domingo, 16 de fevereiro de 2020

Identificando a Igreja


A seguinte apresentação e introdução serve para os artigos "Identificando a Igreja", publicados nesta página. Boa leitura.


Apresentação


Muitos cristãos cultivaram o hábito de estudar a sua fé, de conhecer a história da Igreja, de estar preparados para a apologética e de alimentar sua alma com o evangelho.

Nisso, temos que muitos conhecem a história da Igreja, através de bons livros acadêmicos, tanto aqueles produzidos pela Igreja Católica quanto os livros escritos por autores protestantes. Contudo, mesmo esses podem não estar familiarizados com certos sinais que distinguem a Igreja cristã. Talvez muitos nunca pensaram que questões aparentemente inócuas possuem força determinante para identificar certos conceitos e conhecer determinados sinais.

No entanto, agora não se trata aqui de encontrar um livro de história eclesiástica, propriamente dito, mas uma leitura da história da Igreja com o intuito de conhecer sua organização, a hierarquia essencial dos seus membros, quem foram seus representantes e expoentes no ensino da fé cristã em cada período estudado, qual a sua fé característica, as seitas e heresias enfrentadas, os seus representantes, bem como as características principais que possuíam, e que as faziam diferentes da Igreja Católica, contribuindo assim para o almejado contraste e identificação da verdade entre os seguidores de Cristo.

Dessa forma, conhecendo os líderes cristãos e os chefes das seitas, ou as doutrinas cristãs em comparação com as heresias de cada período, e a forma que a Igreja tratava as seitas e heresias, é possível identificar a Igreja que Jesus Cristo fundou.

É uma fascinante viagem pela história da Igreja que Nosso Senhor fundou, perpassando os séculos, e mostrando a vitalidade e as energias empregadas para manter a Palavra de Deus incontaminada e por defender e anunciar a salvação aos homens.

Introdução


 

O presente livrinho tem a intenção de mostrar onde está a Igreja Católica em cada período que for estudado. O primeiro é dedicado somente o primeiro século, que tem como fundamento a própria Palavra de Deus, em especial o Novo Testamento.

Dessa forma, a maior parte será dedicada a esse tempo, e os critérios escolhidos foram o conhecimento de algumas autoridades cristãs do período, a doutrina cristã que ensinavam, e sua atitude para com ensinos opostos e grupos sectários. Também a identificação dos grupos, suas doutrinas e os chefes e expoentes de cada grupo.

A partir dessa metodologia, alguns conceitos e questionamentos são propostos para a reflexão, enquanto se faz a refutação de certas doutrinas e entendimentos. É esperado que o leitor possa pensar de que lado está, onde se encontraria entre os grupos apresentado.

De acordo com o pensamento prevalecente entre os protestantes, a Igreja não é uma instituição, não tendo a natureza de uma organização, mas é um organismo espiritual, é a união espiritual de crentes e salvos pelo Sangue de Cristo, sendo essa de natureza invisível, e que todas as denominações são apenas o aspecto visível da Igreja, cada qual com maior ou menor grau de pureza, mas sempre imperfeita, inclusive no ensinamento doutrinal, tendo apenas o núcleo do ensino preservado, que é o mínimo de ensino evangélico, bíblico, caracterizador da verdade da salvação mantido por uma rede de igrejas visíveis, o que fez serem igrejas corretas e bíblicas. Dessa forma, o aspecto visível da Igreja teria uma importância secundária.

 

Com essa mentalidade, muitos leem o Novo Testamento e afirmam que as igrejas de Corinto, Éfeso, Tessalônica, e etc., eram todas imperfeitas, enfrentando divisões, heresias, e outros problemas típicos do ser humano, e que eram governadas por líderes locais, sendo cada uma autônoma, sendo comparáveis às denominações protestantes consideradas bíblicas do ponto de vista da Reforma, e que nem por esses problemas tais igrejas do primeiro século deixaram de ser igrejas de Cristo.[1] Parece cair nesse erro, pelo menos em linhas gerais, o teólogo protestante Wayne Grudem, pois ao falar das igrejas “mais” puras e “menos” puras, elenca como exemplo das primeiras a Igreja dos Filipenses e a dos Tessalonicenses, e das últimas as igrejas da Galácia e de Corinto.[2]

Seriam como se fossem as modernas denominações, cada uma com seu credo característico, mantendo unidade apenas nos artigos fundamentais, não importando o fundador de cada uma, pois não tendo caráter institucional, e sendo a pregação do Evangelho bíblico o distintivo da verdadeira Igreja, podem ser fundadas em qualquer tempo, como ainda hoje, serem imperfeitas em vários sentidos, mas tendo a doutrina fundamental mantida, constituirá uma igreja de Cristo, não importando as diferenças e divergências relativas aos pontos secundários da doutrina.

E por isso, citam os pecados que estavam entre os coríntios, as divisões, as heresias, e etc., afirmando que assim também é nos dias de hoje no Protestantismo. Com isso, acalmam suas consciências e afirmam que as divisões são permitidas, benéficas, e, como entendem, mantendo o fundamento, não afetam a unidade.

 

Para refutar tal ideia, segue uma série de estudos onde será identificada a Igreja verdadeira, mostrando que essa é institucional, uma sociedade espiritual organizada, sendo também visível, um organismo vivificado pelo Espírito Santo, constituindo o Corpo de Cristo, onde cada igreja local é governada por um apóstolo, um presbítero ou um bispo, mas todas tendo unidade no grupo dos doze apóstolos, como fundamento governamental, não sendo as igrejas particulares de forma alguma absolutamente autônomas, mas todas submetidas à autoridade apostólica, modelo de governo que permanece até os dias de hoje, não no número, nem em suas características exclusivas, que tinham por serem os apóstolos escolhidos diretamente por Jesus e testemunhas oculares da ressurreição. Assim, os sucessores dos apóstolos continuam no governo eclesiástico. No primeiro século, todas as Igrejas estavam unidas na fé, ou seja, na doutrina, no governo, na disciplina, na moral, no culto.[3]

Que o Senhor Jesus Cristo nos abençoe e ilumine nossas mentes para que conheçamos a verdade, convertamos o nosso coração e estejamos no Seu rebanho.

As divergências sobre a natureza da Igreja contribuem para justificar a existência de igrejas fora da igreja primitiva e católica. A teologia protestante afirma que todos os salvos são a Igreja. Mas, há quem diga que a igreja existiu somente a partir de Cristo, e que os salvos do Antigo Testamento não eram igreja, e haverá ainda salvos futuros que não serão parte da Igreja. Essas são opiniões dispensacionalistas.

O teólogo Wayne Grudem, defendendo a visão não-dispensacionalista, afirma que a Igreja é edificada por Cristo mas é continuação do plano divino já iniciado no Antigo Testamento.[4] Ele define a Igreja assim: “A igreja invisível é a igreja como Deus a vê”. E “A igreja visível é a igreja como os cristãos a vêem.”. E explica que não é a igreja que qualquer pessoa sem o conhecimento do Evangelho pode perceber, mas a igreja conforme os cristãos genuínos percebem. Outro aspecto que o Protestantismo tende a considerar, na prática, como fundamental, é o da igreja local. Mas Grudem traz um esclarecimento importante, que está em concordância com a doutrina cristã católica, de que o termo Igreja é aplicado tanto para a igreja local, como a igreja de uma cidade, como de uma região, como a Igreja universal.

 


 



[1] A autonomia das igrejas é defendida por muitos, que tentam fundamentar sua posição nas Escrituras. As igrejas seriam autônomas, onde cada uma não responderia diante de Deus pelos erros e pecados das outras, não seria castigada por causa do mau testemunho de outras. Também nenhuma teria autoridade sobre outra, mas cada governo se limitaria a chefiar os cristãos locais. Esse entendimento é errôneo pois confunde administração com a própria natureza da Igreja. Sendo uma só, cada igreja local não poderia ser autônoma em essência, mas apenas parte da Igreja universal. Dessa forma, cada ato seu não configura um ato universal, mas é parte dele, sendo apenas o seu ato como grupo local. Jesus, por exemplo, admoesta e ameaça uma igreja de tirar o seu candelabro. Não estava julgando todo o Corpo de Cristo, mas apenas uma parte dele, alguns membros, que formavam uma igreja local, ligada à Igreja única. De fato, Cristo tem um só corpo eclesiástico, não vários.
[2] O problema com a visão de Grudem ao apontar esses casos como exemplo é que parece estar tratando daqueles cristãos específicos como se fossem modernas “denominações”, que não existiam. Para afastar esse erro de pensamento, basta imaginar um padre católico elogiando certas igrejas católicas de um lugar, e exortando outras de outro lugar. Como ficará claro neste estudo, não havia problemas doutrinários na Igreja no primeiro século como se fossem doutrinas diversas entre denominações. O que havia eram heresias que surgiam no meio das igrejas e eram totalmente reprovadas. Isso fica claro nas próprias palavras de Grudem, que sem perceber, mostra o que foi aqui apontado. Ele escreve: “uma igreja pode ter uma excelente doutrina e uma pregação sadia, por exemplo, todavia possuir uma falha lamentável no testemunho a outros...”. Lembrando que as comunidades do Novo Testamento tiveram todas a mesma doutrina, e os problemas de ordem moral, prática, e etc., são comuns na Igreja Católica ainda hoje. No entender protestante, uma igreja mais pura é igualmente cristã em comparação com uma menos pura, onde uma acerta mais doutrinariamente que outra. Nenhum apóstolo jamais pensou coisa igual. Todas as doutrinas que não concordavam com o ensino apostólico foram consideradas sérias deformações doutrinais, e foram denunciadas. A unidade não se tratava apenas em “cooperação voluntária e afiliação entre grupos cristãos”, como afirma Grudem sobre o Protestantismo, mas havia uma unidade doutrinária, de governo, organização, culto, etc. Por isso, um problema doutrinal local poderia ser resolvido pelos apóstolos em um Concílio em outra localidade, por outros presbíteros, como aconteceu no Concílio de Jerusalém. No Protestantismo não acontece isso, pois um concílio luterano não tem jurisdição em uma igreja reformada, nem em uma batista e vice-versa. Sem mencionar as outras denominações.
[3] Muitos enfatizam demais o aspecto invisível da Igreja, afirmando que a Igreja particular, denominacional, nominal, a placa da igreja, e coisas do tipo, não seriam importantes, pois Jesus Cristo é quem salva. Isso indica a diferente conceituação de Igreja entre os entendimentos católico e protestante, onde o último tende a quase deter-se no aspecto invisível de Igreja, considerando os cristãos em geral e em toda a parte como se fossem visivelmente a Igreja, não importando estarem divididos nas denominações, contanto que crendo em certo número de verdades toleradas como parte essencial do Protestantismo.  No entanto, no primeiro século, no tempo apostólico, não há nenhuma diferença entre estar em Cristo e fazer parte da Igreja visível, pois havendo uma única igreja não era possível encontrar cristãos fora da comunhão da Igreja que estava em toda parte. Cada igreja local, em cada cidade, em cada parte de uma cidade, em cada região, era pastoreada pelos apóstolos e epíscopos, presbíteros, diáconos por eles ordenados, e não eram considerados nenhum grupo fora da comunhão visível da Igreja. Não havia igreja fora da autoridade apostólica. O pertencimento à igreja visível é ao mesmo tempo o sinal da membrezia da Igreja invisível, pois a parte visível da Igreja é a expressão da sua parte invisível. E por isso, é impossível encontrar qualquer divergência doutrinária tolerada pelos apóstolos, como formando outro grupo cristão fora da unidade visível estabelecida. Atenção a esse dado: não há tolerância a divergências doutrinárias no Novo Testamento. É impossível negar que no Novo Testamento há uma só Igreja. Portanto, no primeiro século encontra-se uma só Igreja.
[4] Fundamentados na verdade de que só Deus conhece os que são Seus (2 Tm 2,19), muitos formulam ideias que redundam em erro e heresia. Isso porque abrem espaço para a criação de igrejas e a continuidade das divisões. A crítica de que os sacerdotes do AT tornaram-se falsos ainda que descendendo de Aarão, fazendo com que bispos e padres sejam colocados fora da comunhão, ainda que estejam na sucessão apostólica, é algo que não tem respaldo bíblico. Jesus confirmou a autoridade dos fariseus em Mateus 23. A sucessão apostólica é respaldada na doutrina bíblica neotestamentária. A “verdadeira pregação do evangelho” é marca da Igreja, mas quando alguém fere essa característica, é a Igreja quem avalia e pronuncia seu parecer a respeito. A crítica de Martinho Lutero e João Calvino, lembradas por Wayne Grudem, não obedece esse modelo, já que eles deixaram a comunhão visível da Igreja e anatematizaram a Igreja Católica inteira a qual haviam deixado. Os anátemas de Trento estão conforme o paradigma apostólico, não sendo voz de um ou outro cristão, mas de toda a Igreja, reformando a Igreja e rejeitando doutrinas estranhas. Grudem trata das características da Igreja, e refere-se aos templos pagãos, que eram igrejas falsas, as assembleias judaicas, que é exemplo de igreja falsa. E no Cristianismo, como os reformadores protestantes buscavam marcas para confrontar com a Igreja Católica e negar a sucessão apostólica, afirmaram a pregação correta da Palavra de Deus como uma das marcas. No entanto, essa correção da pregação foi estabelecida em seus concílios e confissões, o que abre espaço para maiores esclarecimentos. Sendo os pontos de doutrinas fundamentais, Grudem cita algumas igrejas falsas. A segunda marca é a administração correta dos sacramentos. Ao tratar da Igreja Católica, partindo dessas marcas estudadas, sob a perspectiva protestante, o teólogo Wayne Grudem admite que é uma Igreja verdadeira. É característico do estudo sincero e profundo em busca da verdade a aproximação da verdade. As verdadeiras marcas da Igreja são a catolicidade, apostolicidade, unicidade e a santidade.

Gledson Meireles

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