética, pois em geral todos negam a guarda do sábado na cristandade. Eles sempre estão tratando do tema, ainda mais quando recebem novos conversos. É uma doutrina que entra em desacordo com a maioria dos cristãos, e a controvérsia gera esse clima de ênfase na doutrina. Portanto, o sábado é um dos distintivos adventistas. Precisam aprender bem para lidar com os demais cristãos que negam a doutrina.

O outro exemplo, é que ainda que todos os católicos creiam que deve-se cultuar e venerar a virgem Maria, tal assunto é muito debatido e atacado no meio cristão protestante, que há séculos tem esse tema doutrinal como dos principais para discutir com os católicos. Isso faz com que tal doutrina tenha muita ênfase, pois vem de tempos de conflito geral, como o foi em toda a história, com vários dogmas sobre a virgem Maria sendo proclamados, e continua nos dias atuais.

É óbvio que temas pacíficos são tratados na Igreja, mas não recebem tanta ênfase. E existe mais um argumento: o Novo Testamento foi praticamente composto para ensinar os temais principais, e controversos, que estavam gerando discordância de outros grupos, judeus e gregos. Se a imortalidade da alma não aparece explicitamente e em toda parte, essas duas realidades explicam satisfatoriamente essa tendência.

Por que, então, egípcios e gregos continuavam a expressar tão explicitamente sobre a imortalidade da alma? Eles “com entusiasmo” a defendiam apaixonadamente, pois certamente exigiam os seus conflitos internos. Lembre-se que nos escritos apócrifos há a questão, no Evangelho de Judas: “o espírito é imortal?”. Se a questão é feita, há alguma rejeição, e espera-se que os defensores da imortalidade da alma farão esforço para defender a doutrina.

Os autores bíblicos eram imortalistas e escreviam a imortalistas e não havia problema quanto a isso. Está explicado a ausência de ênfase sobre a doutrina, pois não enfrentaram rejeição sobre a mesma.

A própria situação de que havia muita diferença de doutrinas quanto à imortalidade da alma entre judeus e gregos faz com que isso não fosse tratado pelos apóstolos no que tange ao ponto principal, que é a existência da alma imortal. Eles não trataram de pormenores quanto a isso também. O caso da ressurreição é diferente, pois era um dado da fé negado por muitos, judeus e gregos.

Seria diferente, imagine essa situação toda, em que maioria era imortalista no mundo ao redor, e os apóstolos, caso fossem mortalistas, em nenhum momento atacassem a imortalidade da alma? Impossível.

Então, os apóstolos e outros escritores bíblicos tinham razão para não se preocupar com isso, como demonstrado. Foi provado antes que, nas argumentações de 1 Coríntios 15 está pressuposta a imortalidade da alma. E tudo faz mais sentido agora.

Gledson Meireles.

sábado, 22 de abril de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma. O corpo na ressurreição

O corpo da ressurreição não é físico?

A crítica mortalista sobre a concepção de que o corpo na ressurreição seria diferente, “fantasmagórico”, afirma que esse corpo não se parece em nada com o corpo atual, e que por isso “o que sequer poderia ser chamado de “ressurreição”, já que seria uma nova criação de algo totalmente novo”.

O autor chega a um problema filosófico, da identidade, onde o corpo diferente não poderia ser o mesmo corpo, e por isso não haveria ressurreição, mas uma “nova criação”. Portanto, seria outro corpo. Um problema filosófico real.

De fato, esse problema atinge o mortalismo em cheio. Na concepção mortalista, a morte constitui o fim da existência, onde a pessoa deixa de existir, não estando em qualquer lugar, mas deixando apenas sua matéria no pó da terra de onde veio.

Assim, Deus formaria o corpo da matéria terrestre novamente, dando ao ser nova existência. Portanto, de fato houve nova “criação”, e não realmente uma ressurreição, o que refuta radicalmente o mortalismo, sem seu próprio seio.

Ele afirma da “criação de algo totalmente novo”, como o corpo diferente da ressurreição. Isso supõe que o corpo deverá não apenas deverá ser o mesmo, mas ser “igual”, apenas voltar à vida. Isso não condiz com o que ensina 1 Coríntios 15 e toda a escritura, que mostra o corpo da ressurreição como o mesmo, mas diferente, superior, aperfeiçoado, como uma semente que cresce (mostrando a identidade), mas sendo psíquico, mais material, e depois pneumático, adquirindo qualidade espiritual. Há uma nova realidade, uma nova característica, uma nova qualidade no corpo, o que explica ser um corpo glorioso, melhorado, e não mais preso aos limites de tempo e espaço, não mais igual ao corpo atual. Tudo conforme a Bíblia e a razão.

Portanto, se no mortalismo o ser deixa de existir na morte e é recriado na ressurreição, esse é racionalmente algo novo, um novo ser que identifica-se com o anterior. É algo compreensível, não chegando a contradizer a razão, ultrapassando o conhecimento, mas que ainda causa certa problemática, pois como o ser que não existia mais voltou à existência sendo o mesmo ser? Não poderia ser outro igual? Esse é um problema.

Os mortos estão no túmulo, mas quando Cristo diz que os que estiverem no túmulo ouvirão e sairão, isso não implica que todo o seu ser tenha estado no túmulo, mas que, como explicado acima, o corpo do morto estava no túmulo. Sua alma estava no céu, no purgatório, no limbo, ou no inferno, ou seja, em uma região espiritual.

A mesma doutrina bíblica é ensinada na Igreja Católica, onde o mesmo corpo que está morto é ressuscitado na vinda de Cristo, mas em seu aspecto glorioso.

Veja que o mortalismo exige que o corpo ressuscitado seja o mesmo, e não um criado a partir do zero, mas que tenha os átomos religados, pois “nunca deixaram de existir”. Mas, ao mesmo tempo, incoerentemente, afirma que a personalidade, todos os pensamentos, vontade, sentimentos, etc., da pessoa que “deixou de existir” são recriados a partir do zero, são recriados do nada no corpo que foi refeito da mesma matéria.

Para a doutrina da imortalidade da alma, o corpo é refeito da matéria terrestre, com todos os átomos novamente religados, reestruturados, formando o mesmo corpo, e a alma que estava consciente, pois foi criada espiritual e não deixou de existir, volta a ligar-se nesse corpo incorruptível, glorioso, sendo a mesma pessoa, não havendo “recriação” em qualquer sentido, mas ressurreição de fato. Nesse ponto, o mortalismo parece receber outro golpe bastante importante.

Se se entende que o os cristãos espirituais (Gl 6, 1) são aqueles que vivem de acordo com a vontade do espírito, mostrando que isso não quer dizer que sejam desprovidos se matéria, mas apenas que seguem as orientações do espírito, e, nessa mesma acepção, entender que o espírito está preparado, enquanto a carne é fraca, e que o espírito segue a Lei de Deus, enquanto há outra lei na nos membros, na carne, deve-se entender então que há um dualismo, que luta na pessoa.

O mortalismo entende tudo isso como o que se dá nos aspectos da pessoa. O problema é que se o espírito já está salvo, preparado, e pode estar com Deus, e o corpo ainda necessita de redenção, isso mostra que não é o ser inteiro que está preparado e que está escravo do pecado ao mesmo tempo, mas que essas duas orientações pode estar em duas partes da natureza humana. A parte espiritual pode estar preparada, mas a pessoa pode sofrer ainda em sua parte material, por esta estar sujeita à lei do pecado.

Não haveria necessidade de um aspecto do ser estar preparado se o ser inteiro, em seu aspecto de fraqueza, que é o corpo, ainda não terá redenção antes do dia final. Parece que na dualidade se entende melhor essa luta que a concupiscência introduz no pecador.

A doutrina da ressureição, onde o mesmo corpo volta à vida, mas agora em glória, pode fazer entender melhor essa questão da imortalidade da alma. De fato, o corpo necessita do espírito para sobreviver, para ser um ser vivo, como está em Gênesis 2,7, onde o homem tornou-se “alma vivente”, e precisa também do espírito de vida para ser vivificado na ressurreição.

Se esse espírito é o que Deus fará retornar para fazer os átomos espalhados no universo formar o mesmo corpo e vivificá-lo, sendo a energia criadora e vivificado de Deus, é óbvio que não é apenas a formação do corpo que entra em questão na ressurreição, para trazer o “mesmo” corpo de volta, mas entra em ação a religação da alma da pessoa que morreu ao seu corpo, para que constituía a mesma pessoa novamente.

Para o mortalismo, isso também é necessário, já que o espírito criador e vivificador não apenas deverá vivificar um corpo, reestruturando-o, mas deverá trazer de volta a personalidade que, segundo o mortalismo, não existia mais em outro lugar, devendo ser “recriada” para esse corpo que existia, apenas tendo voltado para o pó da terra. Essa noção da “recriação” da personalidade, que é o que igualmente importante, já que não poderá haverá criação de outra personalidade no mesmo corpo, um absurdo, nem a recriação total a partir de outra matéria, sendo outro corpo, nem a recriação de outra personalidade, ainda que seja igual. A mesma pessoa deverá voltar. Essa dificuldade encontra-se no mortalismo nos próprios termos que aparecem na sua apresentação da ressurreição da carne.

Da mesma forma que o corpo que recebeu o espírito neshamah tornou corpo almático, na ressurreição, pode-se dizer, que o neshamah fará o copo pneumático, o que nada tem que contradiz a imortalidade da alma, já que a discussão gira entorno do que será o corpo. A personalidade e consciência que está na alma já é assumida como retornando ao corpo espiritual. Resta agora julgar qual das explicações estão coerentes, se a que está de acordo com a alma imortal, ou a do mortalismo acima apresentadas.

O texto de Lucas 24, 39 citado por Santo Inácio de Antioquia, traz ainda mais uma interpretação plausível que implica na imortalidade da alma.

De fato, em Lucas 24, 37 os discípulos ficaram perturbados e espantados pensando que Jesus era um espírito. Se de fato estavam reconhecendo Jesus por Sua aparência, pensavam que Ele estava em Sua alma apenas. Isso demonstra que os discípulos criam na imortalidade da alma, pois do contrário pensariam que estavam vendo outra pessoa, não reconhecendo Jesus.

Absurdo seria afirmar que eles pensavam que Jesus teria se tornado anjo, um outro ser, quando viram Jesus. Pelo verso seguinte, o 38, temos que os discípulos estavam com “dúvidas”. Mais uma vez, isso está de acordo com a doutrina da imortalidade da alma, já que eles pensavam que Jesus poderia estar aparecendo sem corpo.

E o verso 39 é muito claro nesse contexto: “Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho”. Portanto, Jesus estava ali com Sua aparência da mesma forma como os discípulos O conheciam, com os sinais da paixão, mostrando a Eles que havia ressuscitado, e diante do espanto deles, Jesus manda que eles o “apalpem” para certificar-se de que não era um espírito, que não tem carne e ossos.

Jesus não estava dizendo que não era um anjo, ou que não era outra pessoa, mas apenas mostrando que Ele estava ali em corpo ressuscitado.

Diante disso, é muitíssimo claro que os discípulos poderiam ter visto Jesus e ainda assim não crerem na Sua ressurreição, pois os mortos podem aparecer nem terem ressuscitados.

O verso 41 afirma que os discípulos ainda vacilavam, mas já estavam “transportados de alegria” confirmando o mesmo já demonstrado. Isso mostra que estavam alegres por verem Jesus, ao mesmo tempo em que tinham dificuldade em crer que estava vivo.

Para refutar isso, o mortalismo deve apresentar outra explicação, mostrando o motivo dos discípulos oferecem peixe assado para que Jesus comesse.

Seria por que não reconheciam Jesus por Sua aparência, como se ali Ele estivesse em outra forma, ainda que mostrando todos os sinais da Sua crucificação e explicando que tinha corpo? Isso não faz sentido, pois Jesus não queria confundi-los, mas estava mostrando Sua ressurreição.

De fato, os discípulos de Emaús estavam com os olhos “como que vendados e não o reconheciam” (Lucas 24, 16). Jesus também havia aparecido a Maria Madalena, mas ela vendo Jesus em pé pensou ser o jardineiro (cf. João 20, 15). Mas quando os discípulos tiveram os olhos abertos quando Jesus partiu o pão, o reconheceram. Ali parece que Jesus estava em outra aparência, e também desapareceu diante deles, como um espírito.

No entanto, após isso, os discípulos já haviam escutado os relatos sobre essa aparição de Jesus. Assim, deve-se pensar no motivo de oferecerem algo para que comesse. Não seria para certificarem-se de que Jesus tinha mesmo corpo material, já que as almas não podem comer? Jesus falou-lhes e eles pensavam estar vendo um espírito. Eles ficaram alegres, mas ainda ofereceram algo para Jesus comer.

Então, é menos provável que pensassem estar sendo enganados por um anjo. Os anjos também poderiam materializar-se. Parece que seu pensamento primeiro foi estarem vendo a alma de Jesus. É o que mostra todo o contexto. Assim, a implicação dessa passagem para mostrar a imortalidade da alma é muito forte.

O mortalismo interpreta a ressurreição explicada em 1 Coríntios 15 como a recriação de todo o ser, de toda a natureza humana. Faz isso para refutar a ideia grega da alma imortal que burla a morte. Mas, como já muitas vezes demonstrado, isso não é o que o cristianismo ensina sobre a imortalidade da alma, e dispensa maiores explanações.

Por outro lado, a morte é menos trágica no mortalismo. A Bíblia mostra o horror da morte, onde os mortos estão em trevas. No mortalismo a morte é inexistência, comparada a um sono sem sonhos para a natureza humana inteira, o que faz com que o morto não sinta absolutamente nada na morte, e quando ressuscitar é como se passasse de um instante para outro sem perceber.

Por fim, parece oportuno frisar que a Bíblia não diz que o corpo da ressurreição é igual ao de Adão antes do pecado, mas parece mostrar que é superior, pois primeiro veio o que é natural e depois o que é espiritual, diz a Escritura. Adão foi criado natural, ainda que pudesse não morrer. O corpo glorioso é espiritual, imortal de fato.

Gledson Meireles.

 

 

quarta-feira, 19 de abril de 2023

A imortalidade da alma em 1 Coríntios 15, 16

 

É interessante pensar que São Paulo estava refutando não apenas doutrinas materialistas, como a dos epicureus, certamente, ao afirmar que “se se prega que Jesus ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há ressurreição de mortos?” (1 Cro 15, 12), mas também doutrinas que concebiam a vida da alma para sempre sem a ressurreição.

Primeiro, é de se pensar que Cristo continuou existindo, ainda que morto, o que já refuta o mortalismo.

De fato, quem não existe não pode voltar à existência por Si, e Cristo tinha o poder de Deus para retomar Sua vida, já que a ressurreição é obra da Trindade, pois também é dito que o Pai o ressuscitou (v. 15). E em nenhum lugar o apóstolo tenta qualquer explicação sobre o estado de Cristo na morte, que seria diferente de outros mortos. Assim, os mortos não deixam de existir, mas mantém a consciência. Esse é um pequeno argumento, mas faz sentido.

Agora, por sua vez, o verso 16 é muito emblemático: “Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou”. Duas vezes aparecem a mesma prova: Ora, se se prega que Jesus ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há ressurreição dos mortos? (v. 12) e: “Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou” (v. 16).

Isso alude ao fato de que os cristãos, todos eles, reconheciam a ressurreição de Cristo, enquanto alguns negavam a ressurreição dos mortos. Por isso, o argumento faz sentido. Se isso for compreendido, o mortalismo recebe o golpe mortal.

Se os cristãos aos quais São Paulo estava aludindo negassem toda a ressurreição, não haveria força argumentativa dizer que se os mortos não ressuscitam Cristo não ressuscitou, já que negariam tudo isso.

Dessa forma, é de uma força tremenda a implicação disso: se os que negavam a ressurreição dos mortos afirmavam a ressurreição de Cristo, então todos criam na imortalidade da alma.

De fato, em 2 Timóteo 2, 17 está escrito que havia uma heresia afirmando que “a ressurreição já aconteceu”. Sendo assim, eles criam na imortalidade da alma, mas negavam a ressurreição. São Paulo não nega a imortalidade da alma, mas põe-se a enfatizar que os mortos estão salvos, mas que a salvação não é apenas espiritual, mas que os mortos ressuscitarão como Cristo ressuscitou. Está, pois, provada mais uma vez a doutrina da imortalidade da alma.

Gledson Meireles.

terça-feira, 18 de abril de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma, sobre o paraíso em Lucas 23, 43

De que Paraíso Jesus falava?

 

Na interpretação mortalista o Paraíso seria o Jardim do Éden, o Reino, que foi levado ao céu, e lá está, a Nova Jerusalém, e será acessível aos salvos somente na ressurreição. Assim, o ladrão da Cruz não poderia entrar nele ainda (cf. Lucas 23, 43). Tudo faz bastante sentido, já que o paraíso terrestre foi perdido e fechado e no Apocalipse é dito que na Nova Jerusalém há a árvore da vida, mostrando que o reino final é o paraíso.

No entanto, não há que fechar a questão tão facilmente a ponto de por uma passagem, que apresenta uma dificuldade, já se decidir que a alma não é imortal, o que seria uma decisão irrefletida, já que em todas as outras objeções mortalistas o mortalismo não resistiu à refutação católica.

Então, se Cristo e o ladrão desceram ao mundo dos mortos, como entender que Cristo promete o paraíso, possivelmente, para aquele dia?

Para Santo Tomás de Aquino o paraíso de Lucas 23, 43 não é o paraíso terrestre, mas o paraíso espiritual, pois todos os que estão na glória divina estão no paraíso.

Isso quer dizer que nas palavras de Jesus na cruz, o paraíso é a salvação, é estar com Cristo, e não o lugar imediato para onde desceram as almas de Cristo e o bom ladrão, o ladrão arrependido e salvo. Entretanto, na mansão dos mortos com Cristo o ladrão já experimentava o paraíso (S. Th. 3 Part, q. 52, a. 4).

Essa explicação parece satisfazer o tema geral. Mas há ainda algo a mais. Sabemos que a alma é imortal, Cristo desceu à mansão dos mortos com Sua alma, enquanto Seu corpo estava no sepulcro, pregou aos espíritos na prisão, libertou os salvos, para leva-los ao céu na ascensão.

Assim, se para o mortalismo o paraíso será futuro, é possível ler aí a promessa futura de Jesus, para o ladrão que entrará mais tarde no paraíso, quando for levado por Jesus na ascensão. Poder-se-ia usar o argumento da vírgula após o “hoje”, onde o estarás comigo no paraíso ocorreu mais tarde, no dia em que Jesus subiu ao céu. É uma possibilidade de leitura, sem negar em nada a imortalidade da alma.

De fato, há o paraíso terrestre, e há o paraíso no terceiro céu. Há tal distinção na literatura judaica.

No entanto, se são dois ou se são o mesmo, sendo o paraíso terrestre transferido momentaneamente para o céu, isso não faria diferença no argumento, já que mais tarde o ladrão subiu com Cristo para o céu, entrando assim no paraíso.

Aliás, vale lembrar que se Enoque e Elias estão no céu, e certamente no lugar dos salvos, eles estão no paraíso, e, conforme muitos mortalistas, está também Moisés.

Entretanto, eles teriam alcançado a promessa antes de muitos, uma afirmação que não se encontra na Bíblia, e o que contradiz muito da argumentação mortalista sobre o tema de Hebreus 11, pois esses santos já estão na glória do céu, e, portanto, é de se pensar, ainda que na doutrina mortalista, eles já estão no paraíso.

Caso o mortalista não concorde que Moisés, Elias e Enoque entraram no paraíso, deverão concordar, para explicar isso, que esses santos entraram no céu, na beatitude, na glória.

Portanto, partindo daí, poder-se-ia dizer com muita razão, na perspectiva imortalista, que as almas poderiam entrar no céu, mas somente adentrarem a cidade santa, a nova Jerusalém, interpretada aqui como o Paraíso, apenas no fim do mundo, sem nenhuma  dificuldade para a doutrina da imortalidade da alma, para a interpretação mortalista de Hebreus 11 sobre a promessa não alcançada pelos heróis da fé, e sobre a identificação do paraíso.

Do contrário, negando a distinção céu e paraíso, usado para fins de argumentação aqui, Elias não estaria no céu, refutando o próprio mortalismo, e sem qualquer problema para o imortalismo. De fato, o imortalismo pode explicar que Elias subiu ao céu, visivelmente na carruagem de fogo, mas que entrou no mundo espiritual dos salvos, já que Jesus não havia aberto o céu, e disse que ninguém subiu ao céu.

É, portanto, necessário explicar o arrebatamento de Enoque e Elias, e essa é uma das explicações. De qualquer modo, esses santos arrebatados, ainda que na mesma região espiritual dos salvos mortos, receberam a graça de continuarem vivos glorificados, o que é uma vantagem em sua relação com Deus.

Se Elias entrou no paraíso, então a promessa já foi alcançada por alguém, e o argumento mortalista cai por terra.

Se Elias não está no paraíso, então ele está no céu, usando a aludida distinção.

Portanto, a doutrina de que as almas estão no céu não tem qualquer problema com a questão da promessa da entrada na nova Jerusalém quando da criação do novo céu e da nova terra, sendo compatível com ela, e o mortalista mais uma vez é refutado em suas próprias argumentações.

Por fim, o livro alude à suposta opinião de São Tomás sobre a antessala do céu, o que não foi encontrado neste estudo. Talvez seja opinião de outro comentarista, antigo ou moderno, talvez mesmo da ala protestante, após o século 16, e não de Santo Tomás, mas de qualquer modo, é uma interpretação que não condiz com a doutrina católica oficial.

Gledson Meireles.

 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma, sobre 2 Coríntios 5, 8

 Refutando a interpretação mortalista de: Ausente do corpo e presente com o Senhor 


Façamos uma investigação sobre a implicação da passagem bíblica de 2 Coríntios 5, 8, no que se refere à imortalidade da alma.

A começar em 2 Coríntio 4, 14 temos que Deus ressuscitará a todos, no mesmo dia, pois é dito “que nos fará comparecer diante dele convosco”. E o evangelho ensina que a ressureição acontecerá no último dia.

No verso 16, o homem exterior tem a ver com o corpo e está em contexto de morte: “Ainda que exteriormente se desconjunte nosso homem exterior, nosso interior renova-se de dia para dia”.

Em 2 Coríntios 5, 1 é ensinado que quando se desfazer nossa tenda (corpo), nós recebemos (no presente) de Deus uma casa preparada por Deus, eterna no céu (morada no céu). Não se diz diretamente que a ressurreição ocorre imediatamente, nem que há um corpo dado no céu, mas que há uma morada no céu para quando nossa tenda se desfizer.

O verso 4 mostra que o desejo do apóstolo é ser glorificado e não morrer. Ser vestido, ser revestido, é ter a veste do céu sobre a veste material, ou seja, o corpo celeste sobre o terrestre, de modo que uma veste é posta por cima da outra.

Isso só é possível se na parusia formos encontrados vestidos, ou seja, vivos, e não nus, mortos.

Se estivermos despidos, mortos, seremos vestidos, ressuscitados. Ele fala dos salvos.

Os vivos serão revestidos, os mortos serão vestidos. É simples assim.

O verso 6 afirma que o tempo no corpo é estar longe do Senhor. E o verso 8 mostra que a preferência é ausentar-se, logo, do corpo e ir habitar com o Senhor, pois o 9 diz: “vivos ou mortos, nos esforçamos por agradar-lhe.” É possível agradar a Deus no estado de mortos, ausentes.

Se é possível ausentar-se do corpo e agradar a Deus estando morto, é por haver no homem algo que permanece após a dissolução do corpo, após a tenda ser desfeita. É como que uma glorificação da alma, para que viva já no céu, enquanto não houve a ressurreição.

Investigando o sentido dessa passagem conclui-se que é totalmente conforme a doutrina da imortalidade da alma, já que é dito da tenda em que moramos, da veste por cima da nossa veste, ou seja, o corpo e sua glorificação, de não querer ser despojados e do poder ausentar-se do corpo para ir habitar com o Senhor.

Mas o mortalismo ensina que São Paulo apenas queria deixar este corpo para obter o corpo da ressureição, somente isso. E que não era “no” céu, mas o corpo “do” céu, e nada teria a ver com ir morar no céu ou fora do corpo. São Paulo não estaria falando de ir morar no céu, mas apenas de ser revestido da habitação do céu, o corpo glorioso, na ressurreição.

E eis a conclusão: “Com efeito, a ideia transmitida não é a de “morrer e ir pro céu”, mas de morrer e ser revestido de um corpo glorioso através do qual ele estaria com o Senhor por toda a eternidade.

Depois é feita uma argumentação com a palavra “desejamos”, nos vv. 2 e 8. Seria que São Paulo desajava deixar o corpo que é o mesmo que ser revestido do corpo da ressurreição. No entanto, no original as palavras para “desejamos” são diferentes.

Outro ponto é que, estar nú, é na intepretação mortalista como estando em pecado, numa condição pecaminosa. Ainda que plausível, essa interpretação foge um pouco do contexto, que sempre se refere aos salvos, em paz com Deus, e seria menos provável que essa expressão tivesse uma ligação com a vida pecaminosa nessa passagem.

Quando o verso 4 diz que não desejamos ser despidos, o autor admite que não é ter corpo nenhum. Agora, pense nas frases: estar despido e estar nú. É a mesma realidade. Portanto, estar nú não tem a ver com pecado, mas com a morte, estar sem corpo.

O desejo natural é estar vestido, e ser revestido, o que é possível para quem estiver vivo na vinda de Jesus. Os que estiverem nus, ou despidos, sem o corpo, terão de ser vestidos, ter o corpo refeito na ressurreição. Essa é uma constante em todo o texto.

Quando São Paulo afirma que não queria ser despido, ele não estava falando da ressurreição em seguida, mas da glorificação do corpo que é feito nos que vivem. Ele esperava a Parusia.

São Paulo diz que não queria estar despido? Em que verso? Sim, no verso 4 há o desejo de ser revestido, ou seja, ser glorificado, e não passar pela morte para ser vestido. É esse o desejo primordial.

E por que ele diz no verso 8 que desejava ausentar-se do corpo para habitar com o Senhor? Porque ali ele exprime um desejo que seria melhor, apesar de ter de passar pela morte, ou seja: ter a tenda desfeita, estar nu, ser despido, ausentar-se do corpo, que são modos de falar da morte. Tudo isso indica a morte.

Ali o apóstolo expressa sua preferência (eudokomen mallon). O que ele diz é que prefere mais isso do que aquilo, que é preferido isso ao invés daquilo, ou seja, prefere estar com o Senhor, embora não quisesse ser despido, mas vestido de glória vivo ainda na vinda de Cristo. Mas, se Cristo ainda não veio, preferia ausentar-se do corpo para ir morar com o Senhor. Esse é o sentido.

Portanto, ainda que todos desejam a vinda de Cristo para glorificar-nos vivos, sem passar pela morte, há um desejo maior de estar logo com Cristo, o que faz, apesar dessa inconveniente passagem da morte, é mais preferível ausentar-se do corpo. Assim, ele desejou algo que o levaria direto para a presença de Deus.

Vejamos a interpretação mortalista:

 

Quando simplesmente lemos a sequência do texto, entendemos perfeitamente por que Paulo não queria ser “despido”: “...não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida”. Aqui está todo o ponto, o cerne do pensamento do apóstolo. Paulo desejava a morte?

 

Sim, São Paulo desejava a morte, não como seu objetivo primeiro, natural, mas para expressar seu desejo de encontrar com Cristo.

Não era por ser o “caminho mais curto” no sentido de não ver o tempo passar na morte, mas porque de fato era o encontro imediato com Jesus antes mesmo da ressurreição.

Por isso, a afirmação seguinte está em discordância com o contexto:

“Em outras palavras, Paulo queria morrer porque ele sabia que na ressurreição estaria com o Senhor, e não porque pensasse estar com o Senhor na condição de “despido” (sem corpo).”

O que ele diz, de fato não é “Eu não tenho interesse na morte em si, mas na ressurreição”, mas, pelo contrário, ele diz: “Eu não tenho interesse na morte em si, mas no encontro com Cristo”.

De fato, São Paulo já havia falado do desejo de estar glorificado, sem passar pela morte, sem ser despido. Portanto, seu desejo primordial não era morte-ressureição-encontro com Cristo, mas glorificação em vida-encontro com Cristo.

No entanto, a preferência era estar com o Senhor, ainda que ausente do corpo. Assim é que no verso seguinte ele afirma que ausentes ou presentes agrademos ao Senhor, o que só é possível se o morto existe.

Assim:

“Isso confronta frontalmente a ideia de que ele estaria com o Senhor na morte, em um estado desencarnado. Se este fosse o caso, ele desejaria estar “despido” mais do que desejaria estar “vestido”, já que “vestido” (i.e, neste corpo) ele estava longe do Senhor, e “despido” (i.e, sem corpo) ele estaria com Ele.” De fato, foi isso que o apóstolo disse.

Desse modo, explica-se que o verso seguinte (v. 9) explica esse motivo, iniciando com a conjunção grega “διὸ” que traz o sentido de “pois”, “por isso”, “por essa razão”, etc., exortando para agradar a Deus estando presente ou ausente. E o verso 10 menciona o tribunal de Cristo para julgar conforme bem ou mal feito “enquanto estava no corpo”, uma linguagem que indica o juízo particular, da alma.

Deve-se entender que ser vestido, ou “revestido”, ou seja, vestido de novo, não tem a ver com ser despido e depois vestido de novo, mas com estar vestido e ter uma veste posta por cima da outra, revestido.

Para o mortalista que entendeu assim fica confuso compreender o raciocínio dos versos 2, 3 e 4. Em outras palavras, o apóstolo não queria morrer e ser ressuscitado, mas ser glorificado, ser encontrado vivo na volta de Jesus.

Vejamos isso citando os versículos, na tradução da Almeida Corrigida Fiel, online.

“E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu.” (v. 2)

“Se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus.” (v. 3)

“Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida.” (v. 4)

O verso 4 na versão Ave Maria é traduzido como “revestidos de uma veste nova por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela vida”. Trata-se do salvo vivo sendo glorificado na vinda de Jesus.

São Paulo afirma que não deseja ser despido, mas vestido, para que o que é mortal seja absorvido pela vida. Nesse ponto, está claro que o corpo vivo mortal é absorvido pela vida do corpo espiritual, sendo transformado.

Para provar isso, vejamos o que diz 1 Coríntios 15, 51-53, que trata dos que estiverem vivos na parusia: “nem todos morreremos, mas todos seremos transformados”, esse é o objetivo da passagem, para mostrar que a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus (v. 50).

O verso 52 afirma que os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados, e então: “É necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade”.

Vestir aqui é “endysasthai - ἐνδύσασθαι”, que no contexto tem o sentido de sobrevestir. Esse é o mistério, pois nem todos morrerão, mas todos serão transformados (ἀλλαγησόμεθα).

Quando o mortalismo argumenta que São Paulo não estava “nem um pouco interessado no estado entre a morte e a ressurreição, mas somente na ressurreição”, e que, na citação de Joe Crews, “ele não está ansioso para o sono da morte (sendo “despido”), quando ele não estaria com o Senhor, mas ele está esperando pela redenção do corpo, quando ele seria revestido com a “casa eterna nos céus”.”, trata-se de um erro de interpretação.

Ele não queria ser despido, mas vestido, revestido. Correto. Mas o que isso quer dizer no mortalismo?

Significa que viver no corpo ressurreto é melhor que viver no corpo atual. Mas o contexto não é bem assim.

E para a posição imortalista, que está sendo provada em todo o contexto?

Significa que viver no corpo glorificado (igual ao ressurreto) sem passar pela morte é melhor.

Viver sem corpo nenhum seria pior, mas foi dito que isso é preferível para ir habitar com o Senhor.

Assim, ser despido seria menos desejável que ser vestido com o corpo imortal, mas foi preferido por causa do encontro mais rápido com Cristo. Isso mostra que o estado sem corpo é encontrar-se com Jesus. Está refutada a interpretação dada pelo mortalismo, que conclui o contrário, de que o estado sem corpo seria tão somente a inexistência entre a morte e a ressurreição.

Entrando na doutrina mortalista, se o apóstolo não queria estar despido, por acreditar que isso seria inexistir, que não há nada entre a morte e a ressurreição, mas queria mesmo assim ser despido para depois ressuscitar, pois seria “o único jeito” para estar com o Senhor, tudo o que foi mostrado acima, no argumento mortalista, perde sua força.

De fato, o mortalista tentou provar que São Paulo desejava não ser despido, não porque não quisesse ir encontrar com Jesus, mas porque ser despido seria não existir, mas sabia que seria o único jeito de encontrar com o Senhor.

Mas isso cria outro problema. São Paulo não afirmava que morrer e ressuscitar seria o único jeito de estar como Senhor. Nada disso.

De fato, ele afirma que nem todos morreremos, mas todos seremos transformados. Ele tinha o desejo de estar vivo na vinda de Cristo, desejo, aliás, geral dos cristãos.

Isso era o que ele queria, não morrer, mas ser transformado. Mas antes de tudo, queria até mesmo ausentar-se do corpo e ir morar com o Senhor, antes da vinda de Jesus.

O desejo tão ardente de São Paulo era a glorificação, pois não queria ser despido. E, ainda, o desejo maior era estar com Cristo, mesmo que para isso precisar-se ser despido, ausentar-se do corpo, pois presente ou ausente agradaria ao Senhor.

A redenção do corpo se dá na vinda de Cristo, na glorificação (para os vivos) e na ressurreição (para os mortos ), conforme 1 Cor 15, 51 e Rm 8, 23. Eis o mistério que São Paulo revelou em 1 Coríntios 15, 50-51.

A explicação sobre “deixar este corpo” como sendo deixar o estado atual de vestido para ser revestido na ressurreição não explica o contexto, e contradiz o que foi acima explicado. Deixar o corpo é ser despido. Seria o desejo de ser despido para ser vestido. No entanto, o desejo original era não ser despido, mas vestido por cima da veste atual.

Se ao expressar deixar este corpo significa que desejava conseguir o corpo da ressurreição, são Paulo estaria desejando deixá-lo desde o início, o que não é verdade.

Ele diz que não desejava ser despido. É bom notar que o piscar de olhos, que o texto bíblico utiliza para falar da ressurreição, não se refere ao tempo entre a morte e ressurreição, mas ao soar da trombeta final, que acarretará imediata ressurreição.

Dessa forma, destroça-se a interpretação mortalista que tentou destroçar a doutrina da imortalidade da alma por meio desse texto.

Resumo comparativo

Interpretação mortalista

Interpretação imortalista

 

Desejo de estar despido

 

 

Não há tal desejo

 

Não há tal desejo

 

Desejo da ressurreição

 

 

Sim, algo enfatizado.

 

Não, não foi o assunto.

 

Desejo de estar com Cristo

 

 

Sim, após ressurreição.

 

Sim, após ausente do corpo.

 

Ausente do corpo ou deixar o corpo

 

 

Significa estar com o corpo glorioso ressuscitado.

 

Significa ir morar com o Senhor, na alma imortal, até receber o corpo glorioso.

 

 

Ponto fraco

Única forma de estar com Cristo é pela ressurreição, por isso a preferência pela morte. Não foi provado que ausentar-se do corpo é estar no corpo glorioso.

 

 

-

 

 

Ponto forte

 

 

-

Estar no corpo é estar ausente do Senhor, pois andamos por fé e não pela visão, por isso o desejo de ausentar-se do corpo e ir habitar com o Senhor, na morte.

 

 

 

 

Conclusão:

O verso 2 afirma que não desejamos se despidos, mas vestidos. Isso é o mesmo que ser transformados (cf. 1 Cor 15, 51), o que prova que para o encontro com Cristo não é necessária a morte. Refuta-se a interpretação por esse ponto fraco.

Assim, ausentar-se do corpo na morte, indica encontro imediato com Cristo, v. 8, visto que presentes (vivos) ou ausentes (mortos) “nos esforçamos por agradar-lhe” (v. 9). É possível estar com Cristo quando ausentes do corpo.

Além do mais, quando se diz de deixar o corpo e ir habitar com o Senhor, isso supõe sair da terra, e ir para o céu, o que refuta o mortalismo. O mesmo é encontrado quando se diz: partir, como em uma viagem, supondo sair da terra, e estar com Cristo, que está no céu. Só faz sentido, também, “estar em casa” ou “estar fora”, agradando o Senhor, se isso se dá no tempo presente, pois na eternidade não haverá salvo longe do Senhor.

Gledson Meireles.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma, sobre Ap 14, 9-11

Refutando o tópico: Apocalipse 14:9-11 e o cálice da ira

 

O mortalismo explica a passagem com base em textos do Antigo Testamento, que de fato servem para retratar as cenas que o apocalipse utiliza. No entanto, há certos recortes que a interpretação mortalista utiliza, e que não fazem muito sentido.

Um deles é dizer que a fumaça que sobe para sempre retrata o eterno aniquilamento, já que sobe dia e noite, retratando o resultado eterno, citando Ap 19,3 para exemplificar esse sentido.

E conclui: “Por isso, apesar do verso 7 afirmar que ela sofreria tormento e aflição, seu fim é a destruição total, não uma existência eterna.” O fogo que sobe para sempre seria o aniquilamento, não a existência.

Pois bem. Apocalipse 19, 3 fala da fumaça que sobe pelos séculos dos séculos depois da destruição da cidade Babilônia. Isso é compreensível.

Qualquer um que veja um incêndio ou certo material totalmente consumido, nota que o fogo apaga e a fumaça continua a subir, deixando aquele sentimento de cumprimento da ação do fogo nos que olham a cena. É por isso que em Apocalipse 18, 8, que retrata uma forma de destruição da cidade da Babilônia (morte, pranto, fome, consumida pelo fogo), mostra que os reis da terra choram por ela, no verso 9, o que explica toda a cena, de que ainda não se trata do tormento eterno no inferno, mas uma simbologia para mostrar a destruição da grande cidade. A interpretação mortalista já está refutada, mas ainda há mais a seguir.

Entretanto, o que está em Apocalipse 14, 10-11 é de natureza diversa. O verso 10 afirma que quem adorar a besta e sua imagem “será atormentado pelo fogo e pelo enxofre diante dos seus santos anjos e do Cordeiro”, e o verso 11 corrobora esse tormento, pois afirma que “A fumaça do seu tormento subirá pelos séculos dos séculos”.

Por que essa fumaça sobe para sempre? Será que se trata do mesmo sentido explicado antes, de algo que foi queimado e reduzido a cinzas, onde a fumaça mostra que tudo chegou ao fim? Não é o que parece.

De fato, o verso 11 continua: “Não terão descanso algum, dia e noite”. Ou seja, há um tormento sendo descrito, que impede qualquer descanso, seguido da expressão inequívoca “dia e noite”, que mostra ininterrupção do mesmo, para indicar esse sofrimento, que é o tormento do inferno. E, ainda, há no texto os que são admoestados dessa forma: são os que adora a Besta e sua imagem e os que receberam o sinal do seu nome.

Há aqui uma prova de que pessoas serão lançadas no inferno, conscientes, com fogo e enxofre, em descanso, dia e noite, com uma fumaça que sobe sem parar pela eternidade.

Essa cena demonstra que a fumaça é de fogo acesso que está consumindo algo, é a “fumaça do seu tormento” e não daquilo que foi extinto. Portanto, é bastante claro que não se trata de aniquilamento.

Dessa forma, o texto é simbólico, não literal. Indica que a justiça de Deus será feita, e será lembrada por todos eternamente, sendo que o castigo dos maus será como que sempre diante dos santos, já que eles não mais existirão no Reino dos Céus.

E ainda, da mesma forma que no aniquilacionismo, usando essa mesma imagem, o fogo que atormenta os réprobos, em “tempo” proporcional aos seus pecados, que ocorrerá no lago de fogo, não será feito literalmente diante dos santos e de Cristo, como se os mesmo ficassem milênios assistindo tal cena até morrer o último no fogo, segundo a interpretação mortalista do tormento temporário, pode-se dizer da mesma forma que tudo ocorre no lago de fogo e enxofre, no tormento eterno, não diante do cordeiro e dos santos literalmente, mas que significa que todos saberão da condenação eterna que tiveram.

Gledson Meireles.