domingo, 26 de abril de 2026

Livro: Sabbath under crossfire. Comentário do capítulo 1, parte 1. Autor: Samuele Bacchiocchi

Do livro: Sabbath under crossfire. Autor: Samuele Bacchiocchi

Comentário

 

CAPÍTULO 1

JOÃO PAULO II

E

O SÁBADO

 

            O capítulo 1 é uma análise do erudito adventista do sétimo dia, Dr. Samuele Bacchiocchi, da carta pastoral do papa João Paulo II, de 31 de maio de 1998, Dies Domini, sobre a observância do domingo.

            O Dr. Bacchiocchi parece ficar surpreso que o papa apele para o imperativo moral do sábado. Isso é curioso. Também porque o papa fala da necessidade de legislação civil para facilitar a observância dominical.

            Então, a análise não é dos aspectos da observância do domingo, mas como o papa lida com o sábado na tentativa de justificar e promover a guarda do domingo.

 

Parte 1: A conexão teológica entre o sábado e o domingo

 

O Dr. Bacchiocchi afirma que um “aspecto surpreendente” da carta pastoral é a defesa do domingo como expressão completa do sábado, e afirma que isso significa um distanciamento, em certos sentidos, da explicação tradicional católica de que a observância do domingo é uma instituição católica diferente do sábado.

Para isso, menciona os teólogos católicos, e cita diretamente Santo Tomás de Aquino. Na citação de Vincent J. Kelly, esse apresenta o entendimento tradicional da substituição do sábado pelo domingo, e afirma que então aquela “teoria” estava abandonada, pois Deus teria dado à Igreja o poder de escolher dias santos.

E o Dr. Bacchiocchi vê descontinuidade entre o sábado e o domingo na apresentação feita no catecismo, citando o número XXXXXXXXXXX.

Com isso, o Dr. Bacchiocchi afirma que o papa se distancia da distinção tradicional que a Igreja tem feito entre o sábado e o domingo, “presumivelmente porque ele quer fazer da observância do domingo um imperativo moral enraizado no próprio Decálogo”.

Após isso, Bacchiocchi alude ao contraste da visão do papa com os autores da Nova Aliança e Dispensacionalistas que ensinam a radical descontinuidade entre sábado e domingo.

Avaliação: O Dr. Bacchiocchi ficou surpreso com a abordagem teológica do papa João Paulo II em sua carta sobre a observância do Domingo, porque em sua concepção de estudioso adventista do sétimo dia, a doutrina católica ensina que o domingo é uma instituição eclesiástica e tem outra natureza que a do sábado, vindo a ser estabelecida por autoridade da Igreja e por costume.

No entanto, para a doutrina cristã católica, essa não é a posição oficial. Por isso, o papa está com certeza na esteira da teologia católica tradicional em sua doutrina sobre a guarda do domingo, e não se afasta em nada dessa teologia.

Por outro lado, as afirmações de autores, mesmo católicos, no sentido da citação de Vincent J. Kelly, são essas que se distanciam e contradizem a posição oficial da Igreja Romana.

Por esse motivo, nota-se que o Dr. Bacchiocchi concebe a doutrina do domingo a partir dos pressupostos adventistas, o que explica sua surpresa ao ver que o papa lida com o tema da mesma forma que os adventistas do sétimo dia fazem em relação do sábado. Isso mostra que mesmo os eruditos, lendo fontes católicas, muitas vezes não apreendem o sentido da doutrina da Igreja, por encontrarem afirmações pouco precisas e lerem outras através das lentes que da própria denominação. Os leitores podem verificar a doutrina do domingo em outros artigos no blog, que demonstram que o papa João Paulo II expressa a correta e tradicional teologia católica.

 

Os sentidos criativos e redentores do sábado. “should especially thrill Sabbatarians”. Bacchiocchi reconhece que a visão do papa é uma profunda visão teológica, e afirma que desenvolveu o mesmo sentido em um dos seus livros.

O sábado define nossa relação com Deus. Essa porção do documento é bastante elogiada por Bacchiocchi.

O domingo como cumprimento do sábado. Na citação da cara Dies Domini, o papa afirma que “mais” que substituição, o domingo é o cumprimento do sábado. Afirma que a tentativa do papa “é muito engenhosa, mas carece de suporte bíblico e histórico”. Entretanto, não encontra no NT os cristãos interpretando o domingo como a “personificação e cumprimento” do sábado, e afirma que o mesmo difere em autoridade, significado e experiência.

Avalição. Como cristão adventista, o mesmo exige algo claro na Bíblia, uma passagem, por exemplo, mostrando o entendimento do dia do Senhor, o domingo, como cumprimento do sábado. O papa entende essa doutrina pela totalidade da Bíblia, e não por uma passagem específica no NT, mas pela expressão doutrinal do NT como um todo, assumindo a doutrina inteira do AT em relação ao sábado. É uma expressão do espírito da doutrina e não a apresentação apenas de uma passagem expressa onde a mesma se encontra.

Diferença em autoridade. O sábado tem ordem explícita (Gn 2,2-3; Ex 20, 8-11; Mc 2, 27-28; Hb 4, 9), e o domingo derivaria de uma interação de vários fatores, como sociais, políticos, pagãos e religiosos. A falta de autoridade bíblica para a guarda do domingo seria também fato que contribuiria por sua crise.

Avaliação. O Dr. Bacchiocchi cita quatro textos para provar que o sábado tem ordem bíblica explícita para sua observância. No entanto, apenas as passagens de Gn 2, 2-3 e Ex 20, 1-11 cumprem esse objetivo, pois no NT não há ordem dessa natureza.

Os textos de Mc 2, 27-28 e Hb 4, 9 dizem o seguinte:

E dizia-lhes: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado; e, para dizer tudo, o Filho do Homem é senhor também do sábado”.

Por isso, resta um repouso sabático para o povo de Deus.

Jesus afirma que o sábado deve servir ao homem, e que Ele é Senhor também do sábado. E em Hebreus é afirmado que resta um repouso sabático, futuro, para o povo de Deus. Em nenhum momento há “uma ordem bíblica explícita” nesses textos. Na verdade, há uma teologia neles que indicam algo mais.

Jesus afirma que o sábado não era como os fariseus acreditavam, e deveria ser guardado de uma forma diversa, servindo ao homem e não sendo uma carga. Isso todos estamos de acordo, adventistas e católicos. E, ainda, em Hebreus o que está sendo tratado é o repouso definitivo no reino de Deus. Como isso, as duas passagens não são ordem explícitas da Bíblia para guardar o sábado.

O sábado (repouso) no sétimo dia foi observado até os dias de Jesus, e não mais após a sua ressurreição, como dia de adoração para os cristãos.

Diferença em significado. O papa reconhece a necessidade de fazer da observância do domingo um imperativo moral e tenta enraizar o domingo no próprio mandamento do sábado. Mas, diz o Dr. Bacchiocchi, o domingo não é o sábado.

Assim, afirma que o sábado é memorial da perfeita criação de Deus, da redenção completa, e da restauração final. Por sua vez, o domingo é, na patrística, a criação da luz no primeiro dia, o símbolo do novo e eterno mundo e o memorial da ressureição de Cristo.

A tentativa de transferir para o domingo a autoridade e significado do sábado falharia, pela mudança da data.

Avaliação. As objeções falham radicalmente. Em primeiro lugar, o Dr. Bacchiocci apresenta o resumo da teologia do sábado na bíblia e a compara com algumas afirmações sobre o domingo na patrística, fazendo um contraste e tirando uma conclusão. Essa desequilibrada comparação é falha, pois o que está sendo tratado é o domingo como cumprimento do mesmo sábado antigo, pelos textos sagrados da Bíblia. O imperativo moral não está atrelado ao dia, uma vez que a motivação no NT é outra: a ressurreição de Cristo, o principal artigo da fé. Assim, compreende-se que o dia do domingo é o novo repouso (sábado) para o cristão. A mudança não é arbitrária, mas entendida como expressa na própria prática apostólica demonstrada no Novo Testamento.

Diferença na experiência. O domingo seria a hora de adoração, enquanto o sábado compreende 24 horas consagradas a Deus.

Avaliação. O que parece da posição do autor, expressa nesse resumo, é que o Dr. Bacchiocchi entende que o domingo deve ser guardado apenas para participação da eucaristia, tornando-se depois dia como outro qualquer, enquanto que o sábado, como guardado entre os adventistas do sétimo dia, envolve maior quantidade de tempo, o que mudaria a experiência do dia. Mas isso é apenas questão do modo de guardar o dia. Nenhum lugar da carta pastoral ensina que o dia de domingo deve ser apenas de uma hora, e o liturgista citado que concorda que culturalmente o dia de domingo é guardado apenas para ir à igreja, sendo feriado normal após isso, trata-se de uma defesa de opinião privada e não a doutrina católica oficial, que está na carta Dies Domini, onde o papa mostra como o domingo deve ser inteiramente observado.

De fato, escreve: “Se a participação na Eucaristia é o coração do domingo, seria contudo restritivo reduzir apenas a isso o dever de «santificá-lo». Na verdade, o dia do Senhor é bem vivido, se todo ele estiver marcado pela lembrança agradecida e efectiva das obras de Deus”. Assim, o papa afirma que a Igreja não se contenta com propostas minimalistas.

Então, todo ele, ou seja, todo o domingo é santificado. A experiência do domingo cumpre moral e liturgicamente o que o sábado significa.

O leitor pode agora vislumbrar que o sábado tem conexão teológica que se desdobra no domingo cristão.

Gledson Meireles.

Nenhum comentário:

Postar um comentário