A seguinte apresentação e introdução serve para os artigos "Identificando a Igreja", publicados nesta página. Boa leitura.
Apresentação
Muitos cristãos
cultivaram o hábito de estudar a sua fé, de conhecer a história da Igreja, de
estar preparados para a apologética e de alimentar sua alma com o evangelho.
Nisso, temos que muitos
conhecem a história da Igreja, através de bons livros acadêmicos, tanto aqueles
produzidos pela Igreja Católica quanto os livros escritos por autores
protestantes. Contudo, mesmo esses podem não estar familiarizados com certos
sinais que distinguem a Igreja cristã. Talvez muitos nunca pensaram que
questões aparentemente inócuas possuem força determinante para identificar
certos conceitos e conhecer determinados sinais.
No entanto, agora não
se trata aqui de encontrar um livro de história eclesiástica, propriamente
dito, mas uma leitura da história da Igreja com o intuito de conhecer sua
organização, a hierarquia essencial dos seus membros, quem foram seus
representantes e expoentes no ensino da fé cristã em cada período estudado,
qual a sua fé característica, as seitas e heresias enfrentadas, os seus
representantes, bem como as características principais que possuíam, e que as
faziam diferentes da Igreja Católica, contribuindo assim para o almejado
contraste e identificação da verdade entre os seguidores de Cristo.
Dessa forma, conhecendo
os líderes cristãos e os chefes das seitas, ou as doutrinas cristãs em
comparação com as heresias de cada período, e a forma que a Igreja tratava as
seitas e heresias, é possível identificar a Igreja que Jesus Cristo fundou.
É uma fascinante viagem
pela história da Igreja que Nosso Senhor fundou, perpassando os séculos, e
mostrando a vitalidade e as energias empregadas para manter a Palavra de Deus
incontaminada e por defender e anunciar a salvação aos homens.
Introdução
O
presente livrinho tem a intenção de mostrar onde está a Igreja Católica em cada
período que for estudado. O primeiro é dedicado somente o primeiro século, que
tem como fundamento a própria Palavra de Deus, em especial o Novo Testamento.
Dessa
forma, a maior parte será dedicada a esse tempo, e os critérios escolhidos
foram o conhecimento de algumas autoridades cristãs do período, a doutrina
cristã que ensinavam, e sua atitude para com ensinos opostos e grupos
sectários. Também a identificação dos grupos, suas doutrinas e os chefes e
expoentes de cada grupo.
A
partir dessa metodologia, alguns conceitos e questionamentos são propostos para
a reflexão, enquanto se faz a refutação de certas doutrinas e entendimentos. É
esperado que o leitor possa pensar de que lado está, onde se encontraria entre
os grupos apresentado.
De acordo
com o pensamento prevalecente entre os protestantes, a Igreja não é uma
instituição, não tendo a natureza de uma organização, mas é um organismo
espiritual, é a união espiritual de crentes e salvos pelo Sangue de Cristo,
sendo essa de natureza invisível, e que todas as denominações são apenas o
aspecto visível da Igreja, cada qual com maior ou menor grau de pureza, mas
sempre imperfeita, inclusive no ensinamento doutrinal, tendo apenas o núcleo do
ensino preservado, que é o mínimo de ensino evangélico, bíblico, caracterizador
da verdade da salvação mantido por uma rede de igrejas visíveis, o que fez
serem igrejas corretas e bíblicas. Dessa forma, o aspecto visível da Igreja
teria uma importância secundária.
Com essa
mentalidade, muitos leem o Novo Testamento e afirmam que as igrejas de Corinto,
Éfeso, Tessalônica, e etc., eram todas imperfeitas, enfrentando divisões,
heresias, e outros problemas típicos do ser humano, e que eram governadas por
líderes locais, sendo cada uma autônoma, sendo comparáveis às denominações
protestantes consideradas bíblicas do ponto de vista da Reforma, e que nem por
esses problemas tais igrejas do primeiro século deixaram de ser igrejas de
Cristo.[1]
Parece cair nesse erro, pelo menos em linhas gerais, o teólogo protestante
Wayne Grudem, pois ao falar das igrejas “mais” puras e “menos” puras, elenca
como exemplo das primeiras a Igreja dos Filipenses e a dos Tessalonicenses, e
das últimas as igrejas da Galácia e de Corinto.[2]
Seriam
como se fossem as modernas denominações, cada uma com seu credo característico,
mantendo unidade apenas nos artigos fundamentais, não importando o fundador de
cada uma, pois não tendo caráter institucional, e sendo a pregação do Evangelho
bíblico o distintivo da verdadeira Igreja, podem ser fundadas em qualquer
tempo, como ainda hoje, serem imperfeitas em vários sentidos, mas tendo a
doutrina fundamental mantida, constituirá uma igreja de Cristo, não importando
as diferenças e divergências relativas aos pontos secundários da doutrina.
E por
isso, citam os pecados que estavam entre os coríntios, as divisões, as
heresias, e etc., afirmando que assim também é nos dias de hoje no
Protestantismo. Com isso, acalmam suas consciências e afirmam que as divisões
são permitidas, benéficas, e, como entendem, mantendo o fundamento, não afetam a
unidade.
Para
refutar tal ideia, segue uma série de estudos onde será identificada a Igreja
verdadeira, mostrando que essa é institucional, uma sociedade espiritual
organizada, sendo também visível, um organismo vivificado pelo Espírito Santo,
constituindo o Corpo de Cristo, onde cada igreja local é governada por um
apóstolo, um presbítero ou um bispo, mas todas tendo unidade no grupo dos doze
apóstolos, como fundamento governamental, não sendo as igrejas particulares de
forma alguma absolutamente autônomas, mas todas submetidas à autoridade
apostólica, modelo de governo que permanece até os dias de hoje, não no número,
nem em suas características exclusivas, que tinham por serem os apóstolos
escolhidos diretamente por Jesus e testemunhas oculares da ressurreição. Assim,
os sucessores dos apóstolos continuam no governo eclesiástico. No primeiro
século, todas as Igrejas estavam unidas na fé, ou seja, na doutrina, no
governo, na disciplina, na moral, no culto.[3]
Que
o Senhor Jesus Cristo nos abençoe e ilumine nossas mentes para que conheçamos a
verdade, convertamos o nosso coração e estejamos no Seu rebanho.
As divergências sobre a
natureza da Igreja contribuem para justificar a existência de igrejas fora da
igreja primitiva e católica. A teologia protestante afirma que todos os salvos
são a Igreja. Mas, há quem diga que a igreja existiu somente a partir de
Cristo, e que os salvos do Antigo Testamento não eram igreja, e haverá ainda
salvos futuros que não serão parte da
Igreja. Essas são opiniões dispensacionalistas.
O teólogo Wayne Grudem,
defendendo a visão não-dispensacionalista, afirma que a Igreja é edificada por
Cristo mas é continuação do plano divino já iniciado no Antigo Testamento.[4]
Ele define a Igreja assim: “A igreja
invisível é a igreja como Deus a vê”. E “A igreja visível é a igreja como os cristãos a vêem.”. E explica
que não é a igreja que qualquer pessoa sem o conhecimento do Evangelho pode
perceber, mas a igreja conforme os cristãos genuínos percebem. Outro aspecto
que o Protestantismo tende a considerar, na prática, como fundamental, é o da
igreja local. Mas Grudem traz um esclarecimento importante, que está em
concordância com a doutrina cristã católica, de que o termo Igreja é aplicado
tanto para a igreja local, como a igreja de uma cidade, como de uma região,
como a Igreja universal.
[1]
A autonomia das igrejas é
defendida por muitos, que tentam fundamentar sua posição nas Escrituras. As
igrejas seriam autônomas, onde cada uma não responderia diante de Deus pelos
erros e pecados das outras, não seria castigada por causa do mau testemunho de
outras. Também nenhuma teria autoridade sobre outra, mas cada governo se
limitaria a chefiar os cristãos locais. Esse entendimento é errôneo pois
confunde administração com a própria natureza da Igreja. Sendo uma só, cada
igreja local não poderia ser autônoma em essência, mas apenas parte da Igreja
universal. Dessa forma, cada ato seu não configura um ato universal, mas é
parte dele, sendo apenas o seu ato como grupo local. Jesus, por exemplo,
admoesta e ameaça uma igreja de tirar o seu candelabro. Não estava julgando
todo o Corpo de Cristo, mas apenas uma parte dele, alguns membros, que formavam
uma igreja local, ligada à Igreja única. De fato, Cristo tem um só corpo
eclesiástico, não vários.
[2]
O problema com a visão de
Grudem ao apontar esses casos como exemplo é que parece estar tratando daqueles
cristãos específicos como se fossem modernas “denominações”, que não existiam. Para
afastar esse erro de pensamento, basta imaginar um padre católico elogiando
certas igrejas católicas de um lugar, e exortando outras de outro lugar. Como
ficará claro neste estudo, não havia problemas doutrinários na Igreja no
primeiro século como se fossem doutrinas diversas entre denominações. O que
havia eram heresias que surgiam no meio das igrejas e eram totalmente
reprovadas. Isso fica claro nas próprias palavras de Grudem, que sem perceber,
mostra o que foi aqui apontado. Ele escreve: “uma igreja pode ter uma excelente
doutrina e uma pregação sadia, por exemplo, todavia possuir uma falha
lamentável no testemunho a outros...”. Lembrando que as comunidades do Novo
Testamento tiveram todas a mesma doutrina, e os problemas de ordem moral,
prática, e etc., são comuns na Igreja Católica ainda hoje. No entender
protestante, uma igreja mais pura é igualmente cristã em comparação com uma
menos pura, onde uma acerta mais doutrinariamente que outra. Nenhum apóstolo
jamais pensou coisa igual. Todas as doutrinas que não concordavam com o ensino
apostólico foram consideradas sérias deformações doutrinais, e foram
denunciadas. A unidade não se tratava apenas em “cooperação voluntária e
afiliação entre grupos cristãos”, como afirma Grudem sobre o Protestantismo,
mas havia uma unidade doutrinária, de governo, organização, culto, etc. Por
isso, um problema doutrinal local poderia ser resolvido pelos apóstolos em um
Concílio em outra localidade, por outros presbíteros, como aconteceu no
Concílio de Jerusalém. No Protestantismo não acontece isso, pois um concílio
luterano não tem jurisdição em uma igreja reformada, nem em uma batista e
vice-versa. Sem mencionar as outras denominações.
[3] Muitos enfatizam demais o
aspecto invisível da Igreja, afirmando que a Igreja particular, denominacional,
nominal, a placa da igreja, e coisas do tipo, não seriam importantes, pois
Jesus Cristo é quem salva. Isso indica a diferente conceituação de Igreja entre
os entendimentos católico e protestante, onde o último tende a quase deter-se
no aspecto invisível de Igreja, considerando os cristãos em geral e em toda a
parte como se fossem visivelmente a Igreja, não importando estarem divididos
nas denominações, contanto que crendo em certo número de verdades toleradas
como parte essencial do Protestantismo. No entanto, no primeiro século, no tempo
apostólico, não há nenhuma diferença
entre estar em Cristo e fazer parte da Igreja visível, pois havendo uma
única igreja não era possível encontrar cristãos fora da comunhão da Igreja que
estava em toda parte. Cada igreja local, em cada cidade, em cada parte de uma
cidade, em cada região, era pastoreada pelos apóstolos e epíscopos,
presbíteros, diáconos por eles ordenados, e não eram considerados nenhum grupo
fora da comunhão visível da Igreja. Não havia igreja fora da autoridade
apostólica. O pertencimento à igreja visível é ao mesmo tempo o sinal da membrezia
da Igreja invisível, pois a parte visível da Igreja é a expressão da sua parte
invisível. E por isso, é impossível encontrar qualquer divergência doutrinária
tolerada pelos apóstolos, como formando outro grupo cristão fora da unidade
visível estabelecida. Atenção a esse dado: não há tolerância a divergências
doutrinárias no Novo Testamento. É impossível negar que no Novo Testamento há
uma só Igreja. Portanto, no primeiro século encontra-se uma só Igreja.
[4]
Fundamentados na verdade de
que só Deus conhece os que são Seus (2 Tm 2,19), muitos formulam ideias que
redundam em erro e heresia. Isso porque abrem espaço para a criação de igrejas
e a continuidade das divisões. A crítica de que os sacerdotes do AT tornaram-se
falsos ainda que descendendo de Aarão, fazendo com que bispos e padres sejam
colocados fora da comunhão, ainda que estejam na sucessão apostólica, é algo
que não tem respaldo bíblico. Jesus confirmou a autoridade dos fariseus em
Mateus 23. A sucessão apostólica é respaldada na doutrina bíblica
neotestamentária. A “verdadeira pregação do evangelho” é marca da Igreja, mas
quando alguém fere essa característica, é a Igreja quem avalia e pronuncia seu
parecer a respeito. A crítica de Martinho Lutero e João Calvino, lembradas por
Wayne Grudem, não obedece esse modelo, já que eles deixaram a comunhão visível
da Igreja e anatematizaram a Igreja Católica inteira a qual haviam deixado. Os
anátemas de Trento estão conforme o paradigma apostólico, não sendo voz de um
ou outro cristão, mas de toda a Igreja, reformando a Igreja e rejeitando
doutrinas estranhas. Grudem trata das características da Igreja, e refere-se
aos templos pagãos, que eram igrejas falsas, as assembleias judaicas, que é
exemplo de igreja falsa. E no Cristianismo, como os reformadores protestantes
buscavam marcas para confrontar com a Igreja Católica e negar a sucessão
apostólica, afirmaram a pregação correta
da Palavra de Deus como uma das marcas. No entanto, essa correção da
pregação foi estabelecida em seus concílios e confissões, o que abre espaço
para maiores esclarecimentos. Sendo os pontos de doutrinas fundamentais, Grudem
cita algumas igrejas falsas. A segunda marca é a administração correta dos sacramentos. Ao tratar da Igreja
Católica, partindo dessas marcas estudadas, sob a perspectiva protestante, o
teólogo Wayne Grudem admite que é uma Igreja
verdadeira. É característico do estudo sincero e profundo em busca da verdade a
aproximação da verdade. As verdadeiras marcas da Igreja são a catolicidade,
apostolicidade, unicidade e a santidade.
Gledson Meireles
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