domingo, 31 de maio de 2026

Livro: Do Sábado para o Domingo. Estudo capítulo 4.

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Comentário:  Como, por que e por quem foi feita a mudança?


A Igreja primitiva sempre guardou o domingo, o verdadeiro sábado, e a tese de que a Igreja primitiva caiu em apostasia não é bíblica. Não houve introdução de falso sábado, porque a Igreja não pode, em matéria de fé e moral, cair em apostasia, porque Cristo prometeu estar com ela todos os dias e o Espírito Santo guia a Igreja para toda a verdade.

Quando Carlyle afirma que a apostasia “se cristalizou no sistema católico romano” ele está admitindo que a Igreja Católica tem suas raízes na Igreja primitiva, o que é um fato inegável. Porém, o que é preciso corrigir, a Igreja católica é a mesma Igreja primitiva, o mesmo sistema cristão que se desenvolve na história.

O autor adventista, Carlyle, apresenta a tese de que as razões para a mudança do sábado foi o desejo de evitar semelhanças com os judeus e o desejo de conquistar os pagãos que adoravam o deus Sol para conseguir adesão à igreja.

Quando São Paulo escreve aos tessalonicenses que a iniquidade já opera (2 Ts 2, 7), e sobre os lobos vorazes (Atos 20, 29.30) isso significa as doutrinas errôneas e o mal que assolava a Igreja, mesmo em seu meio, mas que nunca poderia vencê-la, a ponto de fazê-la apostatar da fé. Isso é impossível, pelo que já foi apresentado acima.

Comentário: O anticristo, o autor da observância do domingo

A apostasia da fé é um dado que sempre existiu na Igreja, mas que nunca pode suplantá-la, não pode fazê-la cair totalmente. O anticristo, o espírito do anticristo, como escreve São João em 1 Jo 4, 3, iniciou sua operação nos primeiros dias da Igreja mas não tem poder total contra ela como instituição divina.

A fé foi guardada nos primeiros séculos, e quando o imperador Constantino converteu-se ao Cristianismo, que já existia, obviamente, a fé e a conduta dos verdadeiros cristãos católicos de então não mudou, embora a liberdade tenha trazido novos obstáculos. A doutrina desenvolveu-se na ortodoxia, intacta, como será demonstrado em relação à guarda do dia de domingo.

Quando o escritor adventista do sétimo dia afirma que a verdade foi mudada em erro, ele adota o equívoco de que a Igreja pode cair totalmente no erro deixando de ser como instituição a Igreja de Deus, o que não pode em termos bíblicos. A partir da verdade sobre o sábado e o domingo isso será constatado.

A citação que o autor faz de William D. Killen sobre os ritos e cerimônias que foram surgindo no decorrer dos séculos, na liturgia, são os desenvolvimentos históricos da fé cristã, e se levadas ao exagero poderia voltar-se mesmo contra o que o autor almejou, pois estaria argumentando contra a própria denominação que surgiu no século dezenove, a IASD. Assim, todo desenvolvimento da doutrina católica tem sua base divina e sua marca apostólica.

A Igreja que observa a ordenança do domingo é a Igreja de Cristo, e não uma igreja caída. As provas bíblicas são suficientes para demonstrar isso.

Portanto, a apostasia não pode ser geral. Ainda, a observância do domingo tem suas raízes na Bíblia. Então, as causas para a adoção do domingo devem ser buscada nas Escrituras Sagradas e comprovadas pela tradição da Igreja. Desse modo, os testemunhos históricos que serão apresentados devem ser lidos na linha de continuação da fé e da prática cristã e não como uma ruptura dessa mesma fé e prática.

No entanto, há que se ter em mente que as explicações dadas pelos protestantes a respeito da origem da observância do domingo são uma das causas que levam muitos protestantes a adotarem a observância do sétimo dia. O modo de expor esse fato foi o estopim para que os descendentes da reforma radical voltassem ao texto bíblico de modo mais radical que os demais ramos da reforma, levando-os a adotar o sábado do Antigo Testamento ao invés do sábado do Novo Testamento.

Tal circunstância parece ter sido engendrada especialmente na história e apologética cristã nos Estados Unidos.

A começar pela citação do historiador protestante Wilhelm August Johann Neander (1789-1850), esse afirma que a oposição ao judaísmo introduziu o festival do domingo no lugar do sábado. Afirma, ainda, que o festival do domingo é uma ordenança humana, e que os apóstolos não cogitaram estabelecer uma ordem divina sobre o domingo, transferindo as ordenanças do sábado para o domingo, o que teria sido feito, talvez, no fim do segundo século, quando pensaram ser pecado o trabalho no domingo. Essa é a síntese do que diz a citação de Neander e que agrada bastante aos defensores do sétimo dia, pois afirma que o domingo foi criado para opor-se ao judaísmo, que não foi instituição apostólica e que começou a ocorrer mais tarde, em fins do segundo século. Muitos estudiosos adventistas do sétimo dia desenvolvem suas teses sobre essa base apresentada pelos eruditos protestantes.

No entanto, o que Neander apresenta é histórica e teologicamente indefensável, pois a prática do domingo está alicerçada fortemente na doutrina apostólica e na fé bíblica.

 

Comentário: A observância do sábado não foi interrompida

A constatação de que a observância do sétimo dia não foi interrompida é parcial. De fato, a Igreja Católica permitiu desde o início a observância dos dois dias, sábado e domingo, onde o sábado era o dia de guarda do AT, não mais obrigatório para os cristãos, e o domingo o dia litúrgico por excelência.

O poder e a força do papado, como escreve Carlyle, não afastou a observância do sábado até que os judaizantes tentaram introduzi-la como necessária para a salvação. Nesse contexto houve sínodos e concílios para que os cristãos não judaizassem. O primeiro concílio foi o de Jerusalém e desenvolveu essa mesma temática.

Quando se diz que uma semente de justos guardava o sábado, isso faz pensar que muitos cristãos ensinavam a doutrina correta e eram observadores do sábado e foram perseguidos pela Igreja, o que não se encontra respaldo histórico.

Na verdade, os que observavam o sábado eram cristãos católicos de origem judaica, ou mesmo gentia, mas prosélitos, acostumados à guarda da lei, de forma que o faziam em termos de piedade, e não como necessária à salvação. Sendo assim, os santos da época admitiam esse proceder, sem ver nisso qualquer problema para a fé cristã. No entanto, o crescimento dessa prática levava à ideia de que era necessário ser judeu para ser cristão, ou seja, a guardar a lei para ser salvo. Então, ressurgia sempre a questão e a necessidade de esclarecer sobre esse ponto básico da fé, onde a Lei foi inteiramente cumprida, restando apenas o que é de cunho divino e natural, que é também observado na lei do evangelho.

Morer afirma que o sábado foi respeito pelos cristãos primitivos, que haviam aprendido dos apóstolos; Edward Brerewood (1565-1613) afirma que os cristãos no Oriente guardaram o sábado por trezentos anos após a morte de Cristo; Lyman Coleman (1796-1882), um congregacional, afirma que até o quinto século o sábado judaico foi guardado na Igreja, até que deixou de ser observado. Essas citações são de eruditos protestantes, e é patente que fornecem a base para a teologia adventista defender sua posição.

O historiador Sócrates, do quinto século, afirma que as igrejas celebravam os sagrados mistérios no sábado, com exceção de Alexandria e Roma, que por causa de uma antiga tradição deixaram de fazer isso, e Sozomen, também historiador do quinto século, escrevendo a história de 324 a 440 d. C., afirma que o povo de Constantinopla e de quase todas as partes se reúne no sábado e no primeiro dia da semana, mas que isso não é observado em Roma ou em Alexandria.

Com essas fontes históricas antigas, do quinto século, o intuito é fornecer a base de que Roma foi causa da observância do domingo e da proibição de guardar o sábado. O problema é que toda a Igreja estava unida nesses séculos, com a fé de Roma, e se elas observavam o sábado, bem como o primeiro dia da semana, isso está em consonância com o que já foi apresentado antes, pois essas práticas estavam no contexto em que não oferecia o perigo de entender essas observâncias como algo contrário à fé cristã.

Para contextualizar o que Sozomen escreve a respeito do sábado. A igreja adotava vários usos em relação à Páscoa naquele tempo. São Vítor, bispo de Roma, ou seja, o papa, e São Policarpo, bispo de Esmirna, decidiram sobre a controvérsia da páscoa, e Sozomen afirma que foi uma decisão muito sábia.

Havia uma divisão, entre os bispos que afirmavam estar seguindo a tradição de São Pedro e São Paulo e os da Ásia, que diziam seguir a tradição de São João evangelista. Sozomen afirma que isso era um mero ponto de disciplina, ou seja, não era doutrinal, pois todos professavam a mesma fé.

Quando afirma que o povo de Constantinopla, e outras cidades se, reúne no sábado e no dia próximo e que isso nunca é feito em Roma e Alexandria, isso está entre as coisas disciplinares, não consideradas na época como diferentes na fé, mas apenas mostrando que havia uma costume fixo de fazer certas coisas relativas ao culto que não eram as mesmas em outros lugares.

Assim, em Roma havia 7 diáconos, como foi o número estabelecido pelos apóstolos em Jerusalém, mas em outros lugares o número de diáconos era incontável. Desse modo, a citação de Sozomen não permite uma leitura que contraponha a guarda do sábado e do domingo, pois a mesma está em contexto de unidade de fé naqueles tempos.

Esses costumes estavam ligados à doutrina, por causa de homens santos que haviam estabelecidos esses costumes diversos em vários lugares mas continuava a ser restritos à disciplina eclesiástica, como a leitura de livros na missa que não eram considerados sagrados pelos antigos, como o Apocalipse de Pedro, lido em algumas igrejas na Palestina, quando era feito o jejum antes da comemoração da paixão do Senhor, e o Apocalipse do apóstolo Paulo era estimado pela maioria dos monges, afirma Sozomen. Em nenhum momento há divisões por essas práticas.

 

Comentário: Uma instituição pagã transplantada para o cristianismo

A mesma ideia protestante está na citação do Smith and Cheetham´s Dictionary of Christian Antiquities, de 1823, afirmando que a ideia da substituição convencional do sábado pelo domingo e etc., era desconhecida nos primeiros séculos do cristianismo.

Na citação de Hutton Webster (1875-1955), esse afirma que aos poucos uma instituição pagã foi sendo introduzida no cristianismo. Outra autoridade que reforça a tese adventista do sétimo dia. No entanto, os dados da história não mostram a tensão que esses eruditos apontam e nem a influência que os mesmos afirmam.

 

Comentário: Corrupção do cristianismo

No respectivo tópico, Carlyle admite que a observância do domingo começou em uma fase inicial da história da igreja, mas não crê que seja autêntica e aponta para a falta de ordem escriturística.

John William Dowling (1807-1878), pastor batista, escrevendo em 1845, aponta a época prematura do que considerava muitas corrupções do cristianismo que estão incorporadas no sistema romanista. Certamente, afirma isso por encontrar doutrinas católicas muito antigas, embora não concorde com elas.

Carlyle faz essas citações por saber que o domingo tem origens remotas. Mas, deve-se admitir, a observância do domingo não é somente antiga, mas de origem apostólica e portanto está na regra da fé.

 

Comentário: O dia do Sol tomado emprestado do paganismo

Outra citação de T. H. Morer, clérigo anglicano, afirma que o dia do sol foi achado apropriado pelos cristãos para ser guardado, e conservado o mesmo nome.

No entanto, os cristãos não chamavam o dia de domingo dia do Sol, mas apenas usavam essa referência quando tratavam do assunto com os gentios.

Ainda, a guarda do domingo não tem origem no paganismo, mas na Bíblia, atestada pela prática dos apóstolos.

Assim, do kyriake hemera, o dia senhorado, o dia senhorial, como pode ser entendido do termo grego, em latim é traduzido domo dominica dies, o dia do Dominus, Senhor, o dia senhorial, portanto, levando a ser chamado em português como domingo (proveniente de dominus). Assim, a língua inglesa e a língua alemã conservaram o nome pagão, mas não as línguas latinas.

 

Comentário: Uma fusão de cristianismo e paganismo corrompidos

Carlyle afirma que paganismo e cristianismo produziu o catolicismo. Ou seja, o catolicismo seria o cristianismo mesclado com o paganismo, onde haveria o surgimento do domingo.

Na verdade, o domingo tem origem bíblica. Como visto, a Igreja não pode ser destruída e a observância do domingo não poderia surgir e suplantar a do sábado se não fosse por autoridade divina. Essa tese deveria ser abandonada por todo estudioso das Sagradas Escrituras.

Então, Carlyle afirma que o catolicismo e o domingo procuram ter base apostólica. O papa como sucessor de Pedro e o domingo proveniente do dia da ressurreição de Cristo. Afirma que não tem pretensão legítima nem confirmada. Para o papado basta ler o livro Resposta ao livro a História não contada de Pedro e verá a forte base para o papado. Sobre o domingo, o leitor está seguindo a argumentação no presente estudo sobre a origem bíblica da observância dominical.

Como o domingo, o dia do Senhor, dia em que se comemora Jesus Cristo, vivo, Senhor, Salvador, poderia ser um dia que lançou o Senhor da vida fora da Igreja, como diz Carlyle? Não tem sentido.

Tertuliano trata daqueles que pensavam que o Sol era o Deus dos cristãos, porque os cristãos rezam em direção leste ou fazem do domingo um dia de festividade. Tertuliano não afirma que adota o dia do sol, mas que aqueles pagãos que acusavam os cristãos de adorarem o Sol o faziam por ignorância, por verem que os cristãos tinham práticas que assemelhavam essa adoração, como rezar para o lado onde nasce o Sol e por guardar o domingo.

Mas Tertuliano nota que eles tinham práticas que se assemelharam à dos judeus, embora não fossem, e  termina afirmando que vós que nos reprovam com o sol e o domingo deveriam considerar sua proximidade a nós. Nós não estamos longe do seu Saturno e de seus dias de festa.

1º Eles supunham que o sol é o deus dos cristãos.

2º porque os cristãos rezam para o leste.

3º porque os cristãos fazem do domingo dia de festividade.

4º mas os pagãos não fazem menos: muitos adorando os corpos celestiais rezam para o leste também.

5º Também admitiram o sol no calendário.

6º Selecionaram o seu dia ao invés do dia precedente (o sábado)

7º abstendo-se do banho.

8º ou por repousar ou por fazer banquete.

9º Fazendo isso (acima) vocês desviam-se de sua religião para as dos estrangeiros.

10º Pois as festas judaicas do sábado e da purificação, bem como as cerimônias das lâmpadas, jejuns, pães ázimos e orações litorâneas são alheias aos seus deuses.

11º E termina afirmando que os cristãos não estão longe do Saturno e dos seus dias de descanso.

Com essa argumentação Tertuliano testemunha a guarda do domingo em seu tempo e também a familiaridade que tinha das festas judaicas, fazendo voltar aos pagãos as objeções que os mesmos fizeram contra os cristãos quanto ao sol e ao domingo, apresentando argumentos quanto ao sábado e demais festividades judaicas.

Tertuliano não diz que seguia o exemplo dos pagãos e que por isso não podiam os cristãos serem censurados por eles, mas que tinham coisas em comum, e por isso a crítica dos pagãos era infundada.

Ademais, os pagãos tinham coisas em comum com os judeus, como visto acima, e nem por isso o sábado foi guardado por causa de Saturno. Assim, a crítica não tem a ver com influência, mas apresenta pontos de contato. E mais, os pagãos interpretavam erroneamente as práticas cristãs. Tertuliano objetou contra eles que os mesmos adotavam práticas contra sua própria religião. Em nenhum momento é dito que a origem do domingo tenha sido causada por práticas dos pagãos, nem há indicação disso na argumentação de Tertuliano. Esses pagãos certamente eram adoradores de Saturno e guardavam o sétimo dia, e por isso Tertuliano menciona a fé judaica e termina afirmando que não estão os cristãos longe da de Saturno e dos dias de descanso, pois esses tinham coisas em comum com os cristãos.

O que Tertuliano utiliza nessa argumentação são os pontos de contato. No capítulo anterior ele defende a fé cristã de venerar a cruz, quando os pagãos afirmavam que os cristãos eram sacerdócio de uma cruz. Ele afirma que há figuras entre os pagãos que são feitas de madeira, e que há objeto que é cultuado feito em madeira. Os pagãos tinham um deus em madeira na forma de homem. Os cristãos tinham a cruz de madeira. Sem ter em mente a forma, o argumento usa o material, a madeira, para refutar os pagãos.

Ele afirma que os deuses procedem dessa cruz odiosa, que eles odeiam. Com esse tipo de raciocínio, Tertuliano continua com o que se vê acima, onde o domingo é o dia cristão, mas não tem a ver com o sol e nem com o dia do sol pagão, mas apenas na sua semelhança, assim como as imagens dos pagãos feitas de madeira tem sua semelhança na cruz. A objeção é que eles, de outra forma, também cultuam cruzes, e por isso não podem acusar os cristãos de possuírem sacerdócio de uma cruz.

O que Carlyle tentou fazer não é proveniente do raciocínio de Tertuliano nem do contexto. Assim como os cristãos venerarem a cruz não tem a ver com a idolatria dos pagãos com seus deuses de madeiras, não há cristãos seguindo exemplo pagão, como se isso tivesse dado origem à observância do domingo.

Comentário: A mais antiga lei dominical conhecida da história

O autor cita a lei de Constantino, em 321 d. C. Essa lei ordena que se deve repousar no domingo, que chama de “venerável dia do Sol”. De fato, Constantino ainda usa a terminologia pagã. O imperador havia aceitado o cristianismo, mas não era batizado ainda. Não era cristão de fato.

Os trabalhadores do campo podiam trabalhar se não tivessem outro dia apropriado para a semeadura ou plantio de vinhas. Essa inspiração da lei mostra como a Igreja compreendia o domingo, que em casos justificáveis alguns poderiam trabalhar. Certamente o imperador consultou os bispos para formular a lei. De fato, não havia lei pagã para repousar no dia do sol.

Com isso, o dia de domingo como lei no império foi uma vitória de Cristo ao instituir legalmente o dia de repouso para os cristãos, que os mesmos já praticavam enquanto cristãos. Agora, podiam mais livremente cultuar a Deus sem as perseguições imperiais.

Constantino ainda demorou a ser batizado. A sua conversão se deu em 312 d. C. Foi batizado no leito de morte, então, em 337 d. C. Portanto, não podia votar em concílio nem ensinar coisa alguma da Igreja, mas estava sendo evangelizado. Suas atitudes em favor da Igreja foram resultado de sua adesão à fé cristã.

O tempo da conversão de Constantino foi o do papa Melquíades (311-314). Veio então o papa Silvestre (314-335), sucedido pelo papa Marcos (336-336) e Júlio I (337-352), tempo em que Constantino faleceu. Durante a vida de Constantino viveram quatro papas.

 

Comentário: O domingo e a adoração do Sol

Carlyle cita a Encyclopedia Britânica e a Chambers´s Encyclopdia para a origem da lei dominical. E com H. Webster, o autor afirma que a lei do domingo não tem nenhuma relação com o cristianismo, mas o imperador estava apenas acrescentando o dia do Sol aos outros dias festivos.

No entanto, como visto, a Igreja obteve esse direito do imperador, que por certo foi inspirado pela fé cristã para instituir a lei. Anteriormente, os pagãos não guardavam o domingo no Império.

 

Comentário: Reforçada a observância do domingo por lei

Outras leis que foram promulgadas para a observância do domingo refletem a situação histórica do seu tempo.

H. Webster chama de ordenança pagã que terminou como regulamentação cristã, o que não confere com a realidade. O domingo é de origem cristã que recebeu com o tempo a sua legislação para ordenar a vida civil como direito alcançado pelos cristãos.

Carlyle cita o ano 386 onde os litígios e negócios devem cessar aos domingos, e a carta do papa em 416 que prescreve o domingo como dia de jejum. Em 425 foi imposta abstinência de espetáculos teatrais e de circo no domingo, e em 538 o Concílio de Orleáns ordena abster-se do trabalho com arado, ou em vinha, seja ceifa, debulha, cultivo, cercagem para que as pessoas frequentem a igreja.

Interessante que nesse tempo o jejum estivesse sendo praticado no domingo, quando em outras circunstâncias o mesmo foi feito no sábado os adventistas do sétimo dia consideram tal coisa como um meio de pesar a observância do sábado. No entanto, trata-se apenas de uma prática cristã católica tradicional que pode ser observada em dias diversos.

No ano 590 o papa Gregório é citado chamando de Anticristo aqueles que ensinassem que o trabalho não devesse ser feito no sétimo dia. Nesse tempo, afirma Carlyle, é indicado no final da carta que havia os observadores do sábado, e que esses ensinavam sua observância. Esse exemplo seria o da observância do sábado por parte de uns poucos fieis.

Carlyle faz um recorte citando as palavras de São Gregório fazendo parecer que a Igreja estava afastando os fieis da guarda do sábado em seu tempo. No entanto, isso não é o que transparece na carta do papa. Quando se nota o contexto geral, a ideia é outra, bem abrangente, e muito importuna para conhecer.

A esse respeito é preciso ater-se às palavras do papa, que não foram mencionadas no contexto e que revelam uma interpretação importante a respeito da doutrina relativa à observância do sábado e do domingo.

O papa começa a carta com o título papal “servo dos servos de Deus”, o que é bastante importante notar. Ele escreve para combater erros contra a “fé santa”. Uma dessas heresias era proibir fazer qualquer trabalho no dia de sábado.  A esses pregadores ele os chama “pregadores do Anticristo”.

E, agora é o mais importante. O papa afirma que quando o Anticristo vier ele “causará o dia de Sábado bem como o Dia do Senhor para sejam mantidos livres de todo trabalho”.

Com isso, afirma que o Anticristo pretenderá morrer e ressuscitar, e, portanto, reverenciará o domingo, e porque ele compele as pessoas a judaizar, para que possa trazer de volta o rito exterior da lei, e subjugar a si a perfídia dos judeus, ele deseja que o sábado seja observado, escreve o papa.

De fato, o papa afirma que o anticristo usará do domingo e do sábado para enganar. Nessa epístola, o papa mostra que o domingo é o dia de observância cristão, e o sábado era o rito exterior da lei, guardado pelos judeus, o que foi de grande valor no AT. E como os dois dias estão na Sagrada Escritura e unem AT e NT, o Anticristo usará leis para inculcar a ambos os dias para enganar cristãos e judeus.

Com isso, naqueles dias, os judaizantes mais uma vez ensinavam a guarda do sábado. Também é impressionante que está nessa tradição a noção de que o Anticristo tem planos para lidar com o dia de guarda dos dez mandamentos. E, diferentemente do que ensina Ellen Gould White e a IASD, no século dezenove, o papa afirma, no sexto século, que o Anticristo enganará por meio do ensino da observância do sábado e do domingo.

De fato, o sábado é guardado pelos judeus e o domingo pelos cristãos. Ao inculcar a lei sabática e a lei dominical ao mesmo tempo, não está introduzindo novidade para os respectivos campos, mas usando de astúcia para enganar. Não se trata de enganar promulgando lei a favor do domingo e contra o sábado, como ensina a IASD, mas de juntar ambos os dias. Com isso, o engano poderá afetar os cristãos observadores do domingo que também honram o sábado, como o faz a Igreja Católica Romana, pois o sábado está integrado na espiritualidade católica.

Obviamente, a interpretação adventista do sétimo dia é referente à Igreja Romana. Assim, caso a Igreja fomente uma lei civil em prol da observância dominical, essa será vista como cumprimento da Escritura e engano do Anticristo. É certo que a Igreja possui um dia de guarda, e esse é o primeiro da semana. Uma lei cristã sempre deverá convergir com a doutrina da Igreja. Assim, o sábado não seria o dia promulgado, por questões já claramente expostas.

Entretanto, o Anticristo, sem compromisso com a verdade, tentará agir para a causa judaica e cristã, causando confusão.

Como visto, a citação de Carlyle sobre a carta do papa Gregório deixou muito a desejar e fez um recorte que não concorda com o tema geral e nem com a causa que o mesmo se propôs a defender.

Depois cita Neander, supondo que os valdenses fossem a sobrevivência de cristãos judaizantes dos tempos antigos. Com isso pensa ter uma tradição de observadores do sábado. Porém, esses cristãos não evidenciaram historicamente as características da Igreja de Cristo, mas foram apenas cristãos divergentes, sempre oriundos de alguma forma dos ramos judaico e católico.

Por fim, traz as palavras de Eusébio de Cesareia, citadas por Robert Cox, que afirma que todas as coisas obrigatórias de serem feitas no sábado foram transferidas para o dia do Senhor. Essas palavras do bispo Eusébio provam que em seu tempo o dia de domingo era o dia de observância para os cristãos.

De fato, Eusébio trata dos ebionitas em seu tempo. Esses tinham apreço pela Lei, e essa “era totalmente necessária, como se não pudessem ser salvos só pela fé em Cristo e a vida correspondente” (Hist. Ecl. Livro III, 27). Essas palavras testemunham o entendimento católico de que as práticas da Lei apenas são proibidas de forma veemente quando são colocadas para fins de salvação.

Como observado antes, no início os cristãos judeus guardavam certos preceitos da lei, desde que o fizessem como judeus e não ensinavam aos novos convertidos que tal prática era necessária. O mesmo aparece no tempo de Eusébio, no século quarto.

Entre os ebionitas havia divisão, mas todos tinha zelo pela lei. Esse grupo “observava o sábado e outras disciplinas dos judeus”, mas “também celebravam os dias do Senhor como nós, para comemorar sua ressurreição”. Eusébio viveu entre 263 d. C. e 340 d. C., e esses fatos históricos são de grande relevância. Eles demonstram que mesmos os hereges tinham apreço pelo sábado e pelo domingo. O sábado por causa do AT e o domingo por do NT. Não faziam oposição entre um dia e outro, o que mostra terem entendimento católico nesse aspecto.

 

Comentário: A substituição do dia de Deus por um dia pagão

A IASD acredita que o domingo é um dia pagão instituído pela autoridade da ICAR. Isso certamente tem a ver com a posição que a Igreja tenha tomado no século dezenove e vinte para fazer frente às novas intepretações surgidas no Protestantismo de então, especialmente nos Estados Unidos da América.

O padre Peter Geiermann (1870-1929), no catecismo de 1919, explicou a transferência da observância do sábado para o domingo com origem no Concílio de Laodiceia em 336 d. C.

Também as palavras de Stephen Keenan, quando afirma que a substituição do sábado pelo domingo foi feita pela Igreja e que “para a qual não há nenhuma autorização escriturística” são usadas para a causa adventista.

Henry Tuberville (1612-1678), publicou em 1649 o catecismo An Abridgmente of the Christian Doctrine, causando enorme impacto, tornando-se obra fundamental para instrução religiosa dos católicos em tempos de perseguição na Inglaterra.

O padre Henry usou a concordância protestante sobre o domingo para argumentar que o ato de mudar o sábado para o domingo é de autoridade católica, o que demonstra incoerência dos protestantes ao não aceitarem outros dias de guarda observados pelos fieis católicos.

O que se nota aqui é a insistência na apologética católica pelos autores de língua inglesa em mostrar incoerências na doutrina e prática protestante, por sua alegação de fundamentar-se somente na Bíblia.

Uma vez afirmando que creem no Sola Scriptura, os protestantes estariam agindo de forma contrária ao texto bíblico ao não observarem o sábado, visto que a guarda do domingo não aparece claramente como ordenança cristã, segundo as exigências que os próprios protestantes fazem ao fundamentar as doutrinas na Sagrada Escritura.

Com isso, surge uma nuance doutrinal que deu origem à tese adventista do sétimo dia. De fato, ao frisar a falta de ordem bíblica para o domingo e a prática do domingo comum no Protestantismo geral, que segue a Bíblia somente, estaria o fato de seguirem, nesse ponto específico, a autoridade católica.

Essa mesma ênfase, fez surgir a ideia de que para ser fiel às Escrituras dever-se-ia abandonar aquelas doutrinas e práticas que são oriundas “somente” da autoridade da Igreja Romana, não tendo base escriturística. Com isso, a observância dominical foi grandemente utilizada pelos observadores do sábado como exemplo de fidelidade ao princípio Sola Scriptura, uma vez que os apologistas católicos admitiam ser uma prática não encontrada nas Escrituras e da mesma ser sinal de autoridade da Igreja em mudar um mandamento da Lei de Deus.

Essa nuance sutil está alicerçada em tal fundamento. Esse fundamento é, por sua vez, equivocado.

De fato, a Igreja Católica crê firmemente que a observância do domingo é de autoridade divina, ensinada por Jesus Cristo e inspirada pelo Espírito Santo, observada desde a páscoa de Jesus Cristo, pelos apóstolos e primeiros cristãos.

Entretanto, afirmam também que a mesma prática é evidente na Bíblia, mas não possui uma clareza tal, diga-se de passagem, como exigida pelos protestantes, de forma que é uma doutrina da tradição apostólica, que a mostra de forma categórica e possui seu fundamento nos princípios da Bíblia.

Isso é bem diferente de afirmar a conclusão que aparentemente fluem das palavras dos apologistas católicos citados. Por enfatizar muito a autoridade da Igreja deram a entender que a doutrina surgiu dessa mesma autoridade, como se a mesma se opusesse à autoridade divina ou pudesse mudar a própria lei divina. Assim, essa conclusão errônea tornou-se comum na apologética adventista, mas não condiz com a doutrina católica.

Essas ênfases na autoridade da Igreja, e certamente na tradição, que fazem frente ao princípio Sola Scriptura dos protestantes, deram origem a interpretações equivocadas por parte da IASD sobre o posicionamento da Igreja Católica a respeito do domingo.

 

Comentário: Nem uma linha bíblica em favor da observância do domingo

Na mesma linha de pensamento está a citação do Cardeal Gibbons, em 1893, onde o mesmo afirma que a santificação do domingo não é encontrada nas Escrituras e o dia de sábado nunca é santificado pelos cristãos.

Essa afirmação tem o mesmo sentido explicado antes: o sábado não tem sua substituição explicitamente escrita na Bíblia. No entanto, sabemos que o sábado deu lugar, com a lei, à lei do evangelho, que tendo como fundamento a lei eterna de Deus, a lei moral está estabelecida, e um dia permanece para a observância sabática, ou seja, do repouso. Esse é o primeiro dia da semana.

Sendo assim, há muitas passagens bíblicas em favor da observância do domingo, ao contrário do que pensou Carlyle Haynes.

 

Comentário: “A Igreja Católica [...] mudou o dia”.

A citação do The Catholic Press, do ano de 1900, tem o objetivo de mostrar que o entendimento católico é que a observância do domingo é de origem exclusivamente católica. No entanto, a qualificação dessa frase ainda é necessária.

Quando se diz que a origem é exclusivamente católica deve ser pensado que isso tem a ver com a autoridade da Igreja para ensinar a verdade, e que essa foi outorgada a ela pelo próprio Deus. Sendo assim, quando a mesma guarda o domingo, conforme o testemunho das Escrituras, isso é devido ao fato de que essa prática é de origem divina e não humana.

Assim, a citação afirma o que já foi explicado antes, ou seja, não há passagem explícita na Bíblia para autorizar a guarda do domingo: “não há uma única passagem”, afirma o The Catholic Press. Isso quer dizer que não há passagem clara e direta sobre isso, mas há princípios e as evidências práticas pelas quais conhecemos a doutrina, o que é também confirmado pela tradição.

O texto do Monsenhor Segur (1820-1881) afirma isso claramente, pois afirma que a transferência do dia de repouso foi feita pela Igreja Católica “por autorização de Jesus Cristo”. Esse dado está em toda a doutrina católica. Muitas vezes as palavras são interpretadas sem ter esse princípio em mente, como a que ocorre na respectiva citação de Carlyle Haynes do livro Plain Talk About the Protestantismo of Today.

Esse texto do livro de padre Segur é de 1868, e afirma o que os demais textos já analisados ensina, ou seja, que os protestantes homenageiam a Igreja Católica ao guardarem o domingo. Eles o fazem sem autorização, pois crendo no Sola Scriputra não encontram texto explícito para a ordenança dominical, mas seguem a tradição católica.

Por sua vez, a Igreja Católica o faz porque conhecendo as Escrituras desde o início, e tendo a autoridade dada por Jesus, guarda o domingo com toda a certeza, de modo a não deixar dúvida na interpretação dos textos bíblicos que tratam do domingo no Novo Testamento, como é aqui demonstrado.

É nesse mesmo sentido que devem ser entendidas as palavras citadas pelo cardeal Gibbons, em 1893 no The Catholic Mirror, afirmando o reconhecimento da Igreja Católica pelo mundo protestante.

Essas considerações levaram os adventistas do sétimo dia, herdeiros da tradição protestante de reforma radical, a não compactuarem em nada com a Igreja Romana, tentando fundamentação bíblica para a guarda do sábado. E com isso, por meio das palavras ousadas da apologética católica, foi gerada em contrapartida a radical recusa de aceitar a autoridade romana para algo que alegadamente entendem não ter base na Bíblia Sagrada.

Ao mesmo tempo, essa postura coloca os observadores do sábado, os chamados sabatistas, em contradição com as demais denominações da reforma, todas elas adeptas do Sola Scriptura. Essa relação será tratada quando Carlyle abordar a posição do Protestantismo nesse particular da observância do domingo.

Assim, temos que a postura radical do adventismo a respeito do sábado herdou opiniões que foram gestadas no debate católico e protestante relativas à autoridade da Igreja, especialmente no que se trata à guarda do dia de repouso nos Dez Mandamentos, com afirmações que nasceram nos escritos católicos, mas que tiveram objetivo diverso daquele que se consolidou na apologética da IASD.

Comentário: A observância do domingo sem autorização divina

Citando Burns e Oates, que foi um proeminente publicador católico britância, a ideia sobre a guarda do domingo é a mesma explicada acima.  A Igreja, representada nesses trabalhos apologéticos, está afirmando que os protestantes guarda o domingo, e “ides contra a clara letra da Bíblia e pondes outro dia no lugar daquele que a Bíblia ordenou”, não no sentido de que a doutrina do domingo está contrariando a doutrina bíblica, mas que o texto bíblico não fornece claramente a ordem para a transferência do dia de repouso, como foi mostrado acima.

Nesse sentido, o texto confronta os protestantes, que seguem somente a Bíblia, e afirma que se quiserem ser coerentes devem apresentar alguma porção do NT para que o mandando do sábado seja “expressamente alterado”, ou seja, é evidente que o contexto dessas citações tem o intuito de rebater afirmações protestantes oriundas do princípio Sola Scriptura.

É uma forma de afirmar que o princípio protestante Sola Scriptura não é suficiente, e que as igrejas protestantes necessitam de autoridade para interpretar o texto bíblico, de algo que acompanhe a Bíblia, e que seja autoritativo. Assim, apresenta-se a autoridade da Igreja. Em nenhum momento é afirmado que a doutrina do domingo é totalmente alheia ao texto bíblico ou que contenha qualquer coisa contrária à doutrina bíblica. Que o leitor entenda esse detalhe sutil profundo que surgiu das palavras e expressões usadas nos documentos católicos e permitiram gerar esse argumento contrário ao domingo na mente dos eruditos adventistas do sétimo dia.

Desse modo, a Bíblia e a história mostram que o primeiro dia da semana é o dia de descanso para os cristãos. Com isso, essa prática encontra autoridade na Bíblia. Nunca houve alteração de um verdadeiro sábado para um falso sábado. O sábado antigo foi cumprido, e em sua parte cerimonial, referente ao dia, cessou, dando lugar ao sábado novo, na sua acepção moral, no primeiro dia da semana: mia ton sabbaton (Mt 28, 1).

Assim, o domingo é cristão, e nunca um “dia puramente pagão” como afirma Haynes. O preceito do domingo é divino. Os apóstolos só adotavam práticas que aprendiam de Jesus. A ideia de que o sábado deve ser restaurado no coração é prática da Igreja, no lugar do domingo, vem da ideia formada no entendimento adventista, como foi demonstrado antes.


Gledson Meireles.

 

 

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