quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma: refutando o argumento do contraste entre Jesus e os levitas


Refutação: O contraste entre Jesus e os levitas

 

O argumento mortalista tira de Hb 7, 8 um argumento que seria incompatível com a imortalidade da alma, já que estaria contrastando radicalmente vida e morte, de modo a levar a pensar que vida é existência e morte a inexistência. Mas, vamos mostrar que esse argumento não é o que está em todo o contexto. O argumento mortalista contém erro teológico.

Jesus pode ser sacerdote para sempre porque ressuscitou. É simples. Não há a implicação de que as almas dos levitas não podiam oficiar no céu, ou no sheol, porque o que está em questão é a vida em contraste com a morte. Jesus está vivo. Os levitas, mesmo estando hoje no céu, estão mortos, e por isso se diz que suas almas estão no céu, e não que eles em pessoa estejam no céu.

Ainda, é preciso saber que o sacerdócio levita é diferente do sacerdócio de Cristo. O primeiro era figura, um tipo, e era terrestre por isso, de forma que em si a antiga lei foi abolidade, e era ineficaz e não levou à perfeição (Hb 7, 18-19), e por isso foi substituída por outra aliança superior (Hb 7, 22). Então, os levitas só podem oficiar na terra, enquanto Cristo só oficia no céu.

Por isso, o verso 23 introduz a segunda parte do argumento: “Além disso”, e prossegue dizendo que os levitas não podiam ser sacerdotes sempre porque morriam, enquanto Cristo vive para sempre.

Há em Hebreus dois argumentos: o primerio é que o sacerdócio levítico é inferior (cf. Hb 7, 11), e o segundo é que os sacerdotes levitas são mortais (cf. Hb 7, 23). Em resumo, pode-se dizer que ainda que os levitas não morressem, seu sacerdócio não poderia continuar. E até o final da refutação o leitor irá perceber melhor o porquê disso, e identificar mais precisamente o erro do argumento mortalista.

E o motivo é que o sacerdócio dos levitas simbolizava o sacerdócio de Jesus Cristo. Dessa forma, os levitas, ainda que estejam vivos no céu em espírito, não podem ser sacerdotes, porque morreram e porque seu sacerdócio foi apenas figura do verdadeiro sacerdócio de Cristo, e só podia ser feito na terra.

Desse modo, ainda que ressuscitados, como o sacerdócio levita foi levado à realização em Cristo, eles não oferecem dons e sacrifícios pela salvação do mundo. Entendendo esse fato, o constraste feito entre Cristo e os levitas não pode em nada implicar coisa alguma contra a imortalidade da alma.

Dito doutro modo, a morte impede o sacerdócio contínuo dos levitas porque esse ofício é feito na terra, era de natureza imperfeita e provisória, e não porque a morte põe fim à existência. O argumento da morte é a parte dois, e significa realmente que o sacerdócio levítico é inferior porque seus sacerdotes são mortais, não continuam a vida na terra, único lugar onde esse sacerdócio é ministrado. Aqui já fica refutado o argumento mortlaista, mas é bom continuar e liquidar de forma a não deixar dúvida.

Talvez o texto de Hebreus 8, 4 sirva para refutar bem essa implicação que o mortalismo tentou tirar do contraste entre Jesus e os levitas. O texto diz o seguinte: “Por conseguinte, se ele estivesse na terra, nem mesmo sacerdote seria, porque já existem aqui sacerdotes que têm a missão de oferecer os dons prescritos pela Lei”.

O autor mortalista usou a lógica do contraste acima referido para formular um argumento contra a imortalidade da alma, como se a doutrina não pudesse ser harmonizada com o que foi contrastado, ou seja, como se o fato dos levitas possuírem alma imortal e estarem no céu fosse incompatível com o contraste feito. É um bom argumento, no processo de defesa do seu sistema, como tentativa, e serve para fazer com que tenhamos mais cuidado ao ler o texto bíblico. Mas esse argumento não atinge a doutrina da alma imortal, como mostrado acima, constituindo argumento frágil.

Portanto, faz todo sentido dizer que Jesus está vivo, e que Seu sacerdócio é feito no céu, de modo perfeito e único, realizando o que a figura do sacerdócio terrestre constituía. Assim, a Bíblia afirma que Jesus não seria sacerdote se estivesse na terra.

E o que a lógica do argumento mortalista está afirmando é que os dois sacerdócios são idênticos, pois diz:

 

 Se os sacerdotes levitas estivessem neste momento vivos no céu, o autor de Hebreus teria cometido uma gafe ao fazer um contraste dessa natureza, já que tanto um como o outro estariam vivos para continuar seu ofício no outro mundo.”.

 

De fato, não há gafe nenhuma, pois os levitas estão vivos em espírito no céu e não podem continuar seu ofício no outro mundo: primeiro, porque seu ofício terminou em Cristo, pois Cristo é o fim da Lei e do sacerdócio antigo. Segundo, porque estão mortos, e seu oficío era apenas para ser feito na terra.

Disso se pode dizer que o argumento mortalista não procede, porque não é tirado do verdadeiro contraste que é feito entre o sacerdócio levítico e o de Cristo, e porque ele cria um erro, fazendo com que o sacerdócio levita seja antítipo e não o tipo. Seria o mesmo que dizer que os levitas morrem, e Cirsto, estando vivo, continua o ofício levítico, o que é um erro, pois o sacerdócio de Cristo é segundo a ordem de Melquisedeque, diferente do levítico, que serviu apenas de símbolo. Por isso, o argumento é totalmente falho.

Gledson Meireles.

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma: refutação da interpretação mortalista de Apocalipse 20:10 e o significado do “lago de fogo”

 

Tradicionalmente o “lago de fogo” é interpretado como o inferno, onde há um fogo espiritual e literal, ou seja, existe mesmo, onde sofrem as almas e depois os réprobos ressuscitados. O fogo é espiritual, já que é a punição pelo pecado, e literal, já que atinge as almas e corpos ressuscitados não glorificados.

A interpretação mortalista expressa no livro é muito curiosa. Como o lago de fogo é a segunda morte, então a doutrina aniquilacionista ensina que o castigo anterior à segunda morte não é o lago de fogo. Muito curioso.

Essa noção é, ao que parece, bastante nova, pois cria uma punição temporária por causa do pecado antes da entrada no lago de fogo e enxofre, conceito que não se encontra em nenhum versículo bíblico. Essa é a primeira refutação.

O autor afirma que Ap 20, 14 explica Ap 20, 10, apenas dizendo que o “tormeno eterno”, que é realizado no lago de fogo, é somente a “segunda morte”, no sentido de destruição e inexistência. O tormento é a inexistência. Isso já pode ser considerado parte da primeria refutação. De fato, não faz muito sentido o tormento simbolizar a inexistência.

Mas, é interessante que o autor admitiu que nesse verso é mostrado o “tormento eterno dos ímpios”, embora interprete esse “tormento” como a inexistência, como visto, é óbvio, permanecendo o fato de que a linguagem bíblica expressa claramente o tormento eterno. O restante é uma interpretação, e vamos ver se ela é válida. Pelo primeiro sinal de incoerência, parece que não. De fato, a Bíblia não ensina que os ímpios sofreram proporcionalmente e depois serão destruídos.

Assim, o conceito tradicional de segunda morte é que essa punição eterna vem após a punição temporal da morte física. É uma segunda punição. Ou seja, hjá duas punições para o pecado, a morte e o inferno. A primeria é a morte física, onde todos, salvos e não salvos passam. A segunda é o inferno, onde somente os réprobos sofrem.

Como a morte é o salário do pecado, tanto a primeira como a segunda são punições. Mas, a segunda é irreversível, pois os mortos ficam presos nas suas cadeias longe de Deus eternamente. A primeira foi uma prisão temporária, a segunda é eterna, pode-se dizer.

Dessa forma, não é a doutrina aniquilacionista que possui uma interpetação plausível com mais sentido. Assim, pode-se pensar que todos passam pela primeira morte, porque todos pecaram, mas somente os que rejeitarem a salvação é que sofrerão a segunda punição, a segunda morte, por rejeitarem o perdão de Deus.

A morte não é inexstiência. Os ímpios sofrerão no final “no” lago de fogo, e não antes de entrarem no lago de fogo, como fica na interpretação que o livro mortalista apresenta.

Desse modo, é preciso notar que há um lugar de punição, o tanque de fogo e enxofre, para os que serão condenados após o juízo.

O argumento de que a segunda morte poderia ser a “separação da alma e do corpo” é muito bom, é franco, usando a linguagem que o autor mortalista empregou para se referir a um argumento imortalista. Faz sentido perguntar. Mas ele parte do pressuposto que o termo “morte” no versículo está sendo usado no sentido literal, explicando uma figura de linguagem, e que esse sentido é o mesmo que inexistência.

Diante disso, pode-se responder que a linguagem do Apocalipse é simbólica, e por isso a explicação da segunda morte é necessária, e se trata de ela ser “o lago de fogo”. O autor discorda dessa interpretação, e afirma o contrário, ou melhor, afirma que o lago de fogo é que é usado como símbolo da segunda morte. Essa explicação é curiosa, e vamos testá-la. O símbolo é a segunda morte ou o lago de fogo? Certamente, o lago de fogo, e possivelmente, ambos.

Também, ninguém pensa que os mortos são julgados, condenados e morrem novamente, mas julgados, condenados e lançados no lago de fogo e enxofre. Esse lago é chamado de segunda morte.

Assim, o que faz pensar que a segunda morte é diferente da primeira é essa linguagem apocalíptica que usa o termo morte em um conceito de “castigo”, como se falasse do segundo castigo.

Eis que outro argumento aniquilacionista, muito bom por sinal, entra em jogo. São João explica que o lago de fogo é a segunda morte por se tratar de algo simbólico, não sendo o próprio significado o conceito. Formidável.

Assim explica o livro mortalista: “Note ainda que João não diz que a segunda morte é o lago de fogo, como interpretam os imortalistas, mas precisamente o contrário: que o lago de fogo é a segunda morte.” Não. O original afirma que a segunda morte é o lago de fogo.

É justamente por isso que tradicionalmente o lago de fogo é o inferno, um lugar espiritual, que não é literalmente um “lago” comparado a um lago de água, como que mudando apenas seu conteúdo para as chamas de fogo, mas que esse “lago” simboliza o suplício eterno. Está vendo, o lago também pode ser um símbolo.

Tudo está no campo das figuras de linguagem apocalípticas. Assim, todos concordamos que o lago tipifica outra coisa, e essa coisa não é a “inexistência”, mas um castigo eterno para os réprobos ressuscitados e conscientes, um lugar espiritual de suplício. É pacífico que o castigo no lago de fogo é eterno, ou melhor, tem duração eterna, seja ele qual for.

De outra forma, estaria o autor apenas literalizando o termo “morte”, e quando se diz que a segunda morte é o lago de fogo, estaria apenas mostrando que a primeira morte é idêntica à segunda, como entendem os mortalistas, o que já está refutado, pois essa morte não é inexistência, e nem que a primeira e a segunda “morte” são os mesmos fatos em natureza. Pelo contrário, o contexto indica que são os dois castigos pelo pecado, e são diferentes.

Se é assim, se a segunda morte é apenas inexistência, e traz o sentido somente disso, vamos interpretar o texto e ver se o conceito encaixa-se perfeitamente.  Se a alegoria do fogo é usada apenas para representar outra morte física, isso deverá fazer sentido no contexto.

Se a morte é um “sono”, com a diferença que a primeria há despertar e a segunda não, então a morte seria algo que ninguém saberia o que é, já que não se tem consciência quando não existe. E a explicação do Targum é bastante importante, mas não é maior que aquilo que a texto bíblico explicita.

No verso 10 o Demônio é lançado no lago de fogo e enxofre, que na interpretação mortalista signficia o fim, a inexistência. Então o Demônio deixou de existir. E o texto afirma que lá estavam a Fera e o falso profeta, ou seja, interpretado como se não existissem mais. Seria o “lá na inexistência”, onde já estavam esses seres citados.

Mas o Apocalipse afirma que eles estavam sendo “atormentados, dia e noite”. E a outra questão é que o Demônio é lançado no lago após sua derrota, sem dizer o mínimo sobre um castigo “antes” de ser lançado ali. A punição se identifica com o lago de fogo, e não com outra coisa. Isso mostra que essa inovação interpretativa não deu certo. Não existe castigo proporcional antes do lago de fogo. Parece que está refutado o argumento aniquilacionista.

Na interpretação mortalista, fundamentada no argumento do Dr. Bacchiocchi, “a segunda morte é o lago de fogo”. Assim, o autor do livro explica que o símbolo é interpretado em Ap 20, 10.14 como é feito em Ap 1, 20, onde as estrelas são os anjos e os candelabros são as igrejas.

O texto grego assim diz em Apocalipse 1, 20: “As sete estrelas os anjos das sete igrejas são, e os candelabros sete, (as) sete igrejas são”, e formos traduzir literalmente.

Aqui temos duas refutações: a primeira, é que o grego explica o simbolismo usando a estrutura “estrelas são anjos e candelabros são igrejas”. Segundo, os anjos podem também ser um símbolo, pois possivelmente se referem aos bispos das igrejas e não aos anjos literais, pois seria estranho o apóstolo João escrever cartas a anjos literais.

Dessa forma, quando o autor do livro mortalista afirma: Note ainda que João não diz que a segunda morte é o lago de fogo, como interpretam os imortalistas, mas precisamente o contrário: que o lago de fogo é a segunda morte.”, ele não consultou o texto grego, mas usou o argumento do Dr. Bacchiochi.

E o texto grego assim afirma: “οὗτος (este) ὁ (a) θάνατος (morte) ὁ (a) δεύτερός (segunda) ἐστιν, (é) ἡ (o) λίμνη (lago) τοῦ (de) πυρός (fogo).

Ou seja, o contrário do que o autor do livro mortalista afirmou, pois ele seguiu uma tradução em português. Em grego literal está assim: “Esta a morte segunda é o lago de fogo”. O Apocalipse está explicando a segunda morte como símbolo, e o lago de fogo como o conceito.

A tradução da King James e da Almeida Corrigida e Fiel fizeram o contrário, o que corrobora a interpretação do livro, mas que não é o que está no original grego.

A versão da Ave Maria assim traduz: “A segunda morte é esta: o tanque de fogo”. Em outras palavras, o tanque de fogo é o conceito de segunda morte, para usar o raciocínio do autor mortlaista, ao mesmo tempo que refutando sua interpretação.

 

Desse modo, temos:

 

Ap 1, 20

As sete estrelas são os anjos

Ap 1, 20

Os sete candelabros, as sete igrejas

Ap 20, 14

A segunda morte é esta: o tanque de fogo

 

O grego literal está aproximadamente assim: “as sete estrelas, anjos das sete igrejas são e os candelabros sete, sete igrejas são”: “οἱ ἑπτὰ ἀστέρες ἄγγελοι τῶν ἑπτὰ ἐκκλησιῶν εἰσίν καὶ αἱ λυχνίαι αἱ ἑπτὰ  ἑπτὰ ἐκκλησίαι ἐκκλησίαι”.

A estrutura usada em Ap 20, 14, onde o símbolo é explicado, mostra que aquilo que está no lugar do símbolo é a “segunda morte”.

Então, essa versão que o livro mortalista trouxe, e serviu para o seu argumento, não traduziu conforme o original em relação à estrutura: “Então a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. O lago de fogo é a segunda morte.” Aqui o lago de fogo está no lugar do símbolo, mas no original não. Assim, essa é de fato mais uma refutação.

Quando São João explica que a segunda morte é o lago de fogo, os judeus entenderam que se tratava do hades igual a inferno, como na parábola do rico e Lázaro.

Jesus afirma que na Sua vinda os ímpios serão consumidos, como nos dias de Sodoma. Ainda, a explicação mortalsita da figura do fogo e enxofre caindo do céu como aquilo que aniquilará os ímpios, criando um lago de fogo e enxofre onde eles estão, torna toda a cena literal, o que contradiz o que o autor mortalista quis explicar acima. Ainda, contradiz aquela noção de que haverá castigo proporcional antes do lago de fogo.

Em outras palavras, se o fogo que cairá do céu é literal, criando um lago de fogo, então não haverá um castigo instantâneo, e assim o lago de fogo é o lugar do tormento proporcional, o que contraria a explicação anterior. Se o fogo que cai do céu aniquila os ímpios, e a figura do lago de fogo é apenas um símbolo para mostrar o que aconteceu aos condenados, então não houve castigo proporcional, contrariando a doutrina aniquilacionista proposta no livro. Das duas formas não há como harmonizar com a doutrina bíblica.

Se o lago de fogo não pode ter um fogo literal, já que a morte e o hades são nele lançados, também a forma de “aniquilar” os ímpios também deverá ser sem fogo. Ou haverá fogo? O aniquilacionista decide.

E a explicação de que o lago de fogo causa tormeno apenas no sentido simbólico é plausível, mas não se sustenta diante do que já foi exposto acima. E falta ainda ficar claro como será a completa aniquilação, como ensina o aniquilacionismo, se é pelo fogo e enxofre que cairá do céu instantaneamente, como falam as imagens proféticas, ou se realmente esse fogo formará um lago onde por um período temporário individual cada um irá ser consumido por séculos talvez, no tempo proporcional às suas faltas. É isso que dá introduzir outras interpretações das figuras bíblicas.

Se o fogo devorador cai do céu e elimina em um só instante a todos os ímpios, não há graus de castigo. Se o lago de fogo é apenas uma forma de mostrar o que aconteceu com os que morreram no fogo que caiu do céu na vinda de Jesus, de fato a explicação parece negar que haja castigo proporcional. De fato, não há como morrer instantaneamente e ao mesmo tempo ter um castigo proporcional às culpas. Por essa incoerência, surge mais uma refutação.

Portanto, a explicação de que o tormento diário para sempre é apenas parte do sentido simbólico foi bastante plausível no contexto da apresentação da doutrina aniquilacionista. Bom argumento. No entanto, em geral foram mostrados muitos problemas que invalidam a interpretação.

Gledson Meireles.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Um estudo sobre os vasos de barro: Rm 9 e 2 Tm 2

A comparação com os vasos de barro (Romanos 9)

Quem não aprendeu com a doutrina ensinada no Sínodo de Dort que Deus teria criado uns para salvação e deixado outros para a perdição? Mas, você sabia que Deus quer a salvação de todos, e criou o homem livre, e não determinou que ninguém fosse condenado?

Você pode crer com firmeza que é predestinado ao céu, embora não saiba certamente se receberá a graça eficaz para entrar no céu. No entanto, há uma certeza moral. Esse assunto será tratado aqui.

Em 2 Timóteo 2,14, o apóstolo Paulo introduz um assunto bastante interessante que nos ensina muito sobre a predestinação. Ele dá o conselho para evitar discussões, que “só servem para perdição dos ouvintes”, e as más conversam que “contribuem para a impiedade” (v. 16).

Ao mencionar a heresia espalhada por Himeneu e Fileto (2Tm 2,17), entende-se que a “perdição” causada por motivos de vãs discussões é a perdição eterna, já que pode ser causada pela adoção de heresias. São Paulo fala do transtorno da fé de alguns, como está no versículo 18. Nesse cenário nos lembra os que são fieis de Deus, citando Número 16,5: “O Senhor conhece os que são seus”.

Então, introduz a bela comparação da casa cheia de utensílios (σκεύη), uns de ouro e de prata, outros de madeira e de barro, “aqueles para ocasiões finas, estes para uso ordinário?”. (2 Tm 2,20) Ou seja, uns para honra (τιμὴν) e outros para desonra (ἀτιμίαν).

“Quem, portanto, se conversar puro e isento dessas doutrinas, será um utensílio nobre, santificado, útil ao seu possuidor, preparado para todo uso benéfico” (2 Tm 2,21).

Usando do livre-arbítrio envolvido pela graça, como aparece em toda a Escritura, pode-se através da obediência tornar-se utensílio nobre. Por isso, a Palavra de Deus afirma: “quem, portanto, se conversar puro e isento dessas doutrinas”. Fazer-se um utensílio nobre ou um utensílio de uso ordinário pela obediência a Deus, é uma verdade que aponta para a grande importância da vida de fé e boas obras, em conexão com a santificação e a salvação.

É importante ressaltar também o verso 25, visto que aprendemos que os adversários precisam do “arrependimento e o conhecimento da verdade” para libertarem-se dos “laços do demônio”. (v. 26) Ou o homem está agindo sob Deus ou debaixo das influências do demônio. E aqui não se faz essas exortações por desconhecimento de quem são os eleitos, mas porque é pressuposto que todos são livres e podem obedecer à graça, sendo todos chamados à salvação. Não se trata de supor que talvez entre os inimigos estejam os que estão predestinados, como se os demais não fossem verdadeiramente chamados à salvação, mas do fato de que esse chamado é igual a toda a humanidade pecadora.

Em Romanos encontramos uma comparação semelhante, com enfoques específicos, onde a criatura olha para Deus e não há razão para contestar Sua Vontade, como se um vaso de barro reclamasse ao oleiro o motivo de fazer um vaso para uso nobre e outro para uso vulgar (Rm 9, 20-21). E sendo Deus o criador de tudo, indo além daquela relação entre oleiro e barro, já que o barro não é obra do oleiro, a comparação é ainda mais forte.

As imagens são diferentes, mas o sentido idêntico. Em Romanos o apóstolo usa vasos de barro, iguais em sua forma, diferentes no uso. Essa passagem muito debatida, o que demonstra sua dificuldade intrínseca, deve ser entendida por outras mais claras, como a de 2 Timóteo comentada.

Mas, não só essa. A própria continuidade da argumentação, Romanos 9, verso 22, é capaz de lançar luz sobre o sentido do verso anterior. São Paulo responde à questão da justiça de Deus. “Onde, então, está a injustiça?”. E a resposta é que Deus, “para mostrar a sua ira e manifestar o seu poder”, suportou com paciência os objetos da ira preparados para a perdição.

Lembrando que são vasos iguais, de mesmo material, o barro, mas de uso diferente. Trata-se da relação oleiro e vaso, aludindo a criador e criatura, uso e direito de uso. Em 2 Timóteo a diferença de uso está atrelada à prática das obras e à vida de fé. Isso insere diferença nos usos dos vasos.

Eles são preparados para a perdição no sentido de se prepararem assim. Da mesma forma, os que são vasos de honra são aqueles que se conservam puros e sem heresias. Não se trata de Deus tê-los criado para a desonra, mas que, sendo obras de Deus, se puseram no caminho da desonra, serão usados justamente como vasos de ira.

O que justifica essa leitura é o próprio verso 22, que afirma que Deus tem suportado com paciência esses vasos. Na mesma casa, a casa de Deus, há vasos de honra e de desonra, onde é responsabilidade dos vasos se prepararem para o bom uso, servindo ao Senhor. Essa é a doutrina das duas passagens em consideração.

Em nenhum momento a razão do castigo dos ímpios foi a vontade de Deus, nem a implicação de que os vasos foram criados para a perdição, porque Deus fez o homem bom (cf. Ecl 7,29), mas exalta-se a justiça de Deus na Sua paciência ao suportar esses vasos maus. Deus conhece o coração de cada um deles, de modo que sabe o que fará com cada um.

O apóstolo poderia ter dito: Onde está a injustiça, se Deus quis criar uns para a honra e outros para a desonra e ponto!? Essa seria a posição reformada. Mas não.

De fato, foi questionado: Onde está a injustiça, se Deus tem suportado pacientemente esses vasos de desonra? A paciência de Deus mostra Sua justiça. Essa é a resposta bíblica, e católica. Deus não criou os vasos ruins como vasos ruins, mas esses vasos que se tornaram ruins são suportados por Deus. Se Deus suporta o que não quer, por misericórdia, isso implica a redenção universal, o livre-arbítrio, o chamado da graça suficiente.

A pergunta: “Por que me fizeste assim?” (v. 20) é uma ilustração. Outra é a do v. 21, quando fala das diferenças de uso de vasos feitos da mesma massa. Como que perguntando: ‘Por que me usaste assim?’.

De fato, está falando de como o Faraó foi tratado no verso 17, passando pela explicação sobre a misericórdia e o endurecimento, no verso 18, e pela pergunta enfática da queixa e da impossibilidade de resistir à Vontade de Deus no verso 19.

Em nenhum momento é dito que um vaso foi feito bom e o outro mal, como consequência do decreto divino, ou que Deus cria um para usá-lo para o bem e o outro para o mal. A ilustração tem a ver com a liberdade de Deus em tratar Suas criaturas, escolhendo umas e não outras, para um determinado bom propósito, e castigando a outros, como é segundo a Sua justiça.

Essa é a realidade, onde cada um faz o que quer, mas de tudo isso a vontade que prevalece é a de Deus. E o sentido último não é de uma livre agência determinada, onde as ações seguem como consequência do decreto, mas de reais ações que são permitidas no decreto e consideradas para que sirvam justamente aos propósitos divinos.

É a liberdade que leva a isso. Deus pode agir conforme Lhe apraz, e as escolhas que faz nos dão capacidade de entendê-las, e o modo como aplica a Sua justiça também. Assim, sabemos que não há injustiça na escolha de Jacó, nem na punição do Faraó. E os motivos mostrados acima são diversos daqueles contidos nas explicações calvinistas.

Portanto, a primeira ilustração aplica-se bem ao caso de Jacó, a outra na questão referida cabe perfeitamente ao Faraó. Não há injustiça da parte de Deus escolher uma determinada forma para o Seu vaso. Também não há injustiça se um vaso Ele trata com honra e outro não. Todos são criaturas de Deus e Ele faz com Suas criaturas segundo Sua Vontade. Resta ver o motivo por que trata diferentemente (2 Tm 2,20). E esse motivo é preparado pela criatura (v. 21). Melhor ainda, não é o beneplácito de Deus tratar diferentemente, mas as diferentes criaturas explicam o motivo de diferentes tratamentos.

Diriam os teólogos reformados que isso se trata da diferença entre a reprovação negativa, onde Deus deixaria os vasos em sua pecaminosidade, e a reprovação positiva, onde Deus traz o juízo e castiga os ímpios pela sua maldade. No entanto, como explicam, tudo é apenas um ato simples da parte de Deus, onde Deus teria preparado os vasos para serem como são, agirem contra Sua vontade expressa, determinando-os a praticarem o mal, que o fariam por sua própria vontade, e no final castiga-los pelo mal que praticaram.

Isso tudo não está no texto bíblico, mas é um raciocínio de certas afirmações, levadas quase ao máximo pela teologia reformada principal. Deus não pode ter determinado que os vasos assim agissem, pois contradiz o fato de que a Bíblia naturalmente apresenta a misericórdia de Deus em tudo isso, onde Ele suporta os vasos da ira, ainda que os mesmos tenham rejeitado a conversão.

O mesmo foi usado antes para realçar a justiça de Deus, no caso da escolha de Jacó. Dois meninos nasceram e um foi escolhido. Deus preferiu a Jacó, mas não faz injustiça a Esaú, já que não é obrigado por nada. Ele não teria nada que o obrigasse a escolher Esaú para ser o patriarca de Israel.

Por isso, sua rejeição a Esaú não é para a perdição, como já afirmado, pois Deus não age contrariamente ao Seu caráter santo. E não se pode levar essa escolha no sentido místico onde Esaú teria sido reprovado, o que não é a intenção do texto bíblico. Ele não age punindo antes que um motivo exista. E tal motivo deve nascer da criatura livremente, e não pela determinação anterior de um decreto feito para que o motivo fosse criado. Para o mau, o motivo da punição deve anteceder. Não há decreto de Deus para criar o mal em qualquer lugar que seja, mas apenas confirmar o mal que já existia proveniente da criatura, e não do decreto divino, e infligir o castigo, a ação de punição. Só esse mal pode ser referido à vontade de Deus.

Tudo isso está de acordo com o início de todo o assunto, nos versos 11 e 12. Deus é livre nas Suas escolhas, e antes que houvesse obras da parte de Jacó e Esaú, Ele escolheu o primeiro e rejeitou o segundo. E por isso, não há qualquer injustiça.

De fato, o assunto da eleição não para salvação e perdição, deve-se entender bem, como já visto no texto sagrado do Antigo Testamento que está sendo citado, mas para eleição de Israel como povo, embora não haja maldição de Deus para Esaú como outra nação. Esaú respondia pelos próprios pecados. Parte-se dos indivíduos para falar das duas nações. Somente a partir dessa realidade clara, se pode subir para suas implicações místicas.

O contexto de Romanos 9 é a salvação de Israel, irmão do apóstolo segundo carne (v. 3) Mas, para explicar a dureza de Israel, São Paulo fala da promessa, da razão da filiação, e não da descendência meramente natural (v. 8).

Ilustra a liberdade da escolha de Deus com o fato de Israel ser servido pelo irmão mais velho Esaú, como está em Gênesis 25,23. Também a escolha de Jacó, segundo nascido, ao invés do primogênito Esaú, em Malaquias 1,3, antes que tivessem nascido e tivessem feito o bem ou o mal. Tratando da posição de cada um no plano da salvação e não no sentido de salvar um e condenar o outro. Eis o que ensina a Palavra de Deus.

É um exemplo que foi utilizado para apresentar o plano salvífico divino, e não um modelo para mostrar como Deus salva. Não é a salvação de um e condenação de outro como proveniente do beneplácito divino, mas os modos que Deus age para salvar e punir.

Deus é livre em mostrar Sua misericórdia. Dois exemplos são lembrados, a palavra falada a Moisés em Êxodo 33,19, quando o profeta pede para ver a glória de Deus. Então o Senhor profere as palavras: “Dou a minha graça a quem eu dou a minha graça, e uso de misericórdia com quem eu uso de misericórdia”, segundo tradução literal. Isso significa que Deus usa de misericórdia com quem Lhe agrada. De fato, tudo o que Deus faz é santo e nada pode manchar Seus desígnios.

E vejamos ainda o caso do endurecimento do Faraó em Êxodo 9, 16, após o Senhor ter revelado o derramamento dos flagelos, caso o faraó não libertasse o povo conforme a vontade de Deus. O verso 16 mostra o motivo de Deus não eliminar de uma vez o faraó: mostrar o Seu poder e glorificar o Seu Nome sobre a terra, “se” o faraó obstinar-se (v. 17). Existe o condicional, que depende da atitude da criatura. É certo que Deus sabia do endurecimento do Faraó, mas o condicional não existiria se fosse pelo Seu decreto que o mesmo viesse a endurecer o coração, de modo que a revelação clara de Deus dos Seus desígnios tivesse caído sob névoas nessa passagem.

Esse é o sentido do motivo do faraó ter sido levantado para cumprir esse desígnio de Deus. E vem a questão: “Haverá injustiça em Deus?”. A resposta é não. De fato, o Senhor disse em Êxodo 3,19: “Eu sei, no entanto, que o rei do Egito não vos deixará ir, se não for obrigado por mão forte.”

Essa é a razão por que Deus endureceu o coração do faraó, para o obrigar a deixar o povo sair da escravidão. Deus sempre age para salvar, libertar, fazer o bem, mostrar Sua justiça. Assim, o endurecimento do faraó tinha sido previsto por Deus e foi o motivo para que Deus agisse posteriormente para o seu endurecimento pessoal persistente.

Sabendo que o Faraó endureceria seu coração, Deus agiu sobre ele fazendo endurecer ainda mais, e o fixando nessa rebelião, que mesmo diante dos flagelos que viriam não deixaria o povo sair, até que fosse mostrada toda a intervenção de Deus. Trata-se de um castigo pelo pecado de desobediência do Faraó. O faraó havia perdido sua chance de deixar o povo ir.

Michael Horton percebe essa problemática para a doutrina reformada, e no seu sistema onde somente Deus tem o livre-arbítrio e o homem a livre agência, que seria um tipo de liberdade diferente para a criatura, ele afirma que as passagens que falam que Deus irá endurecer o coração do Faraó vêm no começo, citando Êx 4,21 e 7,3.

No entanto, a primeira profecia vem antes disso, a saber, em Êx 3,19. Deus sabe que o Faraó endurecerá o coração, por si mesmo, particularmente, e então o ato de Deus é obrigar o Faraó por mão forte, a libertar o povo. Ele então endurece o coração do Faraó por cima do seu coração já endurecido. Ele faz com que o Faraó continue na sua maldade. Deus não torna o coração do faraó mal e endurecimento, mas o fixa na sua rebelião, usando essa atitude para a libertação do povo e para o castigo desse mau rei.

Não é totalmente correta a explicação de Horton, que afirma que o “Faraó estava endurecendo seu próprio coração em resposta à Palavra de Deus”, e Deus estava fazendo o que disse a Moisés que iria fazer.

Na verdade, Deus antes mesmo de endurecer o coração do Faraó, revelou que o mesmo não deixaria o povo sair (Ex 3,19), e por isso endureceria seu coração. O Faraó já iria desobedecer e endurecer seu coração. Então, a posteriori Deus causa o endurecimento como punição, Ele não inicia o endurecimento do coração do Faraó. Essa distinção é fundamental. Portanto, o Faraó já possuía um coração petrificado. Deus opera em cada coisa de acordo com sua própria natureza. É conforme a natureza de uma coisa que Deus age para fortalecê-la segundo o que ela intencionou realizar.

Se o coração do Faraó é ruim, então Deus operará nesse coração segundo ele merece. Essa noção pode ser percebida igualmente tendo em conta a livre agência, como explicaria o calvinista, já que Deus não causa o endurecimento, encontrando um coração duro. Mas o reformado afirma que esse coração não poderia ser de outra forma. De fato, ele afirma que pelo decreto divino aquele coração consequentemente deveria ser endurecido por si mesmo, e depois ser endurecido por Deus, o que destoa da apresentação da Escritura.

De fato, a Bíblia simplesmente mostra a atitude do Faraó sendo prevista por Deus e as ações de Deus para libertar o povo, punindo o Faraó. Disso se pode aprender, para entender o decreto divino, que o Faraó possui o livre-arbítrio, e por isso Deus usa dessa situação para o bem de todo o povo.

Entretanto, a passagem é totalmente explicada pelo livre-arbítrio, já que Deus prevê uma ação livre do Faraó, que foi instado muitas vezes a deixar o povo ir, por ordem de Deus, e ainda assim recusou-se a obedecer, e age por cima dela para realizar Seu plano de libertação. As nuances são semelhantes àquilo que o reformado diria do ativo negativo e positivo de Deus na punição do pecador, supondo algo que na realidade se apresenta como livre-arbítrio, mas que é considerado como não sendo assim, pois seria uma liberdade determinada. As características podem ser parecidas para explicar a passagem, mas o livre-arbítrio é mais eloquente. Não somente isso, ele é correto.

A liberdade de Deus usar de misericórdia e justiça sobre as pessoas é realçada em Romanos 9,20-21. Por isso, Deus pôde usar da dureza de coração do Faraó para mostrar Seu poder e anunciar o Seu Nome sobre a terra. Esse é o sentido do texto, e não o de que alguém foi criado para a condenação. Perceba que tudo está sendo concatenado pela própria Escritura.

Os vasos de Rm 9,22 são preparados (κατηρτισμένα) para a perdição, enquanto que os do versículo 23 são que Ele preparou (προητοίμασεν) para a glória, usando a mesma palavra de Efésios 2,10, sobre as obras que Deus preparou para que andássemos nelas. A fraseologia é diferente quando se fala da condenação e da salvação. Para a salvação o Autor é Deus, para a condenação é o homem. De fato, é certo que essa distinção é feita na doutrina reformada, mas não pode ser totalmente compreendida, como foi mostrado acima, quando se nega o livre-arbítrio.

São Paulo afirma que os gentios não procuravam a justiça e a encontraram pela fé, e os judeus procuravam a Lei que desse justificação e não a encontraram (Rm 9, 30). Porque não a procuraram pela fé e “sim pelas obras” (v. 31). Obviamente não está falando de cada indivíduo gentio e judeu, mas em relação à coletividade dos gentios e dos judeus. Aqueles encontravam a justiça que procuravam, e o fizeram por meio da fé, esses não a encontraram porque foram através das obras.

Para melhor resumir toda essa questão no texto de Romanos 9, façamos algumas indicações importantes para conhecimento do contexto dos três capítulos que versam sobre a eleição de Israel.

Em primeiro lugar temos que Israel possui dois sentidos no texto sagrado. Em segundo lugar, a eleição aparece com duas nuanças correlatas, ambas fundamentadas pela promessa e graça de Deus. Em último lugar, deve-se conhecer a base para a eleição e o motivo do endurecimento que Deus realiza nos corações.

Por meio dessa análise, ver-se-á que a eleição é o intuito primeiro de Deus, e que o endurecimento só vem após a ação má e a recusa da criatura. Essas coisas já foram tratadas acima, mas com o propósito de fecharmos o argumento serão reunidas aqui no contexto de Romanos 9, 10 e 11.

São Paulo fala de Israel segundo a carne e segundo a promessa, afirmando que o verdadeiro Israel da promessa está reservado pela graça, pois a recusa de muitos não significa a rejeição do povo de Israel por parte de Deus (Rm 11,1). Então, ele trata de indivíduos do povo eleito que recusaram a fé, mas mostra que isso não invalida a eleição do povo inteiro.

Dessa forma, o contexto trata do Israel natural e do Israel da promessa (Rm 9,8). A promessa não se limita ao Israel natural, pois Jesus desfez na sua carne o muro de separação entre judeus e gentios, e abriu para todas as nações a possibilidade de ser povo de Deus, fazendo de dois povos um só, como está em Efésios 2. Dessa forma, a descendência física não é contada para a eleição, mas a promessa de Deus feita aos patriarcas.

Mais uma vez, não se trata de separar os que foram infiéis do povo que permaneceu, mas mostrar que a infidelidade de muitos não desfaz a promessa de Deus, visto que não é a carne que define o verdadeiro Israel, mas a promessa, que fez de Israel e das nações um povo único, de modo que todos são chamados, e todos podem tornar-se membros da aliança.

Também temos que a eleição é baseada na graça de Deus. Quando se diz que é pela graça, e que as obras não são causa da eleição (Rm 9,12-13). O caso de Jacó e Esaú é apresentado para falar da liberalidade de escolha de Deus, assim como o fato do faraó egípcio ter sido endurecido tem a ver com a justiça de Deus.

Sabendo a distinção entre o Israel segundo o sangue e o Israel segundo a eleição da graça, temos a correta interpretação de todo o texto. Isso está em Rm 10, 6, onde Israel é comparado aos eleitos. Há em Israel um número eleito segundo a graça para provar que a eleição de todo o povo continua de pé (cf. Rm 11,1).

Chegamos então ao endurecimento que Deus opera nos desobedientes. Ele o faz para salvar. Isso está em Romanos 10, 7-8. Isso mesmo, o endurecimento dos corações, como punição aqui, punição daqueles que quiseram livremente rejeitar o evangelho, tem o fim de salvar, e não de condenar.

Não se trata de decretar a reprovação de uns para que outros sejam salvos, mas que apesar do endurecimento de muitos, que deveriam estar na eleição, esse mal será usado para a salvação dos eleitos, daqueles que aceitam e aceitaram o chamado.

São Paulo afirma que esses que caíram por causa da incredulidade ainda são chamados à salvação. Por isso, pelo ciúme, os que estão endurecidos podem voltar-se a Deus e serem salvos. Isso é maravilhoso e confirma tudo o que foi explicado antes. Há em Israel os que estão endurecidos (Rm 11,7), mas esses não foram endurecidos para ficarem assim, mas para a salvação dos gentios: “Pergunto ainda: Tropeçaram acaso para cair? De modo algum. Mas sua queda, tornando a salvação acessível aos pagãos, incitou-os à emulação” (v. 11).

Então, quando o tempo dos pagãos for completado, os demais serão convertidos em grande número. São Paulo fala do trabalho de pregação para levar alguns desses à salvação (vv. 13-14). Constatando isso, é correto afirmar que durante a história, ainda que o povo está coletivamente no endurecimento a favor da salvação das nações, muitos estão sendo salvos, pois pela pregação, “com o intuito de, eventualmente, excitar à emulação os homens da minha raça e salva alguns deles”, mostrando que é a graça suficiente a todos, e o poder do livre-arbítrio para responder ao chamado.

Não está aqui falando do remanescente eleito, mas dos outros que com certeza estão no endurecimento de coração. Sendo assim, essas passagem refutam totalmente a ideia de que se está procurando salvar os eleitos, como se os reprovados não pudessem, pelo decreto divino, responder ao chamado da salvação. Nada disso. O apóstolo está mostrando que sua pregação se dirige aos que estão caídos, os que tropeçaram e caíram, e podem ser incitados à fé pela pregação do evangelho e serem salvos, se aceitarem. Tem-se então a explicação do plano do remanescente, do objeto do endurecimento de Israel, e do plano de salvação para aquela parte que está endurecida de coração.

São esses que serão enxertados na raiz santa, onde já estão os pagãos convertidos. Essa parte de Israel, em maioria, foi cortada pela incredulidade, e está endurecida, enquanto que os gentios estão firmes na fé e enxertados na oliveira santa.

Nesse contexto é revelado, mais uma vez, o livre-arbítrio dos que estão na graça, a possibilidade da perda da salvação e a eleição de Deus pela graça.

O versículo 22 fala da bondade e da severidade de Deus. Os que estão enxertados são exortados a vigiar, para que não sejam cortados. Isso não é mera retórica, mera exposição de condições, mas uma conexão com a realidade dos fatos. Há muitos que deixaram a graça, e isso contradiz a doutrina dos decretos como está na teologia reformada, mas é o modo que a doutrina bíblica apresenta a eleição e a reprovação.

Da mesma forma, os que estão na incredulidade possuem a esperança de serem, pela fé, enxertados de novo, “se não persistirem na incredulidade”. Outra vez um condicional. Estamos em contexto salvacional, onde a eleição pela graça é permeada em todo texto.

Portanto, aprendemos da Bíblia, que nos leva a toda boa obra e salvação (2 Tm 3, 15), que Deus encerrou todos na desobediência para usar de misericórdia para com todos. Os desobedientes foram deixados na desobediência não para serem castigados e reprovados, mas para serem salvos, causarem a salvação, de todos. A eleição do remanescente e de todo o Israel está baseada na graça de Deus, pois: “Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído?”.

Por tudo isso, é importante conhecer essa distinção dos dois Israel, das duas eleições, do sentido da graça, e do motivo do endurecimento, pois esse é sempre segundo a misericórdia de Deus. A Deus seja dada toda a glória (Rm 11,36).

Gledson Meireles.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma. Sobre a esperança da ressurreição

Refutação: Uma esperança ofuscada


De fato, com o passar do tempo, a imortalidade da alma foi ficando mais comum na doutrina pregada do que a ênfase na ressurreição da carne, embora na Igreja Católica a ressurreição da carne é lembrada sempre, em todas as missas, e ensinada no catecismo.

No entanto, a imortalidade da alma não é incompatível com a doutrina da ressurreição da carne, crida desde sempre na Igreja, como afirma Oscar Cullmann, equivocado nesse sentido.

Primeiramente, é preciso entender que a alma não é a “essência” do ser hnumano, mas parte da natureza humana, formando com o corpa a pessoa humana. Por isso, a alma foi entendida como a forma do corpo, como aquilo que faz com que o ser humano seja o que é, e, portanto, ela não pode ser vista como um ente separado que pode passar a eternidade sem o corpo. Partindo daí, já se refuta a opinião filosófica grega.

Pensar que o corpo físico, “mesmo em estado glorificado” possui limitações tamanhas, que não poderiam ser comparadas às habilidades angélicas, é um erro. O corpo glorificado será semelhante aos anjos em sua capacidade de viver no reino dos céus, em transportar-se para outros lugares, em não estar mais limitado ao material. Assim, mais uma noção que se deve ter em mente quando se fala da ressurreição.

Por isso, a ideia de um “ser” preso em um corpo é ideia platônica, não cristã.

Interessante as vezes em que se faz crítica à imortalidade da alma a presença das expressões “perseguindo nunves”, e até “atravessando paredes”.

Mas, voltando ao assunto, Jesus pôde aparecer e desaparecer quando quis em Seu Corpo glorificado. Não precisou alimentar-Se, e subiu aos céus na presença de muitas testemunhas. Esse corpo não é apenas “melhorado” e continuando inferior ao ser espiritual, mas terá habilidades espirituais, pois será o corpo do homem espiritual.

Então, a ideia mortalista é que os gregos estavam sendo muito mais lógicos ao crer na imortalidade da alma e negar a ressureição, do que os cristãos que creem em ambas as coisas.

Interessante as críticas da teologia da prosperidade, e da devoção aos santos, e a Maria, para afirmar que são doutrinas que tiram o foco, que desviam de algo. Nessa crítica é dito que na Ave Maria quase não se fala de Jesus. Por que o rosário é assim? Simplesmente porque é uma oração mariana. Mas, agora vem a segunda parte da resposta: ela é dirigia a Maria porque Maria é mãe de Jesus. De fato, em toda Ave Maria se fala de Jesus: “bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”. Em todo o rosário são contemplados a vida de Cristo, e em cada mistério há incício com o Pai Nosso. No começo do terço há a oração do Credo, a Trindade é enfatizada em toda a oração. Somente para ficar mais clara essa questão do rosário. Mas, é certo que o Protestnatismo tem um olhar diferente, afirmando só praticar o que a Bíblia ordena, e sem não for encontrado uma ordem para se rezar a Maria, então os fieis não rezarão, e assim por diante. É uma aproximação diversa das Escrituras em comparação com os católicos.

As citações do famoso livro de Santo Afonso de Ligório são bem profundas, mal entendidas, praticamente nunca entendidas pelos protestantes, e vistas como bastante equivocadas, muito exageradas, etc., por críticos. De fato, a citação feita: “muitas coisas se pedem a Deus, e não se alcançam. Pedem-se a Maria, e conseguem-se”, é entendida como se Maria atendesse mais oração do que Deus. É óbvio que o protestante não aceitará a afirmação, nem a explicação, mas aqui será dada uma reposta breve e clara sobre o que Santo Afonso ensinou: “muitos pedem a Deus e, por falta de fé suficiente, não são atendidos. Quando vão a Maria, e pedem humildemente que ela se apresente a Deus em seu favor, então conseguem o favor de Deus, não porque Deus não tenha querido atende-los, mas porque faltou-lhes a humildade diante de Deus, que foi apresentada pela virgem Maria pedindo pelo pobre pecador. Obviamente o protestante dirá que não se deve pedir a Maria, que o que não tem fé não recebe o pedido, etc., etc., mas é essa a intenção da frase de Santo Afonso, que mostra bastante fé, humildade, a está segundo a doutrina do evangelho.

Talvez, a falta de ênfase na ressurreição, de estudos sobre o tema, seja pelo fato, também, de que essa doutrina não teve negações importantes durante a Idade Média e Moderna. A ressurreição da carne não é dispensável, é essencial, visto que a alma não foi feita sem corpo, mas no corpo. Por isso, não é superior a ida da alma ao céu do que a ida da pessoa ao céu de corpo e alma.

No tempo de santo Ireneu, como mostra em seu livro 5, capítulo 31, os hereges não criam na salvação da carne, e começaram a ensinar que o homem interior ia para a presença de Deus após a morte. Santo Ireneu usou a ressurreição de Cristo para ensinar que a carne deve ser salva igualmente, e que assim como Cristo, que desceu às profundezas da terra, ressuscitou e, depois, subiu ao céu, os salvos deverão ir para o lugar preparado por Deus, e esperar a ressurreição, para depois subir ao céu.

Nesse livro, santo bispo Ireneu fala da ressurreição “afetando o homem inteiro”, o que alude à ressurreição do corpo e da alma, e fala dos santos mortos que dormiam na terra da sepultura. Ao dizer isso, não se entende que a alma morre e ressuscita, mas que a carne também ressuscitará, voltará a viver com a alma.

Então, essa linguagem é a mesma que o mortalismo utiliza em suas críticas, mas não tem o mesmo sentido, pois santo Ireneu apenas está mostrando que o corpo deverá ser ressuscitado, pois afirma que as almas dos mortos estavam nas sombras da morte, para onde Cristo desceu, e afirma que as almas deverão ir a um lugar preparado por Deus antes da ressurreição.

Essa foi a forma que santo Ireneu usou para refutar os que negavam a ressurreição dos mortos, e por sua apresentação entende-se mais a linguagem dos apologistas em seu tempo, ao falar da imortalidade da alma e da ressurreição dos mortos. Certamente, ele estava debatendo com heresias semelhantes àquela combatida por São Paulo, que negavam a ressureição. Assim, entende-se que na antiguidade muitos criam na imortalidade da alma e negavam ressurreição dos mortos, mas, como santo Ireneu, os cristãos criam na imortalidade da alma e na ressurreição dos mortos.

Gledson Meireles.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Livro: A lenda da imortalidade da alma. Sobre castigo e recompensa no sheol

 Há castigo ou recompensa no Sheol?

 

A ideia de que o sheol é apenas “pó da terra”, sepultura universal, algo físico, se dá apenas porque o termo às vezes está ligado ao túmulo, e parece harmonizar-se com o que se diz literalmente dos mortos, ou seja, que não podem mais nada fazer e deixam de existir na terra. No entanto, há passagens, como a de 1 Samuel 28, 15, que mostram a noção que os antigos judeus tinham do sheol, o que concorda que de fato todos os mortos estão no sheol, o que não pode ser túmulo individual, e que os mortos lá estão em repouso, o que parece com o que ocorre na sepultura, e que sua localização é embaixo da terra, mas contradiz a posição mortalista de que os mortos deixam de existir.

 

A passagem é a seguinte: “Por que me incomodaste, fazendo-me subir aqui?”. Aqueles que criam na evocação dos mortos sabiam que a alma existia, e esses eram todos os israelitas, de forma que o rei Saul havia promulgado lei proibindo evocação dos mortos. Os judeus criam que as almas estavam conscientes, que habitavam o sheol embaixo da terra e que poderiam voltar à terra, aparecendo aos vivos. Tudo isso é o mesmo que está pressuposto em todas as passagens que falam do sheol, e está de acordo com a doutrina da Bíblia inteira.

Livro: A lenda da imortalidade da alma. Sobre as portas e cordas do sheol

 Refutação: As “portas” e “cordas” do Sheol

 

Certas interpretações surgem impensadamente, como a que o autor refuta no respectivo tópico. Mas, também como o próprio autor fez em outro tópico, já refutado aqui, onde a partir de certas palavras de um texto procura transpor o sentido para outra passagem a fim de explicá-la, o que muitas vezes não é correto, por motivos que foram mostrados.

 Quando se diz que o sheol tem portas e cordas, de fato, essa é uma linguagem poética para falar do poder da morte, nada mais do que isso.

 A explicação sobre a lingaguem de Jó 7, 9, que seria explicada porque Jó nunca tinha visto uma ressurreição, como a de Lázaro, é uma explicação que mostra como a doutrina foi sendo desenvolvida, como a revelação teve seu desenvolvimento.

 E eis que o autor, ao demonstrar que a afirmação de Jó sobre a impossibilidade de voltar do sheol, ou seja, de ressuscitar, não estava negando a ressurreição final, já que Jó 19, 25-27 expressamente ensina que haverá ressurreição, o autor mortalista usa o texto de forma mais literal para frisar essa verdade, o que está correto, e ressalta que Jó estava apenas dizendo que ninguém ressuscitaria “para o seu lar”, para a mesma habitação terrena, e não uma negação da ressurreição em si.

 Embora não percebido, essa é a mesma forma de interpretação usada para refutar o mortalismo em Ecl 9,5.10, pois ali não está afirmando que não há consciência no mundo dos mortos, mas que não há vida no túmulo, e que os mortos não possuem mais qualquer relação de participação “debaixo do sol”, que é uma parte do texto muito importante, como aqui foi usada “para o seu lar”, de forma a evitar interpretações equivocadas. Por isso, basta que se use métodos corretos de interpretar para certificar-se do verdadeiro sentido de cada passagem.

 Então, embora não sejam usadas as figuras de linguagem “portas” e “corda” para provar que o sheol é um lugar espiritual, como fez o aludido autor protestante, essa refutação, sobre essas metáforas, não traz qualquer problema para a imortalidade da alma.

Esse item serviu para mostrar um pouco como se faz interpretação bíblica, e como a interpretação católica é equilibrada e coerente, mostrando também certas falhas de interpretação que o mortalismo usa para defender seu ponto de vista.

Gledson Meireles.