segunda-feira, 11 de abril de 2016

Comentário de um artigo sobe a Virgem Maria

O artigo O que diz a Bíblia sobre a virgem Maria  é um pouco esclarecedor da forma como os protestantes geralmente pensam sobre a virgem Maria. Nesse comentário serão feitos esclarecimentos de alguns pontos importantes, que mostram a inexatidão de algumas crenças protestantes nesse assunto.

Primeiro o artigo entende que “gratia plena”, que é a tradução em latim do grego kecharitomene, e que significa “cheia de graça”, teria o sentido de “agraciada”. É normal que essa seja a tradução preferida dos protestantes, pois parece diminuir um pouco o alcance do “Kecharitomene”. Mas, o artigo traz a explicação de que isso também significa “muita graça”, o que já é revelador, e um tanto mais próximo do sentido de “cheia de graça”, que é o entendimento correto da passagem

De fato, Maria recebeu a maior das graças, que foi ser a mãe do Senhor Jesus, o Messias e Salvador. Não há como medir tamanha graça, é muita graça verdadeiramente, é estar plena de graça.

Em segundo lugar o artigo tenta explicar que a graça é o favor imerecido de que todos precisamos, e que Maria “precisava de graça de Deus”. Essa frase é totalmente correta, em todos os sentidos, seja do ponto de vista católico como do ponto de vista protestante, pois Maria somente foi cheia de graça porque Deus “a encheu de Sua graça”, já que sendo criada por Deus ela necessitou da graça de Deus para ser aceita por Ele. E o caso da virgem Maria mostra uma graça tamanha, pois de fato ela não fez absolutamente “nada” para merecer, (como de fato ninguém o faz) mas o que foi feito nela veio no momento em que ela começou a existir, na sua concepção. Esse “nada” fica ainda mais ressaltado em sua acepção absoluta da grandiosa graça de Deus.

Por isso, o artigo afirma que Maria considerou Deus o seu Salvador, como está em Lucas 1,47: ““E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador.”’ É verdade, e todo cristão católico lê e repete essas lindas palavras, à imitação da virgem, e diz: “E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador”.

Em terceiro lugar, para ilustrar melhor a posição que o artigo quer passar, continua com o seguinte: “A Bíblia nunca diz que Maria foi qualquer coisa além de uma mulher comum que Deus escolheu para usar de uma forma extraordinária.” Mas, qualquer cristão, nesses quase vinte séculos de Igreja Católica, dirá em bom tom que Maria não é mais que uma mulher criatura, da raça humana, escolhida e exaltada por Deus, para ser a mãe do Senhor. Essa “mulher comum” no sentido de ser uma mulher da mesma raça de todos os seres humanos, não diferente, não acima em seu sentido natural, mas igual, com as mesmas necessidades de todos. É a doutrina da Igreja que assim o ensina. Contudo, o artigo quer passar algo “mais”, quer tenta ir além disso.

Assim, o artigo continua: “Ao mesmo tempo, Maria era também um ser humano pecador como todos os outros...”. A Igreja Católica é fiel às Escrituras, e essas dizem em Romanos 3,23 que todos pecaram. Esse pecado refere-se não ao pecado pessoal, que cada pessoa comete no dia da dia da sua vida, mas ao pecado de herança, que foi praticado por Adão como pai da raça humana, e Eva como mãe da humanidade. Por isso, todos pecaram em Adão, porque todos são descendência sua. Maria pecou em Adão também, já que ela é naturalmente da mesma natureza e filha de Adão. A diferença disso é que Jesus veio para livrar-nos de todo pecado, até do original. Todos os que estão em Cristo foram limpados desse pecado. A virgem Maria também o foi, mas foi muito cedo em sua vida, ainda no ventre de sua mãe, quando ela foi concebida. Deus a perdoou, santificando-a, dando a graça que era necessária para que fosse salva e realizasse a missão de mãe do Senhor Redentor do mundo. Por isso, em sua vida pessoal Maria não pecou, pois estava cheia da graça de Deus.

Em quarto lugar, quando o artigo afirma que “Maria não teve uma “concepção imaculada”” está ensinando algo que não tem respaldo bíblico nem histórico. Maria teve uma concepção imaculada.

Em quinto lugar o artigo vem com uma objeção muito fraca, por ter sido já refutada até pelos antigos hereges que adotaram a crença de que Maria teria tido outros filhos. Refere-se a Mateus 1,25. Afirma: “A palavra “até” claramente indica que José e Maria tiveram união sexual após o nascimento de Jesus. José e Maria tiveram vários filhos juntos depois que Jesus nasceu.

Para fortalecer essa posição, o artigo diz: “Deus abençoou e agraciou Maria dando a ela vários filhos, o que naquela cultura era a mais clara indicação de que Deus estava abençoando uma mulher. 

Se alguém pensar melhor, verá que o Filho de Maria foi a maior das bênçãos, e que essa foi a indicação de que Deus estava abençoando Maria mais do que todas as mulheres. É um fato de que famílias judias que possuíam vários filhos eram tidas como abençoadas, ao passo que as mulheres estéreis eram vistas como indivíduos sob o castigo de Deus, pois não podiam gerar filhos.vMas a virgem Maria gerou um Filho, O Maior dos filhos, Aquele que veio salvar o povo dos seus pecados, como diz o anjo a Maria. Ela não precisava de vários filhos para mostrar bênção!
Em sexto lugar, quando a mulher em Lucas 11,27 exalta Maria, o artigo afirma: “Nunca houve melhor oportunidade para Jesus declarar que Maria era verdadeiramente digna de louvor e adoração. ” Essa explicação possui grave erro. Pelo que ele entende, Jesus iria proclamar Maria digna de “louvor e adoração”, como se isso fosse a opinião dos cristãos católicos.

Ela é digna de louvor, sim. No entanto, não é digna de adoração. O que a mulher falou foi uma verdade importante, pois Maria foi bendita, bem-aventurada por ser a mãe de Jesus, e de tê-Lo amamentado. Tem o ventre e os seios benditos por isso. Jesus costumeiramente usava dos acontecimentos para mostrar algo mais, e disse que mais bem-aventurados são os que ouvem e obedecem a Deus. Ele não negou que a Sua mãe fosse bendita, mas reafirmou. Isso não é rebaixar Maria, mas é uma forma de exaltar os que honram o Nome do Senhor por obedecer a Deus. A virgem Maria estava também entre os que obedecem a Deus, e podemos dizer que foi a primeira em dignidade.

Em sétimo lugar o artigo diz: “Em nenhum lugar das escrituras Jesus, ou qualquer outra pessoa, dirige qualquer louvor, glória ou adoração a Maria.” É verdade que na Bíblia ninguém dirige “adoração” a Maria, mas dirige com certeza “louvor e glória”, e por isso essa afirmação está incorreta.

Na verdade, a continuação já mostra isso, pois o artigo traz o seguinte: “Isabel, parente de Maria, a louvou em Lucas 1:42-44, mas seu louvor é baseado no fato de que Maria daria à luz Jesus. Não foi baseado em qualquer glória inerente a Maria.”.  Então, Isabel “louvou” Maria, de fato, de verdade. É um fato, não há como negar.

Vejamos a explicação:  “...seu louvor é baseado no fato de que Maria daria à luz Jesus. Não foi baseado em qualquer glória inerente a Maria.

O que a explicação tem embutido é o erro de pensar que a doutrina católica afirma que Maria tem algo intrínseco, uma graça puramente dela, a qual ela pode ofertar a outros. Isso é o que pensam os teólogos protestantes, como o reverendo Augustus Nicodemus. Nada disso é correto, não é doutrina católica. Por isso, o louvor de Isabel foi baseado no fato de Maria ser a mãe escolhida do Messias, sim. E que isso mostra o exemplo que devemos imitar. (Falta agora um protestante negar que Isabel louvou Maria! É possível que alguém venha com essa!)

Em oitavo lugar, o artigo ensina: “Os Apóstolos, em nenhum lugar, dão a Maria papel proeminente. ” Pode-se perguntar: Que lugar maior poderia Maria ter do que ser a mãe do Senhor Jesus Cristo? A Bíblia afirma isso, e é o que fundamenta todo o papel proeminente de Maria.

Talvez os protestantes esperassem que os apóstolos tecessem comentários e comentários a respeito de Maria, com ladainhas, etc., como se isso fosse o essencial para que façamos o mesmo. Não foi necessário, pois o que foi registrado já substancia tudo isso: ela é a mãe do Senhor, a cheia de graça, aquela que foi louvada por sua prima Isabel, que estava cheia do Espírito Santo. Tudo o mais vem dessa base bíblica.

Em nono lugar, o artigo tenta resumidamente refutar a assunção e exaltação da virgem Maria no céu: “A morte de Maria não é registrada na Bíblia. Nada é dito sobre Maria subindo aos Céus, ou tendo qualquer forma de papel exaltado no Céu. Maria deve ser respeitada como a mãe terrena de Jesus, mas ela não é digna de nossa adoração ou exaltação”.

Em décimo lugar, o artigo vem em oposição à intercessão da virgem Maria. Todas essas tentativas são inócuas quando vemos a verdadeira mariologia, que nasce das Escrituras Sagradas. Não é espaço para fazer refutação dessas objeções no presente texto, mas é o que todos os cristãos sinceros devem procurar fazer, em sua busca pessoal pela verdade.

Gledson Meireles.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Comentário: São Jerônimo os deuterocanônicos e o uso do “está escrito”

O que vem a seguir é um comentário baseado nos artigos encontrados nos links as seguir: link 1, link 2 e  link 3.

O apologista católico argumentou que São Jerônimo empregou a expressão “ESTÁ ESCRITO” aos livros bíblicos, somente a eles, tanto aos protocanônicos quanto aos deuterocanônicos. Para isso, mostrou a diferença das citações que o próprio autor faz em relação a outras obras, e comparou com as citações que o apóstolo São Paulo utilizou dos escritores pagãos. A exposição do apologista foi bastante clara, pois provou que nem a expressão (que de certa forma já havia ganhado um sentido técnico) foi usada para outros livros, nem os escritos profanos foram citados juntos ou entremeados de citações bíblicas. Essa realidade é muito convincente.

Mas, o apologista protestante entendeu, e continuará entendendo, certamente, que São Jerônimo, apenas estava dizendo, nesse caso em relação aos deuterocanônicos, que o “está escrito” refere-se a estar escrito em algum lugar, a algo que foi posto por escrito, nada mais nada menos: “estas citações estavam "escritas", nada mais e nada menos”.

São Jerônimo tratou diretamente da questão da inspiração dos deuterocanônicos diversas vezes, e mostrou suas dúvidas e opiniões pessoais quanto a esses livros, categorizando-os segundo o que tinha aprendido do seu contato com os judeus, mas nunca desaprovou esses livros em suas obras, na sua prática, nem entrou em conflito com as decisões eclesiásticas, quando teve conhecimento delas. Certamente, São Jerônimo relutou em aceitar a canonicidade dos deuterocanônicos depois que adotou a veritas hebraica, onde a argumentação girava em torno da inspiração do Antigo Testamento somente através da língua hebraica, um princípio que estava em voga nos círculos judaicos, e que agradou e convenceu São Jerônimo por muito tempo, pelo menos.

Para quem usa o princípio de que as afirmações diretas de São Jerônimo sobre os livros deuterocanônicos é que devem substanciar sua posição quanto a esses livros, como fazem os protestantes, então dirão, não importa qual seja o uso que fez o santo padre desses escritos durante sua vida, dirão que apenas usou-os quando foi necessário em seus debates, e lia-os apenas para edificação, e não para provar alguma doutrina cristã, etc.

Não adianta argumentar mais nada para quem favorece essa linha de intepretação para entender a posição de são Jerônimo, pois não há contextualização a ser feita, a fim de negar isso, nem observações nas obras segundo o aspecto cronológico, etc., pois basta saber o que São Jerônimo escreveu diretamente sobre o caso. E se nessas passagens ele adotou os 22 ou 24 livros do cânon judaico, então está pronto, caso encerrado. Esse é o resultado que vemos no link 2.

Agora, se quisermos olhar os escritos de São Jerônimo em sua totalidade, acompanhar o desenvolvimento de seu pensamento, a influências que o autor sofreu, as afirmações que fez, as circunstâncias em que foram feitas, o que dizem cada uma das afirmações em si mesmas, e dentro do contexto em que aparecerem, quais os sinais de mudança existem em relação ao avanço do tempo, que afirmações diretas são feitas a respeito da posição dos judeus e da Igreja em geral quanto aos escritos, como foram usados os livros bíblicos  - protos e deuteros – em relação à doutrina, à argumentação cristã, e etc., enfim, numa verdadeira exegese textual  de São Jerônimo, então deveremos notar coisas que estão de acordo com a realidade: 1) São Jerônimo nos primeiros anos usou os livros bíblicos, os 73, de forma igual, sem qualificações. 2) Após seu contato com os judeus e o texto massorético as suas críticas ao texto grego, e diretamente aos deuterocanônicos, tornam-se explícitas e aparecerem em várias obras num período de alguns anos. 3) Depois das decisões conciliares, que clareavam muito na questão do cânon, no mínimo, São Jerônimo foi deixando de considerar os deuterocanônicos de forma depreciativa. Sua prática mostra que os deuterocanônicos foram usados como os protocanônicos. Talvez as dúvidas e reservas de São Jerônimo não foram nunca capazes de fazê-lo abandonar o cânon usado na Igreja, e que no final da sua vida essas dúvidas já haviam sido sanadas, os 73 livros foram formalmente aceitos por ele, como mostra sua prática constante.

O erudito protestante J. N. D. Kelly afirma que São Jerônimo disputava com judeus usando os livros deuterocanônicos, o que gerava certo desconforto, já que os judeus NÃO ACEITAVAM a canonicidade desses escritos, e os reputavam, pelo menos quanto a certas passagens, pelo que podemos notar da afirmação de Kelly, os reputavam como ridículos. Desse modo, o uso de São Jerônimo é ainda mais notório de que o mesmo tinha os deuterocanônicos como realmente Palavra de Deus. Antes, vejamos o que diz J. N. D. Kelly: “De novo o que o moveu foi principalmente o embaraço que sentia ao ter que argumentar com Judeus com base em livros que eles rejeitaram, ou mesmo (por exemplo, as histórias de Susana, ou de Bel e o Dragão) que achava francamente ridículos.”

Foi explicado pelo apologista católico esse fato mencionado por Kelly, da forma usual de São Jerônimo em tratar os deuterocanônicos como Escritura. Mas, um apologista protestante fez a seguinte elucidação:Se eu estiver a discutir com um católico romano, eu posso citar um livro apócrifo como se fosse Escritura contra ele, porque sei que ele aceita estes livros como Escritura fortalecendo assim o meu argumento, mas isso não significa que eu reconheço tal livro como Escritura. Ora, é isto que Jerónimo faz “na prática”. Quando o seu oponente tinha estes livros como Escritura então “na prática” ele cita-os como se fossem Escritura por uma razão táctica mas isso não implica que os reconhecesse como Escritura.

O apologista pensou rápido, lançou seu argumento supostamente acertado, e que funcionaria para devastar com a argumentação da apologética católica, se não fosse por um motivo óbvio: São Jerônimo usou os deuterocanônicos para argumentar não com quem “tinha este livros como Escritura”, mas, no sentido OPOSTO, pois aplicou-os no debate com quem NÃO os tinha como Escritura: “ao ter que argumentar com Judeus com base em livros que eles rejeitaram” (grifo acrescentado), o que causava embaraço na exposição.

É o mesmo que citar o livro de 2 Macabeus aos protestantes para provar o purgatório, quando os protestantes não aceitam a autoridade canônica, a inspiração, do livro de 2 Macabeus. Isso causa embaraço para nós, como acontecia com São Jerônimo. Deve o protestante encontrar outro argumento, pois esse caiu.

Gledson Meireles.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Sobre as imagens e a idolatria

O pastor presbiteriano, reverendo Hernandes Dias Lopes, em sua apresentação sobre a “Idolatria: uma prática enganosa” (vídeo que pode ser acessado neste link), afirma a proibição de “prostrar-se diante de um ídolo”, mesmo que imaginário, de tributar culto e veneração a essas obras como se fosse o próprio Deus.

 Consequências gravíssimas são advindas da idolatria, pois quebra o primeiro e o segundo mandamentos de Deus, não terás outros deuses e não farás para ti imagens de escultura. Nenhum cristão iria opor-se a isso.

Nesse momento, ocorre a primeira quebra do pensamento bíblico: o reverendo divide o primeiro mandamento em dois, e afirma que o segundo é a proibição de imagens de escultura. Sendo assim, a proibição torna-se absoluta: não se pode fazer, nem ter, nem expressar qualquer gesto de reverência para com elas. Como calvinista, ele certamente pensa que toda imagem é um ídolo. Calvino, por exemplo, tinha até mesmo um crucifixo na conta de ídolo. É um absurdo, mas ele ensinou isso. De fato, embora afirmando que a imagem não é nada, em si mesma, “há algo por trás dela”, ou seja, Satanás, (ou um demônio) estará ali sempre enganando o cristão que à imagem se achegar. a) No final, está anatematizando as imagens em seu uso, absolutamente, nas igrejas. Não é isso que a Bíblia ensina.

Afirma ainda, o reverendo, que a Igreja cristã foi “eivada, tomada e assaltada pela questão da idolatria”, e passa a falar sobre os anos após 313. Afirma que o paganismo entrou na Igreja, que essa “desviou-se da sua fidelidade à Palavra de Deus, e distorceu o culto a Deus, que deva ser espiritual”. Então, passa a falar da Reforma que veio para corrigir esse desvio, que o culto deve ser bíblico, em espírito e em verdade. b) Em outras palavras, não há espaço para nenhuma imagem nas igrejas protestantes, segundo o parecer Reformado expresso pelo reverendo Hernandes.
Entre as provas da suposta “idolatria”, ele cita o feriado de 12 de outubro, em que é venerada a imagem pescada no rio Paraíba do Sul em 1717, e que essa imagem é padroeira do Brasil, ou protetora do Brasil.

E esta imagem foi colocada dentro de um santuário, e esta imagem é chamada de padroeira do Brasil. Em outras palavras, protetora do Brasil. A pergunta é: será que uma imagem que é pescada dentro de um rio, e é colocada num santuário, que foi feita por mãos humanas, perecível, que recentemente foi quebrada por um iconoclasta, e depois restaurada, e colocada numa redoma de vidro, pode ser de fato protetora da nação brasileira. Será que nós não estamos cometendo um gravíssimo pecado contra Deus, abandonando a confiança no Deus todo-poderoso, criador dos céus e da terra, sustentador da vida, o único Deus poderoso pra salvar, e colocando a nossa confiança numa imagem que não pode proteger a si mesma, colocando essa imagem como protetora do Brasil? Este é um grave erro, este é um grave pecado, que atrai sobre a nação brasileira a ira de Deus, que distorce a realidade bendita do culto espiritual que nós só devemos a Deus”. O pastor afirma que o culto à padroeira Nossa Senhora Aparecida é dado “à imagem”. Em toda a sua apresentação ele diz isso. Tratando-se de alguém versado em Teologia, a afirmação é grave, e deve ser refutada.

Informação com o essa é feita por Adelson Santos, em uma obra contra o Catolicismo, que afirma que as imagens têm igrejas construídas para elas. Assim, os protestantes veem as imagens como entidades separadas daquilo que elas representam, e as anatematizam. Primeiro, reconhecem que são apenas matéria, mas que há algo influenciando-as, como os demônios. Depois, afirmam que elas recebem “dos católicos” o culto em si mesmas, as orações são “para elas”, os templos construídos são para elas, as promessas são para elas, o culto é todo para elas. Enfim, em específico, é a imagem que foi encontrada no rio Paraíba, em 1717, que é a “padroeira” – “protetora” do Brasil, na mente dos protestantes, em considerável número, como está provado nas opiniões do reverendo Hernandes Lopes e Adelson Santos. c) As imagens são explicadas como realidades em si, por esse motivo, e não como representando os protótipos. Essa posição não é aquilo que ensina o Catolicismo.
Afirma, ainda, que veneração e adoração são sinônimos; que Deus proíbe o povo fazer imagens de escultura, e não aceita um culto por intermédio da imagem. O culto precisa ser espiritual porque Deus é espírito. Dessa forma, não aceitam que haja diferença de culto no coração do fiel, nem que há imagens lícitas, pois no final afirmam o que vemos com frequência: Deus proíbe imagens. Há a possibilidade de que, ainda, quando refutados pelos argumentos bíblico-teológicos e da razão, apelam para alguma revelação, um sonho, uma visão, afirmando que imagens são do demônio.
Outra fonte em que as imagens sagradas são atacadas, é o artigo que tenta refutação dos argumentos católicos, encontrado aqui, e merece uma atenção também.

Prostrar-se diante de uma pessoa, tudo bem. De imagens, não!
... os católicos fazem amplo uso das passagens veterotestamentárias onde uma pessoa se curva diante de outra em sinal de reverência, como se isso fosse a mesma coisa de se prostrar aos pés de uma imagem de pau e pedra e cultuá-la ...

Era penas cultura, não “prestação de culto”
Se o costume antigo dos cumprimentos eram feitos com a prostração, por que Pedro rejeitou o que fez Cornélio? Estaria rejeitando ser cumprimentado? Pois, uma vez que a forma usual era aquela, não teria motivo opor-se a ela. Como foi feita a distinção por Pedro entre o mero cumprimento e o gesto de adoração?

De Cornélio afirma o artigo: “Ele se prostrou pensando que aquilo era simplesmente um gesto respeitoso, uma “veneração”, como diriam os católicos.” Certamente, não.

Para explicar isso, devemos ter cuidado para não contradizer o texto bíblico, nem introduzir princípios que ele não tem. Assim, São Pedro deve ter entendido, por algo que Cornélio fez e – ou falou, pois logo afirma que ele também era homem. Cornélio certamente ultrapassou o simples gesto de honra para um homem de Deus, um apóstolo, e fez o que só poderia ser dirigido a Deus. Tendo percebido isso, São Pedro pode teria rejeitado sua veneração exagerada. Assim, “não foi simples cumprimento”, “nem foi uma veneração correta”, que é justificável. Assim, Cornélio pode não ter tido Pedro como um “deus”, pois era piedoso, justo, temente a Deus, monoteísta, mas pensou-o em termos que não são aplicáveis aos santos, mas só a Deus, e foi corrigido por Pedro.

O que importa é o que “se faz” com as imagens, e não elas em si
Deus curava quando alguém olhava uma imagem. (cf. Nm 21,8) Sabendo que aquela bênção da cura vinda através de um gesto para com uma imagem de escultura era um “perigo” para aquele povo tão inclinado à idolatria, ainda assim Deus não evitou usar desse artifício. É a Sabedoria infinita que devemos imitar. Sabemos que, mais tarde, houve realmente idolatria diante da serpente de bronze, mas isso somente ocorreu quinhentos anos depois, ou seja, mais de dez gerações após o tempo de Moisés. Antes daquilo, os povos mantiveram a serpente de bronze, conservaram-na no acampamento. Ela foi objeto de instrução durante gerações, lembrando o que havia ocorrido. Isso é veneração.
Então, vem a afirmação: “Os católicos cultuam as imagens que representam os santos? Sim. Os católicos se prostram diante dessas imagens? Sim. Então estão praticando idolatria.

Adoração pode ser até “sem intenção”
“... pois, como vimos, Cornélio adorou Pedro sem intenção e João adorou o anjo sem intenção...
E para ficar mais claro esse sentido, vemos o seguinte: “qualquer imagem que seja objeto de culto e que se prostrem diante dela, o que biblicamente é considerado adoração”. (ênfase no original)

O caso de Pedro foi explicado antes. Quanto ao caso de São João e o anjo, certamente o anjo percebeu perfeitamente, por ser espírito, que São João estava ultrapassando a medida certa da veneração. Pode ter também querido mostrar humildade, elevando São João em honra, por ser servo de Deus, como ele.

A gente morre de medo se parecer com qualquer coisa que cheire e que tenha algum ranço de Catolicismo, não é verdade?” (Mauro Meister. Pode ser conferido aqui.)
Considerando as imagens como coisas que estão fora da Palavra de Deus, refere-se ao “medo da idolatria”. Mas, afirma que a idolatria não está na imagem, nem no santo. Está no idólatra. Correto.
Mas, ainda assim, um típico protestante não irá querer uma imagem de jeito nenhum! Se afirma que entendeu o princípio, então está aí a sua auto-refutação! Ele afirma ter aprendido para negar, que esse foi o caso, logo em seguida.


Gledson Meireles.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

É Eva a mulher no protoevangelho de Gênesis 3,15?

O protoevangelho está em Gênesis 3,15. É a primeira promessa do Salvador.
 
Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gn 3,15) (Bíblia Ave Maria)

 
E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Almeida Corrigida Fiel)

 
A leitura literal do texto é que Deus colocou ódio [inimizade] entre a serpente e Eva, entre o animal mais astuto do Jardim do Éden e a primeira Mulher. Também foi colocada a inimizade entre a descendência da serpente, que são todas as serpentes em espécie, e a descendência da mulher, ou seja, todos os homens. Trata-se da inimizade natural entre os homens e as serpentes.
O sentido espiritual é que Deus introduziu uma “inimizade” espiritual entre o Demônio e Maria, e entre a descendência do Demônio, que são os homens que o seguem, e a descendência de Maria, que é primeiramente JESUS CRISTO, pois Gálatas 3,16 refere-se ao descendente como no sentido singular, mas depois a todos os descendentes da mulher, que são os membros espirituais do Corpo de Cristo. Há um só descendente, que é Cristo, e todos estamos nEle pela graça. O cumprimento é perfeito.

 
Sendo que, entre Maria e o Demônio e entre Cristo e o Demônio, a inimizade é de natureza espiritual, temos então que Maria é amiga de Deus, e Seu Filho, como sabemos, é o próprio Deus, o Filho de Deus, que é a 2ª Pessoa da Trindade. Estando já reconciliada com Deus isso significa que o pecado original foi perdoado a ela. Assim, o Demônio não podia tê-la em sua amizade.
Romanos 5,1 fala que pela fé temos paz com Deus. A paz vem da reconciliação, da amizade. O justificado está em paz com Deus. Então, Maria foi justificada com Deus desde sua origem, pois a profecia afirma que foi colocada a inimizade entre ela e o Demônio. Cristo é Santo por excelência, portanto, já veio com essa total inimizade com o Demônio. Assim, nele estão todos os justificado em inimizade espiritual com o Maligno, pois estamos em paz com Deus.

 
Objeções: se o sentido espiritual fosse que a descendência da serpente, que é o Demônio, são os homens filhos do Demônio, e que a descendência de Eva é Jesus, e todos os Seus seguidores, excluindo Maria do paralelismo, isso já mostraria que há erro nessa interpretação. Por que a serpente teve o seu símbolo revelado e a mulher não? A serpente não continuou sendo o simples animal (cf. Gn 3,1), mas foi entendido, de fato, como o Demônio, mas a mulher continuou sendo Eva, que foi criada milênios antes do Salvador vir como Seu Filho? Por que a figura da mulher está sendo negada?
 
Então, se for feita nesse sentido a leitura espiritual, então a inimizade espiritual é entre o Demônio e Eva. O que isso quer dizer? Pois, na verdade, naquele momento Eva caiu em pecado, foi presa do Demônio, e sua amizade com Deus foi quebrada. Ali, naquele instante, a amizade foi feita com o Demônio. Por outro lado, isso significaria que Eva era amiga do Demônio e ali foi feita inimiga! Mas é heresia afirmar que antes do pecado os primeiros pais foram amigos de Satanás, e por isso a interpretação é falsa.
 
A única forma é aceitar a verdadeira promessa: Serpente=Diabo (cf. Ap 12,9); Mulher=Maria (cf. Ap 12,4-5); Semente da Serpente=filhos do Diabo (cf. João 8,44; Ap 12,15); Semente da Mulher=Jesus Cristo (cf. Ap 12,5.13) e os cristãos, filhos da Mulher (cf. Ap 12,17) O título mulher é dado por Jesus, na cruz, a Sua mãe Maria. Por isso ela foi chamada de Mulher. (cf. Jo 19,25)

Serpente   =   Diabo (cf. Ap 12,9);
Mulher   =    Maria (cf. Ap 12,4-5);

Semente da Serpente  filhos do Diabo (cf. João 8,44; Ap 12,15);

Semente da Mulher  Jesus Cristo (cf. Ap 12,5.13) e os cristãos, filhos da Mulher (cf. Ap 12,17) A semente é os filhos da mulher, sendo JESUS o Filho por excelência, e único, e nEle todos os filhos espirituais.

O título mulher é dado por Jesus, na cruz, a Sua mãe Maria. Por isso ela foi chamada de Mulher. (cf. Jo 19,25)

 Em termos indiretos temos aí a base para a doutrina da imaculada conceição de Maria.
 
Gledson Meireles.

Santo Agostinho e a imaculada conceição de Maria

O Dr. Joe Mizzi argumenta que santo Agostinho não cria na imaculada conceição de Maria. Isso pode ser visto no artigo Immaculate Conception and the Church Fathers. O artigo foi traduzido em um blog protestante reformado, especializado em Catolicismo Romano, e que avalia o Catolicismo a partir da perspectiva bíblica conforme entendida pela teologia Reformada. A tradução pode ser lida no artigo  Agostinho e a imaculada conceição de Maria.
O tradutor escreveu uma nota para mostrar que a afirmação dos apologistas católicos quanto ao fato de Santo Agostinho crer na imaculada conceição não procede, pois o mesmo “cria que Maria não pecou durante a vida, porém, ela não foi preservada do pecado original, compartilhando com toda a humanidade da necessidade da redenção que há em Jesus Cristo.
O artigo faz justiça ao fato que Santo Agostinho ensinou que a virgem Maria não cometeu pecado em toda a sua vida o mesmo que é ensinado também por Santo Tomás de Aquino, que afirma que Maria não cometeu pecado nenhum, nem mortal nem venial. Temos, assim, uma verdade de fé de dois dos maiores expoentes da teologia cristã católica, um do século quarto e outro do décimo terceiro século, que testemunham uma verdade bastante crida em toda a Igreja.
Em termos básicos podemos afirmar que essa constatação está de acordo com a fé na imaculada conceição. Apenas a doutrina em si não havia sido elucidada, devido ao argumento de que isso poderia implicar na exclusão de Maria no plano da redenção, o que não pode ser acreditado. Por isso, Santo Tomás é explícito em negar a imaculada conceição, e Santo Agostinho pode ter também negado, embora não explicitamente.
Embora, também, certamente tenha sido essa a posição de Santo Agostinho e Santo Tomás, eles ensinam aí duas verdades: Maria não pecou, mas necessitou da redenção de Cristo. Esses dois postulados são bíblicos e defendidos pelo Catolicismo. Por isso, escreve Mark Bonocore: “No entanto, o que NÃO era uma matéria de debate era a impecabilidade de Maria[1]. E afirma que o debate tinha a ver quanto ao momento em que essa impecabilidade começou. De fato, Maria nasceu de pais que tinham o pecado original, diferentemente de Cristo que foi gerado pelo Espírito Santo nela, que já havia sido redimida. Cristo é o único absolutamente SANTO, por Sua própria natureza de Deus, e por Sua geração e nascimento virginais. A virgem Maria teve outro motivo para isso, e a respeito do momento dessa santificação foi o que durou séculos para ser definido.
Cremos no desenvolvimento da doutrina. Desenvolvimento não quer dizer invenção ou nascimento de uma doutrina depois da era apostólica. De fato, os apóstolos ensinaram a imaculada conceição, em princípio, ainda que nunca tenham, por certo, usado o termo ou falado dela diretamente. Assim, a doutrina é apostólica por estar no depósito da fé deixada pelos apóstolos.
O mesmo pode-se afirmar sobre a trindade. Não esperaríamos ver nas páginas sagradas os apóstolos ensinando o conceito completo da trindade, ou pronunciando o termo trindade, pois certamente não fizeram isso, conforme os modelos de hoje. No entanto, no registro santo de Deus na Bíblia essa doutrina é de origem apostólica, e foi definida no ano 325, enquanto a imaculada conceição veio a ser definida em 1854. As circunstâncias históricas explicam os motivos desses pronunciamentos.
Poderíamos pensar também da seguinte forma: não há na Bíblia nenhum ensino contrário à trindade, como fazem muitos esforçando-se por mostrá-lo, e ninguém encontrará os apostólos pregando um sermão sobre isso, da mesma forma que não verão qualquer apóstolo negando essa verdade. Aliás, ainda assim isso não é o argumento do silêncio, pois a doutrina pode ser vista nas afirmações que a Bíblia faz a respeito do assunto.
Igualmente, nenhum leitor encontrará na Bíblia um sermão completo sobre a imaculada conceição, mas, por outro lado, não achará um só apóstolo negando esse ensino. Também aqui não há espaço para o argumento do silêncio, pois das asserções feitas na Bíblia é entendido que a doutrina está lá.
Diríamos que, da forma como a entendemos hoje, nenhum apóstolo nem Santo Agostinho e Santo Tomás, nega a doutrina da trindade ou da imaculada conceição Maria.

Glória seja dada a Deus para todo o sempre.

Gledson Meireles.


[1]

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Santo Inácio: o pertencimento à Igreja e a Eucaristia

A respeito dos hereges, Santo Inácio exorta a mantermos distância dos mesmos. Desses ele afirma que não são plantas de Deus, são plantas más, e que Jesus não cuida delas por isso. Então, escreve: “Pois quantos são de Deus e de Jesus Cristo estão também com o bispo. E quantos irão, no exercício do arrependimento, retornar à unidade da Igreja, esses, também, pertencerão a Deus, para que eles vivam de acordo com Jesus Cristo[1]. Muito diferente do que ensinam em muitas igrejas, de que o pertencimento à Igreja invisível é que garante a salvação. Santo Inácio não ensina essa doutrina. Essa exortação é claramente referente ao pertencimento à Igreja visível, pois deve-se estar em comunhão com o bispo, que é sinal de que o fiel está com Deus e com Jesus Cristo. Portanto, Santo Inácio afirma que o retorno à unidade da Igreja é o retorno à Igreja visível. Assim, e por meio disso, estará ligado à Igreja invisível.
Mais adiante, afirma completando o sentido de sua exortação: “Se algum homem segue aquele que faz cisma na Igreja, ele não herdará o reino de Deus[2]. Isso significa que se alguém segue o cismático e não mais está com o bispo, em sua autoridade, e vai atrás de outro líder cristão herege, esse não está mais na Igreja, e assim não será salvo. É a verdade de que fora da Igreja não há salvação.
Sobre a Eucaristia, santo Inácio ensina: “Preste atenção, então, para ter só uma Eucaristia. Pois há uma carne de nosso Senhor Jesus Cristo, e um cálice para [mostrar] a unidade de Seu Sangue; um altar; como há um bispo, juntamente com o presbitério e os diáconos...[3]. Essa apresentação é muito sugestiva, pois é evidente a fé na Eucaristia como real corpo e sangue de Jesus, e que é um sacrifício, pois menciona o altar, que é lugar de sacrifício, e refere-se também ao simbolismo da Eucaristia, a unidade, assim como mostra a hierarquia da Igreja sob um só bispo, o corpo de presbíteros, que são os padres, e, finalmente, os diáconos. Essa é uma elucidação, pois as palavras de Santo Inácio são compatíveis com a fé na presença de Jesus nos elementos do pão e do vinho, e incompatível com as teologias que séculos vieram depois.
Então, escrevendo na Epístola aos Esmirnenses, capítulo 7, a respeitos dos hereges: “Eles abstém-se da Eucaristia e da oração, porque eles não confessam a Eucaristia ser a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, a qual sofreu por nossos pecados, e a qual o Pai, de Sua bondade, ressuscitou novamente.”[4] Para refutar os hereges do docetismo gnóstico, que não criam na realidade da encarnação de Cristo, e apenas ensinavam uma aparência de humanidade nEle, São Justino mostra esses heréticos não confessando a verdade de que a Eucaristia é a Carne de Jesus. Não poderia estar se referindo a um simbolismo, já que isso não refutaria o gnosticismo. Ele mostrava ser uma identidade da Eucaristia=carne e sangue de Cristo.
Seria inócuo afirmar que a Eucaristia era apenas símbolo da Carne de Jesus que seria apenas aparente. Isso estava mais conforme o modo de pensar dos gnósticos. Pelo contrário, ele prova que Jesus tem verdadeiro Corpo, e que a Eucaristia é esse Corpo que os hereges negam.
Ainda, contra essa heresia, apresenta o dogma da Eucaristia como necessário professar: “Aqueles, portanto, que falam contra esse dom de Deus, incorrem morte no meio de suas disputas[5].
Para ficar ainda mais claro quanto a isso e à hierarquia da Igreja, Santo Inácio apresenta o sacerdócio, que é o que torna possível a celebração da Eucaristia, apresentando a Igreja visível, com sua hierarquia, que é a Igreja de Jesus, pois é onde Ele está:
Que nenhum homem faça nada ligado à Igreja sem o bispo. Que seja observada a própria Eucaristia, a qual é [administrada] ou pelo bispo, ou por um daqueles que ele a confiou. Onde o bispo aparecer, a multidão [do povo] também estará; assim como, onde Jesus Cristo está, há a Igreja Católica.”[6]
Alguém diria que a designação Igreja Católica tinha um sentido diferente na época, o que não é verdade. Ele está falando da Igreja em toda parte, cada qual, dentro de suas circunstâncias, sob a autoridade de um bispo, e também governada, com ele, pelo grupo dos presbíteros e pelos diáconos. Sendo assim, toda a Igreja tem sua união em Jesus Cristo. Não é à Igreja invisível que se refere o texto, mas à visibilidade, à concretude da Igreja Católica na terra.
E nesse contexto todo, exorta: “É bom reverenciar a Deus e ao bispo. Aquele que honra o bispo foi honrado por Deus; aquele que faz algo sem o conhecimento do bispo, [na verdade] serve o Demônio.”[7] Não podia ser mais claro.
Gledson Meireles.

[1] Epístola aos Filadelfos, 3.
[2] Ibid.
[3] Ibid., 4.
[4] Epístola aos Esmirnenses, 7.
[5] Ibid.
[6] Ibid., 8.
[7] Ibid., 9.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Lutero e a revolta dos camponeses

 A guerra dos camponeses foi um evento ocorrido no interior do Protestantismo, quando o poder civil alemão esmaga a revoltada massa de camponeses anabatistas que seguia o espírito da Reforma, mas cheia de ideias extremistas e, não raramente, destoantes da doutrina de Lutero.

A posição de Martinho Lutero é entendida pelos seus defensores como a opinião de que, não tendo a influência e o poder político em suas mãos, não podia acarretar o que ocorreu ali, na guerra onde acabaram morrendo milhares de pessoas. Aquilo ocorreria com ou sem a sua opinião.[1] Suas palavras não podiam fazer os príncipes agirem ou não, sendo isso de uma importância pouco significativa.

Caso se o papa pedisse a paz, por exemplo, escrevendo aos príncipes para deixarem o movimento sem punição, isso supostamente seria acolhido com total unanimidade. O mesmo que ocorreria se o papa pedisse o massacre daqueles revoltosos. Assim, o papa e a Igreja estariam culpados pelo que ocorreu com os camponeses, não tendo como defender-se, pois o poder estava em suas mãos. Isso é o que está por detrás da argumentação, como se na história essa fosse a regra sempre acatada, nunca quebrada. Ou pelo menos raramente. Sabe-se não ser isso correto, mas não é o lugar para tratar questão. Vejamos a posição de Lutero, o pai do Protestantismo, nesse contexto.

Por essa via, seria injusto pensar segundo a cultura moderna e julgar a posição do Reformador naquela situação complicada, em tempo de conturbação como eram aqueles do século 16, o que é um princípio correto. Podemos afirmar, sobre isso que: os camponeses ultrapassaram o limite da justa reivindicação, e passando a agir violentamente, causando transtorno da ordem social, deviam ser freados pela força militar do império, para garantir a paz. Suas ideias eram heréticas, e o movimento não era somente social, mas reformador. Nada mais normal o poder temporal ser usado para conter a violência.

Para quem atualmente arrepia-se ao pelo menos imaginar uma medida mais enérgica para conter as heresias no passado, efetuadas pelo poder temporal com o apoio do papa, e que veem em Lutero o homem para o seu tempo, é preciso saber como ele pensava a respeito dos camponeses, e o que teria feito se fosse o governante, ou pudesse usar ele mesmo o poder, e de fato como fez ao ensinar e aconselhar os príncipes a agir.

Lutero afirma[2] que os camponeses tinham expressado sua boa vontade em ser ensinados e corrigidos, e por isso não ia julgá-los, conforme Mt 7,1. Mas logo eles esqueceram de sua promessa, passando a cometer crimes como cães raivosos, ao modo de “cachorros doidos”. Os 12 Artigos que os camponeses apresentaram era de que não passava de mentira, sob o nome do evangelho. E escreve Lutero: “eles estão fazendo a obra do diabo”.

Por isso, Lutero muda sua opinião, e adota outro tom em sua obra, conforme acredita ser o seu dever. E para tal, passa a fazer o que acha certo: “Eu então devo instruir os governantes como eles devem conduzir-se nessas circunstâncias”. Por essas palavras, não parece ele que sabia da guerra, de nenhuma medida tomada pelo poder secular contra a revolta dos camponeses.

Pelo pecado deles, diz Lutero, esses devem sofrer a pena de morte do corpo e da alma. Pela pilhagem que estavam fazendo nos conventos e castelos, eles devem ser mortos, e o primeiro que o fizer está agindo bem. Ensinou a matar os revoltosos aberta ou secretamente.

Aludindo à doutrina pregada pelos anabatistas, afirma que o batismo não faz o homem livre em propriedade e corpo, mas na alma. E tratando-os como hereges, escreve: “Bons cristãos eles são! Eu penso que não há diabo deixado no inferno; todos eles entraram nos camponeses.”

Quanto à sua posição a respeito do poder secular, seja ele cristão ou mesmo pagão, é que os perturbadores e desobedientes devem ser punidos. Afirma: “Esse não é um tempo para dormir. E não há lugar para paciência ou misericórdia. Esse é o tempo da espada, não o dia da graça.”

Dependendo de Lutero, após a revolta dos camponeses, a sorte deles teria sido diferente? Basta pensar.

Agora, como Lutero não foi o responsável direto de tudo isso, e chegou a criticar os príncipes por sua crueldade naquele empreendimento, isso é visto com bons olhos, o que não seria de forma alguma se se tratasse da Igreja Católica. De fato, Lutero é facilmente perdoado e defendido, pois está “longe” de ser como os “papistas”. Não é mesmo?






[1] Cf. http://beggarsallreformation.blogspot.com.br/2007/11/luther-and-peasants-revolt.html.


[2] http://www.scrollpublishing.com/store/Luther-Peasants.html.