terça-feira, 29 de junho de 2021

Você sabe o que é o livre-arbítrio? Mais um estudo do livro A Soberania Banida

Estudo do CAPÍTULO 10 (que trata sobre O PROBLEMA DO MAL), do Livro A Soberania Banida de R. K. McGregor Wright. Observação: Considerado um dos melhores livros apologéticos da Fé Reformada.

O capítulo 10 trata mais sobre a questão do mal, com o intuito de desbancar a doutrina do livre arbítrio, de maneira sofisticada, abrangente, clara e profunda, de forma que o apologista não conseguirá responder facilmente a um reformado caso não dê atenção suficiente às nuances da argumentação do autor.

A questão da origem do mal, usada por tantas filosofias, é a pergunta que Wright põe-se a estudar, e que trata da permissão de Deus para mal no mundo.

Pode-se dizer, para Wright, já de antemão, que não parece ter tanto problema o permitir o mal, como o autor questiona, mas trata-se mais diretamente da origem do mal, qual a causa dele, qual a sua essência, ou seja, o que é realmente o mal e de onde ele vem. Mas, McGregor tenta responder a razão da permissão do mal do mundo.

Esse problema a ser analisado é de interesse de todos, e as distinções que estão sendo feitas no estudo é que são de grande importância, já que estamos elucidando um assunto à luz da Sagrada Escritura, como ensinada na Igreja Católica ao passo que a doutrina reformada vai sendo desenvolvida para ser analisada detalhadamente e para ser comparada com a doutrina católica. Os pontos de tensão vão sendo aos poucos levantados e resolvidos, e as razões para isso são pormenorizadamente demonstradas.

Ao explicar a onipotência divina ao autor o faz com maestria, sem problemas, e com total concordância com a sã filosofia e com a revelação cristã, sendo assim em total acordo com a doutrina católica. Ele afirma que Deus “não deseja fazer o que é irracional”, e isso é importante frisar.

Quando explica que Deus é bom, e afirma que “Isso é tido como que significando que Deus é moralmente exigido por sua própria natureza a fazer qualquer coisa boa que esteja em seu poder e que presumivelmente ele sempre deseja e faz o bem”, penso que podemos fazer algo mais para iluminar o pensamento sobre a bondade infinita de Deus.

Deus é bom e faz somente o bem, que nasce da sua própria natureza, e não pode ser doutrina forma, pois essa verdade Ele nos revelou pelas luzes da razão impressas em nós como constituinte mesmo do nosso ser, e reveladas na Bíblia Sagrada ao longo de milênios confirmando a inteligência que recebemos. Portanto, aquilo que sabemos ser o bem e que nasce de Deus é de fato o bem, pois Deus é o supremo bem, o Sumo Bem.

A dificuldade produzida pela noção de onipotência e bondade ao lado da existência do mal só pode ser leva adiante se houver falhas no entendido do que é ser onipotente e do que é ser bom. Caso contrário, tudo encaixa-se perfeitamente e torna-se bem inteligível.

O autor permite com sua abordagem fazermos grandes aprofundamentos nesse tema. É maravilhoso. Ele vem com as teorias não convincentes e as aborda de forma muito clara e com maestria, de modo que sua obra é muito boa de ler. Ele vai tentando refutar as falsas resoluções apresentadas sobre o problema do mal, e com isso, e agora é mais importante frisar, uma de suas premissas é a de que para é preciso conceber de alguma forma um reino da matéria onde Deus não tem controle ou que tenha perdido o controle de tudo a partir da criação para salvaguardar a teoria da autonomia humana.

Isso não é necessário, conforme a doutrina católica, pois Deus é soberano e onipotente ainda que o mal exista. Mas, o raciocínio reformado também leva a essa conclusão. Porém, a forma com que lida com os dados racionais, para interpretar os textos bíblicos é um tanto diferente, e discordante em pequena parte, que é a principal.

No entanto, para enfrentar essas duas alternativas, está com conformidade com a doutrina católica. Deus não conhece reino material que não tenha criado, nem perdeu o controle da criação em qualquer tempo imaginável. E, quanto ao livre-arbítrio, o modo com que é entendido é diverso do entendimento católico. E esse modo diverso é que é atacado. Assim, a doutrina católica continua intacta e luminosa.

O livre-arbítrio é entendido pelo autor, no tocante à sua abordagem às teorias acima indicadas, como sendo algo que cria uma realidade como se fosse Deus, sem o controle de Deus, e sem predeterminação racional. É esse tipo de livre-arbítrio que é entendido como sendo incompatível com a realidade. É esse tipo de livre-arbítrio que a doutrina reformada repudia. Deve-se dizer que tal não é a doutrina católica, e tal livre-arbítrio não é o mesmo que o católico crê. Dessa forma, o reformado não tem motivo para atacar o livre-arbítrio encontrado na Escritura e na doutrina católica, o que ficará provado até o fim do estudo desse capítulo.

Para o autor, ensinar a autonomia do homem é retroceder para uma visão errada sobre Deus, uma visão do paganismo, incompatível com a mente cristã regenerada pelo poder de Deus.

Falando de Provérbios 16, termina afirmando que “as intenções humanas não atropelam os planos de Deus”, o que é totalmente bíblico e conforme a doutrina católica, mas a forma como o autor interpreta contém um elemento que não coaduna com a sã doutrina católica.

Deus nunca falha, é óbvio, Ele sempre é bem sucedido, em “adaptar os meios” para “alcançar os fins”, mas ainda assim as coisas não estão totalmente explicadas, e com essa frase se tem a doutrina católica e a doutrina reformada, sem problemas, em conformidade, como se fossem uma só. No entanto, para o reformado o livre-arbítrio é como uma tentativa de limitar Deus, o que para o católico não é. O livre-arbítrio é dom de Deus, e nunca uma limitação a Deus. A autonomia humana provém de Deus e não é uma forma de agir fora do alcance de Deus. São coisas que devem ser muito bem compreendidas. A doutrina que o reformado tenta refutar, que trazem esses matizes, não inclui a doutrina católica. Aliás, é a doutrina católica que fornece todas as argumentações possíveis que salvaguardam a doutrina reformada. Naquilo que ela está correta.

O autor faz críticas ao filósofo Flew e sua filosofia que desconsidera Deus. Parece mesmo incluir os arminianos na crença de que a bondade é independente de Deus, o que o filósofo citado poderia destruir logicamente. Citando Platt mostra inconsistências no arminianismo, que devem ser resolvidas de forma profunda. Aqui não será tratada a questão calvinista versus arminiana, pois o foco é comparar a doutrina reformada com a católica. Pelo visto, pelas afirmações do autor, nesse ponto os arminianos não estão utilizando argumentos que provêm da filosofia grega e entraram clandestinamente no seu sistema. Se for assim, não há como compará-lo também com a doutrina católica, e os arminianos estariam nesse particular em outro esquema de doutrina.

Quando se tem essas categorias citadas como fora da essência de Deus condicionando Deus e o mundo, num sistema pagão, não há como entender realmente a doutrina cristã. Deve-se superar esse entendimento para entender o que a Igreja Católica ensina. Talvez o problema reformado versus arminiano em comparação com o padrão católico existe por não ter superado isso.

Onde a doutrina reformada tem força por sua aplicação dos princípios católicos, a arminiana é forte por defender a posição final católica, mas ambas possuem problema, pois a teologia reformada erra ao negar o livre-arbítrio e a arminiana, segundo o que foi expresso concernente ao pensamento arminiano, erra por explicar certas categorias de forma não cristã. O reformado está equivocado no fim, e o arminiano no meio, o primeiro não acertou o alvo, o resultado, o segundo o acertou, embora por meio de alguns princípios que podem introduzir diferenças em outras áreas da doutrina.

Quando o autor passa a tratar do livre-arbítrio mais particularmente, encontra que o desejo de não responsabilizar Deus pela existência do mal explicaria o motivo da doutrina do livre-arbítrio ser tão amada por muitos. Isso seria uma alternativa para não cair na blasfêmia mencionada.

No entanto, é de se esperar que o autor venha com argumentos que salvaguardem a responsabilidade de Deus diante do mal e a faça recair sobre o homem, o que é correto. Mas, como será feito isso? Primeiro, na sua refutação da doutrina arminiana do livre-arbítrio, afirma que essa suposição requer que algo seja pelo menos “parcialmente indeterminado”. Deve-se portanto entender que indeterminismo parcial é esse, e se ele funciona, como fará o autor. E depois, compará-lo com a doutrina católica, e ver se as argumentações reformadas contra o livre-arbítrio a afetam de alguma forma ou não, e que observações devem ser feitas para realçar as diferenças e os motivos delas no contraste católico e reformado.

O autor certamente pretende afirmar que a vontade é determinada, e não indeterminada como o arminiano ensina, e que as influências sobre a vontade, como desejo e inclinações, provariam que a vontade não é livre, e para isso o ser humano deveria ter onisciência para mostrar que a vontade agiu sem predeterminação.

A questão da razão, do acaso, e etc., que o autor apresenta, são coisas interessantes. Mas a própria pergunta retórica do autor que mostra que Deus faz o possível para salvar os que ama, mostra uma liberdade e não o contrário, para não parecer que tudo está agindo apenas segundo um modo robotizado. A linguagem que o autor usa parece ir contra a doutrina que ele ensina.

A outra dificuldade, que o autor aponta, a de termos livre-arbítrio agora e não mais no céu, diante da realidade argumentativa de que o livre-arbítrio é parte da imagem de Deus, é também bastante profunda, mas não realmente problemática para a doutrina católica.

Pode-se adiantar que agora é o tempo da salvação, da prova, das oportunidades, da escolha livre e sincera, do amor livre, sem determinações, da entrega livre total para viver eternamente na felicidade com Deus sem quaisquer ulteriores perigos. Isso por si só explica o livre-arbítrio como parte da natureza humana, que usamos agora, e não precisaremos usá-lo mais quando entregamos a vida livremente a Deus, sob o influxo da graça.

A dificuldade de que pela presciência a responsabilidade pelo mal recai em Deus, por não ter feito o máximo para evitá-lo, não é bem colocada, e possui um problema intrínseco, que é igualá-la ao hipercalvinismo, que leva ao máximo a lógica reformada e afirma que Deus é o autor do mal, algo que todo reformado tradicionalmente rejeita. De alguma forma está afirmando o absurdo deveria ser reconhecido, e que pelo a atividade arminiana que tenta negá-lo não seria suficiente.

A cena-exemplo de um salva-vidas que não salva a criança, ainda que pudesse fazê-lo, não é totalmente adequada. Deus não faz assim, mas dota o ser humano de capacidade de escolher, e não infringe essa capacidade. É algo diferente. A criança impossivelmente poderia salva-se sozinha. O caso do pecador que não quer a salvação seria como se um adulto que estivesse se afogando, por ter procurado suicídio, fosse salvo pelo salva-vidas, contra toda sua vontade, ainda que lutasse com o salva-vidas, caso ainda tivesse consciência e força suficientes.

Agora, salvo, o salva-vidas deixa-o. E em outra situação, o homem procura outra ocasião para suicidar-se, e consegue. O salva-vidas não pode mais ajudá-lo. Deus está como esse salva-vidas, que com a graça salva o pecador, mas muitos não querem, ainda que após serem salvos, experimentaram a delícia da salvação pela graça, mas quiseram voltar ao pecado. A cena não é totalmente adequada para explicar tudo, pois Deus é poderoso e nunca nos deixa. No entanto, foi usada apenas para realçar a escolha do pecador.

Se o conhecimento de Deus das coisas futuras é o conhecimento de Seus próprios planos, não o é de forma determinística, mas porque quis criar uma realidade livre, ao mesmo tempo controlada por Ele, de forma que as decisões livres podem ser conhecidas, sem terem sido postas assim pela Vontade de Deus. Deus deixou essa possibilidade. Ele não inclui as ações nos elementos, como seria o determinismo, mas conhece perfeitamente a ações que os elementos assim criados podem originar, pois são criados por Ele, e Ele pode permiti-las ou não. Basta pensar que Deus quis criar seres que pudessem agir conforme Sua Vontade de contra ela igualmente, o que o contrariaria. Ao vislumbrar criaturas que podiam transgredir Suas Leis, mas que também podiam obedecê-Lo e amá-Lo livremente, escolheu essa realidade. É algo sublime e profundo, e mais sublime que pensar numa livre agência determinada. Observe que o livre-arbítrio não significa agir sem conhecimento e fora do alcance de Deus, mas possibilidade de agir com real liberdade, sem ações causadas.

 De fato, é muito difícil, é uma dificuldade extrema, criar criaturas livres. A criação de seres com uma ação aparentemente livre, e responsabilizados por suas atitudes, não é tão difícil como a criação de criaturas livres realmente. De fato, jamais foi criado um “robô-livre”, e a ciência não vislumbra tal acontecimento.

Dessa forma, o dom do livre-arbítrio é da circunscrição apenas divina, e a criação de criaturas livres é algo somente possível a Deus. Se o livre-arbítrio ou livre-agência determinada pela Vontade de Deus é algo já notório e impossível de ser recriado pela mente humana, o livre-arbítrio real e auto-causado sob a soberania de Deus, é ainda maior. Por isso, o livre-arbítrio é algo mais profundo, mais sublime e exalta o poder de Deus, que pôde criar tão grande realidade, e supera a mera livre-agência. Ainda, não confunde-se com uma autonomia absoluta como a que está sendo refutada pelo autor.

Quando uma ação é feita, não há possibilidade de ela tornar-se múltipla. Se você escolher andar pela via direita, e de fato ir por ela, não  há como andar ao mesmo tempo na esquerda, estar indo e voltando ao mesmo tempo, e etc. Se você virou à direita em determinado instante, não há como dizer que você virou à esquerda na mesmo instante e sob a mesma perspectiva. Assim, uma ação realizada torna-se determinada. O conhecimento de Deus da ação determinada não foi o que determinou a ação. Isso deve ser compreendido.

Exemplos ajudam a compreender esses fatos. Suponhamos alguém que olha para o céu numa noite estrelada e vê uma estrela cadente. Na doutrina reformada o fato é explicado como sendo a determinação de Deus para que aquilo ocorresse, ou seja, fulano foi criado para sair à noite naquele dia e horário e olhar para o céu, e a estrela deveria estar caindo naquele momento e ser observada por ele. Para a pessoa tudo passou como ação livre e por acaso, mas estava tudo predeterminado.

No entanto, para a doutrina católica, que reconhece o livre-arbítrio, fulano foi criado como ser livre, assim a lei da natureza funciona de acordo com o plano de Deus. Assim, sem qualquer determinação, fulano olha para o céu no momento em que uma estrela está caindo e a vê. Esse fato foi conhecido por Deus desde a eternidade, pois ao criar fulano sabia que todas as coisas possíveis que fulano poderia fazer, e de todas as coisas que faria e lhe ocorreria, pois aquela criatura agiria conforme a liberdade dada e Deus sabe infalivelmente como aquilo que Ele fez funciona, assim como o percurso dos astros celestes e etc. Então, Deus sabia que fulano em determinado dia e hora olharia para o céu e veria uma estrela cadente. Não foi Deus quem quis que isso ocorresse, mas soube e permitiu que fosse assim desde a criação. Ele quis nesse sentido, pois tudo o que Deus cria já é manifesto para Ele. No entanto, entenda que o livre-arbítrio está aí incluído. Além do mais, Ele está fora do tempo, e pode a partir da eternidade saber de todas as coisas, já que tudo foi criado por Ele e está em tempo presente a Seus olhos.

Em outras palavras, o fato que ocorre determina-se logo que ocorre. Quando o homem vê a estrela cadente, não há como não tê-la visto. Não há como não ter olhado para o céu. Não há como a estrela não ter caído e ser vista por ele. Aquele momento foi fixado a partir daquele presente fato, para toda a eternidade. Aquilo ocorreu.

Assim, quando Deus soube daquele fato desde toda eternidade, era um fato livre que iria ocorrer, e não seria diferente, mas seria aquele mesmo fato realmente. Se esse é o sentido do determinismo, então não há o que objetar. Então, Deus conheceu o fato, e não o determinou. O fato não ocorreu diferente porque não ocorreria mesmo, pois se fosse diferente Deus saberia, e outro fato teria sido fixado no tempo. Portanto, não é necessário o determinismo para o conhecimento de Deus (determinismo como entende a teologia reformada), e os fatos conhecidos não provam que foram determinados. Continue a leitura, para ir entendendo melhor a presciência divina.

A morte de Cristo foi determinada pelo desígnio e presciência de Deus. Importante que a palavra presciência seja usada, e não pode ser interpretada de outro modo, que não a da real presciência, ou seja, do conhecimento antes que o fato ocorra, no sentido explicado acima. Isso explica a soberania de Deus, controlando todos os detalhes do Seu plano santo, sem infringir em nada o livre-arbítrio das criaturas, que Ele mesmo incluiu na criação, conforme o que foi acima explicado. Por isso, os males da história, os pecados da humanidade, as injustiças cometidas, não estão na Vontade de Deus, não são predeterminados por Deus, não são determinados pelo desígnio de Deus, não são originados e controlados para fazer a Vontade de Deus, mas são conhecidos e o controle de Deus está em ajustá-los conforme o plano santíssimo de Deus, com vistas ao bem e à salvação do homem, e nunca em qualquer outro sentido, e nunca determinado como algo parte da obra de Deus.

Sendo assim agora vamos acompanhar a resolução que a doutrina reformada tem, para negar o livre-arbítrio. Pelo já visto, não há como negar o livre-arbítrio, mas vamos analisar detalhadamente o modo como o reformado entende e resolve a questão, para melhor refutar o erro.

Em primeiro lugar, o reformado usa Romanos 9, 19.24, entendendo que Deus pode sim predestinar o mal, ou seja, decretar o mal, fazer um decreto criando o mal, causando o mal na humanidade, incluindo o pecado, para atingir os seus fins. Isso é absurdo, não é doutrina bíblica, já está refutado na análise da doutrina reformada em capítulos publicados nesta página, e não são conformes a razão humana, não coadunam-se com a mente regenerada.

Deus sendo o ponto de referência é algo que não necessita que inclua o mal em seu decreto de determinação. De fato, Deus é o ponto de referência, e a doutrina católica assevera essa verdade. No entanto, tudo o que Deus faz e é, Ele nos explica nas Escrituras, e infundiu em nossa razão, como revelação sobrenatural e natural de Si mesmo para nós. E, como todos sabemos, Deus não pode errar, mentir, cometer pecado e querer o pecado. Assim, Ele não pode, absolutamente, determinar ou decretar o mal. Pode, isso sim, permiti-lo, conforme, sim, repito, conforme Sua vontade, mas através da permissão, com motivos e vistas a um bem maior, e nunca somente para cumprir um plano. O pecado, também, não pode ser harmonizado com a ideia bíblica e racional de Deus, e, portanto, não pode ser feito por Deus, com a alegação de que não podemos questionar isso. A pergunta retórica de Romanos 9, 19.24 tem outro sentido, e já está bastante estudada nos textos sobre a teologia Reformada, bastando o leitor conferir nos artigos publicados.

A autonomia humana seria, no entender do autor, conforme as fontes que ele estudou e pôs a refutar, seria a base para as objeções contra Deus. Quando o autor menciona as “contradições em tensão e apelar para o mistério”, os que desejarem saber mais sobre isso, enquanto se estuda a teologia reformada, os artigos referidos acima serão muito úteis.

Quando Deus responde a Jó em 38, 4, e São Paulo em Romanos 9, 19-20, o sentido nunca é o de que tudo o que Deus faz é bom ainda que contradiga aos dados da revelação e da razão humana, tanto enquanto natural como regenerada. “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?”. Isso não quer dizer: eu posso fazer o que quiser com você, as maiores atrocidades segundo seu parecer, e o de todos os homens, porque sou Deus e você não tem o que reclamar. Não é isso de maneira alguma que o texto quer ensinar. Não é isso absolutamente que a Escritura está ensinando.

Quem lê o livro em sua inteireza e raciocina cada parte revelada, sabe que Jó tinha livre-arbítrio, assim como Satanás, e tudo o que acontecia era permitido por Deus, em vista do bem maior, sem que qualquer pecado fosse decretado, determinado ou querido em todo o plano divino. A realidade da vida de Jó, e de tantos servos de Deus de ontem e de hoje, mostram apenas os mistérios do sofrimento e a certeza de que Deus quer sempre o bem, conforme nos revelou, segundo o conceito que criou em nossas mentes, e nunca faz o que é mal nem o aprova.

Uma afirmação do autor é curiosa: “Deus nunca teve dúvida de que Jó era de fato um homem extraordinariamente reto, embora pelos padrões de Deus todos são pecadores...”. Isso lembra a doutrina da justificação ensinada na Reforma Protestante, mas a frase não deixa de conter problemas. Como pode Deus não ter dúvida de que Jó era reto, mas que pelos padrões divinos Jó não era? Deus poderia considerar Jó por outro padrão que não o Seu?

É claro que o autor está afirmando que Jó estava justificado, pela graça e era predestinado ao céu, e por isso um eleito e justo, mas em si mesmo era um pecador que merecia a morte. No entanto, a afirmação acima, em sua primeira parte, supõe o livre-arbítrio, está conforme a doutrina bíblica e católica. Deus sabia que Jó era reto. Isso só é verdadeiro pelo livre-arbítrio. Deus sabia que Jó era de fato um servo fiel aos Seus preceitos, e que livremente agia conforme Sua vontade. Por isso, pelo padrão divino Jó era santo. Ainda que pecador, era um pecador convertido, e que fazia a vontade de Deus. Jó era reto.

Essa frase pode ser adotada na doutrina reformada, mas não sem problemas, pois está fora da essência reformada, é um alienígena entre os conceitos reformados, por isso logo em seguida há uma inconsistência: “pelos padrões de Deus todos são pecadores”, que não concorda com a primeira afirmação. É certo que diante de Deus todos são pecadores, e diante dele todos podem ser justos, não apenas considerados, mas de fato, pois Deus justifica o pecador. Isso é outro assunto, mas é bom que indiquemos essa verdade bíblica.

A análise feita da afirmação da Confissão de Fé de Westminster   é um tanto problemática. Explica que Deus é causa final de tudo, incluindo os males. E que o homem é causa do pecado, de forma imediata, e por isso é autor do pecado, como causa secundária. Mas, antes, afirma que a causa primeira é Deus, e que as causas secundárias “são asseguradas em suas operações” pelo conselho de Deus “que assim ordena”. Então, a causa secundária comete um pecado porque segue o conselho divino que ordena que ela assim o faça. Não é absurdo? Realmente é. A linguagem quase toda católica da Confissão de Westminster inclui esse pormenor, que não faz parte da doutrina católica.

O exemplo de que o pai não é autor do livro escrito pelo filho é muito bom. No entanto, imagine que o pai dê todas as ideias do livro que o filho escreveu, inclusive como será a capa e etc., e todas as coisas que o filho irá escrever. Com certeza o filho é coautor, no mínimo (talvez nem isso), por ter escrito somente, mas as ideias todas vieram do pai. Dessa forma, a causa primeira tem autoria. Esse exemplo parece estar mais próximo da doutrina reformada, e elucida um pouco sua inconsistência com os dados bíblicos diante da origem do mal e do pecado.

Há outros escritos no site que podem auxiliar na compreensão da verdade da soberania e do livre-arbítrio, e é importante a leitura desses textos, que lidam com os melhores argumentos, de renomados autores da literatura reformada, respondendo-os pormenorizadamente, de forma a levar a um conhecimento suficiente da verdade do livre-arbítrio e ser capacitado entender o problema da teologia reformada, e entender melhor a teologia católica.

Gledson Meireles.


segunda-feira, 21 de junho de 2021

O significado de Corpus Christi: respondendo a uma pregação protestante

Algumas palavras sobre o vídeo ou áudio.

Explicações de quem não crê na eucaristia, na transubstanciação, não são tão precisas quanto esperaríamos que fossem. Ainda mais de alguém que nunca foi católico, que nunca entendeu essa doutrina, e que era de família protestante, crescido no meio em que nunca foi ensinada a doutrina da transubstanciação, e o conhecimento se deu apenas por meio de negações.

Por essas e outras razões, segue um comentário às afirmações feitas na pregação acima referida, no vídeo.

Essas exposições não servem para conhecer a doutrina em sua inteireza, mas servem para aprofundarmos no seu sentido, e para combatermos os erros, as heresias.

Seguem algumas explicações, de coisas que são ditas na pregação, e que para nós, cristãos católicos não são como foram ditas pelo saudoso pastor.

Então:

A tradução de Corpus Christi não é Corpo de Deus, mas, como é fácil de entender, Corpo de Cristo. Deus não tem corpo, mas Cristo tem corpo humano. Melhor entendido agora.

A hóstia não é proibida de ser mastigada. Basta ver que todos os padres mastigam a hóstia. Já os fieis, que recebem pequena porção, pequeno pedaço da hóstia, ou seja, uma pequena hóstia, não precisam preocupar-se com a mastigação, embora não haja nenhuma proibição, porque logo que está na boa o elemento começa a derreter e pode ser comido facilmente.

Se eventualmente grudar do céu da boca, como pode acontecer, basta que o fiel espere que logo está totalmente derretida, sem problemas. Não há motivo para ficar tentando tirar a hóstia do céu da boca, dos dentes, etc. Tal cena nem mesmo adequa-se no ambiente espiritual em que a eucaristia é celebrada.

A conversão do elemento material em Corpo de Cristo não se dá no momento do sino, ou por causa do sino, para não ter qualquer mal-entendido. Ela se dá não na apresentação que o padre faz dos elementos ao mostra-los ao povo, mas quando com fé e intenção de celebrar o que Jesus ordenou, o padre repete as palavras que Cristo ensinou. É nesse momento que Jesus está presente.

Na procissão de Corpus Christi não se usa o hostiário, com as hóstias, mas o ostensório, com uma hóstia consagrada. O hostiário é onde se coloca hóstias não consagradas.

Sobre o fervor intenso do povo cristão católico,  porque ali está literalmente o próprio Jesus Cristo, entendemos que se trata de presença real, literal, mas de uma forma sacramental. Sabemos que Jesus está no céu. Portanto, Sua presença no sacramento não é simbólica, metafórica, mas é de forma espiritual, real, literal.

Também lembramos na celebração da morte, sepultamento e ressurreição, mas sabemos que Jesus está ali em sacramento.

Isto é o meu corpo não significa representação, pois Jesus não está representando ninguém, Ele mesmo é a realidade.

Na Ceia, Jesus entrega Seu corpo no sacramento. Por isso, o pão e o vinho ali distribuído é o Corpo de Jesus, e não outro corpo.

Jesus é o pão, é a videira, é o caminho, é o pastor. Assim como o pão alimenta fisicamente, Jesus alimenta espiritual. Assim como o galho da videira ganha vida unido ao tronco, estamos vivos unidos a Jesus. Assim como o caminho leva a um lugar, Jesus leva ao céu. Assim como o pastor cuida do rebanho, Jesus cuida de nós.

Essas metáforas não desfazem a verdade da transubstanciação, pois Jesus ensinou a comermos com fé Seu Corpo e Sangue, em sentido espiritual, como uso da matéria, do pão e do vinho, portanto, de forma sacramental, para que tenhamos vida.

Por isso, desde os primeiros séculos os cristãos católicos foram acusados de canibalismo, por aqueles que não entendiam a doutrina.

As palavras referentes ao sacramento são literais, não no sentido grosseiro, de material, mas porque trazem o que significam espiritualmente. O Corpo e o Sangue de Cristo vem à nossa alma, não ao corpo material, como se fosse comida física para nutrir o corpo. Ele nutre a alma de forma espiritual.

Não há nada que substitua Jesus em nossa vida, e por isso, o Corpus Christi é o momento de mostrar isso, pois celebrar essa verdade de Cristo não é inventar outra coisa para o lugar de Cristo, mas trazê-lo à memória, ao espírito, ao coração, e adorá-lo.

Nas celebrações da eucaristia sabemos que Jesus está no céu, ressuscitado, sentado à direita do Pai.

Jesus está mesmo no nosso coração, e não somente nos símbolos. Mas, os símbolos não contém nada que os torne proibidos. Aliás, a eucaristia é o sacramento que traz a realidade que Jesus quis ensinar quando instituiu esse sacramento. O sacramento não é somente símbolo, como um crucifixo, uma imagem, uma medalha, uma pintura. No sacramento a Palavra transmite o que significa.

Muito bom o reconhecimento do pastor, ao final da pregação, de que nós católicos temos muito respeito e reverência nas celebrações da eucaristia, servindo de exemplo para os protestantes.

Para os que querem melhor conhecer a doutrina católica, leiam a Bíblia e o Catecismo. Alguns artigos aqui ajudam. Procurem páginas de apologética católica.

Então, ficou melhor explicado sobre o significado de Corpus Christi, sobre a mastigação ou não da hóstia, sobre a memória que é feita na celebração, sobre a presença real e não somente metafórica, pois real, espiritual é também literal, sobre o modo dessa presença como sacramento, sobre a fonte para participar bem do sacramento, que é a fé, em Jesus, no nosso coração e a confissão com nossa boca, o sentido das metáforas e a verdade da eucaristia na frase: Isto é o meu corpo.

Espero que isso ajude a entender melhor a eucaristia.

Gledson Meireles.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

A mudança de nome: Simão recebe o nome de Pedro

No debate histórico que houve entre o padre Leonel Franca e o pastor Lysâneas, em obras de grande valor e importância apologética, foi tratada a questão da mudança de nome do apóstolo Simão para Pedro. No presente tópico será avaliada a questão, analisando os dados que os dois debatedores apresentaram.

O pastor Lysâneas afirma que o padre Leonel denota não ser versado na Bíblia, não a conhecendo bem, porque não sabe que Deus mudou mais quatro vezes o nome de pessoas, como o de Sara, Salomão e Tiago e João, nas passagens de Gênesis 17, 15; 2 Samuel 12, 25 e Marcos 3, 17. E ainda, que esses exemplos não significam que foi dada a essas pessoas a chefia sobre outras.

Explicando a mudança do nome de Jacó para Israel, o pastor afirma que não há qualquer paralelo dessa passagem com a da mudança de nome de Simão para Pedro. Então, afirma que Jacó teve o nome mudado, enquanto que o de Pedro foi apenas um acréscimo, um sobrenome, e não houve mudança. Esse argumento, respondo com maior detalhe na resposta ao livro A história não contada de Pedro.

E qual o motivo das mudanças de nomes? O pastor afirma que são as promessas de Deus, a indicação de vocações, a mudança de vida, a posição, os emblemas de caráter e as novas condições. Poderíamos até usar essas palavras e dizer que realmente Simão está em novas condições quando Jesus diz que ele é agora Pedro. Mas, o pastor afirma apenas que o nome Pedro é para assinalar o traço de caráter de Simão.

Jesus chama Simão pelo nome várias vezes, e não lembra de denominá-lo Pedro, ou Cefas. Por quê? O pastor encontra nessas passagens a prova de que Jesus não mudou-lhe o nome e que também não quis dar a ele o sentido de chefia.

No entanto, vemos que essas passagens indicam algo muito curioso, pois nelas Simão está sempre em momento difícil, de queda, de fraqueza. Ao contrário, quando usa do nome Pedro, ou  nome sobrenome que o Senhor lhe dera, pois se foi nome ou sobrenome não há problema quanto a isso, esse aparece como líder, destemido, e possuído de força e autoridade. Parece mesmo a teologia bíblica afirmando que Simão é homem fraco, mas a graça de Deus o sustenta e ergue, como Pedro.

Agora, passemos a ver em pequeno resumo a resposta do padre Leonel aos argumentos do pastor.

Diante da resposta do pastor, o padre Leonel afirma que “baldam-se todas as tentativas sugeridas pelo antipetrinismo protestante”.

Afirma que o nome dado a Tiago e João tratou-se apenas de um apelido ocasional. A segunda coisa é que o nome foi dado a duas pessoas, e não é isso mudança de um nome pessoal.

Terceiro ponto, mais explicado, mostra que o nome Boanerges aparece somente uma vez. A Bíblia e a história da Igreja empregam os nomes Tiago e João, e não Boanerges.

O mesmo com o nome Jedidia, que somente uma vez é dado a Salomão. A Escritura não o chama de Jedidia em nenhum outro lugar.

E o caso de Sara, o padre afirma que não foi contado porque estava listando apenas os exemplos de mudança de nome masculino, e com isso prova que na edição de seu livro em 1928 troca o nome “pessoas” por “homens” para indicar estava tratando dessas mudanças acima referidas em relação a homens.

No entanto, ainda assim Sara tem certa autoridade ao lado do patriarca Abraão, e o nome dado a ele indica, de certa forma, uma prerrogativa.

O pastor afirmou que ao aplicar os critérios bíblicos nesse quesito das mudanças de nome de Sara, Tiago e João, logo verificar-se-ia o completo fracasso da explicação do padre Leonel.

No entanto, o que se viu foi a grandiosa resposta e refutação do padre Leonel, mostrando o que significa mudanças de nomes, o motivo de não ter contado com os exemplos que o pastor indicou e o significado do nome de Pedro. Foi uma grande defesa da verdade. Para mais, leia a Resposta ao livro A história não contada de Pedro, que contém muitos detalhes.

Gledson Meireles.

sábado, 22 de maio de 2021

Livre agência?

A visão calvinista de que a livre agência é a liberdade que homens e mulheres têm para fazer o que querem, mas que em última instância todas as suas ações são determinadas, é problemática.

Gledson Meireles.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Documento da CNBB sobre o Ecumenismo e o diálogo católico-pentecostal

A CNBB publica documento que orienta para a formação sobre o Ecumenismo e o diálogo católico-pentecostal. Ótima live, nesse vídeo explicativo. O Vade mecum foi escrito com base nas experiências relativas ao tema.

Gledson Meireles.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Passagens bíblicas referentes à virgem Maria

O Salmo 69 é messiânico. Isso significa que ele trata da Pessoa de Cristo, do Messias. Dessa forma, podemos aprender muito de Jesus ao ler esse Salmo. No entanto, é preciso entender uma coisa básica, e que é esquecida por muitos teólogos protestantes.

A questão é que por ser um salmo messiânico, isso não quer dizer que todas as afirmações contidas em cada verso do Salmo se aplicam a Cristo. De fato, são apenas algumas porções do texto sagrado que referem-se a Jesus, e não o salmo inteiro.

Para ficar mais claro, basta ler o verso 2, e verá que não fala de Jesus: Salvai-me, ó Deus porque as águas me vão submergir. Só uma interpretação bastante metafórica pode ver alguma aplicação para a vida de Jesus nesse verso.

O verso 3 diz: Estou imerso num abismo de lodo, no qual não há onde firmar o pé. Vim a dar em águas profundas, encontrem-me as ondas.

O verso 6 é ainda mais enfático: Vós conheceis, ó Deus, a minha insipiência, e minhas faltas não vos são ocultas. Jesus não era insipiente, não tinha faltas. Portanto, esse verso absolutamente nada tem a ver com Jesus Cristo.

Da mesma forma, tantos outros versos não se aplicam a Jesus. Como o verso 9, que diz: Tornei-me um estranho para meus irmãos, um desconhecido para os filhos de minha mãe. Jesus foi incompreendido por Seus parentes, chamados “irmãos” nos evangelhos, mas não tornou-Se desconhecido deles.

Também, esses não eram filhos de Maria, que só teve um filho, Jesus. Por essa razão, o Novo Testamento não usa esse verso para falar de Jesus, nem mesmo quando São João escreve, no capítulo 7, que os irmãos de Jesus não criam nEle. Seria hora apropriada de lembrar uma profecia, se essa fosse relativa a Cristo, mas não era. O motivo do versículo não ser aplicado a Jesus nos evangelhos é notório: Jesus era filho único.

Interessante, que o verso 10 é usado por São João para falar de Cristo: É que o zelo de vossa casa me consumiu, e os insultos dos que vos ultrajam caíram sobre mim.

Assim, quando os protestantes lembram-se dessa passagem para aplicar a Cristo estão fazendo algo que o contexto bíblico não permite fazer.

Outra questão importante é que a teologia bíblica faz aplicações de passagens de uma porção da Escritura a determinada pessoa, sem necessidade de que o contexto original esteja conectado a isso.

Com isso em mente, temos que os padres da Igreja interpretam várias passagens bíblicas como referentes a Maria, e à Igreja de forma geral, segundo o modelo bíblico referido acima. É o fundamento bíblico posto em prática pelos intérpretes da Igreja.

Dessa forma, os Cânticos 4, 7 falam de Maria. “És toda bela minha amada, e não há mancha em ti.

Essa passagem fala da Igreja, conforme Efésio 5, 27, pois Deus purifica a Igreja e a levará à total santidade para entrar no céu. No entanto, há uma pessoa feminina na qual a passagem tomou forma e cumpriu-se: a virgem Maria. Ela é toda bela, amada de Deus, e não há mancha nela. Ou seja, não há pecado. Por isso a imaculada conceição.

Como a Igreja será toda pura, não terá pecado quando estiver para sempre no céu, Maria já recebeu a graça desde sua criação.

Isso não quer dizer que todas as passagens dos Cânticos dos Cânticos devem falar de Maria, nem que todos os versículos do capítulo 4 devem falar de Maria, mas que essa verdade aí contida, no verso 7, é uma verdade espiritual que aplica-se perfeitamente a ela. É assim que se faz teologia.

Gledson Meireles.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

A predestinação de Maria

A Igreja vê na figura de Maria aquilo que será realizado em toda a Igreja. Ela é santa, pura, sem ruga nem mancha. Assim será a Igreja, como ensina Efésios 5, 27. Escolhida desde a eternidade para ser mãe de Jesus, porque os decretos de Deus incluíam a encarnação do verbo. Ele nasceu da mulher (Gálatas 4,4). Por isso, quando se fala da Sabedoria nos Provérbios 8, 22-23, a Igreja volta seu pensamento também à virgem Maria, que estava no plano divino. É uma aplicação feita ao contemplar a eternidade de Jesus Cristo, prevendo a encarnação.

Muitos não sabendo dessa profunda teologia, pensam que a Igreja está atribuindo a Maria as coisas da Sabedoria divina, que é Cristo, em Provérbios e outras passagens. No entanto, não é isso o que ocorre. A teologia católica sabe muito bem distinguir essas coisas. É Cristo o Verbo, o Filho, a Segunda Pessoa de Deus. No entanto, ao saber da Sua encarnação, a figura de Maria é vislumbrada desde a eternidade, para ser o canal por onde o Salvador iria vir ao mundo. E lê-se essa verdade nas passagens que tratam de Cristo.

Assim, ler Provérbios 8, 22 tendo em mente a virgem Maria é reconhecer a predestinação de Maria desde tempos eternos, quando Cristo acompanhava o Pai, e era a Palavra do Pai, criando o mundo. Entender a aplicação dos textos da Bíblia que falam de Cristo à pessoa de Maria é entender a profundidade da Palavra de Deus.

Maria precedeu as criaturas no pensamento de Deus. Ela não existiu antes de todos, não estava na eternidade, não veio antes de todas as criaturas, não foi criada antes, mas na ordenação das coisas relativas à salvação, da obra de redenção de Jesus Cristo, a virgem Maria estava no pensamento de Deus, assim como Cristo encarnado. Maria era aquela que iria ser a mãe do Verbo encarnado. Assim, ela precedeu as criaturas, não na existência, mas nos planos eterno de Deus. Cristo é o Primogênito de toda criatura, como nos ensina Colossenses 1, 15, e Maria é a primogênita no sentido acima esclarecido, juntamente com Cristo. É em união com Jesus que entendemos o papel de Maria.

Todas as criaturas foram predestinadas por Deus, previstas de antemão, desde os tempos da eternidade, e com isso em mente, entendemos que Deus predestinou aquela que formaria com Cristo a nova humanidade, redimida por Seu sangue.

Gledson Meireles.

domingo, 2 de maio de 2021

O culto à virgem Maria é vontade de Deus

Para muitos, especialmente nos dias de hoje, o culto de Maria é pecaminoso, errado, supérfluo, indiferente e etc. Há os que demonizam a atitude de cultuar Maria. Outros veem isso como expressão de pensamento e atitude pueris, como falta de conhecimento teológico, algo que Deus não levaria em conta por causa da infantilidade dos fieis, se esses realmente querem fazer Sua vontade santa.

Mas, na verdade, a Igreja desde seus primórdios, encontrou no culto à mãe de Jesus, por esse meio, uma fonte de santificação e de união com Deus. O Senhor Deus deseja que essa união com Maria seja fundada na nossa união com Jesus Cristo. O cristão tem notavelmente um apreço religioso por Maria.

Deus em Sua eterna Sabedoria pensou em criar o mundo e todas as suas criaturas, e vendo no Seu eterno plano de Salvação a encarnação do Verbo, vislumbrou a criação de uma criatura pela qual desceria à terra o Filho do Altíssimo.

Por essa razão, a primeira criatura no olhar de Deus foi a virgem Maria, antes de Adão, antes de Eva, e de todos os seres criados, por ter sido incluída no plano de salvar a raça decaída, como mãe do Salvador. Pensada de maneira especial por Deus, pois dela nasceria o Salvador da Humanidade.

É por isso que Maria está sempre no culto cristão, como uma peça que eleva nossos olhares a Deus e O glorifica.

Deus fez de Maria a primeira fiel, a primeira a crer em Cristo, a primeira membro da Igreja. Cristãos, todos, adoremos a Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e tenhamos em nossos corações, o amor que Cristo teve por Sua mãe, quando viveu submisso a ela, como bom filho, honrando-a e respeitando-a.

Por tudo isso, o culto de Maria está intrinsecamente ligado à fé cristã. É parte inseparável do patrimônio cristão. É conforme a vontade de Deus.

Gledson Meireles.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Santos e canonização

No artigo que pode ser acessado aqui, é feita uma crítica ao conceito de santidade no Catolicismo, como se o mesmo fosse diferente do conceito correto. De fato, o artigo é inócuo no que tange a isso. O que segue abaixo deve servir para melhor entender o que é a canonização e o que entendemos por ser santo.

Não é por obras que se alcança o céu, mas sem elas dificilmente se chega lá. É óbvio que Madre Teresa de Calcutá tinha a fé em Cristo como Salvador, e sua vida estava apenas mostrando que ela vivia a fé que tinha. Portanto, o processo de canonização tem a ver com a questão da vida de obras em união com a fé.

Por isso, o pastor Natanael concorda que sem a santificação não se vê a face de Deus.

A Madre Teresa era serva de Deus em Cristo, conforme João 14, 6.

Ela cria em Jesus como salvador, conforme João 5, 24 e Atos 4, 12

Ela era testemunha de Jesus nos lugares onde vivia, com virtudes heroicas, conforme Atos 1, 8 e Marcos 10, 32-33.

Ela santificava sua vida, conforme Hebreus 10, 10

Ela era santa, no sentido de separada para servir a Cristo (conforme os textos citados de Rm 1.7; ICo 1.2; ICo 6.2; Ef 5.3; Ef 5.27; Fp 4.21; IPe 1.16), mas em sentido mais estrito, foi santa e deixou um exemplo a ser seguido, de forma muito expressiva, e é isso que a canonização significa.

Santos somos todos nós, cristãos que estão na graça de Cristo, mas ainda imperfeitos, até que atinjamos o fim da caminhada na terra. No céu, todos são aperfeiçoados por Cristo. Portanto, os santos do céu são modelos de fé para nós e perfeitos por não terem mais pecado, e muitos são exemplos de vida, por terem vivido heroicamente com a graça de Deus contra o pecado.

Se alguém conhece o evangelho e a verdadeira história da Igreja Católica, saberá que santo não é somente os que são canonizados (isso é desconhecimento da doutrina católica), mas santos são os que estão no céu. Milhares de milhares, incontáveis, são santos e não estão canonizados para o nosso conhecimento.

Ainda, santo não significa impecável na terra (somos santos, mas ainda pecadores). Os santos são os que são perfeitos por terem chegado ao céu e estão servindo a Deus por toda a eternidade. No céu não podem mais pecar, completaram a sua jornada, foram feitos santos.

E, por fim, santo é geralmente alegre, pois vive a alegria da salvação, muitas vezes é divertido e sempre sorridente, como o era São Felipe Neri.

Assim, pegando o exemplo de São Felipe Neri, ele fez como Jesus, gostava das crianças, vivia em ambientes simples e pobres, participava de festividades, como o autor do artigo fala citando atitudes do Senhor Jesus. Tudo isso é encontrado nos santos de alguma forma.

O que o artigo tentou passar foi, entre outras coisas, que o conceito de santidade no catolicismo estaria equivocado, e o sentido da palavra santo distorcido. O que ficou claro, no entanto, é que as críticas não afetam nem a superfície da doutrina, pois critica praticamente o conceito derivado dos meios administrativos, diríamos, que a Igreja dispõe para identificar uma pessoa santa de modo a propor como modelo e exemplo aos fieis cristãos, para ajudá-los na sua vida diária e seguimento de Jesus. Nada atingiu da verdadeira doutrina católica sobre a santidade.

Gledson Meireles.

terça-feira, 23 de março de 2021

A salvação é obra de Deus: comentando um capítulo do livro A Soberania Banida

Refutação ao capítulo 5 do livro A Soberania Banida, R. K. McGregor Wright. A doutrina de Charles Spurgeon.

Deus salva pecadores. O que Spurgeon quis ensinar com essa frase? É óbvio que a mesma não tem todas as informações sobre o que uma determinada corrente teológica ensina ou não, já que ninguém nega a afirmação de que é Deus quem salva os pecadores. Por isso é preciso destrinchar o que o teólogo protestante realmente desejou ensinar com essa afirmação.

A afirmação de que Deus quis salvar alguns dos pecadores que estavam cativos do pecado originado por Adão e Eva não explica muito. De certo, pode já vislumbrar a diferença essencial entre a doutrina católica e a protestante calvinista nesse quesito. Deus intenciona salvar “alguns” dos pecadores, pois o calvinismo, como está sendo tratado aqui, afirma que a cruz não foi para todos.

Até mesmo a afirmação de Wright, de que “Deus interfere na história” para salvar, é um tanto difícil para a doutrina calvinista, pois parece, com essa fraseologia ortodoxa, ter a história como algo autônomo e que Deus passa em determinado momento a intervir no processo histórico, o que não é o que o calvinismo ensina. Mais abaixo veremos outra frase que respira ares ortodoxos.

De fato, quem fez e colocou a história em processo? Daí deve-se dizer que a própria pergunta já naufraga em seu início quando pretende explicar a doutrina reformada nos termos que a mesma de fato não se sustenta, mas pretende sustentar. E é necessário que assim o faça para manter o discurso ortodoxo.

Nesse ponto, a doutrina católica não encontra dificuldades em afirmar ao mesmo tempo que Deus é o Autor da história e que interfere nela para salvar, como é plenamente certa de que Deus salva pecadores, por pura graça, sem ter que explicar esse palavreado perante a crítica como a que se pretende aqui.

A doutrina arminiana tem lá os seus motivos e respostas para a crítica de que o pecador tem neutralidade de resposta ao evangelho. A doutrina católica, como já visto em outros artigos, não está presa a essa dificuldade, e a supera tranquilamente, e pode não ter que tratar dessa questão quando tudo está bem entendido.

A doutrina reformada ensina que Deus faz tudo para a salvação, sendo passiva toda ação do homem nesse aspecto. Os que são salvos são “obrigados” a entrar na salvação. Embora essa seja uma palavra forte, e que parece dizer realmente o que o calvinismo está ensinando, ela está contida nas críticas à doutrina reformada, e tem dela a devida resposta de que Deus não obriga a ninguém contra a vontade a ser salvo, mas que move a vontade a aceitar de bom grado.

Ainda, além de realçar esse aspecto da doutrina calvinista, a parábola citada de Lucas 14, 21.23, contem a mensagem de que os convidados não são salvos. Obviamente dirão que muitos dos convidados possuem apenas o chamado geral, e não o eficaz, e por isso não foram admitidos à festa. Na verdade, aqueles convidados não foram para a festa porque não quiseram, diz o Evangelho de Jesus, e o convite é idêntico, àquele feito aos demais, ou seja, para o mesmo lugar, para a mesma festa, o que torna a posição reformada defeituosa nessa explicação. Deve-se admitir que Deus faz o convite a todos, mas muitos o rejeitam, como aqueles judeus do tempo de Jesus o fizeram.

Enfim, para contrastar a salvação dos gentios, Jesus utiliza a palavra obrigar, para falar do convite à festa, para deixar clara a gravidade da recusa da salvação feita por muitos, e a desfeita que fizeram a Deus.

De fato, não se deve entender cada palavra da parábola literalmente, porque doutro modo diríamos que Deus salva por ira, e ainda que salva muitos por ainda sobrar espaço no céu e para que outros, os que foram convidados primeiro, não entrem. Isso porque a parábola afirma que o servo saiu e levou muitas pessoas para a festa e avisou ao patrão que ainda havia lugar. Nisso, o senhor ordenou que o servo buscasse mais pessoas e enchesse a casa, obrigando todos a entrar. Ainda, haveria espaço para outro mal-entendido, como se os pobres, aleijados, cegos e coxos, e menos ainda, os que vivam entre caminhos e atalhos, não estivessem no primeiro convite! Obviamente não é esse o sentido da parábola, mas se deve fazer essas reflexões para que não se tome uma palavra qualquer e a torne prova para uma doutrina. Por isso, quando se diz que o senhor mandou o servo “obrigar” a entrar na festa, entenda-se o quadro da parábola literalmente, para somente depois entendermos o sentido espiritual dela.

Outros problemas para a teologia reformada haveria se fizéssemos maiores comparações com a parábola no evangelho de São Mateus 22, 1-14, onde os convidados não foram dignos, e, depois da segunda onda de convidados, um deles entrou na festa e não estava com a veste nupcial, sem contar os “maus e bons” que foram convidados .

Voltando à parábola em Lucas 14, tudo isso está no contexto da ira do senhor pela desfeita daqueles primeiros convidados. Essa parábola está ilustrando o amor de Deus em salvar, convidando a todos, mas recebendo a recusa ao seu convite.

Outra passagem muito usada pela teologia reformada, contra o livre-arbítrio, é a de João 15, 16, que Wright afirma não ter resposta da parte arminiana.

Mas, eis que a seguir, mais uma linguagem de Wright soa bem católica, quando diz que Deus “faz o que é necessário para vencer o eleito”. Essa é a frase aludida antes, que tem ares de doutrina católica.

De fato, Deus chama o pecador, estende o Seu poderoso braço para salvar, dá toda a força ao pecador para agarrar em Sua misericordiosa mão salvadora. Mas, muitos não querem. O eleito é pecador, e está agindo contra a revelação de salvação, mas Deus faz de tudo para salvá-lo. No entanto, o que o calvinismo ensina é que mesmo aquela radical aversão à salvação é parte do plano de Deus, para os não-eleitos, e para os eleitos até determinado tempo, o que não faz sentido a ação de Deus para vencer o coração pecaminoso do homem.

A interpretação de 2 Pedro 1, 10, pelo autor reformado, é de que não devemos fazer segura a nossa salvação, mas que devemos nos tornar seguros dela, da vocação e eleição. Ou seja, o crente não deve fazer certa a sua salvação de algum modo, mas já está salvo, e deve estar certo dessa realidade já confirmada.

Vejamos a passagem inteira, para vermos se podemos concordar ou não com essa explicação, e se nesse texto o calvinismo tem ou não alguma base.

Para isso, como de costume, como é correto, como é a verdadeira exegese bíblica, seguindo os dados da sã hermenêutica, não podemos nos esquecer do contexto, principalmente do contexto imediato, aquele mais próximo, que circunda o texto bíblico em apreço.

Então, vejamos que o verso 3 ensina que Deus deu-nos tudo que contribui para nossa vida e piedade, e nos faz conhecê-Lo, que nos chamou através de Sua glória e virtude. Fomos chamados pela glória e virtude de Deus, e recebemos o poder de Deus para O conhecermos.

Assim, entramos nas posses espirituais, para nos afastarmos da corrupção do mundo (v. 4). Aí, no verso 5, há o esforço do cristão, para unir à fé a virtude, etc., para que assim os cristão não fiquem inativos e sem frutos. Ou seja, há uma atividade do crente para garantir que eles sejam ativos e praticantes dos frutos do evangelho. Isso está nos versos 4-8.

A seguir, o v. 9 afirma que sem essas coisas o cristão é míope e cego e esqueceu-se da purificação dos seus pecados. E então? Ele continua bem espiritualmente, continua salvo e com garantia eterna da salvação, ou há algum problema quanto a isso? Vejamos o que segue na Palavra de Deus.

O v. 10 exorta a assegurar a vocação e eleição. Isso concorda com a lembrança, aludida no verso anterior, de que devemos ter sempre a vocação e eleição divinas, da purificação dos nossos pecados. Até aqui, nada há que possa desabonar a tentativa reformada de garantir a sua intepretação da graça contra o livre-arbítrio nessa passagem. Mas, ela continua assim: “Procedendo desse modo, não tropeçareis jamais.” Então, o verso 12 coroa essa verdade: “Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino”.

Isso significa que a lembrança da salvação deve estar presente segundo tudo o que foi dito antes: na vida de uma fé ativa e cheia de frutos, para não tropeçar, ou seja, para não pecar, e então será aberta a porta do céu. Vigilância sempre, como está no verso 13. E os cristãos que estavam recebendo aquela carta estavam instruídos e confirmados (v. 12), estavam vivendo retamente. Dessa forma, a passagem não diz que o ato de estar seguros da salvação recebida é o que importa aos cristãos, em contraste com o conceito de tornar segura a salvação, de forma que os cristãos estavam salvos para sempre, mas, ao contrário, que devemos ser obedientes, para participar da natureza divina, ficando longe das corrupções do mundo, esforçando na fé e outras virtudes, praticando as boas obras (porque quem não tiver essas coisas (cf. v. 8) não está reconhecendo a salvação) e assim assegurar a salvação e eleição, da forma ensinada nos versos anteriores, para que agindo assim não caiamos em pecado e tenhamos a porta do céu aberta.

De fato, o conceito de perseverança em resposta do livre-arbítrio à graça recebida de Deus para a salvação está em toda a passagem, assim como a ideia de que é possível tropeçar e perder essa entrada no Reino. Por tudo isso, essas admoestações são necessárias (vv. 13-15). É o evangelho que a santa Igreja Católica anuncia.

Os reformados poderão dizer que a perseverança, os esforços santos dos eleitos, as admoestações, e etc., já estão no plano de salvação, são resultado da eleição, e que isso não nega o que foi dito da gratuidade da salvação.

O problema é que a passagem bíblica não diz isso, mas deixa o crente com o temor de tropeçar. O verdadeiro reformado tem o temor de tropeçar, mas não de perder a salvação, enquanto que o texto bíblico admoesta sobre o temor de tropeçar e não ter aberta a porta do Reino, ou seja, a perda da salvação, se não agirem da forma como foi exposta. O problema é profundo para a teologia calvinista, abordada por Wright, e o autor não pode negar essa conclusão.

Gledson Meireles.