Do livro:
Sabbath under crossfire. Autor: Samuele Bacchiocchi
Comentário
CAPÍTULO
1
JOÃO
PAULO II
E
O
SÁBADO
O capítulo 1 é uma análise do erudito adventista do
sétimo dia, Dr. Samuele Bacchiocchi, da carta pastoral do papa João Paulo II,
de 31 de maio de 1998, Dies Domini,
sobre a observância do domingo.
O Dr. Bacchiocchi parece ficar surpreso que o papa apele
para o imperativo moral do sábado. Isso é curioso. Também porque o papa fala da
necessidade de legislação civil para facilitar a observância dominical.
Então, a análise não é dos aspectos da observância do
domingo, mas como o papa lida com o sábado na tentativa de justificar e
promover a guarda do domingo.
Parte
1: A conexão teológica entre o sábado e o domingo
O
Dr. Bacchiocchi afirma que um “aspecto surpreendente” da carta pastoral é a
defesa do domingo como expressão completa do sábado, e afirma que isso
significa um distanciamento, em certos sentidos, da explicação tradicional
católica de que a observância do domingo é uma instituição católica diferente
do sábado.
Para
isso, menciona os teólogos católicos, e cita diretamente Santo Tomás de Aquino.
Na citação de Vincent J. Kelly, esse apresenta o entendimento tradicional da substituição
do sábado pelo domingo, e afirma que então aquela “teoria” estava abandonada,
pois Deus teria dado à Igreja o poder de escolher dias santos.
E o
Dr. Bacchiocchi vê descontinuidade entre o sábado e o domingo na apresentação feita
no catecismo, citando o número XXXXXXXXXXX.
Com
isso, o Dr. Bacchiocchi afirma que o papa se distancia da distinção tradicional
que a Igreja tem feito entre o sábado e o domingo, “presumivelmente porque ele quer fazer da observância do domingo um
imperativo moral enraizado no próprio Decálogo”.
Após
isso, Bacchiocchi alude ao contraste da visão do papa com os autores da Nova
Aliança e Dispensacionalistas que ensinam a radical descontinuidade entre
sábado e domingo.
Avaliação: O
Dr. Bacchiocchi ficou surpreso com a abordagem teológica do papa João Paulo II
em sua carta sobre a observância do Domingo, porque em sua concepção de
estudioso adventista do sétimo dia, a doutrina católica ensina que o domingo é
uma instituição eclesiástica e tem outra natureza que a do sábado, vindo a ser
estabelecida por autoridade da Igreja e por costume.
No
entanto, para a doutrina cristã católica, essa não é a posição oficial. Por
isso, o papa está com certeza na esteira da teologia católica tradicional em
sua doutrina sobre a guarda do domingo, e não se afasta em nada dessa teologia.
Por
outro lado, as afirmações de autores, mesmo católicos, no sentido da citação de
Vincent J. Kelly, são essas que se distanciam e contradizem a posição oficial
da Igreja Romana.
Por
esse motivo, nota-se que o Dr. Bacchiocchi concebe a doutrina do domingo a
partir dos pressupostos adventistas, o que explica sua surpresa ao ver que o
papa lida com o tema da mesma forma que os adventistas do sétimo dia fazem em
relação do sábado. Isso mostra que mesmo os eruditos, lendo fontes católicas,
muitas vezes não apreendem o sentido da doutrina da Igreja, por encontrarem
afirmações pouco precisas e lerem outras através das lentes que da própria
denominação. Os leitores podem verificar a doutrina do domingo em outros
artigos no blog, que demonstram que o papa João Paulo II expressa a correta e tradicional
teologia católica.
Os sentidos criativos e redentores do
sábado. “should especially thrill Sabbatarians”. Bacchiocchi
reconhece que a visão do papa é uma profunda visão teológica, e afirma que
desenvolveu o mesmo sentido em um dos seus livros.
O sábado define nossa relação com Deus.
Essa porção do documento é bastante elogiada por Bacchiocchi.
O domingo como cumprimento do sábado. Na
citação da cara Dies Domini, o papa
afirma que “mais” que substituição, o domingo é o cumprimento do sábado. Afirma
que a tentativa do papa “é muito engenhosa,
mas carece de suporte bíblico e histórico”. Entretanto, não encontra no NT os
cristãos interpretando o domingo como a “personificação e cumprimento” do
sábado, e afirma que o mesmo difere em autoridade, significado e experiência.
Avalição.
Como cristão adventista, o mesmo exige algo claro na Bíblia, uma passagem, por
exemplo, mostrando o entendimento do dia do Senhor, o domingo, como cumprimento
do sábado. O papa entende essa doutrina pela totalidade da Bíblia, e não por
uma passagem específica no NT, mas pela expressão doutrinal do NT como um todo,
assumindo a doutrina inteira do AT em relação ao sábado. É uma expressão do
espírito da doutrina e não a apresentação apenas de uma passagem expressa onde
a mesma se encontra.
Diferença
em autoridade. O sábado tem ordem explícita (Gn 2,2-3; Ex 20,
8-11; Mc 2, 27-28; Hb 4, 9), e o domingo derivaria de uma interação de vários
fatores, como sociais, políticos, pagãos e religiosos. A falta de autoridade
bíblica para a guarda do domingo seria também fato que contribuiria por sua
crise.
Avaliação. O
Dr. Bacchiocchi cita quatro textos para provar que o sábado tem ordem bíblica explícita
para sua observância. No entanto, apenas as passagens de Gn 2, 2-3 e Ex 20, 1-11
cumprem esse objetivo, pois no NT não há ordem dessa natureza.
Os textos de Mc 2, 27-28 e
Hb 4, 9 dizem o seguinte:
E
dizia-lhes: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado; e,
para dizer tudo, o Filho do Homem é senhor também do sábado”.
Por
isso, resta um repouso sabático para o povo de Deus.
Jesus afirma que o sábado
deve servir ao homem, e que Ele é Senhor também do sábado. E em Hebreus é
afirmado que resta um repouso sabático, futuro, para o povo de Deus. Em nenhum
momento há “uma ordem bíblica explícita”
nesses textos. Na verdade, há uma teologia neles que indicam algo mais.
Jesus afirma que o sábado
não era como os fariseus acreditavam, e deveria ser guardado de uma forma
diversa, servindo ao homem e não sendo uma carga. Isso todos estamos de acordo,
adventistas e católicos. E, ainda, em Hebreus o que está sendo tratado é o
repouso definitivo no reino de Deus. Como isso, as duas passagens não são ordem
explícitas da Bíblia para guardar o sábado.
O sábado (repouso) no sétimo
dia foi observado até os dias de Jesus, e não mais após a sua ressurreição, como
dia de adoração para os cristãos.
Diferença
em significado. O papa reconhece a necessidade de fazer da
observância do domingo um imperativo moral e tenta enraizar o domingo no
próprio mandamento do sábado. Mas, diz o Dr. Bacchiocchi, o domingo não é o sábado.
Assim, afirma que o sábado é
memorial da perfeita criação de Deus, da redenção completa, e da restauração
final. Por sua vez, o domingo é, na patrística, a criação da luz no primeiro
dia, o símbolo do novo e eterno mundo e o memorial da ressureição de Cristo.
A tentativa de transferir
para o domingo a autoridade e significado do sábado falharia, pela mudança da
data.
Avaliação. As
objeções falham radicalmente. Em primeiro lugar, o Dr. Bacchiocci apresenta o
resumo da teologia do sábado na bíblia e a compara com algumas afirmações sobre
o domingo na patrística, fazendo um contraste e tirando uma conclusão. Essa desequilibrada
comparação é falha, pois o que está sendo tratado é o domingo como cumprimento
do mesmo sábado antigo, pelos textos sagrados da Bíblia. O imperativo moral não
está atrelado ao dia, uma vez que a motivação no NT é outra: a ressurreição de
Cristo, o principal artigo da fé. Assim, compreende-se que o dia do domingo é o
novo repouso (sábado) para o cristão. A mudança não é arbitrária, mas entendida
como expressa na própria prática apostólica demonstrada no Novo Testamento.
Diferença
na experiência. O
domingo seria a hora de adoração, enquanto o sábado compreende 24 horas
consagradas a Deus.
Avaliação. O
que parece da posição do autor, expressa nesse resumo, é que o Dr. Bacchiocchi
entende que o domingo deve ser guardado apenas para participação da eucaristia,
tornando-se depois dia como outro qualquer, enquanto que o sábado, como
guardado entre os adventistas do sétimo dia, envolve maior quantidade de tempo,
o que mudaria a experiência do dia. Mas isso é apenas questão do modo de
guardar o dia. Nenhum lugar da carta pastoral ensina que o dia de domingo deve
ser apenas de uma hora, e o liturgista citado que concorda que culturalmente o
dia de domingo é guardado apenas para ir à igreja, sendo feriado normal após
isso, trata-se de uma defesa de opinião privada e não a doutrina católica
oficial, que está na carta Dies Domini,
onde o papa mostra como o domingo deve ser inteiramente observado.
De fato, escreve: “Se
a participação na Eucaristia é o coração do domingo, seria contudo restritivo
reduzir apenas a isso o dever de «santificá-lo». Na verdade, o dia do Senhor é
bem vivido, se todo ele estiver marcado pela lembrança agradecida e efectiva
das obras de Deus”. Assim, o papa afirma que a Igreja não se
contenta com propostas minimalistas.
Então, todo ele, ou seja, todo o domingo é santificado. A experiência do
domingo cumpre moral e liturgicamente o que o sábado significa.
O leitor pode agora
vislumbrar que o sábado tem conexão teológica que se desdobra no domingo
cristão.
Gledson Meireles.
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