sábado, 25 de dezembro de 2021

O Cristão Reformado: estudo sobre a perseverança dos santos

 A Perseverança dos Santos

Essa é a parte da doutrina cristã católica das mais difíceis e mais interessantes de estudar. É muito comentada no Protestantismo, especialmente nos círculos reformados, que, para fins de maior conhecimento, são aqueles que surgiram da influência do reformador protestante João Calvino.

Para entender a perseverança dos santos é necessário ter uma boa compreensão da fé cristã, como foi apresentada enquanto se fazia a análise de cada ponto nos capítulos precedentes que tratam do que os reformados chamam de doutrinas da graça. Aqui serão considerados todos os argumentos apresentados nas obras básicas que estão servindo para o presente estudo. E o melhor é que estão sendo avaliados pela autoridade da Bíblia.

A doutrina da perseverança dos santos é bíblica. Santo Agostinho escreveu uma obra tratando do assunto. Santo Agostinho era bispo, viveu no século quarto e início do quinto, e foi um dos maiores teólogos da Igreja.

A perseverança dos santos tornou-se assunto muito comum a partir da Reforma Protestante, quando se discute o tema da eleição e predestinação.

Neste artigo, serão estudadas as passagens que tratam da perseverança dos santos, com o intuito de levar o conhecimento dessa doutrina a tantos que a conhecem por vias não tão puras, como é o da linha reformada. De fato, os reformados conhecem muito da questão, mas sua posição carece de correções. E também o artigo destina-se àqueles que não são familiarizados com esse lindo ensino, para que cresçam na fé em Jesus nosso Senhor.

Não é fácil convencer alguém nas coisas de Deus. Além da graça e dos auxílios do Espírito Santo, é necessária uma abertura da pessoa. Obstáculos para crer são inúmeros. Um deles pode ser a certeza. A absoluta certeza de que a explicação reformada da doutrina da perseverança dos santos está correta, o leitor não abrirá a mente para posições discordantes. Se você crê que a doutrina reformada está correta neste ponto, você não vai estar aberto às argumentações que serão apresentadas aqui, e não compreenderá o todo. É importante esta abertura da mente para o estudo.

Nem mesmo poderá surgir a simples curiosidade para ler um artigo contendo outra interpretação sobre o assunto. Menos ainda a vontade de estudar o tema com outras lentes. Ainda mais, se o escrito for longo. A cada argumento vem à mente alguma resposta pronta já aprendida, que muitas vezes faz parar o raciocínio, como se o mesmo já estivesse encerrado, e a solução já encontrada. Assim, um reformado não gastará tempo em leituras cuidadosas de fontes que discordam da sua posição. Isso serve geralmente para quaisquer assuntos e vertentes. O cristão arminiano dificilmente terá o prazer em debruçar-se numa obra reformada, passando o tempo em julgar cada argumento contrastando as opiniões. O cristão calvinista talvez tenha maior dificuldade para isso, mas no mínimo não terá deleite em dispor-se a leituras arminianas. Talvez para um estudo com fins apologéticos, etc. Nada além disso. Se for uma fonte católica, a coisa fica ainda pior. É prontamente deixada de lado. Pode até ser que haja uma leitura, com receios, claro, mas já é certo, ou muito provável, que inicia-se a leitura com a convicção de que ali não há qualquer contribuição em termos de correção doutrinal, mas que sirva apenas para ser refutada, tendo como base as doutrinas cristãs fundamentais, e de orientação reformada.

A doutrina da perseverança é ensinada pelos reformados de modo mais sistematizado, contando com definições de sínodos, com confissões, catecismos e grande número de obras especializadas. Mas há também os protestantes que não creem em quaisquer documentos eclesiásticos, negando a tradição da Igreja, de forma a serem adeptos do Nuda Scriptura, que significa a Escritura sozinha, sem qualquer intérprete a não ser o crente, e não do Sola Scriptura, onde a Escritura é a única fonte infalível de fé e prática, mas que entra em relação com a tradição da Igreja, aceita definições conciliares, credos etc.

Para muitos dos protestantes daquela persuasão, onde há somente a Bíblia e o crente, a perseverança dos santos chega a ser ensinada como estando absolutamente sob a responsabilidade divina, de forma que o salvo não poderia de qualquer forma perder a salvação, através de quaisquer pecados, mas apenas ser disciplinado, até mesmo com a morte como castigo de Deus, mas nunca com a perdição. Isso significa que o suposto “salvo” possivelmente poderia pecar tão gravemente, e morrer sem arrependimento, e ainda assim seria “salvo”. Ninguém crê que os defensores dessa doutrina estejam explicitamente pregando o pecado ou a licença para o pecado, mas que por buscarem exaltar a glória de Deus, através dessa doutrina, chegam ao ponto absurdo como foi mostrado acima.

Não é isso que o cristão reformado histórico acredita. Logo cedo, os reformadores aceitaram o valor das obas obras na vida do crente. Então, não poderiam ensinar algo dessa natureza. Ainda menos as confissões que resumem o ensino reformado predominante, autorizado, legítimo. Reconhecem a necessidade da santificação. Por isso, ainda que algum protestante encontre suas justificativas na Bíblia para pensar contra as decisões doutrinais das outras denominações, ou talvez da própria denominação, é bastante claro que esse está mais longe da fé e comportamento bíblicos esperados dos cristãos católicos diante da autoridade da Igreja do que o cristão reformado fiel à tradição da Reforma.


 

Introdução á teologia bíblica da perseverança dos salvos

Compreendendo e crendo a verdade da doutrina da perseverança dos santos, estudemos um pouco os textos usados para formular essa doutrina. E enquanto lemos a Escritura alguns pontos da doutrina reformada serão corrigidos pelos próprios textos bíblicos.

Comecemos pela leitura de Jeremias 3, 1-5. Nessa passagem o profeta anuncia a volta de Israel, de sua parte remanescente dispersa. O verso 3 afirma do “amor eterno” de Deus como causa da graça em favor de Israel. Essa passagem revela que Deus tem amor eterno pelo Seu povo, não podendo esse conceito ser aplicado ainda à perseverança dos santos em particular, já que o capítulo anterior versa sobre o povo de Israel: “Eu te reconstruirei, e será restaurada, ó virgem de Israel” (v. 4), “a multidão que há de voltar” (v. 8), com todos os indivíduos que estavam sendo reunidos novamente.

Se o texto serve para mostrar que desde a eternidade Deus já exerceu amor pelo homem, não há o que objetar. Não pode, porém, afirmar que todos ali fossem eternamente salvos, mas que foram salvos no sentido de serem libertados daquela circunstância de dispersão do povo eleito. Tratava-se de uma salvação temporal. Se o texto fala do amor que elege, o que é verdade, esse está voltado para a eleição do povo, em sentido corporativo. E se está direcionado ao povo, está no sentido de bênçãos ainda temporais, e não trata da salvação eterna de cada indivíduo.

Por isso, esse texto apenas ressalta o amor de Deus desde a eternidade, em relação ao Seu povo.  A ideia de que somente Deus atua na perseverança dos salvos, preservando-os para nunca caírem para sempre, tem raízes em leituras de texto já do Antigo Testamento, como esse, e o de Jeremias 31,3, mas tal não indica o que essa afirmação pretende estabelecer.

Quanto a usar o texto para entender o aspecto da eleição e do dom da perseverança final do cristão, não há o que objetar, já que em se tratando do salvo, que só o Senhor conhece, ele é amado por Deus e conta com a Sua graça, sendo a verdade que todos os cristãos devem crer. Assim, temos o entendimento contextual e encontramos também o sentido espiritual do verso em relação ao tema.

O mesmo significado está em Jeremias 32,4, quando o povo é prometido voltar e ter firmado o pacto eterno com o Senhor. No contexto trata-se do povo inteiro. Alguém pensará que nenhum membro do povo desobedecerá ao Senhor a ponto de vir a se perder?

Se o texto for usado com a ideia de que se refere somente aos eleitos, com especial atenção ao Novo Testamento, então servirá para entendermos a verdade da perseverança dos santos, mas não indicará mais que isso. Essa verdade pode ser lida em Jeremias 33,8, que fala da purificação de Judá e Israel: “Eu os purificarei de todos os pecados contra mim”.

Essas passagens não dizem que o povo persevera inteiramente, mas apenas revela a promessa de Deus. A passagem não mostra cada indivíduo que será alvo dessa bênção, mas revela a existência da mesma. A mesma verdade está em Ezequiel 11, 14-21. Essas coisas foram cumpridas na Nova Aliança, em Jesus, como ensina o livro de Hebreus. A essa altura, considerando o contexto dessas passagens, não há como formular uma doutrina de que seria impossível ao salvo perder a salvação, pelo falto de que esse teria recebido o coração novo do qual não poderia mais dispor! Mais adiante, vejamos se essas ideias são percebidas nas Escrituras, ou o que podemos pensar delas.

 

A perseverança dos santos nos evangelhos

O evangelho de Mateus, no capítulo 7, versículos 15-28, trata dos falsos profetas. O versos 21-23 relatam que muitos dirão a Jesus, no dia do juízo, de terem agido e feito milagres em Nome dEle, e ouvirão de Jesus a reprovação, de que nunca os conheceu.

Quem lê essa passagem verá que ela trata dos falsos profetas, que não têm testemunho cristão, pois são conhecidos pelos frutos (vv. 16-20), e que somente o “que ouve estas minhas palavras e as põe em prática” é um homem prudente, que construiu sobre a rocha”, e será salvo (v. 24). Aquele que ouve as palavras de Jesus e não as põe em prática, é como o imprudente que constrói sobre a areia, e será condenado (v. 27).

Ao invés de olhar para os versículos 21-23 como dizendo que aqueles foram condenados porque “nunca” foram conhecidos por Jesus, passando-se por verdadeiros crentes, mas faltando-lhes a eleição, ao invés de pensar nessa reprovação por pura ausência da graça eficaz para a perseverança, deve-se lê-la como o contexto todo exige e ensina. Jesus está exigindo frutos que vêm da obediência à Sua palavra. Os que não apresentaram aqueles frutos são ditos nunca terem sido conhecidos. Essa passagem toda está direcionada mais à responsabilidade do homem, que deve entrar pela porta estreita (v. 13), e andar pelo caminho da vida, pois “raros são os que o encontram” (v.14).

E aqueles foram falsos profetas e maus cristãos, são assim porque não foram predestinados? Esses que não entram pela porta estreita e não andam no caminho apertado, não o fazem porque não são chamados com a graça eficaz? Jesus não diz que poucos encontram o caminho porque não podem. O Senhor não diz isso, e seria muito arriscado afirmar tal coisa que o texto não afirma. Esse é um momento oportuno de prudente espera de elementos claros para formular a doutrina da perseverança. Não se pode afirmar que aqueles não entraram pela porta estreita porque não foram predestinados a isso.

Pelo contrário, ao chamar para entrar pela porta e caminho difíceis de entrar e percorrer, ao exortar a produzir frutos e ouvir e praticar a Palavra ouvida, Jesus mostra que a graça está sendo ofertada e o homem deve recebê-la, crer e obedecer, sem supor um decreto que exclui alguém desse convite. Essa passagem afirma sim, algo sobre a perseverança, mas daquela que nasce a partir da obediência à Palavra de Deus.

A essa altura alguém pensará que se está negando os decretos divinos, que a obediência vem antes da graça, e coisas assim. Nada disso. Pelo contrário, o que se está afirmando é que o evangelho supõe a liberdade, e por isso a responsabilidade, e que exige a obediência, supondo igualmente o poder de exercê-la. São coisas que os reformados não gostam. Mas, são coisas do evangelho. Você é livre e por isso é responsável, você deve guardar a lei porque tem capacidade para isso, com o auxílio da graça, é claro, eis as coisas que o reformado tem dificuldade para aceitar. E são ensinos evangélicos, ensinos racionais, nascidos e revelados pela Palavra de Deus, patentes na experiência, corroborados por cada pessoa que fizer o mínimo de reflexão sobre essa realidade.

Toda a responsabilidade que esse trecho do evangelho ensina evidencia fortemente o livre-arbítrio do homem para obedecer o chamado de Jesus. Outra passagem que fala do cuidado de Deus, para com o pecador, é o da ovelha perdida. A vontade de Deus é que não se perca nenhum dos pequeninos (Mateus 18, 10-14). A alegria por causa do pecador arrependido nessas passagens de Mateus e de Lucas 15, 3-10, mostra que Deus alegra-se com o homem que no uso do seu livre-arbítrio se converte. A graça o auxilia, a graça o prepara, a graça o antecede, a graça o torna capaz, a graça o chama.

Essa mesma verdade encontra-se na parábola do filho pródigo, que sai da casa paterna, usando seu livre-arbítrio, gasta sua herança em vida pecaminosa, depois se arrepende e volta para o pai, que o espera com amor e misericórdia. Em todas essas passagens Deus é mostrado como Aquele que deseja o arrependimento do pecador, e o homem é mostrado como possuindo livre-arbítrio para responder o chamado de Deus. De fato, o filho pródigo continuou na condição de filho, pois é impossível deixar a filiação, mas perdeu sua relação com o pai. Pelo pecado ele foi considerado novamente morto. Dessa forma, está provado que a relação com Deus é afetada pelo voluntário distanciamento do Senhor pelo pecado mortal.

Mas, arrependido, o filho volta para o pai e passa a viver novamente. Era filho, mas morreu espiritualmente, sendo então ressuscitado espiritualmente. Foi livre para deixar a relação com o pai e livre para voltar, enquanto o pai o esperava. Esse cenário não deixa espaço para aquelas comparações que os reformados tão bem conseguem fazer, quando mostram Deus indo em busca do pecador e o atraindo a Si, pois nesse trecho sagrado do evangelho é o filho que toma a decisão, ao passo que o pai está sempre à espera do filho amado. É a outra face da moeda, tão verdadeira e real quanto a outra. Deus atrai e o homem é livre para ir ou não ir. É um exemplo da soberania divina e do livre-arbítrio humano provado pelas Escrituras. Tudo enfatiza a graça e o livre-arbítrio juntos. E nessa passagem o pai não vai atrás do filho. É o filho que volta, o pai espera.

Sabemos que esse amor do Pai que espera o filho voltar é a Sua graça que acompanha aquele filho ingrato e pecador. Mas, ao mesmo tempo, é a liberdade do filho ao ver sua miserável situação de pecado, ao lembrar-se do amor do Pai e da vida de felicidade na casa paterna, que o faz voltar. É a graça e o livre-arbítrio em misteriosa atuação. Se há um lugar de tensão e de mistério sobre essa relação de liberdade e graça, esse é um dos momentos que voltam a atenção para o segredo de Deus.

O ensino de que é possível cair em pecado, de morrer espiritualmente e de voltar a viver pela graça do arrependimento e do perdão, encontra-se na doutrina católica, mas não na doutrina reformada. A própria razão de Deus alegrar-se pelo pecador que se converte, como os anjos do céu também o fazem alegrando-se, é uma verdade que salta aos olhos sobre a livre resposta do homem à graça. O homem é livre para responder, livre também para negar a graça, podendo perdê-la pelo pecado. Há passagens que revelam a eleição, mas disso não se pode afirmar a eleição certa de todos, como se a mesma fosse conhecida por todos.

Esse ponto é de extrema importância. Na mente de Deus tudo é claro é sem dificuldades, mas para o homem há muitos mistérios. Deus conhece os eleitos, conhece a sua jornada inteira, mas o homem não tem nem mesmo a absoluta certeza da sua eleição. Ainda, não é somente o fato de que o desconhecimento de certas coisas relativas à perseverança que deve se reconhecido pelo cristão, mas também o fato de que há a graça da conversão mesmo naqueles que não alcançarão a graça da perseverança. Essa verdade será realçada durante o estudo.

Em Lucas 22,32 Jesus ora pela fé de Pedro. No verso 21 temos que Satanás pediu para acabar com a fé dos apóstolos, e Jesus ora por Pedro, pois ele era o chefe, cabeça ou representante federal dos apóstolos. Pela fé de Pedro os outros foram confirmados. Jesus fez isso porque é possível a perda da fé. Ele não pediria por algo impossível de ocorrer. Ao invés de provar que não era possível a perda da fé, a realidade da oração pela fé prova que essa pode ser atacada e perdida. A oração do Senhor é poderosa, e como pedimos a Ele que aumente a nossa fé, é a nossa liberdade que está aberta à graça pedindo que Ele não nos deixe afastar-nos dEle. De novo, isso é livre-arbítrio e graça.

Pensar em termos de perseverança a partir de Lucas 22,32, seria esperar que nenhum apóstolo, nem mesmo Pedro pudesse cair.  Mas, a oração de Jesus mostra o contrário. Pensar que Deus ouve a oração de Jesus e por isso eles não caíram, torna necessário ter em mente tudo o que foi explicado acima.

A oração de Jesus em João 17, especialmente o verso 20, que refere-se a todos os que crerão em Jesus, também deve ser entendida no contexto da liberdade do homem, pois há quem creia e depois venha a negar a fé. Alguém poderá objetar que o filho pródigo foi embora mas voltou, e necessariamente todos os eleitos poderão cair mas infalivelmente voltarão à graça. Essa leitura pretende ir além do que a passagem permite. É uma inferência gratuita. E as passagens que falam da perda da graça servirão para iluminar essa verdade.

Jesus em todo o contexto fala dos que guardam a palavra de Deus (v. 6). João 3,36 fala daquele que crê como já possuindo a vida eterna, e do que não crê com já estando condenado. Isso não significa que não haja mais mudança entre o que crê e o que não crê, como se não houvesse jeito de descrer ou de chegar a crer. O que o texto afirma é incisivo da presente situação daquele que tem fé e do que não tem. É uma exortação a todos. Aliás, é uma admoestação exigente dirigida a todos.

Um texto bastante usado também para a perseverança dos santos é João 10. No entanto, deve-se prestar atenção nas palavras de Jesus, pois Ele afirma que Suas ovelhas O ouvem (v. 3), seguem-No e não seguem o estranho (vv. 4.5).

É óbvio que pensar em alguém seguindo a Jesus não comporta a ideia de Jesus mesmo afastar essa pessoa dEle. Ela está unida a Cristo e não pode ter senão as benesses da graça.

Contudo, pode-se pensar que se a ovelha deixar de ouvir e seguir a Jesus, e sair do seu rebanho, essa não usufruirá da graça. É chamada ao aprisco, mas voltará a ele se atender o chamado, como acontece na parábola do filho pródigo. É necessário entender a questão usando as duas parábolas a fim de ficar mais esclarecido.

Logo mais adiante, no evangelho de João, há um texto fácil para o cristão católico, mas de dificuldade extrema para o cristão reformado. Trata-se de João 15, 1-5. Jesus é a videira, e Deus Pai o agricultor. O ramo que está na videira, que é Jesus, não dá fruto, e esse é cortado. Os outros ramos, que já deram frutos, são “podados”, tratados para que possam dar mais frutos. Esse é um texto mais claro, que pode iluminar alguns dos anteriores. Mas, alguns o veem como mais obscuro.

Existe a interpretação de que o ramo não estava na videira, mas parecia estar. O problema é que o ramo foi cortado, porque era ramo da videira. E o motivo único foi não ter dado fruto. Não se poda uma árvore aparentemente, nem se tira galhos que parecem estar nela, mas a poda se refere ao real tratamento da planta, onde ramos seus são tirados.

A graça de Deus é a base para que se produzam frutos. Isso é simbolizado pelo permanecer na videira e ser tratado pelo Pai. Ainda assim, alguns ramos não dão frutos, e são tirados. Isso está conforme a leitura presente em todas as outras passagens anteriores, que mostram a graça de Deus e o livre-arbítrio do homem respondendo à graça, mostrando a possibilidade de estar com Cristo e deixar a Cristo. Recebe os benefícios da oração de Cristo aquele que permanece com Cristo. Aquele que ouve a palavra de Jesus e crê em Deus Pai, esse encontra “a vida eterna e não incorre em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5,24). Esse é o novo nascimento em Jesus Cristo.

Jesus fala mais adiante aos ouvintes que “não tendes a sua palavra permanente em vós, pois não credes naquele que ele enviou” (João 5, 38). O versículo 24 fala da fé em Jesus e em Deus Pai, enquanto que o versículo 38 apresenta a fé no Pai e no Filho. Então, no versículo 40 temos: “E vós não quereis vir a mim para que tenhais a vida...”. Eles não creem em Jesus, e isso implica em não terem a palavra do Pai, o que redunda em não quererem ir a Jesus. Isso é o que fica claro em João 6, 64-65, pois o que não crê não pode ir a Cristo.

A Palavra de Deus é que ensina, por meio dela Deus ensina, e quem for instruído vai a Cristo (João 6,45). Os judeus conheciam a Escritura, mas Jesus afirma que a palavra não estava neles, pois não criam nEle (João 5, 37-40). Jesus “sabia quis eram os que não criam e quem o havia de trair”. Ele não causava a incredulidade, mas sabia dela. Deus não havia determinado que eles não iriam crer, mas sabia que eles não iriam crer. Por isso dizia: “Ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lho for concedido”.

A possiblidade de retirar-se de Jesus está na pergunta que Ele faz aos doze (João 6,66). A verdade é que somente um apóstolo se retirou, não naquele momento, mas na última ceia, ainda que fosse escolhido, mas não é menos verdade que essa possibilidade inclui-se na pergunta como nas passagens já estudada, constituindo um ensino bíblico.

Santo Agostinho fala do ensino secreto de Deus no coração que faz atrair o eleito. Não são todos que recebem esse ensino, e é um mistério o motivo pelo qual não o recebem. Isso certamente está assentado sobre a seguinte verdade: se todos os homens são igualmente pecadores, e somente a graça capacita o homem a ir a Deus, como pode que alguns vão a Cristo e outros não?

As palavras de Santo Agostinho aqui podem ser explicadas como que há um mistério do motivo que Deus todo-poderoso, o Soberano Senhor, não converte aquela alma, e porque a liberdade dela, vendo a grandiosidade e o amor e bondade de Deus, não se converte, de modo que essa tensão não seja totalmente compreendida por nós.

Para Calvino a questão é justamente outra. Ele compreende que o mistério é o motivo de Deus não ter decretado que os demais se salvem, por que Ele quis que eles fossem condenados. Essa questão não é a mesma da anterior, que foi posta por Santo Agostinho. Assim, a doutrina católica admite que há mistério, como a reformada também, sendo diverso o ponto em que o mistério se encontra.

A resposta que nos vem ao ler o texto seria que, uma vez que os que são ensinados pelo Pai vão a Cristo, então nem todos seriam ensinados pelo Pai. O motivo disso estaria envolto em mistério. Desse modo, o que está sendo considerado por Santo Agostinho é a graça eficaz dada aos eleitos. Não se trata da graça suficiente dada a todos, como fica claro no ensino geral. As duas espécies de graça são ensinos do evangelho.

Vemos assim, como visto, que há algo diverso entre o ensino agostiniano e o calvinista. Enquanto para Santo Agostinho era mistério que uns fossem atraídos e outros não, ou seja, por que uns vão a Cristo e outros não, como sendo a mesma realidade, ou melhor, o mistério está no motivo de Deus não atrair e no motivo do livre-arbítrio da criatura não ceder, enquanto que para Calvino esse mistério é deslocado para outro lugar. Os calvinistas creem que o mistério é o motivo de Deus decretar a salvação de uns enquanto deixa outros caminharem para a perdição. Esse parece ser um momento para refletir.

O ensino de João 10,26-28 é lido pelos reformados como impossibilidade de condenação. Essa característica constitui, porém, um condicional. As ovelhas não podem ser tiradas da mão de Cristo e de Deus Pai, a não ser que a própria ovelha o deixe. E essa possibilidade encontra-se no ensino bíblico, de forma geral, como pode ser visto na parábola da videira, onde a produção de frutos não é apenas parte da santificação, sem ligação com a salvação, mas uma necessidade absoluta da vida do cristão, que se assim não for assim, ele morre espiritualmente sendo desligado de Jesus.

Santo Agostinho fala do início da fé, do dom da perseverança até o fim, da vida que tem perigo de cair, e que o dom da perseverança é impossível de ser conhecido enquanto há vida. Como saber se alguém teve o dom se ele não perseverou?

 

O ensino das epístolas

Em Romanos 5,6-10 ensina-se que já justificados seremos salvos da ira, pois já reconciliados, seremos salvos pela vida de Cristo. O capítulo 6 traz a questão do pecado. E no verso 21 afirma-se que o fruto da santidade tem o resultado da vida eterna.

A mesma doutrina encontra-se no capítulo 8,1, pois quem está em Cristo não incorre em condenação. Esse verso e aqueles do final do capítulo servem para a teologia reformada concluir seu ensino de que é impossível perder a salvação. Para isso, incluem o pecado, a carne, entendendo que o salvo não pode mais voltar ao estado de vida em pecado.

O interessante, porém, é que das coisas que podem afastar do amor de Deus, não é elencado o pecado. Vejamos: a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada (v. 35), a morte, a vida, os anjos, os principados, o presente, o futuro, as potestades, as alturas, os abismos, ou outra criatura (v. 37).

Muitos contrastes encontram-se nessas categorias para realçar a verdade de que nada pode separar-nos do amor de Deus, a não ser o pecado. Em outras palavras, a Escritura não diz que o pecado não possa afastar de Deus, mas o contrário, que o pecado é sim algo que afasta de Deus. Essa conclusão não é da doutrina reformada, mas é da doutrina bíblica.

De fato, no mesmo capítulo, essa verdade é ensinada. O verso 4 afirma que não vivemos segundo a carne, mas segundo o espírito. O verso 5, tratando os que ainda não estão regenerados, afirma que os que vivem na carne gostam do que é carnal, e o verso 6 afirma que “aspiração da carne é a morte”, e “não podem agradar a Deus”.

Há quem pense apenas na morte física, e que mesmo sem agradar a Deus o predestinado será salvo (cf. Romanos 11,32). No entanto, não é à morte física que essa passagem se refere, já que mais adiante a espada e a morte são coisas que não podem separar o fiel do amor de Deus, ao passo que nesse verso a morte é uma penalidade. A palavra morte em uma passagem tem conceito diferente da outra, sendo uma a morte natural e a outra a morte espiritual. Essa é a leitura do que está nos versos 5, 12, 13, e outros. A morte é contraposta à vida eterna. Não se trata da morte temporal, mas da eterna, assim como não se refere à vida física, mas à eterna. É então que nos versos 12 e 13 a Escritura ensina a condição para ser salvo: “De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis.”  Essa morte e essa vida não é temporal.

Para entender melhor, basta seguir o ensino dos versos seguintes, 14 a 17. A condução através do Espírito Santo, que conduz os filhos, que são herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo, “contando que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados”, é um condicional. O texto ensina a possibilidade dos salvos cairem pelas obras da carne, e apresenta um condicional para chegar à glória.

Isso quer dizer que os que vivem na carne estão caminhando para a condenação, e o apóstolo dirige-se aos cristãos salvos. Dessa forma, textos como Efésios 1, 3-14 falam do Espírito Santo em nós como penhor da salvação, conquanto o cristão não viva segundo a carne.

Igual verdade está no ensino de Efésios 4, 17-5,5, que trata da conduta cristã. O verso 30, muito lembrado nessa questão da perseverança dos santos, e está no meio da argumentação e exortação de São Paulo, afirma: “Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o qual estais selados para o dia da Redenção”. O cristão deve viver a vida nova, revestir-se do homem novo, e não entristecer o Espírito. Essas palavras não significam que esse selo não possa ser quebrado por nada, inclusive pelo pecado. Pelo contrário, ao fim dessa seção que trata do comportamento digno do cristão, afirma o motivo das repreensões: “Porque sabei-o bem: nenhum dissoluto, ou impuro, ou avarento – verdadeiros idólatras! – terá herança no Reino de Cristo e de Deus”. (Efésio 5,5)

Em Ef 4,17 foi citada a impureza, o verso 22 insta sobre o despojamento do homem velho, o v. 24 manda revestir-se do homem novo, o v. 25 ensina a renunciar à mentira, o v. 26 a controlar a cólera para não pecar, o v. 28 exorta a deixar o roubo e trabalhar, o v. 29 a deixar palavras más, e o 30 não entristecer o Espírito, porque quem faz tudo isso não entrará no Reino. Não há como afirmar que o pecado não pode engendrar condenação, pois tudo o que é pecado aí está atrelado ao fato de que se assim continuar impedirá de entrar no Reino de Deus.

Em Efésios 6,15 está escrito: “Vigiai, pois, com cuidado sobre a vossa conduta”. A ideia é contrária àquela da teologia reformada, que supõe que nada disso muda o estado de graça do cristão, não sendo possível perder o Espírito Santo, por exemplo. Isso é importante para não cair no erro já denunciado dos que pensam na possibilidade do salvo morrer em pecado e ainda ser salvo. Pelo contrário, após tantas admoestações, aos santos, afirma que quem pratica tais coisas estará condenado.

Não teria sentido tantas palavras se isso não fosse possível. Não se trata de retórica vazia, apenas para instigar, fortalecer, proporcionar motivos de renovação espiritual, se tudo o que fosse dito não fosse realmente possível.

Em Filipenses há a mesma doutrina. Os versículos 10 e 11 falam do conservar-se puros par ao dia de Cristo, “cheios de frutos de justiça que provêm de Jesus Cristo”, que são as obras feitas na fé.

Quatro versículos antes, no verso 6, escreveu o apóstolo: “Estou persuadido de que aquele que iniciou em vós esta obra excelente lhe dará o acabamento até o dia de Jesus Cristo”. Fala isso por causa do testemunho que os cristãos filipenses davam, desde o início. Será que tais palavras significam que os crentes não podem perder a graça da salvação e vida eterna? O verso fala “desta obra excelente” que Deus vai dar acabamento. Que obra é essa? Leia o versículo anterior, o v. 5, e verá: “recordando-me da cooperação que haveis dado na difusão do Evangelho, desde o primeiro dia até agora.”

E o v. 6: “Estou persuadido de que aquele que iniciou em vós esta obra excelente...”. Portanto, a obra é a difusão do evangelho, e não a salvação individual que não poderia ser perdida, já que os versículos seguintes instam em continuar nas boas obras, a proceder dignamente (v. 27). Não se trata de dizer que todos devem viver em contínua busca pelas boas obras e obediência e ao mesmo tempo afirmar que a salvação não pode ser perdida. Isso seria uma contradição na própria passagem. São Paulo está ensinando que os filipenses são modelos de conduta cristã, exemplos na evangelização, e que Deus tem poder de levar esse ministério de pregação do evangelho até o fim.

O apóstolo continua a tratar da importância das obras na salvação, chegando ao capítulo 2, verso 16: “a ostentar a palavra da vida. Dessa forma, no dia de Cristo, sentirei alegria em não ter ocorrido em vão, em não ter trabalhado em vão.” O apóstolo tinha certeza que Deus levaria a obra de pregação do evangelho até o fim, mas pedia graças para que os cristãos continuassem na obediência, para que seu trabalho não fosse em vão. Essa duas noções não podem ser confundidas.

O Senhor tem poder para conservar o crente salvo até o dia de Cristo, pois Ele é fiel. (cf. 1 Ts 5,23-24). Nenhum cristão nega isso. Lembre-se, porém, que o homem pode cair na infidelidade, enquanto a fidelidade de Deus permanece (cf. 2 Tm 2,13). Quanto ao depósito que São Paulo menciona em 2 Timóteo 1,12, trata-se da doutrina do Evangelho. Dessa forma, ele manda guardar o depósito, no verso 13, que é a obra de Deus, tratada acima.

Em 2 Timóteo 4, 18 o apóstolo fala da sua salvação. Essa revelação é importante, mas nem todos têm a certeza absoluta de que isso acontecerá. Temos sim, uma certeza moral, de que estamos em Cristo, confiamos na Sua misericórdia, e isso nos basta. O ensino bíblico encontrado em 1 Pedro 1, 3-5 é importante, já que toda a epístola também exorta à obediência. O apóstolo fala da misericórdia de Deus, que nos fez renascer por meio de Jesus Cristo, para uma viva esperança. Não se trata de certeza, mas de esperança. É aquela que fornece a certeza moral do salvo, não de que tudo o que acontecer não mudará o estado do salvo diante de Deus. Essa certeza é baseada na esperança da vida eterna, e espera humildemente em Deus, tendo em mente a possibilidade baseada na fraqueza humana. A “herança incorruptível, incontaminável e imarcescível” está nos céus. Esperamos essa herança. Assim, há uma certeza, mas não absoluta.

Então, o verso 5, afirma que somos guardados pelo poder do Espírito, por causa da fé. Esse ponto é importante. Ele corrobora tudo o que foi dito, pois a graça de Deus para a perseverança final tem em consideração a fé, que é um entrelaçamento com o dom de Deus. O texto fala da salvação última, que ainda será manifestada. O salvo é guardado através da fé (dia, que pode ser traduzido por, através, por causa de, mediante a).

De alguma forma, a fé está sendo considerada para a guarda do salvo, por isso é importante a obediência, para que não se negue a fé pelas más obras. O cristão reformado não terá problemas em ler isso, já que a fé é um dom, e Deus está guardando o salvo mediante a fé que é o instrumento para que receba a salvação. Não há o que objetar quanto a isso.

Deve-se apenas considerar que essa fé pode sofrer variação de forma a afetar a relação com Deus, ou diretamente ou pela vida de desobediência. É por isso que a fé é provada, no verso 7. Se não fosse possível perdê-la, como dom unicamente preservado por Deus, não haveria motivo de testar esse dom. Por isso, no versículo 17 está escrito: “Se invocais como Pai aquele que, sem distinção de pessoas, julga cada um segundo as suas obras, vivei com temos durante o tempo da vossa peregrinação”. Esse temor não existe verdadeiramente junto com a crença de que é impossível deixar de perseverar definitivamente. Portanto, a doutrina reformada possui a certeza e ensina o temor, sendo que a certeza desfaz esse temor, e assim, sem refletir nessa contradição, afirma duas coisas juntas, mantendo o palavreado e negando o sentido o mesmo.

A passagem trata do temor do salvo diante do juízo de Deus, que avaliará as obras. Não existe a ideia da impossibilidade de viver novamente no pecado. Quando São João afirma que “o que é nascido de Deus não peca, porque o germe divino reside nele; e não pode pecar, porque nasceu de Deus”, não significa que tudo o que fizer não o fará cair na vida de pecado.

De fato, no início da carta o apóstolo escreve sobre quem professa seguir a Jesus: “aquele que afirma permanecer nele deve também viver como ele viveu”. (1 João 1,6) Todos os salvos tem pecado, mas Deus perdoa quando o crente reconhece seu pecado. O que 1 João 3,9 quer dizer é que não pode pecar gravemente, a ponto de perder a graça, aquele que nasceu de Deus. Não é uma incapacidade, mas uma improbabilidade.

Enquanto o salvo mantem a semente da graça, mas pode cair pelo abuso do livre-arbítrio. É justamente isso que a teologia reformada não reconhece. Essa ideia seria colocar o livre-arbítrio como mais poderoso que a graça, ou deixar de olhar para a soberania de Deus e voltar-se para o homem. Mas, não é isso que a Bíblia afirma. A graça e o dom de Deus estão certos, mas o homem é constantemente exortado a permanecer na graça, pois pode dela se afastar.

Em Romanos 11,20-22 afirma que pela falta de fé pode o salvo ser cortado da oliveira, se não permanecer fiel à bondade de Deus. 1 Coríntios 9,27 fala da possibilidade de ser “excluído” após ter pregado o evangelho aos outros, como em 1 Cor 10,12 exorta a quem pensa estar de pé, tome cuidado para não cair.

O contexto fala do pecado de idolatria, de impureza e de tentar e murmurar contra Deus. (1 Cor 10, 6-10) São exemplos para os cristãos (v. 11), que devem ser vigilantes para não cair nessas coisas.

A passagem é clara que se refere a cair nos pecados descritos. E, logo após, afirma que Deus não deixa que sejamos tentados acima das nossas forças. Deus é fiel e dará meios de suportar e sair da tentação (vv. 12-13). Novamente há o entrelaçamento da graça e do livre-arbítrio. O homem pode cair, mas se isso acontecer, a culpa será inteiramente sua, pois Deus dá a graça, os meios e a força para livrá-lo.

O contexto é claro, e não indica que a queda nesses pecados seja impossível, como todos devem reconhecer, mas também não ensina que o homem sempre será reerguido. Não impossibilita cair na vida de pecado. A promessa fiel de Deus permanece, assim como a possibilidade do homem de cair e não voltar. A tentação não será invencível, mas o homem pode deixá-la vencer. O nascido de novo não pode pecar enquanto estiver na graça. Pode, porém, deixar essa graça.

Isso explica as constantes admoestações que o mesmo apóstolo fornece contra o pecado. Deus pode guardar o salvo de “toda queda” (Judas 1,24), mas não impossibilitá-lo de cair, se ele consentir. É certo, porém, que o dom da perseverança final é alcançado por todos aqueles que seguem as instruções de Deus, como está na mesma carta, no verso 20: “...edificai-vos mutuamente sobre o fundamento da vossa santíssima fé”, e “Conservai-vos no amor de Deus, aguardando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna.”

Aquele que conserva a fé e o amor em Cristo estará guardado pelo poder de Deus para a vida eterna. Por meio dos textos comentados acima, foi feita a refutação da doutrina Reformada quanto a determinados pontos da perseverança dos santos.

 

Outras passagens difíceis para o cristão reformado

Se os textos estudados anteriormente já mostram que há possibilidade de cair da graça, de voltar ao pecado e perder a salvação, esses outros textos continuarão a afirmar a mesma doutrina.

Como os argumentos reformados foram refutados nos textos que eles pensaram ser a base para sua doutrina, os demais servirão de comprovação de que a mesma doutrina é corroborada.

É necessário que alguns princípios sejam assumidos para entender a questão da perseverança dos santos. A Escritura usa constantemente de alertas para os cristãos permanecerem na fé. Também apresenta os condicionais importantes quando trata da salvação. “Se fizer isso, então...”.

A doutrina reformada explica que essas admoestações são usadas por Deus para que permaneçamos na fé, mostrando os perigos de abandonar a fé e de nos manter na salvação. E conclui que isso não quer dizer que a salvação pode ser perdida. Em outras palavras, Deus nos manteria na salvação ameaçando tirá-la, apesar de isso não ser possível, e que essa impossibilidade deve ser crida pelo cristão. Essa proposição encerra contradição, como já explicada acima. Uma coisa acreditada como impossível de ocorrer não geraria temor.

A passagem de Gálatas 5, 1-12 é enfática em mostrar a verdade de que é possível perder a salvação. Isso já está provado nas passagens estudadas, mas é útil analisar essa passagem da epístola aso gálatas também.

Ela inicia com o ensino da liberdade cristã. Os cristãos não devem submeter-se novamente ao jugo da escravidão (v. 1). Então, essa volta constitui uma possibilidade.

Assim, o verso 2 afirma: “Eis que eu, Paulo, vos declaro: se vos circuncidardes, de nada vos servirá Cristo”. Ou seja, se o cristão submeter-se à circuncisão e à Lei, Cristo será inútil para ele. Poderia alguém ser salvo fora de Cristo? Se o único salvador é Cristo, então ele será condenado. A passagem é clara. Mas continuemos.

O verso 4: “Já estais separados de Cristo vós que procurais a justificação pela Lei. Decaíste da graça.” Além de usar diretamente a expressão decair da graça, afirma que quem procura a justificação pela Lei já está separado de Cristo.

Lembremos que a fé em Cristo já é a posse da vida eterna, enquanto a descrença é a condenação. Por isso, afirma essa instantaneidade do resultado da posição dos judaizantes. O verso 6 afirma que é útil somente a fé que opera pela caridade. Desse modo, o verso 7 é muito importante, porque afirma: “Corríeis bem.” Isso significa que os cristãos estavam firmes na fé.

E continua: “Quem, pois, vos cortou os passos para não obedecerdes à verdade?”. Essa passagem mostra que outra doutrina estava sendo introduzida. Trata-se de uma heresia. Isso está conforme Gálatas 1, 6, que diz que os cristãos gálatas estavam passando a outro evangelho. Perde-se o sentido da passagem quando se afirma que ela trata de doutrina sem implicações salvíficas. Portanto, está refutada a interpretação reformada.

 

A certeza da salvação

A doutrina reformada ensina de forma categórica e com ênfase maior a certeza da salvação do crente. Ainda assim, afirma que o crente pode, às vezes, enfrentar dúvidas e tristeza quanto à sua salvação. Como pode isso ocorrer, se a fé na salvação é certa, e a doutrina reformada afirma a impossibilidade do crente ser condenado?

De fato, a única base para que um crente reformado tem para justificar sua crise de fé quanto à salvação é a incerteza quanto à sua eleição. De fato, segundo a doutrina reformada um não-eleito pode passar temporariamente como um verdadeiro crente, antes de apostatar. Isso mostra o principal motivo para que a dúvida pudesse surgir.

A doutrina católica é superior nessa questão. De fato, ensina a esperança da salvação, que é uma certeza moral de que Deus nos salvará, e nos dará o dom da perseverança final. No entanto, não é absolutamente possível saber que o fiel estará nesse estado de fidelidade em todos os momentos e por toda a vida, o que pode dar lugar a incerteza e crises quanto à salvação em algum momento.

Dessa forma, o remédio para a alma que o cristão católico tem para vencer o perigo da perda da salvação é não colocar o medo de cair acima da firme esperança em Deus que pode nos salvar, pois é Ele o Salvador, e pode nos manter firmes até aquele dia.

Portanto, quando o cristão reformado tem qualquer incerteza nesse quesito, isso se dá porque ele pode fraquejar na certeza quanto a estar no número dos eleitos, enquanto que o cristão católico pode enfrentar o mesmo problema, porém, o motivo se dá quando olha para sua própria fraqueza.

Dessa forma, o problema é comum a ambos, e a solução é a mesma para ambos. O que fica patente é a superioridade da explicação católica, que não apenas faz sentido, mas está conforme os cânones da doutrina bíblica.

O reformado deve persuadir-se de fazer parte dos eleitos, que seria em número limitado quanto ao propósito de Deus, e deve procurar em si sinais da eleição, que seria um meio de afastar sua crise, e exercer a fé no salvador, que é certamente o sinal mais importante. Entretanto, o católico deve entregar-se à misericórdia divina para que essa não permita que ele caia da graça, pois a fé na expiação de Cristo por ele é incontestável, crer e confiar em Jesus, pois tem certeza de que Jesus Cristo morreu por ele, e desconfia apenas de si mesmo, de sua própria debilidade, confiando antes no poder soberano de Deus.

Gledson Meireles.

sábado, 18 de dezembro de 2021

Desceu à mansão dos mortos: um estudo sobre a descida de Jesus ao mundo dos mortos considerando alguns argumentos de dois autores

A respeito do vídeo “Jesus pregou para os mortos?”, do pastor e arqueólogo adventista Rodrigo Silva.

Ele apresenta de forma concisa, e bastante clara, as interpretações que existem a respeito da passagem da epístola de São Pedro 3,18ss, depois apresenta sua interpretação.

Refere-se ao que é “aparentemente reforçado” em 1 Pedro 4, 6, sobre a pregação de Jesus às almas dos mortos.

A interpretação adventista é de que Cristo pregou através do Seu espírito aos rebeldes pecadores no tempo de Noé. Estaria tratando de um evento passado, do Antigo Testamento, e não do tempo em que Cristo esteve na terra.

Já escrevi extensa resposta sobre esse texto sagrado, e aqui vou considerar alguns argumentos do pastor Rodrigo.

Ele diz, por exemplo, a partir de Tiago 2, 26, que não há como pregar sem o corpo: “Se o corpo sem espírito é morto (não tem o que fazer) como que Cristo, sem o corpo, poderia pregar em espírito. Não faz sentido!”. A resposta adventista seria: somente em corpo, vivo.

Mas, tal raciocínio já está preso no paradigma adventista de que não é possível o espírito sobreviver sem o corpo. No entanto, a Bíblia diz o contrário, que não é possível o corpo sobreviver sem o espírito. Deve-se portanto entender os que ocorre com o espírito após a morte.

Outra questão é que o evangelho foi também pregado “a mortos”, e no dia do juízo Deus julgará “os vivos e os mortos”. O pastor argumenta no que juízo final não haverá nenhum morto, e, portanto, a passagem se refere a mortos espirituais. Os ímpios ressuscitados estariam vivos, mas mortos em pecado, e por isso o juízo aos mortos.

Esses dois argumentos não passam no escrutínio bíblico. Embora interessantes, e possam servir para outros contextos de estudo, não refuta que Cristo foi de fato pregar aos mortos.

A primeira prova de que essa interpretação acima não tem base bíblica é que a Bíblia ensina que Jesus padeceu na carne e foi vivificado no espírito. Isso se deu na paixão de Cristo na cruz, onde Ele morreu, mas sua alma foi vivificada pelo poder de Deus. Então Ele foi aos espíritos em prisão. Isso é o que ensina 1 Pedro 3, 18-19.

A outra prova de que a interpretação adventista está equivocada é que em 1 Pedro 4, 6 os que são mortos recebem o julgamento para viver, para serem salvos. Isso contradiz toda a argumentação do pr. Rodrigo.

E no juízo final todos estarão vivos, mas Cristo é juiz dos vivos e dos mortos porque a maioria da humanidade passará pela morte, exceto os que estiverem vivos no dia da vinda de Jesus. Assim, os mortos serão julgados quando ressuscitarem, e os vivos junto com eles naquele tempo. Ainda mais, Cristo passou pela morte para ser o juiz também dos mortos. Isso é o que ensina a Bíblia.

O estudo completo da passagem está aqui.

O artigo “Uma análise da expressão “desceu ao hades””, do pastor presbiteriano Heber Carlos de Campos estuda as visões católica, anglicana, luterana, anabatista, arminiana e calvinista quando à descida de Jesus ao hades.

O autor inicia afirmando que a expressão “desceu ao hades” com referência a Cristo – é uma expressão não encontrada nas Escrituras.

No entanto, deve-se já de antemão acervar, sabe-se que a alma de Cristo ficou no Hades, conforme Atos 2, 27, que diz que a carne não deixará a minha alma na região dos mortos e não permitirá que Ele conheça a corrupção. Não é necessária a existência da “expressão”, exceto para fins da filologia. Portanto, é inócua uma argumentação que parta desse princípio. E o artigo tomou tal ponto como parte do seu fundamento argumentativo. Em nota o autor explica que hades significa morte, ou seja, o mesmo que dizer que o termo deve ser traduzido por morte em Atos 2. Mas, o contexto dirime essa questão a ilumina todo o assunto.

As expressões “ad inferna” e “ad inferos” referem-se a essa verdade bíblica e teológica. Se não fazia parte “do texto” original do credo, é uma explicação da doutrina bíblica, bastando para isso que se leia Atos 2, 27.

A expressão “desceu aos infernos” é apena uma substituição de “foi sepultado”, e que as duas expressões usadas juntas não dá origem a “outra doutrina”, pelo exposto acima. Cristo morreu, seu corpo foi para o sepulcro e sua alma desceu ao hades, como está em Atos 2, 27.

O catecismo explica que a expressão desceu aos infernos tem a intenção de explicar que Cristo morreu verdadeiramente. O estudo da origem da inserção da frase não deve servir de empecilho para crermos que Jesus desceu à mansão dos mortos e esteve com as almas dos justos do Antigo Testamento. A frase pode ser do quarto século, mas sua doutrina é do primeiro.

A ideia de que Cristo desceu às regiões espirituais dos mortos é bíblica (Atos 2, 27; Ef 4, 8-9, 1 Pedro 3, 18-19; 1 Pedro 4, 6). Não se trata de um texto isolado, mas de um conjunto de passagens escriturísticas.

O que Witsius e J. N. D. Kelly observaram apenas confirma o entendimento antigo da doutrina. Até aqui, não há o que objetar contra a mesma em termos bíblicos e históricos. Os textos estão na esteira da explicação da doutrina.

No Ocidente, após santo Agostinho, tornou-se comum explicar 1 Pedro 3, 19 nessa parte do credo, segundo Kelly, citado pelo autor do artigo.

Então o autor acredita que a doutrina da “descida ao Hades” teve o intuito de reviver a doutrina pagã do Hades, o que não faz sentido pelo observado acima. A afirmação é equivocada.

No paganismo, segundo o autor, o Hades é o inferno, enquanto que para os cristãos que começaram a ver 1 Pedro 3, 19 como explicação da frase “desceu ao Hades”, o Hades é também paraíso, ou seja, há o Paraíso e o Hades na composição do Hades, o que seria inconsistente.

Para responder a isso, o autor deve notar que a doutrina bíblica, que os cristãos seguem, não é idêntica à doutrina pagã, e que o termo Hades original, ainda que tenha essa coerência de inferno, apenas, não tem a ver com a cosmovisão cristã que se utiliza do mesmo termo, mas é diversa. Tendo isso em mente, deve-se entender o Hades no conceito bíblico, e não naquele do mundo grego.

Agora, a questão do Hades ser uma forma de explicar os sofrimentos da paixão e cruz, essa é outra história.

A explicação do autor de que os que estão no limbus patrum não são salvos pela graça mas não são réprobos, não parece ser exata. Na salvação tudo é pela graça, mesmo que antes do Novo Testamento. Assim, os salvos antes de Cristo foram salvos também por Cristo. É a explicação correta de que Jesus foi somente às almas dos justos.

A tradição anglicana com sua ideia de conquista pode ter sido passada para o imaginário católico, talvez, como afirma o autor das “modificações” trazidas para âmbito católico, mas não traz mudança de doutrina, deve ser observado.

A tradição radical contem docetismo, como afirma o autor, e pode ser descartada como parte da ortodoxia. Ela vai além do que a Bíblia afirma, com muita imaginação.

A explicação do Hades como inferno deste mundo também no âmbito da reforma radical, e não tem a ver com a doutrina católica. Outra boa observação deve ser feita aqui. Também há heresia de que os sofrimentos são “exemplos”, algo que não é conforme a doutrina católica.

A visão de Serveto é ainda menos bíblica.

A tradição luterana é essencialmente idêntica à católica.

A tradição arminiana é uma leitura da patrística, parece que sem uma definição, pelo que apresentou o autor.

A tradição reformada é uma leitura nova da questão, parecendo, segundo afirmações do autor, que não se crê entre os reformados que Cristo tenha espacialmente ido ao Hades.

Essa é a análise histórica da questão. Assim, a doutrina católica da descida à mansão dos mortos está totalmente de pé, fundamentada na Bíblia, e debatida entre os protestantes. Temos a visão católica, a visão da reforma, entre elas a radical, a arminiana, a luterana e a reformada. O autor está defendendo a reformada. Enquanto ele apresenta suas razões, façamos a análise de seus argumentos, respondendo-os com a autoridade das Escrituras, a Bíblia.

Então, agora na análise bíblica, o autor, que nega a descida de Jesus ao local do Hades, tenta refutar o que acredita ser um abuso do texto 1 Pedro 3, 18-20, que chama de “o mais usado e o mais abusado”.

Ele inicia tendo em consideração a teologia arminiana. Nessa seção o autor afirma que 1 Pedro 3, 19 tem interpretação que não favorece ligação com 1 Pedro 4, 6. Isso é estranho, pois ambas as afirmações bíblicas estão no mesmo contexto, apensas a poucos versículos de aproximação um do outro. Portanto, trata-se do mesmo assunto, do mesmo contexto, com ligação inegável.

O pensamento de que os antediluvianos se converteram antes da morte é uma “fantasiosa suposição” diz o autor. No entanto, não se pode negar isso por nenhum testemunho positivo. Pense nisso.

Sobre a pregação no hades, com citação de Clemente de Alexandria, e de autor arminiano, Ziethe, essa não tem base bíblica. A Bíblia diz, com o exemplo de Cristo, que o evangelho “foi” pregado, e não que está sendo pregado ou que será pregado aos espíritos em prisão. Ensinar essa nova ideia é ir contra a revelação bíblica.

Então, o autor passa a analisar os textos bíblicos, em consideração a argumentos arminianos.

O estudo é dividido entre histórica, teologia e bíblia.

O texto de Mateus 5, 26 é interpretação, segundo o autor, pelo comentarista F. W. Farrar, como proponente da evangelização no Hades. Então, o autor diz que se o evangelho liberta gratuitamente, quando se tem que pagar até o último centavo, isso encerra contradição. De fato. Então, a interpretação de Mateus 5, 26 não diz respeito à descida ao inferno, como de fato não diz mesmo, pois essa passagem sempre foi entendida como referente ao purgatório.

Exemplo aqui de um reformado analisando argumento de um erudito arminiano. O reformado tem razão nesse ponto, e mostra incoerência cometida um intérprete arminiano na exegese de um texto bíblico. (ver nota 63 sobre obra de hermenêutica)

Outro texto que “os pressupostos arminianos” levam a ser interpretado como ensinando o evangelho no Hades é o de Mateus 12, 31-32. O autor critica essa interpretação, com grande razão. De fato, na doutrina católica esse texto é também referente ao purgatório. Agora, aqui, em referência ao purgatório, o autor reformado não poderia refutar os argumentos. Prossigamos no acompanhamento das suas críticas aos argumentos arminianos.

A respeito de Mateus 11, 20-23 o raciocínio lógico realmente é feito no terreno das hipóteses, o que pode ser descartado.

Enfim, o autor afirma que “nem todos os arminianos” creem assim. Desse modo, ele mostra essas interpretações dessas passagens porque coadunam com o pensamento proveniente do arminianismo.

Passa, então, a analisar a posição da tradição luterana. Citando Scharlemann, mostra que a interpretação é estranha.

Não sendo consenso os detalhes dessa questão na tradição luterana, importante notar que Lutero, no fim da vida, interpretou 1 Pedro no sentido da descida de Cristo ao hades, e que portanto cria na imortalidade da alma. Isso fica patente pelo ano de edição de sua obra, 1545, e pelo reconhecimento desse fato por eruditos luteranos.

Interessante também é a observação do autor quanto à conceituação de Hades entre os luteranos. Para eles, o hades é o lugar da prisão, dos anjos e incrédulos. Cristo teria descido ao inferno com o corpo glorificado, como primeira etapa da sua exaltação.

A posição da tradição reformada agora é exposta pelo autor. O método de interpretação reformada tem em vista buscar exemplos em outros textos bíblicos para entender a passagem de 1 Pedro 3, 18-20. Portanto, não se servirá do texto de outros documentos, como do credo, para entender a doutrina.

Por isso, afirmando que a frase “desceu aos infernos” é do sétimo século, que antes disso pouca discussão havia sobre a doutrina, afirma que o ensino das Escrituras é que deve ser procurado para dirimir a questão.

E, com plena concordância de que o ensino bíblico geral é que define, prossigamos seguindo de perto os arrazoados do autor.

Então, começa afirmando que na teologia Reformada não há lugar para pensar que todos os mortos vão para o mesmo lugar, mas que uns vão para o inferno, sendo os condenados, e outros para o céu, os salvos. Isso está de acordo com a doutrina católica, que não ensina a existência do Seio de Abraão para os dias de hoje, já que Cristo o fechou, ao levar os salvos que lá estavam. Assim, em conclusão, o que a doutrina reformada afirma do céu e inferno está conforme a doutrina católica.

A explicação sobre “carne” e “espírito” em 1 Pedro 3, 18-20, com base em Romanos 1, 3-4, não parece ser de ajuda, já que em Romanos o Espírito Santo é que constitui Cristo, e em 1 Pedro é ao Espírito de Cristo que se está referindo. O Espírito de Cristo ali é a alma e divindade da Pessoa de Jesus, e não ao Espírito Santo. Também não é correto afirmar que se deva entender um “estado” da existência de Cristo, como se carne fosse um e espírito outro desse estado.

Quando o autor afirma que não há razão para entender morto na carne e vivificado no Espírito como duas partes do ser, “pois quem morre é o homem e quem ressuscita é o homem, não o corpo ou o espírito”, isso não é exato dizer em termos bíblicos, como mostram os estudos sobre a imortalidade da alma, feitos neste blog.

Quando o autor diz que Cristo subiu para o céu quando entregou o espírito, não está tendo em vista muito do que é estudado sobre a questão. Entregar o espírito no sentido de todos subirem ao céu não é exato afirmar sem um estudo anterior. Por isso, o leitor é convidado a ler os estudos sobre a imortalidade da alma.

Quando o autor interpreta “no qual”, que refere-se ao espírito de Cristo, nesse espírito, com base em 1 Pedro 1, 11, ele comete um erro exegético.

O autor afirma que o texto de 1 Pedro não fala de justos no hades nem de anjos na prisão, mas de pessoas que viveram nos tempos de Noé. Deve-se responder que o texto está explicando quem eram os espíritos em prisão. Ponto final.

Também é errôneo afirma que os salvos no Antigo Testamento foram para o céu, assim com no Novo. O autor cita Salmo 73, 23-24. Os textos que dizem que ninguém morto pode louvar o Senhor (cf. Sl 6,5-6) são bastante complicados para a doutrina reformada, diga-se de passagem.

Importante frisar que nesse particular a doutrina reformada diverge da doutrina católica, e contém modificações em suas expressões de fé, como no conceito de Hades, diferente em Heidelberg e em Westminster.

Por tudo o que foi dito, o leitor perceberá que a posição católica está fundamentada nas Escrituras.

Gledson Meireles.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Piper e o anti-calvinismo de Chesterton

John Piper disse que Chesterton não o desencoraja de ser calvinista. Por que o calvinista lê Chesterton e não se sente desencorajado? Por que John Piper sente que o melhor que Chesterton disse diz respeito ao calvinismo que o mesmo não conheceu?

Por que isso acontece? Por que pessoas enlouquecem quando levam as afirmações calvinistas até o último nível, segundo exemplo dado por Chesterton, enquanto que calvinistas praticamente concordam com os resultados dos raciocínios lógicos de sua leitura bíblica e ficam serenos e felizes com eles? Tudo isso está respondido nos artigos sobre a doutrina reformada, neste blog.

Piper afirma que o calvinismo é a maior árvore da Elfolândia, “o bastante para fazer com que todos os ramos paradoxais da Bíblia ganhem vida – e sacudirem de alegria na claridade da soberania de Deus”.

E quanto ao livre-arbítrio, suas palavras são essas: “a estranha e rija suposição de que, sem o direito à autodeterminação última”. A questão do livre-arbítrio está estudada com enorme precisão e profundidade nos artigos citados, capacitando o leitor a conhecer os motivos por que o calvinismo está equivocado e o porquê ele ainda convence as pessoas, como convence John Piper.

Para Piper, falando do calvinismo, “Esta é a árvore onde todos os ramos de todas as verdades que os homens têm tentado separar se desenvolvem.

E afirma que os calvinistas “não são regidos pela lógica, mas pela Bíblia”. Essa é também uma afirmação que é refutada nos artigos, quando a lógica calvinista é vista nos seu escrutínio bíblico, na exegese reformada, e analisada segundo a própria Bíblia. É onde o reformado fica em um beco sem saída.

Piper acredita que somente os calvinistas mantêm intactos e acolhe “todos” os “paradoxos” bíblicos. Nos artigos o leitor também verá o que é paradoxo e o que é contradição. E poderá ver o que a doutrina católica ensina sobre isso.

Piper exemplifica sobre o amor de Deus e a predestinação, afirmando que os não calvinistas apegam-se ao amor e rejeitam a predestinação, ou vão a favor da escolha humana e contra o governo de Deus, adotam a resistência humana e rejeitam a graça irresistível.

Por fim, podemos afirma que os católicos creem nos mistérios. Mas, o que são mistérios, e onde os mistérios estão? Quem ler os artigos sobre a doutrina católica verá que todas essas críticas de Piper não atingen a doutrina católica. Os católicos creem no amor de Deus e na predestinação, na liberdade real e no governo total de Deus, na resistência humana e na graça que resiste etc, etc. Com isso pode ser? Leiam os artigos!!! Isso não pode ser explicado em poucas palavras. Por caridade, tenham paciência em ler os textos.

Ainda, Piper diz: “Nós não ajustamos as categorias emblemáticas da Escritura para que caibam na razão humana.” Isso é mostrado nos artigos, e o que isso quer dizer, a que isso leva, e qual o problema do que está nessa afirmação.

As categorias que Piper diz que o calvinismo tenta criar na mente humana, como trabalho de Deus na mente, são essas: Deus governa e controla tudo e não peca, continuando santo. Deus governa todos os passos das pessoas e elas são responsáveis e serão punidas se não crerem em Cristo, todos estão mortos e não podem ir a Cristo e são responsáveis por vir a Cristo e serão punidos caso não forem, e etc. Tudo isso é estudado nos artigos que analisam a doutrina reformada. Isso é explicado nos artigos, caros leitores!

Mas, enfim, entendemos que os reformados vivem bem com sua doutrina, a menos que tentem desfazer-se dos seus problemas, como o estudo contido aqui aponta.

Gledson Meireles.

Com base no artigo de John Piper, em: https://www.desiringgod.org/articles/the-sovereign-god-of-elfland.

 

 

domingo, 5 de dezembro de 2021

Entenda melhor a doutrina católica da soberania de Deus: uma reflexão sobre isso e outras coisas a partir das palavras de Chesterton

Alguém já ouviu falar de Chesterton? E de Calvnismo Chestertoniano? É possível que as críticas de Chesterton ao calvinismo sejam respondidas?

Chesterton escreveu que é uma falácia afirmar que a Igreja Católica é uma igreja. Qual o sentido de igreja criticado aí?

Hoje, a falta de cultura, o problema em entender o que se lê, as desinformação ou a confusão de informações, dificulta a leitura de obras mais profundas. É certo que poucos entendem o que Chesterton quer dizer nessa passagem.

Chamar as igrejas da Reforma de seita seria uma ofensa pra muitos. Chesterton trata isso de forma não sentimental, vendo o que se pode afirmar objetivamente, historicamente. Talvez seja o mesmo que um documento oficial da Igreja Católica sobre essa questão queira afirmar quando chama das igrejas separadas de comunidades eclesiais e não propriamente igrejas.

Isso causou grande alvoroço entre muitos. Porém, pode ser que tenhamos que nos deter mais nessa questão para tirar maior proveito do que se está tentando transmitir. E o que se está transmitindo é, em sua acepção mais profunda, correto.

Quando Chesterton diz que o Império Romano é um Império historicamente reconhecido como Império e não como uma pequena nação, e faz, em comparação, a mesma afirmação de que a Igreja Romana é uma Igreja e não uma seita, com base histórica para isso, muitos irão concordar, mas há os que, por tudo, querem chamar a Igreja Católica de seita, no sentido que os reformadores quiseram, ao apontar os supostos “desvios” que o Catolicismo tenha feito para tornar-se seita.

No entanto, pensemos bem: a Igreja Católica realmente na história não pode ser uma seita. Quanto mais um historiador conhece a História, mas fica convencido de que a Igreja Católica nasceu por meio de Jesus Cristo. A Igreja Católica é a Igreja. Não uma igreja, mas a Igreja.

A questão teológica, também, está clara: o Catolicismo é realmente o Cristianismo original. Mas, nesse campo, há debates seculares, principalmente nos últimos cinco séculos, que podem e devem ser enfrentados. A verdade surge no choque das ideias.

Por isso, ao esfacelar-se o Cristianismo em muitas igrejas, ao longo da história, e principalmente a partir do décimo sexto século, não faz da igreja original uma das suas partes, a ponto de chamá-la seita no sentido histórico. A partir daí a mente pode galgar para lugares mais teológicos, que são os mais elevados, digamos.

Os protestantes são católicos que deram errado, é o que Chesterton pode averiguar. As doutrinas que o Protestantismo mantem e que tem fundamento, são todas católicas. Por exemplo, diz Chesterton, os calvinistas ficaram obcecados com a ideia católica da soberania de Deus. Ao ensinar que Deus quer que algumas pessoas sejam condenadas, com esse ensino torna-se o protestante um católico doente. Essa constatação de Chesterton, que não é aceita pelos calvinistas, é, mesmo assim, muito correta.

Uma doutrina católica é muito enfatizada por um protestante. Então, a partir dela, tira-se conclusões que a tornam diferente. Nasce aí o problema.

Neste blog estudei a doutrina reformada nessa questão, em sua centralidade, como fundamento da teologia reformada, e mostro com pormenores que os reformados ensinam a doutrina católica quase inteira nesse quesito, errando apenas em alguns pontos importantes. E, o leitor que quiser saber, deverá ler os artigos que mostram com detalhes esses pontos, onde eles acontecem. E nenhum reformado refutou os argumentos apresentados.

No tempo de Chesterton não se imaginava um novo renascimento dos Quackers, nem do Calvinismo como “fundador de um novo mundo Calvinista”, pois são eles, os Quackers e os Calvinistas, personagens da história católica.

Será que alguém pode pensar isso hoje? É a realidade da qual se está afastada a mente de tantos, talvez da maioria, o empecilho para entender essa questão. Uns por não conhecerem o mundo cristão por diversos motivos, outros por estarem alheios à história do Protestantismo nesse nível de profundidade, outros por terem adotado princípios que são irreais, que não condizem com a realidade histórica.

É possível chegar à verdade, mas muitos não querem. Isso mesmo, não querem. E esse querer não é o da superfície da mente, mas o do coração. É conhecido pela mente, pois os que não têm vontade de conhecer a verdade pensam que já a conhecem, e por isso tendem a negar ir além do que já sabem, sendo aí o ponto nevrálgico do sintoma da rejeição. Ou melhor dizendo, é algo que acontece muito frequentemente em qualquer campo do conhecimento humano. O homem deseja o bem e a felicidade, mas tende ao mal e ao erro que causa sofrimento.

Assim, temos que muitas e muitas vezes, a maioria esmagadora delas, o ser humano não quer pensar diferente daquilo que já pensa. Um exemplo muito oportuno para o assunto do qual se trata aqui é a posição calvinista diante da verdade católica.

Em uma palestra, um teólogo calvinista, aliás admirador de Chesterton, sobre o calvinismo chestertoniano, em um momento da palestra cita uma passagem de Chesterton onde ele aponta um escritor que ajudou a refutar o calvinismo. Nesse momento, em uma questão de segundos, e com grande facilidade, de forma jocosa, o palestrante revela o que foi explicado acima. De fato, ele diz que por esse motivo (ou seja, porque o autor é um adversário do calvinismo) ele (o palestrante) não quer conhecer esse autor!!!

É algo corriqueiro esse tipo de pensamento. Geralmente o ser humano não quer mudar de posição e evita lugares onde essa posição possa ser balançada. A atitude do que ama a verdade e, ainda que através de uma batalha contra si mesmo, quer conhecê-la, é continuar a pesquisar mesmo onde o ambiente parece ser hostil, enfrentando argumentos realmente importantes, mesmo que evidenciem poder demovê-lo da sua posição. É algo árduo, por isso tão incomum.

Não se está por isso chamando o palestrante de alguém que não ama a verdade, porque ele pensa que já a encontrou. Mas, ele está em uma posição comum a todos nesse quesito, onde evita lidar seriamente com argumentos opostos. O amor à verdade deve ser algo alimentado, para ir fortalecendo-se e possibilitando a subida para degraus mais elevados. Ainda que se tenha certeza, não se deve fechar a novas ideias antes de entendê-las e ter motivos para isso.

Que o leitor possa ter a paciência de ler os artigos que tratam da doutrina reformada, e certamente irá notar que há questões intricadas e que essas são facilmente resolvidas pelo Catolicismo, com base bíblica sólida e com clareza singular. Para aqueles que não perceberam que em todas as questões em que se alcançou a verdade ou que se está chegando próximo dela o indivíduo está mais católico do que antes, como Chesterton já havia notado e ensinado, convido a ler os artigos e, para essa nota especial, o artigo que trata dos sacramentos na doutrina reformada, com específica análise da teologia batista tem em consideração obra de um teólogo batista renomado.

A teologia católica é tão abrangente que seu nome revela essa abrangência. É o pensar católico, o pensamento total das coisas, que caracteriza o pensamento cristão católico. Por isso, aqueles que olham para Roma com parcialidades podem encontrar elementos que não mudam, dando a impressão de que Roma parou no tempo, e partes tão altamente atualizadas e atualizantes que enganam o parcial pesquisador, como se Roma fosse um camaleão. Certamente isso ocorre na avaliação do pastor Tiago Cavaco. Deem uma olhada no estudo do livro Cuidado com o Alemão. Enfim, que os calvinistas percebam os verdadeiros problemas da Teologia Reformada.


Essa reflexão foi feita a partir do capítulo 4 do livro A Igreja Católica e Conversão, de Chesterton.


Gledson Meireles.



domingo, 21 de novembro de 2021

Uma fonte de estudo sobre a doutrina Reformada

 O(a) leitor(a) pode encontrar aqui muitos artigos estudando o Calvinismo, a Fé Reformada, de modo diverso daquilo que se encontra em muitos livros, como tem sido a reclamação de críticos calvinistas.

Os estudos aqui são eminentemente bíblicos, e feitos a partir de obras importantes da Teologia Reformada, respondendo biblicamente aos argumentos, e diretamente a obras de autores reformados, de modo que o calvinista, o reformado, terá inegavelmente dificuldade em responder aos argumentos contrários.

Não se poderá afirmar que a crítica não foi bíblica, ou que não levou em conta um autor renomado do meio reformado, ou que esqueceu-se de fontes oficiais da tradição reformada. Nada disso é possível. Portanto, quem quiser responder, que use argumentos a partir do que leu aqui.

Gledson Meireles.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Interpretar a Bíblia: o que a Igreja ensina sobre isso? (Em consideração ao livro: Cuidado com o alemão)

Continuação do estudo do livro Cuidado com o alemão. Sobre o ensino de que é possível a todos  compreender a Bíblia.

Quando se trata da leitura da Bíblia todo cristão católico entende isso de forma santa, da maneira mais elevada que se pode imaginar, com o respeito profundo e devoto, com um espírito submisso, respeitoso, contemplativo. É algo que aprendemos deve cedo, e está em todo coração católico, até mesmo naqueles que pouco conhecem da Palavra de Deus. É um sinal de que o respeito pela Bíblia entrou no coração de todo fiel cristão católico.

Então, o pastor Tiago vem nos dizer que é necessário ler a Bíblia, mas não de qualquer maneira. Bravo! E mais adiante, concede que os protestantes têm que aprender com os católicos a contemplar a Bíblia. Ponto pra ele!

A Bíblia contemplada, mas também compreendida. Nada mais católico. E o protestante é ensinado a buscar isso. Nada mais correto. Assim, temos que dizer que esse ensino é puramente nosso, e se o autor tem, a partir do seu elogio de Lutero, a nos ensinar a tornar a Bíblia como autoridade para nossas vidas, podemos afirmar que isso é patrimônio católico, já muito bem compreendido, que está contido no DNA do ser católico. Quando se toca a verdade, encontramo-la sempre no ensino da Igreja. Ou seja, todas as verdades que encontramos são ensinadas pela Igreja, e a Igreja concorda com ela.

Mas, há algo que o protestante não compreende. É preciso abrir os horizontes, é preciso entrar no lugar sem fronteiras, é preciso adentrar na imensidão da verdade, que não depende de nós, e que nos vence, quando a encontramos, é preciso ter o coração católico, universal, aberto à verdade. De modo, compreendemos tudo.

Então, citando DeYoung, o pastor tem uma crítica. Parece até que o católico crê na Bíblia porque crê no que a Igreja pronuncia sobre ela. Não é verdade. Não é o pronunciamento da Igreja que faz a fé na Escritura. Na verdade, foi a Igreja que nos deu a Escritura, e que nos apontou o que é a Escritura, onde está a Escritura, qual é a Escritura, e nos definiu qual o conteúdo dela, quais livros a compõe. É pela Igreja que sabemos que na terra tem um livro inspirado por Deus, que nos ensina a verdade da salvação, e que esse livro foi denominado Bíblia. É a Igreja que nos apresenta a Bíblia.

Dessa forma, quando a Igreja nos afirma que “eis” a Palavra de Deus, esse pronunciamento não é maior que a Palavra, mas nos diz: aqui está a Palavra. Não podemos ter dificuldade pra crer nisso. É evidente.

Outra coisa, e que tem o mesmo sentido, é que os pronunciamentos doutrinais que a Igreja faz, tirados da Palavra, não podem ser maiores que a a Palavra, pois são idênticos em autoridade, pois são a própria Palavra explicada. Se isso não é assim, então não se pode saber o que se está afirmando como doutrina cristã.

Crer na Bíblia sem crer no que ela ensina, ou sem conhecer qual o seu conteúdo, ou sem reconhecer que o que a Igreja diz sobre ela é o mesmo que ela está ensinando em suas páginas, e que está simplificado e explanado para que o coração e a mente dos fieis estejam repletos do ensino bíblico inspirado por Deus, é o mesmo que não crer na Escritura.

Não pode existir a dicotomia “Bíblia e o que se diz sobre a Bíblia”. O que se diz sobre a Bíblia, desde a origem do ensino com Cristo e os apóstolos, é o mesmo conteúdo da Bíblia. O que se diz da Bíblia, em cada ensino, é o que a Bíblia traz, em seu conteúdo. Portanto, crer no dogma da Trindade é crer que a doutrina da trindade é ensino bíblico, e não tem autoridade porque alguém proclamou, mas tem autoridade porque Deus revelou, e por esse motivo a Igreja de Deus proclamou. A dicotomia que se faz, como indicado acima, é espúria, e assenta-se sobre erro de compreensão da verdade. É um erro epistemológico, é um erro que se funda numa falsa concepção da visão católica sobre a Escritura. Esse erro deve ser corrigido para que se compreenda que o pronunciamento da Igreja funda-se na autoridade de Cristo, que lhe conferiu autoridade, e está na Palavra inspirado por Deus, a Bíblia, e por isso é Palavra de Deus.

Por isso que a orientação da Igreja é o que a Bíblia ensina. Não existe uma “orientação” eclesiástica que se separa da orientação bíblica, como se uma coisa fosse diferente da outra. Ninguém crê na Bíblia como algo abstrato, sem conteúdo, sem um credo a ser conhecido, sem um ensino a ser crido. Todos temos esses ensinos na Bíblia como pronunciados, muitas vezes, pela Igreja. O contato do católico com a Bíblia se dá pela autoridade de Deus nela, e porque a Igreja assim nos ensinou. Isso não depende da Igreja, é a Igreja que está fundamentada na Palavra o que lhe confere autoridade.

O católico não crê na competência de “uns” poucos lerem a Bíblia e interpretá-la para os demais, como se o Magistério fosse um conjunto de peritos com capacidades diferentes dos demais mortais para compreender a Bíblia e repassar o conhecimento aos outros. Isso não existe. Isso é compreensão protestante a respeito do ensino católico sobre o magistério, e não o magistério como a Igreja Católica compreende.

Se todo simples cristão tem certo método correto para entender facilmente a Escritura para ser um cristão fiel, por que isso é negado aos católicos? Por que afirma-se que os católicos não compreendem a doutrina bíblica capaz de tornar uma pessoa um cristão fiel? Não é a doutrina que se ensina? Por que nem todos encontram-na assim tão perspicazmente ensinada nas páginas sagradas? Se os católicos não a encontram, é porque não é tão perspicaz! Falta a iluminação interior do Espírito? Então é necessário ter o Espírito Santo. Correto. Alguém nega que nós católicos não lemos a Bíblia no Espírito Santo que a inspirou? Vemos que essas questões nascem da problemática da perspicuidade da Bíblia.

A perspicuidade da Escritura ensina que o ensino salvífico é simples e pode ser entendido facilmente por todos que a leem. E essa leitura onde todos são responsáveis e capazes de fazer e compreender, de interpretar a Bíblia por si mesmos, acrescenta o pastor, na citação de DeYoung, que essa leitura deve ser feita “não fora da comunidade”, ou seja, não fora da Igreja, não com ideia preconcebida, não com opinião pessoal, podemos dizer.

Ainda, afirma que não pode a leitura sem feita “sem atenção à história, à tradição ou ao conhecimento acadêmico”. Esse é o ensino protestante, implícito na afirmação que se faz da perspicuidade da Escritura. E por último, a citação diz que ninguém deve ser forçado a ir contra sua consciência.

Pois bem. O ensino da perspicuidade é que o fiel deve ler a Escritura e pode compreendê-la, desde que leia com fé, no Espírito, em atenção ao ensino que se aprende na Igreja, que foi cristalizado na história, está presente na tradição, e de acordo com os estudos acadêmicos cristãos. E ainda, ninguém pode força alguém a ir contra a consciência. Isso nada mais é que o ensino católico! Parece estar ensinando algo novo, mas é o mesmo que a Igreja Católica ensina contra a mesma tese do livre-exame e da perspicácia da Escritura. Tudo o que a Igreja está dizendo ao criticar esse ensino protestante, e para ensinar o que o protestante está afirmando de outra forma quando explica o que é a perspicuidade da Escritura. É algo complicado entender isso.

Por isso, a Igreja Católica tem a teologia bíblica na mais alta conta. Até a filosofia deve estar sob a orientação da teologia. A inteligência está no cerne do estudo católico. E é isso que o protestante procura ao ensinar que se deve compreender a Bíblia, e não lê-la de qualquer jeito.

Lutero ensinou que todos podem compreender a Bíblia? A Igreja Católica ensina isso, e sempre ensinou, apenas afirmando, de modo mais claro, que todas essas coisas acima são indispensáveis: que seja lida na Igreja, conforme a tradição apostólica, de acordo com a ciência bíblica e não segundo interpretação particular. É algo que se deve aprender.

Gledson Meireles.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Continuação do estudo do livro: "Cuidado com o alemão". O Catolicismo está em constante mudança?

É muito árduo, e por isso muito raro, conseguir entender bem e profundamente duas doutrinas diferentes, e até mesmo e em muitos casos opostas. Por isso, não é comum alguém que entenda bem sistemas diferentes. Compreende um e somente metade do outro. Sabe lidar com um e tropeça no outro.

Ao comparar o Catolicismo e o Protestantismo isso salta aos olhos. É comum encontrar discrepâncias consideráveis quando se lê tais abordagens em muitos autores. Nem sempre o autor compreende bem os dois lados. É que a tarefa é enorme, confusa, difícil. Portanto, é necessário estudo e tempo. É necessário ter espírito aberto para compreender, antes de julgar. A análise precisa ser isenta de juízos próprios, para que os dados realmente sejam trazidos à luz e possam ser manuseados.

Assim é que mais uma vez encontramos algo tremendamente interessante e importante na observação do pastor Tiago Cavaco. O presente artigo certamente não vai sanar toda a questão, mas pode levantar questões para maiores elucidações.

O autor afirma que o catolicismo está estranhamente em sintonia com espírito moderno, quando é contrário à insistência protestante de tirar conclusões da Bíblia. A verdade é complicada, fiquemos com a beleza, a estética, diríamos. O Catolicismo tem uma humildade epistemológica, e isso parece abrir espaço para um novo misticismo.

Assim, o católico não evangeliza mais, e o ateu bem formado pode continuar no seu ateísmo. O autor diz isso em outras palavras, como algo que explica a atitude católica nos tempos modernos, nos dias atuais.

Realmente, há algo que fez com que o autor fosse levado a tais conclusões. Os anos pós Concílio Vaticano II têm visto o fervor dos católicos diminuir, os padres pregarem menos, as conversões se tornarem escassas, e o aggiornamento, que é expresso nesse diálogo com os novos tempos, tem sido visto por muitos como uma mudança de atitude da Igreja em relação ao que vinha antes do Concílio, e para os mais tradicionais como um afastamento e uma apostasia da hierarquia. Isso é o confronte de ideias no interior da Igreja.

Certamente o pastor está se referindo a isso, a essa mudança de atitude, que parece estar aberta aos novos modelos de pensamento, a ponto de dizer que um jovem protestante sempre verá Nietzsche como adversário, enquanto o católico pode esperar sua canonização.

Por que isso? O católico está caminhando com os tempos, mudando suas doutrinas, pensamentos e atitudes, e o protestante está firme na Palavra porque crê na Bíblia como âncora da verdade? É isso que o pastor está dizendo.

Ainda mais. O Catolicismo está em constante mudança e progresso, mudando a doutrina, crendo no oposto do que cria antes, porque o magistério interpreta a Bíblia, enquanto o Protestantismo está alicerçado no que Deus escreveu na Bíblia. Aqui parece o contrário: o católico pratica um livre-exame, ou segue o livre-exame feito pelo magistério, e o protestante está seguro no dogma, porque crê na Escritura.

A Igreja muda e tornar-se outra segundo o “espírito dos tempos”, e o Protestantismo está firme, pois crê no sentido da Escritura. O Catolicismo projeta suas ideias no texto, e o Protestantismo segue o que o texto diz. Assim, na Igreja Católica há espaço para todas a inovações, e no Protestantismo isso não é possível, pois está cativo à Sola Scriptura, à Bíblia. Parece ter sido isso concretamente o que foi explicado pelo pastor.

No entanto, parece que há uma inversão total aqui. A realidade mostra o inverso do que foi dito. É certo que os tempos atuais têm exercido enorme influência nas Igrejas, e têm levado muitos a concordarem e a agirem segundo os princípios mundanos. Mas, se a posição oficial da Igreja Católica e do Protestantismo tradicional for avaliada mais de perto, vê-se algo tremendo, e diverso do que foi posto acima.

Certamente o autor usou a questão do limbo como base para afirmar que a Igreja Católica está aberta às mudanças doutrinais, que pode deixar algum dogma a qualquer momento e adotar outro, conforme o momento histórico. Talvez mesmo essa questão do Ecumenismo que parece aceitar todas as religiões como iguais, pode ter levado a esse tipo de compreensão, que na verdade não é exata.

No entanto, o que se vê é que todas as inovações têm surgido no âmbito da Reforma. Ideias que, por exemplo, vieram a abalar a fé dos crentes na própria Escritura surgiram entre a erudição protestante, no século 19, por exemplo, vindo depois a adentrar fileiras católicas e dar os resultados acima descritos. Mas, deve-se ressaltar, quando essas influências tiveram acesso nos arraiais católicos, tiveram que lidar com a devida reprovação da Igreja.

Também, as agendas políticas e outras aspirações do mundo atual encontram maior espaço no âmbito Protestante, a ponto de crescer e somente aos poucos, depois de anos, ou décadas, ganhar algum espaço entre católicos. E, nesse caso, enfrentando duras advertências da Igreja.

No caso, no Protestantismo, que não tem uma figura central de liderança, é fácil observar que essas infiltrações e doutrinas espúrias que vêm da sociedade e filosofias dos tempos atuais, encontram lugar em todas as denominações, com maior ou menor amplitude, e com maior facilidade que no Catolicismo.

São combatidos por alguns, que procuram ser mais conservadores, mas é crescente a mudança de atitude mesmo entre os mais radicais. O livre-exame leva mais cedo ou mais tarde a acatar certas influências que, de pouco o pouco, como o fermento leveda toda a massa.

Tal coisa é praticamente impossível no Catolicismo, e as inculturações e os diálogos são lentos e passam por escrutínio rígido, à luz da Palavra, na Bíblia e Tradição, de forma que o texto da Bíblia não pode ser lido de outra forma a não ser naquela consagrada pela tradição apostólica. Contrariamente a isso, no princípio de que só a Bíblia é infalível, até concílios protestantes podem, em tese, ser reavaliados e reformados.

Essa doutrina protestante, bastante repetida, aliás, tem mostrado ser verdadeira, e ainda que contenha certa rigidez, demonstra a realidade que as igrejas protestantes, mesmo as históricas e tradicionais, têm adotado os sinais do “espírito dos tempos” de forma mais rápida e evidente do que as igrejas católicas.

Fora de cogitação, pois, está Nietzsche para entrar no rol dos santos canonizados, visto que sua vida e obra está distante da tradição católica, enquanto que suas ideias podem aqui e ali encontrar espaço nos púlpitos, documentos e práticas de igrejas conservadoras de Reforma, que estão teoricamente abertas às novas luzes provenientes da Palavra, segundo nova interpretação. Inovações no sentido acima ressaltado são praticamente impossíveis no Catolicismo, enquanto que o mesmo não pode ser dito do Protestantismo.

E qual a razão de tamanha atração do Catolicismo pra tantas mentes, até aquelas hostis à Igreja? Certamente a verdade que está na sua mensagem. Não é a possibilidade de irmos para onde mentes humanas querem ir, pois isso é mais fruto de livre-exame do que do magistério. Pense nisso. Todos podem, já de início, ir percebendo, e aos poucos crescendo nesse conhecimento, estuando a doutrina cristã católica. Há muitos que profundamente estudando a doutrina católica, mergulham nessa fonte da graça, através da fé, que encontram em Cristo, e percebem a solidez que perpassa os tempos históricos, permanecendo a Igreja igual e sempre jovem, atraindo as mentes e corações, abarcando todas as esferas da realidade, à luz da verdade que é Cristo Jesus, conforme Sua doutrina.

Considerando conteúdo da segunda parte do livro de Tiago Cavaco, - "Cuidado com o alemão: três dentadas que Martinho Lutero dá à nossa época".

Gledson Meireles.


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Qual foi a Reforma da Igreja? Estudo do livro do pr. Tiago e comemorações dos últimos dias

Quando Lutero morreu, a Igreja continuou esforços para reformar-se, de acordo com a Palavra de Deus, respondendo aos ataques que muitos, principalmente desde Lutero, estavam lançando contra a doutrina cristã. Foi o Concílio de Trento a Grande Reforma, contra a Reforma Protestante. Por isso, conhecido na história como Contra-Reforma. Não foi contra a reforma da igreja, em sua parte reformável, mas contra a Reforma que foi apresentada por tantos reformadores protestantes.  A doutrina de Cristo, que é a parte irreformável, foi anunciada, definida, proclamada, de forma brilhante, nos tempos do Concílio, trazendo verdadeiramente a Reforma da Igreja Católica.

Aos que estão acompanhando o estudo do livro do pastor Tiago Cavaco, veja o que Lutero tem a dizer para o mundo atual, em comparação com o que a santa Igreja Católica anuncia para a conversão deste mesmo mundo.

Comemoram-se vários eventos nesses dias: o dia da Reforma Protestante, em 31 do outubro, que lembra o dia em que Lutero afixou as 95 Teses na porta de Igreja do Castelo de Wittemberg, dia que podemos reforçar o chamado à verdade plena aos irmãos protestantes.

O dia 01 de novembro, lembrando os santos do céu, os eleitos de Deus. E o dia 02 de novembro, em memória e oração pelas almas que estão em purificação, as quais só Deus conhece.

Gledson Meireles.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Hoje louvamos a Deus, na memória da Virgem Maria, como padroeira do Brasil, em veneração à mãe do Senhor, e pedimos a intercessão dela, para que assim como fez nas bodas de Caná, alcance para nossa pátria, e para o mundo, as graças de Jesus.

Gledson Meireles.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

A Justificação pela Fé: por que os protestantes são mais afetados pela tendência contemporânea de otimismo e negação do pecado?

Continuando o estudo do livro Cuidado com o alemão..., do pastor Tiago Cavaco, agora tratando do tema maldade.

A Igreja Católica tem sempre um ar juvenil, apesar de antiguidade, está sempre na moda, mesmo sendo tradicional. É isso o que notou Chesterton há quase um século.  E, com isso, sua teologia sempre está
incomodando, em assuntos que o mundo pretende impor. Não é exagero dizer que sempre está na vanguarda quando o tema é defesa da verdade. É simplesmente impressionante.

A visão pessimista do ser humano, da natureza humana, e a consciência da maldade humana, são coisas que Lutero aprendeu enquanto era católico. Ser pecador é uma realidade que o cristão católico tem sempre diante de si, em sua consciência e em sua constante confissão: sou pecador Senhor, tende piedade de mim. Perdão, Senhor. Perdoai-nos, Senhor. Perdoai-nos as nossas ofensas. É a oração constante da Igreja.

A visão pessimista do ser humano e a verdade da graça estão sempre diante de nós. Talvez o sentido do perdão, como concebeu Lutero, enquanto era padre, foi equivocado, em certa extensão. De acordo com Tiago Cavaco, o perdão a ser alcançado pelo homem, segundo o ensino católico, é feito através das boas obras que compensem a más. Mas isso é uma coisa que não se encontra na Teologia Católica. Se tal é o conceito de Lutero, e se essa análise do pastor batista estiver correta acerca do reformador, e se essa é a forma e concepção de perdão que o pastor imagina ser ensinado pela Igreja, tal ponto deveria ser um dos principais a serem estudados, para desfazer tal equívoco.

O homem não pode por suas próprias forças deixar de pecar. Não pode oferecer obras que comprem o perdão, ou que compensem suas faltas. Então, o que fazer? Lutero pensou ter lido na Bíblia que o justo viverá somente da fé. O que isso significou para ele? Que somente a fé salva, e que a necessidade de santificação não teria a ver com salvação, embora fosse ligado a ela. Tal concepção parece a doutrina bíblica, mas não é. De fato, a Bíblia ensina que sem santidade ninguém verá a Deus, ensinando a obrigação de santificação durante da vida. O salvo viverá da fé, e das obras, mas não somente da fé. Eis a questão. A separação da justificação da santificação, ao invés de lançar os olhos para Cristo, tem o resultado de enfraquecer no homem a busca pela santidade.

Alguém dirá que quanto mais se sente livre em Cristo, quanto mais sente que suas obras não podem salvar, mas se lançam a praticar boas obras em resposta à salvação recebida. No entanto, isso não acontece. Basta ver o quão é difícil para o Protestantismo gerar santos como o catolicismo. E sabemos que o Catolicismo ensina que todas as nossas obras são dons de Deus. Mas, o sentido de pecado e de graça é tão poderoso, que os santos sabendo serem livres para amar, entregam-se tanto à graça, que não têm como suas nenhuma das boas obras, concebendo tudo como pura graça divina. O que Lutero intencionou fazer, os santos católicos heroicamente conseguem, não eles, mas a graça de Deus neles, parafraseando São Paulo.

E o próprio Lutero viveu a amargura do pecado, nos seus dramas íntimos. Isso não é restrito à sua vida de jovem, nem de membro da ordem de Santo Agostinho, nem como monge ordenado sacerdote, mas principalmente após sua saída da Igreja, quando viveu a doutrina da justificação pela fé somente. Foram anos difíceis para o reformador. Não encontrava paz na alma. Lutero via no povo menos espírito piedoso, confessando que sob o Catolicismo o povo era mais preocupado em praticar boas obras.

A vida de Jesus, nosso maior modelo, é cheio de exemplos de exercícios espirituais. Quantas vezes nosso Senhor afastava-se dos afazeres diários, da companhia dos outros, para orar a sós, na montanha, em lugar reservado. Era viver o sagrado, extraordinariamente, e não somente o profano.

Lutero confessa às vezes, por sua vez, não ter tempo para orar. Sua vida diária, que na sua teologia deveria ser a vida cristã em sua essência, sem necessidade do extraordinário, onde o comum é tudo, trazia-lhes esses momentos de sofrimento, em que via-se caído em suas fraquezas. Ao contrário, a vida dos santos mostra-os santificando cada momento, e vivendo a oração de forma profunda. Há momentos em que o extraordinário deve estar presente. Justificação e santificação são dois lados da mesma moeda. Inseparáveis.

A justificação do pecador que crê em Cristo é para Lutero algo situacional, como que mudança de lugar, e não mudança no interior da pessoa justificada. Assim, o pecador é declarado justo, e não o é em si, mas justo por imputação, tendo a justiça de Cristo sendo considerada no lugar da sua. No processo de santificação a pessoa iniciaria o processo para ser realmente santo.

No Catolicismo, tanto a linguagem jurídica quando a real transformação são ensinadas. O pecador é declarado justo no tribunal, e a justiça de Cristo é derramada no interior do pecador, que inicia, pelo impulso da graça, como justo e santo, o processo da própria justiça e santificação.

Na perspectiva de Lutero era como se o pecador, ainda que cometendo pecado, deveria lançar o olhar para Cristo, e ver que aquele pecado não o leva à condenação. Na perspectiva bíblica e católica, o que comete pecado deve arrepender-se, confessar-se, e temer a queda, pois o que semeia na carne só colhe corrupção, que é condenação (cf. Rm 7 e 8). Não se está negando que Lutero não tenha ensinado o arrependimento e confissão, mas há o paradoxo que em Lutero o pecado parece menor em sua ação. Afaga mais o ego essa espécie de pensamento. Deixa a consciência mais adormecida.

Por isso, os santos católicos não se desesperam da salvação, e não podem cair na presunção, por crerem na graça, e crescem esplendorosamente na santidade. Tal coisa é rara em meio protestante e reformado, onde todos creem ser justos e santos igualmente, a partir da justificação, e que a santificação não contaria na salvação! Para o cristão católico ninguém é perfeito, mas devemos buscar a perfeição, e viver fé ativa, na caridade, em oração e boas obras, temendo e tremendo diante do Senhor, que nos faz justos e santos, em todo o nosso ser, corpo alma e espírito (1 Ts 5, 23).

Talvez seja por isso o pragmatismo protestante. O santo é aquele que age, que faz algo pelo mundo, que contribui para que algo aconteça, para o bem da sociedade, enquanto que para o catolicismo o santo faz tudo isso, mas é santo quando heroicamente vence em si o pecado, com auxílio da graça de Deus e iluminação do Espírito Santo. É santo o que mortifica suas paixões pecaminosas, que vence o ego decaído, e frutifica em bons frutos. E somente sobem aos altares os que tem exemplos de virtudes heróicas que ajudarão os irmãos a trilharem os santos caminhos.

Não parece exato o que o pastor explica sobre a doutrina da justificação ensinada pela Igreja Católica. Ele afirma que no batismo são expulsos os hábitos do pecado, e não sei ao certo onde se baseou para escrever isso. Talvez seja apenas uma explicação incompleta. Talvez palavras mal colocadas. Seria bom ter o esclarecimento do autor sobre isso.

Não é somente santo o que menos pecados comete, e o que se priva dos divertimentos do mundo. É verdade que o santo comete menos pecados! É verdade que o santo não se mistura com o mundo! Mas, olhando para o catolicismo, é um exemplo de como isso funciona na prática. Veja os exemplos de seminaristas que são formados durante anos nos seminários, e se divertem jogando futebol, ao passo que há pouco tempo em ambientes mais puritanos e pentecostais jogar futebol e assistir televisão era abominável!

Então, outra questão que se deve frisar nessa diferente postura de um católico e um protestante ao falar da salvação, é que o católico teme a presunção. Assim, como a Bíblia nos ensina que devemos ter cuidado ao julgar estar de pé, para não cairmos. Por outro lado, o católico se firma em Deus que é poderoso para nos salvar.

Obviamente a salvação não pode depender das obras, e isso a Igreja Católica definiu, diante das críticas protestantes, claramente no Concílio de Trento. No entanto, é preciso notar que o homem realmente pratica boas obras, (cf Ef 2, 9-10) quando é salvo, e que essas são importantes para entrar na glória. É disso que estamos falando quando o assunto é boas obras.

Se a cultura atual tem se esquecido do pecado, a fonte dessa desorientação é outra. Não se trata de encontrar uma doutrina mais doce no catolicismo, por exemplo. Não há como falar mais sobre essa realidade do que no Catolicismo, onde todos os dias nos confessamos pecadores e pedimos o perdão de Deus. Isso está em nossas orações, cânticos e liturgia.

A maldade está esquecida no mundo. Lutero pode ajudar nesse trabalho de pregação sobre o tema. Mas a Igreja Católica tem o meio mais eficaz de o fazer, como sempre tem feito. Os católicos nutrem-se do evangelho reconhecendo-se pecadores necessitados do perdão.

Os protestantes podem recuperar o evangelho se lerem o Catecismo católico. A retomada do estudo da patrística, de santo Agostinho, e mesmo de são Tomás de Aquino por pastores e teólogos protestantes tem auxiliado nessa aproximação da verdade sobre vários assuntos.

Por que será que os descendentes de Lutero perderam muito a consciência do pecado? E como o autor do livro pôde reconhecer que os cristãos medievais eram mais humildes, sem tocar na origem desse romantismo que tem crescido no Protestantismo? Em outras palavras, por que os protestantes são mais influenciados por essa nova tendência de otimismo que desconsidera o pecado? É hora oportuna de conhecer melhor a doutrina católica.

Gledson Meireles.