Na explicação do texto de
Mateus 10, 28, o apologista adventista traz algumas contribuições para o
entendimento da passagem que reforçam o imortalismo, ao mesmo tempo em que
ajuda a entender como os mortalistas leem a passagem. No entanto, traz uma
comparação que não exprime bem a doutrina do adventismo.
Aqui não está sendo dito que
o mesmo não entenda a doutrina que ele mesmo crê, pois de fato entende. E é
competente ao defendê-la.
Também não é dito que o
exemplo é totalmente errôneo, pois em si traz verdades, mas que e incompatível
com o adventismo, pois que profundamente a comparação empregada não transmite a
mensagem adventista. É a linguagem bíblica que redunda em dualidade, não em
monismo. Nessa comparação, o "eu" na verdade não seria parte do ser,
como de fato é, e é o sentido do evangelho, mas, na comparação feita pelo
apologista, e contra a sua vontade, esse eu se torna algo como "a garantia
da vida eterna". Vejamos.
De fato, ele afirma que
Jesus, ao dizer que alguém pode matar o corpo e não a alma está essencialmente
mostrando que a alma morre igual ao corpo: “Mas a essência do texto traz
justamente o ensino oposto: Jesus deixa claro que a alma pode morrer igual ao
corpo.”
Assim, Jesus estaria
pretendendo ensinar outra coisa, que não implicaria na imortalidade da alma.
Jesus ensinou que mesmo que alguém seja morto, um dia Deus o ressuscitará.
De fato, o cerne da questão
ensina a salvação, mesmo dos mártires. Jesus quer mostrar que os homens não têm
o poder de tirar a graça da salvação de alguém. Todos estamos de acordo com
isso.
Contudo, a implicação da
passagem permanece de pé. Jesus usa uma dicotomia entre corpo e alma, e o
contraste mostrado é que o corpo pode ser morto por alguém e a alma não. Aqui
estão duas partes da natureza humana.
Obviamente, que é levado à
iniquidade, à corrupção interior, será morto também na alma, em morte
espiritual. Mas isso o adventismo não ensina, pois não divide corpo e alma. Por
isso, a crítica aqui.
Embora o apologista
adventista não acredite que há separação entre corpo e alma, que não poderiam
ser separados nunca, e que a alma morre como o corpo, sendo a alma vivente a
própria pessoa, aqui, ao tentar explicar a passagem, revela um dualismo sem
perceber. Dualismo nas palavras.
Por exemplo, ao escrever: “Ele
ressuscitará com um novo corpo e a mesma identidade de antes. Alma, nesse
texto, é um sinônimo para personalidade, identidade, “eu”.”
E prossegue: “É a parte que
retornará no corpo redimido e viverá a eternidade.”
Com isso, ele, de algum
modo, divide o corpo e o eu. O corpo pode ser morto, mas o eu não. E o “eu”
parece sair do corpo, já que é dito que ele “retornará no corpo rediminido”.
Não diz, é claro, retornará ao corpo redimido, mas que retornará no corpo.
Certamente a linguagem
pretende não se confundir com o dualismo, mas esconde a dificuldade de explicar
a passagem clara de Mateus 10, 28.
Obviamente, a citação de 2
Pedro 1, 13-14 requer essa expressão, pois o apóstolo fala de deixar o tabernáculo.
Mas não se trata apenas de linguagem, mas de realidade. São Pedro, como
imortalista, sabia que a alma consciente deixa o corpo na morte. Mas o
adventista não tem essa compreensão, mas procura adequar-se à linguagem
bíblica, com outra doutrina.
Ele afirma que o ‘velho
corpo morre’, mas o redimido em Cristo ganha novo tabernáculo. Isso é o mesmo
que ensina a imortalidade da alma. O corpo é morto, a alma não. Essa retorna ao
corpo na ressurreição, no corpo redimido. A doutrina é diferente e é expressa
pela mesma linguagem católica.
No entanto, na verdade, no
monismo adventista, quando se diz que o velho corpo morre, significa que o
redimido deixa de existir e depois será refeito, como novo tabernáculo. Não é o
mesmo que a metáfora bíblica está apresentando.
Quando explica que quem mata
um verdadeiro seguidor de Jesus Cristo não matou a pessoa como um todo, mas
apenas o corpo, está usando de uma linguagem comum com os cristãos católicos,
por exemplo, mas não partindo da mesma concepção.
De fato, na literalidade, a
doutrina adventista do sétimo dia afirma que quem mata alguém mata-o
totalmente, pois não há separação corpo e alma. A alma vivente morre. Para
o católico, a alma literalmente não morre.
Quando se diz que: “A
personalidade dorme até a ressurreição”, significa apenas que a personalidade
morreu, deixou de existir, sob a metáfora do sono. De fato, para o adventismo a
personalidade estava no corpo e deixou de existir no corpo e com o corpo vivo.
E conclui da seguinte forma:
“Por outro lado, aqueles que conseguem corromper uma pessoa moral e
espiritualmente estão levando a pessoa à morte plena no inferno. Morrerá corpo
e tudo o mais, não restando nada.”
Desse modo, a corrupção de
alguém leva-o a morrer inteiramente, corpo e tudo mais. Mas isso é o mesmo que
ocorre com o salvo antes da ressurreição, onde o mesmo morre o corpo e tudo o
mais não restando nada, e que no fim Deus deverá recriar o ser total. A
tentativa de afirmar que o “eu” não pode ser morto com o “corpo” não é
satisfatória.
De fato, a ideia que subjaz
a esse linguagem é que na morte do “corpo”=tudo não morre a “esperança da
salvação garantida”, o que é outra coisa. Essa garantia que não é destruída na
morte seria a “alma”. Mas o próprio adventista explica que a alma é o “eu”.
Essa explicação não se adequa ao texto de Mt 10, 28.
De fato, o “eu” deixando de
existir quando o “corpo” morre, é o mesmo que afirmar que o eu foi morto,
já que não há como separá-lo do corpo.
O “corpo” retorna ao pó e se
torna pó (Gn 3, 19) e o espírito retorna a Deus (Ecl 12, 7). Esse espírito não
é o eu da pessoa, mas a energia vital. E o corpo não é mais o eu, mas a alma
vivente que morreu.
A explicação do apologista
ao tentar criar um “eu” que se separa do corpo não tem respaldo na doutrina do
adventismo, sendo apenas uma linguagem metafórica para dizer o mesmo, ou seja,
que o eu foi extinto na morte e será recriado na ressurreição para a vida
eterna, por causa da promessa de Deus aos salvos. É uma falha a adequação da
doutrina adventista à doutrina bíblica.
A “alma” nesse conceito aqui
apresentado pelo apologista adventista seria o núcleo da personalidade, da
individualidade, da consciência, que no adventismo está totalmente ligada ao
corpo e funciona somente no corpo.
Uma vez que o corpo é morto,
também o seria a alma. Isso contradiz o que Jesus diz: os que matam o
corpo e não podem matar a alma.
Somente os condenados têm o
corpo e a alma jogados no inferno. Não se trata de aniquilamento, mas de
condenação.
Desse modo, a alma aqui não
é o eu. Isso pode ser demonstrado, uma vez que, se na morte tudo deixa de
existir, o eu morre. Mas Jesus afirma que a alma não pode ser morte. Então, a
alma não é o eu, conforme a explicação adventista.
Também, ao dizer que “Jesus
deixa claro que a alma pode morrer igual ao corpo”, essa explicação é evidente
que para o autor adventista o “eu” pode morrer igual ao corpo.
Se a alma é o “eu” no
sentido metafórico, temos que:
Os que matam o corpo não
podem matar o eu, já que esse é o que tem garantida a vida eterna. Os que matam
o corpo não podem tirar essa garantia. A alma deteria o conceito de “garantida
da vida eterna”.
Mas há a possibilidade, nos
reprovados, do corpo e da garantia da vida eterna ser jogada no inferno. Isso
não concorda com o texto sagrado. Assim, essa metáfora não funciona.
Se a alma é literalmente
parte outra do ser humano, temos que:
Os que matam o corpo não
podem matar essa parte do ser. Na condenação, há destruição do corpo e dessa
outra parte do ser, no inferno. O que faz todo sentido. A alma pode ser
separada do corpo.
Por fim: fazer perecer o
corpo e alma no inferno seria fazer perecer o corpo(tudo) e a alma(eu) no
inferno, seria o mesmo que perecer corpo e alma no sentido imortalista.
No entanto, fazer perecer
corpo e não a alma (que estaria contendo o sentido de que a morte do corpo não
incluiu a condenação à morte eterna), é o mesmo que dizer: fazer perecer o
corpo e a garantia da vida eterna na geena, o que é absurdo. Ninguém com garantia
da vida eterna vai para a geena.
Mas, retomando ao sentido
que o apologista deu ao termo em sua apresentação: "Alma, nesse texto, é
um sinônimo para personalidade, identidade, “eu”.", então, como já
provado, ninguém pode matar o eu. Dessa forma, o eu é imortal, e somente o
"eu" dos condenados pode ser dito como "morto".
Volta-se, assim, ao ponto
inicial: a alma não pode ser morta. O eu não pode ser morto.
Se no adventismo a morte é a
extinção do ser, então o "eu" pode ser morto, contradizendo o que o
texto sagrado diz.
Dessa forma, o conceito de
alma=eu, que foi declarado expressamente, e o conceito de alma=garantida da
vida eterna, que apareceu como implicação do que foi apresentado, mostram o
desequilíbrio da defesa da doutrina adventista nessa passagem.
Portanto, isso está
refutado.
Gledson Meireles.
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