sábado, 11 de abril de 2026

Guilherme Freire vs Edson Toshio: a existência do mal

Comentando o livre-arbítrio em uma objeção ateísta


De forma resumida, o ateu acredita que é capaz de raciocinar criticamente na sua interpretação da Bíblia e provar que Deus não existe porque o mal existe. Vejamos um pouco sobre o livre-arbítrio é a falha que está por trás da aparente erudição do argumento ateísta.

Sabemos que o livre-arbítrio explica o mal moral no mundo. No entanto, o debatedor ateu critica o conceito dando o exemplo de alguém cometendo o mal contra outro, uma vez que o mal praticado por aquele estaria sendo respeitado por Deus enquanto que o mal sofrido pela outra pessoa significaria que Deus não estaria respeitando o livre-arbítrio da mesma. Nesse sentido, o livre-arbítrio seria sempre o do mais forte.

A objeção acima é sutil é cheia de problema. O livre-arbítrio é a capacidade moral de agir ou não agir. Nesse caso acima, aquele que age mal teria o livre-arbítrio e a vítima não. Portanto, o livre-arbítrio citado aí não é o mesmo que a doutrina cristã católica ensina. Esse é um problema em debater e usar um termo  com sentido diverso sem saber ao certo o que se está debatendo e contra o que exatamente. De fato, isso não é livre-arbítrio.

Em segundo lugar, a ideia subjacente na consciência do ateu exige que para a existência de Deus, que é o Sumo Bem, não poderia haver o mal na criação. Assim, o livre-arbítrio de uma pessoa deveria ser garantido como o da outra, e assim de todos, segundo o conceito advindo do exemplo acima, e desse modo, é óbvio que a conclusão é a extinção do livre-arbítrio.

Uma vez que alguém deseja fazer algo que ultrapassa a liberdade de outro, ele não poderia fazê-lo, pois estaria limitado a isso pelo poder de Deus que garantiu as leis naturais impedindo que um sofresse a ação advinda da liberdade de outro. Nessa situação, o mal deixaria de existir e somente a Vontade de Deus prevaleceria. É o mundo desejado. Como o ateu não crê em Deus, uma razão para isso seria a existência do mal.

Nesse caso, o ateu está raciocinando segundo as exigências da razão de que a justiça perfeita é condizente com a existência do Bom Deus, e a existência do mal incompatível com a natureza divina.

Com isso, tem-se que no íntimo da consciência o ser humano rejeita totalmente o mal e deseja justiça contra ele. É o instinto natural que diz que o mal deveria ser extinto. Dessa forma, isso é usado pelo ateísmo como argumento contra o Sumo Bem.

Uma vez que a realidade demonstra que há o mal, nessa lógica, por meio de um raciocínio mais complexo, Deus não deveria existir. No entanto, a simples existência do mal não é categoricamente uma prova da não existência de Deus.

De fato, como explica o catecismo, Deus criou o mundo em estado de caminhada, permitindo o mal físico, por exemplo. E, com isso, a existência do mal moral advém da liberdade já tratada acima, o que é plenamente compreensível.

Desse modo, temos que o ateu raciocina segundo a exigência da razão de que haja o bem, na criação como obra de um Deus bom, mas não pode prescindir da realidade de que esse dado da consciência é superior à natureza humana, não é uma opinião individual, mas um apelo da razão universal, de modo que há uma origem desse senso de justiça, que só pode ser Deus, e somente Ele pode dar a resposta.

Nisso, temos que Deus, sendo Bom e Todo-Poderoso pode acabar com o mal, e o fará, de modo a cumprir as exigências da Sua justiça que é refletida na mente humana.

Assim, temos que o desejo de justiça não é algo que meramente existe e não tem outra finalidade, como seria em um mundo sem Deus. Nesse caso, esse senso de justiça seria vão, já que todos esperariam uma vida imanente que terá um fim e toda a injustiça não terá remédio algum. O acaso seriar a explicação e a esperança de algo melhor seria pura ilusão. Mas o acaso não explica nada, e a ilusão não podes ser radicada em um instinto tão forte.

Entretanto, na fé cristã, fundamentada na razão, temos a promessa de que essa exigência da justiça perfeita será cumprida por Deus totalmente, de modo que não é um senso sem sentido, mas que indica sua futura realização. E isso só pode ser realizado por Deus.

Sendo assim, o raciocínio usado contra a existência de Deus por causa da existência do mal é algo que esconde a esperança de que o mal não exista e que o mundo seja bom e a vida feliz, onde todos ajam segundo uma Vontade que não permita o mal em nenhum sentido, e mais, de que isso será possível, o que somente Deus pode fazer. Temos assim a refutação radical da objeção ateísta por meio do problema do mal.

Com efeito, o ateu raciocina segundo as leis naturais do pensamento, onde a bondade de Deus exige a bondade de tudo. Doutro modo, não poderia formular nenhuma objeção pelo problema do mal.

Não pode, porém, entender que Deus, em Sua sabedoria, pode criar um mundo em vias de perfeição, onde a existência do mal é possível e permitida, e somente possível porque é permitida, mas que no fim tudo se conformará à natureza de Deus, o que está refletido nos raciocínios acima, que revelam o desejo último de que somente exista o Bem e a justiça seja plena. Isso é filosofia, pois segue os rumos da razão, e não abraça a desistência de pensar.

A própria existência do ateísmo mostra o livre-arbítrio em ação. O homem decide não crer por certos motivos.

O ateísmo raciocina segundo o senso de justiça.

Acredita-se, talvez, que esse senso seja natural e proveniente do acaso.

Com isso, seria um senso de justiça inexplicável e insaciável, já que a curta existência humana não daria nenhuma expectativa de que o mesmo pudesse ser satisfeito.

O cristianismo, por sua vez, como ensina a Igreja Católica, seguindo os ditames da razão e da revelação, crê em Deus, bom e todo-poderoso.

O senso de justiça é algo que está na natureza criada por Deus.

A justiça de Deus será manifestada no fim, e todos viverão em Deus, quando tudo estiver a Ele submetido.

Isso explica que o mal é passageiro, que a consciência moral não é vã, e que esperamos o fim do mal e a vida eterna em felicidade.

Aquilo que o ateu pensa do que deveria ser a criação é o que está na promessa de Deus para o reino eterno, onde tudo será bom e justo, onde Deus será tudo em todos. Homem busca a Deus.

Gledson Meireles.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Debate: 1 evangélico vs. 25 católicos

O apologista Bruno Lima comentou a respeito do debate "1 evangélico vs. 25 católicos" e fez certas colocações sobre o celibato e a invocação dos santos.

Segue abaixo uma breve reflexão que serve de refutação às colocações feitas.

Celibato obrigatório

Se a Bíblia não oferece uma regra a respeito do celibato ou do matrimônio, isso significa que há liberdade para escolha entre os dois modos de vida. Isso significa também que não há a regra de que deve haver liberdade para a escolha, mas que essa é a situação, sem prescrição nenhuma.

Exposição. Se a Igreja introduzir a disciplina de que os sacerdotes devem ser escolhidos entre homens casados, essa regra é conforme a doutrina bíblica, porque há liberdade para isso. Se a Igreja optar por ordenar homens que tenham a vocação para o celibato, essa também é uma norma bíblica, porque a Igreja tem liberdade para agir assim.

O que os protestantes atuais tentam defender na apologética é algo que não percebem. De fato, o que propõem contra o celibato pressupõe a existência de uma lei que proíbe promulgar lei nesse sentido.

É como se houvesse uma lei da liberdade de escolha entre matrimônio e celibato, e assim não poderia haver qualquer uma das alternativas como lei, pois seria proibido à Igreja optar por uma delas somente. Mas não há lei alguma dessa natureza na Bíblia.

Em outras palavras, a Bíblia não diz que é proibido legislar nesse sentido. Não diz que não se deve impor o celibato nem que não se deve impor o matrimônio nem que se deve deixar o caso aberto para cada candidato escolher. A Igreja tem liberdade para escolher o que parece mais conveniente e de acordo com a participação no único sacerdócio de Cristo.

Assim, a Bíblia não ensina:

1.      É necessário ser celibatário.

2.      É necessário ser casado.

3.      É necessário deixar livre a escolha entre ser celibatário ou ser casado.

Isso tornaria a questão assim:

1.      É proibido ser casado (no caso 1)

2.      É proibido ser celibatário (no caso 2)

3.      É proibido impor uma lei nessa questão (no caso 3)

O protestante não pode provar biblicamente a questão 3.

Portanto, está refutada essa posição.

 

Oração aos santos

Em Ap 5, 8 está escrito: “quando recebeu o livro, os quatro Animais e os vinte e quatro Anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um uma cítara e taças de ouro cheias de perfume (que são as orações dos santos).”

Em Ap 8, 3 está escrito: “Adiantou-se outro anjo e pôs-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foram-lhe dados muitos perfumes, para que os oferecesse com as orações de todos os santos no altar de ouro, que está adiante do trono”.

O texto afirma que os anciãos e os quatro seres viventes estão com as orações dos santos. Não está revelado que as orações a Deus não poderiam ser por meio da intercessão dos santos do céu. Apenas diz que eles estão com as orações dos santos da terrra.

Depois, o anjo recebe perfumes para que coloque no altar de ouro junto com as orações dos santos.

Deus recebe as orações. No entanto, elas são oferecidas por meio dos santos e anjos no céu. Não está escrito que essas orações não foram feitas através de pedidos de intercessão, mas somente que são orações dos santos.

Dessa forma, qualquer ideia que negue a invocação para intercessão dos santos do céu é algo que não está no texto bíblico. Pelo contrário, toda a cena implica que há essas ações.

Gledson Meireles.

 

 

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

1 Evangélico x 25 Católicos: comentário

Debate Lucas vs. 25 católicos

Abaixo há apenas algumas considerações sobre pontos do debate, de forma a deixar o leitor instigado a estudar mais. Os dois primeiros itens serão tratados mais longamente, e os últimos terão apenas comentários breves.

O debate em geral. A postura dos debatedores não contribuiu muito para o esclarecimento de cada tema. Muitas interrupções.

Os temas debatidos foram o celibato obrigatório do clero antibíblico, a Bíblia não ensina rezar para santo, a tradição oral romanista não é confiável, o magistério católico contradiz a si mesmo e os católicos acrescentaram 7 livros ao Antigo Testamento.

Os argumentos apresentados foram bons, e as respostas muitas vezes não tão claras e, às vezes, a lógica dos argumentos falhava em certos momentos por parte dos católicos, embora estivessem corretos na doutrina, mostrando pouco treino em debater essas questões.

As citações bíblicas não foram muitas, em ambos os lados, mas suficientes para apresentar o tema.

O uso da razão e da lógica por parte do debatedor protestante foi bem utilizado nas argumentações, mas falhando nos pontos importantes, como será demonstrado abaixo.

Os fatos históricos mencionados são importantes para a compreensão dos temas e deveriam ser melhor aproveitados.

A base bíblica para a doutrina católica mostrou-se sólida, mas houve mal-entendidos nas argumentações, não deixando-a clara.

 

1)      Celibato obrigatório

 

Contexto: Tito 1, 6: Devem ser escolhidos entre quem seja irrepreensível, casado uma só vez, tenha filhos fieis e não acusados de má conduta ou insubordinação.

Explicação. Esse é o conselho geral para escolha dos candidatos ao sacerdócio: moral irrepreensível, casados uma só vez, com filhos fieis e obedientes. Não havia um número considerável de celibatários naquele tempo. Não houve uma lei para escolha de homens apenas celibatários para o sacerdócio. Também não era lei que os candidatos fossem casados. Assim, há uma espécie de costume e não de lei imutável.

Um homem que houvesse tido vida repreensível, ou casado mais de uma vez, ou tenha tido filhos acusados de má conduta, ou seja, que causaram escândalo, não seria aceito, pelo motivo que exclui o mesmo como apto para o sacerdócio. O contexto imediato não proíbe que sejam escolhidos homens celibatários.

Se a Bíblia dissesse que deveriam ser escolhidos somente homens entre os celibatários, não haveria proibição de casamento para os demais homens, mas uma escolha entre aqueles que já haviam decidido não se casar, como faz a ICAR, no rito latino. E, automaticamente, os homens casados estariam fora dessa possibilidade de ser tornarem parte do clero.

São Paulo era celibatário, sendo assim desde a juventude, ou mesmo se fosse viúvo não há diferença nesse particular, pois ele claramente defende o celibato como estado de vida superior ao do matrimônio. Desse modo, o apóstolo não iria ensinar uma lei contrária àquilo que o mesmo ensinava ser preferencial.

Se se objetar que São Paulo opinou sobre o celibato voluntário e não obrigatório, ainda assim a contradição da intepretação protestante continua. Biblicamente, o protestante tem de reconhecer que sua interpretação coloca uma passagem contra a outra. Portanto, está refutado.

Demonstração. Se há uma regra que diz que devem ser escolhidos apenas homens casados, então São Paulo estaria advogando um estado de vida superior como proibido para o sacerdócio. O celibatário não poderia ser ministro do evangelho. Assim, a interpretação protestante está errada.

Exposição. Com isso, temos que assumindo a realidade geral, onde poderiam haver celibatários, como São Paulo e outros apóstolos, a regra seria escolher homens celibatários, de preferência, ou se não houvesse, que fossem moralmente ilibados, casados uma única vez, e tivessem filhos de conduta moral irrepreensível. O próprio São Paulo estava na categoria dos celibatários.

A Igreja, com o tempo, adotou a disciplina mais conveniente e mais de acordo com o espírito do evangelho. De fato, o celibato é apresentado como preferível ao matrimônio. Assim, o rito latino exige que os candidatos ao clero seja celibatário, o que é um estado de vida com fundamento bíblico.

O argumento protestante era contrário ao celibato em si. Hoje é contrário à obrigação do celibato pela Igreja, de modo a manter a oposição.

A interpretação de 1 Cor 9, 5 da mulher irmã como esposa cristã encerra a mesma contradição acima. São Paulo não estava advogando o direito de ter esposa cristã, pois ele outros apóstolos eram celibatário. Tratava-se de mulheres irmãs, como diz o texto original e contexto bíblico já apresentado.

Em Mateus 19, 12 Jesus mostra a superioridade do celibato. Obviamente, não está tratando da obrigação dos sacerdotes serem celibatários, mas mostra que há aqueles que escolhem esse modo de vida por causa do Reino dos Céus. Afirmar que a Igreja não pode escolher somente entre os celibatários para compor o clero é negar a autoridade da mesma e afirmar algo que vai além da questão, como se o casamento do clero fosse algo obrigatório, contrariamente ao que já foi explicado. Portanto, a Igreja usa da sua autoridade para incluir na disciplina essa norma. E não há objeção contra a autoridade da Igreja em escolher normas santas de vida.

E um argumento quase foi formado durante o debate, tendo a ver com a imoralidade, que seria combatida por meio do casamento do clero. Isso hoje é empiricamente provado ser sem grandes efeitos. A esmagadora maioria dos pastores protestantes são casados. No entanto, é possível perceber facilmente que a imoralidade não é rara nesse meio, já que, assim como há entre o clero católicos, muitas notícias de escândalos são veiculadas em referência aos ministros protestantes. A vida cristã com suas normas santas é que se mostra eficaz contra tais coisas. O casamento em si não parece ser uma barreira importante nesse sentido.

Desse modo, a ideia contrária à obrigação do celibato para os que serão parte do clero não pode tornar-se motivo de alguém contra a ICAR, como motivo de não ser católico. Seria um argumento falho demais, uma opinião privada bastante frágil.

Proposições bíblicas:

1.      Não há regra bíblica para o casamento ou não dos ministros do evangelho.

2.      Celibato é superior ao matrimônio.

A Igreja, nesse caso, escolhe adotar a forma de vida mais conveniente para o clero, e possui esse direito.

Em determinado momento o apologista protestante questiona se a igreja tem autoridade para mudar essa norma. Segundo o que ele pensa, deveria haver liberdade para casar-se ou não. O argumento do apologista protestante poderia ser formulado da seguinte maneira: a Bíblia deixa livre ao ministro casar ou não. Essa é a lei. Impor o celibato é errado.

Esse ponto entra na questão da autoridade da Igreja que com sabedoria maior adota a norma mais conveniente para o ofício do clero. Essa norma não fere qualquer lei bíblica. Pelo contrário, como visto, auxilia na maior conformidade com o estilo de vida de Jesus.

A citação de História Eclesiástica III, 30 não ajuda muito nesse sentido, já que contem erro, pois é dito que São Paulo era casado, não andava com a esposa para facilitar seu ministério e menciona a sua esposa em suas epístolas. Trata-se de um erro de interpretação bíblica.

Conclusão.

Se há uma regra e a Igreja escolhe outra, isso é antibíblico.

Se não há regra alguma e a Igreja decide formular uma, isso não contraria a Bíblia.

A formulação da regra desse ser bíblica.

É essa a posição da Igreja Católica.

 

2)      Rezar para santos

O apologista protestante tentou refutar a oração aos santos com base em Ap 5, 8 citado pelo debatedor católico, dizendo que a fumaça subiu, o que significa que não estava no céu, mas veio da terra. O problema é que o argumento católico fica de pé, pois a ênfase não é se as orações vieram da terra e subiram até o trono de Deus, mas que foram intermediadas pelos anciãos. Os anciãos possuem uma função nessa entrega das orações.

Mas, alguém orou para os anciãos? O texto não diz. O fato é que os anciãos participam das orações. Se é assim, é portanto bom pedir aos santos que intercedem por Deus, pois eles realizam esse ofício.

O tema é intercessão, ou tem a ver com isso. De fato, o Lucas quer que seja mostrado um texto claro onde um cristão no NT esteja orando a alguém que já morreu e pedindo que interceda por Deus. É uma exigência pensada, já que assim, uma vez não havendo o texto, venceria o debate. O problema é que deve ser tratada a doutrina em seus fundamentos, com princípios bíblicos, e não apenas textos com certas exigências.

Alguém poderia pedir um texto em que o Pai, o Filho e o Espírito Santo estejam sentados em um trono. Ou em três tronos. Não há tal texto, embora a Bíblia, no Apocalipse, mostre o Pai e o Filho no trono e os sete espíritos de Deus diante do trono, em linguagem simbólica para tratar do Pai do Filho e do Espírito Santo, mostrando a trindade. Assim, não havendo um  texto em que mostre o Espírito no trono não é prova alguma contra a trindade, assim como não é prova alguma contra a prática de rezar aos santos a falta de uma passagem mostrando alguém na Bíblia orando diretamente ao santo por intercessão. É necessário entender a doutrina.

Há ou não direito de dirigir-se aos santos do céu. Biblicamente sim. É preciso entender a doutrina. Se os anciãos levaram os pedidos da terra até Deus, está implícito que podemos pedir aos anciãos a sua intercessão. De fato, dessa passagem não se pode dizer que é proibido pedir aos anciãos, o que seria um non sequitur. E em nenhum texto bíblico há proibição de rezar aos santos. O que existe são implicações favoráveis, como a citada acima.

O termo santo: se todos os cristãos são santos, é correto afirmar que os que estão na glória do céu são santos.

E exigido exemplo de oração aos santos já falecidos na Bíblia. Não há exemplo direto, mas princípios que corroboram a prática. E não há qualquer proibição dessa prática.

Deveria haver o ensino direto para rezar aos santos e um exemplo disso explicitamente no texto bíblico. Embora no debate tenha sido mostrado, de certa forma, o princípio da intercessão, parece que não foi suficiente.

Diga-se, de passagem, o caso de Onesífero não é exemplo de intercessão dos santos no céu, mas de oração pela alma de um falecido.

1ª razão: As orações são sempre para Deus.

São os exemplos de orações encontrados na Bíblia. Não se pode deles afirmar que é proibido rezar pedindo intercessão aos já falecidos.

2ª razão: Estado de inconsciência dos mortos.

Os mortos estão conscientes. Leia o livro A imortalidade da alma não é lenda.

 

3)    3) A tradição “romanista” não seria confiável

 

Sobre a questão de Petros e Petra o aramaico seria desfeito pelo grego, que diferencia os termos. Mas isso não procede uma vez que petros e petra são intercambiáveis no grego e são o mesmo termo em aramaico. Então, não se pode partir desses termos em grego para incluir outro sentido além do original e contra o original a não ser para desenvolver um significado  secundário.

O único modo de saber com exatidão sobre o que foi pregado por Jesus é a Escritura Sagrada. O conteúdo da tradição apostólica está em fontes não inspiradas, e somente por meio da autoridade da Igreja é que se pode chegar à certeza desse depósito, pois a Igreja tem a promessa de ser guiada à verdade, e poder ler os santos padres e demais escritores cristãos, como identificar nas fontes litúrgicas, arqueológicas e nas decisões conciliares e documentos magisteriais dos papas, aquilo que é tradição apostólica. Isso ocorre no caso da do batismo infantil, da imaculada conceição e assunção de Maria, por exemplo.

 

4)  4) O magistério católico se contradiz

Em questões de fé e moral o magistério não se contradiz. Há mudança na aplicação de princípios em períodos diferentes da história. Certas mudanças de ensinos da Igreja não são de fato contradições como os protestantes entendem. Esse ponto é complexo.

 

5) 5) Os católicos acrescentaram 7 livros ao Antigo Testamento

Essa questão é ampla e complexa, não será feita considerações aqui. O fato é que o cânon católico que foi estabelecido em Trento é o mesmo que o dos antigos concílios, incluindo o de Florença. Contra fatos não há argumentos.

Gledson Meireles. 

domingo, 29 de março de 2026

Ateus detonam, supostamente, ao explicar a realidade

Aqui segue um comentário sobre o que filósofos ateus afirmaram sobre a existência de Deus.

Filósofos ateus apelam para a intersubjetividade para explicar a existência de Deus. Deus seria criação da intersubjetividade.

A realidade criada pela intersubjetividade seria uma realidade não empírica, mas real, pois produz efeitos, tendo consequências empíricas. O ser humano viveria na objetividade, subjetividade e intersubjetividade, e Deus estaria como criatura da intersubjetividade.

Entretanto, Deus não seria a estrutura da realidade no seu aspecto mais fundamental. Nesse caso, quem seria? O ser humano, é óbvio. Seria o seguinte: os seres humanos criadores da realidade fundamental por meio da intersubjetividade.

Então, tudo seria criado pelo cérebro, mas não reduzido ao cérebro.

O exemplo dado, do ponto desenhado e apagado continuar a existir, seria que o ponto desenhado constitui apenas a representação do ponto objetivo real mas virtual, ou seja, ideal, e não o próprio ponto. Vamos analisar esse argumento. Antes, vejamos outro. O personagem Batman existe na realidade intersubjetiva.

Raciocinando com os pressupostos apontados acima, quando a humanidade começou a existir, por acaso, por variados e complexos processos evolutivos, que seguiram leis evolutivas que teriam trazido à existência corpos complexos a partir de seres simples, não sabendo como isso ocorreu, de que forma isso veio a ser realidade, como a existência foi possível. Pois bem.

Nesse tempo não havia o poder para criar as leis intersubjetivas, nem os personagens virtuais que transcendem a matéria, pois não havia um número x de indivíduos capazes de criar essa realidade intersubjetiva. Então não havia ética, moral, bom, belo, justiça, etc. Havia apenas a realidade com suas leis objetivas naturais, que o ateísmo não sabe explicar de onde se originam.

O problema é que há uma inteligência superior por trás do surgimento da humanidade, e não sendo assim, não há realidade. O surgimento dos dois sexos, a possibilidade de união entre os dois para a propagação da espécie, implicando uma teleologia, e etc., já é um obstáculo para o ateísmo.

A intersubjetividade que cria leis e valores que transcendem os próprios indivíduos e não se reduz ao cérebro implica a objetividade dessas leis e não a origem dela nos seres racionais. Se elas são objetivas, não são intersubjetivas na origem. E os filósofos citados concordam até aqui.

Na verdade os seres apenas percebem essa realidade através da razão. Não há uma criação das leis, mas de uma estrutura que suporta e realiza essas leis.

Um personagem fictício que é criado pela imaginação e está na mente, na memória, e não existe objetivamente, não é uma realidade física, nem espiritual, mas imaginária, virtual, ainda que com ela se faça muitas coisas, e a mesma tenha consequências empíricas na realidade, essas consequências não provem dela, mas dos seres que a criaram na mente. Assim, essa noção não tem a ver com a verdade de Deus. Entretanto, os personagens fictícios não são necessários para existir na mente dos seres humanos. Deus é.

O exemplo do ponto que foi desenhado e depois apagado. O mesmo passou a existir no desenho, deixou de existir quando foi apagado, mas continuou a existir na memória e na sua forma fundamental de ponto. O arquétipo do ponto da mente ou na memória não é o mesmo que a existência do ponto em algum lugar. O ponto existe objetivamente na ideia e veio à existência empírica no desenho.

Depois da morte de uma pessoa, essa pode continuar existindo na memória das outras pessoas e nas suas consequências no mundo. Isso não tem a ver com a sua existência objetiva, mas com a existência na recordação. A sua existência na recordação de outros não é a mesma e nem antecede sua existência empírica. Também, sua inexistência empírica não tem a ver com uma ideia sua, que não existia antes e que agora existe na memória de outros.

Entretanto, antes disso, a pessoa real e empiricamente existiu. Agora, basta provar que a mesma exista em outra realidade que transcende a física. Ao invés de apelar para a imaginação, onde a ideia deixada na memória por uma pessoa que existiu, deve-se utilizar a razão e estabelecer os princípios que demonstram a realidade da pessoa existindo em seu princípio vital espiritual, que é a alma humana, após a morte.

A existência ontológica e intersubjetiva não é a mesma que a existência objetiva. A pessoa deixou de existir permanecendo a alma, em sentido objetivo.

Exemplo do ponto não pode ser usado em comparação com a existência de uma pessoa, pois se o ponto existe idealmente e não é o que é representado graficamente por meio físico, isso não é o que ocorre com uma pessoa, pois do contrário a sua existência real, empírica, física, seria um reflexo da sua existência ideal, e sua existência no mundo seria menor que a existência na ideia.

Menor por estar fadada ao desaparecimento, enquanto a ideal seria permanente, intocável. Ou seja, haveria uma pessoa x ideal, sem consciência, sem estrutura alguma, sem existência real, a não ser a imaginária, e a mesma pessoa na realidade tangente apenas representando essa idealidade, o que é um absurdo.

Na verdade, o que se está tentando substituir com esses raciocínios é a existência da alma, que é parte da pessoa que sobrevive após a morte da mesma. E também a existência ideal da pessoa na mente de Deus, antes de criá-la, e sua existência real na alma, depois da morte. Não se trata de uma existência subjetiva, nem intersubjetiva, mas objetiva, real, embora espiritual.

Vejamos o caso ainda mais. Um ponto existe. Existe na ideia. Na realidade ele pode ser desenhado. Após ser apagado, continua a existir, pois não era o próprio ponto, mas apenas a representação do ponto.

Uma pessoa existe. Na realidade, essa pessoa nasceu e morrerá. Após a morte, continuará a existir na estrutura ontológica, na intersubjetividade.

Mas, o ponto existe idealmente, e a pessoa, antes de vir à existência estava na ideia de quem?

Uma imagem da pessoa representaria a pessoa, assim como o ponto desenhado representaria o ponto ideal. No entanto, o ponto desenhado está na realidade como a pessoa viva, e não a imagem daquela pessoa viva. Assim, o ponto ideal continua intacto após o apagamento do ponto no desenho.

Em relação à pessoa, que é real, física, empírica, após a morte nada idealmente dela está intacto, pois nem existia. E na realidade também, nada continuou intacto, pois houve corrupção e a alma se separou.

Isso acontece porque não é possível que o ser contingente exista sem ter sido criado. Primeiro, porque sem o Criador não havia ideia daquela pessoa. Segundo, porque na realidade essa pessoa existe, está viva, e na morte deixa de existir fisicamente. Não tendo idealidade anterior, pois não foi criada por seres humanos, nem em suas intersubjetividades, não existe desse modo, ficando a existir no modo criado após sua existência na intersubjetividade, na memória. A ideia criada da mesma veio após a sua existência e não antes. Por isso, o exemplo do ponto é bastante imperfeito.

Ainda, a ideia da pessoa está na memória e não é uma criação intersubjetiva, mas um dado da realidade que permaneceu gravado. Por fim, a existência intersubjetiva da pessoa é apenas a recordação da realidade objetiva da mesma. É o mesmo que lembrar de qualquer outra coisa, até mesmo de uma coisa imaginária. Não há nesse ponto a explicação da realidade da pessoa em si.

Portanto, o exemplo do ponto não é idêntico, e a intenção de provar a realidade intersubjetiva como criação de Deus na própria intersubjetividade se mostra equívoca.

Sabemos que um fenômeno observado e não explicado, pode ser explicado por hipóteses, já que existe algo que explique o fenômeno e é necessário, para conhecê-lo, partir de raciocínios válidos. Esse algo existente é necessário, por conta do efeito que é real.

Isso estaria na antropologia, sociologia, filosofia: há realidade não observáveis diretamente. Os efeitos são mensuráveis. Para explicar os efeitos observados, é possível retroativamente afirmar o que deveria ser para que o efeito exista.

Essa realidade estudada não tem realidade física, mas tem consequências na mesma, e portanto ela existe objetivamente.

Há realidades que são empíricas, mas não observáveis diretamente. Deus seria essa realidade, com seus efeitos claros, na sociedade religiosa, por exemplo. Deus não seria a estrutura da realidade no seu aspecto mais fundamental, mas é uma realidade intersubjetiva, porque faz diferença, uma diferença empírica, que depende da coletividade.

O filósofo fez tudo isso para provar que Deus não é a realidade objetiva, mas criada intersubjetivamente. No entanto, partindo da sua própria apresentação, com o rigor científico que o mesmo advoga, vejamos:

É fácil ver que o mundo é uma realidade. O mundo é um efeito. Não é razoável crer que o mundo exista desde sempre com toda a complexidade existente, com suas leis objetivas. Postular isso, é apenas uma afirmação, sem prova racional, o que não é nada filosófico.

O mundo, portanto, é o efeito. Para explicar o mundo há que retroativamente encontrar o que poderia tê-lo feito vir à existência. Essa realidade que, não é empírica no sentido material, pode ser conhecida pelos seus efeitos, no mundo que existe. Essa realidade é Deus.

O filósofo parte de outro pressuposto. De fato, olha para a intersubjetividade e vê os efeitos da humanidade no mundo realizados a partir da ideia de Deus e conclui que Deus passou a existir dessa ação intersubjetiva. Mas não explicou a origem da própria humanidade, como feito acima, onde há explicação de toda a criação.

Com isso, se tenta provar a realidade de Deus que transcende a individualidade e subjetividade, ao mesmo tempo que provoca efeitos empíricos no mundo. Tenta-se com isso entender o que é do espírito agindo na realidade empírica.

O problema é que o raciocínio parte do dogma de que o cérebro produz tudo, ainda que reconhecendo que a criação intersubjetiva supera os limites das ideias criadas pelo cérebro. Como pode algo produzido humanamente superar os limites das individualidades humanas, se isso não for espiritual?

Deus seria, de algum modo, independente do ser humano, ao menos subjetivamente, mas estaria acima do controle da mente subjetiva e agiria no mundo material por meio da ação da coletividade humana. Com isso, tem-se a ideia do poder de Deus e de sua ação no mundo. Apenas os meios usados para estabelece-las são errôneos.

Entretanto, esses lampejos da verdade estão no meio de uma estrutura frágil e equivocada de pensamento, pois pressupõe que a humanidade tenha sido originada pela força do acaso, quando na verdade essa mesma realidade humana deve entrar no problema da busca da sua origem. E essa origem, como mostrado acima, é Deus.

 Deus está acima da humanidade, influencia toda a realidade, e assim aparece nas leis naturais, morais, éticas, e é percebido na intersubjetividade. O método filosófico para provar a existência de Deus é eficaz.

 

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=srYsJuPoQzk.

 

Gledson Meireles.

sábado, 28 de março de 2026

NISTO CREMOS: estudo do capítulo 7, sobre a natureza da humanidade

Estudo do capítulo 7

A natureza da humanidade

do documento da Igreja Adventista do Sétimo Dia

NISTO CREMOS

 

Caro leitor, o presente artigo é o início de um estudo dos documentos Nisto Cremos e do Catecismo da Igreja Católica sobre a natureza humana. O estudo será dividido em duas partes.

O comentário abaixo é a primeira parte, que resumirá o ensino expresso no documento Nisto Cremos, seguido de um comentário que tem o objetivo de fornecer a resposta fundamental ao que o tema aborda e convidar para o estudo do tema, para maior aprofundamento. Essa é a primeira parte.

A segunda parte será o estudo do tema no Catecismo da Igreja Católica, onde poderá ser visto como o mesmo é abordado na doutrina católica, qual a linguagem empregada, quais os pressupostos utilizados e como é feita a fundamentação da doutrina na Bíblia.

O leitor adventista do sétimo dia poderá comparar as duas doutrinas e fazer o devido estudo bíblico para confirmar o que cada uma ensina. Certamente ficará surpreso ao entender qual a verdadeira doutrina sobre a alma na Igreja Católica Romana.

 

A natureza da humanidade

Nisto Cremos, capítulo 7


Serão resumidas algumas partes e depois comentadas.

 A origem do homem. Muito interessante o documento adventista Nisto Cremos, quando fala de um concílio divino realizado no qual há a criação do homem, citando Gênesis 1, 26. É o propósito de Deus Uno e Trino criando o ser humano.

Depois disso, o documento afirma a criação do homem a partir do “fôlego de vida”, que transformou o homem em criatura vivente.

A afirmação de que existe uma clara descontinuidade entre os seres humanos e o reino animal é importante no debate. Adão é filho de Deus (Lc 3, 38).

Comentário: Entendamos melhor o que a IASD ensina sobre o fôlego de vida e a descontinuidade entre seres humanos e animais.

Esse fôlego de vida, para os cristãos adventistas, é apenas a energia que vivifica o ser humano, não sendo uma parte imaterial do mesmo. Com isso, pretende ter oferecido mais uma refutação da noção de alma imortal.

No entanto, nada aqui refuta essa doutrina. O que há no documento é uma explicação do texto bíblico, no original hebraico, onde o fôlego de vida é mostrado na criação no momento em que é infuso na imagem de argila e essa se torna um ser vivo.

Para o cristão católico, crer que esse fôlego é a energia divina criadora da vida não é problema algum, e está conforme a fé católica. Assim, o cristão adventista em diálogo com o cristão católico devem ajustar esse ponto. O diálogo deve deixar clara a questão do fôlego de vida em Gênesis 2, 7 em ambos os credos, adventista e católico.

Quando se diz que há descontinuidade entre os seres humanos e os animais, de alguma forma estamos de acordo que a inteligência humana não é apenas diversa em grau em relação aos animais, mas há algo que radicalmente diferencia seres humanos e reino animal.

Esse é outro ponto em que cristãos adventistas e católicos podem dialogar e reconhecer as concordâncias.

 

A unidade da natureza humana. Nesse tópico o documento se põe a estudar se os seres humanos são constituídos de partes independentes, como sendo corpo, alma e espírito.

Comentário: a concepção de dualismo que os adventistas possuem é fundamentalmente platônica. Assim, a refutação que fazem toca diretamente a doutrina grega sobre a alma.

De modo algum é o que o cristão católico pensa sobre a alma. O adventismo acredita que a doutrina da alma no catolicismo é basicamente a mesma do platonismo pelo fato de que ambas as abordagens ensinarem a imortalidade da alma. No entanto, há algo que é preciso conhecer e que faz bastante diferença.

Portanto, o que está sendo atingido pela doutrina adventista é a noção de alma segundo pressupostos gregos, onde há independência entre corpo e alma, como sendo duas partes independentes. A doutrina católica não ensina isso.

Esse ponto deve ser bastante conhecido, pois faz diferença importante. Isso aparece diversas vezes na apologética adventista, com todos os apologistas, que creem ser a doutrina basicamente idêntica à da filosofia grega. O livro A imortalidade da alma não é lenda corrige esses pressupostos. Vale a pena todo adventista ler.

“Quando Deus converteu os elementos da terra em um ser vivente, “soprou” o “fôlego de vida” nas narinas de Adão, até então um ser inanimado.”

Comentário: Na verdade, a noção de que Deus converteu os elementos da terra em ser vivente é concomitante ao soprar o fôlego, que é a energia vital criadora, pois o texto bíblico diz que o Senhor soprou nas narinas e o homem tornou-se ser vivente. Foi naquele instante que isso ocorreu. Ao que parece não havia o corpo humano ainda como temos hoje, antes do fôlego de vida.

De qualquer forma, há duas etapas na criação. A primeira é a formação do corpo a partir dos elementos da terra. A segunda é a infusão do fôlego de vida. Nesse momento, quando o fôlego de vida é insuflado nas narinas do corpo formado, esse se torna alma vivente.

O homem foi formado do barro da terra e recebeu o sopro de vida e se tornou alma vivente.

A respeito do sopro do todo-poderoso, Jó 33, 4, a comparação feita é a de correntes de eletricidade fluindo através de componentes elétricos que convertem um quieto e inanimado painel de vidro, feito de armação de madeira e metal, em uma sucessão de cores na tela do televisor ligado. “A eletricidade traz som e movimento” ao que antes não tinha essas condições.

Comentário: O corpo humano recebe o fôlego e torna-se vivo. Leiamos o texto sagrado:

“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gênesis 2, 7).

Mas ainda não há explicação do que faz cada indivíduo, já que todos possuem uma energia comum. Que energia individual existe em cada um? O que faz cada um ser uma pessoa com características individuais? A energia não faz as mesmas conexões neuronais em todos os indivíduos e não forma uma pessoa de igual inteligência, vontade, sentimentos e emoções. A energia que faz a televisão transmitir os canais é a mesma e tem o mesmo efeito em todos os aparelhos. No ser humano esse efeito pode apenas ser comparado ao da vida, e não mais quando à individualidade. Cada um tem suas próprias decisões. O que mais fez esse fôlego soprado por Deus? Esse ponto deve ser refletido. É o momento em que há divergência entre adventistas e católicos quanto à natureza do homem, e aqui é visto o momento em que o adventismo tenta uma conclusão a partir do texto bíblico, que o mesmo não fornece.

Homem – uma alma vivente. Assim inicia essa parte da explicação do Nisto Cremos: “O que realizou o fôlego de vida? Quando Deus formou o ser humano do pó da terra, todos os órgãos se achavam presentes: coração, pulmões, rins, fígado, baço, cérebro, etc. – todos perfeitos, mas sem vida. Então Deus assoprou seu próprio fôlego de vida para dentro desse ser inanimado, e o homem “tornou-se alma vivente”.”

A equação é: “pó da terra (elementos terrestres) + fôlego de vida = ser vivente ou alma vivente.”

A união dos elementos da terra com o fôlego de vida resultou em alma. Esse fôlego de vida é a energia que vivifica a todos, não sendo parte individual, limitado às pessoas. O termo nephesh chayyah é usado para o ser humano e para os animais em Gn 1, 20.24, 2, 19). Esse termo é expresso em grego por psuche.

O homem passou a ser uma alma vivente, e o relatório da criação não diz que recebeu uma alma, entendida como “uma unidade separada que, na criação, foi unida ao corpo do homem”.

Comentário: Nesse momento, fica mais uma vez complicada a explicação adventista de que o fôlego realizou apenas a vivificação. Antes havia uma imagem feita de argila, mas depois há uma pessoa, com todas as características de ser humano. De fato, parece mais o que o fôlego realizou que apenas dar vida. Deus criou o ser humano dando-lhe corpo e alma ao formar os elementos e soprar-lhe o fôlego. Assim, o fôlego de vida não é a alma, mas é o que fez o ser humano viver, formando algo nele que sustente a vida. Esse é mais um ponto a ser discutido entre o cristão adventista e o cristão católico. A doutrina católica parte desse mesmo texto é conclui que o fôlego de vida criador fez o corpo e alma que sustenta a vida no ser humano. E isso é evidente nos efeitos de que o homem tornou-se alma vivente.

Uma unidade indivisível. No relato da criação a Escritura retrata o homem como um todo.

O significado bíblico de alma. Nephesh pode ser pessoa ou eu (a própria pessoa). Também pode ser vida, desejos, sede das afeições. A alma é mortal nesse sentido de pessoa. No NT o Nisto Cremos enfatiza que a alma é mortal: “não é imortal, mas sujeita à morte” e “Pode ser destruída”.

 

Depois afirma que não existe na Bíblia qualquer texto que indique possiblidade da alma sobreviver ao corpo, continuando a alma como entidade consciente.

 

Comentário: Nesse ponto o documento não avalia a questão em sua profundidade, mas continua a demonstrar que o termo nephesh tem o sentido de alma e que no contexto geral é mostrada como algo mortal. Ainda não há nenhuma profundida no estudo da natureza humana, com aludido acima, quando se questiona a sede da individualidade, o que há mais que corpo e energia de vida, que caracteriza cada uma a partir da criação. Há diferenças físicas e psicológicas em todos. Não basta mostrar que o temo nephesh é alma e significa pessoa, desejos, afeições, e que pode ser destruída. Há algo não explicado quando se estuda cada texto em particular. Isso fica bem claro no livro A imortalidade da alma não é lenda.

 

O cristão católico em diálogo como cristão adventista deve chamar a atenção a esse particular, que emerge da cena da criação e não se reduz ao significado do termo alma nesse texto.

 

O significado bíblico de espírito. Ruach é a “energizante centelha de vida”. Interessante que, como citado no Nisto Cremos, em 1 Sm 1, 15 é também sede das emoções, como em Gn 34, 3 é sede das afeições, e psuche, no Novo Testamento em Mc 14, 34 indica emoções. Isso quer dizer que a Bíblia usa os termos em sentidos similares, contendo vários significados tanto em hebraico como em grego.

Afirma o Nisto Cremos que o ruach do homem é idêntico ao dos animais, citando Ecl 3, 19.

Os termos ruach e pneuma não seriam usados em referência ao homem como sendo uma entidade inteligente capaz de existir independente do corpo físico, como existência consciente.

Comentário: Aparece nesse momento uma exigência de que o termo espírito esteja diretamente associado ao homem como tendo uma entidade imaterial imortal separável do corpo. Caso não se encontre uma passagem assim, estaria provada a afirmação de que espírito é associado ao ser humano somente como energia de vida, respiração, afeição, emoção, e nada mais.

Essa forma de estudar parece ter mais fundamento na filologia do que com a teologia. Parte-se do que um termo significa na maioria das vezes e se tira daí um conclusão teológica.

Entretanto, é certo que a Bíblia diz mais sobre o espírito em relação ao ser humano do que o que o Nisto Cremos traz. Também aqui é necessário convidar o leitor a estudar o livro A imortalidade da alma não é lenda. O estudo da Bíblia revela profunda doutrina que o termo espírito revela em referência à natureza humana, e que diz respeito à parte imaterial imortal do ser humano.

 

Unidade de corpo, alma e espírito. O documento questiona qual a relação entre corpo, alma e espírito?

 

Comentário: É um questionamento válido e importante. Ao pensar que o corpo recebeu vida e se tornou alma vivente não é a única coisa que o texto bíblico ensina. Há mais que isso na doutrina bíblica. Partindo da criação, onde Deus forma o homem do pó da terra e insufla nesse o fôlego de vida, tem-se que aquele corpo formado dos elementos terrestres foi vivificado pelo fôlego de vida dado por Deus e se tornou uma alma vivente com certas características que o diferenciam dos demais seres da criação. A inteligência humana está nesse rol. O que faz no homem ter a capacidade racional que o animal não possui?

União dupla. Reconhece o adventismo que a Bíblia “não define precisamente” esse relacionamento, e por vezes alma e espírito são sinônimos.

Também cita Mt 10, 28 como um exemplo em que o Senhor Jesus caracteriza o homem como corpo e alma. Em comparação com 1 Cor 7, 34, onde São Paulo identifica corpo e espírito. Em Mateus 10, 28 a alma se refere “às mais elevadas faculdades do homem”, a mente, e em 1 Cor 7, 34 o espírito é que se refere às mais nobres faculdades. O corpo inclui os aspectos físicos e emocionais da pessoa, explica o documento.

Comentário: Essa parte é muito importante, pois a Escritura não define com precisão a relação entre corpo e alma ou corpo e espírito na natureza humana. De fato, a relação corpo-alma ou corpo-espírito é algo que deve ser buscado em toda a revelação. Se alma é em Mt10, 28 o conjunto das mais elevadas faculdade do homem, essa parte não pode ser morta. É o que diz o texto. O homem não pode matar as mais elevadas faculdades humanas, e, portanto, ela permanece após a morte, pois é imortal. É o que podemos concluir da passagem, embora o Nisto Cremos apresente doutrina que negue tal conclusão. O estudo adventista possui esse salto, conforme aludido acima.

 

União tripla. Aqui o documento trata de 1 Ts 5, 23, uma exceção, onde São Paulo fala em termos de unidade tripla. Nesse texto, espírito é “o mais elevado princípio de inteligência e pensamentos”, e a alma seria a parte que expressa a natureza humana pelos instintos, emoções e desejos. A mente, a razão influencia a natureza inferior, os impulsos. A mente do homem é conformada à mente de Deus, a razão é santificada e a natureza inferior é influenciada, e os impulsos contrários a Deus se sujeitam à vontade de Deus. (Nota 6). A alma é explicada como desejos, sentimentos, emoções. Encontra-se embasado o conceito da unidade da natureza humana.

União indivisível e harmoniosa. Então, o Nisto Cremos afirma que é claro que todo ser humano é uma união indivisível. O corpo, a alma e o espírito funcionam em íntima cooperação.

Comentário: O problema é que vemos aqui reconhecido que os termos alma e espírito possuem sentidos variados e até sinônimos.  Assim, nesse texto espírito é o mais elevado princípio de inteligência e pensamentos e a alma seria a parte dos instintos, emoções e desejos. Também há referência à parte inferior da natureza. Essa antropologia é a mesma que ensina a Igreja Católica, como pode ser vista no Catecismo, usando termos diversos e forma diversa de explicação. Não é comum na doutrina católica associar alma a instintos, emoções e desejos, como pode ser visto no estudo exaustivo no livro A imortalidade da alma não é lenda. Essa forma de explicar é comum entre os protestantes. A doutrina católica possui uma forma mais definida de explicar os termos alma e espírito, e a concepção é inteiramente bíblica.

Gledson Meireles.