Estudo dos capítulos 2 e 3.
2
Comentário: O sábado bíblico
O
sábado criado na primeira semana da criação é o repouso (Gn 2, 1-3), e não em
primeiro lugar o dia. O tempo em que o sábado
foi criado foi o fim da primeira semana da criação, afirma Carlyle. No entanto,
o mesmo se refere ao “sétimo dia”, como se somente nesse dia a bênção de Deus é
derramada na humanidade que observa o repouso. Assim, somente o sétimo dia
seria estabelecido por Deus para repousar, abençoar e santificar.
Uma
vez criado o tempo, o dia sucede naturalmente, sendo o primeiro, o segundo e
assim por diante. No entanto, como Deus não necessita de descanso, fazendo-Se
repousar, deu à humanidade o exemplo e a bênção para repousar do trabalho, e o
fez dentro de um período de sete dias, estabelecendo o descanso de um dia em
sete.
Comentário: O sábado é um dia, não
uma instituição
Carlyle
entende que o “material” do qual Deus fez o sábado foi o sétimo dia. Essa
separação do sétimo dia seria imutável, apenas sendo observado o descanso
semanal naquele dia. Assim, seria o tempo do sétimo dia separado para o
repouso. Mas, tal não parece ser o que a Bíblia está ensinando. Não há essa
ênfase radical no dia.
Para
provar essa asserção, Carlyle afirma que “Não
nos é mandado “lembrar do sábado, para santifica-lo”, mas o mandamento diz:
“Lembra-te do dia de sábado, para o
santificar”. O dia seria o ponto importante aqui.
No
entanto, como visto antes, o dia não é parte da lei moral, mas apenas o
descanso. Essa necessidade moral está na lei de Deus, e o dia é parte
cerimonial.
Tal
compreensão de que o dia e o sábado são inseparáveis não parece estar nas
palavras de Jesus: O sábado foi
estabelecido por causa do homem (Mc 2, 27). De fato, o dia já havia sido
criado, mas não o descanso.
Assim,
o sábado no sétimo dia estabeleceu o descanso de um dia em sete. Não se trata da
criação de um dia somente como possível para descansar e receber a benção
divina. Por isso, a Bíblia afirma que o sábado é uma sombra (cf. Cl 2, 16).
Lembra-te de santificar o dia de
sábado (Ex 20, 8).
O Senhor disse a Moisés: “Dize aos
israelitas o seguinte: Eis as festas do Senhor que anunciareis como devendo ser
santas assembleias: essas são as minhas solenidades: Trabalhareis seis dias, mas no sétimo dia,
sábado, dia de repouso, haverá uma santa assembleia. Nele não fareis trabalho
algum. É o repouso consagrado ao Senhor, em todos os lugares em que habitardes (Lv
23, 1-3).
Embora
seja conhecida a contagem do tempo desde o início da criação, a Bíblia ordena
trabalhar seis dias e descansar no sétimo, como modelo desse descanso. Ainda, o
texto sagrado afirma do repouso (sábado)
consagrado ao Senhor, não se limitando à referência do dia. Ambos estão
interligados, pelo modelo criado por Deus, mas o repouso é o fim desse mandamento, e não o dia em si.
O
texto bíblico afirma que “o sábado é do Senhor em todos os lugares que
habitardes” e não o sétimo dia é do Senhor em todos os lugares em que
habitardes. O repouso é consagrado ao Senhor, o que inclui o dia, mas o sétimo
dia é o resultado da contagem do tempo para o repouso.
Carlyle
afirma que “O sétimo dia é o sábado; o sábado é o sétimo dia”, como dogma fixo
de que o sábado não poderá ser feito em nenhum outro dia. Mas a Bíblia não
fornece essa fixação referente ao dia.
De
fato, em Levítico 23 os demais sábados continuam a ser promulgados. Desse modo,
na Páscoa há o primeiro dia de santa assembleia, assim como no sétimo dia.
Todos de igual importância na Lei.
Aliás,
sobre o Pentecostes, em Lv 23, 21, está escrito: Nesse mesmo dia, anunciareis a festa e convocareis uma santa
assembleia: não fareis nenhum trabalho servil. Essa é uma lei perpétua para
vossos descendentes, em qualquer lugar onde habitardes. Então, o repouso é
enfatizado, enquanto o dia o é dentro da contagem. Assim, nessas assembleias o
primeiro e o sétimo dia são sábado.
Dessa
forma, lê-se em Dt 5, 12: “Guardarás o
dia de sábado e o santificarás, como te ordenou o Senhor teu Deus”, e no
verso 15: “Lembra-te que foste escravo no
Egito, de onde a mão forte e o braço poderoso do teu Senhor te tirou. É por
isso que o Senhor, teu Deus, te ordenou observasses o dia do sábado”.
Trata-se
do dia de descanso. O dia em que Deus descansou e também o dia em que Deus
libertou o povo da escravidão do Egito. Esses dois motivos substanciam a guarda
do repouso sabático. Dessa forma, o repouso é ligado ao dia, mas não de forma
fixa e imutável, como se vê nas Escrituras mencionadas, sendo o dia de sábado a
menção de Deus enfatiza o sábado, que
no Novo Testamento é visto sendo celebrado em outro dia.
E
“Este é o dia que o Senhor fez: seja para
nós dia de alegria e de felicidade (Salmo 117, 24). Essa profecia sugere um
dia criado por Deus, de descanso para os fieis do NT, para celebrar o dia que o
Senhor fez. Com isso, vemos que as celebrações estão atreladas ao dia, mas são
elas mesmas a ênfase do Senhor.
Com
isso, temos o sábado como repouso em honra de Deus no sétimo dia, sendo o
repouso o ponto principal da doutrina, e um novo dia feito pelo Senhor.
Comentário: O sábado é de duração
eterna
Citando
o Salmo 111, 7-8, Carlyle tenta fazer do sétimo dia o único sábado, de duração
eterna, pois está escrito que os mandamentos permanecem firmes para todo o
sempre. No entanto, como visto, estão entre os mandamentos que são a lei
perpétua os demais sábados, como o de Pentecostes. Dessa forma, não se pode
afirmar que da perpetuidade da Lei de Deus não se possa esperar alguma
alteração.
“Essas são as solenidades do Senhor
nas quais anunciareis santas assembleias, para oferecer ao Senhor sacrifícios
queimados pelo fogo, holocaustos e oblações, vítimas e libações, cada coisa em
seu dia, sem falar dos sábados do Senhor, de vossos dons votos e de todas as
ofertas espontâneas que fizerdes ao Senhor” (Lv 23, 37-38).
Essas
festas são o sábado, a páscoa, a primeira paveia, o pentecostes, o sétimo mês e
a festa dos tabernáculos, e ainda os sacrifícios, holocaustos, oblações,
vítimas, libações, votos e ofertas. Portanto, há que seguir o princípio bíblico
para discernir a respeito do que foi cumprido e do que permanece na lei da
liberdade (Tg cf. 2,10).
Quando
o autor afirma que mesmo na Nova Terra o sábado será observado, incluiria
também a festa da Lua Nova, o sacerdócio levítico, pois é algo citado em Isaías
66, 21-23:
“Escolherei mesmo entre eles sacerdotes e
levitas, diz o Senhor. Pois assim como os novos céus e a nova terra que vou
criar devem subsistir diante de mim, declara o Senhor, assim devem subsistir
vossa raça e vosso nome. E assim, cada mês, à lua nova, e cada semana, aos
sábados, todos virão prostrar-se diante de mim, diz o Senhor.
A
leitura literal sugere a aliança eterna com o povo judeu, a continuidade do
sacerdócio levita, a festa da lua nova e o sábado, o que introduziria princípio
que fere a totalidade da Escritura. Dessa forma, o texto tem cumprimento
espiritual, pois é clara a introdução das nações em Israel, enxertados na mesma
oliveira santa (cf. Rm 11), como é o fim do sacerdócio levítico, com o único
sacerdócio de Cristo segundo a ordem de Melquisedeque, como também o
cumprimento das festas, luas novas e sábados (cf. Cl 2, 16). Em sentido geral
tem-se que a leitura descontextualizada, procurando estabelecer o sétimo dia como o sábado perpétuo não é
o ensino bíblico.
A
razão do sábado antigo é o repouso de Deus (Ex 20, 11), porque o sétimo dia é um repouso em honra do Senhor (Ex 20,
10), é o repouso do Senhor (Dt, 5, 14),
e por causa da criação (Ex 20, 11) e pela razão da libertação do Egito foi dada
a observância do sábado: “É por isso que
o Senhor, teu Deus te ordenou observasses o dia do sábado” (Dt, 5, 15).
Por
meio desse mandamento se recorda de Deus, o Criador. Entretanto, também, é
lembrado de Deus, o Libertador. Os dois memorais se cumprem no primeiro dia, o
dia da ressurreição de Cristo.
Comentário: Sinal de santificação
Carlyle
afirma: “O poder criador de Deus foi exercido a segunda vez na obra da
redenção, a qual é, na realidade, uma nova criação”. Isso confirma o
significado do domingo. Cristo é a nossa páscoa.
O
domingo sinaliza o repouso em Cristo que nos santifica. Ele santificou a Igreja
no domingo, quando soprou o Espírito Santo sobre os apóstolos, como também no
domingo de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre a Igreja reunida
em Jerusalém. É o memorial da santificação do Espírito Santo no Novo
Testamento.
Comentário: Sinal de libertação do
pecado
O
sinal do poder criador de Cristo seria o sábado, segundo Carlyle. A guarda do
repouso do sábado faz entrar no repouso divino, como está em Hb 4, 10. Nisso o
autor tem razão. No entanto, tal coisa não diz que o sétimo dia não poderia ser
substituído pelo domingo, pois o repouso no primeiro dia cumpre a ordem moral e
espiritual do repouso em Cristo, em vista do repouso divino no reino anunciado
em Hebreus 4.
“Se Josué lhes houvesse dado repouso, não
teria depois disso falado dum outro dia”.
De
fato, Hebreus quatro ensina algo profundo. Há uma promessa para entrar no
descanso de Deus (v.1). A boa nova foi dada aos antigos e a nós, mas aqueles
entraram na descrença (v. 2). Pela fé entraremos no descanso (v. 3).
“Ele disse: Eu jurei na minha ira: não entrarão no lugar do meu descanso.”
Tratava-se da terra prometida. Hoje é o reino espiritual que os salvos esperam.
O
versículo 6 afirma que outros são
chamados a entrar no descanso de Deus. É
anunciado o repouso de Deus no qual devem entrar os que têm fé. Esse descanso
deve ser atual (v. 11).
Lembrando
que o dia de pentecostes ocorreu em dia de repouso, um domingo, esse repouso na
fé do NT anuncia do sábado futuro. O sábado, portanto, não é o do sétimo dia,
como no AT, mas no primeiro dia, conforma a prática da igreja apostólica.
Comentário: Começo e fim do sábado
A
contagem dos judeus, do pôr do sol de um dia ao pô do sol do outro não é um
padrão imutável no NT, que muitas vezes reflete a contagem da meia noite como
início do novo dia.
Aliás,
o texto de Lv 23, 32, citado por Carlyle para ilustrar desde a tarde do dia nove do mês até à tarde do dia seguinte,
refere-se ao sábado do sétimo mês, no dia da expiação.
Esse
tempo santo do sábado antigo está ligado ao tempo santo do domingo no NT,
santificado pela ressureição do Senhor.
Comentário: O propósito da
observância do sábado
O
sábado era o culto público para os judeus. O sábado (repouso) é para o homem. Cristo
o cumpriu com excelência. Entretanto, após
a ressurreição de Jesus os cristãos cumprem o mandamento do primeiro dia da
semana. Esse é o novo sábado.
Esse
novo dia que o Senhor fez anuncia do reino eterno (cf. Sl 117, 24). Nele são
cumpridos os requisitos morais e espirituais, o descanso físico e espiritual, o
culto a Deus, e etc.
Comentário: Fundamental para os
ideais edênicos
O
sábado lembra a criação e repouso de Deus. O domingo lembra a libertação do
pecado e da morte. O mandamento moral do sábado é cumprido no domingo, o
primeiro dia da semana.
Comentário: O sábado no Novo Testamento
Carlyle
afirma que o NT não modificou em nada a obrigação do sábado no sétimo dia. Mas
não cita qualquer texto, pois não há texto obrigando o sétimo dia antigo na
Nova Lei.
Antes
da páscoa, Cristo e os apóstolos guardavam o sábado no sétimo dia. Após a
ressurreição de Jesus, as Escrituras mostram os apóstolos e discípulos
observando o primeiro dia da semana. Nesse dia, celebravam a fração do pão, que
é outro termo para falar da eucaristia.
Quando
o autor afirma que no NT não há registro de guarda do domingo como sábado, ou
seja, para o descanso, está se esquecendo das ocasiões em que os apóstolos
estavam reunidos no primeiro dia da
semana com fins litúrgicos, sugerindo o repouso para tal fim.
3
Comentário: Ausência de autoridade
divina para a mudança
Afirma-se
que Jesus Cristo não mudou o sábado. Mas Jesus fez várias pregações para aperfeiçoar
o sábado. E nessas ocasiões, afirmou que é Senhor do sábado. Com isso, temos
princípio de que preparava algo especial relativo a esse dia.
O
sábado foi memorial da criação e da redenção. No entanto, como o NT apresenta,
o domingo é mostrado nesse sentido espiritual, pois é o dia em que é cumprido o
mandamento de celebrar a ceia em memória de Cristo.
Afirmar
que os discípulos de Cristo e as primitivas igrejas cristãs não ouviram jamais
falar da mudança do dia de observância do sábado é extrapolar os dados
bíblicos. De fato, os apóstolos não introduziram mudanças por suas próprias
autoridades, mas as receberam de Cristo e por inspiração do Espírito Santo.
Desse modo, as suas reuniões litúrgicas no primeiro dia da semana expressam a
ordem divina para essa prática.
Dessa
forma, a origem da guarda do domingo é apostólica, e não “posterior aos tempos
da Bíblia”, como afirma o autor adventista do sétimo dia.
As
passagens evangélicas sobre o ensino e trabalho de Cristo sobre o sábado
tiveram por objetivo aperfeiçoá-lo. No entanto, como demonstrado, esse sentido
está primeiramente conectado ao repouso,
à forma de observar esse dia, e não limitado ao dia em si. De fato, o dia está
conectado ao repouso, o que é um dado da doutrina católica, e por isso
admite-se que Cristo tenha ordenado aos apóstolos a prática dominical como novo
dia de observância cristã. Sendo assim, há autoridade divina para essa mudança.
É
importante que o sábado foi feito para o homem e Cristo é o Senhor do sábado. Está
escrito que o sábado foi feito para o homem, e não que o dia de sábado foi
feito para o homem, e que Cristo é o Senhor do sábado, e não do dia do sábado,
para lembrar da ênfase adventista. Com isso, deve-se pensar na literalidade do
texto, usada para argumentar da ligação imutável do sábado ao sétimo dia.
Pelo
evangelho, vemos que não há tal correlação rígida. Jesus afirma ser o Senhor
dessa instituição do descanso sabático. Com isso, Ele pode mudá-lo para outro
dia, como de fato o fez, pois do contrário a Igreja não observaria o domingo
como fez desse o início.
Não
se trata de uma contraposição aos sétimo dia, como também nenhuma recusa dos
apóstolos e primeiros discípulos em cumprir outros mandamentos da lei antiga.
De fato, é apenas a nova obrigação da eterna aliança que começou a ser praticada.
Os ensinos de Jesus para a guarda do sábado são cumpridos na observância
dominical.
Comentário: milagres no sábado
Curiosamente,
Carlyle argumenta que Cristo criou as oportunidades propositalmente escolhendo
o sábado para realizar milagres e obras de misericórdia. Isso é verdadeiro. Jesus
sempre criou oportunidades para ensinar o evangelho.
Do
mesmo modo, de propósito Jesus escolheu o domingo para ensinar a Igreja,
aparecendo aos discípulos e confirmando-os na fé, conferindo o dom do Espírito
Santo, realizando milagres. Esse padrão ocorre após a ressurreição.
Foram
momentos que o Senhor utilizou para reformar o sábado. Esse princípio
espiritual é guardado no descanso dominical.
Comentário: Cristo arriscou a vida
para libertar o sábado
De
fato, Jesus arriscou a vida para ensinar a verdadeira observância do sábado.
Comentário: Libertando o sábado de
restrições molestas
Jesus
reformou o sábado. Não foi uma abolição, mas o cumprimento do sábado. Hoje, essa
prática é realizada no primeiro dia da semana.
Comentário: O primeiro dia
mencionado seis vezes nos evangelhos
Essas
passagens dos evangelhos (Mt 28, 1; Mc 16, 1.2.9; Lc 23, 56; 24, 1; Jo 20;
1.19) indicam a guarda do domingo. As aparições de Cristo quando os discípulos
estavam reunidos.
De
fato, os textos não tratam da mudança do sábado, e não enfatizam o domingo com
algum título especial, como também não dão ao sábado nenhum título novo. Esse
não é o intuído das passagens. Elas mostram a nova concepção cristã, e
expressam uma prática que a Igreja adotou desde os primeiros dias, a reunião
litúrgica aos domingos. Essa prática teve a presença de Cristo, que
propositadamente apareceu no primeiro dia da semana aos discípulos.
Comentário: Nenhuma autoridade para
a santificação do domingo
De
fato, não é encontrada no NT uma discussão a respeito de uma nova instituição
apostólica a respeito do dia de observância sabática. Tal não foi um assunto
controverso.
O
domingo surgiu na prática, mostrando a nova concepção cristã, mas não como
oposto ao sábado, mas como um cumprimento do mesmo. Assim, os apóstolos muitas
vezes praticavam o que é próprio do evangelho bem como o que é da tradição
judaica sem ver nisso uma contraposição.
O
assunto maior foi o do sacrifício. Uma vez que o sacrifício de Cristo cumpre os
tipos da Lei, não é mais necessária a realização dos sacrifícios no templo. O
véu foi rasgado de alto a baixo.
Ainda
assim, coisas relacionadas à lei eram guardadas, como orações em determinadas
horas do dia no Templo, votos, esmolas, jejuns, alimentos, sábado, circuncisão.
Não obstante, essas práticas não foram ensinadas aos cristãos em seu conjunto,
pois foram reformuladas. Os votos, as esmolas e os jejuns foram ensinados Jesus
no evangelho. Os alimentos foram declarados puros, no contexto em que tratava
das purificações antes de comer, e o sábado não aparece nenhuma vez sendo
cumprido por algum cristão. Pelo contrário, é mostrado como uma sombra (Cl 2,
16).
A
observância do domingo está nos princípios que são percebidos no Novo
Testamento relativo à prática cristã nesse dia.
Comentário: O primeiro dia
mencionado uma única vez no livro de Atos
O
texto de Atos 20, 7-8 menciona explicitamente uma reunião cristã. Essa menção
concorda em essência com o que os textos dos evangelhos sugerem, ou seja, os
cristãos reuniam-se aos domingos com fins litúrgicos.
Certamente,
essa reunião na noite de domingo reflete a contagem do tempo ao modo romano,
onde o dia vai até à meia noite. De qualquer forma, a ocasião se deu no
primeiro dia da semana.
A
noite pode ter sido no sábado à noite, afirma Carlyle, mas também é provável
que a reunião se deu no domingo à noite. A questão da contagem do tempo não é
clara.
De
qualquer forma, São Paulo passa uma semana em Trôade e celebra a eucaristia no
domingo, o que é por si sugestivo dessa prática cristã.
A
análise do argumento do Dr. Horatio B. Hackett, em 1882, de que São Paulo
esperou o sábado para celebrar o serviço religioso é curioso. Por que deveria
ter deixado passar o sábado para celebrar com os irmãos?
E
a observação de Carlyle de que não há nenhuma menção ao caráter sagrado do
domingo, mas apenas é referido como um dos sete dias da semana, o mesmo pode
ser dito do sábado, que não possui nenhum título especial nos evangelhos e
epístolas, sendo mencionado normalmente como sábado. O dia do Senhor, que é
encontrado no Ap 1, 10, é a nova referência do domingo, que começou a ser usada
na última década do século primeiro, como aparece nesse texto do Apocalipse.
Comentário: A última menção ao
primeiro dia
Aqui,
Carlyle não tenta uma refutação, afirmando apenas que essa passagem de 1 Cor
16, 2 é a única que menciona o primeiro dia em conexão com outra coisas, e que
presumir que fosse o dia de culto público em Corinto e na Galácia é ir além do
que o texto quer dizer.
O
texto afirma: “No primeiro dia da semana,
cada um de vós ponha de parte o que tiver podido poupar, para que não esperem a
minha chegada para fazer as coletas”.
São
Paulo havia dado diretrizes na Galácia e em Corinto. Não era necessário reunir
o dinheiro e esperar a chegada do apóstolo, mas em cada semana, no primeiro
dia, cada um deveria reservar uma quantia. Essa diretriz sugere de fato uma
reunião religiosa no primeiro dia da semana, o que está em consonância com os
demais textos citados anteriormente.
O
versículo 3 diz o seguinte: “Quando
chegar, enviarei, com uma carte, os que tiverdes escolhido para levar a
Jerusalém a vossa oferta”.
O
texto deixa claro que o apóstolo não iria fazer a coleta em todas as casas
quando chegasse, mas havia pessoas escolhidas para reunir a quantia e levá-la a
Jerusalém quando ele chegasse. Eles
não deveriam esperar o apóstolo para fazer as coletas. Isso significa que todas
as semanas essas pessoas recebiam as coletas que eram provavelmente levadas aos
lugares de reunião litúrgica, no primeiro dia da semana, e, assim que São Paulo
chegasse esses iriam a Jerusalém levar a oferta. O contexto de fato sugere uma
reunião litúrgica geral.
E,
com isso, é provado que o sábado não mais era observado pelo apóstolo? Não
necessariamente, pois não era o assunto e nem havia tensão sobre isso. O
apóstolo poderia ir à sinagoga no sábado, como judeu cristão, mas usava dessas
ocasiões para falar de Jesus Cristo. Da mesma forma, em 1 Cor 16, 8 é citada a
festa de Pentecostes, onde o apóstolo certamente fazia questão de participar,
embora não obrigasse os cristãos gentios a isso: “Ficarei em Éfeso até Pentecostes”. De modo especial, as reuniões
cristãs não eram realizadas aos sábados, mas aos domingos.
Comentário: Nenhuma reunião
dominical
Nesse
tópico, o autor tenta refutar a ideia de que havia reuniões dominicais. Mas, o
contexto não afirma que cada cristão deveria fazer sua própria acumulação, pois
São Paulo afirma que isso não deveria ser feito, mas que no primeiro dia a
oferta deveria ser separada. Essa separação da oferta implica que a mesma era
recolhida. O primeiro dia da semana para isso sugere o costume de reunir-se
para a fração do pão. As pessoas escolhidas receberiam a oferta e acumulariam
para levar a mesma até Jerusalém.
Por
de parte o dinheiro no primeiro dia da semana leva a inferir o motivo de ser esse
dia. Não dever esperar a chegada para entregar a oferta é algo que fortalece a
leitura acima demonstrada. É, portanto, na reunião dominical que deveria ser
coletada a oferta.
Isso
pode ser demonstrado da seguinte forma: São Paulo deu instruções gerais para
que o dinheiro fosse separado no primeiro dia da semana. Ele instruiu a não
deixar para ofertar quando ele chegasse. Então, as ofertas não eram guardadas
em casa até que o apóstolo chegasse, mas deviam ser separadas e, certamente
entregues, no primeiro dia da semana, ao responsável pelas ofertas.
De
fato, havia os escolhidos pela comunidade para levar a oferta a Jerusalém. O
apóstolo não iria fazer a coleta quando chegasse, como ficou evidente. Também,
a coleta semanal não implica que alguém faria o recolhimento das ofertas quando
o apóstolo chegasse, pois isso iria contra o que o mesmo desejava evitar, o
acúmulo até aquele dia para que fossem buscadas as ofertas nas casas. Então, as
ofertas eram feitas no culto litúrgico do domingo. Os coletores já estariam com
as ofertas preparadas quando da chegada do apóstolo, e seriam enviados a
Jerusalém com a carta apostólica.
Caso
contrário, os lucros da semana deveriam ser separados na sexta, ou mesmo no
sábado, pois descansando no sábado, já teriam o acumulado da semana. O primeiro
dia seria o menos apropriado para guardar os lucros semanais.
Ainda,
o texto bíblico original não possui a palavra “casa” para a tradução “por de
parte em casa”, e mesmo que a tradução seja permitida, essa coleta separada
deveria nesse dia ser entregue, pois o acúmulo total em casa era o que deveria
ser evitado.
Entretanto,
como os cristãos guardavam o domingo, ao trabalharem durante a semana e já
estando com a oferta pronta até o sábado, deviam separar o valor para
entregarem na reunião dominical.
Comentário: Os sábados cerimoniais
cessaram
Talvez
esse seja até agora o principal texto bíblico estudado. Trata-se de Colossenses
2, 16. De fato, essa passagem é evidente de que o sábado foi uma sombra.
Carlyle
interpreta o texto como se referindo apenas às festividades, dias santificados
e sábados anuais, e não ao sábado semanal. Aqueles teriam durado até ao tempo
da correção (Hb 9, 10), mas o sábado semanal continuaria.
E
afirma: “O crente em Cristo não devia,
portanto, voltar a esses tipos e sombras”. Também, nessa ocasião, o autor
cita Lv 23, 38, afirmando que os sete sábados eram guardados “além dos sábados
do Senhor”.
Esse
texto já foi referido nas refutações anteriores. Mas, aqui o autor adventista
do sétimo dia usa do texto destacando o sábado semanal dos demais sábados do
calendário judaico. No entanto, a leitura do texto bíblico contraria a
interpretação do autor adventista.
Façamos
a comparação das conclusões de cada texto, o da interpretação de Carlyle e do
texto sagrado.
|
Não
precisava ele observar seus sete sábados anuais (Levítico 23:4, 24, 32, 29),
todos os quais deviam ser guardados juntamente com ou “além dos sábados do
Senhor” (Levítico 23, 38). |
“Essas são as solenidades do Senhor
nas quais anunciareis santas assembleias, para oferecer ao Senhor sacrifícios
queimados pelo fogo, holocaustos e oblações, vítimas e libações, cada coisa
em seu dia, sem falar dos sábados do Senhor, de vossos dons votos e de todas
as ofertas espontâneas que fizerdes ao Senhor” (Lv 23, 37-38). |
O
intérprete adventista compara os sete sábados anuais “juntamente” com o sábado
semanal. Contudo o texto bíblico compara “sacrifícios queimados, holocaustos,
oblações, vítimas, libações” juntamente com “os sábados do Senhor”, e etc. O
texto bíblico não faz a diferenciação como tentou fazer o autor adventista do
sétimo dia.
“Essas são as solenidades do Senhor
nas quais anunciareis santas assembleias, para oferecer ao Senhor sacrifícios
queimados pelo fogo, holocaustos e oblações, vítimas e libações, cada coisa em
seu dia, sem falar dos sábados do Senhor, de vossos dons votos e de todas as
ofertas espontâneas que fizerdes ao Senhor” (Lv 23, 37-38).
O
interessante é que, no mais, o autor admite que essas observâncias não são mais
obrigatórias para os cristãos. O problema foi não reconhecer que esses sábados incluem
o sétimo dia, ou melhor, são primordialmente os sábados do sétimo dia.
A
interpretação citada do Dr. Adam Clarke, de que o sabbaton poderia ser as festas das semanas não é convincente e trai
o contexto, já que em Cl 2, 16 são separadas as festas e os sábados.
A
observação do Dr. Albert Barnes é também importante, já que não vêm em Cl 2, 16
uma abolição do sábado como abolindo um dos mandamentos do decálogo. Argumenta
sobre o uso do plural “sábados” e da lei moral não poder ser dita “sombra” das
coisas futuras.
O
problema com essa intepretação presbiteriana é que os demais textos bíblicos correlatos
tratam os sábados incluindo o sábado semanal, como o de Ezequiel 20, 22. Também,
é equivocado não reconhecer que o sábado (como repouso) é um princípio moral,
mas o dia, o sétimo, contem significado cerimonial.
Assim,
o uso dos sábados no plural, bem como
sua acepção moral nos Dez Mandamentos e seu caráter figurativo em Colossenses
são fatos compatíveis com o sábado do sétimo dia.
A
tese de Ron du Preez, em 2008, defende a interpretação tradicional da IASD de
que os sábados são somente os cerimoniais em Cl 2, 16, embora eruditos
adventistas dos sétimo dia, como o Dr. Bacchiocchi, tenham admitido que o texto
se refere realmente ao sábado semanal.
De
fato, o apóstolo não pretende provar que não exista sábado para os cristãos,
nem tenha a intenção de negar a santidade do antigo sábado, pois o mesmo cria
na significância espiritual da circuncisão e da lei, e ele mesmo se utiliza de
várias práticas judaicas em sua evangelização. A questão gira em torno da não
obrigatoriedade da lei, incluindo o sábado do sétimo dia, visto que o domingo
já cumpre esse papel no NT.
Outra
leitura seria que o apóstolo apenas estaria se referindo ao modo de guardar a
Lei e não à prática em si. Ele estaria guardando a Lei, confirmando os
colossenses nessa guarda, e apenas afirmando que não deveriam preocupar-se com
aqueles que julgam-nos por guardar a lei de uma forma diferente.
Mas
isso levaria à conclusão de que os cristãos continuaram a observar toda a Torah,
como parte da fé cristã, menos o sistema sacrificial, o que não é provado em
nenhuma parte do NT, e contradiz diversas passagens, como o próprio contexto de
Colossenses, bem como a proibição da circuncisão encontrada em Gálatas 5, 2.
De
fato, os cristãos não são obrigados a guardar essas leis, de forma alguma,
especialmente os de origem gentia, e em certas circunstâncias, como da heresia
judaizante em voga no século primeiro, estão proibidos de praticá-las.
As
sombras da lei são belas em si, cumpriram seu papel, estão revogadas, como a circuncisão,
não mais obrigatória, mas útil aos judeus: “Em
que, então, se avantaja o judeu? Ou qual é a utilidade da circuncisão? Muita,
em todos os aspectos. Principalmente porque lhes foram confiados os oráculos
de Deus” (Rm 3, 1-2), mas podem
tornar-se prejudiciais quando praticadas como obrigatórias na lei do evangelho:
“se vos circuncidardes, de nada vos
servirá Cristo” (Gl 5, 2). Isso significa, evidentemente, que a Igreja
apostólica não observava o sábado do sétimo dia, como não observada a
circuncisão.
Vemos
que Romanos 3 afirma a vantagem espiritual da circuncisão, ao mesmo tempo em
que ensina aos gentios convertidos que não devem circuncidar.
Descontextualizando Romanos 3 poderia ser ensinado que a circuncisão continuava
em vigor, o que entraria em contradição com Gl 5. Portanto, o mesmo deve ser
afirmando do sábado, que é parte da antiga lei, e que é cumprido no primeiro
dia da semana na nova lei.
A
conclusão, portanto, é que o NT indica a mudança do sábado para o domingo, sem
qualquer tensão com o sábado, já que a Igreja continuou a respeitar o sábado,
como toda a Lei antiga, sem obrigação para os cristãos, e que pelos princípios
demonstrados há autoridade divina para a mudança do sábado para o primeiro dia
da semana, e base sólida para a observância do domingo.
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