sexta-feira, 29 de abril de 2016

A doutrina da Igreja Católica na Didaquê

Na Didaqué vemos que a Igreja no primeiro século ensinava: “Mas se não estiver em necessidade, terá que se responsabilizar pelo motivo e pelo fim por que recebeu. Colocado na prisão, ele não sairá de lá, até ter pago o último quadrante (centavo)”, conforme o que está em Mateus 5,25s. Fala-se nesse parágrafo em uma punição espiritual. Nessa passagem, essa prisão é especificamente onde há o castigo para quem recebeu dons sem necessidade, cometendo pecado por isso.

Também é citado o texto sagrado de Eclesiástico 12,1 para ensinar a prática cristã da esmola.

A Igreja ensinava contra o aborto, como também o infanticídio. Era muito radical contra todo tipo de feitiçaria.

A soberania de Deus é ressaltada: “sabendo que a Deus nada daquilo que acontece é estranho.”

A comunhão dos santos não é esquecida, e é preciso ter contato com os santos, conversar com eles, viver junto deles: “Todos os dias procurarás a companhia dos santos, para encontrar apoio em suas palavras”. Os santos são então aqueles que possuem a Palavra de Deus e podem auxiliar-nos com ela.

A confissão dos pecados é ensinada: “Na assembleia, confessarás tuas faltas e não entrarás em oração de má consciência.”

A Igreja também ensinava que há a perfeição cristã, quando agimos conformes aqueles conselhos evangélicos de perfeição, e há também o que podemos fazer dentro dos limites de nossa possiblidade: “Pois, se puderes portar todo o jugo do Senhor, serás perfeito; se não puderes, faze o que puderes”.

As carnes dos sacrifícios pagãos eram evitadas: “mas abstém-te completamente das carnes oferecidas aos ídolos”.

O batismo é em Nome da Trindade: “No que diz respeito ao batismo, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água corrente”. Esse é o mesmo batismo em Nome do Senhor, pois foi Cristo que o ensinou. Por isso, a Didaqué usa ambas as expressões para falar do batismo, e quando é específico ao apresentar a forma ele afirma que é em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

O uso do batismo era em “água corrente” em primeiro lugar. Não tendo essa água, pode-se usar outra. Como obviamente se espera a água é utilizada naturalmente, fria. Mas, em caso de necessidade pode-se usar a água morna (água quente). Esse é o batismo feito em tanques batismais próprios.

Caso não seja possível, há o batismo por infusão, sem qualquer diferença em sua eficácia: “Na falta de uma e outra, derrama três vezes água sobre a cabeça em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

Outra coisa que ensina a Igreja no primeiro século é que o que será batizado deve jejuar antes do batismo, um dia antes ou dois. Assim também aquela que batizará. Pensa-se assim no batismo de adultos, e não há qualquer alusão ao batismo de crianças, que não podem fazer o jejum. Não há qualquer parte do documento que negue a existência do batismo de crianças, apenas não faz menção dele em suas instruções. De fato, a instrução não abarca toda a doutrina cristã em todos os pormenores.

A Igreja ensina o jejum em dois dias da semana, na quarta-feira e na sexta-feira. Isso mostra a prática do preceito evangélico de modo a diferenciar-se de muitos pagãos que jejuavam na terça-feira e na quinta-feira.

A Igreja ensinava o Pai-Nosso, mostrando o texto como está no Evangelho, e prescrevia que o cristão rezasse três vezes por dia essa oração.

Para a celebração da Eucaristia há a forma de consagrar o pão e o vinho. Quem participa da Eucaristia deve ser quem foi batizado: “Ninguém coma nem beba de vossa Eucaristia, se não estiver batizado em Nome do Senhor”. Esse batismo “em Nome do Senhor” é aquele que foi ensinado antes, ou seja, o batismo em Nome do Deus Uno e Trino.

A Igreja ensina que ela é visível: “reuni esta Igreja santificada dos quatro ventos no vosso Reino que lhe preparaste”, e também ensina a penitência para quem não está vivendo a santidade necessária: “Aquele que não é (santo) faça penitência: Maranatá! [Cf 1Cor 16,22; Ap 22,20] Amém.”.

Nesse tempo os profetas eram em número considerável, e a Didaquê instrui como reconhecer um verdadeiro profeta.

A Eucaristia não era uma simples refeição judaica, o que sugeriria algo corriqueiro e espontâneo, mas trata-se da uma liturgia. Assim, a Igreja ensina que o dia de reunião era o Dia do Senhor (o domingo).

Duas partes da hierarquia são mencionadas, os bispos e os diáconos.

As orações, as esmolas e as boas obras são exortadas a serem feitas conforme o Evangelho: “Fazei vossas preces, esmolas e todas as vossas ações como vós tendes no Evangelho de Nosso Senhor”.

A Igreja ensina a vigilância, usava a simbologia da lâmpada para falar da fé e a perseverança, instruía a não deixar de participara da Igreja, para que sejamos salvos: “Reuni-vos frequentemente para procurar a salvação de vossas almas”.

A Eucaristia é um sacrifício: “Reuni-vos no dia do Senhor (Domingo) para a Fração do Pão e agradecei (celebrai a Eucaristia), depois de haverdes confessado vossos pecados, para que vosso sacrifício seja puro”.

Malaquias 1,11-14 é usado para falar da missa, que é sacrifício Eucarístico.

E a doutrina é clara ao afirmar que somente perseverando até o fim é que há salvação: “pois todo o tempo de vossa fé não vos servirá de nada se no último momento não vos tiverdes tornado perfeitos”.

É exortado sobre a vinda do Anticristo. A respeito da ressurreição fala-se da ressurreição dos salvos, não entrando em específico sobre o juízo final, quando todos serão julgados.

Enfim, podemos perceber o seguinte:

a)      O pagamento do último centavo lembra a doutrina do purgatório.

b)      O livro do Eclesiástico é lido e empregado para ensinar doutrina.

c)      A Igreja é contrária ao aborto.

d)     A Igreja condena a feitiçaria.

e)      A soberania de Deus é pregada.

f)       A veneração dos santos, mesmo vivos, é inculcada.

g)      A Igreja é litúrgica.

h)      A Eucaristia é um sacrifício que a Igreja oferece quando reúne-se para esse fim.

i)        Antes do culto a Deus é feita confissão de pecados.

j)        Os conselhos evangélicos de perfeição são ensinados.

k)      O batismo é feito em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

l)        Em primeiro lugar, o batismo é feito em água corrente, por imersão. É o costume natural daquela época. Mas, também, ensina-se o batismo por infusão, e é ensinado como deve ser realizado.

m)    A Igreja reza o Pai Nosso várias vezes por dia.

n)      A Igreja é visível.

o)      A Igreja é hierárquica.

p)      São ensinadas as rezas, esmolas e boas obras.

q)      É exigida a participação na Igreja.

r)       A perseverança nas boas obras é necessária para a salvação.

Conclusão: a Igreja possuía uma norma litúrgica para cultuar a Deus; cria na inspiração do livro do Eclesiástico; recitava a oração do Pai Nosso; cultivava o respeito dos ministros hierárquicos; tinha em alta honra os santos; exigia a frequência à Igreja como necessária para a salvação; praticava preces, esmolas, jejuns prescritos em dois dias da semana, a penitência, e tudo conforme o Evangelho; batizava em Nome da Trindade Santíssima, em imersão ou aspersão; confessava os pecados antes de oferecer o sacrifício a Deus; a Eucaristia era o sacrifício oferecido; ensinava a Soberania de Deus e a perseverança para ser salvo; condenava a feitiçaria e o aborto etc. Sobre a escatologia pode haver alguma diferença, mas não é muito claro esse ponto. Há a fé na “prisão” de onde pode-se sair após pagar o último centavo. Por isso, está implícita a fé no purgatório.

De forma geral, o Protestantismo não tem a frequência às cerimônias da Igreja como necessárias para a salvação, e quando trata desse assunto restringe-se na questão de que isso é apenas importante; também nos primórdios os reformadores, e, mais importante, as Confissões de Fé, foram adeptos, em princípio, do “uma vez salvo sempre salvo” e não estariam de acordo com a instrução sobre a perseverança até o fim para ser salvo como feita na Didaquê; não fala sobre a prisão de Mateus 5,25-26 dessa forma; quase não pratica o batismo por aspersão e infusão, e ainda há os que afirmam que essas formas são inválidas; não recita orações escritas, nem tem o costume de fazer isso algumas vezes por dia, e coisas assim; não usa Ml 1,11 para expressar o sacrifício cristão como fez a Didaquê; não inculca prática relativa à hierarquia eclesiástica como está no documento; não tem o costume de jejuar em certos dias da semana, ou antes do batismo, pois não possuem um ritual prescrito formal como está na Didaquê e etc. Enfim, com algumas exceções, levando em consideração as variações que há na doutrina nas diversas denominações, o que o Protestantismo prega em essência não condiz com o que está expresso na Doutrina dos Dozes Apóstolos.

É inegável que a Igreja Católica continua a ensinar o mesmo que esse antigo documento, o Catecismo do primeiro século, está ensinando. A Igreja Católica Apostólica Romana ensinava no primeiro século o mesmo que ensina hoje.[1]

Gledson Meireles.


[1] Texto da Didaqué: http://www.ofielcatolico.com.br/2001/05/o-didaque-instrucao-dos-apostolos.html.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Comentário de um artigo sobe a Virgem Maria

O artigo O que diz a Bíblia sobre a virgem Maria  é um pouco esclarecedor da forma como os protestantes geralmente pensam sobre a virgem Maria. Nesse comentário serão feitos esclarecimentos de alguns pontos importantes, que mostram a inexatidão de algumas crenças protestantes nesse assunto.

Primeiro o artigo entende que “gratia plena”, que é a tradução em latim do grego kecharitomene, e que significa “cheia de graça”, teria o sentido de “agraciada”. É normal que essa seja a tradução preferida dos protestantes, pois parece diminuir um pouco o alcance do “Kecharitomene”. Mas, o artigo traz a explicação de que isso também significa “muita graça”, o que já é revelador, e um tanto mais próximo do sentido de “cheia de graça”, que é o entendimento correto da passagem

De fato, Maria recebeu a maior das graças, que foi ser a mãe do Senhor Jesus, o Messias e Salvador. Não há como medir tamanha graça, é muita graça verdadeiramente, é estar plena de graça.

Em segundo lugar o artigo tenta explicar que a graça é o favor imerecido de que todos precisamos, e que Maria “precisava de graça de Deus”. Essa frase é totalmente correta, em todos os sentidos, seja do ponto de vista católico como do ponto de vista protestante, pois Maria somente foi cheia de graça porque Deus “a encheu de Sua graça”, já que sendo criada por Deus ela necessitou da graça de Deus para ser aceita por Ele. E o caso da virgem Maria mostra uma graça tamanha, pois de fato ela não fez absolutamente “nada” para merecer, (como de fato ninguém o faz) mas o que foi feito nela veio no momento em que ela começou a existir, na sua concepção. Esse “nada” fica ainda mais ressaltado em sua acepção absoluta da grandiosa graça de Deus.

Por isso, o artigo afirma que Maria considerou Deus o seu Salvador, como está em Lucas 1,47: ““E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador.”’ É verdade, e todo cristão católico lê e repete essas lindas palavras, à imitação da virgem, e diz: “E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador”.

Em terceiro lugar, para ilustrar melhor a posição que o artigo quer passar, continua com o seguinte: “A Bíblia nunca diz que Maria foi qualquer coisa além de uma mulher comum que Deus escolheu para usar de uma forma extraordinária.” Mas, qualquer cristão, nesses quase vinte séculos de Igreja Católica, dirá em bom tom que Maria não é mais que uma mulher criatura, da raça humana, escolhida e exaltada por Deus, para ser a mãe do Senhor. Essa “mulher comum” no sentido de ser uma mulher da mesma raça de todos os seres humanos, não diferente, não acima em seu sentido natural, mas igual, com as mesmas necessidades de todos. É a doutrina da Igreja que assim o ensina. Contudo, o artigo quer passar algo “mais”, quer tenta ir além disso.

Assim, o artigo continua: “Ao mesmo tempo, Maria era também um ser humano pecador como todos os outros...”. A Igreja Católica é fiel às Escrituras, e essas dizem em Romanos 3,23 que todos pecaram. Esse pecado refere-se não ao pecado pessoal, que cada pessoa comete no dia da dia da sua vida, mas ao pecado de herança, que foi praticado por Adão como pai da raça humana, e Eva como mãe da humanidade. Por isso, todos pecaram em Adão, porque todos são descendência sua. Maria pecou em Adão também, já que ela é naturalmente da mesma natureza e filha de Adão. A diferença disso é que Jesus veio para livrar-nos de todo pecado, até do original. Todos os que estão em Cristo foram limpados desse pecado. A virgem Maria também o foi, mas foi muito cedo em sua vida, ainda no ventre de sua mãe, quando ela foi concebida. Deus a perdoou, santificando-a, dando a graça que era necessária para que fosse salva e realizasse a missão de mãe do Senhor Redentor do mundo. Por isso, em sua vida pessoal Maria não pecou, pois estava cheia da graça de Deus.

Em quarto lugar, quando o artigo afirma que “Maria não teve uma “concepção imaculada”” está ensinando algo que não tem respaldo bíblico nem histórico. Maria teve uma concepção imaculada.

Em quinto lugar o artigo vem com uma objeção muito fraca, por ter sido já refutada até pelos antigos hereges que adotaram a crença de que Maria teria tido outros filhos. Refere-se a Mateus 1,25. Afirma: “A palavra “até” claramente indica que José e Maria tiveram união sexual após o nascimento de Jesus. José e Maria tiveram vários filhos juntos depois que Jesus nasceu.”

Para fortalecer essa posição, o artigo diz: “Deus abençoou e agraciou Maria dando a ela vários filhos, o que naquela cultura era a mais clara indicação de que Deus estava abençoando uma mulher. ”

Se alguém pensar melhor, verá que o Filho de Maria foi a maior das bênçãos, e que essa foi a indicação de que Deus estava abençoando Maria mais do que todas as mulheres. É um fato de que famílias judias que possuíam vários filhos eram tidas como abençoadas, ao passo que as mulheres estéreis eram vistas como indivíduos sob o castigo de Deus, pois não podiam gerar filhos.vMas a virgem Maria gerou um Filho, O Maior dos filhos, Aquele que veio salvar o povo dos seus pecados, como diz o anjo a Maria. Ela não precisava de vários filhos para mostrar bênção!
Em sexto lugar, quando a mulher em Lucas 11,27 exalta Maria, o artigo afirma: “Nunca houve melhor oportunidade para Jesus declarar que Maria era verdadeiramente digna de louvor e adoração. ” Essa explicação possui grave erro. Pelo que ele entende, Jesus iria proclamar Maria digna de “louvor e adoração”, como se isso fosse a opinião dos cristãos católicos.

Ela é digna de louvor, sim. No entanto, não é digna de adoração. O que a mulher falou foi uma verdade importante, pois Maria foi bendita, bem-aventurada por ser a mãe de Jesus, e de tê-Lo amamentado. Tem o ventre e os seios benditos por isso. Jesus costumeiramente usava dos acontecimentos para mostrar algo mais, e disse que mais bem-aventurados são os que ouvem e obedecem a Deus. Ele não negou que a Sua mãe fosse bendita, mas reafirmou. Isso não é rebaixar Maria, mas é uma forma de exaltar os que honram o Nome do Senhor por obedecer a Deus. A virgem Maria estava também entre os que obedecem a Deus, e podemos dizer que foi a primeira em dignidade.

Em sétimo lugar o artigo diz: “Em nenhum lugar das escrituras Jesus, ou qualquer outra pessoa, dirige qualquer louvor, glória ou adoração a Maria.” É verdade que na Bíblia ninguém dirige “adoração” a Maria, mas dirige com certeza “louvor e glória”, e por isso essa afirmação está incorreta.

Na verdade, a continuação já mostra isso, pois o artigo traz o seguinte: “Isabel, parente de Maria, a louvou em Lucas 1:42-44, mas seu louvor é baseado no fato de que Maria daria à luz Jesus. Não foi baseado em qualquer glória inerente a Maria.”.  Então, Isabel “louvou” Maria, de fato, de verdade. É um fato, não há como negar.

Vejamos a explicação:  “...seu louvor é baseado no fato de que Maria daria à luz Jesus. Não foi baseado em qualquer glória inerente a Maria.”

O que a explicação tem embutido é o erro de pensar que a doutrina católica afirma que Maria tem algo intrínseco, uma graça puramente dela, a qual ela pode ofertar a outros. Isso é o que pensam os teólogos protestantes, como o reverendo Augustus Nicodemus. Nada disso é correto, não é doutrina católica. Por isso, o louvor de Isabel foi baseado no fato de Maria ser a mãe escolhida do Messias, sim. E que isso mostra o exemplo que devemos imitar. (Falta agora um protestante negar que Isabel louvou Maria! É possível que alguém venha com essa!)

Em oitavo lugar, o artigo ensina: “Os Apóstolos, em nenhum lugar, dão a Maria papel proeminente. ” Pode-se perguntar: Que lugar maior poderia Maria ter do que ser a mãe do Senhor Jesus Cristo? A Bíblia afirma isso, e é o que fundamenta todo o papel proeminente de Maria.

Talvez os protestantes esperassem que os apóstolos tecessem comentários e comentários a respeito de Maria, com ladainhas, etc., como se isso fosse o essencial para que façamos o mesmo. Não foi necessário, pois o que foi registrado já substancia tudo isso: ela é a mãe do Senhor, a cheia de graça, aquela que foi louvada por sua prima Isabel, que estava cheia do Espírito Santo. Tudo o mais vem dessa base bíblica.

Em nono lugar, o artigo tenta resumidamente refutar a assunção e exaltação da virgem Maria no céu: “A morte de Maria não é registrada na Bíblia. Nada é dito sobre Maria subindo aos Céus, ou tendo qualquer forma de papel exaltado no Céu. Maria deve ser respeitada como a mãe terrena de Jesus, mas ela não é digna de nossa adoração ou exaltação”.

Em décimo lugar, o artigo vem em oposição à intercessão da virgem Maria. Todas essas tentativas são inócuas quando vemos a verdadeira mariologia, que nasce das Escrituras Sagradas. Não é espaço para fazer refutação dessas objeções no presente texto, mas é o que todos os cristãos sinceros devem procurar fazer, em sua busca pessoal pela verdade.

Gledson Meireles.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Comentário: São Jerônimo os deuterocanônicos e o uso do “está escrito”

O que vem a seguir é um comentário baseado nos artigos encontrados nos links as seguir: link 1, link 2 e  link 3.

O apologista católico argumentou que São Jerônimo empregou a expressão “ESTÁ ESCRITO” aos livros bíblicos, somente a eles, tanto aos protocanônicos quanto aos deuterocanônicos. Para isso, mostrou a diferença das citações que o próprio autor faz em relação a outras obras, e comparou com as citações que o apóstolo São Paulo utilizou dos escritores pagãos. A exposição do apologista foi bastante clara, pois provou que nem a expressão (que de certa forma já havia ganhado um sentido técnico) foi usada para outros livros, nem os escritos profanos foram citados juntos ou entremeados de citações bíblicas. Essa realidade é muito convincente.

Mas, o apologista protestante entendeu, e continuará entendendo, certamente, que São Jerônimo, apenas estava dizendo, nesse caso em relação aos deuterocanônicos, que o “está escrito” refere-se a estar escrito em algum lugar, a algo que foi posto por escrito, nada mais nada menos: “estas citações estavam "escritas", nada mais e nada menos”.

São Jerônimo tratou diretamente da questão da inspiração dos deuterocanônicos diversas vezes, e mostrou suas dúvidas e opiniões pessoais quanto a esses livros, categorizando-os segundo o que tinha aprendido do seu contato com os judeus, mas nunca desaprovou esses livros em suas obras, na sua prática, nem entrou em conflito com as decisões eclesiásticas, quando teve conhecimento delas. Certamente, São Jerônimo relutou em aceitar a canonicidade dos deuterocanônicos depois que adotou a veritas hebraica, onde a argumentação girava em torno da inspiração do Antigo Testamento somente através da língua hebraica, um princípio que estava em voga nos círculos judaicos, e que agradou e convenceu São Jerônimo por muito tempo, pelo menos.

Para quem usa o princípio de que as afirmações diretas de São Jerônimo sobre os livros deuterocanônicos é que devem substanciar sua posição quanto a esses livros, como fazem os protestantes, então dirão, não importa qual seja o uso que fez o santo padre desses escritos durante sua vida, dirão que apenas usou-os quando foi necessário em seus debates, e lia-os apenas para edificação, e não para provar alguma doutrina cristã, etc.

Não adianta argumentar mais nada para quem favorece essa linha de intepretação para entender a posição de são Jerônimo, pois não há contextualização a ser feita, a fim de negar isso, nem observações nas obras segundo o aspecto cronológico, etc., pois basta saber o que São Jerônimo escreveu diretamente sobre o caso. E se nessas passagens ele adotou os 22 ou 24 livros do cânon judaico, então está pronto, caso encerrado. Esse é o resultado que vemos no link 2.

Agora, se quisermos olhar os escritos de São Jerônimo em sua totalidade, acompanhar o desenvolvimento de seu pensamento, a influências que o autor sofreu, as afirmações que fez, as circunstâncias em que foram feitas, o que dizem cada uma das afirmações em si mesmas, e dentro do contexto em que aparecerem, quais os sinais de mudança existem em relação ao avanço do tempo, que afirmações diretas são feitas a respeito da posição dos judeus e da Igreja em geral quanto aos escritos, como foram usados os livros bíblicos  - protos e deuteros – em relação à doutrina, à argumentação cristã, e etc., enfim, numa verdadeira exegese textual  de São Jerônimo, então deveremos notar coisas que estão de acordo com a realidade: 1) São Jerônimo nos primeiros anos usou os livros bíblicos, os 73, de forma igual, sem qualificações. 2) Após seu contato com os judeus e o texto massorético as suas críticas ao texto grego, e diretamente aos deuterocanônicos, tornam-se explícitas e aparecerem em várias obras num período de alguns anos. 3) Depois das decisões conciliares, que clareavam muito na questão do cânon, no mínimo, São Jerônimo foi deixando de considerar os deuterocanônicos de forma depreciativa. Sua prática mostra que os deuterocanônicos foram usados como os protocanônicos. Talvez as dúvidas e reservas de São Jerônimo não foram nunca capazes de fazê-lo abandonar o cânon usado na Igreja, e que no final da sua vida essas dúvidas já haviam sido sanadas, os 73 livros foram formalmente aceitos por ele, como mostra sua prática constante.

O erudito protestante J. N. D. Kelly afirma que São Jerônimo disputava com judeus usando os livros deuterocanônicos, o que gerava certo desconforto, já que os judeus NÃO ACEITAVAM a canonicidade desses escritos, e os reputavam, pelo menos quanto a certas passagens, pelo que podemos notar da afirmação de Kelly, os reputavam como ridículos. Desse modo, o uso de São Jerônimo é ainda mais notório de que o mesmo tinha os deuterocanônicos como realmente Palavra de Deus. Antes, vejamos o que diz J. N. D. Kelly: “De novo o que o moveu foi principalmente o embaraço que sentia ao ter que argumentar com Judeus com base em livros que eles rejeitaram, ou mesmo (por exemplo, as histórias de Susana, ou de Bel e o Dragão) que achava francamente ridículos.”

Foi explicado pelo apologista católico esse fato mencionado por Kelly, da forma usual de São Jerônimo em tratar os deuterocanônicos como Escritura. Mas, um apologista protestante fez a seguinte elucidação: “Se eu estiver a discutir com um católico romano, eu posso citar um livro apócrifo como se fosse Escritura contra ele, porque sei que ele aceita estes livros como Escritura fortalecendo assim o meu argumento, mas isso não significa que eu reconheço tal livro como Escritura. Ora, é isto que Jerónimo faz “na prática”. Quando o seu oponente tinha estes livros como Escritura então “na prática” ele cita-os como se fossem Escritura por uma razão táctica mas isso não implica que os reconhecesse como Escritura.”

O apologista pensou rápido, lançou seu argumento supostamente acertado, e que funcionaria para devastar com a argumentação da apologética católica, se não fosse por um motivo óbvio: São Jerônimo usou os deuterocanônicos para argumentar não com quem “tinha este livros como Escritura”, mas, no sentido OPOSTO, pois aplicou-os no debate com quem NÃO os tinha como Escritura: “ao ter que argumentar com Judeus com base em livros que eles rejeitaram” (grifo acrescentado), o que causava embaraço na exposição.

É o mesmo que citar o livro de 2 Macabeus aos protestantes para provar o purgatório, quando os protestantes não aceitam a autoridade canônica, a inspiração, do livro de 2 Macabeus. Isso causa embaraço para nós, como acontecia com São Jerônimo. Deve o protestante encontrar outro argumento, pois esse caiu.

Gledson Meireles.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Sobre as imagens e a idolatria

O pastor presbiteriano, reverendo Hernandes Dias Lopes, em sua apresentação sobre a “Idolatria: uma prática enganosa” (vídeo que pode ser acessado neste link), afirma a proibição de “prostrar-se diante de um ídolo”, mesmo que imaginário, de tributar culto e veneração a essas obras como se fosse o próprio Deus.

 Consequências gravíssimas são advindas da idolatria, pois quebra o primeiro e o segundo mandamentos de Deus, não terás outros deuses e não farás para ti imagens de escultura. Nenhum cristão iria opor-se a isso.

Nesse momento, ocorre a primeira quebra do pensamento bíblico: o reverendo divide o primeiro mandamento em dois, e afirma que o segundo é a proibição de imagens de escultura. Sendo assim, a proibição torna-se absoluta: não se pode fazer, nem ter, nem expressar qualquer gesto de reverência para com elas. Como calvinista, ele certamente pensa que toda imagem é um ídolo. Calvino, por exemplo, tinha até mesmo um crucifixo na conta de ídolo. É um absurdo, mas ele ensinou isso. De fato, embora afirmando que a imagem não é nada, em si mesma, “há algo por trás dela”, ou seja, Satanás, (ou um demônio) estará ali sempre enganando o cristão que à imagem se achegar. a) No final, está anatematizando as imagens em seu uso, absolutamente, nas igrejas. Não é isso que a Bíblia ensina.

Afirma ainda, o reverendo, que a Igreja cristã foi “eivada, tomada e assaltada pela questão da idolatria”, e passa a falar sobre os anos após 313. Afirma que o paganismo entrou na Igreja, que essa “desviou-se da sua fidelidade à Palavra de Deus, e distorceu o culto a Deus, que deva ser espiritual”. Então, passa a falar da Reforma que veio para corrigir esse desvio, que o culto deve ser bíblico, em espírito e em verdade. b) Em outras palavras, não há espaço para nenhuma imagem nas igrejas protestantes, segundo o parecer Reformado expresso pelo reverendo Hernandes.
Entre as provas da suposta “idolatria”, ele cita o feriado de 12 de outubro, em que é venerada a imagem pescada no rio Paraíba do Sul em 1717, e que essa imagem é padroeira do Brasil, ou protetora do Brasil.

“E esta imagem foi colocada dentro de um santuário, e esta imagem é chamada de padroeira do Brasil. Em outras palavras, protetora do Brasil. A pergunta é: será que uma imagem que é pescada dentro de um rio, e é colocada num santuário, que foi feita por mãos humanas, perecível, que recentemente foi quebrada por um iconoclasta, e depois restaurada, e colocada numa redoma de vidro, pode ser de fato protetora da nação brasileira. Será que nós não estamos cometendo um gravíssimo pecado contra Deus, abandonando a confiança no Deus todo-poderoso, criador dos céus e da terra, sustentador da vida, o único Deus poderoso pra salvar, e colocando a nossa confiança numa imagem que não pode proteger a si mesma, colocando essa imagem como protetora do Brasil? Este é um grave erro, este é um grave pecado, que atrai sobre a nação brasileira a ira de Deus, que distorce a realidade bendita do culto espiritual que nós só devemos a Deus”. O pastor afirma que o culto à padroeira Nossa Senhora Aparecida é dado “à imagem”. Em toda a sua apresentação ele diz isso. Tratando-se de alguém versado em Teologia, a afirmação é grave, e deve ser refutada.

Informação com o essa é feita por Adelson Santos, em uma obra contra o Catolicismo, que afirma que as imagens têm igrejas construídas para elas. Assim, os protestantes veem as imagens como entidades separadas daquilo que elas representam, e as anatematizam. Primeiro, reconhecem que são apenas matéria, mas que há algo influenciando-as, como os demônios. Depois, afirmam que elas recebem “dos católicos” o culto em si mesmas, as orações são “para elas”, os templos construídos são para elas, as promessas são para elas, o culto é todo para elas. Enfim, em específico, é a imagem que foi encontrada no rio Paraíba, em 1717, que é a “padroeira” – “protetora” do Brasil, na mente dos protestantes, em considerável número, como está provado nas opiniões do reverendo Hernandes Lopes e Adelson Santos. c) As imagens são explicadas como realidades em si, por esse motivo, e não como representando os protótipos. Essa posição não é aquilo que ensina o Catolicismo.
Afirma, ainda, que veneração e adoração são sinônimos; que Deus proíbe o povo fazer imagens de escultura, e não aceita um culto por intermédio da imagem. O culto precisa ser espiritual porque Deus é espírito. Dessa forma, não aceitam que haja diferença de culto no coração do fiel, nem que há imagens lícitas, pois no final afirmam o que vemos com frequência: Deus proíbe imagens. Há a possibilidade de que, ainda, quando refutados pelos argumentos bíblico-teológicos e da razão, apelam para alguma revelação, um sonho, uma visão, afirmando que imagens são do demônio.
Outra fonte em que as imagens sagradas são atacadas, é o artigo que tenta refutação dos argumentos católicos, encontrado aqui, e merece uma atenção também.

Prostrar-se diante de uma pessoa, tudo bem. De imagens, não!
“... os católicos fazem amplo uso das passagens veterotestamentárias onde uma pessoa se curva diante de outra em sinal de reverência, como se isso fosse a mesma coisa de se prostrar aos pés de uma imagem de pau e pedra e cultuá-la ...”

Era penas cultura, não “prestação de culto”
Se o costume antigo dos cumprimentos eram feitos com a prostração, por que Pedro rejeitou o que fez Cornélio? Estaria rejeitando ser cumprimentado? Pois, uma vez que a forma usual era aquela, não teria motivo opor-se a ela. Como foi feita a distinção por Pedro entre o mero cumprimento e o gesto de adoração?

De Cornélio afirma o artigo: “Ele se prostrou pensando que aquilo era simplesmente um gesto respeitoso, uma “veneração”, como diriam os católicos.” Certamente, não.

Para explicar isso, devemos ter cuidado para não contradizer o texto bíblico, nem introduzir princípios que ele não tem. Assim, São Pedro deve ter entendido, por algo que Cornélio fez e – ou falou, pois logo afirma que ele também era homem. Cornélio certamente ultrapassou o simples gesto de honra para um homem de Deus, um apóstolo, e fez o que só poderia ser dirigido a Deus. Tendo percebido isso, São Pedro pode teria rejeitado sua veneração exagerada. Assim, “não foi simples cumprimento”, “nem foi uma veneração correta”, que é justificável. Assim, Cornélio pode não ter tido Pedro como um “deus”, pois era piedoso, justo, temente a Deus, monoteísta, mas pensou-o em termos que não são aplicáveis aos santos, mas só a Deus, e foi corrigido por Pedro.

O que importa é o que “se faz” com as imagens, e não elas em si
Deus curava quando alguém olhava uma imagem. (cf. Nm 21,8) Sabendo que aquela bênção da cura vinda através de um gesto para com uma imagem de escultura era um “perigo” para aquele povo tão inclinado à idolatria, ainda assim Deus não evitou usar desse artifício. É a Sabedoria infinita que devemos imitar. Sabemos que, mais tarde, houve realmente idolatria diante da serpente de bronze, mas isso somente ocorreu quinhentos anos depois, ou seja, mais de dez gerações após o tempo de Moisés. Antes daquilo, os povos mantiveram a serpente de bronze, conservaram-na no acampamento. Ela foi objeto de instrução durante gerações, lembrando o que havia ocorrido. Isso é veneração.
Então, vem a afirmação: “Os católicos cultuam as imagens que representam os santos? Sim. Os católicos se prostram diante dessas imagens? Sim. Então estão praticando idolatria.”

Adoração pode ser até “sem intenção”
“... pois, como vimos, Cornélio adorou Pedro sem intenção e João adorou o anjo sem intenção... ”
E para ficar mais claro esse sentido, vemos o seguinte: “qualquer imagem que seja objeto de culto e que se prostrem diante dela, o que biblicamente é considerado adoração”. (ênfase no original)

O caso de Pedro foi explicado antes. Quanto ao caso de São João e o anjo, certamente o anjo percebeu perfeitamente, por ser espírito, que São João estava ultrapassando a medida certa da veneração. Pode ter também querido mostrar humildade, elevando São João em honra, por ser servo de Deus, como ele.

“A gente morre de medo se parecer com qualquer coisa que cheire e que tenha algum ranço de Catolicismo, não é verdade?” (Mauro Meister. Pode ser conferido aqui.)
Considerando as imagens como coisas que estão fora da Palavra de Deus, refere-se ao “medo da idolatria”. Mas, afirma que a idolatria não está na imagem, nem no santo. Está no idólatra. Correto.
Mas, ainda assim, um típico protestante não irá querer uma imagem de jeito nenhum! Se afirma que entendeu o princípio, então está aí a sua auto-refutação! Ele afirma ter aprendido para negar, que esse foi o caso, logo em seguida.


Gledson Meireles.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

É Eva a mulher no protoevangelho de Gênesis 3,15?

O protoevangelho está em Gênesis 3,15. É a primeira promessa do Salvador.
 
“Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gn 3,15) (Bíblia Ave Maria)

 
“E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Almeida Corrigida Fiel)

 
A leitura literal do texto é que Deus colocou ódio [inimizade] entre a serpente e Eva, entre o animal mais astuto do Jardim do Éden e a primeira Mulher. Também foi colocada a inimizade entre a descendência da serpente, que são todas as serpentes em espécie, e a descendência da mulher, ou seja, todos os homens. Trata-se da inimizade natural entre os homens e as serpentes.
O sentido espiritual é que Deus introduziu uma “inimizade” espiritual entre o Demônio e Maria, e entre a descendência do Demônio, que são os homens que o seguem, e a descendência de Maria, que é primeiramente JESUS CRISTO, pois Gálatas 3,16 refere-se ao descendente como no sentido singular, mas depois a todos os descendentes da mulher, que são os membros espirituais do Corpo de Cristo. Há um só descendente, que é Cristo, e todos estamos nEle pela graça. O cumprimento é perfeito.

 
Sendo que, entre Maria e o Demônio e entre Cristo e o Demônio, a inimizade é de natureza espiritual, temos então que Maria é amiga de Deus, e Seu Filho, como sabemos, é o próprio Deus, o Filho de Deus, que é a 2ª Pessoa da Trindade. Estando já reconciliada com Deus isso significa que o pecado original foi perdoado a ela. Assim, o Demônio não podia tê-la em sua amizade.
Romanos 5,1 fala que pela fé temos paz com Deus. A paz vem da reconciliação, da amizade. O justificado está em paz com Deus. Então, Maria foi justificada com Deus desde sua origem, pois a profecia afirma que foi colocada a inimizade entre ela e o Demônio. Cristo é Santo por excelência, portanto, já veio com essa total inimizade com o Demônio. Assim, nele estão todos os justificado em inimizade espiritual com o Maligno, pois estamos em paz com Deus.

 
Objeções: se o sentido espiritual fosse que a descendência da serpente, que é o Demônio, são os homens filhos do Demônio, e que a descendência de Eva é Jesus, e todos os Seus seguidores, excluindo Maria do paralelismo, isso já mostraria que há erro nessa interpretação. Por que a serpente teve o seu símbolo revelado e a mulher não? A serpente não continuou sendo o simples animal (cf. Gn 3,1), mas foi entendido, de fato, como o Demônio, mas a mulher continuou sendo Eva, que foi criada milênios antes do Salvador vir como Seu Filho? Por que a figura da mulher está sendo negada?
 
Então, se for feita nesse sentido a leitura espiritual, então a inimizade espiritual é entre o Demônio e Eva. O que isso quer dizer? Pois, na verdade, naquele momento Eva caiu em pecado, foi presa do Demônio, e sua amizade com Deus foi quebrada. Ali, naquele instante, a amizade foi feita com o Demônio. Por outro lado, isso significaria que Eva era amiga do Demônio e ali foi feita inimiga! Mas é heresia afirmar que antes do pecado os primeiros pais foram amigos de Satanás, e por isso a interpretação é falsa.
 
A única forma é aceitar a verdadeira promessa: Serpente=Diabo (cf. Ap 12,9); Mulher=Maria (cf. Ap 12,4-5); Semente da Serpente=filhos do Diabo (cf. João 8,44; Ap 12,15); Semente da Mulher=Jesus Cristo (cf. Ap 12,5.13) e os cristãos, filhos da Mulher (cf. Ap 12,17) O título mulher é dado por Jesus, na cruz, a Sua mãe Maria. Por isso ela foi chamada de Mulher. (cf. Jo 19,25)

Serpente   =   Diabo (cf. Ap 12,9);
Mulher   =    Maria (cf. Ap 12,4-5);

Semente da Serpente  =  filhos do Diabo (cf. João 8,44; Ap 12,15);

Semente da Mulher  =  Jesus Cristo (cf. Ap 12,5.13) e os cristãos, filhos da Mulher (cf. Ap 12,17) A semente é os filhos da mulher, sendo JESUS o Filho por excelência, e único, e nEle todos os filhos espirituais.

O título mulher é dado por Jesus, na cruz, a Sua mãe Maria. Por isso ela foi chamada de Mulher. (cf. Jo 19,25)

 Em termos indiretos temos aí a base para a doutrina da imaculada conceição de Maria.
 
Gledson Meireles.

Santo Agostinho e a imaculada conceição de Maria

O Dr. Joe Mizzi argumenta que santo Agostinho não cria na imaculada conceição de Maria. Isso pode ser visto no artigo Immaculate Conception and the Church Fathers. O artigo foi traduzido em um blog protestante reformado, especializado em Catolicismo Romano, e que avalia o Catolicismo a partir da perspectiva bíblica conforme entendida pela teologia Reformada. A tradução pode ser lida no artigo  Agostinho e a imaculada conceição de Maria.
O tradutor escreveu uma nota para mostrar que a afirmação dos apologistas católicos quanto ao fato de Santo Agostinho crer na imaculada conceição não procede, pois o mesmo “cria que Maria não pecou durante a vida, porém, ela não foi preservada do pecado original, compartilhando com toda a humanidade da necessidade da redenção que há em Jesus Cristo.”
O artigo faz justiça ao fato que Santo Agostinho ensinou que a virgem Maria não cometeu pecado em toda a sua vida o mesmo que é ensinado também por Santo Tomás de Aquino, que afirma que Maria não cometeu pecado nenhum, nem mortal nem venial. Temos, assim, uma verdade de fé de dois dos maiores expoentes da teologia cristã católica, um do século quarto e outro do décimo terceiro século, que testemunham uma verdade bastante crida em toda a Igreja.
Em termos básicos podemos afirmar que essa constatação está de acordo com a fé na imaculada conceição. Apenas a doutrina em si não havia sido elucidada, devido ao argumento de que isso poderia implicar na exclusão de Maria no plano da redenção, o que não pode ser acreditado. Por isso, Santo Tomás é explícito em negar a imaculada conceição, e Santo Agostinho pode ter também negado, embora não explicitamente.
Embora, também, certamente tenha sido essa a posição de Santo Agostinho e Santo Tomás, eles ensinam aí duas verdades: Maria não pecou, mas necessitou da redenção de Cristo. Esses dois postulados são bíblicos e defendidos pelo Catolicismo. Por isso, escreve Mark Bonocore: “No entanto, o que NÃO era uma matéria de debate era a impecabilidade de Maria”[1]. E afirma que o debate tinha a ver quanto ao momento em que essa impecabilidade começou. De fato, Maria nasceu de pais que tinham o pecado original, diferentemente de Cristo que foi gerado pelo Espírito Santo nela, que já havia sido redimida. Cristo é o único absolutamente SANTO, por Sua própria natureza de Deus, e por Sua geração e nascimento virginais. A virgem Maria teve outro motivo para isso, e a respeito do momento dessa santificação foi o que durou séculos para ser definido.
Cremos no desenvolvimento da doutrina. Desenvolvimento não quer dizer invenção ou nascimento de uma doutrina depois da era apostólica. De fato, os apóstolos ensinaram a imaculada conceição, em princípio, ainda que nunca tenham, por certo, usado o termo ou falado dela diretamente. Assim, a doutrina é apostólica por estar no depósito da fé deixada pelos apóstolos.
O mesmo pode-se afirmar sobre a trindade. Não esperaríamos ver nas páginas sagradas os apóstolos ensinando o conceito completo da trindade, ou pronunciando o termo trindade, pois certamente não fizeram isso, conforme os modelos de hoje. No entanto, no registro santo de Deus na Bíblia essa doutrina é de origem apostólica, e foi definida no ano 325, enquanto a imaculada conceição veio a ser definida em 1854. As circunstâncias históricas explicam os motivos desses pronunciamentos.
Poderíamos pensar também da seguinte forma: não há na Bíblia nenhum ensino contrário à trindade, como fazem muitos esforçando-se por mostrá-lo, e ninguém encontrará os apostólos pregando um sermão sobre isso, da mesma forma que não verão qualquer apóstolo negando essa verdade. Aliás, ainda assim isso não é o argumento do silêncio, pois a doutrina pode ser vista nas afirmações que a Bíblia faz a respeito do assunto.
Igualmente, nenhum leitor encontrará na Bíblia um sermão completo sobre a imaculada conceição, mas, por outro lado, não achará um só apóstolo negando esse ensino. Também aqui não há espaço para o argumento do silêncio, pois das asserções feitas na Bíblia é entendido que a doutrina está lá.
Diríamos que, da forma como a entendemos hoje, nenhum apóstolo nem Santo Agostinho e Santo Tomás, nega a doutrina da trindade ou da imaculada conceição Maria.

Glória seja dada a Deus para todo o sempre.

Gledson Meireles.


[1]