quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O milênio na terra e o reino do céu



Os propugnadores da mortalidade natural, contrários à imortalidade da alma, procuram em textos antigos, em escritos dos pais da Igreja, a prova para sua doutrina.

Afirmam que a partir do final do século 2, os padres da Igreja foram aos poucos mudando de ideia, adotando nova crença, e ensinando a imortalidade da alma. Após isso, afirma o livro, os pais da Igreja posteriores tiveram que alegorizar o que a Bíblia ensina, e ensinar que as almas estão no céu, negando a ressurreição, o reino literal de Cristo na terra, o pré-milenismo.

Aliás, o livro traz a afirmação de que o exemplo do pré-milenismo sendo deixado de lado, e o amilenismo adotado mais tarde, seria uma prova de que a doutrina de um período é logo negada por todos mais tarde. O que os pais da Igreja ensinariam em uma época seria negada por outros pais da Igreja em seguida.

O problema com esse exemplo é que a doutrina do milênio não foi nunca um dogma, e havia, como já provado antes, cristãos que ensinavam diferentemente sobre esse ponto, e ainda assim não havia divisão por causa disso. Tratava-se de um ponto discutível, que podia coexistir em diversas opiniões, até que a Igreja chegou a um consenso, sem nunca tê-lo dogmatizado. O que os pais da Igreja ensinam em consenso em uma data, não é mudado depois, mas continua o consenso, que faz parte da tradição da Igreja. Assim é que o milênio foi ensinando, em muitos séculos, por tantos outros, durante toda a história da Igreja, ainda hoje, por exemplo, assim como o milênio espiritual, chamado por muitos como amilenismo. Na verdade, a Igreja crê no milênio, mas espiritualmente, e essa é a doutrina que prevalece.

Ao citar sobre “os bons habitarão a terra”, São Clemente está citando os Provérbios 2, 21-22, sem fazer maiores considerações. Apenas repete o que a Palavra de Deus afirma a respeito. Não diz sobre a imortalidade da alma, nem sobre o céu, onde as almas dos santos já esperam conscientes a ressurreição. Ele apenas cita os Provérbios, sem negar a imortalidade da alma, sem negar o céu, sem afirmar o reino somente na terra, como ensinam outras doutrinas. Clemente não trata dessa questão nessa citação.

Ao afirmar que os bons habitarão a terra, faz o mesmo que Jesus no Sermão da Montanha, que diz: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra”. No entanto, sabemos que o mundo será transformado após o juízo, para a humanidade redimida. Sabemos que o reino dos céus também aparece no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que tem o coração de pobres, porque deles é o Reino dos Céus”. Onde morarão os justos para sempre. A terra será, de alguma forma, ligada ao céu, e os habitantes do céu poderão habitar a terra.

Embora essa não era realmente a interpretação de Santo Irineu. Ele pensava em alguns habitando o céu, outros habitando o paraíso, e outros a Jerusalém descida do céu. Tratava-se das primeiras interpretações da Bíblia concernentes à escatologia.

Lembrando que Santo Irineu cria na imortalidade da alma. Ele ensinou que a alma mantem a existência após a morte, separada do corpo. Que a alma mantem a forma que o corpo tinha, e que a alma continua a lembrar dos atos praticados quando estava viva com o corpo. Portanto, a escatologia do milênio não tem nada a ver com negação da imortalidade da alma. Também, dito doutro modo, não tem a imortalidade da alma coisa alguma com a doutrina amilenista, ou do milênio espiritual. De fato, os padres que creem na imortalidade da alma também creem no milênio.

Para provar sua asserção sobre a alma, Santo Irineu baseia-se, perfeitamente, na parábola do rico e Lázaro. E, para provar que cria na imortalidade da alma, mais uma vez, escreve que as almas recebem uma merecida habitação mesmo antes da ressurreição. Ou seja, as almas habitam um lugar espiritual à espera da ressurreição. Porque a alma recebe a vida pela graça de Deus. Eis o que ensinava Santo Irineu.

São Justino afirma que muitos pensam diferente a respeito do milênio, mas são verdadeiros cristãos. Ele tem uma opinião própria, também seguida por outros. Nessa passagem, São Justino fala dos hereges, entre esses um grupo chamado “batistas”, que negam a ressurreição. Por isso, faz uma refutação à ideia dos gnósticos, não em relação à imortalidade da alma, mas por causa da negação da ressurreição.

Por tudo isso, a questão da imortalidade da alma não é prova de que esse foi o motivo de muitos não crerem no milênio literal, e que a questão do milênio não é prova contra a imortalidade da alma. Essas doutrinas estão no patrimônio da Igreja.

Didaque 1:7; Policarpo aos Filipenses 2, 1-3; Didaquê 16,6-8; S. Irineu, Contra heresias livro 5, 32.33.
Gledson Meireles.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Identificando a Igreja


A seguinte apresentação e introdução serve para os artigos "Identificando a Igreja", publicados nesta página. Boa leitura.


Apresentação


Muitos cristãos cultivaram o hábito de estudar a sua fé, de conhecer a história da Igreja, de estar preparados para a apologética e de alimentar sua alma com o evangelho.

Nisso, temos que muitos conhecem a história da Igreja, através de bons livros acadêmicos, tanto aqueles produzidos pela Igreja Católica quanto os livros escritos por autores protestantes. Contudo, mesmo esses podem não estar familiarizados com certos sinais que distinguem a Igreja cristã. Talvez muitos nunca pensaram que questões aparentemente inócuas possuem força determinante para identificar certos conceitos e conhecer determinados sinais.

No entanto, agora não se trata aqui de encontrar um livro de história eclesiástica, propriamente dito, mas uma leitura da história da Igreja com o intuito de conhecer sua organização, a hierarquia essencial dos seus membros, quem foram seus representantes e expoentes no ensino da fé cristã em cada período estudado, qual a sua fé característica, as seitas e heresias enfrentadas, os seus representantes, bem como as características principais que possuíam, e que as faziam diferentes da Igreja Católica, contribuindo assim para o almejado contraste e identificação da verdade entre os seguidores de Cristo.

Dessa forma, conhecendo os líderes cristãos e os chefes das seitas, ou as doutrinas cristãs em comparação com as heresias de cada período, e a forma que a Igreja tratava as seitas e heresias, é possível identificar a Igreja que Jesus Cristo fundou.

É uma fascinante viagem pela história da Igreja que Nosso Senhor fundou, perpassando os séculos, e mostrando a vitalidade e as energias empregadas para manter a Palavra de Deus incontaminada e por defender e anunciar a salvação aos homens.

Introdução


 

O presente livrinho tem a intenção de mostrar onde está a Igreja Católica em cada período que for estudado. O primeiro é dedicado somente o primeiro século, que tem como fundamento a própria Palavra de Deus, em especial o Novo Testamento.

Dessa forma, a maior parte será dedicada a esse tempo, e os critérios escolhidos foram o conhecimento de algumas autoridades cristãs do período, a doutrina cristã que ensinavam, e sua atitude para com ensinos opostos e grupos sectários. Também a identificação dos grupos, suas doutrinas e os chefes e expoentes de cada grupo.

A partir dessa metodologia, alguns conceitos e questionamentos são propostos para a reflexão, enquanto se faz a refutação de certas doutrinas e entendimentos. É esperado que o leitor possa pensar de que lado está, onde se encontraria entre os grupos apresentado.

De acordo com o pensamento prevalecente entre os protestantes, a Igreja não é uma instituição, não tendo a natureza de uma organização, mas é um organismo espiritual, é a união espiritual de crentes e salvos pelo Sangue de Cristo, sendo essa de natureza invisível, e que todas as denominações são apenas o aspecto visível da Igreja, cada qual com maior ou menor grau de pureza, mas sempre imperfeita, inclusive no ensinamento doutrinal, tendo apenas o núcleo do ensino preservado, que é o mínimo de ensino evangélico, bíblico, caracterizador da verdade da salvação mantido por uma rede de igrejas visíveis, o que fez serem igrejas corretas e bíblicas. Dessa forma, o aspecto visível da Igreja teria uma importância secundária.

 

Com essa mentalidade, muitos leem o Novo Testamento e afirmam que as igrejas de Corinto, Éfeso, Tessalônica, e etc., eram todas imperfeitas, enfrentando divisões, heresias, e outros problemas típicos do ser humano, e que eram governadas por líderes locais, sendo cada uma autônoma, sendo comparáveis às denominações protestantes consideradas bíblicas do ponto de vista da Reforma, e que nem por esses problemas tais igrejas do primeiro século deixaram de ser igrejas de Cristo.[1] Parece cair nesse erro, pelo menos em linhas gerais, o teólogo protestante Wayne Grudem, pois ao falar das igrejas “mais” puras e “menos” puras, elenca como exemplo das primeiras a Igreja dos Filipenses e a dos Tessalonicenses, e das últimas as igrejas da Galácia e de Corinto.[2]

Seriam como se fossem as modernas denominações, cada uma com seu credo característico, mantendo unidade apenas nos artigos fundamentais, não importando o fundador de cada uma, pois não tendo caráter institucional, e sendo a pregação do Evangelho bíblico o distintivo da verdadeira Igreja, podem ser fundadas em qualquer tempo, como ainda hoje, serem imperfeitas em vários sentidos, mas tendo a doutrina fundamental mantida, constituirá uma igreja de Cristo, não importando as diferenças e divergências relativas aos pontos secundários da doutrina.

E por isso, citam os pecados que estavam entre os coríntios, as divisões, as heresias, e etc., afirmando que assim também é nos dias de hoje no Protestantismo. Com isso, acalmam suas consciências e afirmam que as divisões são permitidas, benéficas, e, como entendem, mantendo o fundamento, não afetam a unidade.

 

Para refutar tal ideia, segue uma série de estudos onde será identificada a Igreja verdadeira, mostrando que essa é institucional, uma sociedade espiritual organizada, sendo também visível, um organismo vivificado pelo Espírito Santo, constituindo o Corpo de Cristo, onde cada igreja local é governada por um apóstolo, um presbítero ou um bispo, mas todas tendo unidade no grupo dos doze apóstolos, como fundamento governamental, não sendo as igrejas particulares de forma alguma absolutamente autônomas, mas todas submetidas à autoridade apostólica, modelo de governo que permanece até os dias de hoje, não no número, nem em suas características exclusivas, que tinham por serem os apóstolos escolhidos diretamente por Jesus e testemunhas oculares da ressurreição. Assim, os sucessores dos apóstolos continuam no governo eclesiástico. No primeiro século, todas as Igrejas estavam unidas na fé, ou seja, na doutrina, no governo, na disciplina, na moral, no culto.[3]

Que o Senhor Jesus Cristo nos abençoe e ilumine nossas mentes para que conheçamos a verdade, convertamos o nosso coração e estejamos no Seu rebanho.

As divergências sobre a natureza da Igreja contribuem para justificar a existência de igrejas fora da igreja primitiva e católica. A teologia protestante afirma que todos os salvos são a Igreja. Mas, há quem diga que a igreja existiu somente a partir de Cristo, e que os salvos do Antigo Testamento não eram igreja, e haverá ainda salvos futuros que não serão parte da Igreja. Essas são opiniões dispensacionalistas.

O teólogo Wayne Grudem, defendendo a visão não-dispensacionalista, afirma que a Igreja é edificada por Cristo mas é continuação do plano divino já iniciado no Antigo Testamento.[4] Ele define a Igreja assim: “A igreja invisível é a igreja como Deus a vê”. E “A igreja visível é a igreja como os cristãos a vêem.”. E explica que não é a igreja que qualquer pessoa sem o conhecimento do Evangelho pode perceber, mas a igreja conforme os cristãos genuínos percebem. Outro aspecto que o Protestantismo tende a considerar, na prática, como fundamental, é o da igreja local. Mas Grudem traz um esclarecimento importante, que está em concordância com a doutrina cristã católica, de que o termo Igreja é aplicado tanto para a igreja local, como a igreja de uma cidade, como de uma região, como a Igreja universal.

 


 



[1] A autonomia das igrejas é defendida por muitos, que tentam fundamentar sua posição nas Escrituras. As igrejas seriam autônomas, onde cada uma não responderia diante de Deus pelos erros e pecados das outras, não seria castigada por causa do mau testemunho de outras. Também nenhuma teria autoridade sobre outra, mas cada governo se limitaria a chefiar os cristãos locais. Esse entendimento é errôneo pois confunde administração com a própria natureza da Igreja. Sendo uma só, cada igreja local não poderia ser autônoma em essência, mas apenas parte da Igreja universal. Dessa forma, cada ato seu não configura um ato universal, mas é parte dele, sendo apenas o seu ato como grupo local. Jesus, por exemplo, admoesta e ameaça uma igreja de tirar o seu candelabro. Não estava julgando todo o Corpo de Cristo, mas apenas uma parte dele, alguns membros, que formavam uma igreja local, ligada à Igreja única. De fato, Cristo tem um só corpo eclesiástico, não vários.
[2] O problema com a visão de Grudem ao apontar esses casos como exemplo é que parece estar tratando daqueles cristãos específicos como se fossem modernas “denominações”, que não existiam. Para afastar esse erro de pensamento, basta imaginar um padre católico elogiando certas igrejas católicas de um lugar, e exortando outras de outro lugar. Como ficará claro neste estudo, não havia problemas doutrinários na Igreja no primeiro século como se fossem doutrinas diversas entre denominações. O que havia eram heresias que surgiam no meio das igrejas e eram totalmente reprovadas. Isso fica claro nas próprias palavras de Grudem, que sem perceber, mostra o que foi aqui apontado. Ele escreve: “uma igreja pode ter uma excelente doutrina e uma pregação sadia, por exemplo, todavia possuir uma falha lamentável no testemunho a outros...”. Lembrando que as comunidades do Novo Testamento tiveram todas a mesma doutrina, e os problemas de ordem moral, prática, e etc., são comuns na Igreja Católica ainda hoje. No entender protestante, uma igreja mais pura é igualmente cristã em comparação com uma menos pura, onde uma acerta mais doutrinariamente que outra. Nenhum apóstolo jamais pensou coisa igual. Todas as doutrinas que não concordavam com o ensino apostólico foram consideradas sérias deformações doutrinais, e foram denunciadas. A unidade não se tratava apenas em “cooperação voluntária e afiliação entre grupos cristãos”, como afirma Grudem sobre o Protestantismo, mas havia uma unidade doutrinária, de governo, organização, culto, etc. Por isso, um problema doutrinal local poderia ser resolvido pelos apóstolos em um Concílio em outra localidade, por outros presbíteros, como aconteceu no Concílio de Jerusalém. No Protestantismo não acontece isso, pois um concílio luterano não tem jurisdição em uma igreja reformada, nem em uma batista e vice-versa. Sem mencionar as outras denominações.
[3] Muitos enfatizam demais o aspecto invisível da Igreja, afirmando que a Igreja particular, denominacional, nominal, a placa da igreja, e coisas do tipo, não seriam importantes, pois Jesus Cristo é quem salva. Isso indica a diferente conceituação de Igreja entre os entendimentos católico e protestante, onde o último tende a quase deter-se no aspecto invisível de Igreja, considerando os cristãos em geral e em toda a parte como se fossem visivelmente a Igreja, não importando estarem divididos nas denominações, contanto que crendo em certo número de verdades toleradas como parte essencial do Protestantismo.  No entanto, no primeiro século, no tempo apostólico, não há nenhuma diferença entre estar em Cristo e fazer parte da Igreja visível, pois havendo uma única igreja não era possível encontrar cristãos fora da comunhão da Igreja que estava em toda parte. Cada igreja local, em cada cidade, em cada parte de uma cidade, em cada região, era pastoreada pelos apóstolos e epíscopos, presbíteros, diáconos por eles ordenados, e não eram considerados nenhum grupo fora da comunhão visível da Igreja. Não havia igreja fora da autoridade apostólica. O pertencimento à igreja visível é ao mesmo tempo o sinal da membrezia da Igreja invisível, pois a parte visível da Igreja é a expressão da sua parte invisível. E por isso, é impossível encontrar qualquer divergência doutrinária tolerada pelos apóstolos, como formando outro grupo cristão fora da unidade visível estabelecida. Atenção a esse dado: não há tolerância a divergências doutrinárias no Novo Testamento. É impossível negar que no Novo Testamento há uma só Igreja. Portanto, no primeiro século encontra-se uma só Igreja.
[4] Fundamentados na verdade de que só Deus conhece os que são Seus (2 Tm 2,19), muitos formulam ideias que redundam em erro e heresia. Isso porque abrem espaço para a criação de igrejas e a continuidade das divisões. A crítica de que os sacerdotes do AT tornaram-se falsos ainda que descendendo de Aarão, fazendo com que bispos e padres sejam colocados fora da comunhão, ainda que estejam na sucessão apostólica, é algo que não tem respaldo bíblico. Jesus confirmou a autoridade dos fariseus em Mateus 23. A sucessão apostólica é respaldada na doutrina bíblica neotestamentária. A “verdadeira pregação do evangelho” é marca da Igreja, mas quando alguém fere essa característica, é a Igreja quem avalia e pronuncia seu parecer a respeito. A crítica de Martinho Lutero e João Calvino, lembradas por Wayne Grudem, não obedece esse modelo, já que eles deixaram a comunhão visível da Igreja e anatematizaram a Igreja Católica inteira a qual haviam deixado. Os anátemas de Trento estão conforme o paradigma apostólico, não sendo voz de um ou outro cristão, mas de toda a Igreja, reformando a Igreja e rejeitando doutrinas estranhas. Grudem trata das características da Igreja, e refere-se aos templos pagãos, que eram igrejas falsas, as assembleias judaicas, que é exemplo de igreja falsa. E no Cristianismo, como os reformadores protestantes buscavam marcas para confrontar com a Igreja Católica e negar a sucessão apostólica, afirmaram a pregação correta da Palavra de Deus como uma das marcas. No entanto, essa correção da pregação foi estabelecida em seus concílios e confissões, o que abre espaço para maiores esclarecimentos. Sendo os pontos de doutrinas fundamentais, Grudem cita algumas igrejas falsas. A segunda marca é a administração correta dos sacramentos. Ao tratar da Igreja Católica, partindo dessas marcas estudadas, sob a perspectiva protestante, o teólogo Wayne Grudem admite que é uma Igreja verdadeira. É característico do estudo sincero e profundo em busca da verdade a aproximação da verdade. As verdadeiras marcas da Igreja são a catolicidade, apostolicidade, unicidade e a santidade.

Gledson Meireles

domingo, 9 de fevereiro de 2020

A Exortação Apostólica e o celibato

No dia 12 de fevereiro será publicada a Exortação Apostólica referente ao Sínodo da Amazônia, e um dos pontos tratados mais esperados tem a ver com o celibato. De fato, muito esperam a orientação papal para a ordenação de homens casados para a atuar na região amazônica, podendo ser também uma prática a ser estendida por toda a Igreja.
 
O celibato é bíblico. Todos os que creem na Bíblia o sabem ou deveriam saber. Mas também todos sabemos que esse é um assunto controverso. O Protestantismo, por exemplo, é muitíssimo contrário a ele. De fato, os protestantes o colocam como um dos motivos por que não são cristãos católicos, ou posto de outra maneira, apresentam o celibato como algo diabólico, como erro, heresia, desvio, e coisas nesse sentido.
 
Ao avaliar a doutrina, apresentam-se contrários ao celibato "obrigatório", mas ao tecerem seus arrazoados, vemos que na verdade estão falando contra o celibato em si. Parece que não notam o fato.
 
Talvez há católicos que estejam influenciados por tais pensamentos. No entanto, o problema é que muitos nunca pararam para pensar como a Igreja o pensa. Não conhecem os motivos que a Igreja tem para continuar a exigir o celibato.
 
É sabido que não se trata de dogma, ou algo intrínseco ao sacerdócio, mas uma tradição muito bem fundamentada, com motivos bíblicos, e com razões que mesmo nos dias atuais, talvez mais do que nunca, continuam válidas, e as mais indicadas. Sabe-se também que há entre os padres aqueles que pensam não ser problema uma alteração prática nesse sentido, ainda que sejam padres celibatários e não tenham problemas com a doutrina. Lembrando novamente que não se trata de algo imutável.
 
Não se sabe o que o papa decidirá. Será ambíguo o documento? Conterá uma resposta positiva, ou algo positivo ao pedido do sínodo referente ao celibato? Será contrário e decepcionará a muitos?
 
A prudência parece apontar que o papa não abrirá mão da prática milenar da Igreja, mesmo diante das razões apresentadas no sínodo.
 
Gledson Meireles.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Um vídeo que pretendeu refutar a virgindade perpétua de Maria

Em um vídeo do canal Dois Dedos de Teologia que, segundo o autor, quer honrar a memória de Maria, e que trada sobre o dogma da virgindade perpétua de Maria, pode-se afirmar que o autor mostra que realmente é um dogma protestante não crer nessa doutrina.

De fato, em resumo ele afirma que isso "não se sustenta pela Escritura, que está em completa oposição àquilo que está revelado na Palavra de Deus, que essa é uma tradição eclesiástica e que anula a Escritura, que não há motivo para acreditar na virgindade perpétua de Maria, que é uma crença que não provem da Escritura e que está em oposição, rejeita e solapa aquilo que é descrito em ambos os testamentos, e crendo nisso é não crer naquilo que é dito na Escritura, é colocar a tradição acima da Bíblia, é rasgar as páginas do texto sagrado para se apegar à tradição eclesiástica".
Ou seja, para ser protestante é necessário não crer que Maria permaneceu virgem para sempre. Afirmar que não há motivo para crer, e no vídeo apresenta cinco motivos para não crer. Será que nesses 33 minutos e 58 segundos, com seus cinco motivos, realmente ele refutou o que pretendeu refutar?
Gledson Meireles.

domingo, 29 de dezembro de 2019

O sábado em Atos 19,8-10

Atos 19,8-10
 
Os fatos que encontramos nessa passagem são os seguintes:
 
São Paulo entrava nas sinagogas para pregar o Reino de Deus. Ele debatia com os judeus ali reunidos. Ficou ali três meses.
 
Muitos não ficaram convencidos, e isso causou a separação daqueles que já criam, para que pudessem ser instruído, todos os dais, na escola de Tirano.
 
Então, por dois anos São Paulo catequisava os convertidos. Judeus e gentios ouviam a Palavra do Senhor na Ásia.
 
Os adventistas interpretam essa passagem afirmando que Paulo guardava o sábado, reunindo-se para adorar com o irmãos, e que ficaria provado, por essa passagem, que durante esses dois anos o apóstolo guardava o sábado.
 
No entanto, o texto não afirma isso. Afirma antes que, o apóstolo disputava com judeus aos sábados sobre o Reino de Deus, mas após a descrença de muitos, chamou os discípulos que, a partir de então, disputava diariamente com eles, e não somente aos sábados, pois esses já sendo abertos ao evangelho não precisaria mais ir à sinagoga aos sábados para falar do Reino de Deus.
 
O texto não serve para provar o dia de guarda. Não é dito que o apóstolo tenha tratado disso, e o fato de ter ido às sinagogas por três meses foi para evangelizar, e não porque fosse com propósito de guardar o dia de sábado.
 
Se for lido os versos 8 e 10 ficaria parecendo que Paulo foi à sinagoga por 2 anos aos sábados. No entanto, o verso 9 é enfático em mostrar que isso ocorreu exclusivamente por 3 meses, e à partir de então passou a ir todos os dias, sem mencionar o dia de guarda cristão, restringindo-se a mostrar a regularidade geral das reuniões de estudo com os discípulos.
 
Gledson Meireles.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Livro sobre Martinho Lutero

O pastor batista português, Tiago Cavaco, escreveu um livro sobre o padre Martinho Lutero, “Cuidado com o alemão, três dentadas que Martinho Lutero dá à nossa época”, 1ª edição, da editora Vida Nova, 2017, em consideração às comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante, concedendo à relevância do reformador para a presente época, em especial para a igreja, referindo-se certamente ao Protestantismo de modo exclusivo, ou ao menos especialíssimo, desde que tem plena convicção, como não poderia deixar de ter, como protestante que é, de que o evangelho está preservado nas fileiras da Reforma.

O livro apresenta Martinho Lutero de forma a fazer pensar na essência do Protestantismo, já que faz contraposições entre catolicismo e protestantismo a partir da visão aberta pelo monge alemão ou, como preferir, da leitura do evangelho da salvação redescoberta e recuperada pelo Reformador, como pensa o Protestantismo. Isso faz com que o livro tenha, de certo modo, pontos que dizem respeito a todo o Protestantismo, com características da sua identidade, e não de uma denominação em particular, e que a apresentação de Cavaco seja feita, apesar da dificuldade imensa, em nome de todos os protestantes. Isso fica claro no uso das referidas contraposições.

Para fins de estudo, postarei aqui algumas reflexões de afirmações do autor sobre certos temas difíceis quanto relevantes para a fé, tentando mostrar os motivos que brotam da doutrina que a Igreja Católica ensina sobre o caso específico a ser tratado. São partes de um estudo do livro.
Gledson Meireles.

sábado, 7 de setembro de 2019

Questões a partir de um artigo sobre o cânon bíblico

Do artigo publicado: aqui.
 
A questão do cânon do Antigo Testamento no âmbito ortodoxo, ou seja, na Igreja Ortodoxa, é bastante relevante para fazermos algumas perguntas e refletirmos sobre elas:

Não era a Igreja uma só nos primeiros séculos (I, II, III, IV, V)?

Não era a Igreja do Oriente e do Ocidente plenamente unida nessa época?

Houve dúvida sobre o cânon, mas não podemos afirmar que essas dúvidas foram definidas para a Igreja inteira no século 4?

Alguém consegue perceber que a posição da Igreja do Oriente mudou e que a Igreja do Ocidente permaneceu de acordo com a definição geral feita nos concílios do século 4?

O que Cirilo Lucaris (1572) e Metrophanes Kritopoulos (1639) afirmaram, não é uma opinião nova no meio Ortodoxo¿ Não parece ser oriunda de uma influência protestante?

O que significa, senão que as interpretações particulares, a opiniões individuais, estão comumente entremeadas de heresias?

O que dizer, mais exatamente, da frase: “apoiam a definição protestante quanto à inferioridade dos “deuterocanônicos”.?” Significa que a opinião é idêntica?

Como se prova que a expressão oráculos divinos em Rm 3,2 se refere aos livros do cânon hebraico do Antigo Testamento?

A opinião do bispo Kalistos Ware, de que há livros DA Bíblia que são inferiores ou de nível mais  abaixo dos outros, pode ser opinião de que são todos inspirados? Ou que os inferiores o são por não serem inspirados? (Pois há, como entre os adventistas, a opinião de inspiração idêntica aos demais livros inspirados, mas que produz obras inferiores, ou de luz menor, já que não há mais revelação, mas uma luz que aponta para a Escritura).

Há ortodoxos, ao que parece a minoria, que permaneceram com o cânon idêntico ao dos protestantes. O que isso indica, já que outros ortodoxos adotaram livros apócrifos? Significa que os que se limitaram ao cânon menor seja mais fiel e tenha doutrina mais pura? Se não, o que significa de importante para a questão debatida?
 
Gledson Meireles.

domingo, 1 de setembro de 2019

Mês da Bíblia

A Santa Igreja comemora o mês da Bíblia em setembro. Que esse período seja para nós de crescimento espiritual, mais leitura da Palavra de Deus, mais conhecimento da Santa Vontade de Deus, mais força para renunciar as ideias e práticas pagãs contrárias às verdades reveladas.
 
Gledson Meireles.

domingo, 26 de maio de 2019

Assunção de Maria

Sobre o artigo Maria foi assunta aos céus? 
Pode-se afirmar que o dogma dá maior solidez a uma doutrina revelada, e a torna mais clara. Portanto, a data recente da proclamação não é um problema.

O papa não pode criar doutrinas, e quando faz suas proclamações dogmáticas ele tem em conta toda a tradição da Igreja, o entender geral dos teólogos, o senso de fé dos fieis, e crê na assistência infalível do Espírito Santo, que não traz coisas novas, mas maiores entendimentos da doutrina revelada. Um desses casos ocorreu em 1950.

A mulher de Gênesis 3,15 é Maria. Para comprovar, leia o artigo contrário a esse pensamento, e leia o que está disponível aqui.

Ainda que a Mulher de Gênesis seja Maria, como de fato o é, o texto não trata da assunção. Isso é fato. Mas, já sabendo que a profecia de Gênesis 3,15 aponta para Jesus e Maria, fica mais fácil compreender a assunção. Leia os artigos aqui e aqui.

O capítulo 12 do Apocalipse também aponta na direção de que Maria é a mulher ali representada, o que não quer dizer que não podemos ler o texto como simbolizando Israel, a Igreja, etc. Contudo, o significado básico mostra que trata-se de Maria. Leia os artigos aqui e reflita.

O texto não diz que a Mulher foi arrebatada, mas a mostra cheia de graça, toda abençoada e protegida por Deus. Isso ajuda no entendimento da doutrina da assunção.

Fatos importantes certamente não foram escritos pelos apóstolos e pais da Igreja dos primeiros séculos. Assim é que alguém pode acreditar que Moisés ressuscitou, mesmo que a Bíblia não afirme isso e os apóstolos não tenham escrito uma única linha sobre isso e nem mesmo os padres da Igreja sequer mencionaram algo a respeito. Comparando com a doutrina da assunção de Maria, a suposta assunção de Moisés tem menos base ainda, e nem por isso é desacreditada por muitos.

Para ficar ainda mais complicado, é um fato que a maioria dos protestantes não creem que Moisés foi ressuscitado, como de fato não foi, nem mesmo temporariamente. Não é o caso de que alguns protestantes não creem nisso, mas que é geral o consenso protestante de que isso não ocorreu.

É claro que no protestantismo não há a ideia de dogma, como há na Igreja Católica, mas é verdade que aqueles que asseveram que Moisés ressuscitou, sem qualquer base bíblica, apontam razões que exigem que creiam assim. Caso contrário negariam necessariamente outras doutrinas que julgam verdadeiras. Torna-se assim praticamente um dogma.

É importante que os protestantes pensem nas implicações da frase de Santo Epifânio: “se Maria morreu ou não, nós não sabemos”. Que será que está mais conforme a doutrina proclamada por Pio XII, a afirmação de um grande teólogo cristão de que não se sabe como foi o fim de Maria na terra, ou a afirmação protestante que assevera que ela está ainda aguardando a ressurreição? Será que o que Santo Epifânio escreveu não chega perto disso? Não se trata de pensar como foram os últimos dias na terra, mas se ela morreu ou não. A própria dúvida já prova que ocorreu algo diferente com Maria. Se a dúvida significasse que foi tudo igual, por que existiria? Mas, pensando o contrário, tudo faz sentido: a dúvida aponta para algo, que está de acordo com o desenvolvimento doutrinal que levou à proclamação do dogma em questão. Leia: aqui.

O silêncio de Santo Agostinho no seu debate com Fausto não é prova positiva contra a doutrina.

As indicações bíblicas e patrísticas, o testemunho de Santo Epifânio, pelo menos, corrobora a doutrina da assunção. Silêncio sim, existe, mas quanto à assunção de Moisés.

Seria bom que se escrevesse um artigo tratando desses dois assuntos: a assunção de Moisés, e suas bases bíblicas patrísticas, e fazer a correlação com a assunção de Maria. Já sabemos que a fé na assunção de Moisés não é um dogma para o protestante que crê nele, como se perdesse a salvação se o negasse, e coisas do tipo. Pelos menos não dito assim tão claramente. E sabemos que a maioria dos protestantes não acredita nisso. Isso para ficar claro o objetivo que teria o artigo: provar qual das duas doutrinas tem maior base: a assunção de Moisés ou a de Maria. Se não conseguir, então a imortalidade da alma e todas as doutrinas que alguém nega por isso deverão ser revistas por quem assim crê, por exemplo.
Gledson Meireles.

sábado, 13 de abril de 2019

Entendendo João 6 sobre a Eucaristia

A Bíblia ensina que Jesus ofereceu aos apóstolos, na última Ceia, o pão e o vinho como Seu corpo e sangue. Afirmou ali que aquele era o Seu corpo que deveria logo ser entregue por eles. Tratava-se de uma cerimônia muito impactante para as mentes dos apóstolos.

O apologista Norman Geisler, que afirma ter uma familiaridade profunda com a doutrina católica, responde aos argumentos católicos sobre a Eucaristia, e acredita tê-los refutado.

Geisler começa mostrando que não é a participação da ceia que dá a salvação, mas a fé em Cristo. E usa a passagem de João 3, 14-18 contrapondo-a com a de João 6,54. Se ter parte na eucaristia fosse condição para ser salvo, não o seria a fé. Se a fé o fosse, não o seria a participação dos elementos da comunhão.

Mas, Geisler não compreende que a doutrina cristã católica aponta a fé como a raiz para tudo isso. Se João 3,14-18 afirma a necessidade absoluta da fé, ela deve estar presente para que a promessa de João 6,54 se concretize. Ninguém participaria da eucaristia e seria abençoado com a dádiva da salvação sem a fé. Ambas as verdades devem ser acatadas.

Para o protestante só vale um texto: o da fé. O outro é interpretado por esse, e deveria também indicar somente isso: a fé. Em outras palavras, João 3,18 que fala claramente da fé explicaria, por exemplo, João 6,54, que fala do comer o corpo e bebe o sangue, que deveria identificar-se com o ato de fé.

Para melhor refutar essa exposição, lembremos que ambos os textos devem ser melhor explicados por seus contextos, e não apenas comparando um com o outro e, como que, suprimindo um. Voltando o que foi dito: o que está em João 3 não pode desfazer o que está em João 6. A fé é necessária, mas não é o mesmo que comer o corpo e beber o sangue.

Para o protestantismo, no qual a doutrina da salvação pela fé é um dos pontos mais ressaltados, compreende-se que a sistemática doutrina bíblica que mostra magistralmente a fé como o meio para termos a salvação em Cristo seja a forma usada para entender as demais passagens que tratem da salvação. No entanto, a forma usada pelo Protestantismo deixa textos sem a devida apreciação, quando esses falam da salvação e não mencionem a fé. Com receio de errar, por muito zelo, talvez, preferem entender que uma passagem difícil tenha o mesmo sentido de outra que supostamente a explique. Esse é o caso de entender o comer e beber como sendo simplesmente a fé, pois não poderia uma participação em um sacramento trazer a salvação quando em outra passagem a mesma é dita ser através da fé em Jesus. Com isso fica mais compreensível como o protestantismo explica a Escritura no tocante à Ceia do Senhor.

Mas o catolicismo nunca fez tal coisa. Ambas as passagens devem ser compreendidas da forma como foram escritas, e entendidas em seus respectivos contextos. Quanto à salvação pela fé não há o que discutir. Porém, quando algo mais é oferecido como parte integrante da salvação, a Igreja Católica considera igualmente o que for ensinado na Bíblia, como faz com a eucaristia como necessária, em suas devidas dimensões, para a salvação.

Para o protestantismo, a participação da ceia torna-se mera obediência a uma ordenança, não dando salvação, pois essa vem de Cristo, pela fé.

Para o catolicismo, a mesma salvação que vem de Cristo, pela fé, é fundamento para a participação da eucaristia. Não é a eucaristia que está em primeiro lugar, mas a fé, que é a raiz de toda a comunhão com Jesus. No entanto, conforme Jesus ensinou, quem não come a carne e bebe o sangue do Salvador, não tem a vida eterna. A participação da eucaristia por aquele que tem fé em Cristo torna-se agora necessária. Não é mera formalidade, mas algo que tem a ver com a vida de salvação. Pode-se afirmar que o salvo crê nas palavras da eucaristia, e dela participa como alimento espiritual.

Quanto à interpretação contextual de João 6, segue um estudo que realizei, e que responde a muitas coisas contidas nas objeções de Norman Geisler (aqui). Oportunamente tratarei das outras objeções.

Nos textos de Mateus 26,26-29; Marcos 14,22-25; Lucas 22, 17-22; João 6,27-63 e 1 Coríntios 11,23-25, e ainda em 1 Coríntios 10,14-22, está estabelecida a doutrina da Eucaristia. 

Nos Evangelhos sinóticos temos a narração da Última Ceia, quando o Senhor identifica o pão com o Seu Corpo, ordenando que se fizesse memória dEle,  e o cálice com o Novo Testamento do Seu Sangue (Lc 22,19-20). E todos os apóstolos comeram. 

Em São João, no capítulo 6, no discurso em Cafarnaum, temos a verdade que foi realizada na Última Ceia.

A forma bem detalhada do capítulo torna possível o completo entendimento sobre a Eucaristia. O verso 27, por exemplo, é bastante importante. 

Comparando o esforço para obtenção da comida física, Jesus manda “trabalhar” pela “comida que permanece para a vida eterna”. 

Dessa forma, há uma obra para obter tal comida. Outra coisa interessante é o tempo verbal: futuro. Jesus diz dessa comida: “o Filho do homem VOS DARÁ”. 

O Protestantismo ensina que a fé equivale ao “comer a carne” e “beber o sangue”, sendo, portanto, expressões metafóricas e não literais.

Se for assim, esse discurso do Senhor terá essa acepção. No entanto, vejamos: quando os judeus perguntam “que faremos para executarmos as obras de Deus? (v. 28)”, o Senhor responde que a OBRA de Deus é crer nEle (v. 29). Portanto, é a FÉ. Ele afirma clara e literalmente a necessidade da fé, o que já é estranho usar de uma metáfora para indicar o que está dito diretamente.

O discurso nessa fase é bastante direto e claro, não faz uso de metáforas: 

Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou. 

E os judeus entendem a exigência de Jesus, mas retrucam: 

Disseram-lhe, pois: Que sinal, pois, fazes tu, PARA QUE o vejamos, e CREIAMOS em ti? Que operas tu? 

Pedem sinais para crer, para ter fé nEle. Entenderam a necessidade, mas não encontraram “motivo” para acreditarem. Requerem uma razão para ter fé. 

Então, o Senhor Jesus fala abertamente que Ele é o Pão do céu, que mata a fome e sacia a sede (v. 35), afirmando, adiante, que eles não criam (v. 36). 

E, logo mais, mostra que a fé nEle faz ter a vida eterna, e ser digno da ressurreição (v. 40). É a fé o começo, o fundamento para ganhar a salvação. O mesmo está no v. 47: 

“Na verdade, na verdade vos digo que aquele QUE CRÊ EM MIM TEM A VIDA ETERNA.”

O tema da FÉ está bastante claro, e os judeus não quiseram aceitar. A metáfora, portanto, não indica a fé.

Por isso, a partir do verso 51, Cristo estende a doutrina, mostrando que o pão é a Sua carne, que deve ser comida, para que o mundo tenha vida. Nesse momento, os judeus discutem. 

Preste atenção, que o assunto já havia sido apresentado, que era a necessidade de aceitar Jesus como o Pão vivo e receber a graça da vida eterna, através da fé nEle. Se a fé fosse comer o Pão, tal caso já teria sido entendido pelos judeus, mas eles negaram essa conotação. 

Mas, agora, ao introduzir a necessidade de comer a CARNE (que é o pão), os judeus, que negaram-se a crer, ficam ainda mais assustados: 

“Como nos pode dar este a sua carne a comer?” (v. 52). 

Jesus confirma o que foi dito (v. 53). E no verso 54 afirma que: 

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.”

No entanto, comer a carne e beber o sangue para ter a vida eterna, tem como necessidade a fé em Jesus, como disse no v. 40:

“Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.”

Muitos veem aqui uma equiparação do “come” e “bebe” com o “vê” e “crê” (vv. 40 e 54), mas o contexto não favorece essa interpretação. 

Lembre-se que o Senhor Jesus iniciou falando que deveriam “trabalhar” para fazer a “obra” de Deus, que é “crer” NELE, não é mesmo? 

Entendamos então: basta crermos em Jesus, e a obra de Deus estará realizada, e Ele nos dá o alimento, que é o Pão vivo, Ele mesmo. De fato, Sua Carne é verdadeiramente comida e o Seu Sangue verdadeiramente bebida (v. 55).

Assim, o que o Senhor ensina é que a fé é necessária para comungarmos dEle, não que a fé já é a própria comunhão da qual se fala aqui. São dois elementos: a fé e a comunhão eucarística.

“Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão. Vede a Israel segundo a carne; os que comem os sacrifícios não são porventura participantes do altar?” (1 Cor 10,17-18). 

Por isso, São Paulo compara os judeus que participam do Altar quando comem das vítimas sacrificadas, e  os pagãos que entram em comunhão com os ídolos quando tomam parte nos seus sacrifícios. 

Dessa forma, os cristãos entram em comunhão com Jesus quando participam da Eucaristia “do mesmo pão”, que é o Seu sacrifício (1 Cor 10, 17). 

Vê-se, assim, que as palavras de Jesus são literais, e que realmente comemos e bebemos dEle no sacramento da Eucaristia. 

Maiores reflexões: 

Os discípulos entenderam materialmente as palavras de Cristo no discurso de João 6? Certamente que sim. A pergunta do Senhor a eles, se os mesmos queriam seguir os judeus que voltaram atrás, e a resposta que recebeu, indica, de forma velada, que os apóstolos não entenderam bem o discurso, mas criam no Senhor Jesus. Eis a diferença entre eles e os que foram embora. 

De fato, naquele instante não era possível entender o modo de alimentar-se do Corpo e do Sangue do Senhor, visto que essa doutrina fica clara na última ceia. A fé dos discípulos os impelia a crer nas palavras do Senhor, e a esperar o alimento que Ele iria dar a eles. 

Em outras palavras, os discípulos cumpriram os que a multidão recusaram-se a cumprir: ter fé em Cristo. Essa explicação harmoniza-se com toda a passagem. Pensar que os discípulos entenderam as palavras de Cristo - comer e beber como se fosse fé - é uma introdução de pensamento estranho para resolver esse dado não fornecido. 

Os apóstolos continuaram a entender erroneamente as Palavras do Evangelho mesmo depois da ressurreição, e não entenderiam “comer e beber” de forma “soteriológica” ou de forma correta, como se referindo à ceia, visto que a mesma seria ainda instituída.
 Somente em Pentecostes os apóstolos e discípulos tiveram suas mentes abertas às verdades mais profundas, e entenderam o que Cristo lhes ensinara. 

Os apóstolos permaneceram com Cristo não por terem entendido tudo espiritualmente, mas por crerem nEle e esperarem a comida que seria dada, conforme a promessa, e que os mesmos desconheciam: a Eucaristia, o próprio Cristo como alimento. 

Outros exemplos em que Jesus falava metaforicamente e era incompreendido pelos ouvintes certamente não desfaz o caso de João 6 ser literal. De fato, noutros exemplos, o contexto geral explica a metáfora de forma bastante clara. Com referência a João 6, o contexto bíblico afirma tratar-se da Ceia do Senhor.

João 4, 32.34. 

A comida de Cristo, que os apóstolos não conheciam (e que pensaram ser física), é fazer a vontade de Deus, realizar a obra do Pai. Tudo esclarecido. Ao mesmo tempo em que usa metáfora, a mesma é explicada pelo Senhor: comer aqui significa fazer a vontade de Deus, realizar Sua obra. Importante frisar que essa comida é de Cristo. 

 

João 7,35-38. 

Os que têm sede são chamados por Cristo a ir até Ele e beber. Obviamente, esse sentido é espiritual, uma bebida do Espírito, pois no v. 38 é referido à água abundante, a rios que jorrarão, enquanto que no v. 39 é explicado que se trata do Espírito Santo, que será dado a todos os que crerem em Jesus. O contexto não é eucarístico, não fala do corpo e sangue do Senhor, e a bebida não é o Seu sangue, mas a mesma é a “água” representando o Espírito Santo. 

1)      Os judeus normalmente materializavam a linguagem de Cristo e erravam, não compreendendo-as. Fato. 

2)      Cristo muitas vezes continuou usando a mesma figura de linguagem, ainda que os ouvintes literalmente entendessem, e estivessem errados nisso. De fato, não é sempre assim. Jesus mudava as palavras ao explicar, o que não ocorre em João 6. Em outros lugares havia maior explicação. 

O contexto do Evangelho explica a passagem, como fez com João 6. E a passagem de João 6 é única, pois determina o seguimento de Cristo ou não, de forma direta. Jesus insiste em manter a linguagem ainda que os judeus afirmassem deixá-lo por causa da Sua mensagem naquele momento. Esse exemplo faz da ocasião um tanto diversa daqueles outros momentos (como a conversa com Nicodemos, com a Samaritana e outras). Antes, Jesus normalmente explicava e elaborava sobre o que dissera. 

3)      Os discípulos entenderam João 6 espiritualmente, em termos soteriológicos. O texto não afirma isso. Fato.

Se esse foi o caso, que explica continuarem com Cristo, diferente dos outros judeus, indicaria a habilidade que os mesmos adquiriram de entender o Evangelho em termos espirituais. Os fatos depõem contra isso. Por exemplo, os apóstolos não creram imediatamente na ressurreição. Isso mostra que permaneciam bastante literais em seu entendimento, não compreendendo que Jesus destruiria o Templo (espiritualmente corpo) e o construiria em três dias (ressuscitando). 

Outro sinal de que não entenderam, se dá pela forma errada de resolução da interpretação protestante: comer e beber não quer dizer crer. O contexto de João 6 prova isso. Portanto, os apóstolos creram no Senhor, e por isso continuaram a Seu serviço. Não sabiam ainda como seria “o comer e beber” que Jesus havia falado.

 4)      Os judeus não podiam compreender ainda o sentido de João 6 como sendo a ceia do Senhor, pois a mesma não existia. Fato. 

Por isso, a Igreja explica que a fé é necessária para estar com Cristo, visto que tudo o que Ele diz é verdade. Basta crer e entenderá.

Gledson Meireles.