domingo, 17 de março de 2024

Livro: Conselhos de Ellen White: sobre Sola Scriptura

 

Livro: Conselhos de Ellen White sobre Sola Scriptura: o que a mensageira adventista realmente disse sobre o tema. Autor: Davi Caldas, 2021: Estudo do Capítulo 12:  O Sola Scriptura é bíblico?

A Igreja Católica ensina que o critério, o padrão, para se conhecer a doutrina verdadeira, aquilo que devemos crer e praticar, é composto por três elementos: a Bíblia, a tradição e o magistério. O Protestantismo aceita somente a Bíblia.

Ou o princípio Sola Scriptura está correto ou os irmãos católicos estão certos quando afirmam estar em pé de igualdade a Escritura, a Tradição e o Magistério. E agora?

Como a Bíblia é o único texto inspirado, a Igreja Católica ensina que ela tem uma posição singular na fé. Isso é afirmado, embora tenhamos a Tradição Apostólica e o Magistério da Igreja como estando em igualdade de autoridade para a fé e a moral. E o Protestantismo entende que a Bíblia possui uma posição única, de modo que nada mais pode ser de autoridade para definir o que é de fé e prática.

A questão é difícil, e mais difícil ainda é fazer-se entender. Tantos debates demonstram essa dificuldade. Há muito escrito sobre isso, e pouca compreensão. Muitos concluem coisas precipitadamente a respeito desse debate, e isso, na maioria das vezes, parece atrapalhar, já que o resultado é cada um terminar o debate ou a leitura do assunto e estar com a mesma ideia inicial, e com ideias pouco ou nada precisas da doutrina que está combatendo. A conclusão precipitada é uma lástima.

Pois bem. Vamos aos pontos específicos da questão. Quando se diz que a Bíblia é o texto padrão fundamental, única instância infalível, pelo qual toda a doutrina deve ser julgada, isso já pressupõe que alguém irá ler a Bíblia e com seu entendimento irá olhar para as doutrinas e concluir se estão de acordo com o texto bíblico lido ou não. E, portanto, aí começa um problema, ao invés desse princípio tê-lo resolvido.

De fato, todos tempos acesso à Bíblia, e, como cristãos católicos, cremos firmemente que ela é a Palavra de Deus. Assim, ao lermos a Bíblia, estamos diante da Palavra de Deus para nós, e cremos tudo o que ela ensina.

Continua o Protestantismo adventista afirmando que Bíblia é suficiente para conhecermos toda a revelação básica de Deus, não sendo necessário mais nada para acrescentar para que possamos chegar à salvação. Nessa questão não há muito o que objetar, desde que se faça correta interpretação dessa afirmação.

Entretanto, temos a verdade que a Bíblia possui, pelo menos de forma implícita, toda a revelação necessária para que conheçamos e sejamos salvos.

Então, como afirma o adventismo, não há necessidade de complemento doutrinário, ou seja, outra fonte de doutrina. Essa é uma afirmação muita usada no Protestantismo, não é de origem católica, mas é surpreendente que mesmo essa afirmação possui um bom sentido e pode ser admitida pelos católicos, como visto. A Bíblia não necessita de nenhum complemento.

Caso haja divergência entre fontes não doutrinárias e a Bíblia, a Bíblia possui primazia. Isso também está correto.

E, por fim, quando se diz que a Bíblia possui ferramentas para a interpretação de seu próprio texto, é preciso admitir que o leitor, seja ele católico, protestante ou ortodoxo, fará uso dessas ferramentas para interpretar a Bíblia e potencialmente pode falhar. Não há como garantir que a interpretação de alguém esteja correta.

Ainda que haja hermenêutica e exegese, é tamanha a realidade que não se pode negar, tão clara como o sol do meio dia em céu sem nuvens, de que os leitores, os mais bem intencionados, caem em muitas e muitas heresias.

É só lembrar que muitos no próprio movimento adventista chegaram à conclusão de que Cristo não era Deus, negando a trindade, que é um dogma já definido, onde a Igreja, os primeiros cristãos, que combateram os erros com perigo de vida, proclamou nos antigos concílios, respeitados em toda a Cristandade, a verdade da Santíssima Trindade.

Assim, alguns protestantes, pela nova onda no século dezenove de ir à Escritura e fazer livre exame para chegar a novas luzes doutrinais, foram levando para longe da verdade em pontos que já estavam totalmente resolvidos. Estavam tentando reinventar a roda. Assim, no caso adventista, felizmente puderam voltar nesse ponto, novamente, à antiga fé, por outros meios, que serão mais adiante mencionados. Mas em outros, por não seguirem a luz da verdade já brilhante na Igreja Católica há séculos, foram criando outras doutrinas por meio de suas interpretações particulares, como nova denominação.

Então, o conceito Sola Scriptura é um dos que fazem a diferença entre católicos e protestantes, mas quando bem entendido, no seu bom sentido, ele é conforme a doutrina católica, e impossível de conciliar com a protestante. E, nesse caso, já que se está aqui estudando a doutrina em obra adventista, é impossível harmonizar o princípio com o adventismo.

Quando se diz que: “Para os católicos, a Bíblia não é o único padrão para julgar fé e prática, nem a suficiente revelação de Deus para as questões básicas da fé.”, está afirmando que a Igreja Católica possui fontes extra-bíblicas, extra-canônicas, que são consideradas como autoridades infalíveis para as questões de fé.

Assim, explicando de uma forma católica, as obras dos santos Padres, os sínodos, os concílios gerais ou ecumênicos, as encíclicas, as bulas papais, as obras dos teólogos, as revelações particulares, os ritos e cerimônias da liturgia, as festas religiosas e etc., contem a tradição apostólica, que por sua vez traz elementos de fé e prática não exarados explicitamente na Bíblia.

Isso é verdade, é como a Igreja Católica entende a questão. Portanto, não é tudo o que está escrito fora da Bíblia e que está na tradição da Igreja que é considerado tradição apostólica. A Tradição Apostólica está no meio de um inumerável número de tradições da Igreja que é transmitida durante os séculos.  Essas tradições contem a tradição apostólica que vem do primeiro século juntamente com a Bíblia.

Dessa forma, a Bíblia não poderia ser o “único padrão” para julgar questões de fé e prática, pois nos pontos onde há controvérsia haveria apenas o leitor diante do texto da Bíblia para extrair dali o sentido e compará-lo com outros e concluir segundo o ele mesmo como intérprete. É sempre um perigo. E, em termos gerais, nenhuma instituição funciona assim.

Assim, quando se diz que: “Ela requer a complementação da tradição da ICAR e de seu magistério, em especial o Papa.”

Dessa forma, há que se entender o que é a doutrina da tradição apostólica. E, obviamente, toda doutrina da tradição deve estar conforme a Bíblia. Para certificar-se disso, deve-se estudar, extrair a doutrina revelada de suas fontes, esclarecer, proclamar oficialmente essas doutrinas cristãs que devem ser cridas por todos os cristãos. E quem faz isso não é apenas uma pessoa, nem qualquer grupo, mas aqueles que compõem o que se chama Magistério Eclesiástico, que é composto pelo papa e pelos bispos, e que estão na linha de sucessão apostólica, seguindo também o senso da fé geral da Igreja, não podendo contradizer nenhuma doutrina bíblica e da tradição já proclamadas.

Basta uma olhada para perceber como o princípio católico é robusto. Nenhum membro da Igreja, nem o papa, pode mudar um dado revelado. Assim, se o texto bíblico devesse ser o único padrão para ser lido e julgar tudo o mais em questão de doutrina, a harmonia acima não poderia mais ser garantida. O Espírito Santo deveria falar com um só, ou com um grupo que deveria ser conhecido como esse canal, e tal critério seria bastante duvidoso.

Mas, se a autoridade da Bíblia, como Palavra inspirada, inerrante e infalível de Deus, é única, por ser o único texto inspirado por Deus na terra, qual o papel da Bíblia na Igreja Católica e sua relação com a tradição e o magistério em termos mais precisos? Isso será respondido seguindo o raciocínio protestante na sua defesa do Sola Scriptura contra a tradição e o magistério. Que o leitor tenha a paciência de seguir o raciocínio na apresentação que segue.

São apresentadas cinco evidências para o Sola Scriptura. A primeira é que Jesus não teria falado das antigas tradições rabínicas nem defendido os escribas e fariseus, o magistério da época.

Mas é preciso responder a isso afirmando que: o magistério antigo não recebeu a mesma promessa do magistério cristão, pois Jesus afirmou que a Igreja nunca será vencida pelos poderes do inferno. É algo novo.

E, além disso, no que se trata de pontos fundamentais, Jesus afirmou que o magistério judaico devia ser ouvido, que suas doutrinas deveriam ser praticadas, e somente as ações hipócritas dos líderes não deveriam ser imitadas. Isso já refuta a objeção que se formou acima.

Com isso, temos que o fato da falibilidade humana dos líderes, e das tradições, não prova o Sola Scriptura, já que quando Cristo afirmou que todos deviam obedecer e fazer tudo o que eles dizem (cf. Mt 23, 1-4), referindo-se ao ensino do magistério judaico, isso mostra que eles conheciam e pregavam a doutrina bíblica correta, o que pressupõe correção nos pontos fundamentais e salvíficos, mas que agiam mal em suas vidas. Levando isso para o Novo Testamento, temos maior razão para crer na correção da doutrina da Igreja Católica ensinada pelo seu magistério, instituído por Jesus Cristo.

E aqui, entra novamente a Bíblia: “Por isso, ela tem autoridade superior.” De fato, diante da vida dos homens, das autoridades da Igreja, dos documentos doutrinais, de tudo o que é ensinado e conservado, a Bíblia possui autoridade suprema.

Desse modo, essa frase protestante é totalmente católica, e estamos aqui em um terreno onde o princípio está sendo estudado, compreendido e desenvolvido segundo a fé católica, com razões bastante claras. E, ao longo da discussão as objeções em defesa do Sola Scriptura estão sendo refutadas. Até o momento não há nada que possa ser afirmado como dificuldade para a doutrina católica.

É importante entender que o magistério possui autoridade de acordo com a Palavra de Deus, não para produzir doutrinas, mas para ensiná-las e defendê-las. Mas o princípio Sola Scriptura leva a afirmar: “Em suma, as tradições nem sempre são boas.”.

E de fato é assim. Por isso, a Igreja somente proclama dogmas em concílios por entender que esses dogmas não são parte de qualquer tradição, mas da tradição apostólica, que é Palavra de Deus e está em conformidade com a Bíblia. Não são todas as tradições da Igreja que são apostólicas.

O fato do Sumo Sacerdote não ter sido dito “infalível” e ter errado em condenar Jesus não é algo que pode ser usado contra a doutrina da infalibilidade papal, pelo já exposto antes, é já expressa certas incompreensões. Os judeus ensinavam corretamente a doutrina (Mt 23), mas foram repreendidos por sua conduta. As tradições que são condenadas e os seus motivos são expressos por Jesus de forma clara. Mas, de modo geral, estavam ensinando corretamente.

Ainda, é preciso entender que um erro jurídico não é o mesmo que um erro doutrinal em matéria de fé e prática. Nem mesmo o papa possui infalibilidade jurídica, política, científica, acadêmica, etc., mas somente naquilo que se refere à fé e à moral em momentos específicos, onde há clara intenção de conhecer, ensinar e proclamar a verdade salvífica a toda a Igreja com a autoridade recebida de Jesus Cristo, o que é entendido por falar ex cathedra. Isso é muito mais do que alguém fazer um estudo privado da Bíblia e ensinar sua interpretação de uma passagem. O papa tem consigo a companhia dos bispos, o estudo dos teólogos, o senso de fé dos fieis em todo o mundo, a tradição apostólica proclamada nos concílios. E, ainda, tem as revelações particulares dos santos e videntes cristãos católicos que atestam a verdade de muitas doutrinas, sem que essas revelações sejam fonte doutrinária.

Depois de compreender isso, é bom lembrar e entender por isso o motivo de Jesus respeitar a autoridade do Sumo Sacerdote, como está em Jo 18, 22, pois Suas palavras não tiveram a intenção de negar aquela autoridade, assim também em Atos 23, 5, onde São Paulo reconhece a autoridade do Sumo Sacerdote.

Dessa forma, o magistério judaico errou, e mesmo o magistério da Igreja Católica pode errar em questões que não estão ligadas diretamente à fé e à moral. Em aplicações da moral, em muitas expressões ordinárias do magistério, pode haver erro.

Assim, há vários exemplos em que atitudes magisteriais foram mal-sucedidas, como no caso específico da condenação de Santa Joana D´arc, e no caso de Galileu e etc., o que não afeta em nada a questão da infalibilidade do papa e do magistério, que versa sobre outras questões. Por isso, o próprio magistério reconheceu a santidade de Joana D´arc e a canonizou, quando soube do erro do processo de inquisição local que julgou aquela santa. Assim, não se pode por razões apresentadas dos erros dos sumos sacerdotes afirmar que o magistério não pode ser infalível em matéria de doutrina.

E a pergunta: “E se não o era em Israel, povo étnico de Deus, por que o seria entre os cristãos?” é um questionamento bastante compreensível, mas contem erro.

De fato, nessa pergunta há contraste e distinção entre Israel, povo étnico, e os cristãos, e deixa transparecer que se no Antigo Israel não houve o carisma da infalibilidade no seu magistério, também não haveria de existir entre os cristãos que “nem” são o povo étnico de Deus.

Essa ideia que é possível ser sentida no texto, e certamente não foi intenção do autor ensiná-la, é um equívoco. Primeiro, porque a Nova Aliança é eterna é superior. A antiga aliança foi provisória, imperfeita, não possuía a promessa da infalibilidade do magistério. Segundo, porque a Nova Aliança foi iniciada pelos judeus que reconheceram Jesus como Cristo, o Messias prometido, e converteram-se à fé cristã, sendo aqueles aos quais a Palavra de Deus foi pregada em primeiro lugar. E, portanto, os primeiros cristãos foram judeus étnicos e da promessa, e formaram o magistério católico, que é sucedido até os dias atuais pela sucessão apostólica. Terceiro, a parte endurecida étnica, que é da promessa, será outra vez enxertada na Oliveira verdadeira, onde já estão todos unidos na Igreja judeus e gentios, usufruindo da promessa que foi dada a Israel.

De fato, a Igreja é o novo Israel, aguardando apenas, por assim dizer, a plenitude dos judeus e dos gentios. Por tudo isso, corrigido o equívoco, como se o que não existiu no antigo povo étnico não poderia existir no novo Israel espiritual, que também contém o étnico, passemos a entender mais o que é infalibilidade, e fazendo as devidas distinções entre antiga e nova aliança, se pode conhecer mais a verdade. Eis as razões bíblicas para entender que o magistério cristão católico é de fato superior ao antigo: mudança de lei, mudança de aliança, mudança de sacerdócio, mudança de magistério, maior graça.

E, assim, tudo o que a primeira evidência mostrou foi que a Bíblia é suprema, e com isso a Igreja Católica concorda plenamente. Não provou nada contra a tradição apostólica nem contra o magistério eclesiástico que estão sempre em conformidade com a Bíblia. Até os exemplos dados sugeriram e deram ocasião para apresentar a verdade de que o magistério católico, por estar no Novo Testamento, deve ser mais robusto. Pelo que foi dito acima, foi possível entender que as razões católicas são sólidas.

Quando na segunda evidência é citada a providência de Deus na conservação dos escritos entre tantos que existiram no Antigo Testamento no Povo de Israel, que iriam compor a Bíblia, devemos tem em mente que o Povo escolhido foi o meio de conservar esses escritos. Isso também aconteceu no Novo Testamente, onde a Igreja Católica teve essa incumbência da onisciente providência divina, e conservou os escritos inspirados do Antigo Testamento e do Novo Testamento desde os dias dos apóstolos, passando pela Idade Antiga, a Idade Média.

Embora tenham havido motivos para fechar a lista dos livros inspirados, isso não ocorreu no Antigo Testamento, e foi feito pelos judeus, já na Era Cristã, e pela Igreja, de forma separada. O cânon do Antigo Testamento foi definido nos mesmos concílios com o cânon do Novo Testamento, o que mostra que foi parte da providência de Deus para definir toda a questão. E, certamente, Deus guiou os concílios cristãos referentes ao cânon.

Na evidência 3 temos que a Bíblia no AT praticamente possui os mesmos conceitos quando se compara a Torah e os profetas, conceitos esses que foram aplicados, ampliados, desenvolvidos e explicados.

É bom lembrar que a tarefa dos concílios católicos também sempre envolve essas ações, de aplicar os conceitos da Palavra de Deus, de ampliá-los, de fazê-los conhecer melhor, de desenvolvê-los, de explicá-los, de tal forma a não deixar dúvidas. Enfim, é praticamente isso que faz a definição de um dogma.

Quando se reconhece que a Torah em certo sentido era suficiente, pois as revelações precisavam desenvolver pontos que já existiam na Torah, é uma ótima ocasião para entender também que nesse sentido a Bíblia é suficiente na Igreja Católica, pois tudo o que é preciso fazer para desenvolver certa doutrina e defini-la para o Povo de Deus tem de estar em conformidade com os conceitos revelados na Bíblia, nunca se desviando dela, com todos os conceitos de seu conteúdo inteiro. Todos os dogmas católicos estão em conformidade com a Bíblia.

E se Jesus ensinou algo que talvez não seja possível encontrar os conceitos na Torah e nos Profetas? A resposta é que Ele é Deus.

Correto, Jesus é o Messias e veio revelar tudo o que é necessário para fazer parte da Sua Igreja.

E, além disso, essa ideia é importante para entender que a Igreja Católica muitas vezes traz certas práticas e ensinos que estão menos claros no texto bíblico, mas ela é a Igreja de Jesus Cristo, que tem autoridade para ensinar e para exigir obediência. Enfim, tudo o que a Igreja ensina está em conformidade com a Bíblia. A Igreja não cria doutrinas.

Na evidência 4 temos que os escritos inspirados do NT tiveram aval e monitoramento dos apóstolos. Isso é formidável, e parte do plano de Deus para manter intacta Sua Palavra. De fato, a Providência mantém intacta a revelação escrita, e também oral.

E esse fato: “Embora, como no caso do AT em Israel, algumas comunidades cristãs divergissem um pouco quanto a quais livros deveriam compor o cânon do NT, a maior parte dos livros era aceita pela maioria dos cristãos.”. Essa afirmação requer a admissão de que foram os concílios católicos que definiram o cânon bíblico, pois se apenas um livro está em discussão geral, a autoridade da Igreja se tornou necessária para definir a questão. E sabe-se que vários foram objetos de divergências.

Na evidência 5 o argumento de que não havia Sola Scriptura durante a vida dos apóstolos, já que não havia Escritura ainda no Novo Testamento, pelo menos, é tida como argumentação frágil. Mas não é.

De fato, não há nenhum registro e nem o conceito de que os cristãos usassem do livre exame para garantir a correção da pregação apostólica. Muito pelo contrário.

Se a pregação dos fatos foram sendo julgados pelas Escrituras for a Sola Scriptura, então tudo bem, e isso não é tão divergente da doutrina católica. De fato, tudo o que a Igreja prega está em conformidade com a Bíblia, e pode ser verificado nela.

No entanto, é preciso frisar que não havia espaço para alguém ensinar algo diferente do que os apóstolos pregavam. Do contrário, seria anátema. Imagine um cristão afirmando que é necessário circuncidar-se para ser salvo, ainda que os apóstolos em concílio chegaram à conclusão contrária. Assim, a Igreja pregava com autoridade, ensinava o evangelho, e todos aderiam conforme a autoridade de Deus dada à Sua Igreja.

Os bereanos foram elogiados, mas não eram cristãos. Eram pessoas que ouviram a pregação e crendo estarem os apóstolos de fato de acordo com as Escrituras, que prometiam o Messias, abraçaram a fé. A partir dali, se viram sob a autoridade dos apóstolos para aprenderem o evangelho. Isso é Sola Scriptura somente no sentido harmonioso com a fé católica. Ninguém julgava a pregação apostólica por pelo livre exame.

Em outras palavras, quando um católico vai à Bíblia para julgar uma doutrina com que teve contato, estaria fazendo uso do princípio Sola Scriptura, no sentido católico, já que ele faz interpretação correta, conformando-se à autoridade eclesiástica, que está em harmonia com a interpretação oficial. Pode ser que encontrou em algum lugar uma doutrina, e percebeu pela sua leitura da Bíblia que ela está correta e aceitou seu ensino. Assim, fez uso do princípio Sola Scriptura, se essa doutrina de fato está correta e, portanto, é ensinada pela Igreja.

Se os bereanos ficaram convencidos de que os apóstolos pregavam o verdadeiro Messias, por ter ido às Escrituras e se certificado do fato, essa atitude do Sola Scriptura não contradiz a fé católica.

Somente se depois os bereanos se pusessem a julgar a pregação apostólica alegando estarem fazendo comparação do que estava na Bíblia do Antigo Testamento e, talvez, em algumas partes do Novo Testamento já escritas, e discordassem do ensino apostólico, então estariam fazendo livre interpretação contra a autoridade dos apóstolos, o que fere o princípio cristão católico.

De fato, esse modelo não se encontra em lugar nenhum na Bíblia, nem em toda a história da Igreja, sendo sempre algo errôneo. É preciso entender isso para compreender a argumentação católica sobre o assunto.

Na verdade, aqueles judeus se converteram à fé cristã por reconhecerem Jesus como Messias. Eles aceitaram a fé cristã e se submeteram ao batismo, à ceia, não mais creram na circuncisão como meio de salvação, etc., etc., sem questionar nada mais, pois sabiam que ali estavam os representantes da Nova Aliança. Partiram das Escrituras e, por isso, foram à autoridade da Igreja e lhes deram crédito. Por outro lado, isso está conforme o modelo Bíblia, Tradição e Magistério.

Há atitudes do modelo Sola Scriptura que estão conforme a fé católica, enquanto que outras, que estão no entender católico, e são de fato Sola Scritptura, mas refutam as objeções protestantes do Sola Scriptura.

Ainda, a Tradição era recente no primeiro século, mas já começaram algumas disputas sobre a fé, e essas foram resolvidas pela autoridade dos apóstolos, e não pela interpretação bíblica de alguém.

Então a Bíblia está em conformidade com a Tradição e o Magistério. Portanto, não há como a tradição apostólica ser “avaliada de acordo com a Bíblia” por cristãos de outras épocas, pois essa tradição vem juntamente com a pregação da Bíblia na vida da Igreja, ininterruptamente ensinada. Ela é expressa autoritativamente nos concílios.

Ainda, lembrar que o cânon bíblico foi definido séculos após os apóstolos, pela autoridade católica, e que por isso não se sabia exatamente, durante séculos, quais eram os livros inspirados com seu número exato. A doutrina da Igreja, pregada oficialmente, garantia a pureza da fé, estando sempre em conformidade com a Bíblia.

Gledson Meireles.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Livro: Apocalipse - sobre a interpretação adventista, cap. 4, anciãos

 Apocalipse, de Uriah Smith.

Apocalipse 4 – Uma nova visão: o santuário celestial

Os vinte e quatro anciãos. A interpretação adventista de Uriah Smith afirma que as vestes brancas e a coroa na cabeça representam o conflito terminado e a vitória conquistada. E por algum bom motivo, afirma, esses já estão com a coroa de vencedores no mundo celestial.

Seria uma classe de remidos como todos os outros serão remidos. Assim, acreditam que São Paulo falou sobre esses remidos em Efésios 4, 8 quando afirma que Jesus levou cativo o cativeiro. E lembrando do fato de que muitos santos mortos ressuscitaram na ressurreição de Jesus, como está em Mt 27, 52-53, afirma que existem pessoas que saíram da sepultura por ocasião da ressurreição de Cristo e foram levadas ao céu para exercerem tarefas sagradas.

O problema com essa interpretação é que não há uma ligação óbvia, nem mesmo uma exegese para essa doutrina, e a mesma contradiz o que a Bíblia ensina sobre a ressurreição, pois não há lugar para um grupo de cristãos serem ressuscitados para a glória antes dos demais, nem uma alusão a isso. Muitos justos ressuscitaram a foram vistos por muitos em Jerusalém, mas isso apenas afirma que muitos santos em Jerusalém ressuscitaram.

Sabemos que de fato em Efésios 4, 8 Jesus sobe aos céus, após quarenta dias da ressurreição, e leva consigo os santos, todos os que tinham morrido salvos antes da Sua vinda, levando esses cativos da morte para o céu junto com Ele. Ele leva o cativeiro, e não apenas alguns. Portanto, são as almas dos santos. Esse fato é visto por São João nos vinte e quatro anciãos que estão na glória do céu.

No entanto, como o adventismo não crê na imortalidade da alma, mas é preciso explicar como esses anciãos estão no céu antes da ressurreição final, devem afirmar que eles foram ressuscitados. Mas quando? Seriam eles aqueles que ressuscitaram em Jerusalém? Certamente não.

Então, utilizam a passagem que afirma que muitos santos que dormiam foram ressuscitados. Não sabemos se essa ressureição foi definitiva ou temporária, como a de Lázaro. Talvez tenha sido temporária, pois não houve tal ressurreição para a Igreja ainda, e então esses não foram glorificados para o céu, mas ressuscitaram como um milagre para testemunhar a ressurreição de Cristo.

Ainda, quando Jesus vai para céu, diante de muitas testemunhas, não foram vistos os santos com Ele. Se eles tivessem sido ressuscitados, estariam subindo com Jesus.

Também, certamente, o número dos santos que ressuscitaram em Jerusalém por ocasião da ressurreição de Jesus não foram muitos no sentido de uma multidão, o que teria causado enorme comoção ao aparecerem na cidade a muitas pessoas. Entende-se que muitas pessoas viram esses santos, mas não foram tantos que indicasse a maioria na cidade.

E, por fim, devemos afirmar que não houve ressurreição gloriosa para ninguém mais, a não ser para a virgem Maria.

Dessa forma, os adventistas creem que Moisés, e muitos outros santos estão ressuscitados no céu, mas não creem que a virgem Maria esteja.

Ainda mais, os vinte e quatro anciãos, que seriam uma companhia de cristãos que por algum motivo foram ressuscitados e levados ao céu, esses seriam “auxiliadores de Cristo em Sua obra de mediador no santuário celestial”. Ou seja, estão sendo sacerdotes com Jesus, auxiliando em Seu ministério de salvação.

Assim, eles fazem com Jesus uma tarefa em favor da Igreja na terra. Sabe o que isso representa? Uma verdade que a Igreja Católica ensina desde sempre, ou seja, que há intercessão dos santos no céu pelos santos da terra, o que é o ministério de intercessão dos santos. Isso significa que eles estão com Cristo realizando esse múnus salvífico, que tem a virgem Maria como figura especial. Os santos são reis e sacerdotes no céu.

Tudo o que a doutrina adventista admite sobre alguns santos apenas, a Igreja Católica afirma que ocorre com todos os santos. Mas, a diferença está em que essa doutrina é explicada naturalmente pela imortalidade da alma, e como os adventistas não creem nessa doutrina, precisam explicar a presença dos santos no céu de outra forma, como a de que alguns já foram ressuscitados.

Então, na interpretação católica, os 24 anciãos são os santos na glória, os doze patriarcas e os doze apóstolos em símbolo, representando o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Estão vestidos de branco por que são santos, são puros, e usam coroas de ouro porque estão na glória dos habitantes do céu. São reis e reinam com Cristo. Estão esperando o julgamento que Deus irá exercer contra os inimigos da Sua Igreja. São reis e sacerdotes do Soberano Juiz. Está aqui provada a intercessão dos santos, a imortalidade da alma, ao mesmo tempo em que é indicado um equívoco no entendimento do adventismo sobre essa passagem.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Livro: Apocalipse - adventismo

Apocalipse 12 – A Igreja Católica

No livro adventista foi usado o título A Igreja evangélica, o que pode levar o leitor a pensar no protestantismo como sendo a verdadeira Igreja. De fato, a Igreja Católica é a igreja original, e o estudo do Apocalipse mostra isso de forma suficiente.

Os símbolos são explicados pelos adventistas da seguinte forma: uma mulher: a igreja verdadeira. Então a mulher corrupta é a igreja falsa. O sol é a dispensação evangélica, ou seja, a dispensação cristã. A lua é a antiga dispensação mosaica. A coroa de 12 estrelas são os apóstolos, o Dragão é Roma pagã, o céu é o lugar da contemplação, que é o céu físico e visível, não a morada de Deus.

O único problema aqui, o mais importante, é que o próprio capítulo doze deixa claro, de forma cabal, que o Dragão é a antiga serpente, o Diabo, Satanás. Esse é o espírito enganador, adversário, o anjo caído. Dessa forma, não se pode afirmar que o Dragão é Roma, pois a Bíblia afirma que é Satanás, um ser espiritual e inteligente, e não o império romano.

É certo que partindo disso pode-se afirmar, como fez Vitorino no século terceiro e quarto, afirmando que as sete cabeças do Dragão são os sete reis de Roma. Assim, parte-se do princípio de que Roma pagã tem o poder do Dragão, e não que se identifica com o Dragão.

O período de gravidez da mulher seria o momento em que a Igreja esperava o Messias, até o desenvolvimento pleno com a coroa dos doze apóstolos. Mas tal interpretação, que é válida, não faz todo o esforço para entender o texto.

Em primeiro lugar, a mulher, o filho da mulher e o dragão são seres individuais e não instituições. De fato, o Filho é Jesus. A mulher é claramente a Sua mãe. E o Dragão é inequivocamente Satanás.

Somente a partir dessa realidade é que se pode entender em Maria também a figura da Igreja, em Cristo o rei com Seu reino, e no Dragão o espírito de Satanás com as forças diabólicas. Dessa forma, a mulher é a virgem Maria, algo que todo o Protestantismo tende a negar.

As duas dispensações, a mosaica e a cristã, são entendidas no adventismo como a lua e o sol. É magnífica essa interpretação, bastante saudável para a fé. No entanto, deve-se ver, como acima foi indicado, a virgem Maria sobre a lua, vestida do sol, com coroa de doze estrelas. Portanto, como a rainha da antiga e da nova aliança com a luz da graça recebida de Jesus Cristo seu filho.

Em Maria, a mulher, também a Igreja está acima da dispensação mosaica que terminou. Também, com Maria, a Igreja está revestida do sol de Cristo, o sol evangélico. Aqui vemos a santidade de Maria, membro primeiro da Igreja, que brilha com a luz do sol de Jesus Cristo, e que anuncia a santificação da Igreja inteira que há de se efetuar no fim. Depois de Cristo, Maria é o membro da igreja que por sua união singular com Ele, já recebe as glórias que a Igreja receberá. É preciso ver que a virgem Maria é o significado primário do texto, e a Igreja é o secundário.

“A terça parte das estrelas do céu”. Essas estrelas seriam uma parte dos governantes judeus antes da era cristã. Isso se faz ao pensar que os apóstolos são as 12 estrelas da coroa da mulher. Mas, devemos entender que essas estrelas que são varridas pelas cauda do Dragão são do céu, o que simboliza anjos, já que se diz que elas foram lançadas à terra. Isso mostra que antes não eram da terra.

Não desfaz o sentido que o adventismo traz como governantes seduzidos pelo mau. No entanto, Satanás enganando anjos do céu é a cena mais adequada que o Apocalipse está trazendo nessa visão. O texto de Ap 8, 12 apresenta outro sentido para sol, lua e estrelas não cabe tão certamente aqui. Ali traz o sentido literal, de sol, lua e estrelas sendo ofuscados para não brilharem. Trata-se dos astros nessa visão. Em Apocalipse 12 o sol, a lua e as estrelas são símbolos espirituais.

De fato, o dragão é um símbolo e lida com estrelas simbólicas. No entanto, o dragão é símbolo revelado de Satanás. Assim, as estrelas são de fato anjos.

A interpretação da Judeia tornando-se província romana em 63 a. C. é curiosa. Mas não precisa muito esforço para identificar o poder simbolizado pelo Dragão, pois é o poder espiritual de Satanás.

Se é claro que “o filho varão representa Jesus Cristo” nascido em Belém, deve ficar claro que a mulher é Maria e o Dragão já está revelado como Satanás.

Então, eis que surge uma nova revelação ao continuar a procurar o poder simbolizado pelo Dragão: “Pois o dragão representa algum poder que tentou destruí-lo ao nascer”. Esse foi Herodes, governador romano. Portanto, nessa tentativa de destruir Cristo, esse poder perseguiu a mulher, Maria, que levou Cristo para o Egito, o deserto. E é preciso notar que o Apocalipse afirma que a Mulher recebe algo, asas de águia, e também é protegida por um tempo no deserto. Assim, temos que a mulher é tratada de forma especial com proteção divina. Entende-se a santidade da mulher nesse tratamento de Deus.

Como o dragão foi interpretado como o império romano, chegando mesmo a Herodes, para o caso específico, o que é notável a profundidade das figuras das profecias, não é de se espantar que a mulher vestida de sol que dá à luz o filho varão que reinará sobre todas as nações seja a santa virgem Maria cheia de graça e glória de Deus. A sua vestimenta é o sol, a luz resplandecente de Deus. Com certeza, essa mulher é sem pecado.

A cena é curiosa por mostrar o nascimento de Cristo e logo após sua ascensão. A mulher fica na terra e é protegida. É Cristo e a Igreja, como afirma muitos comentaristas? Sim, mas em primeiro lugar, é Cristo e Maria.

Pelo período de 1260 dias, simbolicamente, entende-se o tempo messiânico em que a mulher tem um papel na história da salvação.

O adventismo vê a Igreja no deserto como aqueles que estão fora do catolicismo e são perseguidos por ele de 538 d. C. a 1798 d. C., como 1260 anos literais. A história mostra que o papado foi fundado por Jesus sobre Pedro, já tinha seu desenvolvimento claro no primeiro século, com notável influência no segundo, e inquestionável poder espiritual na Igreja em todo esse período. Assim, escolher 538 d. C. como “quando o papado se consolidou” é algo que tem sido questionado mesmo por pesquisadores adventistas.

De fato, a Igreja é o catolicismo sob a perseguição do Império Romano. A Igreja apostólica cresceu, a mesma igreja dos apóstolos e profetas, e foi perseguida por Roma, depois conseguiu liberdade de culto, e por fim foi oficializada como religião do Império. Ao invés de olhar para os que estão fora da comunhão católica, naqueles primeiros séculos, a história mostra que se trata da própria Igreja católica que também está sob a figura da mulher. É fácil perceber isso.

Os vv. 7-12 são interpretados como a guerra ocorrendo na terra, já que a mulher e o dragão são vistos no céu, mas são personagens da terra. Assim, Miguel combateria na terra, e seria a guerra entre Cristo e Satanás. A guerra seria o ministério de Jesus na terra.

No entanto, o texto afirma que “nem mais se achou no céu o lugar deles” e que o dragão “foi expulso” e “atirado na terra”. Então, o dragão não é originalmente da terra. O texto é claro de que se trata de um lugar no céu onde o anjo Miguel e seu exército lutaram contra o Diabo. Trata-se de um tempo antes da queda.

Na interpretação adventista o dragão agora é outro, ainda que em todo o capítulo não se faça nenhuma diferenciação.

Assim, o dragão do verso 1 seria Roma e agora é Satanás. Trata-se de uma fraqueza na interpretação do adventismo que tenta ajustar seus dados à história. O leitor pode notar que no capítulo os símbolos da mulher, do filho e do dragão continuam até o fim sem mudança de sentido.

Se o Dragão é Satanás, então é o mesmo que estava para devorar o filho, que foi precipitado na terra, e que perseguiu a mulher. Essa perseguição é espiritual, mas possui seus meios físicos. Assim, o dragão se vale dos governantes romanos da época contra Jesus e sua mãe e a igreja inteira.

Em um sentido, o poder espiritual contra Cristo e Maria é o que o texto está indicando, o que desdobra nas perseguições físicas. Após a ascensão de Jesus, Maria foi protegida. Assim, também, há proteção da Igreja contra as hostes infernais.

Se o entendimento da queda de Satanás é de que se trata da perseguição à Igreja e não da sua expulsão do céu, pois mostra que logo que viu sendo expulso passou a perseguir a mulher, no v. 13, essa dificuldade de desfaz pelo que já foi dito acima, onde o filho nasce e imediatamente é levado ao céu. Na história, porém, a subida de Jesus ao céu foi muito tempo após o nascimento em Belém, quando já estava adulto. Dessa forma, Satanás expulso para a terra na guerra do céu, é mostrado agora na perseguição da Igreja.

Notemos que o Apocalipse 12 inicia com a visão do céu: “um grande sinal no céu: uma mulher...”. E segue: “Depois apareceu outro sinal no céu: um grande dragão vermelho”. Tudo está no céu, a mulher e o dragão. Assim, é mostrada a guerra e a precipitação de Satanás e “os seus anjos”, o que simboliza o mesmo que  está no verso 4: Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu...”. O texto é amplo em sentido, e mesmo aludindo à guerra que houve no céu há milênios, também fala da vitória de Cristo pela cruz e ressurreição. Trata-se de mostrar o tempo do dragão, que é limitado.

Para o adventismo a igreja fugiu para o deserto em 538 d. C. Mas o texto afirma que logo após a ascensão isso aconteceu. O que se deu com a virgem Maria? O que aconteceu com os apóstolos e primeiros cristãos após a ascensão? Como seguidores de Jesus, foram perseguidos.

As palavras “Agora, veio a salvação” podem ser entendidas como a salvação pela fé, como garantia, mas temos de fato redenção e vida eterna, pelo conhecimento de Deus e pela possibilidade de estar com Cristo no céu como estão as almas dos fieis mortos.

Então afirma o verso 13: “Quando, pois, o dragão se viu atirado para a terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho varão.” Está pois provado que se trata do mesmo dragão do verso 4.

O diabo teve grande ódio contra a virgem Maria após ver-se derrotado após Jesus Cristo ressuscitar e subir ao céu. Mas ela foi protegida por Deus. Assim, passou a perseguir “a igreja que Cristo havia fundado”, como afirma Uriah Smith.

Ele frisa o fato da mulher fugir para o deserto, afirmando que a Igreja estava no deserto, em “estado de reclusão, fora do olhar público, e ocultamento dos inimigos”. Mas isso lembra em especial o ocultamento da virgem Maria naqueles anos, pois a Igreja estava em pleno desenvolvimento.

Afirmar que a Igreja oficial “não era a igreja de Cristo” é fazer um salto para fora do texto. De fato, há detalhes que o comentarista não trata, como a de que os descendentes perseguidos são filhos da mulher. Dessa forma, essa mulher é mãe da Igreja. Essa conclusão parte da leitura natural dos símbolos apresentados na visão.

Basta olhar apara a história e ver a Igreja em sua missão e evangelização de todo o mundo conhecido, dentro do Império Romano, sofrendo duras e sangrentas perseguições, ensinando, convertendo nações, defendendo a fé por meio de pregações, escritos, concílios. Se a Igreja fugiu em 538 d. C., deveria ter sido essa. Mas, se foram minorias que pregavam ideias bastante desconexas e não participavam do crescimento do evangelho de forma a caracterizar a Igreja apostólica em desenvolvimento, então trata-se daqueles que não eram dos nossos, para usar a frase de São João.

As asas de águia que a Igreja recebeu lembram o momento em a virgem Maria fugiu apressadamente com Jesus, sob os cuidados de José, para o Egito. Essa foi de fato a pressa com a qual precisou fugir. A pressa de Maria. Depois, vemos a Igreja Católica sendo perseguida pelo Império. Basta ver quantos bispos de Roma (papas) foram mortos desde São Pedro.

E quanto as águas da boca da serpente, o adventismo afirma que são as falsas doutrinas do papado. Contudo, onde estão as doutrinas “corretas” que estavam escondidas com a igreja oculta no deserto? Não foi a Igreja oficial, católica, que ensinou, pregou, batizou, criou nações, defendeu a fé, alcançou misericórdia de Deus ao dar a ela liberdade de culto e ter as perseguições diminuídas? Não foi essa igreja que copiou a Bíblia, que a traduziu, que preparou edições para a liturgia, para assim garantir o ensino a todos? O papel dos hereges, daqueles que se revoltavam contra a igreja, em suas pregações, traduções da Bíblia, escritos, etc, estão circunscritos a pequenos espaços de tempo, a divisões marcantes, a doutrinas desconexas e errôneas, de modo que não podem ser historicamente uma igreja, mas grupos divididos que se separavam da Igreja Católica.

A terra “socorreu a mulher” poderia ser uma alusão posterior ao Império Romano aceitando a fé cristã? É possível. Mas o adventismo prefere ver esse tempo relativo ao século dezesseis com a Reforma Protestante, que começou a fazer seu trabalho contra o Catolicismo. Martim Lutero falou respeitosamente do papa, embora já criticasse os abusos cometidos em seu tempo. Chegou, porém, mais tarde, a comparar o papado com o Anticristo, o que foi um exagero seu. Sua doutrina foi forjada em muito de sua subjetividade com seus íntimos dramas, que encontrou certos consolos em seus estudos bíblicos. Porém, continuou seus conflitos mesmo após ter deixado a igreja por anos.

Quando o povo pautou sua consciência “apenas pela Palavra”, deixando o Catolicismo, a piedade diminuiu, o fervor foi se apagando, a religião protestante dividiu-se mais e mais, e Lutero viu que sob o papado havia mais devoção. De fato, a consciência estava sendo forjada apenas pelas leituras muitas vezes errôneas da Palavra, e não pela Palavra de Deus.

O comentarista adventista afirma: “Os defensores da fé verdadeira se multiplicaram”. Isso porque pensa que todos aqueles que atacavam Roma estavam, de certa forma, com melhor luz e entendimento.

Embora Lutero aceitasse em maior grau as doutrinas antigas da Igreja, isso era visto como um menor nível de reforma. Assim, Zwínglio foi mais longe ao negar pontos essenciais da fé católica, como fez também Calvino, Melanchton, Bunyan, Knox, Whitefield, Fletcher, Miller e tantos outros. Dividiam-se, embora unidos em certos pontos, como não é de surpreender. O que fica patente é que não se pode negar que a Igreja mantém a mesma fé, não tendo que de acomodar às críticas e novidades surgidas, mesmo após cinco séculos, de modo que as mudanças não interferiram na essência da doutrina cristã católica, a ponto de seus adversários muitas vezes afirmarem que Roma é sempre a mesma, ainda que o façam em sentido bastante pejorativo.

De fato, a Igreja Católica Romana é sempre a mesma, sempre ensinando o evangelho eterno de Jesus Cristo. E o comentário segue afirmando que a Igreja Católica, “a fúria papal” foi destituída de fazer mal à igreja. Que igreja? Os que saíam do catolicismo, como Lutero e tantos outros. Todos estavam corretos e a igreja oficial errada? É o que esse conceito de reforma assume, o que não passa em qualquer escrutínio bíblico e histórico.

Então, afirma que a terra ajudou a mulher. Mas temos que desde os tempos apostólicos a terra ajuda a mulher, como fez quando José, Maria e Jesus fugiram para o Egito. Como também quando muitos ajudaram os primeiros cristãos perseguidos, até o nível do próprio império que cedeu à força de Cristo agindo na Igreja durante séculos e tornou-se ele mesmo cristão, membro da cristandade.

Os descendentes da mulher são “os indivíduos que constituem a igreja verdadeira”. Se a mulher é a Igreja e os descendentes é a Igreja do fim, então teríamos a Igreja mãe da Igreja. Mais concordantemente com o capítulo, a mulher Maria é mãe da Igreja.

Mas o remanescente não apenas no tempo imediatamente final, antes da Parusia, mas o tempo de toda a cristandade, desde a ressurreição, de modo que todos os cristãos são os descendentes da mulher, desde os dias apostólicos.

E o remanescente tem como característica guardar os mandamentos de Deus. Todos sabem que a Igreja Católica é o primor de exemplo no ensino do Decálogo. Não há no Protestantismo qualquer igreja que tenha o decálogo em tão grande apreço, com tamanha ênfase. Somente os adventistas, surgidos no século dezenove, aprenderam mais a respeito da Lei e têm os mandamentos como uma de suas ênfases principais. Por isso, como os católicos, são acusados de ensinar a salvação pela Lei. Não são os cristãos católicos sempre acusados de ensinar salvação por obras? Isso deve-se ao fato de sempre estarem firmes na guarda dos mandamentos de Deus e do testemunho de Cristo.

O adventismo tem assim a roma pagã, a roma cristã (papal), a besta de dois chifres, o governo influenciado pelo Protestantismo, agentes contra os que guardam os mandamentos, ou seja, em especial os adventistas.

Contudo, temos na história desde os dias dos apóstolos, que Satanás se valeu da Roma pagã e de tantos outros impérios e reinos para subjugar a Igreja Católica, incluindo as mãos dadas ao renascimento, ao Protestantismo, ao humanismo, ao iluminismo, etc., contra o Catolicismo. E, é destaque, que o adventismo, de raízes batistas, enfatize os governos e suas investidas contra a Igreja. Aliás, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem atitude anti-católica extrema, compreensível por suas origens denominacionais e pelo século em que surgiu, e refutada nessa interpretação do apocalipse.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Livro: A lenda da imortalidade da alma: 1 Ts 4, 17

 Refutação: Não precederemos os que dormem

 

Não precederemos os que dormem – Qual seria a fé dos cristãos primitivos que ainda não tinham recebido a mensagem da ressurreição? Talvez pensassem que os mortos no sheol não retornariam para serem arrebatados na vinda de Jesus, o que explica pensarem que estavam perdidos.

Se assim o for, seriam materialistas, não crendo nem na alma nem na ressureição, o que seria muito estranho para cristãos. De dessa forma, aqueles cristãos desinformados não estariam pensando em alma imortal. Nesse cenário, nada do que São Paulo está ensinado nega a alma imortal.

São Paulo menciona alguns “que não têm esperança” (v. 13). Então, ele ensina que haverá ressurreição, com base no fato da ressurreição de Jesus (v. 14). É uma defesa da doutrina, do dogma da ressurreição. Aqui, mais uma vez, temos o seguinte: em todo o contexto 1 Ts 4,17, temos que Jesus virá e levará os salvos com Ele. Isso é o mesmo que está em Fl 3, 21, pois como cidadãos do céu, Jesus virá de lá (do céu) para ressuscitar os mortos, transformar o corpo mortal do vivos em corpo glorioso, e, como 1 Ts 4, 17, levar a todos os santos com Ele para o céu. É uma leitura bastante natural das duas passagens.

As palavras citadas de Basil Atkinson, que são tidas por corretas pelo autor do livro, ensinam que “não estaremos com o Senhor até o dia da ressurreição”, contrariando Fl 1, 23.

E outra vez, um lampejo da verdade pode ser visto, quando o autor mortalista encontra uma tradução do texto de Ts 4, 17 que está de acordo com o seu estudo, e ele usa do momento para elogiar uma tradução católica, afirmando: “Ironicamente, é uma versão católica (Ave Maria) que traduz melhor este texto...”.

Obviamente, que para nós, católicos, que estamos acostumados com a verdade, isso não é irônico, mas o comum, visto que as traduções cristãs católicas da Bíblia fazem o melhor para verter o sentido original da Palavra de Deus. Portanto, não é o fato da doutrina cristã católica ensinar a imortalidade da alma que faria uso de uma tradução que a favorecesse quando no contexto a tradução se mostraria errônea.

Então, essa passagem poderia ter implicações contra a imortalidade da alma se não houvessem tantos textos que já foram esclarecidos diante das objeções mortalistas, e que mostram que a alma é imortal. Assim, trata-se de uma passagem que não favorece o mortalismo, e apenas mantem silêncio sobre o tema da alma, como também, aliás, não fala da ressurreição dos ímpios diretamente, dando apenas uma indicação, pois diz que os mortos em Cristo ressurgirão primeiro, o que leva a entender que os demais ressurgem depois.

A ênfase na ressurreição acontece porque ela é a meta final para o salvo estar com Deus no Reino. Dessa forma, explica-se que presença da alma com Cristo não é o que se menciona nesses casos, pois trata-se de um estado provisório.

Portanto, não se pode usar essa passagem para provar que os salvos estarão com Cristo apenas na ressurreição, pois cada cada já experimenta a presença de Cristo em sua alma imortal no estado intermediário, e na ressurreição entrará no reino definitivo.

Gledson Meireles.

sábado, 20 de janeiro de 2024

Deus: o Pai e o Filho

A divindade de Jesus

Deus

Para estudar a doutrina da Trindade é preciso primeiro entender quem é Deus. O estudo será feito com base no que ensinam as Testemunhas de Jeová (TJ), que não creem na trindade, e a partir do que está na doutrina dessa denominação será feita a apresentação da doutrina trinitariana.

Deus é “O Ser Supremo” cujo nome é Jeová. Deus é aquele que tem força, majestade, dignidade e excelência. Para os membros da denominação TJ, somente o Pai é Jeová, somente o Pai é o Verdadeiro e Único Deus eterno e Todo Poderoso.

Mas, vejamos que Jesus está com o Pai, na mesma autoridade e poder, então Ele está no mesmo patamar do Ser Supremo. Também podemos ver que Jesus tem força, ainda que alguém diga que Ele a recebeu do Pai, então Jesus exerce a força do Pai, e portanto tem a força de Deus Pai. Jesus também possui majestade, dignidade e excelência. E a própria Bíblia ensina que Jesus é o Verbo, que estava com Deus no princípio, e que ERA DEUS. Portanto, Jesus é Deus, está com o Pai desde o princípio, utiliza Sua força que é também do Pai, tem majestade, dignidade e excelência. Dessa forma, Jesus tem a mesma autoridade de Deus Supremo.

No entanto, a doutrina das TJ afirma que Jesus é “um deus”, menor, poderoso, mas não como Deus Pai, tendo sido criado pelo Pai. Esse é o problema, quando se afirma que Jesus foi criado. Isso ficará mais claro no estudo.

Quando responde a questão sobre se Deus teve começo, o raciocínio das TJ é que “Nossa mente não pode compreender isso plenamente. Mas não é uma razão sólida para o rejeitar”. Isso está correto.

O mesmo pode ser dito da doutrina da Trindade de Deus, pois a Nossa mente não pode compreender isso plenamente. Mas não é uma razão sólida para o rejeitar.

Se Jesus é Deus, como as TJ ensinam isso a respeito de Jesus. De fato, todos reconhecem que Jesus afirmou que o Pai é “o único Deus verdadeiro” (João 17, 3), que que fora de Deus não há não, afirma Is 44, 6. E, por fim, em 1 Cor 8, 5-6 está escrito que há um só Deus, o Pai. Como entender o modo da divindade de Jesus, que espécie de Deus Ele é.

É um mistério, mas é como está escrito em diversas partes das Escrituras, o que forma a verdadeira teologia. Vejamos:

Em João 1, 1 está escrito que no princípio o Verbo estava junto de Deus e era Deus. No v. 3 afirma que tudo foi feito por Ele. Dessa forma, temos que desde o princípio Jesus estava junto com o Pai, Ele era Deus, e foi o criador de tudo o que existe. Dessa forma, Ele está “no” Deus verdadeiro, junto dele, como que dentro de Deus, para usar a expressão de Isaías que diz: “Além de mim não há Deus”.

Então, Deus que há um só Deus, que é o Pai de Jesus. Esse é o único Deus, não havendo “deus” fora dele. Temos que entender, por definição, que se Jesus é Deus, como está em João 1, 1, Ele tem de estar na mesma divindade de Deus único e verdadeiro. E, por revelação em João 17,3 e 1 Cor 8, 5-6, esse Deus único é o Pai de Cristo.

Quando o Salmo 104, 24 afirma: Quantos são os teus trabalhos, ó Jeová! A todos eles fizeste em sabedoria”, devemos saber que a sabedoria de Deus é Jesus, que é revelado como o Filho. Se Deus sempre teve sabedoria, temos por implicação que Jesus está com Deus desde o princípio, de modo inseparável, e que é Deus na mesma divindade com Deus único e Seu Pai, porque não pode ser deus fora dele. Desse modo, Jesus é eterno, a eterna sabedoria de Deus.

Quando se ensina pelas TJ que “Jeová é único; nenhuma outra pessoa partilha com ele a sua posição”, podemos entender isso na doutrina da trindade pelas relações das pessoas. O Pai é sempre a fonte em relação ao Filho e ao Espírito Santo, e portanto o Filho e o Espírito não possuem a mesma posição do Pai. Isso não significa que não tenha a mesma autoridade, poder, majestade, dignidade e excelência, pois cada pessoa de Deus a possui, por haver uma unidade, única divindade, e a autoridade vem do Pai e é compartilhada pelo Filho e o Espírito Santo.

Assim, Jesus é Deus, não no sentido de um Deus, mas, como demonstrado acima, é Deus com Deus na mesma divindade desde o princípio e eternamente. Ele é poderoso, como Is 9, 6. Mas, dizem as TJ que Jesus não é Todo-Poderoso. No entanto, o poder de Jesus é o mesmo do Pai, que criou tudo o que existe, pois sem Cristo nada do que foi feito se fez. Se o Pai utilizou seu poder para criar todas as coisas com a sua sabedoria, que é o Filho, então o poder é um só. Não pode haver poder menor em Deus. Se Cristo é Deus em Deus e por Ele tudo passou a existir, há o mesmo poder no Pai e no Filho e no Espírito Santo, tudo procedendo do Pai na relação entre as pessoas trinitarianas. Quando a doutrina das TJ vem no Pai o único Deus o que estão percebendo é essa relação das Pessoas de Deus: Pai como fonte, a segunda Pessoa como Filho procedendo do Pai e o Espírito Santo como essa relação do Pai e do Filho. Por isso, afirmam que o Espírito Santo é uma “energia”, negando que seja Pessoa, o que é um equívoco.

Portanto, Deus é Todo-Poderoso, e o Filho está exercendo esse poder. Portanto, Jesus é Todo-Poderoso. Jesus é Filho na relação da trindade, mas em Isaías é chamado de Pai da eternidade, Pai dos tempos eternos, o que mostra Sua existência eterna em Deus, como visto a partir de João 1, 1-3.

Desse modo, se Jesus é o “reflexo da glória de Deus” e o Pai é a “Fonte dessa glória” (Heb. 1, 3), tudo está conforme foi expresso acima onde na relação das Pessoas de Deus o Pai é a fonte e o Filho procede do Pai. Dessa forma, é reflexo da Sua glória, tendo então a mesma glória.

Então, Jesus existe na forma de Deus, como admite a doutrina das TJ, e que o “Pai ordenou que “no nome de Jesus, se dobre todo joelho”. No entanto, as TJ afirmam que isso é “para a glória de Deus, o Pai”, citando Fl 2, 5-11.

Essas explicações não contrariam a doutrina da Trindade, mas a expressam com excelência, pois e Filipenses está escrito que Jesus tem condição divina, com o Pai, como já visto acima, e possui “igualdade com Deus”, como está na doutrina da trindade.

Em João 17, 3 Jesus está afirmando a vida eterna é conhecer o Pai, “um só Deus verdadeiro” e a Jesus que Ele enviou. E no verso 4 pede a glorificação, com a glória que teve sempre com o Pai. Dessa forma, a glória que Jesus estava recebendo era a mesma que tinha antes de descer à terra. Estava sendo glorificado como Homem.

Tudo isso confirma a doutrina da Trindade, pois Jesus está no Único Deus verdadeiro, do qual é Filho, que teve sempre a glória “antes da criação do mundo”, o que indica que essa glória Ele a tem desde a eternidade, e que na terra foi glorificado recebendo na Sua humanidade da glória do Pai.

Em 1 Coríntios 8, 6 temos: “Mas, para nós, há um só Deus, o Pai, do qual procedem todas as coisas e para o qual existimos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem todas as coisas existem e nós também”.

Se alguém disser que o Filho não é Deus, pois o texto afirma que há um só Deus o Pai, também deverá afirmar que o Pai não é Senhor, pois está escrito que há um só Senhor. Na verdade, o que está sendo ensinado aí é que Deus é fonte de todas as coisas, inclusive do Filho pelo qual tudo foi feito. Assim, tudo procede do Pai pelo Filho.

Se alguém disser que Deus nessa passagem tem um sentido diverso, ou seja, que o Pai é o único Deus no sentido supremo, e que Jesus é o único Senhor no sentido da sua excelência obtida na ressureição, por exemplo, então temos o mesmo que antes, pois desde o princípio esse Jesus, que é o Verbo eterno, estava como Pai, na glória do Pai, e era Deus, não diferente nem além do Pai nem fora do Pai, mas com o Pai. Assim, esse Deus-Verbo está na mesma divindade do Deus que é o Seu Pai.

O termo Deus em Sua acepção de Ser Supremo, Único verdadeiro, Todo-Poderoso contém a Pessoa do Filho, que procede dessa suprema, única e verdadeira fonte, desde a eternidade, e, por conseguinte, do Espírito Santo. É desse modo que entende-se bem a trindade.

Dessa forma, o Filho também é eterno no Pai. Tudo o que existe veio do Pai por intermédio do Filho. Existimos para o Pai por meio do Filho. Isso porque o Filho está eternamente em Deus. Dessa forme, temos Deus em Deus, ou como está no credo constantinopolitano: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado.

Aqui está o ponto: gerado, não criado. Isso se entende que o Filho é a Sabedoria de Deus, que Deus usou para criar o mundo, nessa imagem belíssima que explica a eternidade do Filho, pois o Pai nunca viveu sem a sabedoria, e como Pai eterno, nunca esteve sem o Filho. Por isso, o Verbo junto de Deus era Deus. Temos então: Deus em Deus. Ele é único, é verdadeiro. Entende-se assim que o Pai e o Filho, duas Pessoas em Deus, possuindo a mesma divindade, constituindo o mesmo Deus.

O verbo (Jesus) estava com Deus (o Pai). A preposição pros é traduzida por “com” e indica também direção. O Filho está como Pai direcionado ao Pai desde o princípio, antes da fundação do mundo.

Então, existe diferença entre a filiação de Jesus e a nossa. Jesus é Filho único do Pai, ainda que Deus tenha mais filhos adotivos na graça. Jesus é Filho não porque foi criado diretamente pelo Pai, como se o Pai tivesse criado antes de todas as criaturas a primeira criatura, quando o Pai estava sozinho.

De fato, não é assim, já que a Bíblia mostra que o Filho é o meio pelo qual o Pai criou todas as coisas, o que só pode significar que o poder que o Pai exerce para originar tudo é o que está no Filho e age por meio do Filho. Desse modo, o Filho não pode ser menos poderoso agindo em concomitância e auxílio ao Pai Todo-poderoso, pois senão as obras seriam diversas, umas vindas do Pai, outras do filho, como se fossem de dois deuses, um Supremo e outro subordinado.

Se o Pai cria todas as coisas por meio do Filho, o Filho é criador como Pai, no mesmo poder. Assim, esse Filho que é o Verbo junto (πρὸς) de Deus desde a eternidade, cria como mesmo poder do Pai.

Por isso, Jesus dizia: “Meu Pai e vosso Pai”, “meu Deus e vosso Deus” (João 20, 17). Deus é Pai de Cristo de maneira diversa, e é Seu Deus também de maneira diversa, pois o Filho está no Pai, é seu reflexo e sua imagem. De fato, o Filho é igual ao Pai, em sua “igualdade com Deus”, como está em Fl 2.

Jesus é Deus (Jo 1,1), tem a forma (μορφῇ) de Deus, (ἴσα) igual a Deus (Fl 2, 6), a exata expressão (charaktér) de Deus. E ainda, que sustenta toda a criação com o poder da Sua palavra.

Se alguém disser que esse poder provém de Deus, o Pai, como Fonte, está correto, pois o poder do Filho é o mesmo do Pai, como mesmo Deus que é, lembrando que o Verbo era Deus e estava com Deus, e por isso foi o criador de todas as coisas e sustenta todas as coisas com o Poder da Sua Palavra. Por isso, também o Pai está sustentando tudo, já que sempre trabalha, como diz Cristo no evangelho: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (João 5, 17).

Tudo o que o Filho faz é por ver o Pai fazer. Assim, utiliza o mesmo poder do Pai, que é Todo-Poderoso. E a honra que o Filho recebe é igual à do Pai: “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai” (João 5, 23). Sendo essa honra ao Pai uma honra suprema, de adoração, também o Filho é honrado com suprema honra. O Verbo encarnado realiza a obra do Pai e recebe igual honra. Lembrando que Ele sempre esteve como Deus e era Deus (cf. Jo 1, 1-3).

Outra prova da divindade de Jesus Cristo no sentido pleno de Deus eterno e Todo-Poderoso é João 1, 18. Está escrito que “o único gerado Deus, o que está no seio do Pai”, que é a mesma doutrina de sempre: o único Deus gerado no seio do Pai, e não criado, esse é o único que viu a Deus de uma forma única, diversa, que pode fazer depender dele toda a revelação. Os anjos veem a Deus, mas não em Deus, na intimidade de Deus, no interior de Deus, junto com Deus, no seio de Deus, como o Filho. Assim, entende-se a trindade.

Para as TJ, Jesus tem a qualidade de um deus, como pessoa que está em uma posição elevada em relação aos outros, mas não crê que seja de fato Deus, mas uma criatura elevada. Então, quando afirma que Jesus não disse que era Deus mas que era “Filho de Deus”, isso não muda nada, pois uma vez que se apresente que Jesus é Deus, logo dirão que é “um” deus menor. Assim, se existisse essa frase: Eu sou Deus, diriam que Ele era um deus no sentido que está na doutrina da denominação.

Jesus é chamado o Emanuel (Deus conosco). Mas, e quanto a outros nomes que possuem o nome de Deus, como Eliata (Deus veio), Jeú (Jeová é ele), Elias (meu Deus é Jeová), sem que nenhum desses homens fosse o próprio Deus?

Com Jesus o nome indica muito mais. De fato, em Hebreus 1, 5 está escrito que a nenhum anjo Deus disse: eu hoje te gerei e quando Cristo desceu à terra foi dito: Todos os anjos de Deus o adorem (προσκυνησάτωσαν). Esse contexto não diz respeito à uma certa homenagem, que pode ser dada a governantes e grandes figuras, mas se trata de uma ordem de Deus para o anjos adorarem o Filho encarnado. Essa adoração é dada ao Verbo-Filho de Deus como homem, pois ele é a Pessoa do Verbo eterno, como visto antes.

É certo que, por ter a palavra “adorar”, nas línguas originais, o sentido de veneração, homenagem, isso exige atitude do coração e da mente reconhecendo Jesus como Filho de Deus, Salvador, vindo do Pai, igual ao Pai em natureza divina. Se alguém não crê na divindade de Jesus igual à do Pai, de fato não o está adorando como Hb 1, 6 exige.

Artigo escrito com base no livro: Raciocínio à base das Escrituras. Obra publicada pelas Torre de Vigia.

Gledson Meireles.