domingo, 5 de fevereiro de 2017

A Arca da Aliança e as estátuas


A Arca da Aliança e as estátuas - imagens de escultura

Ao discutir a questão das imagens de escultura, a posição católica bimilenar ensina que as imagens são lícitas, estão de acordo com a Palavra de Deus, com os princípios estabelecidos nela, e por seu lado os protestantes afirmam que elas são terminantemente proibidas. Já está provado que a doutrina protestante está equivocada. Para ratificar, ainda mais, continuemos o estudo.

Existem, então, basicamente, duas orientações opostas, e os argumentos que surgem das discussões são, algumas vezes, bastante interessantes, embora somente possam permanecer se estiverem de acordo com a verdade.

Você que afirma que as imagens são proibidas, porque Deus diz no Êxodo 20,3-4: Não farás para ti imagens de escultura..., e que afirma que em nenhum contexto religioso as imagens são permitidas, saiba que essa opinião não é bíblica. Esse argumento provém de uma ideia humana, e não da Bíblia.

Você que afirma que as imagens podem ser usadas, mesmo em sentido religioso, desde que apenas como decoração, saiba que essa posição não é puramente bíblica. Ela é incompleta.

Você que afirma que as imagens que foram permitidas no Antigo Testamento, só o foram naquele tempo, não servindo para justificar o uso de imagens hoje, saiba que você não está desenvolvendo o pensamento segundo o princípio contido no fato da permissão das imagens.

Você que afirma que o ato exterior é o que determina a adoração, está contrariando o Evangelho, pois Jesus diz que há aqueles que o honram com os lábios, apenas exteriormente, mas tem o coração, ou seja, com a motivação que encontra-se interiormente, o coração longe dEle. O louvor dos lábios não tem valor se o coração está distante de Jesus. Por que seria a prostração um ato de adoração mesmo sem a intenção? Veja que os soldados ultrajaram a Jesus ajoelhando-se diante dEle e o chamando de rei, com escárnio. Assim, eles teriam adorado Jesus, se o ato exterior fosse o mais importante. De fato, o ato exterior é determinado pelo movimento que passa-se no interior do homem.

O gentio Naamã foi permitido entrar no Templo pagão com seu senhor o rei, e ajoelhar-se com ele, pois não tinha mais a intenção de prestar culto às divindades. Os atos exteriores e interiores estão atrelados, e se, porém, as circunstâncias não forem propícias até mesmo o ato exterior deve ser evitado.

Assim, Daniel não podia ajoelhar-se para adorar o ídolo feito pelo rei. Ainda que dissesse não ter intenção de adorar, pois ao ajoelhar-se estaria testemunhando que era um adorador da falsa divindade, contra toda a fé judaica. Por isso, não submeteu-se àquela lei.

Vejamos, portanto, algumas objeções.

a)      Deus proibiu imagens: essa objeção é uma meia-verdade, e, portanto, é meio-falsa. Como a verdade só existe em sua forma completa, essa asserção é mentira. Deus proibiu imagens de deuses falsos, somente. É necessário qualificar essa proibição. O mandamento está em Ex 20, 3-4, e em diversas outras passagens da Bíblia. Ninguém pode fazer imagens de deuses, nem tê-las em casa ou em qualquer outra parte, nem prostrar-se diante delas, nem servi-las. Essa é a proibição. Mas, Deus permitiu várias vezes a confecção de imagens, tendo Ele mesmo instruído nesse sentido algumas vezes, como o foi no caso da serpente de bronze. Diante disso, é uma verdade que Deus proíbe os ídolos, que são imagens de deuses falsos, mas quanto às outras representações, referindo-se à arte do culto divino legítimo, como é a arte cristã, e isso deve ser reconhecido, está claro que Deus não proíbe imagens.

b)      As imagens do Antigo Testamento serviram apenas como decoração: isso não é verdade. Todas as imagens que foram usadas no Templo, que era o lugar-mor de culto a Deus, eram feitas para indicar o sagrado, para ensinar algo relativo a Deus. Essas imagens eram pinturas ou gravuras esculpidas nas paredes, imagens de escultura de anjos-querubins, de flores, de bois, e etc. A arca da aliança, por exemplo, não teve apenas um uso estético, para enfeitar o ambiente do templo, embora fosse um belo objeto, mas era tratada com culto forte de veneração. A serpente de bronze também não foi usada para decorar o acampamento israelita, mas Deus operou a cura naqueles que olhavam com fé para essa imagem. Aliás, a serpente serviu para o fim de curar, e não foi destruída durante séculos, até que o povo passou a cometer o pecado de idolatria venerando-a como um deus.

c)      As imagens não recebiam adoração, ninguém as beijava, não ajoelhava-se diante delas, nem fazia orações a elas: isso é uma meia-verdade. Sendo assim, como vimos, é uma afirmação falsa. Nem todos os pormenores do culto das imagens no Templo de Israel está registrado. Porém, pelo uso da arca, dos utensílios sagrados, e de todos os instrumentos consagrados a Deus, temos que a fé de Israel era desenvolvida grandemente com esses objetos. O povo orava de joelhos diante da arca, muitas vezes com o rosto em terra, que é a prostração. Oferecia a Deus suas súplicas, erguiam os braços em louvores e pedidos, ofertavam seus sacrifícios, por meio do sacerdote, etc. Tudo era feito diante da arca, um material sagrado, portanto uma imagem, com duas imagens de escultura de anjos em cima do propiciatório, que era o lugar do perdão, o lugar da misericórdia. Dessa forma, sendo verdade que as imagens não eram adoradas, elas eram veneradas, como foi provado neste estudo.

d)      Alguém dirá que os judeus não faziam isso para a arca, mas para Deus que estava nela: isso é um contrassenso. Deus não habita objetos. A arca apenas era símbolo de Deus, de forma indireta, ou seja, representava a aliança de Deus com o Povo de Israel, lembrava a Sua presença no meio do Povo, da Sua presença do Templo. O próprio Templo era reverenciado. O povo, quando estava em outros lugares, orava voltado para Jerusalém, em direção ao Templo. No interior do Templo, as orações e outros exercícios espirituais eram direcionados para o lugar da arca, o Santo dos santos. Em nenhum lugar afirma que Deus estava dentro da arca, pois essa seria uma ideia paganizada. Essa objeção é falsa. O fato é que os judeus veneravam a arca, como foi provado acima.

e)      Deus não agia “por meio” das imagens: esse medo de conexão de alguma ação de Deus em consideração a uma imagem é fruto do pensamento moderno, certamente criado e alimentado pelo Protestantismo. O fato é que Deus distribuía bênçãos e juízos aos homens em atenção ao seu uso de objetos. Assim, uma vez Deus feriu com a morte quem tocou na arca, como fez com Oza (2 Samuel 6,7), o que havia sido proibido. Deus curou os mordidos pelas serpentes apenas quando olhavam para a imagem. Isso não quer dizer que o poder de Deus descia sobre a imagem e passava dela aos picados pelas cobras, mas apenas que Deus os curava quando eles voltavam sua atenção para aquela imagem, conforme foi ordenado.

f)        Aquela imagem da serpente foi figura de Cristo na cruz, e não precisamos mais dela: a primeira parte da afirmação é verdadeira, a segunda é falsa, em parte. Aquela imagem serviu para apontar para o Salvador, que cura a humanidade do pecado. Em sua significação ela será eternamente lembrada. De fato, ela somente foi destruída séculos depois, não porque tivesse perdido sua importância, mas porque o povo estava idolatrando a imagem e deu-lhe até mesmo um nome, como se fosse uma divindade. Caso contrário, ela existiria até os dias atuais. Deus não mandou destruí-la, mas elogiou Ezequias por ter feito isso, já que o povo era idólatra. Assim, o princípio das imagens continua intacto.

g)      Nós não precisamos mais de imagens: é um fato que não precisamos absolutamente das imagens, ou seja, não precisamos dela em sentido absoluto, mas também é verdade que as imagens são úteis na vida do homem. De certa forma, tornam-se indispensáveis. Elas são naturais quando usadas como meio de instrução, como é o caso em questão. E uma vez que foram empregadas por Deus para ensinar verdades salvíficas, podem ser usadas hoje para o mesmo fim.

h)      Não sou contra nem a favor das imagens, só não concordo com a veneração delas: se alguém não combate as imagens, tendo-as na conta de objetos neutros, então não terá problemas em fazer parte de uma igreja que tem imagens sagradas. E então, não terá razões para atacar o Catolicismo por esse motivo. Se o problema é que essa pessoa não aceita os usos que são feitos com as imagens, como procissões, orações diante delas, prostrações, etc., deverá notar que isso é o que faziam corretamente os israelitas, e nem por isso foram repreendidos por Deus. Há uma incoerência persistindo nessa opinião.

i)        Só usaria imagens se fosse ordenado por Deus: essa afirmação brota de um coração endurecido. É natural para o homem ter imagens, e uma vez sabendo o uso correto das mesmas, isso significa que não é necessário que Deus tenha que ordenar cada vez que uma imagem devesse ser feita. Não consta que Deus tenha mandado fazer cada imagem que estava no Templo de Salomão. A planta do Templo foi mostrada por Deus, mas sua decoração religiosa foi feita pela competência e sabedoria que Deus deu aos artífices, que usaram desse dom para embelezar a casa de Deus. Fizeram isso voluntariamente. Essa objeção esconde a recusa de aceitar a verdade.

j)        Os cristãos católicos dirigem preces às imagens, as carregam, fazem igrejas para elas, ajoelham-se, beijam, prostram-se diante delas: essa objeção parece tentar inculcar que as imagens são objetos que recebem o culto por si mesmas. Não é verdade. Tudo o que é feito a uma imagem significa que está orientado para o que ela simboliza. E não adianta mais, para quem acompanha este estudo desde o início, afirmar que não é permitido atos de veneração para com as imagens. Assim, sabemos que no mesmo princípio o que os israelitas faziam para com a arca é feito pelos cristãos para com as imagens. Obedecemos o princípio bíblico estabelecido.

k)      As imagens não fazem bem ou mal, mas há um demônio por trás delas: essa opinião significa dizer que uma imagem de Cristo, por exemplo, seria um ídolo, ou em si mesma, ou por estar sendo usada pelo Demônio para desviar o culto a Deus. Assim, o Demônio estaria enganando o fiel a prestar o culto ao objeto em si. Essa opinião é enganosa, visto que quem olha para uma imagem de Jesus estará lembrando-se de Jesus Cristo, e o culto irá para Ele, não para a imagem, que foi apenas instrumento.

l)        As imagens neutralizam o culto a Deus: essa objeção é igualmente falsa, pois se assim fosse a arca da aliança teria neutralizado o culto a Deus durante séculos no Antigo Testamento. Parece ter um fundo gnóstico essa objeção, pois o gnosticismo ensinava o ódio à matéria. Dessa forma, quem assim acredita e pensa que uma imagem irá atrapalhar sua adoração por ser uma coisa material, não pensa em termos cristãos. Deus não usaria algo essencialmente errado, como as cerimônias, rituais, símbolos e sinais, como se isso devesse ser separado do culto espiritual a Deus. De fato, o Senhor Deus usou tudo isso para ensinar o verdadeiro culto.

m)     A imagem não é problema, mas o problema é o que é feito com ela: isso é verdade. No entanto, muitos pensam que a simples veneração é o que constitui o “problema”, como levar em procissão, ajoelhar-se, etc., o que já seria adoração, e tal coisa não é verdade. Quem usa tal argumento está pensando justamente nisso. Em outras palavras, os que dizem isso pensam que as imagens não podem ser reverenciadas, mas, talvez, servir apenas de decoração. E é tudo o que podem dizer, e parecer plausível, para os ignorantes do assunto. Mas, o problema é que, segundo o ensino bíblico, o que não deve existir, por exemplo, é a crença de que na imagem está habitando algo, ou que algo divino e poderoso está por trás dela, ou que age nela, e que a torna indispensável, pois isso é superstição, e idolatria. O uso das imagens permite os gestos de reverência, como eram permitidos à arca da aliança.

n)      Mas, não podemos fazer imagens com fins religiosos: há quem pense que as imagens podem ser usadas em vários contextos, menos no religioso. Assim, nenhuma imagem pode ser feita para ser empregada com fins de culto. Para isso, afirmam que as imagens do Antigo Testamento eram como os utensílios do templo, todos eles apenas consagrados para o uso ritual, mas nenhum recebendo culto, veneração ou adoração. Vimos, porém, que essa explicação é inexata, e até confusa, pois a arca e outras esculturas do templo eram realmente veneradas pelo que simbolizavam, não sendo de forma alguma apenas decorativas. A verdade é que as imagens não podem ser feitas para receberem adoração, mas podem ser usadas na Igreja como representações que lembram as realidades de Deus e dos Seus servos, e assim serem honradas por sua significação.

o)      Não sabemos se a imagem de Cristo está conforme Sua verdadeira aparência: isso não é problema. O que importa é que ao ver um determinado tipo de imagem as pessoas entendam que ela simboliza Jesus Cristo, e isso é o que acontece. Todos podem identificar facilmente uma imagem de Cristo entre milhares, e então o objetivo a que prestam as imagens está sendo atingido.

p)      O crucifixo lembra Cristo morto, e prefiro lembrá-lo vivo: esse constitui um dos piores argumentos, por esconder-se sob uma capa que o torna aparentemente piedoso. Esse ponto não é o que ensina o Evangelho. Essa opinião é meramente humana, e tem uma lógica que não leva em conta a doutrina bíblica. A pregação cristã católica é Cristo, e Cristo crucificado. (cf. Gálatas 3,1-2) Sendo isso o núcleo da pregação, o crucifixo está simbolizado uma verdade fundamental do Evangelho. Todos sabemos que o mesmo Jesus Cristo está vivo, Ele é o nosso Salvador. Comemorar isso não é oposto a crer em Jesus vivo. Jesus é aquele que morreu na cruz por nós. Comemorar a ressurreição não invalida a consciência, e a lembrança constante do valor da morte de Cristo. Eis o sentido do crucifixo.

q)      Vivemos pela fé, e isso não requer que tenhamos imagens: essa verdade não faz as imagens desnecessárias absolutamente. A fé só acabará na glória. Assim, os que viram Jesus quando esteve na terra continuaram a ter fé, pois não viram a Sua divindade. Até mesmo Tomé, que viu a Cristo, continuou a exercer fé, pois o que estava em jogo naquele momento era o fato da ressurreição. A fé durará até vermos a Deus no Reino eterno. Assim, uma imagem que lembra a Jesus Cristo não anula a fé, pois essa só terá fim com a visão beatífica, ou seja, a visão de Deus face a face.

Na profecia de Ezequiel 41,17-25, o novo Templo que simboliza a nova aliança, que é o Novo Testamento, continua tendo imagens. Assim, espiritualmente, o uso religioso das imagens está conforme a Lei de Deus, e eternamente esse princípio ficará de pé. É um erro grave afirmar que as imagens, e em especial as estátuas, são proibidas, pois isso introduz divisão, tendendo a considerar mesmo o uso sadio das imagens na Igreja como se isso fosse proibido. Falta o Espírito Santo para abrir as mentes e o coração para a compreensão da Palavra de Deus.
 
Gledson Meireles.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

A causa do papa Urbano II para as cruzadas

A causa do papa Urbano II para as cruzadas

Durante séculos os cristãos iam a Jerusalém em piedosas peregrinações, ainda que o controle da Cidade Santa não estivesse sob o governo cristão. Os governantes concediam certa tolerância, e isso permitia a continuidade das peregrinações, até que esse cenário mudou. É o que mostra W. Walker:

“Embora Jerusalém estivesse nas mãos dos muçulmanos desde 638, as peregrinações praticamente não tinham sido interrompidas, exceto por breves intervalos, diante do governo relativamente tolerante dos árabes. Em meados do século onze, o número de peregrinos, como também da frequência das peregrinações, havia-se elevado. Entretanto, a situação mudou quando os turcos seljúcidas, começando em 1071, conquistaram grande parte da Ásia Menor. Em 1079 ganharam o controle de Jerusalém, e daí em diante as peregrinações tornaram-se virtualmente impossíveis.” (História da Igreja Cristã, Williston Walker, p. 328)[1]

A iniciativa das cruzadas foi feita por parte do papado, mas a ideia que deu início à ideia da cruzada foi proveniente do Oriente, dos imperadores bizantinos:

“O primeiro impulso para os cruzados veio de um apelo do imperador oriental, Miguel VII (1071-1078), ao papa Gregório VII, por ajuda contra os seljúcidas. Gregório, a quem isso parecia prometer a reunião da cristandade grega e latina e o estabelecimento dos direitos primaciais de Roma sobre Constantinopla, lançou os planos para uma expedição em 1074. A eclosão da disputa sobre investidura frustrou seus desígnios, porém mais tarde seriam reacendidos por Urbano II (1088-1099), o herdeiro de Gregório VII, sob muitos aspectos.”

Aleixo I apelou “a Urbano II por assistência na preparação de um corpo de cavaleiros ocidentais para ajuda-lo a recuperar suas províncias asiáticas perdidas.”

Cecile Morrison, conhecendo as diversas causas influentes na formação das cruzadas, prefere realçar causas mais diretas de todo o movimento: “Preferimos salientar o valor dos fatores específicos que explicam por que esse entusiasmo pelo Oriente assumiu o formato das cruzadas”.

E mostra que os pedidos eram inflamados e causaram uma má impressão no lado Ocidente: “Mas essas solicitações de mercenários contribuíram para desenvolver na mente dos papas reformadores a idéia de uma expedição para o Oriente.”

 

O Império Bizantino pede ao papa apoio na luta contra inimigos par que pudesse recuperar suas terras: “descrevia com um certo grau de exagero retórico as dificuldades reais por que passavam os que permaneciam fiéis ao Cristianismo na Ásia Menor ou mesmo as supostas perseguições que estavam sendo realizadas na Terra Santa, cuja importância para os latinos era bem conhecida pelos gregos.”

 

A historiadora afirma que o Ocidente, onde residia o papa, estava mal informado da real situação no Oriente, e os bizantinos exageraram na apresentação de seus motivos quando fizeram o pedido ao papa. Isso impossibilita o pensamento de que o papa estivesse propositalmente “inventando” alguma coisa.

“Através do Ocidente mal informado, os temas desenvolvidos pelas embaixadas bizantinas e as notícias difundidas por alguns peregrinos que haviam passado por dificuldades formaram os principais argumentos que provocaram a instauração da Primeira Cruzada.”

 

Quando o papa discursou, após o Concílio de Clermont, o povo ficou extasiado ao ouvir as palavras do papa. Contudo, o papa não desejava que os sentimentos estivessem assim levantados: “e se esforçou para limitar os efeitos de um entusiasmo irrefletido”. (Cecile Morrisson)

Quando os cruzados que partiam irrefletidamente e sem as devidas permissões, e praticavam violência, essa não ficava sem a justa repreensão dos clérigos e ainda assim não eram suficientes para evita-las. Grupos isolados faziam isso: “As violências mais graves foram executadas por grupos germânicos que, logo após a partida, se encarniçaram contra as comunidades judaicas da Renânia querendo converter os judeus à força ou os massacrando, apesar da oposição de certos bispos, particularmente em Speyer, Worms, Mainz e Colônia.”.

 

Os ataques aos judeus não surgiu da iniciativa da Igreja, nem do espírito que prevalecia nos cristãos, mas foi uma onda nova que foi reprovada no seu nascedouro: “Misturando temas apocalípticos e escatológicos, especialmente o da conversão dos judeus que anunciaria o fim dos tempos, a pregação das cruzadas contribuiu para desencadear, sem que isso necessariamente tivesse sido desejado, um incêndio de anti-semitismo oficialmente reprovado pela Igreja.”.

De fato, os judeus até aquela época viviam entre os cristãos, “eram tolerados” e já estavam integrados de alguma forma na sociedade: “que até essa época eram tolerados e relativamente integrados na população em geral”.
(continua...)
 
Gledson Meireles.



[1] “Walker também concorda que os muçulmanos não haviam impedido as peregrinações dos cristãos a Jerusalém. Ele afirma que “embora Jerusalém estivesse nas mãos dos muçulmanos desde 638, as peregrinações praticamente não tinham sido interrompidas, exceto por breves intervalos, diante do governo relativamente tolerante dos árabes”.” (cf. http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2016/04/a-causa-do-papa-urbano-ii-era.html. Ênfase no artigo original). O autor cita parte do texto levando a pensar que o historiador Williston Walker afirmou que as peregrinações a Jerusalém continuavam permitidas no tempo do papa Urbano II, quando na verdade o historiador afirma que as coisas mudaram, e a partir de certo momento (leia acima no artigo) quase que tornou-se impossível fazer peregrinações.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Cisma do século XI

Seu Sebastião e Dona Maria foram casados durante 50 anos. Certo dia, em 2017, por causa de grande desavença, os dois separaram-se. Poder-se-ia dizer que Sebastião não existia antes da separação? E que Dona Maria nasceu em 2017?
Considerando as limitações das comparações, pense no caso da Igreja unida desde a fundação até o ano 1054, quando houve o cisma do Oriente e do Ocidente, dividindo a Igreja em duas. É correto afirmar que por isso a Igreja do Ocidente foi fundada em 1054, assim como a Igreja do Oriente? Mas, antes elas não existiam?


Prostrar-se, inclinar-se, ajoelhar-se diante de uma pessoa e as expressões no original bíblico

Prostrar-se, inclinar-se, ajoelhar-se diante de uma pessoa

Ficou bastante claro o sentido da prostração na doutrina bíblica, e que é o mesmo que a Igreja Católica ensina.

No presente título veremos e revisaremos alguns exemplos bíblicos, segundo os originais hebraico e grego, para alimentarmo-nos mais com a Palavra do Senhor nosso Deus:

Gn 18,3: levantou os seus olhos, e olhou, e eis três homens em pé junto a ele. E vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro e inclinou-se à terra.

Gn 19,1: E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro e inclinou-se com o rosto à terra.

Gn 33,3: E ele mesmo passou adiante deles e inclinou-se à terra sete vezes, até que chegou a seu irmão.

Gn 33,6: Então chegaram as servas; elas e os seus filhos, e inclinaram-se.

Verso 7: E chegou também Lia com seus filhos, e inclinaram-se; e depois chegou José e Raquel e inclinaram-se.

Gn 43,26: Vindo, pois, José à casa, trouxeram-lhe ali o presente que tinham em suas mãos; e inclinaram-se a ele até à terra.
Verso 28: E eles disseram: Bem está o teu servo, nosso pai vive ainda. E abaixaram a cabeça, e inclinaram-se.

Jos 7,6: Então Josué rasgou as suas vestes, e se prostrou em terra sobre o seu rosto perante a arca do SENHOR até à tarde, ele e os anciãos de Israel; e deitaram pó sobre as suas cabeças.

Js 13,20: E sucedeu que, subindo a chama do altar para o céu, o anjo do SENHOR subiu na chama do altar; o que vendo Manoá e sua mulher, caíram em terra sobre seus rostos.

1 Sm 20,41: E, indo-se o moço, levantou-se Davi do lado do sul, e lançou-se sobre o seu rosto em terra, e inclinou-se três vezes; e beijaram-se um ao outro, e choraram juntos, mas Davi chorou muito mais.

2 Sm 15, 6: Sucedia também que, quando alguém se chegava a ele para se inclinar diante dele, ele estendia a sua mão, e pegava dele, e o beijava.

O rei ímpio Absalão pretendia passar humildade, mas sua atitude era feita com fins de enganação.

2 Sm 16,4: Então disse o rei a Ziba: Eis que teu é tudo quanto tem Mefibosete. E disse Ziba: Eu me inclino, que eu ache graça em teus olhos, ó rei meu senhor.

2 Sm 18,21.28: 21 E disse Joabe a Cusi: Vai tu, e dize ao rei o que viste. E Cusi se inclinou a Joabe, e correu.

22 E prosseguiu Aimaás, filho de Zadoque, e disse a Joabe: Seja o que for deixa-me também correr após Cusi. E disse Joabe: Para que agora correrias tu, meu filho, pois não tens mensagem conveniente?

2 Sm 24,20: E olhou Araúna, e viu que vinham para ele o rei e os seus servos; saiu, pois, Araúna e inclinou-se diante do rei com o rosto em terra.

1 Reis 1,53: O rei Salomão mandou mensageiros e o fizeram descer do altar. Ele veio e prostrou-se diante do rei, que lhe disse: “Volta para a tua casa.”

1 Reis 3,15: apresentou-se diante da arca da aliança.

1 Reis 18,7: Enquanto Elias caminhava, eis que veio Abdias ao seu encontro. Abdias reconheceu-o e prostrou-se com o rosto por terra, dizendo: És tu meu senhor Elias?

2 Reis 2,15: Os filhos dos profetas que estavam em Jericó, vendo o que acontecera diante deles, disseram: “O espírito de Elias repousa em Eliseu”. Foram-lhe ao encontro, prostraram-se por terra diante dele.

2 Reis 4,37: Então, ela veio e lançou-se aos pés de Eliseu, prostrando-se por terra. Em seguida, tomou o filho e saiu.

Ester, 3,2: Todos os servos do rei, que estavam a serviço de sua porta, dobravam o joelho e prostravam-se diante de Amã por ordem expressa do rei. Mardoqueu, porém, não queria nem dobrar o joelho, nem prostrar-se.

Salmo 132,7: Entremos em sua morada, prostremo-nos diante do escabelo de seus pés.

Verso 8: Levantai-vos, Senhor, para vir ao vosso repouso, vós e a arca de vossa majestade.

Isaías 43,23: Reis serão teus aios: prostrados diante de ti, a face contra a terra, lamberão a poeira de teus pés. Saberás então que eu sou o Senhor, e que não serão confundidos os que contam comigo.

Isaías 60,14: Os próprios filhos de teus opressores a ti virão humilhados; a teus pés se prostrarão todos aqueles que te desprezavam; eles te chamarão a cidade do Senhor, a Sião do Santo de Israel.

A Bíblia mostra que é lícito prostrar-se e inclinar-se diante do rei, com honra política, também diante do profeta e homem de Deus, com honra religiosa, como diante dos anjos, também com honra religiosa, diante da arca de Deus, com igual honra religiosa, assim como diante do templo, também com honra religiosa e etc. A prostração, a inclinação, e outros gestos, constituem o costume que mostra o reconhecimento da honra, a humilhação diante de uma pessoa, e diante de Deus. Isso pode ser feito mesmo diante dos objetos e santuário de Deus.

Por isso, quando a autoridade não é reconhecida, também não há prostração. Exemplo é o caso de Ester 3,2. Eis o que está escrito: “Todos os servos do rei, prepostos ao serviço de sua Porta, ajoelhavam-se e prostravam-se diante dele, pois esta era a ordem do rei. Mardoqueu, porém, recusou-se a ajoelhar-se e prostrar-se.”

A explicação que há no próprio texto bíblico, no capítulo 4, verso 17, é que Mardoqueu recusou-se a mostrar deferência ao orgulhoso Amã, tanto por motivos raciais, como aqui, com motivos religiosos, mostrando a ênfase não no gesto em si, mas nos sentimentos que o acompanham e o definem.

O que mostra também o sentido da prostração foi o que fez o rei Absalão, pois agindo como se não aceitasse a prostração, mostra que estava exaltando a pessoa que vinha prestar-lhe homenagem. Porém, a sua pretensa humildade era sinônimo de engano. A prostração também é feita diante dos filhos de Israel, de Jerusalém, por reconhecer a Deus. É o exemplo da adoração indireta a Deus, por meio da honra aos Seus servos, à cidade por Deus abençoada, e aos objetos sagrados. O reconhecimento de tudo o que é consagrado a Deus pode receber veneração por esse justo motivo. A mesma doutrina é encontrada no Novo Testamento.
 
Os termos prostrar e adorar no original bíblico
“Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o homenagearam.”. (Mateus 2,11)
O termo traduzido como “prostrando-se” é πεσόντες (pesontes) e com o sentido de “adoraram” foi traduzido acima como homenagearam a palavra προσεκύνησαν (prosekynesan).[1]
Em Mateus 4,9 está escrito: “e disse-lhe: “Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares”.
Ao afirmar que, se prostrado ou, dito de outro modo, prostrando-se, isso é dito no grego como πεσὼν (peson) e adorares é o termo προσκυνήσῃς (proskyneses).
Temos a mesma expressão para a ocasião da adoração dos Magos a Jesus, e naquela que o Demônio queria que fosse feita por Jesus a Ele. Assim, Jesus afirma que somente ao Senhor Deus adorarás. A expressão aqui é: προσκυνήσεις (proskyneseis) significando adorarás, e λατρεύσεις (latreuseis) com o sentido de servirás. O que no texto é seguido da palavra somente (μόνῳ) é latreuseis: somente (mono) a Deus servirás.
Por isso, a Igreja Católica Apostólica Romana ensina que o tipo de culto que na língua grega é expresso pelo termo latreia e que é dito no latim sob a palavra latria é reservado para Deus somente, pois é a adoração, ou mais profundamente o ato e o serviço de adoração espiritual que nesse texto é escrito como latreuseis. Para especificar melhor, vemos que não é o termo proskyneseis que está no lugar do culto máximo e exclusivo de Deus, mas aqui é expresso pela palavra latreuseis, o que indica uma inclinação à elevação do termo ao sentido técnico de “adoração reservada a Deus”.
Esse termo, que adquiriu mais tarde essa conotação técnica, indica a adoração que só a Deus é devida. Esse verbo é, em outras versões, traduzido como “prestarás culto”. Assim, nessa passagem a palavra adorarás é a tradução de proskyneseis enquanto que o servirás ou prestarás culto é tradução do verbo latreuseis. Prestarás culto é uma expressão em duas palavras em português, mas apenas uma no grego. Assim, quanto a latreuseis essa é uma palavra que, em Mateus 4,9 significa o que deve somente ser endereçado a Deus. Assim, prestar culto é a adoração total e máxima e exclusiva e somente de Deus. A palavra proskyneseis foi traduzida como adoração mas não é a que aparece reservada de modo especial ao culto de Deus, embora de forma não técnica esse termo apareça com esse sentido também. O que está sendo afirmado aqui é resultado da análise mais aprofundada da passagem de Mateus 4,9 em que Jesus ensina a verdade da adoração que somente é prestada ao Senhor Deus.
Em Deuteronômio 6,13 o verbo servir é תַעֲבֹ֑ד (taabod). Esse verbo aparece em Mateus 4,10; Lucas 1,74; 2,37; 4,8; Atos 7,7; 7,42; Atos 24,14; 26,7; 27,23; Romanos 1,9.25; (adoraram e serviram: ἐσεβάσθησαν καὶ ἐλάτρευσαν τῇ κτίσει); Filipenses 3,3; 2 Timóteo 1,3 e outros.
Entre esses está a promessa de que serviremos a Deus dia e noite no Seu templo no céu, como revela o Apocalipse 7,15, como em Hebreus 13,10. E o verso usado é λατρεύουσιν (latreuousin).[2]
No grego o verso 9 de Apocalipse 7 está assim: καὶ εἶπεν αὐτῷ, ταῦτά σοι πάντα δώσω ἐὰν πεσὼν προσκυνήσῃς μοι.
Em Daniel 3, no verso 18, lemos: “lê-lā-hā-yiḵ” (significa seus deuses) segundo o hebraico. O verbo servir é a tradução de “p̄ā-lə-ḥîn”, e imagem é o sentido da palavra “ū-lə-ṣe-lem”. A palavra adorar foi a tradução de “nis-guḏ”.
A tradução grega traz: “θεοῖς” (deuses), e para as imagens a palavra é “εἰκόνι”. O verbo servir é traduzido por latreia, que é adorar, na forma “λατρεύομεν”, e onde a tradução traz o termo adorar, a língua grega emprega “προσκυνοῦμεν”, que é verbo comumente expresso para adoração, prostração, etc., em diversos contextos. Isso mostra que esse termo ainda não é usado tecnicamente, para expressar o que foi mais tarde distinguido nos termos latria, dulia e hiperdulia. Portanto, não adianta objetar contra os termos em si, mas deve-se partir do sentido de cada um, desses sentidos reais, e compreender a elevação posterior dos termos para um sentido técnico mais preciso.
A imagem referida no verso 1 é tradução de “ṣə-lêm”, que no grego é “εἰκόνα”. O verso 5 tem “προσκυνεῖτε” para prostrar, que é o hebraico “tip-pə-lūn” cair, para “wə-ṯis-gə-ḏūn” adorar (cair para adorar). O latim traz “cadentes adorate”, que é cair para adorar a estátua (statuam – eikona). A imagem no verso 5 é tradução de “lə-ṣe-lem”.
Os judeus não adoravam os deuses de Nabucodonosor, e a imagem que erigiu certamente era de um de seus deuses. Eles não participaram da sua dedicação (ἐγκαίνια).
O verso 6 traz o verbo proskynesis na expressão: “πεσὼν προσκυνήσῃ”, significando “cair para adorar”, o que indica a adoração. O latim verteu “prostratus adoraverit”, que no hebraico é “yip-pêl wə-yis-guḏ” (abaixar e adorar). É a forma exterior de ajoelhar-se ou prostrar-se para a adoração da imagem, indicando também o culto interior.
Em Mateus 8,2: “quando de repente um leproso se aproximou e se prostrou diante dele, dizendo: “Senhor, se queres, tens poder para purificar-me”. A expressão “se prostrou” pode ser vertida como “adorou”, tradução de προσεκύνει (prosekynei).
Em Mateus 9,18: ajoelhou-se é προσεκύνει (prosekynei)
Em Mateus 14,33: adoraram é προσεκύνησαν (prosekynesan)
Em Mateus 15,25: adorou é προσεκύνει (prosekynei)
Em Atos 10,25: caído é πεσὼν (peson) e adorou é προσεκύνησεν (prosekynesen)
Em Atos 16,29: caiu diante é προσέπεσεν (prosepesen)
Semelhante passagem encontra-se em Lucas 17,16, onde é dito que o leproso “caiu”, que em grego é ἔπεσεν (epsen). Isso é parte da expressão que mostra que o leproso caiu com o rosto por terra aos pés de Jesus. Dessa forma, o carcereiro caiu aos pés de Paulo como reconhecendo sua posição de servo de Deus, e pediu a ele instruções de como devia seguir.
Em 1 Coríntios 14,25: πεσὼν (peson) tendo caído προσκυνήσει (proskynesei) ele irá adorar. Tendo caído é o primeiro ato físico, e a adoração é o ato interior, seguido da proclamação do senhorio de Deus.
Em Apocalipse 19,10: o apóstolo semelhantemente “cai para adorar”. Em grego: caí ἔπεσα (epesa) para adorar προσκυνῆσαι (proskynesai) e “adora” é προσκύνησον (proskyneson). Nessa expressão que basicamente é “cair para adorar”, o termo com o sentido de adoração é proskyneson, o que remete ao significado técnico descrito em latreuseis. É usado o verbo que mais comumente mostra o gesto de ajoelhar para indicar a adoração, e para isso é usada uma expressão: cair para adorar.
Esse é o mesmo verbo na tradução grega para Josué 7,6: ἔπεσεν (epesen) no latim pronus. O hebraico traz:  וַיִּפֹּל֩ wayyippol [(cair)].
Em Apocalipse 22,8: caí é no grego ἔπεσα (epesa) e adorar é προσκυνῆσαι (proskynesai).
Em Apocalipse 22,9: adora é προσκύνησον (proskyneson). O gesto de ajoelhar associado à adoração devida somente a Deus é o que revela essa passagem. Isso remete ao sentido da adoração mais restrita expressa pelo termo latria.
O verbo adorar em 2 Reis 5,18 é: תַעֲבֹ֑ד (lehistahawot) e curvar-se é וְהִֽשְׁתַּחֲוֵ֙יתִי֙ (wehistahaweti).
Em Ap 4,1 São João é chamado a subir ao céu para receber as visões das coisas que acontecerão após o que foi revelado nas epístolas às sete igrejas da Ásia Menor.
São João vê o Senhor Deus sentado no trono. (v.2) Ao redor do trono estavam 24 anciãos, vestidos de branco e com coroas de ouro. Essas vestes simbolizam a salvação, e as coroas já é a participação dessa glória.
O trono emitia relâmpagos, vozes, trovões. Diante do trono estavam os sete espíritos de Deus. Dos anciãos é dito que: caíram (πεσοῦνται “pesountai”) e adoravam (προσκυνήσουσιν “proskynesousin”). Essa expressão é a que vemos em Mt 2,11 e 4,8-10. Lembremos que proskynesein é o verbo que é usado, em sentido legítimo e aprovado pela Bíblia, para as prostrações diante de imagens pessoas e anjos. Isso prova que o significado expresso em Ap 4,1 é de um gesto que mostra a adoração que somente Deus pode receber. Não é o gesto em si, mas o gesto realizado em um contexto específico, que revela a motivação do mesmo.
Agora, como está provado pela Bíblia essa sutil diferença nas próprias expressões bíblicas para a indicar adoração a Deus, que é a adoração distinta de toda veneração justa pelos servos de Deus e por causa de Deus, continuemos com o estudo comparando corretamente as imagens sagradas com a arca da aliança.
Gledson Meireles.




[1] As informações do grego e hebraico bíblico são todas do site http://biblehub.com.


[2] θεοῦ καὶ λατρεύουσιν αὐτῷ ἡμέρας.

 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

As imagens de escultura em Ezequiel 8


As imagens de escultura em Ezequiel 8

Considerando uma importante objeção, feita no livro Desmascarando a Idolatria, que afirma não ter havido “imagens de escultura” nos três primeiros séculos da Igreja, e que essas nem mesmo foram admitidas como “ornamento” para as igrejas. Assim, nem haveria o fato da existência de estátuas em uso na Igreja, nem o caráter meramente ornamental dessas teria sido admitido.

Sendo assim, teríamos que do ano 1 ao 100, com a Igreja começando por volta de 30 d. C., com o ministério de Nosso Senhor Jesus Cristo, e inaugurada pelo Espírito Santo em aproximadamente 33 d. C., não existiria pintura e estátuas em uso, sendo o mesmo a considerar do período de 101 a 200 e de 201 a 300. Dessa forma afirma-se que a Igreja teria sido totalmente contrária ao uso de imagens de escultura ainda que fosse para simples decoração cristã das igrejas.

O problema dessa afirmação é que a mesma não resiste a um escrutínio bíblico, e cai fragorosamente diante da análise segundo os princípios da Palavra de Deus.

Em primeiro lugar, pelo que já foi exposto nota-se que a afirmação é gratuita. Em segundo lugar, temos que o foco da proibição de imagens, supostamente identificadas com ídolos, é principalmente aquelas feitas sob a forma de estátuas, ou seja, as imagens de escultura. Sendo assim, essas seriam os típicos “ídolos” que deveriam ser banidos do culto cristão.[1]

No entanto, em Ezequiel os ídolos aparecem em forma de pinturas nas paredes. A imagem que aparece à entrada do templo é chamada “tanabit”. Essa constatação é suficiente para refutar o que muitos apresentam como “objeção”, já que mesmo as pinturas são nessa passagem identificadas com ídolos.

“Entrei e fixei o olhar: havia ali toda sorte de imagens de répteis, de animais repugnantes e todos os ídolos imundos da casa de Israel gravados na parede ao redor.”[2] (Ez 8,10)

Comparando o que havia no Templo de Deus em Jerusalém, que possuía tanto esculturas como imagens pintadas nas paredes, o que a visão de Ezequiel revela é que não é o fato da técnica empregada na feitura de uma imagem ser diferente que constituiria a imagem, mas que mesmo com técnicas idênticas há diferenciação entre imagem e ídolo pelo que é representado.

Assim, nas paredes do templo estavam semelhanças de répteis e de besta. Ou seja, eram figuras de coisas que não faziam parte do culto de Israel. Dessa forma, eram ídolos pagãos.

Naquela cena revelada, os setenta anciãos estavam de pé, não prostrados, mas usavam o incenso no culto dos ídolos pintados nas paredes do templo, o que denota a sua idolatria. No verso 16, cerca de vinte e cinco homens estão prostrados para o Oriente, para a direção do sol. O gesto é igual ao que faziam os israelitas fieis em direção de Jerusalém, e em direção ao templo, mas ali, por sua intenção em adorar o sol, estavam de costas para o santuário, e o mesmo gesto convertia-se em idolatria.
Gledson Meireles.





[1] O hebraico utiliza vários termos para referir-se a ídolo. Assim, em Êxodo 20,4 para ídolo é “pesel” e para semelhança é “temunah”. Em Ezequiel o termo é “gullile” como sinônimo de ídolo.


[2] “And when I went in to look, what should I find painted on the walls but likenesses of reptile and of beast! A very foul sight it was; no idol Israel worships but it was there;” O texto grego: “καὶ εἰσῆλθον καὶ εἶδον καὶ ἰδοὺ μάταια βδελύγματα καὶ πάντα τὰ εἴδωλα οἴκου Ισραηλ διαγεγραμμένα ἐ{P'} αὐτοῦ κύκλῳ”.