Comentando o livre-arbítrio em uma objeção ateísta
De forma resumida, o ateu acredita que é capaz de raciocinar criticamente na sua interpretação da Bíblia e provar que Deus não existe porque o mal existe. Vejamos um pouco sobre o livre-arbítrio é a falha que está por trás da aparente erudição do argumento ateísta.
Sabemos que o livre-arbítrio explica o mal moral no mundo. No entanto, o debatedor ateu
critica o conceito dando o exemplo de alguém cometendo o mal contra outro, uma
vez que o mal praticado por aquele estaria sendo respeitado por Deus enquanto
que o mal sofrido pela outra pessoa significaria que Deus não estaria respeitando o
livre-arbítrio da mesma. Nesse sentido, o livre-arbítrio seria sempre o do mais forte.
A objeção
acima é sutil é cheia de problema. O livre-arbítrio é a capacidade moral de
agir ou não agir. Nesse caso acima, aquele que age mal teria o livre-arbítrio e
a vítima não. Portanto, o livre-arbítrio citado aí não é o mesmo que a doutrina
cristã católica ensina. Esse é um problema em debater e usar um termo com sentido diverso sem saber ao certo o que
se está debatendo e contra o que exatamente. De fato, isso não é livre-arbítrio.
Em
segundo lugar, a ideia subjacente na consciência do ateu exige que para a
existência de Deus, que é o Sumo Bem, não poderia haver o mal na criação.
Assim, o livre-arbítrio de uma pessoa deveria ser garantido como o da outra, e
assim de todos, segundo o conceito advindo do exemplo acima, e desse modo, é
óbvio que a conclusão é a extinção do livre-arbítrio.
Uma
vez que alguém deseja fazer algo que ultrapassa a liberdade de outro, ele não
poderia fazê-lo, pois estaria limitado a isso pelo poder de Deus que garantiu
as leis naturais impedindo que um sofresse a ação advinda da liberdade de outro.
Nessa situação, o mal deixaria de existir e somente a Vontade de Deus
prevaleceria. É o mundo desejado. Como o ateu não crê em Deus, uma razão para
isso seria a existência do mal.
Nesse
caso, o ateu está raciocinando segundo as exigências da razão de que a justiça
perfeita é condizente com a existência do Bom Deus, e a existência do mal incompatível
com a natureza divina.
Com
isso, tem-se que no íntimo da consciência o ser humano rejeita totalmente o mal
e deseja justiça contra ele. É o instinto natural que diz que o mal deveria ser
extinto. Dessa forma, isso é usado pelo ateísmo como argumento contra o Sumo
Bem.
Uma
vez que a realidade demonstra que há o mal, nessa lógica, por meio de um
raciocínio mais complexo, Deus não deveria existir. No entanto, a simples
existência do mal não é categoricamente uma prova da não existência de Deus.
De
fato, como explica o catecismo, Deus criou o mundo em estado de caminhada, permitindo o mal físico, por exemplo. E,
com isso, a existência do mal moral advém da liberdade já tratada acima, o que
é plenamente compreensível.
Desse
modo, temos que o ateu raciocina segundo a exigência da razão de que haja o bem,
na criação como obra de um Deus bom, mas não pode prescindir da realidade de
que esse dado da consciência é superior à natureza humana, não é uma opinião
individual, mas um apelo da razão universal, de modo que há uma origem desse
senso de justiça, que só pode ser Deus, e somente Ele pode dar a resposta.
Nisso,
temos que Deus, sendo Bom e Todo-Poderoso pode acabar com o mal, e o fará, de
modo a cumprir as exigências da Sua justiça que é refletida na mente humana.
Assim,
temos que o desejo de justiça não é algo que meramente existe e não tem outra
finalidade, como seria em um mundo sem Deus. Nesse caso, esse senso de justiça
seria vão, já que todos esperariam uma vida imanente que terá um fim e toda a
injustiça não terá remédio algum. O acaso seriar a explicação e a esperança de
algo melhor seria pura ilusão. Mas o acaso não explica nada, e a ilusão não
podes ser radicada em um instinto tão forte.
Entretanto,
na fé cristã, fundamentada na razão, temos a promessa de que essa exigência da
justiça perfeita será cumprida por Deus totalmente, de modo que não é um senso
sem sentido, mas que indica sua futura realização. E isso só pode ser realizado
por Deus.
Sendo
assim, o raciocínio usado contra a existência de Deus por causa da existência do
mal é algo que esconde a esperança de que o mal não exista e que o mundo seja
bom e a vida feliz, onde todos ajam segundo uma Vontade que não permita o mal
em nenhum sentido, e mais, de que isso será possível, o que somente Deus pode
fazer. Temos assim a refutação radical da objeção ateísta por meio do problema
do mal.
Com
efeito, o ateu raciocina segundo as leis naturais do pensamento, onde a bondade
de Deus exige a bondade de tudo. Doutro modo, não poderia formular nenhuma
objeção pelo problema do mal.
Não
pode, porém, entender que Deus, em Sua sabedoria, pode criar um mundo em vias
de perfeição, onde a existência do mal é possível e permitida, e somente
possível porque é permitida, mas que no fim tudo se conformará à natureza de
Deus, o que está refletido nos raciocínios acima, que revelam o desejo último
de que somente exista o Bem e a justiça seja plena. Isso é filosofia, pois
segue os rumos da razão, e não abraça a desistência de pensar.
A
própria existência do ateísmo mostra o livre-arbítrio em ação. O homem decide
não crer por certos motivos.
O
ateísmo raciocina segundo o senso de justiça.
Acredita-se,
talvez, que esse senso seja natural e proveniente do acaso.
Com
isso, seria um senso de justiça inexplicável e insaciável, já que a curta
existência humana não daria nenhuma expectativa de que o mesmo pudesse ser
satisfeito.
O
cristianismo, por sua vez, como ensina a Igreja Católica, seguindo os ditames
da razão e da revelação, crê em Deus, bom e todo-poderoso.
O senso
de justiça é algo que está na natureza criada por Deus.
A
justiça de Deus será manifestada no fim, e todos viverão em Deus, quando tudo
estiver a Ele submetido.
Isso
explica que o mal é passageiro, que a consciência moral não é vã, e que
esperamos o fim do mal e a vida eterna em felicidade.
Aquilo que o ateu pensa do que deveria ser a criação é o que está na promessa de Deus para o reino eterno, onde tudo será bom e justo, onde Deus será tudo em todos. Homem busca a Deus.
Gledson Meireles.
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