sábado, 10 de agosto de 2024

A respeito do vídeo: Certezas do Catolicismo?

               Um apologista protestante  fez um vídeo sobre um motivo (a busca por certeza) que ele considera relevante para que os protestantes se interessem pelo catolicismo, sendo um vídeo diretamente dedicado aos protestantes, e não aos católicos. E acredita que a "aparente certeza" do catolicismo é desastroso para a vida espiritual.

O primeiro é a interpretação bíblica. Se o protestante tem que verificar se o que está sendo pregado no púlpito é o correto, por sua interpretação individual da Bíblia, o católico também o faz, comparando com o ensino que a Igreja sempre ensinou a respeito da Bíblia e da tradição. Assim, ele tem certeza da sua fé, que o que está sendo pregado é Palavra de Deus. E isso não é tão simples de se fazer.

E o exemplo de Bereia: o apologista afirma que os membros da igreja de Bereia estavam examinando a Bíblia e julgando o ensino do apóstolo São Paulo, e ainda foram elogiados por ele. Ou seja, em resumo, pelo que o apologista disse, os bereanos foram na Bíblia para saber se o ensino do evangelho do apóstolo estava certo.

Na verdade, os beranos eram judeus, não convertidos ainda. Não eram membros da Igreja, mas judeus. Então, quando ouviram falar de Cristo, foram examinar nas Escrituras para saber que aquilo de fato havia sido preanunciado. Certificando-se disso, converteram-se. Isso é bom.

É como um não cristão, membro de alguma religião não cristã, que ouve o ensino do evangelho e procura saber, nos seus conhecimentos prévios, se aquilo que estão lhe anunciando faz sentido. Ele não conhece o novo ensino, mas tem algo que pode servir de suporte para mostrar se aquilo é razoável ou não.

Uma vez que se converte à fé cristã, ele deve agora aprender a nova fé, e não julgar, o que não sabe.

E então, os bereanos, continuaram julgando o ensino do apóstolo? Obviamente que não. Eles tinham o Antigo Testamento, que usaram para saber se Jesus Cristo era o Messias anunciado pelos apóstolos. Mas, quanto ao Novo Testamento, eles deviam receber dos apóstolos inspirados e infalíveis, pois o apóstolo era infalível e devia ser acreditado em seu anúncio do evangelho. Os bereanos deviam obedecer e crer no que estava sendo ensinado.

Para saber o que é a Palavra de Deus não é apenas um membro da Igreja ir à Bíblia e certificar-se do ensino, pois estaria apenas interpretando a Bíblia contra a interpretação que recebeu da igreja. O que o cristão católico faz é também um exercício bastante árduo, que é certificar-se qual é a verdadeira interpretação, se essa é a posição oficial da Igreja, e assim ter a certeza da fé.

A respeito do 2º exemplo: A aparente certeza que a Igreja Católica oferece, mas que vai ter consequências desastrosas na sua fé é a certeza da Infalibilidade papal.

É só obedecer, não precisa conferir se está certo ou se está errado, diz o apologista.

E qual o exemplo bíblico que o apologista protestante utiliza para fundamentar sua posição contra a certeza da infalibilidade papal: ele apresenta o exemplo de Gálatas 1, 8.

E diz que pessoas poderiam entrar na Igreja tentando pregar outro evangelho. Ou o próprio apóstolo ou mesmo um anjo descido do céu poderia tentar pregar um outro evangelho. E disse: mas vocês devem ser anátemas (sic). Nesse ponto, outro equívoco do apologista, pois anátema deve ser o que pregou o falso evangelho e não o povo fiel.

E como os gálatas saberiam que o próprio São Paulo estaria ensinando coisas equivocadas do evangelho?

Ele disse: Olhando nas Escrituras (!!!). Será mesmo?

E continua o apologista: Eles só tinham as Escrituras para saber se o que o apóstolo estava ensinando estava certo ou errado.

E mais. O apóstolo não disse: fiquem tranquilos que eu jamais vou ensinar pra vocês coisa errada, eu jamais vou ensinar alguma coisa equivocada.

Mas, poderia ser que o apóstolo viesse a se desviar da fé em algum momento tentando ensinar algo equivocado. E disse: Vocês possuem uma forma para verificar se o que estou ensinando está de acordo ou não!. Verifiquem, não confiem cegamente em mim.

E disse mais: Não dê atenção àquilo que estou pregando a não ser que aquilo bata exatamente com as Escrituras.

Essa é a forma que o protestante tem para fundamentar sua posição solascripturista, utilizando a Bíblia. Trata-se de um erro bastante rebuscado. Para refutá-lo, vamos à Bíblia. A confusão acima é bastante profunda, e não é fácil ver onde está o erro.

Em Gálatas 1, 8 está escrito: Mas, ainda que alguém – nós ou um anjo baixado do céu – vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema.

Qual é o raciocínio do apóstolo São Paulo? Vejamos numa simples exegese do texto:

Mas, ainda que alguém, nós ou um anjo baixado do céu – vos anunciasse um evangelho diferente: isso é uma hipótese, usada para frisar que aquilo que os apóstolos e seus colaboradores anunciaram era inspirado, infalível, correto, sem sombra de dúvidas, imutável.

E continua: que ele seja anátema, ou seja, amaldiçoado.

Portanto, o que São Paulo estava afirmando é que o evangelho que ele anunciou é infalível. Desse modo, mesmo se o próprio apóstolo vier a mudar de opinião, e a ensinar algo diferente do que ele mesmo ensinou, que seja anátema, pois a primeira anunciação do evangelho foi perfeita, infalível, e não pode ser mudada.

Ainda que um anjo celestial ensine algo diferente daquilo que o apóstolo e seus colaboradores ensinaram, que esse anjo seja anátema.

Essa posição é totalmente diferente daquilo que o apologista protestante explicou acima. Lá, o mesmo afirmou que o apostolo disse que caso ele mesmo ensinasse algo diferente, os cristão gálatas poderiam ir à Escritura para conferir se tudo estava correto, e que não deveriam confiar no apóstolo, mas examinar as Escrituras.

Não foi isso que o apóstolo disse. De fato, a mensagem é que eles devem confiar totalmente no que o apóstolo ensinou. Somente no caso do apóstolo passar a ensinar algo novo, que eles não aceitem, pois o mesmo apóstolo já havia dito que se isso ocorresse eles deveriam ficar com o que foi anunciado primeiro. Assim, até nesse conselho apostólico São Paulo está mostrando sua infalibilidade: o que ensinou é a verdade imutável, e os mesmos devem em toda e qualquer circunstância crer no que foi ensinado.

Fica refutada a posição protestante.

E mais um dado deve ser levado em conta. A carta aos Gálatas foi escrita por volta do ano 50 a 52. O primeiro livro do Novo Testamento foi a Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses, escrita no ano 50.

Os evangelhos foram escritos mais tarde: Lucas em 56 a 58 d. C.; Marcos em 60-65 d. C. e João no ano 98 d. C. Talvez o evangelho de São Mateus existisse em hebraico, mas não terminado no ano 41 d. C, como se pensou. É certo que a redação final do evangelho de São Mateus se deu perto do ano 70 d. C.

Portanto, não havia nenhum evangelho do Novo Testamento quando São Paulo escreveu aos gálatas. Nenhuma outra epístola, a não ser a dos tessalonicenses, que haviam recebido uma carta. Nenhum outro livro. Tudo mais era o Antigo Testamento.

Dessa forma, nenhum cristão poderia ir às Escrituras para certificar-se se o que São Paulo estava pregando era correto ou não, porque não existiam essas Escrituras com o ensino do evangelho do Novo Testamento ainda.

E, como dito acima, não havia essa incumbência dada a ninguém, pois o ensino do apóstolo era infalível, e uma vez proclamado foi ratificado pelos mesmos apóstolos como digno de fé e imutável.

Parafraseando o exemplo que o apologista protestante utilizou, com a devida correção feita acima, seria o seguinte: fiquem tranquilos que eu nunca ensinei pra vocês coisa errada, eu nunca ensinei alguma coisa equivocada.

Dessa forma, esse estudo ajuda a compreender a infalibilidade papal que o apologista criticou.

Outro ponto é a certeza analítica de salvação: no Protestantismo não existe uma questão muito objetiva a respeito da sua salvação.

Esse ponto é muito importante. De fato, o que o apologista explicou é justamente o contrário. Isso mesmo. Ele coloca o problema do lado católico, quando o mesmo sempre ficou, tradicionalmente, do lado protestante.

Resumindo, ele diz que se o católico fizer tudo o que deve ser feito, pode ficar tranquilo que ele é um salvo.

E para o protestante, seria mais difícil, porque é preciso sondar o coração, para saber se foi regenerado por Cristo.

Ou seja, para o protestante é algo subjetivo, pois se alguém diz que sua fé é inabalável em Cristo, como salvador suficiente, sondando seu próprio coração então há certeza de salvação.

A certeza católica: fazer tudo direito e ter certeza que fez. No final dirá: sou um salvo.

A certeza protestante: saber que o coração está em Cristo, que a fé é inabalável em Cristo como salvador. É salvo e sempre salvo.

Qual é a certeza que o coração humano corrompido pelo pecado prefere? Obviamente aquela certeza que ele mesmo se dá: a subjetiva.

A questão da certeza da salvação sempre foi um ponto debatido, onde a Igreja Católica afirma que nunca se tem a certeza absoluta que o protestante afirma que existe. Assim, mesmo que o católico cumpra tudo o que deve cumprir, ele ainda tem a certeza da esperança da salvação, que é moralmente válida, mas não é aquela absoluta que o Protestantismo sempre ensinou.


Gledson Meireles.

sábado, 3 de agosto de 2024

Livro: Nenhum caminho leva a Roma: refutação do capítulo 9

Refutando o

Capítulo 9: O sacerdote tem poder para perdoar pecados?

 

A resposta a essa pergunta é: sim. O sacerdote age como ministro de Jesus Cristo, e pode perdoar pecados pronunciando o perdão em Nome de Jesus Cristo.

O ministro (padre, bispo) não tem poder próprio, é claro, e nem pode perdoar seus próprios pecados. No entanto, ele pode agir in persona Christi, que é na pessoa de Cristo, para perdoa os pecados de outros. E Cristo que perdoa.

A doutrina protestante nega essa doutrina católica, e se opõe a essa prática de confissão auricular. Essa prática faz parte da doutrina, e não é a doutrina em si. Portanto, ao falar de uma coisa não se deve confundir com outra.

É verdade que a Igreja tem o poder para perdoar os pecados, e pode fazê-lo da melhor forma que encontrar. Para que possa exercer esse poder, deve antes conhecer os pecados e saber do arrependimento.

Conclui-se que a confissão é a melhor forma. Ainda, para que a confissão não cause escândalos, que seja feita reservadamente, de forma auricular. É mais indicada do que a confissão pública. Tudo faz muito sentido.

Vemos agora uma crítica a essa doutrina católica, feita no livro que está sendo estudado. Notam-se muitos erros na apresentação do autor, que não consegue fazer uma boa exegese bíblica e não conhece bem a doutrina católica.

Então, o apologista protestante afirma que: “Existem inúmeros problemas com a confissão auricular”. Afirma ainda que devemos confessar somente a Deus.

Em primeiro lugar, toda a confissão é feita a Deus. Mesmo a confissão ao sacerdote é feita a Deus.  De fato, cremos que o sacerdote é ministro de Deus. No entanto, nessa confissão se faz por meio do sacerdote, e por crer nesse ministério que Jesus outorgou-lhe. De modo que, a confissão auricular é feita a Deus.

Ainda, a Escritura não diz que devemos confessar somente diretamente a Deus. Talvez essa distinção possa servir para entender melhor a questão. É preciso fazer certas distinções para compreender mais a doutrina.

Quando a Bíblia traz exemplos e mandamento de se confessar a Deus, ela não está mostrando toda a doutrina, de modo que o leitor possa ler literalmente um texto e concluir que somente a Deus deve ser feita a confissão e a ninguém mais. Esse modo de entender é errôneo. A confissão é somente a Deus. No entanto, não há mandamento que a confissão deve ser feita somente diretamente a Deus seu o ministério da Igreja.

O texto de Esdras é citado: Agora confessem ao Senhor, o Deus dos seus antepassados, e façam a vontade dele (Esdras 10, 11). Também são citados outros textos: Sl 32, 5; 1 João 1, 1.9).

Assim, o protestante conclui que somente a Deus deve ser feita a confissão de pecados e que é errado confessar ao padre. No final, o apologista conclui que somente o pecado que cometemos contra o próximo, esse pode perdoar, e os que cometemos contra Deus, somente Deus pode perdoar.

Mais uma vez, é preciso lembrar, que o padre perdoa como ministro de Cristo. Os pecados feitos contra Deus são perdoados por Deus. No entanto, nesse sacramento, ou nessa ordenança, como preferir, é Deus mesmo quem perdoa por intermédio do sacramento instituído por Jesus. E o padre está pronunciando o perdão que Deus está conferindo.

Não se trata de pecado pessoalmente cometido contra alguém apenas, mas algo que é pecado contra a Lei de Deus.

Pois bem. Já tendo respondido a essa dificuldade, vejamos o que diz o apologista e solucionemos os problemas que o mesmo coloca sobre o tema.

Eis que então o autor tenta refutar a interpretação de Tiago 5, 16, que é o texto que os católicos utilizam “Na esperança de validar a confissão auricular”.

O texto diz: “Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz.”

Primeiro vejamos o que diz o apologista protestante, depois façamos a exegese do texto, e solucionemos o problema que o apologista deixou.

Ele afirma que o texto diz claramente para “confessarmos uns aos outrose não para um sacerdote em específico. Afirma também que o ato de confessar aí é ajuda espiritual ao próximo, visando ajudá-lo a vencer o pecado. Não seria o confessionário que os irmãos usam com poder para perdoar pecados cometidos contra Deus.

Em nenhum lugar no texto afirma que a confissão ali é o ato de ajudar o próximo espiritualmente para que vença o pecado. É uma conclusão feita da doutrina protestante já formulada e subentendida nessa interpretação, e não o que o texto bíblico citado ensina.

O apologista cita também 2 Coríntios 2, 10-11 onde ressalta o ponto: “Se vocês perdoam a alguém, eu também perdôo.”

E escreve depois: “Ele não disse: “se o sacerdote perdoou, eu também perdôo”, mas sim: “se vocês perdoaram, eu também perdôo”.

Mas, deve-se ter em mente que o sacerdote ali é o próprio São Paulo. Ele é apóstolo, ministro do evangelho. Ele é o sacerdote.

Ainda, o contexto não é de confissão de pecados contra Deus, não é do sacramento da confissão, mas trata-se de um ato disciplinar da Igreja contra alguém que estava se colocando contra o apóstolo.

Então, o pecador arrependido desse ato devia ser acolhido novamente na comunidade. Se todos perdoaram, São Paulo também o perdoou. E diz o apóstolo: foi por amor de vós, sob o olhar de Cristo (2 Cor 2, 10). Isso não é o mesmo que é tratado na epístola de São Tiago.

Ademais, o apologista afirma que Jesus nunca pediu indulgências quando perdoou pecados e logo escreve sobre rezar 25 Ave-Marias para ser perdoado.

O erro, porém, está na confusão entre o perdão e a satisfação. O pecador perdoado faz uma penitência, não para ser perdoado, mas para satisfazer a Deus. O perdão é dado antes da penitência. O perdoado deve cumprir a penitência.

Então cita o texto de Tg 5, 15: “E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados.

E afiram: “Aqui claramente quem cura e perdoa é Deus.” De fato, como dito acima, Deus perdoa por intermédio da Igreja, através do ministério da Igreja.

Depois escreve o apologista: “e a única condição exposta para isso é a oração da fé”. Cita depois Mt 5, 34. E contrapõe fé e penitência. Isso não faz sentido, já que a própria fé não salvou o doente sozinha, mas foi o instrumento de Deus para curar. Em Mt 5, 34 Jesus cura uma pessoa que exerceu fé. Não estava no mesmo contexto de São Tiago que trata da unção dos enfermos.

E escreve: “O único pecado que um irmão cristão tem o poder de perdoar, são os pecados cometidos contra a pessoa dele.

Essa é a doutrina protestante, resumida, é claro, para contrapor-se à doutrina católica. No entanto, está completamente equivocada, não é extraída da Bíblia.

Agora, façamos a exegese do texto de Tiago 5, 13-16 e refutemos cada uma das objeções que o apologista apresentou. Há muita confusão aí.

Os versículos 13-14 afirmam que se há algum doente na Igreja, chame os sacerdotes da Igreja, e esse façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. Pois bem. Não é qualquer membro da Igreja que deve fazer o que está aí, mas devem chamar os sacerdotes (presbíteros).

Ou seja, devem chamar os sacerdotes (presbítero) para orar pelo doente e ungi-lo com óleo em nome de Jesus. Isso é o rito da unção dos enfermos, que é feita pelos ministros. Eles o fazem em nome do Senhor.

O versículo 15 diz: A oração da fé salvará o enfermo e o Senhor o restabelecerá. Ou seja, a oração feita pelos sacerdotes sobre o doente “   salvará o enfermo” e o Senhor o restabelecerá.

Isso mostra que Deus foi Quem realizou a cura, mas o fez através do rito que instituiu na Igreja.

E continua o texto sagrado: Se ele cometeu pecados, lhe serão perdoados. Essa é a explicação do que aconteceu no rito. Ou seja, não diz que se cometeu pecados contra os sacerdotes ou contra alguém da comunidade, nem diz para chamar o ofendido para perdoar, e etc., o que não é o assunto, já que se trata da unção dos enfermos pelos presbíteros. Então, na unção há cura e perdão. E quem o faz é o sacerdote.

E o texto sagrado continua: Confessai os vossos pecados uns aos outros. Isso mostra como foi realizado o rito do perdão.

O doente confessa ao sacerdote (uns aos outros) que fez a oração sobre ele e o ungiu com óleo.

Veja que o texto já havia falado da cura e do perdão, e agora esclarece que esse perdão veio após a confissão uns aos outros, que no contexto é doente e sacerdote e não à comunidade inteira.

De fato, no início foi dito que chamassem os presbíteros. Assim, o doente confessa seus pecados aos sacerdotes (presbíteros). No fim, Deus é que perdoa, pelo ministério instituído por Ele.

Depois o texto deixa mais claro essa verdade: e orai uns pelos outros para serdes curados. Todo o contexto mostrou que quem ora pelo doente para a cura são os sacerdotes. Essa é “a condição exposta” que Deus institui no sacramento e que é feito pelo sacerdote (não a oração de qualquer pessoa, naquele momento, pois o contexto é da oração feita pelos presbíteros).

Conclui-se que a oração e a unção e a confissão são realizadas pelo ministério dos sacerdotes. É bastante claro.

E diz ainda o texto de São Tiago: “A oração do justo tem grande eficácia.”.  Isso se refere à oração do sacerdote, como mostra o contexto.

Por tudo isso, deve-se crer na Bíblia que Deus cura e perdoa pelo ministério da Igreja. Portanto, o sacerdote em poder para perdoar pecados.

Gledson Meireles.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Um protestante sobre a unção dos enfermos

O protestante batista prefere não usar o termo sacramento, e não acredita nem mesmo no seu conceito. Mas isso é problemático para o ramo batista.

Assim, o protestante Rafael Pablo afirma no vídeo que a unção dos enfermos é coisa simples.

Muito bem. É simples, mas por que não é qualquer um que pode fazer, e deve-se chamar os presbíteros da Igreja?

Então, não é tão simples. Começo de conversa já refuta a posição do protestante.

Ele diz que não é sacramento.

Na doutrina católica sacramento é sinal sensível da graça. O batista nega isso. Mas vejamos o restante da crítica. Pode-se chamar de outra coisa, mas não se pode negar o que está dito na Bíblia sobre essa ação de ungir com óleo.

Resumindo, com o intuito de estar de acordo com texto bíblico, literalmente, o protestante diz que se há alguém doente, chame os presbíteros, os presbíteros ungirão o enfermo e orarão por ele e somente isso.

E afirma: não tem misticismo. Diante disso, podemos dizer: obviamente, a Igreja afirma que é sacramento, não é misticismo. Reflita.

E mais. Ele diz: não tem transmissão de graça. Pois bem. Chame de outra coisa, mas não negue o que acontece ali, segundo o texto bíblico. Se há cura, foi pelo poder de Deus, pela graça. A graça veio ao doente e esse recuperou a saúde. O que foi que houve então? Chame a transmissão de graça de outra forma.

De fato, como se entende a cura que Deus opera por meio da unção? O doente passa a ser curado, segundo está escrito. Isso não é “transmissão de graça”?

E mais: e o perdão dos pecados? É pela graça que se dá o perdão dos pecados. Não há motivo para discordar. É óbvio que entende-se a necessidade de arrependimento, etc.. Mas o que está sendo ensinado é que naquela unção acontece perdão de pecados.

E agora tudo piora. Ele diz depois: Se Deus quiser vai levantar, se Deus quiser vai curar, se a pessoa se arrependeu dos seus pecados verdadeiramente ele terá os seus pecados perdoados, e afirma que caso contrário não haverá perdão etc.

Tudo isso está suposto no texto, pelo conhecimento que temos da doutrina geral. Não tem problema.

Mas isso não está no texto. Usando a mesma reclamação que o autor afirmou várias vezes na sua crítica.

Ele mesmo que discordou da prática católica de ungir apenas doentes graves.

Mas isso pode ser que a Igreja entendeu como melhor para ser praticado, de acordo com a doutrina geral interpretada nos tempos antigos.

Ele também discordou da explicação do pastor Nicodemus, etc., porque não está explícito no texto.

No entanto, da mesma forma a Igreja Presbiteriana tem esses requisitos por entender geralmente que aquilo seria o melhor meio de se fazer, tendo chegado a isso através de interpretação de outras partes da doutrina geral.

E agora, ele mesmo diz coisas que não estão no texto, como a ideia: a coisa é simples, se Deus quiser curar vai curar, se o doente arrepender vai ser perdoado, e só. Mas essa explicação não está no texto.

Então, a Igreja em sua sabedoria pode ter chegado à conclusão de que deveria fazer certas exigências para a prática da unção dos enfermos, o que explicitamente não está no texto.

E pergunta o protestante: se os enfermos nem sempre se levantam por que sempre os pecados serão perdoados?

A resposta é: a doutrina católica ensina que para haver perdão é necessário arrependimento. Está respondido.

A Igreja não diz que sempre haverá cura. Deus tem seus propósitos. Não diz que sempre haverá perdão. Simples assim.

Então, vamos à seguinte reflexão.

Se o Rafael crê que:

existe unção dos enfermos

que essa unção pode curar

que essa unção pode perdoar pecados

que essa unção deve ser feita pelos presbíteros da igreja

que essa unção está na Bíblia e é ensinada por São Tiago

que essa unção é certamente uma prática ensinada por Jesus, porque foi ensinada no NT

            Se ele crê nisso, está crendo na doutrina católica. É bíblica, é católica, é apostólica, é romana, porque a Igreja inteira a professa nessa unidade com a sede de Roma.

Mas não fique preocupado com os termos. Se crê assim, está de acordo com a doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana.

Se ele crê que:

Os doentes não graves podem receber a unção,

e que deveriam receber a unção,

então é isso que a Igreja Católica faz hoje, no entendimento que ele mesmo viu o papa Francisco ensinar, e que está conforme a doutrina oficial do Concílio Vaticano II.

Se ele que em tudo isso, o restante é pouca coisa: aceitar que o nome mais usado é sacramento, é algo que pode vir com o tempo, mas deve-se aceitar que Deus pode curar e perdoar, e isso Ele o faz pela graça, no momento daquela prática ali aconselhada.

Então, está conforme a fé cristã católica.

Se o Rafael Pablo crê assim, dificilmente está crendo como protestante.

Fonte: vídeo: A Bruna não respondeu... mas a gente desenha. 

Agora, vamos ao texto do padre Júlio Lombarde.

A resposta do jornal batista é um exemplo de como os batistas tradicionalmente entendem essa passagem. Em primeiro lugar, não creem que seja sacramento. Interpretam apenas como anciãos fazendo oração por um enfermo e usando o óleo de forma medicinal.

Esse é um erro de interpretação da Igreja Batista em geral, e está na resposta que o livro traz.

Também é feita uma crítica à ideia de que os presbíteros estejam desempenhando função sacerdotal. A doutrina batista é fortemente contrária a isso.

De fato, alude ao que está no texto, onde os presbíteros ungem e ali pode haver cura e perdão, no contexto onde há confissão de pecados. Então esses presbíteros agem como sacerdotes.

O padre afirma que pastor em vez de dar a resposta vira-se logo contra a fé católica. O protestante entende que o pastor já deu a resposta. Mas, parece que a indignação do padre é porque o pastor usa aquele momento para criticar a doutrina católica. Mas, continuemos.

Há muito no texto que pode deixar perplexo o protestante.

Se há algum doente na igreja, deve-se chamar os sacerdotes (presbíteros). Farão oração pelo doente, ungirão o mesmo com óleo, em Nome do Senhor. Isso é rito religioso e não emprego de óleo medicinal.

E a oração cheia de fé, diz o texto, falando da fé dos sacerdotes, essa oração "salvará o doente", e então "o Senhor o aliviará' e também: "se tiver cometido pecados, ser-lhes-ão perdoados". 

Isso mostra que há aqueles que não cometeram pecados. Essa frase é católica, e nunca protestante. De fato, na distinção entre pecado mortal e venial, há quem não tenham cometido pecado mortal, mas cometeu pecados de alguma forma. O texto então diz respeito há algo mais grave, aos pecados mortais.

Para o protestante, toda ação do não convertido é pecaminosa. Todo pecado é igual perante Deus. Os pecados dos salvos eleitos são perdoados, sejam quais forem, pois não haveria gradação e pecado. Então, dificilmente se poderia ler que alguém não cometesse pecado nessa concepção protestante. 

No entanto, diz a Bíblia: se tiver cometido pecado. Isso leva a crer que há os que não cometeram tais tipos de pecados aí aludidos.

O padre critica o termo ancião, que nega o sacerdócio. Isso é o cerne da questão.

Afirma que se fosse cerimônia exterior não haveria necessidade de chamar alguém, e ainda um idoso apenas. É o que o padre está criticando.

E afirma que a unção não era praticada pelos protestantes.

Então, depois, o padre afirma que estamos diante de uma instituição divina. E isso é verdade, pois se a Bíblia manda chamar os presbíteros para ungir os doentes é porque isso foi instituído por Deus.

Essa instituição é chamada sacramento. Não é qualquer um que pode aplicá-lo, e não é apenas anciãos (idosos) mas presbíteros (homens ordenados para cuidas da igreja, sacerdotes de Cristo, no único sacerdócio de Cristo).

Há óleo e oração.

Há mandamento para chamar os presbíteros para conferir o rito.

Há cura e perdão.

E o padre afirma que essa unção dada na extremidade da vida chama-se extrema unção. Ele está explicando conforme o costume do seu tempo para entender como o sacramento é chamado.

Desse modo, está provado que há unção dos enfermos e que a Igreja Católica é fiel no seu cumprimento.

Em nenhum momento o padre usou argumentos para falar dos requisitos do sacramento etc., mas usou a Bíblia para provar que existe esse sacramento, e o fez muito bem. É irrefutável.

Gledson Meireles.

domingo, 28 de julho de 2024

Os apóstolos Tiago, Simão e Judas

Exegese sobre os apóstolos Tiago, Simão e Judas


Em Mateus 13, 55: Tiago, José, Simão e Judas, e Marcos 6, 3: Tiago, José, Judas e Simão, temos os nomes dos irmãos de Jesus. Simão e Judas mudam de ordem nos dois textos.

Temos os nomes dos apóstolos em Mateus 10, 1-4: Eis os nomes dos doze apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor.

Em Marcos 3, 16-19: Escolheu estes doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele escolheu também André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o Zelador; e Judas Iscariotes, que o entregou.

Em Lucas 6, 14-16: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelador; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor.

Temos os nomes Tiago, Tadeu e Simão nas listas dos apóstolos nos evangelhos da seguinte forma:

Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu (Mateus 10)

Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o Zelador (Marcos 3)

Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelador; Judas, irmão de Tiago (Lucas 6)

No evangelho de Mateus temos que Tiago é filho de Alfeu. Esse é seguido por Tadeu. E Simão é chamado de o cananeu.

No evangelho de Marcos sabemos que Simão é também chamado de Zelador.

No evangelho de Lucas, ficamos sabemos que o Tadeu é também chamado de Judas, e que o mesmo é irmão de Tiago.

De fato, os irmãos são mencionados próximos nas listas, intermediados apenas por explicações relativas à sua pessoa, como sobre Tiago se diz sempre que é filho de Alfeu e de Simão é dito que é cananeu e zelador. E, como São Lucas foi um pouco mais detalhista, ele afirma que Judas é irmão de Tiago.

Sendo assim, tendo Tiago, Tadeu e Simão (Mateus 10); Tiago, Tadeu e Simão (Marcos 3) e Tiago, Simão e Judas (Lucas 6), nessa ordem nos respectivos evangelhos, percebemos que esses provavelmente são parentes.

Quando é dito que Judas é irmão de Tiago, concluímos que são filhos de Alfeu. Assim, o que está entre os dois, o apóstolo Simão, o Zelador, certamente é irmão de Tiago. Assim, Simão é filho de Alfeu.

Isso é razoável, visto que os apóstolos Pedro, André, Tiago e João são citados de forma semelhante. Vejamos:

Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. (Mateus 10)

Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele escolheu também André (Marcos 3)

Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João (Lucas 6)

Em Mateus sabemos que Simão foi chamado de Pedro e André é seu irmão.

Em Marcos Simão é chamado de Pedro, e André aparece depois, e não há a explicação de que é irmão de Simão. Essa informação já temos em Mateus e também é revelada em Lucas.

A ordem é a seguinte:            Simão, André, Tiago, João (Mateus 10)

                                               Simão, Tiago, João, André (Marcos 3)

                                               Simão, André, Tiago, João (Lucas 6)

Se lêssemos somente Marcos não saberíamos que Simão é irmão de André.

Quanto aos irmãos Tiago e João, eles aparecem da seguinte forma:

Tiago é chamado filho de Zebedeu, e João, seu irmão, em Mateus 10. Então, concluímos que Tiago e João são irmãos, filhos do mesmo pai. O mesmo ocorre em Marcos 3. No entanto, São Marcos revela que foram chamados de Boanerges, filhos do Trovão.

Em Lucas temos que Tiago e João, sem nenhuma explicação de parentesco. Sabemos do laço de parentesco por meio dos outros evangelhos.

Vemos que a ordem dos irmãos é mais ou menos fixa, e muda quando há alguma explicação intermediária sobre algum apóstolo. Isso é semelhante ao que ocorre com Tiago, Judas e Simão. Esses apóstolos são filhos de Alfeu.

Em Atos 1, 13 a ordem muda um pouco: Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago.

Por essa lista não seria possível identificar Pedro e André como irmãos, nem mesmo Tiago e João, como filhos de Zebedeu. Pedro é seguido de João, certamente por sua associação maior após a ressurreição, pois vemos que são citados juntos em Atos 3. Certamente, Tiago juntou-se a André em seu ministério apostólico, e por isso apareceu juntos nessa lista.

Os apóstolos Tiago, Simão e Judas aparecem nessa ordem novamente: Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago.       

O apóstolo Levi é coletor de impostos. Também é chamado filho de Alfeu. Essas informações estão em Marcos 2, 14 e Lucas 5, 27. No evangelho de Mateus sabemos que o publicano é chamado de Mateus. Então, conclui-se que Levi é o apóstolo Mateus. Não há explicação para os dois nomes. A identificação é dada por se tratar de um dos doze apóstolos e de ser ele o publicano. Isso mostra que os evangelistas não estão preocupados em explicar cada detalhe.

Assim, Levi-Mateus é filho de Alfeu. Não sabemos se é o mesmo Alfe pais de Tiago, Judas-Tadeu e Simão. Mas, não é improvável. De fato, as listas mostram a seguinte ordem quando se fala de Mateus:

Tomé, Mateus, Tiago, Tadeu, Simão (Mateus 10)

Mateus, Tomé, Tiago, Tadeu, Simão, (Marcos 3)

Mateus, Tomé, Tiago, Simão, Judas (Lucas 6)

Vemos que Mateus aproxima-se dos outros apóstolos que são filhos de Alfeu. E o apóstolo Tomé é citado próximo, mas não há mais informações que o ligue aos demais por laços de parentesco. Se apenas a proximidade de citação for levada em conta, todos se tornam parentes, e não é isso somente o que está sendo considerado aqui. Em Atos, o apóstolo Mateus é seguido por Tiago, Simão e Judas.

Tiago, Tadeu, Simão (Mt)

Tiago, Tadeu, Simão (Mc)

Tiago, Simão, Judas (Lc)

Tiago, Simão Judas (At)

Essa é a ordem que se assemelha a Mateus 13, 55 e Marcos 6, 33:

Tiago, José, Simão, Judas (Mt)

Tiago, José, Judas, Simão (Mc)

Pode-se por essas listas notar que José não é apóstolo.

Nos evangelhos podemos saber mais sobre esses apóstolos.

Marcos 15, 40: Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que o tinham seguido e o haviam assistido....

Mateus 27, 56: Entre elas se achavam Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. Essas mulheres olhavam de longe. Elas haviam seguido Jesus para o servir (v. 55). São as citadas em Marcos 15, 40, que observavam de longe.

João 19, 25: Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.

            Assim, a ordem das mulheres na lista é:

Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e de José e Salomé (Mc)

Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e José, e a mãe dos filhos de Zebedeu (Mt)

A mãe de Jesus, a irmã dela chamada Maria, e Maria Madalena (Jo)

Por essas informações, temos que as mulheres ficaram de longe, mas em algum momento elas se aproximaram da cruz, pois São João afirma que estavam aos pés da cruz com a mãe de Jesus.

De fato, em João 19, 25 está escrito que Maria mãe de Jesus estava perto da cruz: παρὰ  τῷ  σταυρῷ.

Em Marcos 15, 40 as mulheres estavam observando de longe: μακρόθεν. Portanto, são dois momentos. Se em Jo 19, 25 as mulheres citadas perto da cruz e também aparecem em Marcos 15, 40 mas estão observando de longe, então não pode ser o mesmo momento.

A palavra que indica proximidade é também usada em texto como Mateus 15, 30: "... Puseram-nos aos seus pés e ele os curou.

E a palavra para indicar “de longe” é a mesma usada para falar que Pedro acompanhava Jesus de longe, no dia em que negou o Mestre: Pedro seguia-o de longe, até o pátio do sumo sacerdote. Entrou e sentou-se junto aos criados para ver como terminaria aquilo (Mt 26, 58).

Desse modo, Maria, mãe de Jesus estava junto à cruz, e outras mulheres estavam observando de longe. Essas, como citadas acima, eram: Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e Salomé. Também sabemos que Salomé é a mulher de Zebedeu, e que é mãe dos apóstolos Tiago e João, os filhos de Zebedeu citados nas listas dos apóstolos.

Elas eram da Galileia, serviam Jesus, e ficaram olhando de longe a crucificação, mas em algum momento foram para perto da cruz, onde estava Maria. São João é o único a escrever esse fato, pois mostrou Jesus entregando Sua mãe ao apóstolo João como mãe.

Então, sabemos que a Maria, mãe de Tiago e de José, que estava longe com as outras mulheres, é irmã de Maria. Sendo o termo irmã usado no hebraico para parentes ou primos, essa Maria é parente da mãe de Jesus. Também sabemos que ela é mulher de Cléofas. Não há explicação para o nome Cléofas, mas pela identificação feita anteriormente, pode-se afirmar que se trata de Alfeu, pai de Tiago e Simão e José, como observamos pelas informações do texto sagrado. Ainda, o nome Cléofas em hebraico é traduzido como Afeu em grego: Claphai e Halphai.

No dia da ressurreição, foram ao sepulcro algumas mulheres. São Mateus revela que foram Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo (Mt 28, 1).

Em Marcos está escrito: Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus.

Assim, sabemos que a outra Maria que acompanhava Maria Madalena é a mãe de Tiago. Esse Tiago é o irmão de José, e de Judas, e de Simão, como vimos, que são filhos de Alfeu. Essa Maria é mulher de Cléofas. Ou ficara viúva e casou-se com outro homem chamado Cléofas, ou esse é o mesmo Alfeu. De fato, os evangelhos não explicam os nomes diferentes para a mesma pessoa, como ocorre com Levi Mateus, Judas Tadeu, que sabemos por exegese. Certamente, Afleu é também chamado Cleófas, e o sabemos por meio de seus filhos e a mãe deles.

Em Lucas 24, 10 são citados os nomes das mulheres que foram ao túmulo: Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; as outras suas amigas relatarem aos apóstolos a mesma coisa. Aqui aparece Joana, não citada antes, e outras amigas suas.

Temos que a outra Maria, que frequentemente estava com Maria Madalena, é mãe de Tiago e de José, é irmã da mãe de Jesus, e mulher de Cléofas. Sabendo que Tiago e José são irmãos, e que Judas é irmão de Tiago, e que certamente também o é Simão, temos que: Tiago, José e Judas são filhos de Alfeu e Maria.

Então, Tiago, José, Judas e Simão são filhos de Alfeu e Maria, irmã da mãe de Jesus. Essa Maria é chamada de Cléofas. Então pode-se concluir que esses são dois nomes para a mesma pessoa.

Desse modo, como vimos que Maria é irmã da mãe de Jesus, entende-se o motivo de seus filhos serem chamados de irmãos de Jesus.

Outra observação que deve ser repetida é sobre Tiago, Judas e Simão, que são apóstolos.

Assim, São Paulo chamou Tiago de apóstolos em Gálatas 1, 19. Esse não pode ser apenas um nome dado a outros fora dos doze, como acontece com Barnabé, pois essa ida de São Paulo a Jerusalém foi no início de seu ministério, e ele menciona os outros apóstolos, entendendo os demais além de Pedro, e afirma que não viu nenhum outro a não ser Tiago, identificando-o como irmão do Senhor. Isso está conforme o que foi verificado acima, pois esse Tiago de Maria, irmã da mãe de Jesus, mulher de Cléofas Alfeu, é parente de Jesus. Então, em Judas 1, 1 temos a confirmação de que Judas é irmão de Tiago, e são apóstolos.

É digno de nota que Maria mãe de Jesus era a única que estava ao pé da cruz desde o início, e é a única que não foi ao túmulo no dia da ressurreição.

Gledson Meireles.

Livro de Uriah Smith: sobre a interpretação adventista de Apocalipse 20

Apocalipse 20 – A primeira e a segunda ressurreições


Na interpretação adventista o capítulo 20 é um acontecimento ligado ao capítulo 19 em sequência cronológica. Isso também está em O Grande Conflito, escrito por Ellen White. Essa interpretação identifica o anjo, a chave e a corrente, o abismo e a prisão de Satanás. Convido o leitor adventista a conhecer um pouco da interpretação católica sobre mais esse capítulo do santo livro do Apocalipse.

            Tendo o dia da expiação e seus elementos como antítipos do que há revelado em Apocalipse 20, Satanás é identificado como aquele bode emissário. Tradicionalmente tem-se interpretado o bode como Cristo. Um bode morre pela expiação e o outro é levado ao deserto. Isso mostraria o pecado perdoado e levado para longe. Também significa o pecador sendo banido. Pode-se dizer que em última análise pode ser Satanás sendo castigado.

            A interpretação é bastante engenhosa, interessante, cheia de pormenores. Apenas um problema parece ser importante até aqui, que é o significado de abismo. Esse é entendido como a terra, mas no Apocalipse, em todo o contexto, ele é tido como lugar onde há espíritos que fica abaixo terra. Esse é um dos problemas dessa interpretação.

            Em Apocalipse 9, 1-2 o abismo é lugar de maus espíritos, e em Romanos 10, 7 é o lugar onde estão os mortos. Dessa forma, é difícil sustentar que abismo aí significa terra. A Igreja Adventista o faz por meio de uma análise do termo abismo, comparando com o que está em Gênesis 1, 2, lembrando a terra em estado de caos, na criação. Porém, o contexto geral é que Satanás está agindo na terra e é acorrentado e lançado no abismo, diferenciando a terra do abismo. E isso é feito no contexto imediato. A interpretação adventista perde esse pormenor.

            Também, o dia da vinda de Cristo trará vários acontecimentos: a ressurreição dos mortos, a separação de ovelhas e cabritos, o juízo, a entrada dos bons no reino dos céus, o lançamento dos maus no inferno (cf. Mateus 25), a criação dos novos céus  e nova terra (cf. 2 Pedro 3). Desse modo, os acontecimentos de Apocalipse 20 não são continuação do que é descrito no final de Apocalipse 19, mas uma recapitulação, levando-nos novamente a olhar para o início da vinda de Cristo até a Sua vinda, com mais detalhes. Essa parte, sendo admitida, refuta a interpretação adventista.

Assim, o ministério de Cristo e Sua vitória sobre a morte é o momento em que Satanás é preso. Isso nos leva ao fim da história, quando é mostrado o trono branco, a ressurreição, o desaparecimento do céu e da terra, e o julgamento dos mortos. Essa revelação lembra a do capítulo 14, onde o juízo é descrito e, ao final, o apóstolo tem outra visão, dos sete anjos com os sete últimos flagelos no capítulo 15.

Interpretando cronologicamente o juízo seria seguido dos flagelos, mas não é em sentido cronológico que a visão está sendo mostrada, pois ela volta a descrever pormenorizadamente o que ocorre antes do juízo. Essa ordem cronológica entra em choque com a interpretação adventista.

Haveria uma ressurreição, a dos salvos e de alguns ímpios, e depois uma batalha dos salvos contra os ímpios, onde Cristo batalharia contra Satanás. Essa seria outra ressurreição, a dos ímpios, e somente assim, depois de vários acontecimentos, viriam os novos céus e nova terra. O ensino da ressurreição dos ímpios para a batalha, que os destrói, não explica o seu comparecimento diante do Trono Branco imediatamente após a ressurreição.

            Portanto, essa interpretação escatológica não está de acordo com a doutrina do evangelho. É mais um dos equívocos do adventismo. Se o leitor prestar mais atenção, verá que não se trata apenas de harmonizar aquela interpretação do antítipo feita em relação do Dia da Expiação, que é algo válido, mas que é entendida de outra forma, mas também com esses dois pontos citados acima, que não se harmonizam com a doutrina pregada por Jesus, onde há apenas uma ressurreição, que é geral, que é feita no dia do juízo final. Desse modo, para resolver esses problemas há que corrigir certas doutrinas.

            A chave e a corrente são interpretadas corretamente, como símbolos de poder e autoridade conferidos ao anjo.

            O abismo é interpretado como deserto em Apocalipse 9, 1-2 e sepultura em Romanos 10, 7. Mas o adventismo, incluindo Ellen White, entende que o abismo é o mesmo descrito em Gênesis 1, 2, e significaria a terra.

No entanto, biblicamente o abismo é o mesmo que está em Lucas 8, 31, é o lugar para onde são mandados os demônios. Se trata de um lugar para onde eles não querem ir. Desse modo, o abismo de Lucas 8, 31 é esse mesmo lugar espiritual que Satanás foi trancafiado em Apocalipse 20.

Assim, não se trata de algo futuro, na vinda de Jesus, mas passado, realizado quando Cristo veio e morreu na cruz e ressuscitou, e descrevendo o presente. De certo modo, Satanás está preso, em circunstâncias diferentes, em comparação com o tempo anterior à vinda de Cristo, quando o mesmo estava solto e podia tomar posse das pessoas, governando o mundo, quando o Espírito Santo não havia descido à terra. Ele pode investir esforços contra a Igreja e etc., enganar a muitos, mas não enganar as nações, com antes, não podendo reuni-las para a guerra contra Deus.

Outro ponto que não parece se adequar bem à descrição do evento, é que Satanás ficaria no mesmo lugar onde está, que é a terra. As circunstâncias mudariam, os salvos seriam tirados e iriam para o céu, os ímpios não existiriam, estando mortos, que para o mortalismo estariam em estado de sono, entendido como inexistência. Então, Satanás que está na terra continuaria na terra, mas agora preso circunstancialmente, pois não teria pessoas para tentar.

Mas, o texto afirma que um anjo desce do céu com a chave do abismo, não podendo ser chave da terra, mas chave de uma prisão, e prende Satanás e o lança no abismo para não enganar as nações.

Isso significa que, contextualmente, Satanás sofre uma pena. Além disso, há nações na terra que poderiam ser enganadas por ele. A terra não está vazia. Isso é o que o contexto sugere e que está contra a interpretação da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Nessa interpretação Satanás fica preso porque não há ninguém que possa enganar, sendo uma cena bastante diversa daquela sugerida pelo Apocalipse.

A ideia da terra desolada é tirada de Isaías 24, 1. No entanto, a ideia da devastação da terra, que está em Isaías 24, não é o que ensina a doutrina adventista. Essa destruição é descrita de forma hiperbólica, de modo que é dito que o Senhor torna a terra deserta. Porém, o verso 6 é claro ao mostrar que um pequeno número de homens sobrevive. Então, no capítulo geral não há ideia de que esses versos cumpram o que está na interpretação da IASD.

Caso o uso dessas passagens fosse idêntico ao que os escritores católicos sempre fizeram ao aplicar com liberdade certas passagens da Bíblia a determinados eventos e pessoas, tal uso é plausível, útil, bastante proveitoso. No entanto, o contexto geral do livro não seria uma forte refutação, pois há passagens bíblicas, como o Salmo 69, que é messiânico, mas que não significa que todos os seus versículos sejam aplicados a Cristo. Assim, Isaías 64, 1 poderia fornecer base para o entendimento de que a terra ficaria por um tempo vazia e desolada.

Contudo, essa leitura não é encontrada na escatologia dos evangelhos em nenhum lugar, e muitos detalhes da doutrina adventista colidem com a doutrina católica aqui apresentada. O leitor tem o privilégio de ver as duas leituras comparadas e perceber os argumentos que estabelecem a fé católica.

Também, Jesus afirmou que os mortos ressuscitarão em um só dia, todos eles (cf. João 5, 28-29). A outra ressurreição que Jesus alude no mesmo capítulo é espiritual (v. 25), por isso Jesus afirma que essa ocorre agora. Essa é a realidade de Apocalipse 20, onde uma ressurreição é espiritual e a outra é física, mas futura, no juízo final.

A respeito do aprisionamento de Satanás, esse foi feito por Jesus, que acorrentou o homem forte. Isso se deu por meio do anjo, em Apocalipse 20. No momento presente, que é o milênio espiritual, Satanás está restrito, preso, e não pode livremente enganar as nações. Suas ações são limitadas. Estamos nos 1000 anos. Esse é o tempo em que a Igreja está reinando com Cristo nos céus, conforme Efésios 2,6, que afirma que estamos assentados com Cristo nos céus. Isso ocorre espiritualmente. As almas dos santos reinam com Cristo, na glória, e a Igreja é espiritualmente considerada estando nos céus nesse reinado, pela graça.

Ao mesmo tempo, a Igreja está vivendo os 1260 dias, em uma circunstância literal, na terra. Os 1000 anos referem-se ao período de reinado pela graça. Os 1260 significam um curto período de perseguição. Esse de fato é o tempo em que a Igreja sofre perseguição na terra.

Dessa forma, Satanás está atualmente limitado em seu poder, o que explica o sentido de sua prisão. A interpretação adventista não cabe, visto que em Lucas 8, 31, onde se fala claramente do abismo para onde os espíritos são lançados, esse mesmo texto distingue abismo e terra, assim como está no Apocalipse. Então, temos que o abismo no Apocalipse é diferente daquele explicado pelo adventismo, e a escatologia também é diversa daquela ensinada por Jesus e pelos apóstolos.

Satanás será solto pouco antes da vinda de Jesus, para enganar as nações e preparar o Armagedon. Esse será o tempo do Anticristo. Assim, a escatologia católica faz todo o sentido em cada detalhe principal.

A exaltação dos santos. Para os adventistas os santos que reinam com Cristo julgarão os mortos ímpios, e isso ocorreria apenas futuramente, e os mortos ímpios não existiriam nesse momento.

No entanto, temos que desde o início da Igreja os mártires estão aqui em Ap 20, 4 representados como reinando espiritualmente com Jesus (cf. Efésios 2, 6). As almas no céu e a Igreja espiritualmente com Cristo também nos céus.

A doutrina das duas ressurreições não significa que haverá duas ressurreições físicas. A primeira é espiritual, no batismo, na conversão, e a segunda é física. A primeira ocorre no milênio e a segunda após o milênio. O milênio é presente, desde a ascensão de Jesus até sua vinda, ou pouco antes da Sua vinda, quando Satanás será solto.

Todos ressuscitam no mesmo dia. Os mortos ressuscitam após o milênio, ou seja, no dia da vinda de Cristo. Essa é a ressurreição de salvos e ímpios. Para os adventistas somente os ímpios ressuscitam nesse tempo, mas não é essa a doutrina que está em todas as passagens bíblicas literais que tratam do assunto. O Apocalipse refere-se a isso em termos figurados, afirmando duas ressurreições, com Cristo fez em João 5, onde apenas uma ressureição é física.

É verdade que ao fim do milênio a Jerusalém celestial desce à terra. No entanto, entende-se no adventismo que a Igreja descerá à terra e os ímpios ressurretos estarão prontos para a batalha. Na perspectiva católica quando a Jerusalém descer não haverá mais ímpios na terra, pois Jesus terá dito: ide para o fogo eterno.

É interessante, mas não há essa cena descrita de uma guerra entre ressuscitados salvos e ímpios. O fogo que desce do céu e mata os ímpios acontece na vinda de Cristo, matando aqueles ímpios vivos, antes da ressurreição. Se assim fosse o castigo dos ímpios, dificilmente se pode entender aí um castigo proporcional ao pecado de cada um, pois o evento expressa claramente algo instantâneo.

É também difícil entender que a Jerusalém celeste desce ao mundo ainda não transformado, já que se diz que os ímpios são devorados pelo fogo, e acontece o que está em 2 Pedro 3, 7.10.

O texto sagrado afirma que o fogo que transformará a terra e perderá os ímpios virá no dia do juízo. Dessa forma, não se pode entender que a Jerusalém do céu desce à terra não transformada antes desse dia.

E o versículo 10 afirma que nesse dia o Senhor virá como ladrão, ou seja, repentinamente, e está no contexto onde os salvos esperam o Senhor: o Senhor não retarda o cumprimento de sua promessa (v. 9). A Igreja está à espera do que acontecerá, e que está descrito em 2 Pedro 3, 8-10. Essa cena não se adequa à escatologia da IASD.

Algumas interpretações são citadas por Smith. Uma é que a terra é transformada na vinda de Cristo, para que os salvos vivam durante o milênio. Outra é que Cristo descerá e governará na Palestina para conquistar as nações, também no milênio.

Mas a IASD refuta tal ideia, afirmando que os ímpios não podem pisar na terra renovada, e chama isso de ideias absurdas. O segundo ponto é que Cristo estaria governando a terra por mil anos e, ao final, haveria guerra contra os que se apropriam dela fazendo os santos perderem território, o que é absurdo. Então, a interpretação melhor do adventismo é apresentada. Essa mesma está sendo estudada neste comentário.

Mil anos no céu. Para os adventistas os santos habitarão ressuscitados no céu durante o milênio em que a terra estará desolada. Mas, tal visão não se harmoniza com o que foi mostrado acima, pois a Igreja aguarda a vinda de Jesus repentina para julgar e renovar a terra.

Quando a Jerusalém desce à terra, essa já está renovada. Assim, não há ímpios que possam pisá-la, e também não há guerra contra Cristo ressuscitado, que é o Juiz, agindo em glória, nem contra os santos ressurretos, que estão com Cristo. A guerra do Armagedon ocorre antes, na vinda de Jesus. A Jerusalém desce à terra depois.

É certo que o juízo dos ímpios ocorre antes da renovação do mundo. No entanto, a Jerusalém celestial não está na terra antes disso. E o fogo transformador da terra e dos céus não é o mesmo que o castigo dos ímpios, pelo fato de que há necessidade de que cada um receba o castigo proporcional, o que não é implicado nessa leitura.

Quem é alvo do tormento. Para quem não crê no inferno eterno, essa passagem é problemática. Talvez por isso tenha surgido a ideia de que somente o diabo será atormentado dia e noite, enquanto os ímpios seriam aniquilados. Mas o próprio autor adventista nota que a Bíblia afirma no plural “serão atormentados” e não no singular.

Entretanto, a interpretação adventista traz outro problema ao afirmar que a besta e o falso profeta foram destruídos no início do milênio, trazendo um juízo na vinda de Cristo contra os ímpios e outro juízo em outra vinda contra outros ímpios. Essa cena não é parte dos evangelhos. Afirma que há um juízo assim em Ap 19, 20 e outro em Apo 20, 10, enquanto que para os católicos esse é o mesmo momento. O mesmo momento é descrito em Ap 18, 8; Ml 4, 1; Mt 25, 41.

No juízo do grande trono branco a terra e o céu fogem. Como dizer que a Jerusalém celeste está na terra nesse momento? É um absurdo. Afirma-se que a cidade terá seus alicerces se estendendo por baixo da terra, e assim não será atingida. Essa é uma boa explicação, mas não é bíblica, segundo o que mostra o Apocalipse e a doutrina geral do Novo Testamento. É uma forma de explicar como a Jerusalém está na terra em chamas.

Interessante interpretação dos justos saindo e vendo os ímpios mortos, em Isaías 66, 24. No entanto, a cena da descida da noiva, a nova Jerusalém, é seguida de maravilhas que não mostram nenhum juízo e transformação da terra ocorrendo. Se essa é a cena aludida em Isaías 33, 14, onde os santos na Jerusalém estariam sobre “chamas eternas”, é difícil harmonizar tal cena com a eternidade desse fogo. O autor adventista afirma: e é nesse momento que esse versículo se cumprirá.

No entanto, esse texto parece se dirigir aos ímpios, que serão atormentados pelo fogo. De fato, no verso 6 é dito que o salvo habitará nas alturas, e de lá verá Jerusalém. O versículo 20 ensina: teus olhos verão Jerusalém. Nesse contexto, o Senhor reina no alto (v. 5). Então, o contexto não indica que o justo poderá permanecer nesse fogo. Assim, ainda que deslocado o texto, interpretado como se cumprindo com o justo, a ideia geral não se harmoniza com a escatologia bíblica.

O argumento que diz que as chamas do inferno são iguais em todas as partes e afetará todas as almas igualmente é o mesmo que está no castigo proporcional dos ímpios pelo fogo abrasador que desce dos céus para consumi-los. Se o leitor adventista entende que há proporção do castigo aí, então entende também que há no inferno.

Resta explicar quanto tempo durará para a transformação do universo e castigo dos ímpios, de modo que após isso ainda restará cadáveres na terra, que serão vistos pelos salvos que saírem da cidade. É outra cena não vista em Apocalipse 21.

Ficarão os salvos aguardando a renovação da terra e aniquilamento dos ímpios na nova Jerusalém? Os ímpios mortos serão vistos pelos salvos na terra já renovada? Se não, depois disso o fogo novamente queimará e renovará a terra? Essas são algmas dificuldades que surgem. Esse relato não está em parte alguma da Bíblia, mas é obtido pela IASD através da compreensão dos versículos citados acima. O problema é que não está conforme a descrição geral dos eventos feitos em todo o Novo Testamento. Por isso, não se trata de uma crítica à exegese que extrai princípios para formular a doutrina, mas de uma inadequada realidade que se formou diante da doutrina escatológica geral.

O livro da vida. De fato, é uma dificuldade explicar o motivo do livro da vida ser aberto no juízo onde estariam somente os ímpios. Nenhum nome seria encontrado. É a primeira dificuldade. A melhor explicação, ao que parece um pouco forçada, é que para que se possa ver que nenhum dos nomes dentre toda a multidão que sofrerá a segunda morte se encontra no livro da vida e por que eles não se encontram ali. O juízo teria o intuito de mostrar que os nomes não estariam no livro e o motivo de cada um ser julgado réprobo.

De fato, isso ocorrerá no juízo final. No entanto, todos estarão ali, salvos e ímpios, quando Cristo tiver separado ovelhas de cabritos. Então, o livro da vida será aberto e todos serão julgados. Por isso o verso 15 diz: E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo.

Essa cena implica que há aqueles que estão inscritos no livro da vida e outros que não naquele momento. Não faria sentido abrir o livro para um juízo que se sabe conter pessoas que não estão nele.

A morte o inferno foram lançados no lago de fogo. Aqui a morte é tida como personificação do poder da morte. O lago de fogo é o lugar do suplico, da destruição. A morte sendo ali lançada significa que não atingirá mais o ser humano. O inferno é o hades, o lugar dos mortos, ligado ao poder da morte. É como afirmar que esse lugar tenebroso da morte foi destruído no lago. É claro que a morte o hades não podem queimar, sofrer, pagar pecados. Então, o lago de fogo é o lugar da pena eterna.

A ideia de que ímpios ressurretos atacam a Nova Jerusalém inclui a ideia de que eles são julgados diante do trono e depois vão para a guerra, o que é absurdo. Ou poderiam ressuscitar e pelejar contra os santos e depois serem julgados. No entanto, o fogo que os atinge viria após essa guerra, o que excluiria o momento do juízo. Não há como harmonizar-se com o que ensina do livro do Apocalipse.

Os cristãos adventistas precisam rever suas posições quanto à imortalidade da alma, que é a doutrina bíblica, e o método historicista de interpretação do Apocalipse, que é aqui estudado e que não é superior à interpretação católica.


Gledson Meireles.