quarta-feira, 3 de agosto de 2016

2. Identificando a Igreja de Jesus Cristo

Na primeira epístola de São Pedro, dirigida aos cristãos espalhados por uma extensa região (cf. 1 Pedro 1,1), são feitas admoestações aos presbíteros, também chamados anciãos, para que dediquem-se ao rebanho, à sua igreja particular, “não como dominadores absolutos sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos do vosso rebanho.” (1 Pedro 5,3) Se são modelos, os cristãos devem ver neles exemplos para pautarem suas vidas, e isso exige que tenham comportamento ilibado.

Nesse ínterim, na segunda epístola é revelada a presença de falsos doutores entre os cristãos. Aliás, essa é uma profecia para todos os tempos. (2 Pedro 2,1) Esses “introduzirão seitas perniciosas”.
De fato, “muitos os seguirão”. (v. 2) Não ficarão sem quem sigam os desmandos, que creiam na sua nova pregação, que imitem suas vidas dissolutas. E o pior: esses estão “entre vós”.

Nessa ocasião, revelada nas sagrada epístolas, muitos não saíram da Igreja, continuando a introduzir heresias, e preparando seitas, já no interior do verdadeiro Cristianismo. Por isso, é preciso atenção, obediência aos verdadeiros presbíteros, como dito anteriormente em 1 Pedro 5,3.

Não devemos estar entre os “que desprezam a autoridade” (2 Pedro 2,10) Esses homens, dos quais fala São Pedro, proferiam palavras injuriosas mesmo contra os anjos. (v. 11) E não obstante não estavam submetidos aos presbíteros.

É impressionante que tais cristãos falsos estavam entre os verdadeiros, e se banqueteavam com eles, mas vivendo à revelia da verdade, “Encontram as suas delícias em se entregar em pleno dia à suas libertinagens”. (2 Pedro 2,13-14) Eram lobos com aparência de cordeiros.

Na pregação desses mestres, havia a empolgante e cativante promessa da liberdade, como tem havido nos dias atuais, com aqueles que chamam os cristãos a deixarem suas denominações e viverem a “liberdade” do Evangelho que eles mesmos pregam: “Prometem-lhes a liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois o homem é feito escravo daquele que o venceu”. (2 Pedro 2,19)

E nesse sentido, referindo-se a partes das Escrituras do Novo Testamento, escritas pelo apóstolo São Paulo, e em geral a toda a Bíblia Sagrada, afirma que havia muitos que as deturpavam, negando o verdadeiro sentido, algo não de pouca gravidade, mas que leva à ruína da perdição. (cf. 2 Pedro 3,16) A exortação é para que ninguém caia no erro desses pregadores.

Diante dessa realidade, temos que os destinatários da epístola são os que fazem parte da verdadeira Igreja de Jesus. Esses estão em comunhão com o apóstolo São Pedro e seus colaboradores de ministério. Deve-se atentar para o fato de que a epístola não é destinada a esses “falsos mestres”, nem aos dissolutos, que são mencionados, nem lhes dirige qualquer repreensão direta, mas fala apenas aos cristãos que estão em obediência à palavra apostólica. Nisso estão abertamente as exortações para que continuem na obediência aos presbíteros, e é feita a repreensão do comportamento dos que negam a autoridade.

O fato é que tais homens estavam no meio da comunidade, eram conhecidos por todos, e tinham comportamento cativante, mas viviam vida dissoluta, pregavam outras doutrinas, não mais observavam o respeito cristão aos anjos de Deus, negavam pontos doutrinais importantes, em geral, interpretavam partes das Escrituras erroneamente para a própria perdição. A Palavra de Deus admoesta e prepara os cristãos diante desses falsos pregadores, e os reprova duramente diante da Igreja.
Dessa forma, identifica-se a Igreja de Jesus Cristo com facilidade. Ninguém poderá afirmar que a igreja que recebe a epístola de Pedro fosse dividida, herética, imperfeita, como se as heresias fossem ali livremente acatadas. Nada que lembre isso.

Na verdade, a igreja verdadeira não está com os que falam mal contra os coros celestiais, que esquecem-se da promessa da vinda de Cristo, que vivem, em plena luz do dia, uma vida imprópria aos cristãos, que leem as Escrituras pervertendo o seu sentido. Esses indivíduos não são contemplados na saudação da carta, eles não fazem parte da Igreja, eles não representam a Igreja, e somente estão ali introduzidos como ervas daninhas numa plantação. Eles não são “os eleitos” que são saudados no verso 1, e não há palavra de conversão para eles, apenas menciona-se já a sua reprovação.

A Igreja de Jesus está constituída nesta epístola por aqueles que recebem a Palavra de Deus enviada pelo apóstolo Pedro, que estão sob a autoridade dos sacerdotes (presbíteros ou anciãos) do Novo Testamento por ele ordenados para conduzir aquela igreja (cf. 1 Pedro 5,3-4), e que estão em comunhão com os apóstolos, seguindo a santa
Lei de Deus e todas as admoestações apostólicas.

Por isso, ao falar daqueles que introduzem seitas perniciosas não volta-se a eles diretamente, mas usa-se a terceira pessoa. O Espírito Santo dirige-se à Igreja verdadeira para preveni-la contra as falsas doutrinas e os falsos doutores. Está assim identificada a Igreja de Jesus nas epístolas de São Pedro.


Gledson Meireles.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

1. Identificando a Igreja de Jesus Cristo

De acordo com o pensamento prevalecente entre os protestantes, a Igreja não é uma instituição, não tendo a natureza de uma organização, mas é um organismo espiritual, é a união espiritual de crentes e salvos pelo Sangue de Cristo, essa sendo de natureza invisível, e que todas as denominações são apenas o aspecto visível da Igreja, cada qual com maior ou menor grau de pureza, mas sempre imperfeita, inclusive no ensinamento doutrinal, tendo apenas o núcleo do ensino preservado, que é o mínimo de ensino evangélico, bíblico, caracterizador da verdade da salvação mantido por uma rede de igrejas visíveis, o que fez serem igrejas corretas e bíblicas.

Com essa mentalidade, muitos leem o Novo Testamento, e afirmam que as igrejas de Corinto, Éfeso, Tessalônica, e etc., eram todas imperfeitas, enfrentando divisões, heresias, e outros problemas típicos do ser humano, e que eram governadas por líderes locais, sendo cada uma autônoma, sendo comparáveis às denominações protestantes consideradas bíblicas do ponto de vista da Reforma, e que nem por esses problemas tais igrejas do primeiro século deixaram de ser igrejas de Cristo.

Seriam como se fossem as modernas denominações, cada uma com seu credo característico, mantendo unidade apenas nos artigos fundamentais, não importando o fundador de cada uma, pois não tendo caráter institucional, e sendo a pregação do Evangelho bíblico o distintivo da verdadeira Igreja, podem ser fundadas hoje, serem imperfeitas em vários sentidos, mas tendo a doutrina fundamental mantida, constituirá uma igreja de Cristo, não importando as diferenças e divergências relativas aos pontos secundários da doutrina.

E por isso, citam os pecados que estavam entre os coríntios, as divisões, as heresias, e etc., afirmando que assim também é nos dias de hoje no Protestantismo.

Para refutar tal ideia, segue uma série de artigos onde será identificada a Igreja verdadeira, mostrando que essa é institucional, uma sociedade espiritual organizada, também visível, um organismo vivificado pelo Espírito Santo, constituindo o Corpo de Cristo, sendo cada igreja local governada por um apóstolo, um presbítero ou um bispo, mas todas tendo unidade no grupo dos doze apóstolos, como fundamento governamental, não sendo as igrejas particulares de forma alguma absolutamente autônomas, mas todas submetidas à autoridade apostólica, modelo que permanece até os dias de hoje, onde os sucessores dos apóstolos continuam no governo eclesiástico.
 

Na igreja local governada pelo apóstolo São João, e pelo presbítero por ele ordenado, na região da Ásia, houve algumas divisões. De fato, está escrito: “Eles saíram dentre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, ficariam certamente conosco. Mas isso se dá para que se conheça que nem todos são dos nossos.” (1 João 2,19)

Certamente, muitos cristãos haviam sido parte daquela comunidade por muito tempo, mas depois abandonaram o convívio da Igreja, e saíram da comunhão de antes. A Escritura afirma que esses “não eram dos nossos”. Fizeram parte da verdadeira igreja, sob o governo do apóstolo João, mas a deixaram. Por certo ligaram-se a outro grupo que se formava, ou formaram eles mesmos uma seita cristã, abraçando as doutrina gnósticas tão em voga naqueles dias.

Mas, como é provável que esses passaram a fazer parte de outro ramo cristão, eles não ficaram nisso, mas auxiliaram na sedução dos antigos irmãos.  Isso pode ser indicado no verso 26: “Era isso o que eu vos tinha a escrever a respeito dos que vos seduzem”.

E está descrita uma das características daqueles que permaneceram na igreja particular e não seguiram os dissidentes: “Nós, porém, somos de Deus. Quem conhece a Deus ouve-nos; quem não é de Deus, não nos ouve. É nisso que conhecemos o Espírito da Verdade e o espírito do erro”. Esse ouvir denota a obediência, a fé na pregação apostólica, a comunhão de todos, observadores das palavra anunciadas pelo apóstolo João e do presbítero daquela comunidade, que eram os líderes legítimos.

É preciso estar em comunhão com as autoridades, guardar os mandamentos de Deus, permanecer na verdadeira doutrina. (2 João 9) Não ir atrás das novidades que os sedutores pregam “pelo mundo afora” (cf. 2 João 7).

Além dessas importunações que havia, outro problema surgia naquela comunidade, e um cristão de certa proeminência agia com a autoridade apostólica e dos presbíteros ordenados pelos apóstolos, de forma a interferir nas pregações que deviam chegar àquela igreja. Assim está escrito: “Escrevi uma palavra à Igreja. Mas Diótrefes, homem ambicioso do poder, não nos quer receber.” (3 João 9)

Certamente, Diótrefes estava semeando o cisma naquela região, e como afirma que ele era “ambicioso do poder”, sua ambição era governar, pastorear aquela comunidade. É provável que sua doutrina já fosse herética também, pois não recebia os apóstolos e presbíteros. Adiciona-se a isso obras más.

Diótrefes pregava contra os apóstolos, praticava coisas contrárias ao Evangelho, negava receber-lhes, proibia o contato dos cristãos com eles, e expulsava membros. Tratava-se de alguém influente, sem dúvidas. (3 João 10)

Temos aqui uma situação delicada, em que o apóstolo São João teve de denunciar e preparar os cristãos que mantiveram sua obediência e união com a autoridade legítima. Podemos perceber que o corpo de crentes naquela localidade era molestado espiritualmente por heresias que rondavam por ali, que haviam persuadido alguns, e que um membro influente, chamado Diótrefes, estava liderando um grupo contra a posição e autoridade de João e dos outros líderes legítimos. Não se trata da igreja naquela localidade que fosse dissidente, mas de pessoas que introduziam o fermento da divisão ali, e eram reprovadas pelos líderes da igreja.

Portanto, havia nessa parte da Ásia uma heresia e um grupo causando divisão. Porém, é preciso afirmar que é possível perceber claramente a identidade de ambos os grupos: os que recebem carta, que estão conforme a Palavra de Deus e em comunhão com São João constituem a Igreja de Jesus Cristo ali presente. Aqueles que saíram e, certamente, estavam na heresia dos gnósticos, e os demais que estavam sob a liderança de Diótrefes não eram a verdadeira igreja.
 
Há, assim, o grupo dos fieis à doutrina e que ouve a autoridade constituída, recebe a epístola inspirada e guarda os mandamentos, e a outra parte que deixou a comunhão com aquela igreja, ou que está sob a direção de um cristão herege que ambiciona tomar o poder naquela comunidade. Portanto, é possível identificar com clareza e sem sombra de dúvidas a Igreja de Jesus nessa situação relatada por São João.

Gledson Meireles.

domingo, 31 de julho de 2016

A eleição de Matias


Para os protestantes, a eleição de Matias é uma evidência de que Pedro não era um chefe, nem bispo, nem primaz, muito menos um papa. Isso porque na eleição do substituto de Judas Iscariotes, "ninguém foi nomeado por Pedro", mas foram lançadas sortes e um escolhido para o lugar de Judas. Essa seria uma cena não apropriada para a figura do pontífice romano, que teria poderes inigualáveis e autoridade indiscutível, fazendo o que bem entende, nomeando e depondo a seu bel-prazer. (Mas essa é um exigência que colocam como objeção, não algo necessário para a postura do papa). Por isso, a eleição de Judas é vista como uma prova de que Pedro não foi papa. Esse foi uma das razões apontadas pelo reverendo Hernandes D. Lopes.

Por esse motivo, é oportuno a apresentação da questão em termos mais de acordo com o contexto bíblico e a correta doutrina da Igreja Católica, para verificarmos essa questão. Deve-se estar aberto à verdade.

Em um daqueles dias, levantou-se Pedro no meio de seus irmãos, na assembleia reunida que constava de umas cento e vinte pessoas, e disse: “Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus.” (Atos 1,15-16)

Houve uma reunião, daquelas que sempre ocorriam nos primeiros dias da Igreja, onde os apóstolos e demais discípulos discutiam coisas importantes relativas ao apostolado, à evangelização, e também onde rezavam e cultuavam a Deus.

Nessa reunião, quem parece estar no comando é justamente o apóstolo Pedro. Ele levanta-se, fala aos irmãos, cita as Escrituras para fundamentar o que vai propor. É ele quem mostra o requisito para que seja escolhido o substituto de Judas. (vv. 21-22) Depois da oração, lançaram a sorte, segundo o costume, e foi sorteado Matias. (v.26)

Disso, temos o seguinte:

1)      Pedro falou no meio dos irmãos.

2)      Mostrou a necessidade de eleger alguém para o lugar de Judas.

3)      Apresentou as exigências mínimas para o cargo.

4)      E em comunhão todos oraram, sortearam Matias, e esse foi incorporado ao número dos doze.

Essa situação indica a postura do líder Pedro dirigindo a Igreja de Jerusalém em assuntos de importância vital para o apostolado, e a concordância de todos aos seus conselhos. Para ser o papa não é necessário que ele mesmo indicasse e nomeasse um dos discípulos, segundo suas próprias opiniões. Ele seguiu as inspirações do Espírito Santo, da forma que devia fazer com chefe, cumpriu o que era necessário, e pelas suas atitudes está mais indicado sua posição de líder do que a de um apóstolo em igualdade de autoridade com os demais.

Gledson Meireles.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

As imagens na Igreja no tempo apostólico

Dois argumentos interessantes contra as imagens serão comentados a seguir:

1. Nos primeiros tempos, sendo a Igreja composta majoritariamente de judeus, e com poucos convertidos pagãos, a saber, os prosélitos que conheciam o decálogo, não haveria necessidade de tratar do assunto das imagens, nem mesmo insistir sobre a proibição da idolatria.

2. A partir de Atos 15 esse tema é constante: 1 Cor 12,2; 10,1 4;1 Tess 1,19; 1 Jo 5,21. E por isso não há qualquer vestígio de culto tributado às imagens nessa época.

Então não havia imagens na era apostólica, e as igrejas eram totalmente destituídas da arte que retrata coisas do Cristianismo? A resposta é que não havia nem igrejas para o culto divino ainda, muito menos uma arte cristã desenvolvida. Devemos ver qual o princípio que a Bíblia apresenta nesse sentido.

Obviamente no tempo de Jesus nenhum judeu tinha qualquer relação com os ídolos estrangeiros. Também não era costume judaico fazer imagens de Deus (cf. Dt 4,15), nem de personagens religiosos (profetas, sacerdotes...), e nem de figuras políticas.

Por outro lado, o templo de Jerusalém era adornado com figuras de plantas, flores, animais e anjos. Os ambientes de culto não eram destituídos de imagens, mas belamente adornados. Disso a arqueologia mostra abundância da exemplos.

Assim, devemos perceber duas coisas diferentes: 1º) Há total ausência de ídolos e de culto idolátrico na Igreja primitiva. 2º) Os apóstolos e primeiros discípulos eram acostumados com a arte religiosa no templo, sinagogas e outros lugares, como os cemitérios cristãos. Se usavam essa arte, tinham respeito por ela, e essa influenciava de alguma forma sua espiritualidade.

Diante disso, podemos ver que a Bíblia não trata explicitamente no Novo Testamento dessa segunda realidade, nada dizendo sobre qualquer mudança de princípio. O que vemos é a mesma proibição da idolatria.

Sabemos que os apóstolos não tinham igrejas construídas ainda, e que as reuniões se davam nas casas, nas margens de riachos, e os cristãos ainda frequentavam o templo e a sinagoga. Não há construção de igrejas nesse primeiro século, pelo que consta não existe nenhum registro bíblico, histórico e arqueológico nesse sentido. Portanto, não há que procurar uma arte cristã nos moldes mais tardios nesse período primitivo.

Os cristãos convertidos do paganismo deixaram os “ídolos mudos”, ou seja, as imagens de escultura do paganismo. Eram instados a fugir da idolatria. Eles abandonaram os ídolos e serviam ao Deus vivo e verdadeiro. Nada há sobre a confecção de arte cristã, sob a forma de escultura, pintura, mosaico, etc., nem do seu uso religioso.

Conclui-se que há nesse período, pelo menos, a arte do templo e da sinagoga, e a proibição da idolatria pagã. Não há qualquer proibição de imagens cristãs na igreja nesse período.
 
Gledson Meireles.

Os argumentos mencionados são baseados no livro Desmascarando a Idolatria, de Paulo Cristiano Silva, CACP, 2015.

sábado, 16 de julho de 2016

Sugestões de artigos?

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Gledson Meireles.

sábado, 2 de julho de 2016

Doutrina católica na Epístola de Barnabé

Barnabé fala dos “divinos frutos da justiça” que eram abundantes entre os cristãos para os quais escrevia. Esses frutos são as boas obras, em outras palavras. Ele fala que está “esperando ser salvo”, que é a doutrina da esperança da salvação. Essa não é a certeza absoluta, que é entendida como a segurança eterna do crente, sentida e percebida por quem está em Cristo. Não se trata disso, pois a esperança da salvação dá uma certeza moral relativa, que não vai para o futuro, mas é algo que diz ao coração do fiel que ele humildemente entrega-se à misericórdia de Deus e nisso está certo de que está salvo, e de que irá ser salvo. É algo um tanto diverso daquilo que afirmam com a doutrina “uma vez salvo, sempre salvo”.

Ele diz: “porque grande é a fé e o amor habitando entre vós”. Essa é a doutrina da fé e das obras, e prossegue: “esperais pela vida que Ele prometeu”. Essa é a esperança que foi explicada acima, que é a doutrina bíblica.

Das doutrinas de Cristo, diz Barnabé: “a esperança da vida, o começo e o fim da mesma”, que diz respeito à justificação e à salvação final. Ele fala do conhecimento, pelos profetas, do passado e do presente, e das coisas que virão, que estão na escatologia, como “os primeiros frutos do conhecimento das coisas que virão”.

Na humildade, Barnabé coloca-se não como “mestre”, mas como um dos irmãos, ou seja, igual aos irmãos. (Epístola de Barnabé, 1)

Ele fala do poder do Maligno sobre o mundo, e as ordenanças de Cristo que devemos guardar. O “temor e a paciência” que auxiliam a fé. Também o sofrimento e a continência contribuem para o cristão.

No capítulo 4 escreve Barnabé das “coisas que são capazes de nos salvar.” Essa linguagem revela a teologia bíblica católica de que as obras são importantes para a salvação. Ele continua dizendo para fugirmos “de todas as obras de iniquidade”. Fala do amor aos cristãos, “individualmente e coletivamente”.

Falando da aliança em Cristo, que vem da fé nEle, volta a mencionar a esperança que nasce da fé. A respeito da perseverança que o cristão deve ter, falando do tempo da perseguição do Anticristo, ele diz que a fé passada não terá nenhum valor. Isso evoca o tema da importância das obras na salvação.

Algo bastante importante para a Igreja: “Não vivam uma vida solitária, retirando-se à parte, como se você já estivessem justificados, mas reúnam-se em um lugar, fazem pesquisa comum sobre o que é melhor para o vosso bem-este geral.” É a admoestação para que ninguém acredite que está salvo e pode agora deixar de participar das reuniões na Igreja, e que pode viver sua vida espiritual separado dos outros. Assim como a Bíblia, Barnabé reprova essa má obra.

Sobre o juízo ele diz que cada um receberá como tiver feito: se é justo sua justiça o precederá, e se é iníquo, a retribuição da iniquidade será dada a ele. Pois, se alguém deixa-se vencer pelo pecado o Diabo pode levá-lo para longe do reino do Senhor. Essa doutrina está em conformidade com a Bíblia. Ela contradiz a doutrina que afirma a segurança eterna do crente.

A salvação perpetrada por Cristo, a santificação pela remissão dos pecados, efetuada pelo Sangue de Cristo, é a doutrina ensinada na Epístola. Ele cita a Escritura que diz respeito, em parte a Israel e em parte a nós. Isso contradiz o Dispensacionalismo, que tem uma divisão total sobre o que é referente a Israel e o que tem a ver com a Igreja. Obviamente, é somente Isaías 53,5.7 que está sendo tratado, mas tal caso pode ser ampliado, e a doutrina de Barnabé não tem contato com o dispensacionalismo que nasceu no século 19.

A nossa renovação foi feita por Cristo pela remissão dos nossos pecados. E a autoridade que teremos para governar sobre a criação será quando tivermos sido tornado perfeitos. (capítulo 6)

No capítulo 8 os apóstolos são mostrados como a autoridade escolhida para pregar o Evangelho, em número de 12, como as tribos de Israel.

Barnabé explica alegoricamente passagens da Escritura, e fala da cruz. Apresenta a Cristo e a cruz. (capítulo 9)

No capítulo 10 ele fala “deste mundo” e do “santo estado” que virá.

No capítulo 11 ele fala da prefiguração da água do batismo e da cruz. Devemos colocar nossa confiança na cruz, por intermédio da nossa descida à água. É uma conexão do batismo e da cruz. Interpreta Ezequiel 47,12 como o batismo, mostrando a verdadeira doutrina de que o batismo é regenerador, e que depois é seguida a vida de fé.

A razão porque Moisés proibiu a feitura de imagens: “Mais Moisés, quando ordenou, Vó não tereis nenhuma imagem esculpida ou grava para Seu Deus, fez assim para eu ele pudesse revelar um tipo de Jesus”. Aqui, Barnabé não é contrário à fabricação de imagens, e mostra que Moisés usou de imagens para ensinar a verdade sobre Cristo.

O dia de santificação dos cristãos é o “oitavo”, contagem alegórica que tem com fundamento a doutrina espiritual do sábado. Cada dia sendo considerado mil anos, a consumação dos séculos será após seis mil anos, onde Cristo restaurará tudo e terá o descanso sabático. Por isso, a Igreja santifica o dia após o sábado, que é o dia início do mundo novo: “Assim, também, nós observamos o oitavo dia com alegria, o dia também no qual Jesus ressuscitou novamente dos mortos. E quando Ele manifestou-Se, Ele ascendeu aos céus.” Essa especificação do oitavo dia é clara, e tem a conotação espiritual baseada na ressurreição de Cristo. (capítulo 15)

Barnabé afirma que os judeus não criam em Deus, mas no templo, como a casa de Deus. Chega mesmo a comparar a atitude judaica com a pagã: “Pois quase da maneira dos gentios eles O adoram no templo”.

Algumas coisas que fazem parte do caminho da luz, e que devem ser praticadas, estão entre elas a lembrança diária do dia do juízo. É importante observar o seguinte: “ou por suas mãos você trabalhará para a redenção dos seus pecados.” Essa e outras doutrinas configuram a mesma doutrina cristã católica, que tem essencialmente esses pontos em contradição com a doutrina do Protestantismo.

É verdade que a escatologia contém, ou pode conter, algumas diferenças, que tantos escritores católicos, em muitos séculos, aderiram, que é principalmente o milênio. Mas, essa doutrina não é claramente exposta aí, tendo apenas uma indicação de que o milênio seria o sétimo dia que será inaugurado após a vinda de Cristo.

Também, há pelo menos uma passagem que parece sugerir o aniquilacionismo, mas que não garante que essa é a fé de Barnabé, por ser apenas uma afirmação que alude veladamente a isso, e podem muito bem estar sem sentido figurado: “mas aquele que escolhe outras coisas será destruído com suas obras”.  Ele afirma que a São pequenos indícios. Aliás, há uma afirmação controvertida: “pois é o caminho da morte eterna com punição”. Os condicionalistas entendem que isso se trata da morte que segue após haver terminado a punição. Porém, é possível entender que a morte é o sinônimo de inferno, já que vem acompanhada de punição: morte eterna COM punição, e não “após” punição. Isso é plausível.

As obras então não apenas como reflexo, mas tem um sentido especial na salvação, como é constante na doutrina católica: “E sejam ensinados por Deus, perguntando diligentemente o que o Senhor pede de vocês, e façam-no para que você sejam salvos [seguros] no dia do juízo.” A epístola pode ser acessada. [aqui]

Essa epístola foi escrita, provavelmente, na era apostólica, entre os anos 70 e 79, mas há eruditos que afirmam o período da data de 117 a 135 d. C. De qualquer forma, estamos próximos do período apostólico se essa sugestão moderna for correta. [https://www.catholicculture.org/commentary/articles.cfm?id=628]

Em geral, o que oferece a Epístola de Barnabé continua na Igreja. Pode-se citar alguns pontos: (1) o método de interpretação alegórica da Bíblia, que é utilizado ao lado do literal, (2) o ensino da divindade de Jesus, como aparece no capítulo 12 da epístola, (3) o valor das boas obras na salvação, (4) a regeneração batismal, (5) justificação pela fé e a salvação final após a perseverança, o que inclui a influência das obras, (6) a guarda do domingo como dia de descanso cristão, (7) o princípio positivo para o uso de imagens.

O Protestantismo geralmente oferece resistência para a utilização do método de interpretação alegórica da Bíblia, que é visto negativamente. Sobre as boas obras é taxativo em afirmar que não tem a ver com a salvação, mas são apenas resultado da salvação na vida do salvo. Isso não é o que Barnabé afirma. Também o protestante tende a não ver a regeneração ocorrendo no batismo, e opõe fé e batismo, enquanto Barnabé afirma que pelo batismo é feita aderência à cruz do Senhor Jesus. Essa é a doutrina cristã católica. O dia de domingo não é um ponto exaltado no Protestantismo como o é na epístola.

Em geral, pode-se afirmar que essencialmente o Protestantismo ensina uma doutrina diferente daquela encontrada na epístola.
Gledson.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Maria é mãe de Deus

A Bíblia afirma que Jesus é o Filho de Deus, eterno como o Pai, e encarnou-Se no ventre da virgem Maria. Portanto, Maria é mãe de Jesus. Isso redunda em dizer que Maria é mãe de Deus, segundo o que foi exposto. Essa refutação tem em consideração o item XVI aqui. O assunto também foi tratado aqui.

A virgem Maria não gerou a divindade de Cristo, pois essa é eterna, e o humano não gera o divino. E não gerou nem a alma de Cristo, pois Deus cria a alma diretamente, e essa não é gerada pelos pais. O que aconteceu é que Maria gerou o próprio Jesus em seu ventre como Homem, como ocorre em toda geração. Isso é o mesmo que acontece com todas as mães.

Cada mãe gera o filho em seu ventre, mas a vida vem diretamente de Deus, que cria a alma, e a parte biológica é desenvolvida, gerada, pelos pais, em especial dentro do ventre materno.

Assim, a mãe é a geradora do filho, da pessoa do filho, e não se diz que ela é geradora do corpo do filho apenas. Ninguém diria: “A mãe do corpo de Pedrinho”, mas “A mãe de Pedrinho”. Portanto, Maria não é mãe do corpo de Jesus, mas mãe de Jesus, como a Bíblia diz.

Outra observação, importante, é que Maria é mãe de Jesus enquanto Homem. Essa frase, especialmente a parte que diz: “enquanto Homem”, não é igual a dizer que Maria é mãe da humanidade de Jesus ou que ela é mãe do corpo de Jesus ou que é mãe da natureza de Jesus, onde humanidade é identificada com o corpo. Não é isso.

Na verdade, se diz que Maria é mãe da PESSOA de Jesus, e que esse tem Humanidade, e é por isso que Ele tornou-Se filho de Maria. Ela não era seu filho, mas passou a ser.

Deus é Pai de Jesus, tanto divinamente, pois é Pai da Pessoa de Jesus e é da mesma natureza divina de Jesus, e também é Pai de Jesus como Homem, pois é o criador da humanidade também. Maria não tem a natureza divina, mas tem a humana. É por essa natureza que foi comunicada a Jesus que ela tornou-se Sua mãe.

Na geração natural o filho é gerado na mãe, a partir da fecundação. Então, a Bíblia diz que foi gerado pelo pai. No caso de Maria, foi o Espírito Santo o gerador Jesus em seu ventre, e por isso a fecundação foi virginal. Negar que a Maria gerou Jesus é o mesmo que negar que todas as mães do mundo tenham gerado seus filhos. Se Maria não gerou, nenhuma mãe gera um filho. Se todas as mães geram o filho, então Maria gerou Jesus, pois é a Sua mãe. De fato, o pai gera o filho, e se a mãe não tivesse qualquer participação nisso, ela não seria mãe. No entanto, isso é um erro biológico crasso.

Contudo, vejamos essa afirmação: “Segundo a Bíblia, quem gerou Jesus não foi Maria, mas o Espírito Santo (Mt.1:20). Como Maria não gerou a divindade de Cristo (que já existia muito antes de Maria) e só é mãe daquilo que gera, logo, Maria não é mãe de Deus.

Essa afirmação é um tanto incompleta, errônea, impensada. Analisemos novamente: “Segundo a Bíblia, quem gerou Jesus não foi Maria, mas o Espírito Santo (Mt.1:20).

O Evangelho de Mateus inicia com a origem de Jesus. Entende-se que essa é a “origem” humana, já que começa a mostrar como foi a genealogia de Jesus, quem gerou quem. Dessa forma, a Escritura está tratando da origem de Jesus na terra, já que a mesma Escritura é clara ao dizer que Jesus veio do céu. (cf. João 3,14; Filipenses 2,7-9)

Portanto, essa afirmação não está afirmando que o Espírito Santo gerou a divindade de Jesus. Por certo, o autor da argumentação não pensou nisso, e está tentando mostrar que Maria não é mãe da divindade. O problema é que essa argumentação não é Bíblia, pois parte de um texto que trata da origem humana do Senhor Jesus, e se negar que a geração ocorra por parte da mãe também isso redundará em heresia ainda maior.

Ela está, pois, tratando da geração de Jesus. Em Mateus capítulo 1 é descrita a geração humana de Jesus. Portanto, trata-se da geração de Jesus como Homem no útero de Maria. Assim, se o Espírito Santo fez essa geração, então Maria é mãe de Jesus, uma vez que a mãe “é mãe daquilo que gera”: Maria é mãe de Jesus.

O problema é que a frase que insinuou estar inserindo um argumento forte, e bíblico, para o caso em questão, foi uma afirmação infeliz demais: “quem gerou Jesus não foi Maria, mas o Espírito Santo (Mt.1:20)”. Parece estar falando da geração da divindade, quando o contexto é a geração da humanidade. E, depois, lemos o resultado: “Como Maria não gerou a divindade de Cristo (que já existia muito antes de Maria) e só é mãe daquilo que gera, logo, Maria não é mãe de Deus.” Mas o texto não corrobora todo o pensamento, já que o Espírito Santo está gerando Jesus e isso não tem nada a ver com a geração da divindade, pois Jesus não foi gerado pelo Espírito Santo enquanto Deus.

Se o início estivesse dizendo que o Espírito Santo “gerou” Jesus, e que Maira não é mãe da divindade, por não tê-la gerado, então estaria afirmando que o Espírito Santo gerou a divindade de Jesus em Maria! Coisa totalmente contra a intenção do autor.

De outro modo, se essa geração “quem gerou Jesus foi o Espírito Santo” estivesse tratando da geração da divindade, então Maria teria recebido em si Jesus enquanto Deus somente, o que estaria negando que Ele veio na carne.

Para ficar melhor, seria assim: como Maria não gerou a divindade de Cristo, pois essa foi gerada pelo Espírito Santo, Maria não é mãe de Deus, o que implica que o Espírito Santo gerou sozinho a divindade de Jesus, negando com isso que Jesus não nasceu como homem, mas somente como Deus. E se está dizendo que somente o Espírito Santo gerou Jesus em Maria, e que Maria não O gerou desse modo, está afirmando que ela não é Mãe de Jesus, contrariando assim a Bíblia.

Dessa forma, o ensino fica mais notoriamente herético. É claro que não é essa a intenção do argumento do artigo, mas a presente análise serve apenas para mostrar que o mesmo leva a esse despautério. E o faz por não ser correto, e combater uma verdade bíblica.

Com isso, esse pensamento “em si” contradiz a argumentação seguinte: “Se Jesus se “esvaziou” de sua natureza (divina), então Maria não era mãe de Deus, mas de Cristo Jesus, homem (1Tm.2:5). Disso dá testemunho o escritor de Hebreus, ao dizer que Jesus se fez igual a nós “em todos os aspectos(Hb.2:17). 

Portanto, o que foi resultado acima não estava na expectativa do autor. Ele ensina a trindade, sabe que Jesus é a segunda Pessoa de Deus, mas pensa que na encarnação Jesus deixou a natureza (atributos, qualidades, etc.) e foi apenas homem.

Agora pense: se o homem deixasse a natureza de homem, se possível, e assumisse a natureza de uma foca, ele não seria homem, mas foca. Se esvaziar-se da natureza significa deixar essa natureza, deve-se explicar como isso ocorre. Deve-se explicar como Jesus poderia deixar de ser Deus, o que não é possível.

Dentre isso, o pensamento a respeito da trindade mostra defeito também: “Dizer que Maria era mãe de Deus porque Jesus era Deus é o mesmo que dizer que Maria foi mãe de 1 deus, e não mãe de Deus, que por implicação significa Pai, Filho e Espírito Santo. ” Como se Deus fosse aproximadamente um terço mais um terço mais um terço, e Jesus fosse um terço de Deus e assim por diante. Essa ideia não está conforme a doutrina cristã.

Por tudo isso, a argumentação foi refutada por usar um texto bíblico, Mateus 1,20, para argumentar que o Espírito Santo gerou Jesus e que Maria não gerou a divindade, causando confusão entre a geração humana e a natureza eterna de Cristo. Foi uma escolha não raciocinada. Também foi refutada por implicar em que Jesus seria apenas Deus, enquanto que a intenção da argumentação era mostrar que Jesus deixou de ser Deus e nasceu apenas Homem. Foi refutada ainda por redundar na negação da maternidade mesmo humana de Maria. Além de não ter conseguido, se o tivesse mostraria ainda assim uma heresia, pois Jesus é tanto Deus como Homem. E foi refutada, por fim, por não ter uma ideia correta da Trindade, que é três Pessoas iguais e distintas mas um único Deus.

Gledson Meireles.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Deus tem mãe?

"Será que Deus, o Eterno Criador e a Causa Primeira de tudo, também tem uma mãe?" (...) "Deus não tem uma mãe”. Analisemos essa conclusão aparentemente sem problemas, encontrada aqui.

Quando sabemos que Deus em cada Pessoa da santíssima Trindade, tem sua plenitude, em sua íntima e total unidade, a afirmação de que Maria é mãe de Jesus implica em afirmar que Maria é mãe de Deus, porque uma vez que a Pessoa de Jesus encarnou-Se, Ele é homem e Deus ao mesmo tempo, e Maria sendo Sua mãe humana, essa maternidade está ligada à Pessoa divina que é única, que é a mesma, e que contem em Si as naturezas de homem e de Deus. Em nossa verbalização comum sabemos que a maternidade está relacionada à pessoa, não à natureza da pessoa. Maria é mãe de Deus porque Jesus é membro da divindade única, e apenas nesse aspecto.

A primeira objeção de que o conceito trinitário requer que tenhamos em mente que Deus é a totalidade das três Pessoas da trindade, é um tanto problemática. Vejamos: “Porque, em primeiro lugar, para ser considerada como “mãe de Deus” devemos levar em conta o conceito trinitário de Deus. Deus não se limita apenas ao Pai, apenas ao Filho ou apenas ao Espírito Santo, mas o Pai, o Filho e o Espírito Santo é o único e verdadeiro Deus.

Isso torna a questão um pouco confusa ao tentar restringir o conceito de Deus apenas ao ser considerada a totalidade de pessoas: somente seria Deus quando consideramos o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Usemos em tese essa ideia.

Assim, se dissermos, por essa ideia, que o Pai é Deus, isso não seria correto, pois somente “é” Deus o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Tenhamos a exatidão desse pensamento em vista, para entender o completo disparate que ele leva.

Afirmar que o Espírito Santo é Deus seria errôneo, pois o Espírito Santo não seria Deus, mas somente quando considerado ao conjunto das Pessoas do Pai e do Filho. Desse modo, nenhum dos três seria Deus, mas apenas os três juntos. Obviamente nem o autor desse argumento crê assim. É o argumento errôneo que cria esse disparate. Por outro lado, se se entende que Jesus é Deus por ter participação na única essência divina, então nesse pensamento entende-se que Maria é mãe de Jesus Deus nesse sentido.

Continuemos, porém, e vejamos o absurdo (e a heresia) que dá o pensamento expresso antes: o Pai não é Deus, o Filho não é Deus e o Espírito Santo não é Deus, mas os três juntos é Deus!!! Como pode cada parte do ser de Deus não ser de essência divina, e tornar-se divino quando juntos os três? Diante disso, Jesus não poderia ter chamado o Pai de Deus, pois separadamente (o que não é exato afirmar) o Pai não poderia ser Deus. Ou, de outra forma, em sua distinção o Pai não seria Deus. Que aberração tremenda.

Apenas para fins de reflexão, pois pode haver algum elemento desse pensamento que não tenha sido percebido, e por isso tenha merecido essa alcunha de disparate, absurdo e heresia. Caso seja apresentado algo que possa desfazer tal problema, o mesmo será reconsiderado.

Se Deus não é divisível, em Sua essência, e não tem partes, então não há como excluir a maternidade de Maria como ligada à essência de Deus por meio da Pessoa de Jesus, ou seja, ao ser associada à Pessoa do Verbo Divino, o Filho. Assim, é correto afirmar que Maria é mãe somente de Jesus, mas que Ele é Deus, como foi visto acima, e por isso é a virgem Maria a mãe de Deus nesse exato e único sentido.

Por ser assim, pensando que o Pai é Deus, e que Maria não é mãe da Pessoa do Pai, ela não é mãe do Pai. E não sendo mãe de Deus Pai, ela não é mãe de Deus no sentido de ser mãe da Pessoa do Pai. O mesmo ocorre com relação à Pessoa do Espírito Santo, pois a maternidade não toca a Pessoa do Espírito Santo. Portanto, a virgem Maria é mãe do Deus-Homem, e o título mãe de Deus quer enfatizar somente isso. Certamente, esse primeiro ponto da objeção está refutado.

O segundo argumento é que Maria não poderia ser mãe de Jesus na eternidade, antes da encarnação, e nem depois da ascensão, já que ela é uma criatura, e o corpo de Jesus foi transformado na ressurreição, não tendo a mesma genética de antes: “Jesus, em sua condição celestial, não está mais em carne (Hb.5:7), e, portanto, não possui a genética humana, razão pela qual Maria não é mais biologicamente ligada a Ele.

Deve-se lembrar que a glorificação de Jesus, de Jesus enquanto Homem, que foi igual a nós em tudo, exceto no pecado (cf. Hb 2,17), será a mesma glorificação que todo ser humano salvo por Ele terá. Dessa maneira, a natureza do homem será igual à de Jesus Cristo, a mesma que Ele possui agora e para toda a eternidade no céu. Assim, a virgem Maria já glorificada continua, mesmo sob esse ponto de vista, continua sendo mãe de Jesus, já que o fato da geração da humanidade de Cristo que ocorreu na terra é irrevogável. Ele continua no céu Deus e Homem, pois é como Homem que Ele é Intercessor. (cf. 1 Tm 2,5)

De outro prisma pode-se notar que a objeção falha em querer colocar a maternidade de Maria em relação a Jesus em xeque quando afirma que ela não existia antes de ser concebida, e assim não poderia ser mãe de Jesus na eternidade. Quanto ao último ponto, trata-se do mais puro fato, e justamente por isso a Bíblia ensina que a virgem Maria tornou-se mãe de Jesus a partir da encarnação, em João 1,14, quando o Verbo SE fez carne e habitou entre nós. O mesmo verbo tornou-Se carne e veio morar na terra. Assim, Maria é mãe do Verbo divino que veio habitar conosco. Tendo isso em vista, é a partir do nascimento de Jesus na terra que Maria passa a ser Sua mãe, por meio da natureza humana, e somente por isso relaciona-se com a natureza divina por ser mãe da mesma Pessoa que é divina e humana. A natureza humana de Jesus é como uma forma de ligação entre Maria e Sua Pessoa, e essa Pessoa é Deus por ter parte na divindade com o Pai e o Filho.

Mesmo que o Protestantismo negue que Maria tenha sido já glorificada nos céus, isso está no dogma cristão, e os protestantes devem concordar que tal fato é esperado para o fim dos tempos, quando Cristo vier buscar a Igreja. Por isso, não há como fugir da implicação, já que na glorificação Maria será (supondo que não já tivesse sido), “biologicamente” igual a Cristo e, portanto, o fato da sua maternidade continuará presente, como de fato continua.

A terceira objeção tenta jogar o absurdo na doutrina da encarnação, de que Jesus é Deus e Homem. Sendo assim, seria “absurdo” que Deus tivesse avô, avó, tio, tia, primo, prima, irmão, irmã, parentes consanguíneos, em sua acepção literal, biológica e genética. De fato, se fosse esse o ensino da trindade, e da divindade de Jesus, que dissesse que a maternidade de Maria é ligada à divindade geneticamente, isso redundaria nesse problema, mas não é. A maternidade está ligada à divindade por meio da natureza humana, onde Maria é mãe biológica do Homem Jesus, que não é outra Pessoa, mas o mesmo Deus Jesus. É unicamente nesse sentido que a maternidade toca a Pessoa de Jesus, e o problema não tem mais razão de existir.

Dessa forma, o pai e a mãe de Maria são avós de Jesus, avós de Deus nesse único e restrito sentido. É necessário o conceito correto de pessoa e natureza para entender isso. Nesse pensamento, o celestial e o terreno estão sendo devidamente levados em conta, e nada há que os confunda.

A quarta objeção é uma das mais perigosas, quando se prevê que pode redundar em heresia: “Levando-se em consideração que só se é mãe daquilo que gera, devemos perguntar: Maria gerou a divindade de Cristo?”. Definitivamente não. Para quem já compreendeu a doutrina acima, apresentada na refutação às três primeiras objeções, já tem a ideia de que Maria somente gerou a Pessoa de Jesus enquanto em Sua natureza humana. Sendo a mesma Pessoa, essa adquiriu humanidade, adquiriu uma mãe, e por isso pode agora ser chamado Homem. Sendo que a divindade é eterna, e não pode ser gerada pela humanidade, que é criatura, e assim Maria não pode ser mãe da divindade, pois existiu a partir do tempo, e não na eternidade, ela é mãe de Jesus por intermédio da natureza que ela gerou para Ele, que foi gerada nEle, não sendo mãe da natureza dEle, mas mãe dEle por meio da natureza humana. O conceito de mãe liga-se à pessoa e não ao corpo da pessoa, como comumente entendemos.

Dividir Jesus em duas pessoas tornaria impossível a encarnação, já que Jesus o eterno Filho de Deus não teria vindo em carne jamais, mas apenas havia criado um Jesus humano que nasceu da virgem Maria. Assim, Maria seria mãe de um Jesus humano, que na melhor das hipóteses faria as vezes do Jesus divino que nunca tocou a natureza do homem em Si mesmo. Esse Jesus humano seria outro Jesus.

Na hipótese de que Jesus somente passou a existir na encarnação, deve-se provar isso por meio de outro livro, não da Bíblia, pois essa afirma que: No princípio (princípio da criação do mundo, e não da pregação do Evangelho) o VERBO “estava” com Deus (pois Jesus não estava no céu com Deus no início do Seu ministério na terra, pois já tinha 30 anos de idade. Ele estava com Deus no início da criação do universo), e o Verbo era Deus. Ele estava com Deus e tudo o que foi feito o foi através dEle (o assunto é a criação), portanto, falando da criação, e sem Ele nada do que existe no universo foi feito. (cf. João 1,1.14) Se Ele estava “com” Deus ele existia junto do Pai, era Deus com o Pai, e não era o Pai. Assim, são descritas duas pessoas, e tem-se a pré-existência de Jesus.

Então, quando o Verbo se fez carne e habitou entre nós está referindo-se ao nascimento desse mesmo verbo que estava com Deus e criou tudo, sendo o meio para a existência de tudo o que foi criado. A Bíblia está mostrando a transferência de Jesus do céu à terra, da glória celeste para o ventre da virgem. Portanto, Ele não é o Pai, Ele existia antes de vir à terra, e Ele é o mesmo que esteve na terra, não outro que foi criado para viver como se fosse Ele na terra. Tem-se por isso uma só Pessoa, que é Divina, que adquiriu em Si a natureza humana para habitar na terra. Maria é mãe de Jesus nesse momento, a partir desse fato.

Não há sincretismo com o paganismo. E a doutrina que foi definida em Éfeso é cristológica, embora tenha seus desdobramentos fortemente mariológicos.

Confundir o título mãe de Deus como significando que Deus tem as mesmas características humanas na eternidade, como se o Pai e o Espírito Santo tivesse adquirido as mesmas características do homem, e que Cristo continue com a natureza sem a transformação, igual à que tinha antes da entrada no céu, significa que não há entendimento da doutrina. É lastimável. Sendo assim, a objeção não tem muita importância.

Quanto ao argumento “então Deus morreu na cruz”, isso diz respeito ao que acima está exposto: em um certo sentido Deus morreu mesmo, mas não Ele em Si na Sua natureza divina eterna e imortal, mas na Pessoa do Filho como Homem. Cristo disse que quem o viu também viu o Pai, e São Paulo afirma que a plenitude da divindade habita em Cristo, (cf. Jo 14,9; Cl 2,9) embora tudo isso esteja ligado só à Pessoa do Filho. É possível entender isso satisfatoriamente. Deus não morre, Jesus em Sua divindade não morre, mas Sua Pessoa morreu enquanto esteve na natureza do Homem. Não tem a ver com a Pessoa do Pai e do Espírito, mas com a do Filho que compartilha a mesma natureza. Então, Maria é mãe de Jesus Deus, mas em Sua acepção humana.

Com referência a Hebreus 7,3, onde Deus não princípio nem fim, então Maria não poderia ser Sua mãe, essa questão já foi resolvida acima. Deus não teve princípio no nascimento de Jesus, nem mesmo a Pessoa divina de Jesus originou-Se ali, mas apenas a Pessoa em sua concretude humana, com tudo o que o homem tem em sua forma totalmente natural. Não foi outra pessoa que surgiu, mas a mesma Pessoa de Jesus nasceu como Homem. A Pessoa de Jesus sentiu por inteiro o que é ser um Homem, uma criatura, embora Ele fosse o Criador. Dizem que “Mãe de Deus é uma terminologia errada”, mas o mesmo acontece com a frase: “Maria não é mãe de Deus, ela é mãe de Jesus”, se não houver nenhuma qualificação. A primeira poderia levar a um disparate, como foi colocado antes, e a segunda também. Essa nega a divindade de Cristo, ou parece negá-la, ou de fato pode facilmente levar a negá-la. Enfim, é nesse âmbito refutada essa objeção.

Para o entendimento de Filipenses 2,7 devemos testar racionalmente seus resultados: Como Deus deixa de ser Deus? Em sua natureza é impossível, pois Deus é imutável. Se Cristo deixou de ser Deus é porque não era Deus antes, e se não era Deus não podia deixar de ser o que nunca foi. O pensamento é auto-destrutivo.

Pode-se afirmar que, para fins de argumento, deixando de lado toda a exatidão teológica católica no momento, e dizer que Jesus deixou suas prerrogativas, privilégios, poderes, direitos, autoridade, e passou a ser um simples servo. O problema é que em Sua natureza DIVINA Ele continua a ser o que era. É como afirmar que Jesus Deus passou a viver a vida de criatura, apesar de ser o Criador, mas o fez quando assumiu a natureza do homem, pois antes de Sua Pessoa divina ter a natureza humana nada disso havia ocorrido. Portanto, Jesus passou a ser carne, ou seja, a ter natureza de homem, mas não deixou de ser Deus. Ele continuou a ser Deus e passou também a ser Homem.

Mas, é importante frisar que, tendo a natureza divina imutável e possuir todo o poder, então Jesus não quis trazer para a terra certas prerrogativas que não tinham a ver com o Seu plano, por exemplo, como revelar o dia da Sua volta. Quanto ao fato de que Jesus não pôde realizar milagres por causa da incredulidade de certo povo, não quer dizer isso que Ele não tinha mais a onipotência, mas isso se dá porque seus milagres não tinham o caráter de criar a fé, mas agia sobre o fundamento da fé, fortalecendo, dando testemunho, confirmando Seu plano messiânico. Ele não quis realizar milagres. Não veio para fazer isso naquelas circunstâncias. Em várias passagens da Escritura a afirmação “não poder” equivale a “não querer”.

A tentação de Cristo também não depõe contra Sua divindade, mas apenas diz respeito à Sua natureza humana. Ele pôde ser tentado porque adquiriu para Si tudo o que é próprio do homem, o que exclui totalmente o pecado. O Demônio podia então tentá-lo. (cf. Hb 2,17)

10º E, por fim, o título mãe de Deus não é expressamente encontrado na Bíblia, mas apenas o de “mãe do meu Senhor” (Lc 1,43). É que não havia necessidade de ressaltar algo já bastante óbvio naquele momento, como a divindade de Jesus, o Deus conosco, o Senhor de Lucas 1,43. E com os tempos de controvérsias esse dogma foi sendo atacado em Sua verdade, devendo a Igreja explicitar a doutrina bíblica, já expressa por exemplo na afirmação “mãe do meu Senhor”, no sentido em que Isabel usa o termo, pois ali ela não está falando de um patrão, nem de um dono de propriedade, nem de um dono de casa, nem do seu marido, nem do seu pai, nem das autoridades romanas, nem dos donos de escravos, nem do imperador romano. Essas são os outros uso do termo kurios (senhor) em outros sentidos, como informa o artigo que pode ser lido aqui.

Santa Isabel estava falando de Deus Filho, aquele que iria nascer, que já estava concebido no ventre da virgem Maria, e isso foi uma revelação do Espírito Santo. Portanto, o termo SENHOR naquela frase tem o sentido de Deus. Observe as explicações acima. Em outras palavras, não é o fato do título senhor ter outros significados que invalida a afirmação feita no louvor de santa Isabel.

Afirmar que Jesus é Deus é necessário, e por isso o título de mãe de Deus era apropriado para salvaguardar essa verdade. E ainda é. Não há que apelar para a cautela dos apóstolos e dos primeiros escritores, pois nem tudo foi expresso com a mesma terminologia como temos hoje, pois o que importa é o fato real, e a real doutrina que está ali presente, e que pode necessitar de novas expressões segundo as exigências que surgirem.

É assim imperioso concluir que Deus não tem mãe, em sentido pleno, lógico e natural. Mas, pelo que foi tratado, da encarnação de Jesus nosso Senhor, tem mãe na Pessoa de Jesus Homem. Certo disso, então, Deus tem mãe.

Gledson Meireles.