sexta-feira, 1 de maio de 2026

LIVRO: O Sábado na Bíblia: Por que Deus faz questão de um dia. Sobre o exemplo de São Paulo em relação ao sábado

O Sábado na Igreja Apostólica


Alberto Timm acredita que há várias evidências da observância do sábado no Novo Testamento. Essas passagens serão estudadas pormenorizadamente para entender o argumento adventista do sétimo dia.

Em primeiro lugar a evidência estaria relacionada ao exemplo de São Paulo e seus companheiros. O exemplo de São Paulo confirmaria que, assim como Jesus, ele frequentava a sinagoga nesse dia.

A evidência seria que em Lucas 4, 16 Jesus “Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume”. Essa expressão “segundo o seu costume” indicaria o mesmo que era praticado por São Paulo quando em Atos 17, 2 pode ser lido: “Paulo dirigiu-se a ele, segundo o seu costume, e por três sábados disputou com eles”.

Então, textualmente, teríamos que Jesus tinha o “costume” de ir à sinagoga no sábado assim também São Paulo frequentava a sinagoga “segundo o seu costume”.

Entretanto, em Atos dos Apóstolos, a passagem de Atos 13, 14.42.44 seria exemplo de ao menos dois sábados guardados por São Paulo e seus companheiros, a de Atos 17, 2, onde São Paulo e Silas vão três sábados à sinagoga e Atos 18, 4.11 onde São Paulo frequenta a sinagoga todos os sábados durante um ano e seis meses.

Assim, Alberto Timm afirma que o motivo de São Paulo ir às sinagogas não era apenas evangelístico, mas também litúrgico, pois ele mantinha o costume mesmo onde não havia sinagoga, como em Atos 16, 13. Esse fato sugere “uma reflexão espiritual condizente com a observância do sábado”.

Pois bem. São Paulo ia à sinagoga aos sábados como cristão para participar da liturgia e cumprir o mandamento, e não apenas para evangelizar. Esse é o argumento de Alberto Timm. Abaixo será feito um estudo para analisar o argumento.

Primeiro, é um fato que Jesus os apóstolos guardavam o sábado, que era o dia de guarda em todo o Antigo Testamento para todos os judeus. Por isso, é um fato que Lucas 4, 16 afirma do costume de Cristo de ir aos sábados na sinagoga para ali cultuar a Deus.

No entanto, a frase “segundo o seu costume”, em Atos 17, 2, está em outro contexto. A passagem literalmente pode ser vertida assim: “De acordo com, agora, o costume, com Paulo, ele foi a eles, por sábados três ele disputou com eles à base das Escrituras”.

Conforme a tradução da Bíblia Ave Maria, o costume dito no texto é dirigir-se aos judeus para pregar o evangelho. A informação sobre o costume é ir ter com eles, e depois, após a conjunção “e”, o texto continua: “e por três sábados...”, mostrando o período em que isso ocorreu.

Então, não está escrito que São Paulo tinha o costume de ir às sinagogas para cumprir o mandamento do sábado como obrigatório para o cristão. Está escrito, antes, que ele tinha por costume ir aos judeus para disputar sobre o ensino das Escrituras com eles e, aos sábados, debatia com eles, pois era nesse dia que os mesmos se reuniam.

Ainda que São Paulo fosse à sinagoga segundo o seu costume, isso não diz respeito ao seu ensino de que era necessário ir à sinagoga aos sábados. De fato, ele cumpria a lei como judeu, mesmo depois de convertido a Cristo, e ia ao templo fazer as orações, fazia votos, participava das festas judaicas, circuncidava, quando era necessário, e, também, obviamente, guardava o sábado.

No entanto, não fazia isso para obrigar os cristãos vindos de outras culturas, mas apenas como costume judeu. Ele não ensinava os convertidos a guardar o sábado, guarda as festas, fazer votos e sacrifícios, ir ao templo, etc. De fato, quando ia ao templo não levava nenhum cristão de origem gentia (Atos 20, 28). Isso é evidente de que não ensinava os cristãos gentios a guarda da lei, incluindo o sábado.

Desse modo, logo após o concílio de Jerusalém, que havia decidido não impor a circuncisão como requisito de salvação aos cristãos não judeus, ele circuncida São Timóteo, que era filho de mãe judia e pai grego, mas o faz “por causa dos judeus daqueles lugares, pois todos sabiam que o seu pai era grego” (Atos 16, 3).

Isso significa que mesmo pregando que não havia mais a necessidade da circuncisão, os judeus teriam dificuldade em aceitar a pregação de um não circuncidado, e por isso prudentemente São Paulo preferiu circuncidar Timóteo.

Pode-se, com esse exemplo, vislumbrar a guarda do sábado por São Paulo. Quando o mesmo cumpria práticas judaicas não era como exigência cristã, mas para não ofender aos judeus que ainda eram apegados à lei, e com isso facilitar a evangelização. Assim, o exemplo da circuncisão de Timóteo e as idas ao templo, mas nunca entrando no templo com um não judeu.

O texto de Atos 13, 14 afirma que Paulo e seus companheiros entraram na sinagoga e sentaram. Então, apresenta São Paulo pregando o evangelho naquela sinagoga.

São Paulo e São Barnabé foram enviados a pregar. Isso ocorreu em momento de culto, que, diga-se de passagem, provavelmente foi feito no domingo (cf. Atos 13, 2).

Assim, no verso 5 está escrito: “Chegados a Salamina, pregavam a Palavra de Deus nas sinagogas dos judeus.” O contexto do capítulo é o envio para a pregação da Palavra de Deus aos judeus.

Então, os judeus pediram a Paulo que voltasse à sinagoga no sábado seguinte. Esse é o verso 42. Em Atos 13, 44 é mostrado como isso ocorreu: “No sábado seguinte, afluiu quase toda a cidade para ouvir a Palavra de Deus”. Novamente o contexto da pregação da Palavra.

Após a rejeição dos judeus, São Paulo e São Barnabé vão anunciar a Palavra de Deus aos pagãos (Atos 13, 46).

O mesmo contexto explica Atos 16, 13. Em Atos 16, 9 São Paulo tem a visão de um macedônio rogando auxílio. Com isso, entendeu que Deus chamava-os para pregar o evangelho na Macedônia.

Nesse contexto, após dias na cidade de Filipos, São Paulo e São Timóteo foram no sábado onde perceberam haver oração. Era perto de um rio. Ali se assentaram e pregaram o evangelho. Batizaram Lídia e sua família naquele rio (Atos 13, 14-15).

Em Atos 18, 4 lê-se que “Todos os sábados ele falava na sinagoga e procurava convencer os judeus e os gregos”. Após a rejeição dos judeus “ele, sacudindo as vestes, disse-lhes: “O vosso sangue caia sobre a vossa cabeça! Tenho as mãos inocentes. Desde aogra vou para o meio dos gentios” (Atos 18, 6).

É certo que não voltou às sinagogas ali, e não pregou aos gentios que o dever de reunir-se aos sábados.

Entretanto, em Atos 19, 8-10, vemos que São Paulo prega sobre o Reino de Deus na sinagoga por três meses. Mas, devido ao endurecimento e incredulidade dos judeus, passou a reunir-se à parte, todos os dias, na escola de Tirano (v. 9).

Então, é evidente que São Paulo, São Barnabé, São Silas, etc., entravam nas sinagogas para pregar a Palavra e o Reino de Deus e não com motivos litúrgicos.

Quando isso não era mais possível, partiam para os pagãos e escolhiam outro lugar para as reuniões de ensino, que não eram mais feitas aos sábados, mas segundo a disponibilidade, como diariamente.

Desse modo, o costume de São Paulo tem a ver com a pregação aos judeus. O contexto dessas passagens era a pregação da Palavra de Deus. Em nenhuma delas é ensinado que São Paulo e seus companheiros guardaram o sábado como prática cristã obrigatória, e nenhuma os apresenta ensinando essa prática na igreja.

a)  A expressão segundo o seu costume diz respeito ao costume de pregar a palavra aos judeus.

b)  Todas as vezes em que São Paulo é mostrado nas sinagogas é com o objetivo de evangelizar.

    É evidente que o mesmo não ensinou o sábado aos novos cristãos, assim como não ensinou a circuncisão.

A segunda evidência apresentada por Alberto Timm é que a condição para os judeus se tornarem cristãos era a aceitação de Jesus Cristo, não incluindo a aceitação do domingo no lugar do sábado.

Os exemplos são Atos 2, 37, da conversão do das pessoas em Pentecostes, Atos 8, 36.37, do eunuco e Atos 16, 30.31, do carcereiro.

No entanto, também nessas passagens não é dito que não devem circuncidar-se, o que é claramente ensinado no Concílio de Jerusalém. Portanto, não há evidência alguma de que os cristãos deveriam continuar guardando do sábado.

A terceira evidência seriam as discussões no Concílio de Jerusalém, que não tratou da guarda do domingo porque não era um ponto em disputa. Os apóstolos não ensinavam a circuncisão, mas permitiam que fosse feita em casos como o de Timóteo. Também não ensinavam que os cristãos deviam orar no templo, mas iam ao templo todos os dias. Da mesma forma, não ensinavam o sábado, e reuniam-se aos domingos, embora pudessem frequentar a sinagoga aos sábados e pregar o evangelho. Não havia uma tensão entre a guarda do sábado e do domingo.

A quarta evidência estaria relacionada às declarações de São Paulo no contexto do seu julgamento, onde o mesmo afirma não ter pregado contra a lei, contra o templo, contra César.

Porém, pode-se contra argumentar, pois é certo que São Paulo não ensinava mais a circuncisão, e, como foi definido no concílio, a circuncisão não poderia ser realizada para fins de salvação, pois separaria de Cristo. Em geral, não era praticada pelos cristãos.

No entanto, ele mesmo não pregava contra a circuncisão, pois essa era proveitosa para os judeus, em todos os aspectos, como ensina em Romanos 3, 2.

E, em certos casos, para não escandalizar, praticou a circuncisão, como no caso de Timóteo, e submeteu-se a cumprir votos para testemunhar sua paz com a fé de Israel: Então, Paulo acompanhou aqueles homens no dia seguinte e, purificando-se com eles, entrou no templo e fez aí uma declaração do termo do voto, findo o qual se devia oferecer um sacrifício a favor de cada um deles (Atos 21,26). Isso ocorria por causa dos judeus, que abraçavam a fé sem abandonar seu zelo pela Lei (Atos, 21, 20).

O contexto inteiro mostra que o intuito era fazer crer que São Paulo não pregava contra a Lei aos cristãos convertidos de origem judaica e que ele mesmo praticava a Lei.

Deviam saber que não era verdade que o apóstolo pregava o abandono da lei aos judeus convertidos, como a circuncisão e os costumes mosaicos.

É evidente que a pregação sobre a liberdade em relação à Lei era direcionada aos gentios e não aos judeus, que podiam cumprir os preceitos da lei no espírito do evangelho sem problemas.

Foi vedado, porém, pelo Concílio de Jerusalém, a ensinar a obrigatoriedade da Lei aos conversos provenientes do paganismo. E, pois, evidente, que isso não era exigido dos que creram dentre os gentios (Atos 21, 25). Assim, a mesma prudência era tida com relação ao sábado.

TIMM, Alberto R. O Sábado na Bíblia: Por que Deus faz questão de um dia. CPB: Tatuí, SP, 2023.

Gledson Meireles.

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