Estudo
do capítulo 7
A
natureza da humanidade
do
documento da Igreja Adventista do Sétimo Dia
NISTO
CREMOS
Caro
leitor, o presente artigo é o início de um estudo dos documentos Nisto Cremos e
do Catecismo da Igreja Católica sobre a natureza humana. O estudo será dividido
em duas partes.
O
comentário abaixo é a primeira parte, que resumirá o ensino expresso no documento
Nisto Cremos, seguido de um comentário que tem o objetivo de fornecer a
resposta fundamental ao que o tema aborda e convidar para o estudo do tema,
para maior aprofundamento. Essa é a primeira parte.
A
segunda parte será o estudo do tema no Catecismo da Igreja Católica, onde
poderá ser visto como o mesmo é abordado na doutrina católica, qual a linguagem
empregada, quais os pressupostos utilizados e como é feita a fundamentação da doutrina
na Bíblia.
O
leitor adventista do sétimo dia poderá comparar as duas doutrinas e fazer o
devido estudo bíblico para confirmar o que cada uma ensina. Certamente ficará
surpreso ao entender qual a verdadeira doutrina sobre a alma na Igreja Católica
Romana.
A natureza da humanidade
Nisto Cremos, capítulo 7
Serão resumidas algumas partes e depois comentadas.
Depois
disso, o documento afirma a criação do homem a partir do “fôlego de vida”, que
transformou o homem em criatura vivente.
A
afirmação de que existe uma clara descontinuidade entre os seres humanos e o
reino animal é importante no debate. Adão é filho de Deus (Lc 3, 38).
Comentário:
Entendamos melhor o que a IASD ensina sobre o fôlego de vida e a
descontinuidade entre seres humanos e animais.
Esse
fôlego de vida, para os cristãos adventistas, é apenas a energia que vivifica o
ser humano, não sendo uma parte imaterial do mesmo. Com isso, pretende ter oferecido
mais uma refutação da noção de alma imortal.
No
entanto, nada aqui refuta essa doutrina. O que há no documento é uma explicação
do texto bíblico, no original hebraico, onde o fôlego de vida é mostrado na
criação no momento em que é infuso na imagem de argila e essa se torna um ser
vivo.
Para
o cristão católico, crer que esse fôlego é a energia divina criadora da vida
não é problema algum, e está conforme a fé católica. Assim, o cristão
adventista em diálogo com o cristão católico devem ajustar esse ponto. O
diálogo deve deixar clara a questão do fôlego de vida em Gênesis 2, 7 em ambos
os credos, adventista e católico.
Quando
se diz que há descontinuidade entre os seres humanos e os animais, de alguma
forma estamos de acordo que a inteligência humana não é apenas diversa em grau
em relação aos animais, mas há algo que radicalmente diferencia seres humanos e
reino animal.
Esse
é outro ponto em que cristãos adventistas e católicos podem dialogar e
reconhecer as concordâncias.
A unidade da natureza humana. Nesse
tópico o documento se põe a estudar se os seres humanos são constituídos de
partes independentes, como sendo corpo, alma e espírito.
Comentário:
a concepção de dualismo que os adventistas possuem é fundamentalmente
platônica. Assim, a refutação que fazem toca diretamente a doutrina grega sobre
a alma.
De
modo algum é o que o cristão católico pensa sobre a alma. O adventismo acredita
que a doutrina da alma no catolicismo é basicamente a mesma do platonismo pelo
fato de que ambas as abordagens ensinarem a imortalidade da alma. No entanto,
há algo que é preciso conhecer e que faz bastante diferença.
Portanto,
o que está sendo atingido pela doutrina adventista é a noção de alma segundo
pressupostos gregos, onde há independência entre corpo e alma, como sendo duas
partes independentes. A doutrina católica não ensina isso.
Esse
ponto deve ser bastante conhecido, pois faz diferença importante. Isso aparece
diversas vezes na apologética adventista, com todos os apologistas, que creem
ser a doutrina basicamente idêntica à da filosofia grega. O livro A imortalidade da alma não é lenda
corrige esses pressupostos. Vale a pena todo adventista ler.
“Quando Deus converteu os elementos da terra
em um ser vivente, “soprou” o “fôlego de vida” nas narinas de Adão, até então
um ser inanimado.”
Comentário:
Na verdade, a noção de que Deus converteu os elementos da terra em ser vivente
é concomitante ao soprar o fôlego, que é a energia vital criadora, pois o texto
bíblico diz que o Senhor soprou nas narinas e o homem tornou-se ser vivente.
Foi naquele instante que isso ocorreu. Ao que parece não havia o corpo humano
ainda como temos hoje, antes do fôlego de vida.
De
qualquer forma, há duas etapas na criação. A primeira é a formação do corpo a
partir dos elementos da terra. A segunda é a infusão do fôlego de vida. Nesse
momento, quando o fôlego de vida é insuflado nas narinas do corpo formado, esse
se torna alma vivente.
O
homem foi formado do barro da terra e recebeu o sopro de vida e se tornou alma
vivente.
A
respeito do sopro do todo-poderoso, Jó 33, 4, a comparação feita é a de
correntes de eletricidade fluindo através de componentes elétricos que
convertem um quieto e inanimado painel de vidro, feito de armação de madeira e
metal, em uma sucessão de cores na tela do televisor ligado. “A eletricidade
traz som e movimento” ao que antes não tinha essas condições.
Comentário:
O corpo humano recebe o fôlego e torna-se vivo. Leiamos o texto sagrado:
“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro
da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro de vida e o homem se tornou um ser
vivente” (Gênesis 2, 7).
Mas
ainda não há explicação do que faz cada indivíduo, já que todos possuem uma
energia comum. Que energia individual existe em cada um? O que faz cada um ser
uma pessoa com características individuais? A energia não faz as mesmas
conexões neuronais em todos os indivíduos e não forma uma pessoa de igual
inteligência, vontade, sentimentos e emoções. A energia que faz a televisão
transmitir os canais é a mesma e tem o mesmo efeito em todos os aparelhos. No
ser humano esse efeito pode apenas ser comparado ao da vida, e não mais quando
à individualidade. Cada um tem suas próprias decisões. O que mais fez esse
fôlego soprado por Deus? Esse ponto deve ser refletido. É o momento em que há
divergência entre adventistas e católicos quanto à natureza do homem, e aqui é
visto o momento em que o adventismo tenta uma conclusão a partir do texto
bíblico, que o mesmo não fornece.
Homem – uma alma vivente.
Assim inicia essa parte da explicação do Nisto Cremos: “O que realizou o fôlego de vida? Quando Deus formou o ser humano do pó
da terra, todos os órgãos se achavam presentes: coração, pulmões, rins, fígado,
baço, cérebro, etc. – todos perfeitos, mas sem vida. Então Deus assoprou seu
próprio fôlego de vida para dentro desse ser inanimado, e o homem “tornou-se
alma vivente”.”
A
equação é: “pó da terra (elementos terrestres) + fôlego de vida = ser vivente
ou alma vivente.”
A
união dos elementos da terra com o fôlego de vida resultou em alma. Esse fôlego
de vida é a energia que vivifica a todos, não sendo parte individual, limitado
às pessoas. O termo nephesh chayyah é
usado para o ser humano e para os animais em Gn 1, 20.24, 2, 19). Esse termo é
expresso em grego por psuche.
O
homem passou a ser uma alma vivente, e o relatório da criação não diz que
recebeu uma alma, entendida como “uma unidade separada que, na criação, foi
unida ao corpo do homem”.
Comentário: Nesse momento,
fica mais uma vez complicada a explicação adventista de que o fôlego realizou
apenas a vivificação. Antes havia uma imagem feita de argila, mas depois há uma
pessoa, com todas as características de ser humano. De fato, parece mais o que
o fôlego realizou que apenas dar vida. Deus criou o ser humano dando-lhe corpo
e alma ao formar os elementos e soprar-lhe o fôlego. Assim, o fôlego de vida
não é a alma, mas é o que fez o ser humano viver, formando algo nele que
sustente a vida. Esse é mais um ponto a ser discutido entre o cristão
adventista e o cristão católico. A doutrina católica parte desse mesmo texto é
conclui que o fôlego de vida criador fez o corpo e alma que sustenta a vida no
ser humano. E isso é evidente nos efeitos de que o homem tornou-se alma
vivente.
Uma unidade indivisível. No
relato da criação a Escritura retrata o homem como um todo.
O significado bíblico de alma.
Nephesh pode ser pessoa ou eu (a
própria pessoa). Também pode ser vida, desejos, sede das afeições. A alma é mortal
nesse sentido de pessoa. No NT o Nisto Cremos enfatiza que a alma é mortal:
“não é imortal, mas sujeita à morte” e “Pode ser destruída”.
Depois
afirma que não existe na Bíblia qualquer texto que indique possiblidade da alma
sobreviver ao corpo, continuando a alma como entidade consciente.
Comentário:
Nesse ponto o documento não avalia a questão em sua profundidade, mas continua
a demonstrar que o termo nephesh tem
o sentido de alma e que no contexto geral é mostrada como algo mortal. Ainda
não há nenhuma profundida no estudo da natureza humana, com aludido acima,
quando se questiona a sede da individualidade, o que há mais que corpo e
energia de vida, que caracteriza cada uma a partir da criação. Há diferenças
físicas e psicológicas em todos. Não basta mostrar que o temo nephesh é alma e significa pessoa,
desejos, afeições, e que pode ser destruída. Há algo não explicado quando se
estuda cada texto em particular. Isso fica bem claro no livro A imortalidade da alma não é lenda.
O
cristão católico em diálogo como cristão adventista deve chamar a atenção a
esse particular, que emerge da cena da criação e não se reduz ao significado do
termo alma nesse texto.
O significado bíblico de espírito. Ruach
é a “energizante centelha de vida”. Interessante
que, como citado no Nisto Cremos, em 1 Sm 1, 15 é também sede das emoções, como
em Gn 34, 3 é sede das afeições, e psuche,
no Novo Testamento em Mc 14, 34 indica emoções. Isso quer dizer que a Bíblia
usa os termos em sentidos similares, contendo vários significados tanto em
hebraico como em grego.
Afirma
o Nisto Cremos que o ruach do homem é
idêntico ao dos animais, citando Ecl 3, 19.
Os
termos ruach e pneuma não seriam usados em referência ao homem como sendo uma
entidade inteligente capaz de existir independente do corpo físico, como
existência consciente.
Comentário:
Aparece nesse momento uma exigência de que o termo espírito esteja diretamente
associado ao homem como tendo uma entidade imaterial imortal separável do
corpo. Caso não se encontre uma passagem assim, estaria provada a afirmação de
que espírito é associado ao ser humano somente como energia de vida, respiração,
afeição, emoção, e nada mais.
Essa
forma de estudar parece ter mais fundamento na filologia do que com a teologia.
Parte-se do que um termo significa na maioria das vezes e se tira daí um
conclusão teológica.
Entretanto,
é certo que a Bíblia diz mais sobre o espírito em relação ao ser humano do que
o que o Nisto Cremos traz. Também aqui é necessário convidar o leitor a estudar
o livro A imortalidade da alma não é
lenda. O estudo da Bíblia revela profunda doutrina que o termo espírito
revela em referência à natureza humana, e que diz respeito à parte imaterial
imortal do ser humano.
Unidade de corpo, alma e espírito. O
documento questiona qual a relação entre corpo, alma e espírito?
Comentário: É um
questionamento válido e importante. Ao pensar que o corpo recebeu vida e se
tornou alma vivente não é a única coisa que o texto bíblico ensina. Há mais que
isso na doutrina bíblica. Partindo da criação, onde Deus forma o homem do pó da
terra e insufla nesse o fôlego de vida, tem-se que aquele corpo formado dos
elementos terrestres foi vivificado pelo fôlego de vida dado por Deus e se
tornou uma alma vivente com certas características que o diferenciam dos demais
seres da criação. A inteligência humana está nesse rol. O que faz no homem ter a
capacidade racional que o animal não possui?
União dupla.
Reconhece o adventismo que a Bíblia “não define precisamente” esse
relacionamento, e por vezes alma e espírito são sinônimos.
Também
cita Mt 10, 28 como um exemplo em que o Senhor Jesus caracteriza o homem como
corpo e alma. Em comparação com 1 Cor 7, 34, onde São Paulo identifica corpo e
espírito. Em Mateus 10, 28 a alma se refere “às mais elevadas faculdades do
homem”, a mente, e em 1 Cor 7, 34 o espírito é que se refere às mais nobres
faculdades. O corpo inclui os aspectos físicos e emocionais da pessoa, explica
o documento.
Comentário: Essa
parte é muito importante, pois a Escritura não define com precisão a relação
entre corpo e alma ou corpo e espírito na natureza humana. De fato, a relação
corpo-alma ou corpo-espírito é algo que deve ser buscado em toda a revelação.
Se alma é em Mt10, 28 o conjunto das mais elevadas faculdade do homem, essa
parte não pode ser morta. É o que diz o texto. O homem não pode matar as mais
elevadas faculdades humanas, e, portanto, ela permanece após a morte, pois é
imortal. É o que podemos concluir da passagem, embora o Nisto Cremos apresente
doutrina que negue tal conclusão. O estudo adventista possui esse salto,
conforme aludido acima.
União tripla.
Aqui o documento trata de 1 Ts 5, 23, uma exceção, onde São Paulo fala em
termos de unidade tripla. Nesse texto, espírito é “o mais elevado princípio de
inteligência e pensamentos”, e a alma seria a parte que expressa a natureza
humana pelos instintos, emoções e desejos. A mente, a razão influencia a
natureza inferior, os impulsos. A mente do homem é conformada à mente de Deus,
a razão é santificada e a natureza inferior é influenciada, e os impulsos
contrários a Deus se sujeitam à vontade de Deus. (Nota 6). A alma é explicada
como desejos, sentimentos, emoções. Encontra-se embasado o conceito da unidade
da natureza humana.
União
indivisível e harmoniosa. Então, o Nisto Cremos afirma que é claro que todo ser
humano é uma união indivisível. O corpo, a alma e o espírito funcionam em
íntima cooperação.
Comentário: O problema é
que vemos aqui reconhecido que os termos alma e espírito possuem sentidos
variados e até sinônimos. Assim, nesse
texto espírito é o mais elevado princípio de inteligência e pensamentos e a
alma seria a parte dos instintos, emoções e desejos. Também há referência à
parte inferior da natureza. Essa antropologia é a mesma que ensina a Igreja
Católica, como pode ser vista no Catecismo, usando termos diversos e forma
diversa de explicação. Não é comum na doutrina católica associar alma a
instintos, emoções e desejos, como pode ser visto no estudo exaustivo no livro A imortalidade da alma não é lenda. Essa
forma de explicar é comum entre os protestantes. A doutrina católica possui uma
forma mais definida de explicar os termos alma e espírito, e a concepção é
inteiramente bíblica.
Gledson Meireles.
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