domingo, 5 de abril de 2020

São Tiago: fé e obras

Iniciamos a grande semana, a Semana Santa, onde comemoramos o centro da nossa fé, Jesus ressuscitado. Nos preparamos para a festa da Páscoa do Senhor.
 


São Tiago: fé e obras

A questão da justificação pela fé e pelas obras em São Paulo e em São Tiago é pacífica entre cristão católicos e cristãos protestantes no que se refere à unidade entre os dois pensamentos, e na diferença de enfoques de ambos. Não há contradição entre eles.

Também é pacífico o entendimento de que São Paulo trata da fé que justifica e traz salvação, e São Tiago fala da fé que frutifica em obras, após o homem ser salvo, pois ele dirige-se aos cristãos, gente de fé.

Em uma apreciação protestante, São Paulo fala da salvação pela fé somente e São Tiago fala de como a fé somente é demonstrada pelas obras. Por outro lado, a interpretação católica é que São Paulo trata da conversão do pecado, falando das obras antes da conversão, que não contam em nada, e a fé como único meio de ser salvo. Enquanto isso, São Tiago fala do cristão, já salvo, mostrando sua fé por meio das obras.

Em termos assim colocados não se percebe diferença essencial, ambas as explicações concluindo na vida de fé e obras.

Franklin Ferreira citando Franz A. O. Piper que diz que as obras humanas e a graça são como água e fogo, está tratando da fé somente para fins de salvação.

Em outro lugar lembra afirmação de Martinho Lutero no prefácio da Epístola aos Romanos, onde escreve que a fé e as obras são inseparáveis como luz e fogo.

Nesse ponto, são duas coisas diferentes, já que Franz fala da salvação, que não admite obras, que é doutrina luterana, e Lutero, naquele momento, trata da fé do salvo, que exige obras.

Essas duas apreciações são importantes para entender a doutrina protestante. É um paradoxo. Ao mesmo tempo em que as obras são totalmente excluídas e devem ser pensadas como trapos não valendo coisa alguma para a salvação, elas são exigidas e imprescindíveis na vida do salvo, caso contrário não há salvação.

É nesse cenário que entramos na santa Epístola de São Tiago para verificar diretamente na Palavra de Deus qual o lugar das obras na vida do salvo, (1) se são apenas testemunhos da veracidade da fé ou (2) se realmente são contadas como algo em comunhão com a fé.

Antes, vejamos o que ensina São Pedro, na primeira epístola. Um verso bastante citado pelos protestantes, para elucidar a salvação pela fé, é 1 Pedro 1,23. Detenhamo-nos nessa passagem por um instante, e entremos no texto sagrado de São Tiago.

Em toda a passagem de 1 Pedro 1,18-24, o apóstolo ensina que fomos resgatados pelo sangue de Cristo, que temos fé em Deus por meio de Cristo, que em obediência purificamos nossas almas para praticar um amor sincero. Então afirma que fomos regenerados pela Palavra de Deus. Já entrevemos de alguma forma a fé e obediência, encontrada no ensino bíblico geral.

São Pedro inicia o capítulo 2 exortando para que os cristãos não vivam na malícia, na astúcia, na inveja e em qualquer tipo de maledicência. E eis que no verso 2 apresenta o conceito de “crescimento espiritual para a salvação”. Essa noção é bastante conhecida no Catolicismo. Mas, vejamos mais adiante.

O verso 16 menciona a liberdade, onde os cristãos vivem servindo a Deus. Nessa passagem alude àqueles que tomam a liberdade para viver na malícia, aproveitando-se da lei da liberdade, que é citada em Tiago 2, 25.

O contexto de obras é muito convincente. Fala daqueles que não obedecem à Palavra, e que esse é o destino dos ímpios. Após isso, no verso 17, temos as obras, como por exemplo ser educados para com o próximo, amar os irmãos, temer a Deus e respeitar o rei.
E o verso 20 traz a ideia do mérito. Mérito na doutrina católica não é algo que surge do homem e convence a Deus, que cria uma dívida para com Deus. Pelo contrário, é a ação da graça no homem que coopera livremente e fortalecido pela graça, e que após isso pode contar com as benções de Deus. Essa é a noção que São Tiago afirma, em outras palavras: “Que mérito teria alguém se suportasse pacientemente açoites por ter praticado o mal? Ao contrário, se é por ter feito o bem que sois maltratados, e se o suportardes pacientemente, isso é coisa agradável aos olhos de Deus.”

Na conduta que agrada a Deus, a “coisa agradável”, temos o mérito cristão. Sofrer com paciência a injustiça que outros causam, é algo que agrada a Deus. O agrado a Deus volta Sua face ao homem, dando-lhe merecimento. Esse é o mérito que vem de Deus. Por isso, à pergunta no verso 20: “Que mérito tem?” a resposta é nenhum, enquanto que na segunda parte “Ao contrário (...) se suportardes pacientemente”, redunda em ‘encontrareis o mérito diante do Senhor’. É a graça de Deus que confere o mérito ao homem.

Para aquele que sofre por ter praticado o mal, a justiça está sendo aplicada, e não há qualquer mérito da sua parte. Ao passo que o que sofre por ter feito o bem, e o aceita com paciência, Deus o retribui na Sua graça.

Em todo o contexto, ao ingressar no texto de São Tiago, temos a obra que cumpre a justiça de Deus. Nenhuma obra humana o pode fazer. No entanto, trabalhando na graça, a noção de obra de justiça proveniente da graça já é despertada em Tiago 1,20, que afirma “a ira do homem não cumpre a justiça de Deus”. Isso alude à realidade de que a obediência a Deus é parte do cumprimento da Sua justiça.

No verso 21 a rejeição da impureza, da malícia e o recebimento da Palavra com mansidão é atrelada à salvação. É a Palavra de Deus recebida que pode salvar. Interessante isso que a Palavra de Deus afirma: “que pode” salvar. É tradução do grego δυνάμενον (dynamenon, ser capaz).

O calvinismo treme diante de ideia de condicionamento ao repetir incessantemente que a Palavra de Deus não traz condição de salvação, mas salva eficazmente. Ninguém duvida desse poder. No entanto, ao afirmar que a “palavra de Deus semeada, que pode salvar as vossas almas”, temos uma capacidade que evoca um condicionamento que é presente na Palavra de Deus, e que parece não coadunar com o sistema teológico reformado. A Palavra salva, desde que o homem a recebe em obediência.

Essa noção ainda é desenvolvida adiante, no acima aludido verso 25, afirmando da bondade daqueles que meditam “a Lei perfeita da liberdade e nela persevera”. É uma meditação na Lei de Deus, e uma perseverança nela, na prática, em obras, e afirma que “este será feliz no seu proceder”. Entendendo isso, é o mesmo que afirmar que a Palavra semeada que salva vossas almas.

Nesse contexto de obras em obediência à Lei, segue a definição de religião pura, que exclui os que não refreiam língua e vivem na corrupção do mundo, mas que é daquele que visita órfãos e viúvas e conserva-se puro dessa corrupção. (cf. Tiago 1,26-7).

Continuando a tratar da vivência cristã, chega o verso 14 que questiona eloquentemente sobre o proveito da fé sem obras, e se isso poderá salvá-lo! O tema da salvação está sempre presente.

Quando a doutrina católica afirma que as obras que antecedem a fé são inúteis, mas que as obras que nascem da fé são salvíficas, o contexto indica esse entendimento.

Por isso, em Tiago 2, 9 afirma que o pecado da distinção de pessoas levará o pecador a ser considerado “transgressor” da Lei. Está tratando assim da vida de cristãos. Assim é que o verso 12 ensina que devemos viver como quem será julgado pela Lei da Liberdade. Tenhamos a Lei de Deus em mente, e procedamos segundo ela.

Nesse sentido também temos a Deus o Juiz que pode salvar a perder quem não observa a Lei. O texto refere-se à Lei que o cristão deve obedecer: quem fala mal do irmão não obedece a Lei. (cf. Tiago 4, 11.12)

Não haverá aqui algo diverso da noção de que as obras apenas tem o caráter de santificar e nunca de salvar ou condenar? Lembrando que em São Tiago a fé é considerada em si mesma, como está em Tg 2,19, que é a fé meramente intelectual.

E novamente lembramos da Epístola de São Paulo aos Gálatas, que apresenta a mesma doutrina, falando da liberdade cristã em Gl 2,4.

Temos então oportunidade de corroborar ambos os enfoques sobre a justificação de Abraão, em Tiago 2, 23 e Romanos 4.3. São Tiago trata da obediência de Abraão enquanto São Paulo fala da sua conversão.

Considerando tudo isso, quando se diz, com George W. Knight III (apud FERREIRA) que Tiago fala “daqueles que parecem confessar aceitação do Evangelho” e que as obras de Abraão “não são para obter aprovação de Deus”, o contexto da epístola não corrobora totalmente essa interpretação. Ela flui da doutrina reformada, e não das Escrituras.

De fato, não há indicação de que se trata de quem ‘parece confessar o evangelho’, pois a fé que S. Tiago mostra em 1,19 é a fé em Deus, que até os demônios têm. O que fala a ela é a obediência, que a completa.

Por isso, não se trata de que obras não são para aprovação de Deus, como se não tivesse qualquer ligação com a salvação, mas que elas são necessárias para acompanhar a fé. O mesmo que são Paulo afirma de semear no Espírito, tendo como fruto a vida eterna (cf. Gl 6,8). Que significa essa comparação de semear e colher fruto? O apóstolo trata da importância de praticar boas obras. E biblicamente o fruto dessa semeadura no Espírito é a vida eterna, que é o mesmo que afirmar que o fruto é a salvação.

Voltando à noção de fé que inclui o conceito de obras (que praticamente não há o que reprovar) deve-se ter em mente que melhor é concluir com a Bíblia, de que fé e obras são duas coisas distintas, tendo em vista mais clara compreensão das obras na vida cristã.

Elas não contam para a justificação inicial, mas para a salvação final. Para o protestante elas não influem nem antes nem em parte alguma do processo. No entanto, a Palavra de Deus afirma que a fé atua sinergisticamente em relação às obras, e que as obras são feitas perfeitas pela fé. (cf. Tiago 2,22) Eis o ensino do Evangelho.

FONTE: FERREIRA, Franklin. Pilares da Fé: a atualidade da mensagem da reforma. São Paulo, Vida Nova, 2017.
Gledson Meireles.

sábado, 4 de abril de 2020

O Cristão Reformado: sola fide

Continuando a comentar temas tratados no livro "O Cristão Reformado", do pastor batista Yago Martins.
 
Não é um estudo exaustivo, tratando todos os argumentos que a obra apresenta, mas um estudo que apresenta a essência dos pontos tratados.
 
SOLA FIDE: só a fé salva

Apresentação da doutrina

É bastante conhecida a doutrina protestante da salvação pela fé somente. Ela se tornou um dos solas da reforma, uma doutrina fundamental para um protestante crer. Não há qualquer pregação de protestantes a católicos que não tenha esse tema.

De fato, ela ensina que o homem é salvo pela fé somente, não pelas obras, e não pela fé e pelas obras, não pela fé mais obras, não tendo nem um mínio de participação humana para a salvação. Dessa forma, nega-se mesmo o entendimento de que a fé que opera pela caridade é a fé salvífica.

O que o protestante tem em mente é que a fé sozinha salva. Lutero chegou mesmo a criticar a ideia católica da fé que tem como forma o amor. Essa doutrina ensina que a fé que opera pela caridade é a única salvífica, e que a fé puramente intelectual, em si mesma, sem essa ação pela caridade, essa potência através da caridade, esse acompanhamento da caridade, não poderia salvar.

No entanto, Lutero negou essa doutrina. Ele afirmou que a fé salva em si mesma e a caridade tem o lugar apenas nas relações dos salvos com o próximo, ocupando o lugar da santificação. Assim, somente a fé salvaria, e nem as obras que fluem da fé seriam salvíficas.

Esse entendimento não é simples. Ele afirmou que a fé que age pelas obras é a fé que salva, e a fé que não é vivida por obras não salva. No entanto, afirma que essas obras que nascem da fé não são salvíficas, mas apenas provam que existe a fé que salva. Doutro modo, sem as obras, não haveria fé salvífica. Portanto, concluem os protestantes que a fé somente salva, mas não salva sozinha, vem acompanhada pelas obras.

Teoricamente temos algo irreconciliável com a doutrina católica. Adiante vejamos o que as Escrituras afirmam sobre o papel da fé e das obras na salvação. Contudo, praticamente é o mesmo que a doutrina católica ensina, pois a fé que salva é aquela que opera pelas obras, e não aquela fé inoperante, morta, sem atividade, sem obediência. E nisso os protestantes estão de acordo.

 Epístola de Tiago e a salvação pelas obras

Para os protestantes S. Tiago está apenas provando a fé verdadeira, mostrando que a fé que não frutifica em obras não é fé, não existe, e por isso não pode salvar. A fé verdadeira traria boas obras, frutificaria em boas obras.

Para os católicos, S. Tiago está afirmando que quem não tem obras para mostrar sua fé significa que sua fé está morta. Ele pode crer, mas não poderá com isso alcançar a salvação, pois as obras aperfeiçoam a fé.

Está claro que ambas as afirmações reconhecem o valor das obras na vida do fiel cristão. No entanto, há uma diferença teoria importante, que leva à separação entre ambas as doutrinas. Qual das duas teses está de acordo com São Tiago?

Podemos afirmar que é a aproximação católica. Isso pode ser visto no verso 19, que concede que a fé existe naquele que não pratica boas obras, da mesma forma que os demônios possuem fé em Deus.

A outra prova disso é a própria conclusão de São Tiago afirmando dois elementos (fé e obras) e não um. De fato, um agindo sobre o outro. É o que ensina o versículo 22, onde a fé cooperava com as obras e as obras completam a fé.

Em todo o capítulo o tema da fé cristã demonstrada em obras é patente. No entanto, ao ter as obras apenas como testemunho da fé, não conectada à salvação, é um tanto estranho quando se estuda o texto sagrado.

Pois no versículo 14 temos a pergunta: “Acaso essa fé poderá salvá-lo?” E noutra parte afirma a justificação pelas obras: “vedes como o homem é justificado pelas oras não somente pela fé?” Não é essa justificação ligada à salvação de que fala o verso 14?

No sistema reformado essa justificação demonstrada por obras é apenas o lado visível da fé. Não há problema no resultado final disso, pois é uma fé que contem obras, e para a Igreja Católica isso basta.

Mas, São Tiago distingue duas partes e não apenas uma. Temos o indício de que a teoria reformada não está alinhada ao pensamento bíblico, e a Epístola de Tiago ainda é uma pedra de tropeço nesse caminho.

O que ensina São Tiago sobre fé e obras? É o tema da próxima postagem.

Gledson Meireles.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

O Cristão Reformado: a expiação limitada

A doutrina da expiação limitada é ensinada no livro “O Cristão Reformado”. Basicamente, essa doutrina afirma que na eternidade foram dados a Cristo os que seriam salvos por Ele, e quando veio ao mundo a Sua obra foi totalmente realizada tendo em vista a salvação apenas desses que Lhe foram entregues antes da criação do mundo.

Sua defesa é, em termos gerais, que não há acepção de pessoas nessa limitação, pois pessoas de todas as nações, raças, classes, etc., estão incluídas. Também a capacidade de salvar não é limitada, mas o foi no propósito. Outro ponto é que Jesus importa-se com todos, oferecendo a todos a salvação.

A doutrina católica ensina a expiação ilimitada. De fato, Cristo veio salvar “Seu povo do seus pecados” (Mt 1,21), dirigindo-se aos judeus, e a partir dos judeus às nações de toda terra. Ele “veio salvar o perdido”, que significa todas as pessoas, ou alguém duvida? (cf. Lucas 19,10)

Por isso, são João escreveu que Deus amou o mundo a ponto de entregar Seu Filho para a salvação de todo o que crê. (cf. João 3,16) Isso mostra que no mundo há os que não creem, e somente os creem serão salvos. No entanto, o amor de Deus é endereçado ao mundo inteiro.

Resumidamente é essa a resposta que a doutrina da expiação limitada deve ter. Não será feita aqui uma explanação de cada ponto tratado na obra (talvez em outra postagem), e são muitas as dificuldades que há na posição calvinista, que um escrutínio cuidadoso revela.

Gledson Meireles.

domingo, 15 de março de 2020

O Cristão Reformado (estudando o livro)

Na continuação do estudo do livro O Cristão Reformado: uma introdução bíblica aos pilares do Protestantismo, Yago Martins, 2018, será tratado o ponto sobre a expiação. O calvinismo ensina a expiação limitada, ou seja, afirmando que Jesus morreu somente pelos eleitos.
 
Vamos testar essa doutrina usando a Bíblia, para vermos se é correta ou não, e até onde ela resiste.
 
Gledson Meireles.

sexta-feira, 13 de março de 2020

O cristão reformado (continuando comentários sobre os temas tratados)

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Quando falamos sobre a Bíblia e a tradição, muitas coisas surgem como divisores entre católicos e reformados. E todos os protestantes, em geral. Parece que os protestantes entendem que, aderir à tradição como regra de fé infalível é somar algo à Bíblia, tê-la até mesmo como menor na escala de regras.

É compreensível que os protestantes, sabendo da inspiração da Bíblia, não queiram acreditar assim, e venham a recusar tamanho apego à tradição. Tradição “extra-bíblica” é vista com muita cautela, muita desconfiança. É sobretudo negada. Por isso, para o protestante a Escritura é também a sua tradição. Em termos teóricos, é claro. Assim o é, pois a prática desse conceito é impossível, o que demonstra erro na teoria. O problema é que, para o cristão católico, a tradição não é extra-bíblica, no sentido de ser algo diferente ou mesmo contrário a ela, mas a tradição é a própria Palavra de Deus que não foi escrita na Bíblia.

É o que diz São Paulo em 2 Ts 2,15, onde os cristãos são instados a crer no que está escrito e no que foi ensinado por via oral. Agora pense: se os apóstolos ensinaram tudo por via escrita, por que o mandamento de reter as tradições? Se tudo o que mais tarde a Igreja deveria crer e praticar estaria na Escritura, por que não o disse ali mesmo, aos cristãos que liam a carta, pois se deviam obedecer ao que estavam aprendendo por via escrita e oral, deveria a parte oral logo ser escrita para não ser perdida e esquecida.

O exemplo do batismo infantil. Para o cristão reformado tudo o que é necessário foi escrito, a tradição de que fala o apóstolo está na Escritura. Para o cristão católico, o que foi ensinado oralmente, e que os apóstolos não escreveram, foi mais tarde escrito por outros, cristãos primitivos, ficando na tradição. Permaneceu em escritos não inspirados, pois a única revelação escrita inspirada é a Bíblia. Dessa forma, deve-se estudar a tradição para conhecer nela a Palavra de Deus. Nem todas as tradições são palavras de Deus, mas apenas o que desde o princípio foi reconhecido assim. Por exemplo, o batismo de crianças. Está na Bíblia, de forma implícita, e está na tradição, explicitamente. Mas a tradição prova que a prática é bíblica. Os batistas seguem o sola scriptura e não aceitam o batismo infantil. Mas há quem continue com o sola scriptura e creia dessa forma, batizando bebês. Já são duas tradições aqui, todas com credos e confissões corroborando a sua intepretação.

Sendo assim, para o cristão reformado batista, não há possibilidade de mudar sua posição por meio da leitura bíblica e ao mesmo tempo fundamentá-la na tradição batista. Acontece o contrário para o cristão reformado presbiteriano, que aceita o batismo de crianças pequenas, e não pode interpretar essa doutrina de outro modo se deseja conformar-se à sua tradição reformada. E praticamente é, pelo menos, quase impossível que aconteça um desses casos.

Outra coisa que o Protestantismo ensina é a total possibilidade de qualquer um ir à Escritura e entender o que está ali para a nossa salvação. Isso parece negar que o católico possa entender esse ensino tão perspicaz, tão claro, de forma que nenhum cristão possa errar sobre ele. Será pelo fato dos reformados negarem comunhão com os católicos, ou pensam que os católicos entendem o ensino básico da salvação, mas adicionam algo à fé, como a tradição por exemplo?

Para os católicos, ninguém pode interpretar a Bíblia como bem entende, segundo o próprio parecer. Isso está proibido em 2 Pedro 1,20-21. Mas, eis que os protestantes entendem isso como se o próprio magistério fizesse interpretação ‘particular’, coisa proibida no texto. O mesmo texto usado por cristãos católicos contra o livre-exame é usado pelos cristãos reformados contra o magistério eclesiástico. Formidável. Contudo, o protestante deve concordar com um dado. Ninguém pode querer fundamentar o que bem entende na Bíblia. Kevin Vanhoozer afirma, falando da perspicácia da Bíblia, que não há carte blanche interpretativa.

Como resolver isso, se o protestante vai à fonte e entende que o texto confronta a ideia de magistério infalível? Certamente o melhor é compreender a posição do reformado, voltar ao texto é verificar se é isso mesmo que a Bíblia ensina.

O cristão reformado entende que sua posição de cristão o possibilita beber da fonte, ler a Escritura e dela ter Palavra de vida eterna, sem intermediários. O magistério eclesiástico seria um empecilho, e seus membros seriam como que um corpo que procura ser superior à Palavra, por conceder autoridade e sentido à Bíblia, dando à sua interpretação o caráter normativo. Assim, magistério estaria fazendo uma interpretação toda sua, o que não obrigaria a ninguém mais. Seria só mais uma interpretação particular. Se esse é o caso, não há como ser obediente ao magistério.

No entanto, o magistério eclesiástico é aquele que deve zelar pela interpretação correta a Escritura, onde o sentido bíblico original é compreendido e ensinado, e por isso o magistério tem o dever de proteger contra falsas intepretações, aquelas que negam o sentido verdadeiro da Bíblia. Por isso, o magistério é servo da Bíblia, e não aquele que confere autoridade a ela, pois a autoridade da Bíblia é intrínseca, dela mesma, proveniente da sua natureza de Palavra de Deus.

O cristão católico respeita a Bíblia com a maior das reverências, e tem sua tradição, e o cristão reformado a tem também. A aproximação dela é que é diferente.

Os judeus de bereia. Em Atos 17,11 está escrito que os judeus de Bereia foram mais nobres que os de Tessalônica, por examinarem as Escrituras para certificar-se se as coisas eram da forma que São Paulo estava pregando. Esse é um dos textos básicos do Protestantismo, citado por teólogos, interpretado na tradição protestante como exemplo do livre-exame. Dessa forma, uma interpretação contrária a isso está contrariando a tradição reformada.

O cristão católico não interpreta Atos 17,11 assim. A razão é que os apóstolos eram inspirados, ensinavam oralmente e por escrito a mesma fé, e não aceitariam ser confrontados por interpretações particulares.

Os bereanos não tinham o Novo Testamento, para lerem e interpretarem as palavras de um apóstolo em comparação com outro ou com o restante da Bíblia, analisando se estava tudo correto, antes de aceitar o conteúdo da fé. O que tinham era o Antigo Testamento. Quando Paulo pregava, iam às Escrituras e verificavam se o apóstolo estava de fato ancorado nelas. Antes de converterem-se. Antes de serem convertidos. Muitos deles, fazendo isso, foram convertidos. Portanto, eram judeus não-convertidos fazendo exame das Escrituras, e não cristãos. Basta ler todo o capítulo e verá que essa é a intepretação correta da passagem, que não ensina o livre-exame.

Outro texto é o de 2 Tm 3,14-15. A Escritura é toda inspirada. Não está escrito que só ela é a regra de fé. As interpretações que assim o fazem vão além do que está escrito. Nada obsta que exista a tradição que explique a Escritura, o que não faz da Escritura algo menos que Palavra de Deus. A passagem não nega a tradição. Afirmar que a Escritura é inspirada, útil e que prepara para toda boa obra não nega a tradição. A tradição não pode ensinar nada que não esteja na Escritura, ou que seja contrário a ela. Portanto, o texto alinha-se com a existência da tradição.
 
Gledson Meireles.

segunda-feira, 9 de março de 2020

O Cristão Reformado (alguns tópicos sobre o livro)

Estudos do livro O Cristão Reformado: uma introdução bíblica aos pilares do protestantismo, do pastor batista Yago Martins,   2018.

O estudo da doutrina cristã é importantíssimo para os dias atuais. Sempre o foi. Hoje, talvez mais do que nunca. Tempos de ridicularização do Cristianismo, pelos de fora, e de grande indiferença por parte de muitos, talvez pelos próprios membros. Mas sempre houve, e há nos dias atuais, e sempre haverá, segundo a promessa do nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo, os membros fieis da Igreja.

Oportunidades de apologética não faltam. É pequeno o número de interessados, isso sim. Mas não importa, pois é o Espírito Santo que converte o pecador, e não deixará faltar a graça de Cristo para que uma conversão sincera seja operada, onde quer que seja e em qualquer tempo. Deus quer que todos sejam salvos. (1 Tm 2,4) E essa é mais uma oportunidade para escrever algo sobre a fé, tendo em vista um novo estudo, lançado há pouco, representando a fé protestante de forma sucinta, profunda, clara e com pretensões bíblicas.

Aqui não será feita uma refutação, ponto por ponto, à obra aludida, mas tem a objetivo de pelos menos fornecer a interpretação católica, ainda que de forma breve, dos principais pontos abordados no livro. E o presente estudo destina-se aos protestantes. Quem sabe alguém, ávido pela verdade, tenha o interesse de confrontar o que aprendeu com aquilo que ainda não sabe, ou seja, com a doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana. Portanto, serão feitas considerações sobre o que caracteriza a doutrina protestante, segundo o que o livro apresenta, mostrando o que a doutrina católica ensina, com fundamentação bíblica.

A leitura literal da Bíblia, eis a força da verdade. O sentido literal é o mais profundo, o verdadeiro, a base para todos os outros. Não se trata de literalismo, hiperliteralismo, e coisas afins, que tiram conclusões do que não está no texto, e conclui o que o texto não diz, mas uma leitura serena e natural do próprio texto sagrado. O restante é tudo fundamentado nesse aspecto.

Assim, veremos o que o cristão reformado tem em comum, e de diferente, com o cristão católico. Veremos que doutrina coaduna com as Escrituras, se a reformada ou a católica. E mais: veremos se o autor conhece realmente o Catolicismo, quando apresenta a defesa da fé reformada em face do que ensina o catecismo católico. É uma oportunidade de crescer na fé e de conversão.

O protestante que estiver aberto a vencer as barreiras psicológicas, como o ódio ao Catolicismo, que é uma delas, por exemplo, para conhecer o que a Igreja Católica ensina, deve tentar entrar no problema da divisão doutrinária e na busca da verdade bíblica. É certo que o protestante crê estar com a verdadeira doutrina e a correta interpretação bíblica. Mas não pode deixar de reconhecer que há divisão doutrinária entre os protestantes, e que isso tem sido algo de estudo e, certamente, preocupação entre os teólogos do Protestantismo.

Vanhoozer afirma que tal problema, o das diferenças doutrinárias, está “em evidência há algum tempo”. (p. 62) E não pense que trata-se de usos e costumes, como muitos pensam ao falar de doutrina. Não é isso, mas algo mais profundo, e afeta o modo de leitura bíblica entre protestantes. Afeta a fé de muitos reformados. Kevin Vanhoozer fez um trabalho referencial visando a resolução do problema protestante ao recuperar o sentido dos cinco solas. Dessa forma, a consideração das respostas teológicas atuais em face dessa temática é imprescindível para o entendimento das características do cristão reformado.

E é nesse terreno que a obra O Cristão Reformado, do pastor batista Yago Martins, constrói sua apresentação. E por fazê-la de forma eminentemente bíblica, ou seja, partindo da interpretação das Escrituras para fundamentar os solas da Reforma e os pontos fundamentais do Calvinismo, é que faz-se necessário considerá-la, a fim de que, de certa forma, o perfil do cristão católico seja melhor conhecido pelos protestantes.

O que o protestante certamente não sabe, é que sua posição diante do conhecimento bíblico é idêntica ao do católico. Ambos devem aproximar-se da Escritura, lê-la e aprender dela. E não é a consciência individual aqui uma autoridade. Ela age, interage, e não se torna autoridade em termos interpretativos. Sob a ótica da reforma talvez isso pareça acontecer, para quem olha de fora, e até para quem está no entrelaçamento mesmo dessa experiência. Porém, nada disso ocorre assim. Contemporaneamente é essa uma das críticas que o Protestantismo deve responder. Kevin Vanhoozer contribui nesse sentido, no seu livro Autoridade Bíblica (...).

O Protestantismo possui no seu seio variedade interpretativa, mas os teólogos procuram fornecer os meios de identificar qual a essência da mensagem da Reforma, de modo a abarcar toda a realidade protestante, a representar toda a doutrina reformada. Fazendo isso pode-se considerar o resultado dessa busca, sendo possível fazer certas contraposições e comparações com a doutrina católica. E com isso o protestante poderá entender melhor a mensagem anunciada pela Igreja Católica Apostólica Romana.

São cinco séculos se separação. No meio católico não é comum ouvir sermões ou ler estudos sobre os solas, nem os cinco pontos do calvinismo. São coisas do protestantismo, e do calvinismo em particular. Mas, há na doutrina católica a apreciação sobre tudo isso, obviamente de forma diluída em outra estrutura. Aliás, foi partindo da doutrina cristã católica que, de certa forma, os solas foram extraídos para, negativamente, contrapor à doutrina católica.

E a doutrina católica é eminentemente bíblica. As outras instâncias da tradição e do magistério estão entrelaçadas harmonicamente e constituem Palavra de Deus. Mas é a Escritura a fonte suprema, direta, exclusivamente deixada e entrega à Igreja Católica para levá-la ao céu. Por isso, um livro que trata da Bíblia e defende uma doutrina diferente daquela ensinada no catecismo da Igreja, é uma obra a ser considerada com grande atenção, pois usa do fundamento mesmo da sua doutrina. Eis o motivo de estudar o livro O Cristão Reformado. E uma vez mergulhando no estudo da fé protestante conhecer a fé católica. Quem sabe quantas conversões poderão vir dessa exposição.

Aos leitores do livro citado. Não serão feitas grandes citações do texto, mas apenas o exercício com o conceito apresentado no texto. O que esse traz poderá ser conhecido, naturalmente, apenas por inferência, por aqueles que porventura não o leram. Melhor seria adquirir o livro para estudo.

Nesses artigos não será possível uma profunda matéria sobre a doutrina cristã católica. No entanto, deixará o convite para melhor conhecê-la. É para o cristão reformado que deseja conhecer o cristão católico.

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Em primeiro lugar o cristão reformado deve entender que a Igreja Católica está sujeita à Palavra de Deus, assim o ensina, assim o crê, assim de fato é. Para ser católico deverá crer dessa forma.

O que diferencia da crença reformada é que nessa pensa-se que a Igreja Católica ensina ser ela superior à Bíblia. No entanto, tal ensino não existe. Tal coisa não tem lugar no Catolicismo.

Afirmar que a Igreja escreveu o Novo Testamento da Bíblia, que formou o cânon bíblico, que a Igreja foi responsável por conservar a Bíblia, durante os séculos da era cristã, em ambos os testamentos, significa explicar o modus operandi de Deus, o modo histórico como Deus nos deu a Sua Palavra, e não por pensar que a Igreja, por esse motivo, acredite ser superior à Escritura. Até imaginar isso revela o desconhecimento desse ponto do ensino cristão católico. E são muitos que acreditam que esse seja o ensino católico.

Sendo assim, e sabendo que tal não é o ensino bíblico (o de ser a Igreja superior à Escritura), e que também não é o ensino católico, não tornam-se cristãos católicos. Não se tornam católicos por não conhecerem bem o catolicismo. Por pensar que assim é, e conhecendo que a Bíblia não ensina isso, muitos são afastados do catolicismo.

Aqueles que aventuram-se mais a desvendar a doutrina da Igreja, aproximam-se dela. Por que a verdade atrai.

Então, para fins de conhecimento, saiba que o cristão católico crê conforme a doutrina oficial da Igreja, explicada no catecismo, e esse ensina que (1) Deus confiou as Sagradas Escrituras (Bíblia) à Igreja, que (2) Deus manifestou-Se pelas palavras dos autores bíblicos (inspiração), que a (3) Escritura deve ser interpretada no “Espírito em que foi escrita”, ou seja, pelo Espírito Santo, (4) que a Igreja “discerniu” o cânon bíblico, ou seja, que descobriu os livros sagrados no meio de tantos outros não sagrados. Foi Deus quem guiou todo o processo. A Bíblia não é Palavra de Deus porque a Igreja assim o diz, mas por ser a Palavra de Deus a Igreja a serve.

O cristão católico venera a Sagrada Escritura. Tem-na como ela é: a Santa Palavra de Deus. Ela é Cristo. Entendamos bem o sentido desse conceito. E faz da palavra de São Jerônimo a palavra da Igreja: “...ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”. Tudo isso está no Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 105, 111, 120, 123, 133. Portanto, supor que a Igreja acredita que é superior à Bíblia é desconhecer a fé católica.
Gledson Meireles.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O milênio na terra e o reino do céu



Os propugnadores da mortalidade natural, contrários à imortalidade da alma, procuram em textos antigos, em escritos dos pais da Igreja, a prova para sua doutrina.

Afirmam que a partir do final do século 2, os padres da Igreja foram aos poucos mudando de ideia, adotando nova crença, e ensinando a imortalidade da alma. Após isso, afirma o livro, os pais da Igreja posteriores tiveram que alegorizar o que a Bíblia ensina, e ensinar que as almas estão no céu, negando a ressurreição, o reino literal de Cristo na terra, o pré-milenismo.

Aliás, o livro traz a afirmação de que o exemplo do pré-milenismo sendo deixado de lado, e o amilenismo adotado mais tarde, seria uma prova de que a doutrina de um período é logo negada por todos mais tarde. O que os pais da Igreja ensinariam em uma época seria negada por outros pais da Igreja em seguida.

O problema com esse exemplo é que a doutrina do milênio não foi nunca um dogma, e havia, como já provado antes, cristãos que ensinavam diferentemente sobre esse ponto, e ainda assim não havia divisão por causa disso. Tratava-se de um ponto discutível, que podia coexistir em diversas opiniões, até que a Igreja chegou a um consenso, sem nunca tê-lo dogmatizado. O que os pais da Igreja ensinam em consenso em uma data, não é mudado depois, mas continua o consenso, que faz parte da tradição da Igreja. Assim é que o milênio foi ensinando, em muitos séculos, por tantos outros, durante toda a história da Igreja, ainda hoje, por exemplo, assim como o milênio espiritual, chamado por muitos como amilenismo. Na verdade, a Igreja crê no milênio, mas espiritualmente, e essa é a doutrina que prevalece.

Ao citar sobre “os bons habitarão a terra”, São Clemente está citando os Provérbios 2, 21-22, sem fazer maiores considerações. Apenas repete o que a Palavra de Deus afirma a respeito. Não diz sobre a imortalidade da alma, nem sobre o céu, onde as almas dos santos já esperam conscientes a ressurreição. Ele apenas cita os Provérbios, sem negar a imortalidade da alma, sem negar o céu, sem afirmar o reino somente na terra, como ensinam outras doutrinas. Clemente não trata dessa questão nessa citação.

Ao afirmar que os bons habitarão a terra, faz o mesmo que Jesus no Sermão da Montanha, que diz: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra”. No entanto, sabemos que o mundo será transformado após o juízo, para a humanidade redimida. Sabemos que o reino dos céus também aparece no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que tem o coração de pobres, porque deles é o Reino dos Céus”. Onde morarão os justos para sempre. A terra será, de alguma forma, ligada ao céu, e os habitantes do céu poderão habitar a terra.

Embora essa não era realmente a interpretação de Santo Irineu. Ele pensava em alguns habitando o céu, outros habitando o paraíso, e outros a Jerusalém descida do céu. Tratava-se das primeiras interpretações da Bíblia concernentes à escatologia.

Lembrando que Santo Irineu cria na imortalidade da alma. Ele ensinou que a alma mantem a existência após a morte, separada do corpo. Que a alma mantem a forma que o corpo tinha, e que a alma continua a lembrar dos atos praticados quando estava viva com o corpo. Portanto, a escatologia do milênio não tem nada a ver com negação da imortalidade da alma. Também, dito doutro modo, não tem a imortalidade da alma coisa alguma com a doutrina amilenista, ou do milênio espiritual. De fato, os padres que creem na imortalidade da alma também creem no milênio.

Para provar sua asserção sobre a alma, Santo Irineu baseia-se, perfeitamente, na parábola do rico e Lázaro. E, para provar que cria na imortalidade da alma, mais uma vez, escreve que as almas recebem uma merecida habitação mesmo antes da ressurreição. Ou seja, as almas habitam um lugar espiritual à espera da ressurreição. Porque a alma recebe a vida pela graça de Deus. Eis o que ensinava Santo Irineu.

São Justino afirma que muitos pensam diferente a respeito do milênio, mas são verdadeiros cristãos. Ele tem uma opinião própria, também seguida por outros. Nessa passagem, São Justino fala dos hereges, entre esses um grupo chamado “batistas”, que negam a ressurreição. Por isso, faz uma refutação à ideia dos gnósticos, não em relação à imortalidade da alma, mas por causa da negação da ressurreição.

Por tudo isso, a questão da imortalidade da alma não é prova de que esse foi o motivo de muitos não crerem no milênio literal, e que a questão do milênio não é prova contra a imortalidade da alma. Essas doutrinas estão no patrimônio da Igreja.

Didaque 1:7; Policarpo aos Filipenses 2, 1-3; Didaquê 16,6-8; S. Irineu, Contra heresias livro 5, 32.33.
Gledson Meireles.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Identificando a Igreja


A seguinte apresentação e introdução serve para os artigos "Identificando a Igreja", publicados nesta página. Boa leitura.


Apresentação


Muitos cristãos cultivaram o hábito de estudar a sua fé, de conhecer a história da Igreja, de estar preparados para a apologética e de alimentar sua alma com o evangelho.

Nisso, temos que muitos conhecem a história da Igreja, através de bons livros acadêmicos, tanto aqueles produzidos pela Igreja Católica quanto os livros escritos por autores protestantes. Contudo, mesmo esses podem não estar familiarizados com certos sinais que distinguem a Igreja cristã. Talvez muitos nunca pensaram que questões aparentemente inócuas possuem força determinante para identificar certos conceitos e conhecer determinados sinais.

No entanto, agora não se trata aqui de encontrar um livro de história eclesiástica, propriamente dito, mas uma leitura da história da Igreja com o intuito de conhecer sua organização, a hierarquia essencial dos seus membros, quem foram seus representantes e expoentes no ensino da fé cristã em cada período estudado, qual a sua fé característica, as seitas e heresias enfrentadas, os seus representantes, bem como as características principais que possuíam, e que as faziam diferentes da Igreja Católica, contribuindo assim para o almejado contraste e identificação da verdade entre os seguidores de Cristo.

Dessa forma, conhecendo os líderes cristãos e os chefes das seitas, ou as doutrinas cristãs em comparação com as heresias de cada período, e a forma que a Igreja tratava as seitas e heresias, é possível identificar a Igreja que Jesus Cristo fundou.

É uma fascinante viagem pela história da Igreja que Nosso Senhor fundou, perpassando os séculos, e mostrando a vitalidade e as energias empregadas para manter a Palavra de Deus incontaminada e por defender e anunciar a salvação aos homens.

Introdução


 

O presente livrinho tem a intenção de mostrar onde está a Igreja Católica em cada período que for estudado. O primeiro é dedicado somente o primeiro século, que tem como fundamento a própria Palavra de Deus, em especial o Novo Testamento.

Dessa forma, a maior parte será dedicada a esse tempo, e os critérios escolhidos foram o conhecimento de algumas autoridades cristãs do período, a doutrina cristã que ensinavam, e sua atitude para com ensinos opostos e grupos sectários. Também a identificação dos grupos, suas doutrinas e os chefes e expoentes de cada grupo.

A partir dessa metodologia, alguns conceitos e questionamentos são propostos para a reflexão, enquanto se faz a refutação de certas doutrinas e entendimentos. É esperado que o leitor possa pensar de que lado está, onde se encontraria entre os grupos apresentado.

De acordo com o pensamento prevalecente entre os protestantes, a Igreja não é uma instituição, não tendo a natureza de uma organização, mas é um organismo espiritual, é a união espiritual de crentes e salvos pelo Sangue de Cristo, sendo essa de natureza invisível, e que todas as denominações são apenas o aspecto visível da Igreja, cada qual com maior ou menor grau de pureza, mas sempre imperfeita, inclusive no ensinamento doutrinal, tendo apenas o núcleo do ensino preservado, que é o mínimo de ensino evangélico, bíblico, caracterizador da verdade da salvação mantido por uma rede de igrejas visíveis, o que fez serem igrejas corretas e bíblicas. Dessa forma, o aspecto visível da Igreja teria uma importância secundária.

 

Com essa mentalidade, muitos leem o Novo Testamento e afirmam que as igrejas de Corinto, Éfeso, Tessalônica, e etc., eram todas imperfeitas, enfrentando divisões, heresias, e outros problemas típicos do ser humano, e que eram governadas por líderes locais, sendo cada uma autônoma, sendo comparáveis às denominações protestantes consideradas bíblicas do ponto de vista da Reforma, e que nem por esses problemas tais igrejas do primeiro século deixaram de ser igrejas de Cristo.[1] Parece cair nesse erro, pelo menos em linhas gerais, o teólogo protestante Wayne Grudem, pois ao falar das igrejas “mais” puras e “menos” puras, elenca como exemplo das primeiras a Igreja dos Filipenses e a dos Tessalonicenses, e das últimas as igrejas da Galácia e de Corinto.[2]

Seriam como se fossem as modernas denominações, cada uma com seu credo característico, mantendo unidade apenas nos artigos fundamentais, não importando o fundador de cada uma, pois não tendo caráter institucional, e sendo a pregação do Evangelho bíblico o distintivo da verdadeira Igreja, podem ser fundadas em qualquer tempo, como ainda hoje, serem imperfeitas em vários sentidos, mas tendo a doutrina fundamental mantida, constituirá uma igreja de Cristo, não importando as diferenças e divergências relativas aos pontos secundários da doutrina.

E por isso, citam os pecados que estavam entre os coríntios, as divisões, as heresias, e etc., afirmando que assim também é nos dias de hoje no Protestantismo. Com isso, acalmam suas consciências e afirmam que as divisões são permitidas, benéficas, e, como entendem, mantendo o fundamento, não afetam a unidade.

 

Para refutar tal ideia, segue uma série de estudos onde será identificada a Igreja verdadeira, mostrando que essa é institucional, uma sociedade espiritual organizada, sendo também visível, um organismo vivificado pelo Espírito Santo, constituindo o Corpo de Cristo, onde cada igreja local é governada por um apóstolo, um presbítero ou um bispo, mas todas tendo unidade no grupo dos doze apóstolos, como fundamento governamental, não sendo as igrejas particulares de forma alguma absolutamente autônomas, mas todas submetidas à autoridade apostólica, modelo de governo que permanece até os dias de hoje, não no número, nem em suas características exclusivas, que tinham por serem os apóstolos escolhidos diretamente por Jesus e testemunhas oculares da ressurreição. Assim, os sucessores dos apóstolos continuam no governo eclesiástico. No primeiro século, todas as Igrejas estavam unidas na fé, ou seja, na doutrina, no governo, na disciplina, na moral, no culto.[3]

Que o Senhor Jesus Cristo nos abençoe e ilumine nossas mentes para que conheçamos a verdade, convertamos o nosso coração e estejamos no Seu rebanho.

As divergências sobre a natureza da Igreja contribuem para justificar a existência de igrejas fora da igreja primitiva e católica. A teologia protestante afirma que todos os salvos são a Igreja. Mas, há quem diga que a igreja existiu somente a partir de Cristo, e que os salvos do Antigo Testamento não eram igreja, e haverá ainda salvos futuros que não serão parte da Igreja. Essas são opiniões dispensacionalistas.

O teólogo Wayne Grudem, defendendo a visão não-dispensacionalista, afirma que a Igreja é edificada por Cristo mas é continuação do plano divino já iniciado no Antigo Testamento.[4] Ele define a Igreja assim: “A igreja invisível é a igreja como Deus a vê”. E “A igreja visível é a igreja como os cristãos a vêem.”. E explica que não é a igreja que qualquer pessoa sem o conhecimento do Evangelho pode perceber, mas a igreja conforme os cristãos genuínos percebem. Outro aspecto que o Protestantismo tende a considerar, na prática, como fundamental, é o da igreja local. Mas Grudem traz um esclarecimento importante, que está em concordância com a doutrina cristã católica, de que o termo Igreja é aplicado tanto para a igreja local, como a igreja de uma cidade, como de uma região, como a Igreja universal.

 


 



[1] A autonomia das igrejas é defendida por muitos, que tentam fundamentar sua posição nas Escrituras. As igrejas seriam autônomas, onde cada uma não responderia diante de Deus pelos erros e pecados das outras, não seria castigada por causa do mau testemunho de outras. Também nenhuma teria autoridade sobre outra, mas cada governo se limitaria a chefiar os cristãos locais. Esse entendimento é errôneo pois confunde administração com a própria natureza da Igreja. Sendo uma só, cada igreja local não poderia ser autônoma em essência, mas apenas parte da Igreja universal. Dessa forma, cada ato seu não configura um ato universal, mas é parte dele, sendo apenas o seu ato como grupo local. Jesus, por exemplo, admoesta e ameaça uma igreja de tirar o seu candelabro. Não estava julgando todo o Corpo de Cristo, mas apenas uma parte dele, alguns membros, que formavam uma igreja local, ligada à Igreja única. De fato, Cristo tem um só corpo eclesiástico, não vários.
[2] O problema com a visão de Grudem ao apontar esses casos como exemplo é que parece estar tratando daqueles cristãos específicos como se fossem modernas “denominações”, que não existiam. Para afastar esse erro de pensamento, basta imaginar um padre católico elogiando certas igrejas católicas de um lugar, e exortando outras de outro lugar. Como ficará claro neste estudo, não havia problemas doutrinários na Igreja no primeiro século como se fossem doutrinas diversas entre denominações. O que havia eram heresias que surgiam no meio das igrejas e eram totalmente reprovadas. Isso fica claro nas próprias palavras de Grudem, que sem perceber, mostra o que foi aqui apontado. Ele escreve: “uma igreja pode ter uma excelente doutrina e uma pregação sadia, por exemplo, todavia possuir uma falha lamentável no testemunho a outros...”. Lembrando que as comunidades do Novo Testamento tiveram todas a mesma doutrina, e os problemas de ordem moral, prática, e etc., são comuns na Igreja Católica ainda hoje. No entender protestante, uma igreja mais pura é igualmente cristã em comparação com uma menos pura, onde uma acerta mais doutrinariamente que outra. Nenhum apóstolo jamais pensou coisa igual. Todas as doutrinas que não concordavam com o ensino apostólico foram consideradas sérias deformações doutrinais, e foram denunciadas. A unidade não se tratava apenas em “cooperação voluntária e afiliação entre grupos cristãos”, como afirma Grudem sobre o Protestantismo, mas havia uma unidade doutrinária, de governo, organização, culto, etc. Por isso, um problema doutrinal local poderia ser resolvido pelos apóstolos em um Concílio em outra localidade, por outros presbíteros, como aconteceu no Concílio de Jerusalém. No Protestantismo não acontece isso, pois um concílio luterano não tem jurisdição em uma igreja reformada, nem em uma batista e vice-versa. Sem mencionar as outras denominações.
[3] Muitos enfatizam demais o aspecto invisível da Igreja, afirmando que a Igreja particular, denominacional, nominal, a placa da igreja, e coisas do tipo, não seriam importantes, pois Jesus Cristo é quem salva. Isso indica a diferente conceituação de Igreja entre os entendimentos católico e protestante, onde o último tende a quase deter-se no aspecto invisível de Igreja, considerando os cristãos em geral e em toda a parte como se fossem visivelmente a Igreja, não importando estarem divididos nas denominações, contanto que crendo em certo número de verdades toleradas como parte essencial do Protestantismo.  No entanto, no primeiro século, no tempo apostólico, não há nenhuma diferença entre estar em Cristo e fazer parte da Igreja visível, pois havendo uma única igreja não era possível encontrar cristãos fora da comunhão da Igreja que estava em toda parte. Cada igreja local, em cada cidade, em cada parte de uma cidade, em cada região, era pastoreada pelos apóstolos e epíscopos, presbíteros, diáconos por eles ordenados, e não eram considerados nenhum grupo fora da comunhão visível da Igreja. Não havia igreja fora da autoridade apostólica. O pertencimento à igreja visível é ao mesmo tempo o sinal da membrezia da Igreja invisível, pois a parte visível da Igreja é a expressão da sua parte invisível. E por isso, é impossível encontrar qualquer divergência doutrinária tolerada pelos apóstolos, como formando outro grupo cristão fora da unidade visível estabelecida. Atenção a esse dado: não há tolerância a divergências doutrinárias no Novo Testamento. É impossível negar que no Novo Testamento há uma só Igreja. Portanto, no primeiro século encontra-se uma só Igreja.
[4] Fundamentados na verdade de que só Deus conhece os que são Seus (2 Tm 2,19), muitos formulam ideias que redundam em erro e heresia. Isso porque abrem espaço para a criação de igrejas e a continuidade das divisões. A crítica de que os sacerdotes do AT tornaram-se falsos ainda que descendendo de Aarão, fazendo com que bispos e padres sejam colocados fora da comunhão, ainda que estejam na sucessão apostólica, é algo que não tem respaldo bíblico. Jesus confirmou a autoridade dos fariseus em Mateus 23. A sucessão apostólica é respaldada na doutrina bíblica neotestamentária. A “verdadeira pregação do evangelho” é marca da Igreja, mas quando alguém fere essa característica, é a Igreja quem avalia e pronuncia seu parecer a respeito. A crítica de Martinho Lutero e João Calvino, lembradas por Wayne Grudem, não obedece esse modelo, já que eles deixaram a comunhão visível da Igreja e anatematizaram a Igreja Católica inteira a qual haviam deixado. Os anátemas de Trento estão conforme o paradigma apostólico, não sendo voz de um ou outro cristão, mas de toda a Igreja, reformando a Igreja e rejeitando doutrinas estranhas. Grudem trata das características da Igreja, e refere-se aos templos pagãos, que eram igrejas falsas, as assembleias judaicas, que é exemplo de igreja falsa. E no Cristianismo, como os reformadores protestantes buscavam marcas para confrontar com a Igreja Católica e negar a sucessão apostólica, afirmaram a pregação correta da Palavra de Deus como uma das marcas. No entanto, essa correção da pregação foi estabelecida em seus concílios e confissões, o que abre espaço para maiores esclarecimentos. Sendo os pontos de doutrinas fundamentais, Grudem cita algumas igrejas falsas. A segunda marca é a administração correta dos sacramentos. Ao tratar da Igreja Católica, partindo dessas marcas estudadas, sob a perspectiva protestante, o teólogo Wayne Grudem admite que é uma Igreja verdadeira. É característico do estudo sincero e profundo em busca da verdade a aproximação da verdade. As verdadeiras marcas da Igreja são a catolicidade, apostolicidade, unicidade e a santidade.

Gledson Meireles

domingo, 9 de fevereiro de 2020

A Exortação Apostólica e o celibato

No dia 12 de fevereiro será publicada a Exortação Apostólica referente ao Sínodo da Amazônia, e um dos pontos tratados mais esperados tem a ver com o celibato. De fato, muito esperam a orientação papal para a ordenação de homens casados para a atuar na região amazônica, podendo ser também uma prática a ser estendida por toda a Igreja.
 
O celibato é bíblico. Todos os que creem na Bíblia o sabem ou deveriam saber. Mas também todos sabemos que esse é um assunto controverso. O Protestantismo, por exemplo, é muitíssimo contrário a ele. De fato, os protestantes o colocam como um dos motivos por que não são cristãos católicos, ou posto de outra maneira, apresentam o celibato como algo diabólico, como erro, heresia, desvio, e coisas nesse sentido.
 
Ao avaliar a doutrina, apresentam-se contrários ao celibato "obrigatório", mas ao tecerem seus arrazoados, vemos que na verdade estão falando contra o celibato em si. Parece que não notam o fato.
 
Talvez há católicos que estejam influenciados por tais pensamentos. No entanto, o problema é que muitos nunca pararam para pensar como a Igreja o pensa. Não conhecem os motivos que a Igreja tem para continuar a exigir o celibato.
 
É sabido que não se trata de dogma, ou algo intrínseco ao sacerdócio, mas uma tradição muito bem fundamentada, com motivos bíblicos, e com razões que mesmo nos dias atuais, talvez mais do que nunca, continuam válidas, e as mais indicadas. Sabe-se também que há entre os padres aqueles que pensam não ser problema uma alteração prática nesse sentido, ainda que sejam padres celibatários e não tenham problemas com a doutrina. Lembrando novamente que não se trata de algo imutável.
 
Não se sabe o que o papa decidirá. Será ambíguo o documento? Conterá uma resposta positiva, ou algo positivo ao pedido do sínodo referente ao celibato? Será contrário e decepcionará a muitos?
 
A prudência parece apontar que o papa não abrirá mão da prática milenar da Igreja, mesmo diante das razões apresentadas no sínodo.
 
Gledson Meireles.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Um vídeo que pretendeu refutar a virgindade perpétua de Maria

Em um vídeo do canal Dois Dedos de Teologia que, segundo o autor, quer honrar a memória de Maria, e que trada sobre o dogma da virgindade perpétua de Maria, pode-se afirmar que o autor mostra que realmente é um dogma protestante não crer nessa doutrina.

De fato, em resumo ele afirma que isso "não se sustenta pela Escritura, que está em completa oposição àquilo que está revelado na Palavra de Deus, que essa é uma tradição eclesiástica e que anula a Escritura, que não há motivo para acreditar na virgindade perpétua de Maria, que é uma crença que não provem da Escritura e que está em oposição, rejeita e solapa aquilo que é descrito em ambos os testamentos, e crendo nisso é não crer naquilo que é dito na Escritura, é colocar a tradição acima da Bíblia, é rasgar as páginas do texto sagrado para se apegar à tradição eclesiástica".
Ou seja, para ser protestante é necessário não crer que Maria permaneceu virgem para sempre. Afirmar que não há motivo para crer, e no vídeo apresenta cinco motivos para não crer. Será que nesses 33 minutos e 58 segundos, com seus cinco motivos, realmente ele refutou o que pretendeu refutar?
Gledson Meireles.