terça-feira, 21 de setembro de 2021

Catolicidade sem Catolicismo é possível?

A resposta mais simples é: não.

Embora os protestantes, parte deles, aqueles mais preocupados com a pureza doutrinal, e o seguimento mais genuíno de Cristo, pretendem resgatar a catolicidade, própria do Protestantismo. Estão chegando mais próximos à verdade católica.

Essa catolicidade era o que pensavam os reformadores, todos católicos, aliás, que haviam saído da Igreja, não porque pensassem ter abandonado o Catolicismo, não que tenham tido essa intenção, mas porque julgavam estar trilhando os verdadeiros caminhos que a instituição católica teria deixado de lado.

Assim, há protestantes hoje que, como Tiago Cavaco permite pensar, recitam o credo, dão valor à tradição, estudam mais o catecismo, não torcem o nariz para os rituais e repetições da liturgia. No entanto, essas coisas, positivas, é claro, ainda não são suficientes para ser católico. Contudo, indicam um passo positivo.

Outro assunto importante é sobre a patrística. Os protestantes tendem a pensar que os padres da Igreja eram tão desunidos quanto os reformadores do século 16, e que as diversas comunidades católicas podem apresentar igual ou maior diversidade que o Protestantismo apresenta. Como Cavaco diz, um membro da Opus Dei pode ser mais diferente de um jesuíta do que se compararmos um calvinista em relação a um pentecostal! Será? Isso é certamente um exagero! Na verdade, isso não está correto.

Com essas ideias, que não são novas, muitas pessoas pensam que as divisões protestantes são menos drásticas, e que no mínimo o Catolicismo estaria em idêntica situação. Para início de conversa, então, isso demonstra inconscientemente que os Protestantes aceitam a diversidade católica, e por isso não devem usar nunca tal constatação que possuem como argumento contrário ao Catolicismo.

Mas, para uma apreciação pormenorizada desse assunto, é preciso entender a unidade católica, conforme a Bíblia. Com isso em mente, agora deve-se tomar um passo importante para entender a diversidade da Igreja Católica, à luz da Bíblia, como está em 1 Coríntios 12, e veremos a unidade real que o Corpo de Cristo exige.

Ao vermos tantas igrejas evangélicas desunidas, logo nos vem à mente que isso é algo negativo. Contrariamente a isso, o pastor Tiago afirma que tal coisa revela uma liberdade, algo totalmente positivo. Entendemos. Mas, pensemos nos primeiros cristãos vendo tamanha divisão. Não existia nada parecido nem no primeiro, nem nos séculos posteriores. As divisões eram todas reprovadas. Por isso, é natural que o católico fique escandalizado com tanta divisão no protestantismo. É uma reação natural. E correta.

Quanto aos sermões incisivos e punitivos de Lutero. Talvez isso seja raro, ou mesmo inexistente, entre protestantes. A explicação para isso é que Lutero era sacerdote, era um padre católico, recém saído do seio da Igreja, e tais atitudes eram relativamente comuns nos púlpitos católicos, onde o povo era pastoreado com a firmeza de um pai espiritual, que muitas vezes era duro com os pecados dos fieis. E também era consciente de seu poder para pastorear, em serviço de Cristo. Seria melhor que o pastor Tiago frequentasse as igrejas católicas para ir notando aos poucos essa atitude mais próxima entre padres e comunidade na Igreja Católica. Porém, que isso não fosse feito com fins de estudos e investigações apenas, mas para aprender a verdade.

Outro ponto que devemos notar, é que não é exato que os protestantes estão unidos sob a Palavra e os católicos muitas vezes estão desunidos sob a Igreja. Tal jogo de palavras não explica a realidade. Basta ver que muitas filosofias contrárias ao Evangelho, coisas da alta crítica textual, por exemplo, e modernismos perniciosos à causa do evangelho, nascem em solo protestantes, no meio de quem certamente não crê em coisa nenhuma, e somente depois tal vírus aparece em arraiais católicos. Por isso, exemplos assim de divisão sob a Igreja são idênticos ao que acontece no meio protestante reformado. É apenas uma breve reflexão.

Também a questão do ouvir. O pastor comentar o fato de que os pastores protestantes sabem falar e têm dificuldade para ouvir. Isso é sintomático. Imaginem se ouvirão um católico pregando o evangelho!

Ainda, arte da confissão. Confessar os pecados a Deus, não é fácil, mas é mais fácil que confessar a alguém, em posição e situação de humildade, reconhecendo aquela pessoa como ministro de Cristo. O protestante não tem essa experiência. No mínimo faria o que o pastor disse em confessar os pecados uns aos outros como forma de exercício espiritual cristão, eu diria. Mas, isso lembra um pouco, de longe, mas não é o sacramento da penitência. Algo para refletir.

Por fim, basta pensar que homens inteligentes e humildes que puseram-se a estudar o evangelho e a doutrina cristã tornaram-se católicos. Francis Beckwith, como citado. O jovem da igreja batista onde pastor Tiago é membro. Um companheiro de trabalho do pastor Yago Martins. Lembremos de figuras expoentes, como G. K. Chesterton, que apresenta razões tão profundas da sua conversão, e críticas tão contundentes que muitos não concordam, mas também não conseguem refutar. Isso é o que escreveu um pastor brasileiro que admira Chesterton. Também Tiago Cavaco, outro admirador de Chesterton, menos quando esse critica o calvinismo. Certamente o pastor também não consegue lidar com essa crítica.

É o que escrevi em outro artigo: quanto mais se aprende a verdade, mas se chega perto do Catolicismo. É inevitável.

Gledson Meireles.

domingo, 19 de setembro de 2021

Entre outras coisas, o Catolicismo tem o melhor remédio contra o orgulho

Em continuação do estudo do livro do pastor Tiago Cavaco, Cuidado com o alemão: três dentadas que Martinho Lutero dá à nossa época, editora Vida Nova, 2017.

Sem entrar no mérito da exatidão da análise que o autor faz de Erasmo de Roterdã, é preciso notar que Erasmo não é a Igreja. O que Erasmo disser que não estiver de acordo com os princípios cristãos católicos, pode ser deixado de lado. Por isso, é muito perigoso pensar que Erasmo contra Lutero seja idêntico a Igreja contra Lutero. É certo que o holandês permaneceu católico, mas pode não ter dito tudo o que a doutrina católica diria, ou não se expressado como deveria. Dizem até que ele exagerou certas coisas, ao falar da liberdade, fazendo com que a doutrina católica não fosse percebida nesses exageros, é claro. Assim, quando de trata de um autor sozinho, não se pode coloca-lo totalmente em representação do Catolicismo. Assim com Lutero não é todo o Protestantismo atual.

Naquele momento, Lutero e Erasmo não necessariamente eram Catolicismo e Protestantismo, mas o início desse debate.

É certo que Erasmo defendeu o livre-arbítrio, posição católica, correto, mas que nem todas as suas afirmações podem estar de acordo com aquilo que deveria ter afirmado. Porém, deve-se dizer, para evitar mal-entendidos, que entende-se bem que na avaliação feita Erasmo incorpora o catolicismo e Lutero o lado protestante. O que se quer dizer aqui é que ainda assim é preciso ter em mente as distinções apontadas acima. Esse é um pequeno parêntese ao pensar nessas comparações.

A respeito das asserções, é certo também que cristãos católicos vivem de asserções, de constantemente aderindo, vivendo e defendendo a verdade em que crê. Não se trata de algo novo no Protestantismo. Aliás, parece mesmo que essa nota é mais católica do que nunca, quando li essa afirmação no livro do pastor português. Parece até que estava falando do católico em comparação com o protestante, onde o católico vive de asserções, e não pode deixar de fazê-lo. E parece que o protestante nem as tem!, no sentido de estar moldando-se a todo o tempo na “liberdade” que tem do seu livre-exame, de acordo com os ares que sopram do mundo, e nas suas conformações com a cultura mundana.  É o católico que mostra-se mais fora desse contexto, como sempre.

Talvez o que o autor esteja falando tem uma nuance diferente. Mas, não deixam de ser verdade as linhas acima. Talvez o que Erasmo defendeu tem a ver com a tradição, e o que Lutero asseverou seja somente o texto bíblico. O viver nas coisas excedentes seria ir além do que estar escrito. E o ficar com o necessário seria ficar com a Bíblia somente. Mas, isso é um pouco complicado, quando se tem em mente que a história cristã, a hermenêutica e a afirmações autoritativas do passado não caem facilmente para dar lugar a uma novidade teológica. E por quê? Como resolver? É algo que somente o Catolicismo soube sempre fazer.

A questão da verdade que une e da verdade que desune é algo também que não ficou claro. Parece novamente que está falando do Catolicismo ao dizer que a verdade que desune é aquela que preferimos, como católicos. Por isso, Bento XVI, papa que ganhou a admiração do pastor Tiago, escreveu que o ecumenismo não pode ser feito à custa da verdade. Ou seja, é na verdade que unimos, ou seja, na verdade que irá contra as posições que não se adequam a ela, fazendo com que aqueles que almejam a unidade cristã deixem suas opiniões e acolham a verdade, que é Cristo e todo Seu ensinamento.

O Catolicismo não quer unidade que não respeite a verdade. Essa é toda a história católica, basta um pouco de leitura da história para constatar isso. A Igreja Católica nunca procurou dizer o que o povo gosta, mas confrontar o povo com o puro Evangelho. É por isso que porcentagem enorme de professos católicos não concorda com as decisões e ensinos da Igreja! A palavra do Evangelho desune sim, os que permanecem fieis daqueles que não.

Erasmo personificando o espírito católico da concórdia, de não discutir para não desunir, parece não ser tão exato. Fato é que o Concílio de Trento foi bastante longo e de muitas discussões. Foram anos a fio estudando a Palavra. Não se pode negar que o grande concílio ecumênico e dogmático de Trento tenha tido discussões. E porque a doutrina de sempre foi mantida, não significa que não houve discussão, mas que a doutrina era de fato verdade. E apesar das grandes divisões doutrinais, o Concílio não cedeu em nenhum ponto. Outra coisa é que as discussões com Lutero não lograram êxito, ao longo do tempo, de 1517 até a excomunhão em 1521, prova que o ele não estava disposto da mudar suas posições, e isso também, e com maior razão, deve ser reconhecido em relação à Igreja, que estava certa de não poder mudar um til da doutrina que Cristo lhe confiou. E tudo isso ficou claro no ensino do Concílio de Trento.

Outro ponto do debate que o autor aponta entre catolicismo e protestantismo é o sinergismo e o monergismo na salvação, ainda que admita que no interior do protestantismo há também uma diferença entre as diversas opiniões.

O fato de o protestantismo tornar o ser humano meros “figurantes para o protagonista”, deixando tal coisa como uma base sólida a lutar contra a cultura vigente que adota um “humanismo líquido”, ao passo que o catolicismo estaria mais de acordo com o espírito predominante nas outras esferas do pensamento fora do cristianismo, não parece ser algo tão exato. Parece mesmo que há um paradoxo aqui. Vê que o Catolicismo sempre ofereceu uma barreira sólida e instransponível quando se trata de defender o espírito evangélico das investidas do inimigo, sejam quais forem as fontes de onde proveem os ataques.

 Quando se nota que os católicos gostam mais de pessoas que os protestantes, isso também é algo que deve ser enfatizado. No que diz respeito a venerar os santos, o protestante logo põe-se como um “co-irmão” de qualquer santo, em pé de igualdade, ficando de pé, e nunca se curvando, sentindo-se igual e nunca inferior, alegando honra idêntica, jamais aquém de qualquer salvo por Cristo.

Nisso é verdade, o protestante não gosta tanto de pessoas. O ser humano pecador é coberto com o manto de Cristo, e a santidade que deve perseguir por toda a vida está separada da salvação um dia encontrada de uma vez por todas pela fé. Isso é o que Lutero ensinou, diferentemente do catolicismo, e que tanto enfatizou, levando o homem a cada vez mais sentir que suas faltas são “normais”, ainda que ensinado a evitá-las, pois parte da natureza caída, mas que impossível de ficar sem elas, atrelada ao fato de que todos os pecados são “iguais”, e que toda obra fora da fé é “pecado”. Esse bojo de afirmações complexas provenientes da doutrina luterana e reformada explica o motivo do protestante não gostar muitos de pessoas. Mas não só isso. Explica também o porquê do protestante ser tão indulgente consigo mesmo, de gostar tanto de si, a ponto de ser quase impossível não estar sempre com o ego inflado. Aquilo que a natureza caída tem de impulso natural, no protestantismo ganha essa ajudinha. O indivíduo protestante gosta demais de si mesmo, a ponto de não ceder diante do outro.

O catolicismo por sua vez, ensinando que o pecador livre e responsável por sua faltas deve estar sempre buscando a perfeição com a graça de Deus que o levantou da morte das trevas do pecado, tem nos outros um exemplo sublime, reconhecendo Deus com seu tudo, e os irmãos como seus co-herdeiros e auxiliadores na caminhada para o céu, a ponto de ser grato e conceder as honras aos irmãos que precederam na fé, como a Escritura ordena em Hebreus 13, 7, sendo levados a não olhar tanto para a miséria própria, mas reconhecer o nosso ser tão necessitado do perdão e reconhecer ao mesmo tempo as graça dada aos outros, onde muitas vezes o outro é melhor do que nós, e procurar crescer na fé como os tantos modelos que se deixam plasmar através da graça.

Os católicos curvam-se na humildade reconhecendo a pequenez, e que só Deus pode erguer o caído, exaltar o humilhado. Essa diferente posição diante da vida é muito importante reconhecer na espiritualidade católica e na protestante. O verdadeiro católico tende a ter o ego menos inflado, a lutar contra essa tendência que o pecado adâmico imprimiu na natureza humana, enquanto os irmãos protestantes vivem mais da forma como foi sublinhada acima. Aliás, abrindo um parêntese, umas das verdades a respeito dos sacramentos é que esses reprimem o orgulho humano, já que temos de nos submeter a coisas sensíveis por obediência a Deus.

O católico tende a honrar o outro, esquecendo-se de si. É mais corporativo, mais eclesial. O protestante fecha-se mais em si, encontrando dificuldade em conceder honrar, sendo mais individualista, relegando a igreja a um plano menos importante. É importante notar que a tendência dos primeiros cristãos é continuada na espiritualidade católica, enquanto que os protestantes são marcados pelo espírito que forjou a cultura a partir do século dezesseis, com o humanismo, passando mais tarde pelo racionalismo, e tantos outros sistemas do pensamento, que mais afetam a igreja protestante.

Então, o catolicismo é mais voltado para o elemento humano transformado pela graça, enquanto o protestantismo volta-se ao humano individual, engrandecendo-se, muitas vezes. É um paradoxo. As honras dadas pelas igrejas protestantes, por exemplo, a suas figuras mais expoentes, é como um paradoxo. Para o catolicismo é um fluido normal nascido de sua tendência natural.

Se o espírito moderno é mais autossuficiente, não é no catolicismo que encontra mais calma atmosfera, mas no protestantismo, que mantem, por outras vias, essa tendência. Espero que o leitor tenha entendido.

A ilustração de que o catolicismo parece ensinar que Deus procura coisa boa no homem não é correto. Também não é apenas questão de ênfase a posição católica e protestante nesse debate. É algo realmente diverso. Procura-se no fundo a mesma coisa, mas elabora-se de forma realmente diversa. A doutrina católica mantem coerência em todas as fases. A protestante tem seus tropeços aqui e ali. Para os que leram os artigos que analisam a doutrina reformada sabe onde estão tantos tropeços e quedas.

A questão do mistério é importante saber alguma coisa. Não se trata de algo não revelado, mas que é revelado parcialmente. Há algo que podemos compreender e algo que foge ao nosso conhecimento. Assim a Trindade, a Encarnação, a Igreja, a salvação. A vida de Cristo é cheia de mistérios: seu nascimento, sua infância, sua paixão, morte e ressurreição. Então, sabemos bem o que é um mistério. Contemplamos os mistérios de Cristo, rezando o rosário.

Assim, o mistério para o católico não é algo que estar para ser revelado. Outra coisa: se o católico é muito pouco comunicativo no que diz respeito à pregação, uma vez que encontra Cristo, é mais por uma questão de cultura, que perpassa séculos. Pensando em momentos em que toda a sociedade, praticamente, era católica, não era necessário pregar o evangelho de uma forma tão incisiva. Os protestantes, como minorias, faziam e fazem isso de modo mais enfático. No entanto, o católico é chamado, desde sempre, a evangelizar. É algo que deve ser sempre resgatado. É parte da missão cristã católica.

Outro ponto importante é santificar a vida inteira a Cristo. Não se trata, no entanto, de afirmar que não há sagrado e profano. Parece mais ser isso que Lutero teria a dizer. No entanto, é óbvio que coisas que se fazem em tantos lugares não seriam prudentes serem feitas na igreja. O lugar de culto deve ter seu devido respeito, assim como diferentes momentos e espaços da vida espiritual. Por isso, o protestante tem menos sentido do sagrado que o católico. Dessa forma, não basta afirmar que tudo é feito para a glória de Deus, como se tudo que ordinariamente fazemos fosse o extraordinário! Não. Ainda que o católico faça tudo para a glória de Deus, e é ensinado a fazê-lo, há distinções importantes. A vida cristã em santidade necessita de distinções, necessita do exercício do sagrado. Há sim, coisas extraordinárias. A distinção é importante, cabe sempre frisar.

E por fim, nessa parte do comentário é oportuno lembrar que desde o início do protestantismo surgiram figuras que marcaram datas para o fim do mundo, como cita o autor. É algo que vem do livre-exame, erros que muitos cometeram durante os séculos no interior do Protestantismo, coisa praticamente inexistente no Catolicismo, pois Cristo não revelou dia e hora. Esses fatos mostram como se dá o estudo bíblico nos dois campos. Como se interpreta as Escrituras. É um sintoma importante.

Então, que o leitor aprofunde-se mais nessas questões, da Escritura e da tradição, das asserções, do sinergismo e do monergismo, das contribuições culturais que a Igreja tem para oferecer, do pecado original, dos mistérios, o livre-arbítrio, das coisas e profanas, e outras, que serão comentadas nos próximos estudos do livro.

Gledson Meireles.

sábado, 18 de setembro de 2021

Artigos sobre o livro Cuidado com o Alemão

Para o mês da Bíblia, setembro, estudando a Epístola aos Gálatas, e estudando também a doutrina protestante, para maiores reflexões no mês em que se comemora a Reforma, outubro, os artigos sobre o livro do pastor Tiago Cavaco estão sendo de grande valor.

Para quem leu o livro Cuidado com o Alemão, ou ainda vai lê-lo, essas reflexões são de utilidade. O livro é um tributo a Lutero, publicado em 2017, ano em que várias obras que tratam da doutrina protestantes foram dadas a público pelos 500 anos da Reforma Protestante, e pretende contribuir para a sociedade atual com os ensinos do monge reformador. Ainda, é considerado, também, uma obra onde se pode conhecer o catolicismo.

Não sei ao certo até que ponto alguém pode conhecer a Igreja Católica ao ler o livro, nem se as comparações que o autor faz ajudam no conhecimento da doutrina católica. São muitas coisas envolvidas no decorrer do livro. O autor escreve bem, trata de temas profundos, faz ótimas comparações para ilustrar o ensino de Lutero, trata de temas conhecidos de uma forma bem aplicada à realidade, revelando um estudioso, um teólogo protestante, não luterano, mas grande admirador do reformador alemão.

Ao longo dos artigos que virão, o leitor poderá entender onde e quando e o motivo do autor não conseguir tocar a essência da doutrina católica. Trata-se de um comentário a respeito da obra, mas um comentário um pouco mais extenso que o habitual, e mais crítico, talvez. Como de costume, toco pontos em que a doutrina católica é o tema em questão.

E como seria bom ver o pastor Tiago Cavaco descobrindo a verdade católica. Se ele já é um servo de Cristo, falta apenas reconhecer a verdade da Igreja. Todo protestante que se põe a estudar a fundo a doutrina cristã, está se aproximando do Catolicismo.

Gledson Meireles.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Pão da Palavra, Indulgência, Igreja: algumas reflexões a partir do livro Cuidado com o Alemão

Em uma apresentação típica de quem admira o reformador protestante Martinho Lutero, o pastor batista afirma que Lutero deu um não a tudo o que na Igreja se manifestasse indiferente à Bíblia. Ele colocou a Bíblia no centro da oração do Pai Nosso, como “o pão de cada dia”, e pôs a pregação no centro do culto protestante.

Mas, o pão nosso de cada dia, como explicado pelos autores cristãos católicos, é o pão temporal, o pão dos sacramentos e o pão da Palavra, algo que não é restritivo, mas amplo, do significado da Bíblia já contido aqui. Assim, Lutero não introduziu esse sentido da Palavra, mas o intensificou em sua pregação, em sua doutrina, em seu sistema, a ponto de fazer da leitura da Bíblia um ingrediente de um futuro slogan, o do sola Scriputra.

Isso apenas para que não se pense que o “pão da Palavra” seja invenção de Lutero. Sabemos que a Bíblia é alimento, e neste mês da Bíblia leiamos mais a Palavra de Deus e nos alimentemos dela. Cristo também é a Palavra. Algo que não foi Lutero o primeiro a dizer isso. São Jerônimo já ensinava que desconhecer a Bíblia é desconhecer a Cristo. Podemos ver essas ligação do Verbo com a Sagrada Escritura.

O pastor explica um pouco sobre as indulgências, de como era vivida a doutrina na Idade Média, onde os prazos do poder espiritual seguiram o do poder econômico.

Cita também as grandes influências que explicam a enorme popularidade de Lutero. De fato, os intelectuais insatisfeitos, os governantes alemães descontentes e os compradores desiludidos contribuíram para criar uma rede de proteção àquele que de alguma forma pudesse levar a um rumo que pudesse melhorar essa situação.

Outra ferramenta que auxiliou muito na propagação das ideias de Lutero foi a impressa, que contribuiu, ou seja, foi preponderante na publicação das suas 61 obras.

Sobre a liberdade é algo importante falar. Lutero ensinou, segundo o pastor, a procurar a liberdade, ou seja, buscá-la, não como ponto de partida, mas como o fim, e que essa liberdade não é dada por nada, mas que é encontrada na leitura da Bíblia.

Com isso, fala-se da instituição Igreja, e da divisão e do afastamento que Lutero iniciou dos conceitos de Igreja institucional e do indivíduo, que pode ser parte da Igreja sem que essa realidade lhe seja dada pela instituição, e que membros da Igreja podem não ter o encontro real com Cristo.

Enfim, nesse ponto fala do ataque à Igreja e ao papado em particular.

Tudo isso nos leva a pensar em que ponto podemos conceder algo às ideias do monge Lutero.

Podemos nos perguntar se na Igreja apostólica a pregação era o centro. Podemos pensar se os apóstolos puseram a leitura da Bíblia algo em confronto com a realidade da instituição espiritual da Igreja, manifestada pela instituição visível que conhecemos. Tudo isso deve ser pensado e refletido, pois bonitas palavras e belos discursos com ares de profundidade teológica não podem ser superiores à doutrina que Cristo deixou aos apóstolos para que disseminassem e anunciassem por toda a terra.

Dizemos, então, que os princípios da Palavra de Deus, de certa forma, já estão todos ali no ensino apostólico, e que quaisquer teologias e reformas e autores espirituais devem ser avaliados por tudo o que foi estabelecido na Bíblia Sagrada e na pregação apostólica seguida durante os séculos a partir do primeiro.

E quando voltamos à Escritura não há lugar claro, nem mesmo princípio aludido sobre a centralidade da pregação e da quase obrigatoriedade de se encontrar com Cristo pela leitura da Palavra, em lugar da pregação viva da Igreja. Não se nega que na leitura espiritual da Bíblia Deus nos fala, mas que também na pregação da Igreja, e mais ainda, ordinariamente na pregação viva da Igreja é que ocorrem as conversões e que a vida da graça é geralmente comunicada.

Lutero está assim, com as influências do seu tempo, utilizando de boas ferramentas e de ideias válidas para aumentar a propagação do evangelho no mundo, mas seus princípios não são idênticos àqueles que a Bíblia apresenta sobre a relação do cristão salvo com a Palavra de Deus e a instituição Igreja. Os modelos surgidos a partir de Lutero são frutos do seu tempo e não desenvolvimentos dos princípios bíblicos. Aliás, a própria noção de que há possibilidade de estar na Igreja sem ter verdadeiro encontro com Cristo não é contrária à estabelecida autoridade eclesiástica e sua forma institucional, que são realidade que se comunicam e são originalmente unidas na sua raiz evangélica.

É por tal motivo que a leitura da Bíblia é vista de forma diferente por católicos e protestantes, grosso modo, já que os últimos tem na Bíblia uma forma de fugir da Igreja, de protestar contra autoridades, de ver-se sob uma autoridade que não lhes faça mal, que não lhes cause problemas, que não lhes seja pesada. É tornar-se o intérprete a autoridade máxima, que pode de certa forma afastar aquilo que não concorda. Um princípio humanista muito alheio ao espírito do evangelho.

Por isso, Lutero pôde deixar quatro sacramentos de lado, e ficar com três. Isso é visto como positivo pelo pastor, já que a Palavra está no centro e os sacramentos são coadjuvantes, como algo que não possui valor sem a Palavra. No entanto, se os sacramentos nascem da Palavra não há poder para reformá-los, não há poder humanos para cancelá-los, não há permissão para anular qualquer um deles. E a Igreja desde sempre, nas páginas da Bíblia Sagrada, encontrou o número de sete sacramentos e não de três, como Lutero quis, e nem de dois, como ficou mais comumente adotado em todo o Protestantismo.

Assim, é que ao tentar por a Palavra contra os sacramentos nasce algo que vai contra a própria Palavra já que nela são se encontra lugar para um futuro reformador que pudesse inserir mudança da doutrina nascida da pregação de Jesus e da atividade apostólica.

E as indulgências, que são o perdão das penas, e não dos pecados, algo que vem após o perdão e salvação, e não algo que é necessário à salvação, trata-se de assunto que mesmo o cristão mediano, pouco refletidor da Palavra, ainda não consegue alcançar o sentido de tal doutrina, que é simples em si, mas que necessita de uma espiritualidade mais profunda, de um conhecimento genuíno do Evangelho e de uma conversão sincera do coração. Por isso, tal doutrina até os dias de hoje não é tão entendida como deveria.

A simples leitura da Bíblia pode ser indulgência. Hoje, nos dias de hoje. E o cristão não sabe disso, e não entende o que é indulgência. E, ainda, alguns dizem que não há tal ensino na Bíblia. A indulgência é fruto do perdão, do perdão que nasce da graça de Deus dada do pecador arrependido. Quanto maior a conversão maior o perdão. Poderíamos simplesmente dizer isso. Algo profundo e belo.

Aquele que realmente nasce da Palavra de Deus, não pode deixar de pertencer à Igreja. Lutero certamente viu com pesar o surgimento de igrejas. Ele não quis banir a instituição, mas por suas palavras que introduziram essa dicotomia, tal coisa foi gerada.

Os autores espirituais cristãos católicos podem muito bem explicar como o cristão se relaciona com a instituição. A mecanicidade de um sacramento ou de uma oração se dá quando o cristão não está devidamente convertido, não está vivo na graça, não está usufruindo da vida nova de Cristo. Essa realidade vem como que reforçar a instituição e não negá-la. Ao mesmo tempo, alguém que nasce da Palavra não irá nunca negar a Igreja. Se o pensamento está cativo, está preso, está submetido a Cristo, o coração irá aberto para aprender, ouvir, buscar o que Cristo diz, e não o que o coração humano tem para inventar.

Gledson Meireles.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

A crença popular do "Deus na barriga", criticada pelo pastor português: católicos também devem criticar essa ideia?

 O autor critica a crença do "Deus na barriga". Leia o livro, os interessados, que é interessante essa ideia que tem permeado a cultura dos dias atuais. Como a Igreja Católica se colocaria diante dessa crença?

A questão do “Deus na barriga” aludida pelo autor, e a ética do sim, criticada por ele, defendendo a posição histórica do Protestantismo como uma reação, um não antes do sim, uma ética do não que se estabelece para geral os sins do Protestantismo, é uma questão que de diante do primeiro não tem nada a ver com uma crítica ao Catolicismo, não é nada que afeta a cosmovisão católica, já que a mesma além de não ser imanente, é transcendente e sobrenatural ao máximo, uma canal de verdadeira iluminação e purificação para todas as áreas que ela afeta.

Para aqueles que pensam que o Catolicismo anda de mãos dadas com o mundo, para os que julgam conhecer a grande e profunda espiritualidade cristã católica, é bom saber que uma coisa sempre foi a regra, a qual é a purificação de todas as coisas pelo fogo do Evangelho, destruindo o que o pecado introduziu nas diversas áreas humanas, e não a destruição das mesmas em si. Isso é algo fenomenal, tremendo, difícil de ser praticado, mas feito com maestria, e com inúmeros exemplos, pela essa instituição divina, fundada por Jesus Cristo, ao longo desses vinte e um séculos de existência.

Essas palavras servem para deixar claro o que é o princípio do evangelho na vida do mundo, como feita pela Igreja Católica, e para desde já, diante das palavras acima que inspiraram essa colocação, não confundir uma verdadeira enculturação com sincretismo. Quando o Protestantismo critica o “Deus na barriga”, o Catolicismo não faz por menos. Isso serve para não pensamos, com isso, que tudo o que Lutero criticou e se opôs, faz parte da doutrina católica. Muito do que atacou era justamente um desvio do que o Catolicismo há muito tentava endireitar.

E que alguém não pense que a criticada crença do “Deus na barriga” tenha qualquer aval do Catolicismo. Se o Protestantismo tem algo para oferecer e opor a essa crença, é bem certo que o Catolicismo tem ainda mais.

Gledson Meireles.

domingo, 29 de agosto de 2021

O que o livro "Cuidado com o Alemão" apresenta sobre a doutrina católica?

Vou fazer algumas considerações sobre o livro do pastor protestante batista, de Portugal, Tiago Cavaco, sobre Lutero, que é um livro que ataca o Catolicismo, entendendo ser o ensino do reformador luterano algo a ser considerado e mantido nos dias atuais, no Protestantismo, em espírito de fidelidade ao Evangelho.

A obra foi publicada no ano de comemoração dos 500 anos da Reforma Protestante. Em 2021 completa-se 500 anos da excomunhão do padre Lutero. É sempre bom aprender dos confrontos de ideias, dos debates doutrinais, das opiniões expostas por quem realmente demostra preocupação com a pureza doutrinal.

Que coisas Martinho Lutero tem a ensinar para os dias de hoje, conforme visão do pastor, e o que podemos dizer, segundo a sã doutrina, das considerações que o pastor faz das relações da doutrina bíblica, conforme expressa por Lutero em comparação com a doutrina bíblica ensinada pela Igreja Católica em todo o tempo da graça, desde o Pentecostes?

Se o livro é algo contra o Catolicismo, ainda que na forma de uma exposição não destruidora, mas pungente e voraz, no estilo luterano, feita pelo pastor batista, é útil alguma consideração, levando em conta a doutrina católica em sua essência para formularmos uma resposta às aplicações da doutrina protestante em todas as esferas da vida, e que tocam o modo com a doutrina católica se relaciona com essa mesma realidade. Será que o pastor português tem razão no que diz quando toca a doutrina católica? É esse o ponto principal da análise.

Do livro "Cuidado com o Alemão: três dentadas que Martinho Lutero dá à nossa época", São Paulo, Editora Vida Nova, 2017.

Gledson Meireles.

A lei e a graça: sobre o discurso do papa Francisco e a preocupação que o tema causou

A questão da Lei e da Graça, da Lei do Antigo Testamento em relação ao Evangelho de Jesus Cristo, vem novamente à tona, no cenário mundial, chamando nova atenção, depois da catequese do papa Francisco no último 11 de agosto, quando a comunidade dos nossos irmãos judeus expressou preocupação com a doutrina explicada pelo santo padre.

Certamente, é nova oportunidade de nos inserir nesse assunto tão profundo, lendo, estudando, meditando essa doutrina do Evangelho, que tem gerado tantos debates e incompreensões, por sua simplicidade e profundidade ao mesmo tempo, e pela falta de conhecimento dos cristãos em relação a tão sublime doutrina.

Gledson Meireles.


terça-feira, 29 de junho de 2021

Você sabe o que é o livre-arbítrio? Mais um estudo do livro A Soberania Banida

Estudo do CAPÍTULO 10 (que trata sobre O PROBLEMA DO MAL), do Livro A Soberania Banida de R. K. McGregor Wright. Observação: Considerado um dos melhores livros apologéticos da Fé Reformada.

O capítulo 10 trata mais sobre a questão do mal, com o intuito de desbancar a doutrina do livre arbítrio, de maneira sofisticada, abrangente, clara e profunda, de forma que o apologista não conseguirá responder facilmente a um reformado caso não dê atenção suficiente às nuances da argumentação do autor.

A questão da origem do mal, usada por tantas filosofias, é a pergunta que Wright põe-se a estudar, e que trata da permissão de Deus para mal no mundo.

Pode-se dizer, para Wright, já de antemão, que não parece ter tanto problema o permitir o mal, como o autor questiona, mas trata-se mais diretamente da origem do mal, qual a causa dele, qual a sua essência, ou seja, o que é realmente o mal e de onde ele vem. Mas, McGregor tenta responder a razão da permissão do mal do mundo.

Esse problema a ser analisado é de interesse de todos, e as distinções que estão sendo feitas no estudo é que são de grande importância, já que estamos elucidando um assunto à luz da Sagrada Escritura, como ensinada na Igreja Católica ao passo que a doutrina reformada vai sendo desenvolvida para ser analisada detalhadamente e para ser comparada com a doutrina católica. Os pontos de tensão vão sendo aos poucos levantados e resolvidos, e as razões para isso são pormenorizadamente demonstradas.

Ao explicar a onipotência divina ao autor o faz com maestria, sem problemas, e com total concordância com a sã filosofia e com a revelação cristã, sendo assim em total acordo com a doutrina católica. Ele afirma que Deus “não deseja fazer o que é irracional”, e isso é importante frisar.

Quando explica que Deus é bom, e afirma que “Isso é tido como que significando que Deus é moralmente exigido por sua própria natureza a fazer qualquer coisa boa que esteja em seu poder e que presumivelmente ele sempre deseja e faz o bem”, penso que podemos fazer algo mais para iluminar o pensamento sobre a bondade infinita de Deus.

Deus é bom e faz somente o bem, que nasce da sua própria natureza, e não pode ser doutrina forma, pois essa verdade Ele nos revelou pelas luzes da razão impressas em nós como constituinte mesmo do nosso ser, e reveladas na Bíblia Sagrada ao longo de milênios confirmando a inteligência que recebemos. Portanto, aquilo que sabemos ser o bem e que nasce de Deus é de fato o bem, pois Deus é o supremo bem, o Sumo Bem.

A dificuldade produzida pela noção de onipotência e bondade ao lado da existência do mal só pode ser leva adiante se houver falhas no entendido do que é ser onipotente e do que é ser bom. Caso contrário, tudo encaixa-se perfeitamente e torna-se bem inteligível.

O autor permite com sua abordagem fazermos grandes aprofundamentos nesse tema. É maravilhoso. Ele vem com as teorias não convincentes e as aborda de forma muito clara e com maestria, de modo que sua obra é muito boa de ler. Ele vai tentando refutar as falsas resoluções apresentadas sobre o problema do mal, e com isso, e agora é mais importante frisar, uma de suas premissas é a de que para é preciso conceber de alguma forma um reino da matéria onde Deus não tem controle ou que tenha perdido o controle de tudo a partir da criação para salvaguardar a teoria da autonomia humana.

Isso não é necessário, conforme a doutrina católica, pois Deus é soberano e onipotente ainda que o mal exista. Mas, o raciocínio reformado também leva a essa conclusão. Porém, a forma com que lida com os dados racionais, para interpretar os textos bíblicos é um tanto diferente, e discordante em pequena parte, que é a principal.

No entanto, para enfrentar essas duas alternativas, está com conformidade com a doutrina católica. Deus não conhece reino material que não tenha criado, nem perdeu o controle da criação em qualquer tempo imaginável. E, quanto ao livre-arbítrio, o modo com que é entendido é diverso do entendimento católico. E esse modo diverso é que é atacado. Assim, a doutrina católica continua intacta e luminosa.

O livre-arbítrio é entendido pelo autor, no tocante à sua abordagem às teorias acima indicadas, como sendo algo que cria uma realidade como se fosse Deus, sem o controle de Deus, e sem predeterminação racional. É esse tipo de livre-arbítrio que é entendido como sendo incompatível com a realidade. É esse tipo de livre-arbítrio que a doutrina reformada repudia. Deve-se dizer que tal não é a doutrina católica, e tal livre-arbítrio não é o mesmo que o católico crê. Dessa forma, o reformado não tem motivo para atacar o livre-arbítrio encontrado na Escritura e na doutrina católica, o que ficará provado até o fim do estudo desse capítulo.

Para o autor, ensinar a autonomia do homem é retroceder para uma visão errada sobre Deus, uma visão do paganismo, incompatível com a mente cristã regenerada pelo poder de Deus.

Falando de Provérbios 16, termina afirmando que “as intenções humanas não atropelam os planos de Deus”, o que é totalmente bíblico e conforme a doutrina católica, mas a forma como o autor interpreta contém um elemento que não coaduna com a sã doutrina católica.

Deus nunca falha, é óbvio, Ele sempre é bem sucedido, em “adaptar os meios” para “alcançar os fins”, mas ainda assim as coisas não estão totalmente explicadas, e com essa frase se tem a doutrina católica e a doutrina reformada, sem problemas, em conformidade, como se fossem uma só. No entanto, para o reformado o livre-arbítrio é como uma tentativa de limitar Deus, o que para o católico não é. O livre-arbítrio é dom de Deus, e nunca uma limitação a Deus. A autonomia humana provém de Deus e não é uma forma de agir fora do alcance de Deus. São coisas que devem ser muito bem compreendidas. A doutrina que o reformado tenta refutar, que trazem esses matizes, não inclui a doutrina católica. Aliás, é a doutrina católica que fornece todas as argumentações possíveis que salvaguardam a doutrina reformada. Naquilo que ela está correta.

O autor faz críticas ao filósofo Flew e sua filosofia que desconsidera Deus. Parece mesmo incluir os arminianos na crença de que a bondade é independente de Deus, o que o filósofo citado poderia destruir logicamente. Citando Platt mostra inconsistências no arminianismo, que devem ser resolvidas de forma profunda. Aqui não será tratada a questão calvinista versus arminiana, pois o foco é comparar a doutrina reformada com a católica. Pelo visto, pelas afirmações do autor, nesse ponto os arminianos não estão utilizando argumentos que provêm da filosofia grega e entraram clandestinamente no seu sistema. Se for assim, não há como compará-lo também com a doutrina católica, e os arminianos estariam nesse particular em outro esquema de doutrina.

Quando se tem essas categorias citadas como fora da essência de Deus condicionando Deus e o mundo, num sistema pagão, não há como entender realmente a doutrina cristã. Deve-se superar esse entendimento para entender o que a Igreja Católica ensina. Talvez o problema reformado versus arminiano em comparação com o padrão católico existe por não ter superado isso.

Onde a doutrina reformada tem força por sua aplicação dos princípios católicos, a arminiana é forte por defender a posição final católica, mas ambas possuem problema, pois a teologia reformada erra ao negar o livre-arbítrio e a arminiana, segundo o que foi expresso concernente ao pensamento arminiano, erra por explicar certas categorias de forma não cristã. O reformado está equivocado no fim, e o arminiano no meio, o primeiro não acertou o alvo, o resultado, o segundo o acertou, embora por meio de alguns princípios que podem introduzir diferenças em outras áreas da doutrina.

Quando o autor passa a tratar do livre-arbítrio mais particularmente, encontra que o desejo de não responsabilizar Deus pela existência do mal explicaria o motivo da doutrina do livre-arbítrio ser tão amada por muitos. Isso seria uma alternativa para não cair na blasfêmia mencionada.

No entanto, é de se esperar que o autor venha com argumentos que salvaguardem a responsabilidade de Deus diante do mal e a faça recair sobre o homem, o que é correto. Mas, como será feito isso? Primeiro, na sua refutação da doutrina arminiana do livre-arbítrio, afirma que essa suposição requer que algo seja pelo menos “parcialmente indeterminado”. Deve-se portanto entender que indeterminismo parcial é esse, e se ele funciona, como fará o autor. E depois, compará-lo com a doutrina católica, e ver se as argumentações reformadas contra o livre-arbítrio a afetam de alguma forma ou não, e que observações devem ser feitas para realçar as diferenças e os motivos delas no contraste católico e reformado.

O autor certamente pretende afirmar que a vontade é determinada, e não indeterminada como o arminiano ensina, e que as influências sobre a vontade, como desejo e inclinações, provariam que a vontade não é livre, e para isso o ser humano deveria ter onisciência para mostrar que a vontade agiu sem predeterminação.

A questão da razão, do acaso, e etc., que o autor apresenta, são coisas interessantes. Mas a própria pergunta retórica do autor que mostra que Deus faz o possível para salvar os que ama, mostra uma liberdade e não o contrário, para não parecer que tudo está agindo apenas segundo um modo robotizado. A linguagem que o autor usa parece ir contra a doutrina que ele ensina.

A outra dificuldade, que o autor aponta, a de termos livre-arbítrio agora e não mais no céu, diante da realidade argumentativa de que o livre-arbítrio é parte da imagem de Deus, é também bastante profunda, mas não realmente problemática para a doutrina católica.

Pode-se adiantar que agora é o tempo da salvação, da prova, das oportunidades, da escolha livre e sincera, do amor livre, sem determinações, da entrega livre total para viver eternamente na felicidade com Deus sem quaisquer ulteriores perigos. Isso por si só explica o livre-arbítrio como parte da natureza humana, que usamos agora, e não precisaremos usá-lo mais quando entregamos a vida livremente a Deus, sob o influxo da graça.

A dificuldade de que pela presciência a responsabilidade pelo mal recai em Deus, por não ter feito o máximo para evitá-lo, não é bem colocada, e possui um problema intrínseco, que é igualá-la ao hipercalvinismo, que leva ao máximo a lógica reformada e afirma que Deus é o autor do mal, algo que todo reformado tradicionalmente rejeita. De alguma forma está afirmando o absurdo deveria ser reconhecido, e que pelo a atividade arminiana que tenta negá-lo não seria suficiente.

A cena-exemplo de um salva-vidas que não salva a criança, ainda que pudesse fazê-lo, não é totalmente adequada. Deus não faz assim, mas dota o ser humano de capacidade de escolher, e não infringe essa capacidade. É algo diferente. A criança impossivelmente poderia salva-se sozinha. O caso do pecador que não quer a salvação seria como se um adulto que estivesse se afogando, por ter procurado suicídio, fosse salvo pelo salva-vidas, contra toda sua vontade, ainda que lutasse com o salva-vidas, caso ainda tivesse consciência e força suficientes.

Agora, salvo, o salva-vidas deixa-o. E em outra situação, o homem procura outra ocasião para suicidar-se, e consegue. O salva-vidas não pode mais ajudá-lo. Deus está como esse salva-vidas, que com a graça salva o pecador, mas muitos não querem, ainda que após serem salvos, experimentaram a delícia da salvação pela graça, mas quiseram voltar ao pecado. A cena não é totalmente adequada para explicar tudo, pois Deus é poderoso e nunca nos deixa. No entanto, foi usada apenas para realçar a escolha do pecador.

Se o conhecimento de Deus das coisas futuras é o conhecimento de Seus próprios planos, não o é de forma determinística, mas porque quis criar uma realidade livre, ao mesmo tempo controlada por Ele, de forma que as decisões livres podem ser conhecidas, sem terem sido postas assim pela Vontade de Deus. Deus deixou essa possibilidade. Ele não inclui as ações nos elementos, como seria o determinismo, mas conhece perfeitamente a ações que os elementos assim criados podem originar, pois são criados por Ele, e Ele pode permiti-las ou não. Basta pensar que Deus quis criar seres que pudessem agir conforme Sua Vontade de contra ela igualmente, o que o contrariaria. Ao vislumbrar criaturas que podiam transgredir Suas Leis, mas que também podiam obedecê-Lo e amá-Lo livremente, escolheu essa realidade. É algo sublime e profundo, e mais sublime que pensar numa livre agência determinada. Observe que o livre-arbítrio não significa agir sem conhecimento e fora do alcance de Deus, mas possibilidade de agir com real liberdade, sem ações causadas.

 De fato, é muito difícil, é uma dificuldade extrema, criar criaturas livres. A criação de seres com uma ação aparentemente livre, e responsabilizados por suas atitudes, não é tão difícil como a criação de criaturas livres realmente. De fato, jamais foi criado um “robô-livre”, e a ciência não vislumbra tal acontecimento.

Dessa forma, o dom do livre-arbítrio é da circunscrição apenas divina, e a criação de criaturas livres é algo somente possível a Deus. Se o livre-arbítrio ou livre-agência determinada pela Vontade de Deus é algo já notório e impossível de ser recriado pela mente humana, o livre-arbítrio real e auto-causado sob a soberania de Deus, é ainda maior. Por isso, o livre-arbítrio é algo mais profundo, mais sublime e exalta o poder de Deus, que pôde criar tão grande realidade, e supera a mera livre-agência. Ainda, não confunde-se com uma autonomia absoluta como a que está sendo refutada pelo autor.

Quando uma ação é feita, não há possibilidade de ela tornar-se múltipla. Se você escolher andar pela via direita, e de fato ir por ela, não  há como andar ao mesmo tempo na esquerda, estar indo e voltando ao mesmo tempo, e etc. Se você virou à direita em determinado instante, não há como dizer que você virou à esquerda na mesmo instante e sob a mesma perspectiva. Assim, uma ação realizada torna-se determinada. O conhecimento de Deus da ação determinada não foi o que determinou a ação. Isso deve ser compreendido.

Exemplos ajudam a compreender esses fatos. Suponhamos alguém que olha para o céu numa noite estrelada e vê uma estrela cadente. Na doutrina reformada o fato é explicado como sendo a determinação de Deus para que aquilo ocorresse, ou seja, fulano foi criado para sair à noite naquele dia e horário e olhar para o céu, e a estrela deveria estar caindo naquele momento e ser observada por ele. Para a pessoa tudo passou como ação livre e por acaso, mas estava tudo predeterminado.

No entanto, para a doutrina católica, que reconhece o livre-arbítrio, fulano foi criado como ser livre, assim a lei da natureza funciona de acordo com o plano de Deus. Assim, sem qualquer determinação, fulano olha para o céu no momento em que uma estrela está caindo e a vê. Esse fato foi conhecido por Deus desde a eternidade, pois ao criar fulano sabia que todas as coisas possíveis que fulano poderia fazer, e de todas as coisas que faria e lhe ocorreria, pois aquela criatura agiria conforme a liberdade dada e Deus sabe infalivelmente como aquilo que Ele fez funciona, assim como o percurso dos astros celestes e etc. Então, Deus sabia que fulano em determinado dia e hora olharia para o céu e veria uma estrela cadente. Não foi Deus quem quis que isso ocorresse, mas soube e permitiu que fosse assim desde a criação. Ele quis nesse sentido, pois tudo o que Deus cria já é manifesto para Ele. No entanto, entenda que o livre-arbítrio está aí incluído. Além do mais, Ele está fora do tempo, e pode a partir da eternidade saber de todas as coisas, já que tudo foi criado por Ele e está em tempo presente a Seus olhos.

Em outras palavras, o fato que ocorre determina-se logo que ocorre. Quando o homem vê a estrela cadente, não há como não tê-la visto. Não há como não ter olhado para o céu. Não há como a estrela não ter caído e ser vista por ele. Aquele momento foi fixado a partir daquele presente fato, para toda a eternidade. Aquilo ocorreu.

Assim, quando Deus soube daquele fato desde toda eternidade, era um fato livre que iria ocorrer, e não seria diferente, mas seria aquele mesmo fato realmente. Se esse é o sentido do determinismo, então não há o que objetar. Então, Deus conheceu o fato, e não o determinou. O fato não ocorreu diferente porque não ocorreria mesmo, pois se fosse diferente Deus saberia, e outro fato teria sido fixado no tempo. Portanto, não é necessário o determinismo para o conhecimento de Deus (determinismo como entende a teologia reformada), e os fatos conhecidos não provam que foram determinados. Continue a leitura, para ir entendendo melhor a presciência divina.

A morte de Cristo foi determinada pelo desígnio e presciência de Deus. Importante que a palavra presciência seja usada, e não pode ser interpretada de outro modo, que não a da real presciência, ou seja, do conhecimento antes que o fato ocorra, no sentido explicado acima. Isso explica a soberania de Deus, controlando todos os detalhes do Seu plano santo, sem infringir em nada o livre-arbítrio das criaturas, que Ele mesmo incluiu na criação, conforme o que foi acima explicado. Por isso, os males da história, os pecados da humanidade, as injustiças cometidas, não estão na Vontade de Deus, não são predeterminados por Deus, não são determinados pelo desígnio de Deus, não são originados e controlados para fazer a Vontade de Deus, mas são conhecidos e o controle de Deus está em ajustá-los conforme o plano santíssimo de Deus, com vistas ao bem e à salvação do homem, e nunca em qualquer outro sentido, e nunca determinado como algo parte da obra de Deus.

Sendo assim agora vamos acompanhar a resolução que a doutrina reformada tem, para negar o livre-arbítrio. Pelo já visto, não há como negar o livre-arbítrio, mas vamos analisar detalhadamente o modo como o reformado entende e resolve a questão, para melhor refutar o erro.

Em primeiro lugar, o reformado usa Romanos 9, 19.24, entendendo que Deus pode sim predestinar o mal, ou seja, decretar o mal, fazer um decreto criando o mal, causando o mal na humanidade, incluindo o pecado, para atingir os seus fins. Isso é absurdo, não é doutrina bíblica, já está refutado na análise da doutrina reformada em capítulos publicados nesta página, e não são conformes a razão humana, não coadunam-se com a mente regenerada.

Deus sendo o ponto de referência é algo que não necessita que inclua o mal em seu decreto de determinação. De fato, Deus é o ponto de referência, e a doutrina católica assevera essa verdade. No entanto, tudo o que Deus faz e é, Ele nos explica nas Escrituras, e infundiu em nossa razão, como revelação sobrenatural e natural de Si mesmo para nós. E, como todos sabemos, Deus não pode errar, mentir, cometer pecado e querer o pecado. Assim, Ele não pode, absolutamente, determinar ou decretar o mal. Pode, isso sim, permiti-lo, conforme, sim, repito, conforme Sua vontade, mas através da permissão, com motivos e vistas a um bem maior, e nunca somente para cumprir um plano. O pecado, também, não pode ser harmonizado com a ideia bíblica e racional de Deus, e, portanto, não pode ser feito por Deus, com a alegação de que não podemos questionar isso. A pergunta retórica de Romanos 9, 19.24 tem outro sentido, e já está bastante estudada nos textos sobre a teologia Reformada, bastando o leitor conferir nos artigos publicados.

A autonomia humana seria, no entender do autor, conforme as fontes que ele estudou e pôs a refutar, seria a base para as objeções contra Deus. Quando o autor menciona as “contradições em tensão e apelar para o mistério”, os que desejarem saber mais sobre isso, enquanto se estuda a teologia reformada, os artigos referidos acima serão muito úteis.

Quando Deus responde a Jó em 38, 4, e São Paulo em Romanos 9, 19-20, o sentido nunca é o de que tudo o que Deus faz é bom ainda que contradiga aos dados da revelação e da razão humana, tanto enquanto natural como regenerada. “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?”. Isso não quer dizer: eu posso fazer o que quiser com você, as maiores atrocidades segundo seu parecer, e o de todos os homens, porque sou Deus e você não tem o que reclamar. Não é isso de maneira alguma que o texto quer ensinar. Não é isso absolutamente que a Escritura está ensinando.

Quem lê o livro em sua inteireza e raciocina cada parte revelada, sabe que Jó tinha livre-arbítrio, assim como Satanás, e tudo o que acontecia era permitido por Deus, em vista do bem maior, sem que qualquer pecado fosse decretado, determinado ou querido em todo o plano divino. A realidade da vida de Jó, e de tantos servos de Deus de ontem e de hoje, mostram apenas os mistérios do sofrimento e a certeza de que Deus quer sempre o bem, conforme nos revelou, segundo o conceito que criou em nossas mentes, e nunca faz o que é mal nem o aprova.

Uma afirmação do autor é curiosa: “Deus nunca teve dúvida de que Jó era de fato um homem extraordinariamente reto, embora pelos padrões de Deus todos são pecadores...”. Isso lembra a doutrina da justificação ensinada na Reforma Protestante, mas a frase não deixa de conter problemas. Como pode Deus não ter dúvida de que Jó era reto, mas que pelos padrões divinos Jó não era? Deus poderia considerar Jó por outro padrão que não o Seu?

É claro que o autor está afirmando que Jó estava justificado, pela graça e era predestinado ao céu, e por isso um eleito e justo, mas em si mesmo era um pecador que merecia a morte. No entanto, a afirmação acima, em sua primeira parte, supõe o livre-arbítrio, está conforme a doutrina bíblica e católica. Deus sabia que Jó era reto. Isso só é verdadeiro pelo livre-arbítrio. Deus sabia que Jó era de fato um servo fiel aos Seus preceitos, e que livremente agia conforme Sua vontade. Por isso, pelo padrão divino Jó era santo. Ainda que pecador, era um pecador convertido, e que fazia a vontade de Deus. Jó era reto.

Essa frase pode ser adotada na doutrina reformada, mas não sem problemas, pois está fora da essência reformada, é um alienígena entre os conceitos reformados, por isso logo em seguida há uma inconsistência: “pelos padrões de Deus todos são pecadores”, que não concorda com a primeira afirmação. É certo que diante de Deus todos são pecadores, e diante dele todos podem ser justos, não apenas considerados, mas de fato, pois Deus justifica o pecador. Isso é outro assunto, mas é bom que indiquemos essa verdade bíblica.

A análise feita da afirmação da Confissão de Fé de Westminster   é um tanto problemática. Explica que Deus é causa final de tudo, incluindo os males. E que o homem é causa do pecado, de forma imediata, e por isso é autor do pecado, como causa secundária. Mas, antes, afirma que a causa primeira é Deus, e que as causas secundárias “são asseguradas em suas operações” pelo conselho de Deus “que assim ordena”. Então, a causa secundária comete um pecado porque segue o conselho divino que ordena que ela assim o faça. Não é absurdo? Realmente é. A linguagem quase toda católica da Confissão de Westminster inclui esse pormenor, que não faz parte da doutrina católica.

O exemplo de que o pai não é autor do livro escrito pelo filho é muito bom. No entanto, imagine que o pai dê todas as ideias do livro que o filho escreveu, inclusive como será a capa e etc., e todas as coisas que o filho irá escrever. Com certeza o filho é coautor, no mínimo (talvez nem isso), por ter escrito somente, mas as ideias todas vieram do pai. Dessa forma, a causa primeira tem autoria. Esse exemplo parece estar mais próximo da doutrina reformada, e elucida um pouco sua inconsistência com os dados bíblicos diante da origem do mal e do pecado.

Há outros escritos no site que podem auxiliar na compreensão da verdade da soberania e do livre-arbítrio, e é importante a leitura desses textos, que lidam com os melhores argumentos, de renomados autores da literatura reformada, respondendo-os pormenorizadamente, de forma a levar a um conhecimento suficiente da verdade do livre-arbítrio e ser capacitado entender o problema da teologia reformada, e entender melhor a teologia católica.

Gledson Meireles.


segunda-feira, 21 de junho de 2021

O significado de Corpus Christi: respondendo a uma pregação protestante

Algumas palavras sobre o vídeo ou áudio.

Explicações de quem não crê na eucaristia, na transubstanciação, não são tão precisas quanto esperaríamos que fossem. Ainda mais de alguém que nunca foi católico, que nunca entendeu essa doutrina, e que era de família protestante, crescido no meio em que nunca foi ensinada a doutrina da transubstanciação, e o conhecimento se deu apenas por meio de negações.

Por essas e outras razões, segue um comentário às afirmações feitas na pregação acima referida, no vídeo.

Essas exposições não servem para conhecer a doutrina em sua inteireza, mas servem para aprofundarmos no seu sentido, e para combatermos os erros, as heresias.

Seguem algumas explicações, de coisas que são ditas na pregação, e que para nós, cristãos católicos não são como foram ditas pelo saudoso pastor.

Então:

A tradução de Corpus Christi não é Corpo de Deus, mas, como é fácil de entender, Corpo de Cristo. Deus não tem corpo, mas Cristo tem corpo humano. Melhor entendido agora.

A hóstia não é proibida de ser mastigada. Basta ver que todos os padres mastigam a hóstia. Já os fieis, que recebem pequena porção, pequeno pedaço da hóstia, ou seja, uma pequena hóstia, não precisam preocupar-se com a mastigação, embora não haja nenhuma proibição, porque logo que está na boa o elemento começa a derreter e pode ser comido facilmente.

Se eventualmente grudar do céu da boca, como pode acontecer, basta que o fiel espere que logo está totalmente derretida, sem problemas. Não há motivo para ficar tentando tirar a hóstia do céu da boca, dos dentes, etc. Tal cena nem mesmo adequa-se no ambiente espiritual em que a eucaristia é celebrada.

A conversão do elemento material em Corpo de Cristo não se dá no momento do sino, ou por causa do sino, para não ter qualquer mal-entendido. Ela se dá não na apresentação que o padre faz dos elementos ao mostra-los ao povo, mas quando com fé e intenção de celebrar o que Jesus ordenou, o padre repete as palavras que Cristo ensinou. É nesse momento que Jesus está presente.

Na procissão de Corpus Christi não se usa o hostiário, com as hóstias, mas o ostensório, com uma hóstia consagrada. O hostiário é onde se coloca hóstias não consagradas.

Sobre o fervor intenso do povo cristão católico,  porque ali está literalmente o próprio Jesus Cristo, entendemos que se trata de presença real, literal, mas de uma forma sacramental. Sabemos que Jesus está no céu. Portanto, Sua presença no sacramento não é simbólica, metafórica, mas é de forma espiritual, real, literal.

Também lembramos na celebração da morte, sepultamento e ressurreição, mas sabemos que Jesus está ali em sacramento.

Isto é o meu corpo não significa representação, pois Jesus não está representando ninguém, Ele mesmo é a realidade.

Na Ceia, Jesus entrega Seu corpo no sacramento. Por isso, o pão e o vinho ali distribuído é o Corpo de Jesus, e não outro corpo.

Jesus é o pão, é a videira, é o caminho, é o pastor. Assim como o pão alimenta fisicamente, Jesus alimenta espiritual. Assim como o galho da videira ganha vida unido ao tronco, estamos vivos unidos a Jesus. Assim como o caminho leva a um lugar, Jesus leva ao céu. Assim como o pastor cuida do rebanho, Jesus cuida de nós.

Essas metáforas não desfazem a verdade da transubstanciação, pois Jesus ensinou a comermos com fé Seu Corpo e Sangue, em sentido espiritual, como uso da matéria, do pão e do vinho, portanto, de forma sacramental, para que tenhamos vida.

Por isso, desde os primeiros séculos os cristãos católicos foram acusados de canibalismo, por aqueles que não entendiam a doutrina.

As palavras referentes ao sacramento são literais, não no sentido grosseiro, de material, mas porque trazem o que significam espiritualmente. O Corpo e o Sangue de Cristo vem à nossa alma, não ao corpo material, como se fosse comida física para nutrir o corpo. Ele nutre a alma de forma espiritual.

Não há nada que substitua Jesus em nossa vida, e por isso, o Corpus Christi é o momento de mostrar isso, pois celebrar essa verdade de Cristo não é inventar outra coisa para o lugar de Cristo, mas trazê-lo à memória, ao espírito, ao coração, e adorá-lo.

Nas celebrações da eucaristia sabemos que Jesus está no céu, ressuscitado, sentado à direita do Pai.

Jesus está mesmo no nosso coração, e não somente nos símbolos. Mas, os símbolos não contém nada que os torne proibidos. Aliás, a eucaristia é o sacramento que traz a realidade que Jesus quis ensinar quando instituiu esse sacramento. O sacramento não é somente símbolo, como um crucifixo, uma imagem, uma medalha, uma pintura. No sacramento a Palavra transmite o que significa.

Muito bom o reconhecimento do pastor, ao final da pregação, de que nós católicos temos muito respeito e reverência nas celebrações da eucaristia, servindo de exemplo para os protestantes.

Para os que querem melhor conhecer a doutrina católica, leiam a Bíblia e o Catecismo. Alguns artigos aqui ajudam. Procurem páginas de apologética católica.

Então, ficou melhor explicado sobre o significado de Corpus Christi, sobre a mastigação ou não da hóstia, sobre a memória que é feita na celebração, sobre a presença real e não somente metafórica, pois real, espiritual é também literal, sobre o modo dessa presença como sacramento, sobre a fonte para participar bem do sacramento, que é a fé, em Jesus, no nosso coração e a confissão com nossa boca, o sentido das metáforas e a verdade da eucaristia na frase: Isto é o meu corpo.

Espero que isso ajude a entender melhor a eucaristia.

Gledson Meireles.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

A mudança de nome: Simão recebe o nome de Pedro

No debate histórico que houve entre o padre Leonel Franca e o pastor Lysâneas, em obras de grande valor e importância apologética, foi tratada a questão da mudança de nome do apóstolo Simão para Pedro. No presente tópico será avaliada a questão, analisando os dados que os dois debatedores apresentaram.

O pastor Lysâneas afirma que o padre Leonel denota não ser versado na Bíblia, não a conhecendo bem, porque não sabe que Deus mudou mais quatro vezes o nome de pessoas, como o de Sara, Salomão e Tiago e João, nas passagens de Gênesis 17, 15; 2 Samuel 12, 25 e Marcos 3, 17. E ainda, que esses exemplos não significam que foi dada a essas pessoas a chefia sobre outras.

Explicando a mudança do nome de Jacó para Israel, o pastor afirma que não há qualquer paralelo dessa passagem com a da mudança de nome de Simão para Pedro. Então, afirma que Jacó teve o nome mudado, enquanto que o de Pedro foi apenas um acréscimo, um sobrenome, e não houve mudança. Esse argumento, respondo com maior detalhe na resposta ao livro A história não contada de Pedro.

E qual o motivo das mudanças de nomes? O pastor afirma que são as promessas de Deus, a indicação de vocações, a mudança de vida, a posição, os emblemas de caráter e as novas condições. Poderíamos até usar essas palavras e dizer que realmente Simão está em novas condições quando Jesus diz que ele é agora Pedro. Mas, o pastor afirma apenas que o nome Pedro é para assinalar o traço de caráter de Simão.

Jesus chama Simão pelo nome várias vezes, e não lembra de denominá-lo Pedro, ou Cefas. Por quê? O pastor encontra nessas passagens a prova de que Jesus não mudou-lhe o nome e que também não quis dar a ele o sentido de chefia.

No entanto, vemos que essas passagens indicam algo muito curioso, pois nelas Simão está sempre em momento difícil, de queda, de fraqueza. Ao contrário, quando usa do nome Pedro, ou  nome sobrenome que o Senhor lhe dera, pois se foi nome ou sobrenome não há problema quanto a isso, esse aparece como líder, destemido, e possuído de força e autoridade. Parece mesmo a teologia bíblica afirmando que Simão é homem fraco, mas a graça de Deus o sustenta e ergue, como Pedro.

Agora, passemos a ver em pequeno resumo a resposta do padre Leonel aos argumentos do pastor.

Diante da resposta do pastor, o padre Leonel afirma que “baldam-se todas as tentativas sugeridas pelo antipetrinismo protestante”.

Afirma que o nome dado a Tiago e João tratou-se apenas de um apelido ocasional. A segunda coisa é que o nome foi dado a duas pessoas, e não é isso mudança de um nome pessoal.

Terceiro ponto, mais explicado, mostra que o nome Boanerges aparece somente uma vez. A Bíblia e a história da Igreja empregam os nomes Tiago e João, e não Boanerges.

O mesmo com o nome Jedidia, que somente uma vez é dado a Salomão. A Escritura não o chama de Jedidia em nenhum outro lugar.

E o caso de Sara, o padre afirma que não foi contado porque estava listando apenas os exemplos de mudança de nome masculino, e com isso prova que na edição de seu livro em 1928 troca o nome “pessoas” por “homens” para indicar estava tratando dessas mudanças acima referidas em relação a homens.

No entanto, ainda assim Sara tem certa autoridade ao lado do patriarca Abraão, e o nome dado a ele indica, de certa forma, uma prerrogativa.

O pastor afirmou que ao aplicar os critérios bíblicos nesse quesito das mudanças de nome de Sara, Tiago e João, logo verificar-se-ia o completo fracasso da explicação do padre Leonel.

No entanto, o que se viu foi a grandiosa resposta e refutação do padre Leonel, mostrando o que significa mudanças de nomes, o motivo de não ter contado com os exemplos que o pastor indicou e o significado do nome de Pedro. Foi uma grande defesa da verdade. Para mais, leia a Resposta ao livro A história não contada de Pedro, que contém muitos detalhes.

Gledson Meireles.