terça-feira, 25 de janeiro de 2022

John Owen: capítulo 11, livro II

Capítulo ainda em estudo, mas já disponibilizado, para que possa ajudar aqueles que estudam o tema.


Capítulo 11

Sobre os fins imediatos da morte de Cristo

Segundo Owen, Cristo morreu na cruz e intercede para que os bens adquiridos sem aplicados sobre todos pelos quais morreu. As passagens apresentadas são Mateus 18, 11, também Lucas 19, 10. Cristo veio cumprir a vontade de Deus de recuperar pecadores perdidos. Assim, se Cristo não recuperasse quem Ele veio salvar, Ele falharia no Seu propósito. Owen argumenta que se o propósito de Deus é salvar por meio de Cristo, todos pelos quais Cristo morreu devem ser salvos.

No entanto, Jesus várias vezes revelou Sua tristeza diante da recusa dos pecadores, o que não faria sentido, visto que Ele é Deus e conhece o coração de todos, e não estaria decepcionado pela resistência de pecadores que não estivessem no sacrifício salvífico que iria realizar na cruz.

Em todo o contexto, o Senhor Jesus nos mostra que o servo, aquele que foi perdoado por Deus através do sacrifício de Sua cruz, que é o único meio de perdão, esse mesmo servo pode ter seus pecados levados em conta uma vez que não perdoe seu irmão (cf. Mateus 18, 23-35)

A parábola é claro quanto ao assunto, que diz que o Senhor tratará da mesma forma como foi tratado aquele o servo. De fato, o servo havia sido perdoado, e após o perdão cometeu o pecado contra seu irmão, não perdoando. Foi por isso chamado pelo Senhor e castigado por ele.

Essa passagem pode falar do purgatório, que purifica penas dos pecados ou pecados veniais, cometidos sem plena culpa, com voluntária maldade. Mas, pode tratar da perda de um salvo, uma vez que na teologia protestante essa passagem é entendida que o homem não conseguirá nunca pagar a sua dívida, referindo-se às penas do inferno. Se o pecado é mortal o servo estaria condenado, uma prova de que o salvo pode deixar a graça, e pode ser perdido alguém pelo qual Cristo morreu, que recebeu de fato em si o perdão dos pecados. Assim, quando o Senhor afirma que veio salvar os perdidos, Ele veio salvar a todos (cf. Mateus 18, 11).

Por implicação, pode-se afirmar que aqueles que já estavam à espera do Messias são as ovelhas, os que se desgarraram podem ser hereges, apóstatas, e todos os pecadores que ainda não faziam parte do rebanho. Dessa forma, a redenção universal é pressuposta em todo o contexto.

A mesma doutrina encontramos na conversão de Zaqueu. Ele quis a presença do Salvador, procurando-o. Arrependeu-se dos pecados. Aceitou a graça. Em Lucas 19,20-22 servo mau havia recebido a mesma quantia, a mesma graça, e não fez nada com ela, conforme as exigências do Senhor. O senhor tomou-lhe de volta o dinheiro, assim como o Senhor retira sua graça daquele que a deixou em vão. O servo perdeu a salvação. A comparação possibilitada pela parábola é contrária à noção de que aquele homem não era servo, pois o Senhor o chamou e deu a ele a mesma quantia que dera aos demais.

O verso 23 mostra que o senhor daquele homem esperava os juros daquele dinheiro que tinha dado para que ele o administrasse. Essa é a hora do juízo onde Deus espera o resultado do uso da Sua graça. Não pode alguém receber graça salvífica a não ser pela morte de Cristo. É a possibilidade da perda da graça: “Chamou dez dos seus servos” (v. 13). De fato, era um dos dez. Assim, Cristo veio salvar o que estava perdido (cf. Lucas 19, 9), e há os que se perdem por não usufruírem da graça recebida. Prova-se que Cristo morreu por todos.

Aquele serve havia recebido a graça para poder agradar seu senhor, mas não o fez. Isso mostra a graça necessária a todos, para a salvação, e o livre-arbítrio que pode seguir ou não, para obedecer ou não. O servo mau preferiu não obedecer às ordem: “Negociai até eu voltar” (v. 13), ainda que conhecesse o senhor e soubesse do seu rigor (cf. v. 23). Eis a graça necessária, eis o livre-arbítrio, eis a redenção universal.

Quando é dito que Cristo veio salvar Seu povo (cf. Mt 1, 21), Owen afirma que isso significa a completa e perfeita salvação do povo pelo qual Cristo veio salvar. Mas, tal coisa não é necessária de se concluir. O povo de Israel esperava o Messias, o Salvador. Cristo veio salvar seu povo. E, ainda, veio formar o povo novo, de Israel e todas as nações.

São Paulo afirma que Cristo veio salvar os pecadores, em 1 Timóteo 1, 15. Isso não significaria a abertura da porta para que venha quem quiser, não seria para dar um caminho para a salvação, não para comprar a reconciliação e perdão para quem talvez nunca irá experimentar, mas salvar de toda culpa e poder do pecado, e da ira de Deus por causa do pecado. Do contrário falharia no objetivo da Sua vinda. É um argumento a favor da expiação limitada.

São Paulo afirma que Jesus o estimou (ἡγήσατο) como fiel, e o escolheu para o ministério. Trata do chamado interno, da vocação, que acompanhou sua conversão, e que vem de Cristo Jesus, que conhece o íntimo do homem. Quando Cristo tem por fiel um homem, é porque de fato ele o é, pois sua estima não pode errar. Ainda, se a fidelidade é efeito da graça, não é mesmo verdade que o livre-arbítrio foi considerado nessa transformação, certamente simultânea, graça-livre-arbítrio, pois chamando alguém ao ministério, estimando-o por fiel, é o mesmo que dar-lhe a confiança.

Considerando o conhecimento infalível de Deus, essas palavras são melhores entendidas segundo o livre-arbítrio do homem, que de um determinismo causado por Seu decreto.

São Paulo ainda fala da sua ignorância, motivo da misericórdia alcançada por Deus. De fato, Deus não chama o endurecido que voluntariamente se põe contra Ele. Assim, o apóstolo afirma que encontrou misericórdia porque (hoti) sendo ignorante (agnoon) pois agia na incredulidade, na descrença. Mais uma vez, isso mostra o livre-arbítrio, onde Deus conhecendo o coração, vê a ignorância do pecador, que age por não conhecer a fé, e o cumula de graça.

Com essas palavras, vemos que o zelo pouco esclarecido de Paulo foi contado por Deus, que viu um homem bem intencionado e ignorante, agindo fora da fé, e por isso deu-lhe a graça, confiando o ministério de apóstolo, julgando-o digno de confiança. Essas qualidades que São Paulo tinha eram dons de Deus, mas provenientes de sua liberdade, que foram levadas em conta para que fosse chamado ao evangelho e ao ministério apostólico. É o mistério da graça e do livre-arbítrio.

Por isso, quando diz que Jesus veio “salvar os pecadores”, São Paulo está falando de todos, considerando a grandeza da graça, da fé e do amor que há em Jesus. Versos adiante, São Paulo fala daqueles que não permaneceram no bom combate com fidelidade e boa consciência e naufragaram na fé (v. 19). Isso mostra mais uma vez, em todo o contexto, com exegese sólida, que o Senhor dá a graça, e que o homem pode negá-la a ponto de naufragar na fé. Por isso, Cristo veio salvar os pecadores, para que creiam, para que obedeçam, para que andem no bom combate e, assim, não naufraguem na fé. Dessa forma, trata-se de mais uma passagem que ensina a redenção universal.

Cristo veio na carne, semelhante aos seus irmãos, para expiar os pecados do povo (Hebreus 2, 17.18) Ele não veio expiar os pecados de alguns, mas de todo o povo.

Ainda, o texto de Hebreus 2, 14-15, que daria o inteiro fim da dispensação da encarnação e oferta de Jesus, na libertação dos que o Pai Lhe deu, não a compra de uma possibilidade de libertação. Não são todos os homens filhos, como os que o Pai Lhe deu, e todos os homens não são libertados, como podemos perceber facilmente. Conclui assim que não foi por todos que Jesus tornou-se carne e sangue.

Em Hebreus 2, 10 é dito que Jesus veio levar “muitos” filhos à salvação. Não diz todos os filhos, o que na leitura reformada seria de se esperar. Se a palavra muitos é tecnicamente e mais comumente entendida como em contraste com todos, referindo-se à alguns entre a totalidade, então está sendo dito que não são todos os filhos que serão salvos, mas muitos deles. Essa argumentação é feita apenas para fins de reflexão. Sabemos que todos recebem a graça para serem salvos, por meio de Cristo.

Sim, Cristo veio em socorro da raça de Abraão (v. 17), não só em relação à carne, mas também por meio da promessa. De fato, Cristo veio salvar a todos, mas aplicará a salvação pela fé, conforme a promessa. Dessa forma, o contexto inteiro, provando a universalidade da redenção, afirma em Hb 3, 6 que é necessário crer e perseverar até o fim, como condição para a salvação.

Owen cita as passagens mais claras, que seriam Efésios 5, 25-26 e Tito 2, 14. Afirmar que Cristo entregou-se “pela Igreja” e “por nós” seria expressar toda a extensão e força do Seu sacrifício, portanto, somente pelos eleitos.

No entanto, se um pai de vários filhos afirma, em determinada ocasião, seu amor por um filho, não significa que não ame os demais. Assim, expressões que afirmam a entrega na cruz por alguém, pela igreja, por nós, e etc., não limitam o sacrifício de Cristo na intenção apenas desses, mas os inclui, já que o sacrifício é universal, e agora esses estão participando dos seus frutos, e foi igualmente para isso, para formar Sua Igreja e o povo de Lhe pertence, que Cristo veio ao mundo. A Escritura revela como isso é feito, e não se trata de que Jesus veio salvar muitos, mas veio para todos.

Para Owen se a redenção fosse universal, todos deveriam ser Igreja, Povo de Deus, purificado, santificado, glorioso, trazido a Cristo, ou então Cristo teria falhado em relação a grande parte dos homens. Se assim o fosse, a Escritura não daria tamanha condição como em Hebreus 3, 16, contextualizado, como mostrado acima.

Em relação a João 17, 19, Owen afirma que Jesus não orou pelo mundo, como diz o verso 9. Contudo, Jesus estava falando dos apóstolos que foram entregues a Ele. Não estava orando por aqueles que estavam contra o evangelho, por pura dureza de coração, mas pelos apóstolos e por todos os que irão crer. De fato, tal exemplo realça a graça e o livre-arbítrio novamente.

Deus quer nos adotar como filhos, dar-nos o Espírito, trazer-nos para perto dEle. Esses são os propósitos de Deus, pelo qual Deus o Seu Filho. Assim, Owen afirma que o sacrifício da cruz não foi feito por todos. Deus fez de Cristo pecado por nós para que fôssemos justificados. Todos deveriam ser justificados, é o argumento de Owen.

No entanto, Cristo foi sacrifício por todos, e a suficiência do Seu sacrifício não diminui se muitos não O aceitam. Os textos acima apresentados são suficientes para entender isso.

Quando Cristo alcança para nós a eterna redenção, para purificar nossas consciências (cf. Hebreus 9), não quer dizer que todos deverão receber esses dons e graças, mas que somente aqueles que cumprirem as exigências mínimas necessárias, a condição que o Senhor estabeleceu, esses serão redimidos.

Ainda que a própria condição seja fruto da redenção, há uma parte do pecador a ser feita, para que possa receber a salvação, a saber: o ato de crer. A Bíblia afirma que a fé não é algo que o homem acrescenta, não é obra, e por isso qualquer objeção que faça da fé uma coisa que o homem adiciona à salvação não é argumento de natureza bíblica.

Dessa forma, deve-se ter em mente que Romanos 4 trata do ato de fé como sendo algo do livre-arbítrio humano ao compará-lo com as obras. O homem pode crer ou realizar obras para receber o salário justo. Ao que trabalha há uma dívida para com ele. Ao que apenas crê, Deus gratuitamente Lhe dá a justiça, como se tivesse feito algo. Essa é basicamente a doutrina de toda a Escritura quanto à justificação. Isso está de acordo com o dom da fé, recebido de Deus, pois Deus auxilia a liberdade que deu ao homem e não opera tudo sozinho pela graça. Deus dá a graça de crer em Cristo (Fl 1, 29), mas o ato de crer ainda é também exercido pelo homem em seu livre-arbítrio.

Aqueles que na antiga Lei eram purificados pelos sacrifícios de animais, recebiam legalmente seus efeitos. Assim, os que são purificados pelo sangue de Cristo são eficazmente santificados. Deve-se, com isso, saber que todos os filhos de Israel ofereciam os sacrifícios com fé de que seriam por eles livrados das exigências legais e purificados dos seus pecados pelo ato realizados. Da mesma forma, na Nova Aliança somente terão o efeito do sacrifício de Cristo aqueles que forem pela fé e o batismo introduzidos na aliança, e não que todos pelos quais Cristo morreu serão eficazmente postos na nova aliança.

Cristo recebeu a maldição da Lei na cruz, em nosso lugar. Assim, podemos agora pela fé em Cristo ser salvos.

Owen cita o texto de Cl 1, 21-22, que trata da reconciliação. O mesmo não ajuda a tese do autor, que afirma que a reconciliação operada na cruz deve ser aplicada eficazmente somente nos eleitos porque foi somente para eles preparada.

Algo contrário lemos na passagem de Colossenses 1, 21-22, com inclusão do verso 23, para melhor contextualização.  O verso 22 trata a reconciliação aplicada no salvo, através da morte de Cristo. O verso 23 fornece a condição: “se de fato continuais na fé” (εἴ  γε  ἐπιμένετε τῇ πίστει, ei ge epimenete te pistei). Sem essa condição não há como apresentar-se santos, imaculados, irrepreensível a Deus. Como poderia uma condição dessa ser dada em contexto de clara reconciliação com Deus aplicada no pecador se tal possibilidade fosse ausente? Impossível.

Entretanto, em Cl 3, 12-13 todos são chamados de eleitos, santos, e perdoados por Deus. Não é de crer apenas em uma linguagem que trata da aparência exterior e da estima humana, mas de fato, em realidade para todos os que estão na fé.  Então, no próprio texto que trata da salvação é dada também a condição para permanecer nela.

Pela doutrina bíblica, Abraão é o pai dos judeus, segundo a carne e segundo a promessa De fato, é pais dos circuncidados, e não só desses, mas principalmente dos que creem (cf. Rm 4, 12). Tornou-se pai de todas as nações, pela promessa, porém é pai daquele que crê. Assim diz a Escritura: “E assim se tornou o pai de todos os incircuncisos que creem” (Rm 4, 11).

As nações foram feitas herdeiras (cf. Ef 3, 6). Disso, entende-se todas as nações, em geral, resguardando a condição da fé, que é igualmente exigida dos judeus naturais. O texto de Ef 2, 13-16 trata dessa verdade, da união dos dois povos, gentios e judeus, reconciliando-os pela cruz de Cristo. Não há necessidade intrínseca para ler o texto no sentido exigido pela interpretação de Owen, onde a reconciliação deverá certamente ser aplicada a em favor dos quais Cristo fez reconciliação. De fato, a condição de permanecer na fé para a salvação dos reconciliados depõe contra essa leitura.

Sabe-se que Owen tem tais exortações como suposições impossíveis, com meios empregados para manter os eleitos na fé, ensinando-os o que seria se tal condição não fosse cumprida. No entanto, tal leitura é patentemente forçada, e o contexto da Escritura a dispensa. De fato, todos são exortados, a possibilidade é verdadeira, e muitos provam-na por não esforçarem e não perseverarem.

O argumento então seria de que os que naufragam na fé nunca foram de fato regenerados e santificados, e foram apenas iluminados para conviverem temporariamente entre os crentes. Deve-se responder a isso com a verdade da Escritura que mostra sem qualificações crentes que por pura negligência espiritual deixam a graça. Nem todos os que se separam da Igreja estão entre os que “não eram dos nossos”, pois há de fato os que entram na igreja por motivos nada espirituais, enquanto muitos firmemente creem por um tempo, para posteriormente esfriarem na fé.

Quando a Escritura revela que Cristo morreu pelos pecadores, reconciliando inimigos, isso significa a redenção universal. A reconciliação particular é dada por condição. Assim, é entendida a comparação da reconciliação quando éramos pecadores, ocorrida na cruz. Agora já reconciliados seremos salvos, pois já estamos justificados. É como o fundamento para a graça da fé alcançada na cruz, agora dependendo da abertura à graça.

Cristo adquiriu a Igreja pelo Seu próprio sangue, Atos 20, 28, porque é por meio do sangue que os pecadores alcançam o perdão e formam a igreja, e não porque Cristo na cruz tinha um número limitado de pessoas para serem salvas. A certeza de Rm 8, 33-34 é um convite a todos nós, que cremos em Cristo, a nos confiarmos a Deus, na esperança da salvação, que é um certeza da salvação que temos em Cristo

Da mesma forma, o reino de sacerdotes daqueles que foram resgatados da terra pelo sangue de Cristo, Ap 5, 9-10, trata-se da declaração do resultado da cruz, sem limitar a extensão do sacrifício somente aos que foram salvos. E Dn 9, 24 fala do selo e expiação dos pecados. Isso também não garante a todos a aplicação dos méritos alcançados. Há, portanto, a condição da fé.

Nossa vida é ligada à morte de Cristo, João 6, 33. O Pão do céu dá vida ao mundo. Esse mundo não é limitado aos eleitos, mas é realmente o mundo inteiro. Por isso, é justamente um texto que afirma que Cristo veio dar vida ao mundo, esse mesmo mundo que jaz na iniquidade, sem vida, sob a ira de Deus, morto em pecado. Cristo oferece Sua vida a todos.

Owen afirma que isso significa o mundo das ovelhas, citando João 10, 15.28. E mais, 2 Tm 1, 10 e por final Rm 5, 6-10. Seriam as passagens contra a redenção universal. São Paulo esforçou-se em favor dos eleitos, para que eles possam obter a salvação (cf. 2 Tm 2, 10). De fato, o Senhor conhece os que são Seus. No entanto, há o mistério do livre-arbítrio em reposta à graça, o que explica esse esforço pela salvação também (kai) dos eleitos.

Ao ler os efeitos da morte de Cristo não se pode concluir que foram alcançados somente por alguns. Owen, porém, afirma que a suposição é suficiente, a inferência é clara pela Escritura e o argumento sólido. Mas, o que os textos sagrados citados mostraram serve para responder os argumentos de Owen.

Muitos lugares apontam aqueles pelos quais Jesus morreu, referenciados como “muitos”. Com referência a Mt 16, 28, o contexto define que se trata de fato de muitos. Is 53, 11, Mc 10, 45, Mt 20,28, Hb 2,10. Se a palavra muitos não é suficiente para restringir a obra de Cristo a alguns, argumenta Owen, pois reconhece que a palavra muitos significa às vezes “todos”, como em Rm 5, 19, ele afirma que nessas passagens citadas o sentido é realmente de muitos. E menciona textos onde os muitos são apresentados com qualificações que não condizem com todos, mas somente com os eleitos.

Um texto citado na objeção que Owen pretende responder é Daniel 12, 2, o qual usa a palavra muitos com o sentido de todos. Ele inicia sua resposta afirmando que o argumento não é tirado apenas da palavra muitos, mas das qualificações anexadas à palavra. Quando se divide uma população, e afirma algo em relação à uma parte, entende-se que se refira somente a ela. Ainda, explica que os textos citados, de Rm 5, 19 e Dn 12, 2 não são necessariamente referentes a todos. Em Dn pode ser lido muitos para a vida e muitos para a vergonha e em Rm 5 não há comparação entre número e número.

Cristo carregou nossos pecados em Seu corpo, morreu por nossos pecados, foi feito maldição por nós. No entanto, também é ensinado que temos de morrer para o pecado, pela fé, para que vivamos para a justiça (1 Pd 2, 24, 3, 18; Isa. 53, 6; 1 Cor. 15, 3; Gal 3, 13)

Owen afirma, em resposta às objeções, que está apenas expondo e desdobrando a mente da Escritura e não adicionando a ela. Em resposta sobre o texto de João 10, 15, explica a diferença entre os que creem e não creem: o “fundamento para esses atos está em suas diferentes condições em respeito ao propósito de Deus e amor de Cristo”, citando como aparente nos versos 26 e 27.

Na conversa que teve com os judeus, Jesus afirma que se fizesse as obras de Deus, não precisariam crer nEle (me pisteuete moi), e continua: “Mas, se as faço, e não credes em mim, crede nas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele.” (João 10, 38). Essa passagem contextualiza todo o capítulo em questão ao livre-arbítrio para crer ou não crer.

Nas palavras de Owen, aqueles judeus que não eram ovelhas e por essa causa não podiam crer, por não serem ovelhas, pela impossibilidade que foi imposta por sua condição de estarem fora do propósito salvífico de Deus.

No entanto, Jesus mostra que eles podem crer, dando a oportunidade de crerem a partir das obras, para que saibam e compreendam que o Pai está em Cristo e Cristo no Pai, o que é o mesmo que dizer que eles serão pelas obras de Cristo levados à fé em Cristo e, portanto, à salvação. Não falaria isso se houve uma impossibilidade intrínseca como foi mencionado antes. Se eles não eram ovelhas e não podiam ouvir a voz de Jesus, pela leitura calvinista, pelo contrário Jesus está agora revelando um caminho que pode levá-los a crer.

Gledson Meireles.

domingo, 23 de janeiro de 2022

John Owen: estudo do cap. 24, livro III

Estudo do livro de John Owen, Livro III, capítulo 24


Capítulo 24


Serão tratados agora alguns dos argumentos que estariam a favor da tese de Owen. São tirados de passagens que falam da morte de Cristo pela Igreja e os salvos em particular, e são lidos por Owen como implicando a exclusão de quaisquer outras pessoas como objetos da morte de Cristo. Pode-se já de antemão afirmar que esses textos sagrados não depoem contra a redenção universal, que já está provada, mas são sempre nessa doutrina fundamentados.

O primeiro texto levantado para a discussão é o protoevangelium, Gênesis 3, 15, onde são contrastados a semente da mulher, o inteiro corpo dos eleitos, e a multidão inteira dos reprovados, que são a semente do Demônio.

A profecia não necessariamente deve ser lida a partir da suposição dos decretos eternos de Deus que teriam separados os eleitos dos reprovados por sua própria vontade. Trata-se de separar, em termos espirituais, os que serão filhos da mulher, Maria, que seguirão Jesus, Aquele que esmagou a cabeça da serpente, assim como sua mãe, pela Sua graça, e os demais, que não irão seguir os passos de Cristo e se colocarão contra Ele, sendo descendência do maligno. É uma profecia que mais descreve a realidade do que virá do que algo que indica o motivo da mesma realidade.

Essa profecia demostra o motivo da salvação e condenação trazida nos divinos decretos do que os resultados dos mesmos, o que é bem diferente.

Iniciemos, portanto, a análise das passagens. Quando Cristo chama os fariseus de filhos do Diabo, isso não significa que fossem destinados a serem filhos do Diabo como consequência dos decretos de Deus, mas que assim eram por sua própria culpa e escolha. Por negarem a verdade que estava sendo anunciada a eles. Quem comete pecado é filho do Diabo (cf. 1 J João 3, 8) não como imutável condição, mas como aquele que se entrega ao serviço do pecado torna-se escravo dele, torna-se assim filho do Diabo, por implicação. Essa é a verdade bíblica ensinada em Romanos 8, por exemplo, e em outras passagens já estudadas. Os salvos podem cair nesse estado caso não perseverem.

Por isso, 1 João 3, 10 afirma que aquele que não pratica a justiça    e não ama seu irmão não é de Deus. A ênfase agora está na prática do evangelho. É uma indicação do motivo de ser filho de Deus ou ser filho do Diabo. O que pratica a justiça é filho de Deus, o que pratica o pecado é filho do Diabo. Por isso, as exortações à conversão. A linguagem bíblica nos convida a entender o mistério da justificação e regeneração, como instantâneo para a prática do amor. É como se o amor nos leva da morte para a vida, e é razão da vida, pois quem não ama seu irmão permanece na morte. Assim, na justificação pela fé temos a forma do amor imediatamente, como diz o contexto de Romanos 5, 1-5. Portanto, como fruto da redenção universal todos podem ser justificados e adotados como filhos de Deus.

É assim que os filhos da ira (cf. Ef 2, 3), filhos como os outros também, que ainda estão no reino das trevas, podem ser transferidos para o reino de Deus. Dessa forma, há a adoção divina, que dos filhos do Diabo podem fazer filhos de Deus, o que destrói a argumentação de uma distinção eterna como resultado da vontade de Deus.

Dessa forma, Cristo morreu por todos, pelos pecadores, pelos inimigos, pelos filhos da ira, pelos que não tinham Deus neste mundo, pelos escravos do pecado. Por tudo isso, morreu pelos filhos da Serpente para que se tornem filhos da Mulher. Nem todos se tornarão, é óbvio, visto escolherem caminhos opostos, por seu próprio livre-arbítrio, por escolhas apegadas ao espírito do mundo e não a Deus. Assim, Cristo morreu por todos.

O próximo texto é Mateus 7, 23, onde Jesus diz que nunca conheceu aqueles falsos cristãos. Em comparação com João 10, 14-17, Jesus conhece suas ovelhas. Isso é compreensível, já que o contexto de Mateus fala dos desobedientes, dos que praticam iniquidade, e não dos que seguem a Cristo, dos que conhecem a Ele, como é o caso do texto específico de João 10. Portanto, não diz respeito ao decreto que os determinou assim, mas revela o motivo do decreto que assim os reputou e reconheceu eternamente.

Conhecer aqui significa de modo especial essa relação espiritual onde os salvos conhecem a Cristo pela fé e o seguem na vida de obediência e santidade, onde quer que Ele vá, e Cristo conhece dando sua graça e protegendo Seu rebanho. Os demais que Cristo não conhece estão nessa condição por terem negado o Salvador.

A morte de Cristo não salva automaticamente sem que a condição exigida seja cumprida. Se os réprobos questionassem sobre a morte de Cristo por eles, sobre o poder de Seu sangue para salvar e santificar, seria o mesmo que diz em substância Mateus 7, 23, onde aqueles realizam obras em nome de Cristo e apresentam isso como razão para sua salvação, mas agem na iniquidade, motivo pelo qual Cristo não os conhece.

Esse conhecimento é de relação espiritual na amizade da graça. A morte de Cristo não irá aplicar eficazmente os dons da salvação em quem rejeita a cruz, pela fé ou pelas obras, e as perguntas levantadas por Owen estão fundamentadas na suposição de que a cruz é para somente os eleitos e de que garante a aplicação futura pelo fato mesmo do evento da cruz. Por isso, essas questões não fluem da doutrina da redenção universal, que biblicamente assenta-se nas condições impostas por Deus para a participação da Sua graça.

Em Mateus 11, 25-26 Jesus afirma que o evangelho foi escondido dos sábios e prudentes e revelado aos pequeninos. E Cristo agradece a Deus por isso, por esse propósito de Deus.

Se o evangelho da salvação foi escondido de muitos, em sua manifestação externa e revelação interna do mesmo, significaria que Cristo não morreu por esses. Na verdade, tal implicação não existe, pois serviria para afirmar que os sábios não foram salvos por Cristo, uma leitura bastante imprudente.

Nem que aqueles sábios em questão não foram resgatados por Cristo, o que também não pode ser deduzido da passagem. O que o texto ensina é que a rejeição daqueles homens é o motivo para que o Senhor Deus esconda deles tais tesouros da fé e salvação, como está em Mateus 13, 11.15, onde Cristo fala da dureza de coração daqueles, e logo após afirma que é para que Ele os cure. A graça de Deus ainda fará ressoar seu convite nos corações mais empedernidos. Isso prova que a redenção é universal.

Portanto, não se pode tirar daí que sábios e entendidos não são escolhidos, ou que aqueles sábios e entendidos que conversaram com Cristo não fossem escolhidos. De fato, outra forma de apresentar a salvação é vista Mateus 11, 27, onde Cristo é quem revela o Pai, somente a quem quer. Sabemos que somente vai a Cristo aquele que o Pai entrega, e somente é levado a Cristo pela ação do Espírito Santo que converte o pecador. Portanto, trata-se de uma ação da Santíssima Trindade na conversão do pecador, tudo em consideração ao livre-arbítrio do mesmo. Os que não ouvem a Deus não irão a Cristo, que por Sua vez não revelará o Pai pela ação do Santo Espírito.

Para provar que a salvação é para todos, Cristo no verso seguinte convida a todos a irem a Ele: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (cf. Mateus 11, 28). É a grande suficiente, quem não for a Cristo é por livre escolha.

De fato, Deus não esconde o evangelho de ninguém, a menos que esses sejam contrários ao evangelho a ponto de rechaçar quaisquer insinuações da graça que pudessem levar a ele, e agissem contrariamente às leis de Deus, como escolha voluntária de vida contrária aos valores divinos.

São os que não possuem a fé em Deus e não se importam com a retribuição que o Senhor pode dar, e não ouvem do Pai e, portanto, não serão atraídos ao Filho. Por culpa própria não querem conhecer a Deus.

Outros podem ir ao Filho e depois deixá-Lo. As heresias condicionam essas coisas, e muitos tornam-se apóstatas e perdem a fé inteiramente. Ainda assim, esses foram resgatados por Cristo.

A respeito de João 10, 11.15.16.27-28, é verdade que nem todos são ovelhas. Mas, igualmente é verdade que Cristo não morreu somente por quem se tornaria ovelha. Cristo dá a vida por Suas ovelhas, não somente por elas, mas por todos. No contexto se dirige às ovelhas, aos eleitos, pois está mostrando que são elas que O ouvem e O seguem, e não os lobos ou cabritos ou réprobos que não obedecem a Deus.

Por isso, como Pastor a sua proteção constante é pelas ovelhas, dando a vida por elas. O contexto explica por si a distinção que se está aplicando, não negando a redenção universal, mas mostrando como Cristo trata os salvos na vida da graça. Cristo dá a vida no sentido de cuidado e proteção apenas pelas ovelhas, na sua graça eficaz, e não pelos lobos, o que é compreensível pelo contexto, mas que não é referente à redenção universal onde Cristo dá a vida por todos.

Os que se tornam lobos são aqueles que se colocam contra Deus e o Seu Cristo e estão em oposição à Igreja, pela recusa voluntária da graça. A Escritura afirma que esses poderão ser salvos se aceitarem o amor de Deus.

Portanto, João 10, 26.29; 17, 6; 6, 37; 10, 28, Mateus 20, 28 e João 11, 52, são todos os que primeiro ouvem a Deus por Sua Palavra para conhecer o Messias. Os que ouvem a Deus são de Deus e Ele os levará a Cristo. Há, portanto, uma condição, que é negada por Owen em sua correta acepção de condição, que é a fé e a obediência, que antecedem e são exigidos para a aplicação dos benefícios da redenção.

Em relação a Romanos 8, 32-34 pode dizer que Deus de fato manifestou Seu grande ato de amor por todos, mas somente os que forem fieis, e que Deus conheceu de antemão quais seriam, esses são beneficiados por Sua graça. Conquanto estejam unidos a Cristo ninguém poderá acusá-los e nada os tirará do amor de Deus, como o capítulo inteiro ensina.

As boas coisas que Deus dá pela cruz, somente são comunicadas àqueles que aceitam o benefício da cruz pela graça da fé em Cristo.

A fé, a graça e a glória são todos frutos da cruz. Uma vez que se considera o livre-arbítrio, como Deus o considera nos Seus decretos, o pecador deve estar aberto ao chamado da graça para que seja atraído a Cristo. Essa graça é universal pela cruz, necessária para todos irem a Deus, suficiente para todos e cada um conforme a liberalidade de Deus, distribuindo Seus dons conforme Lhe apraz, pois quer que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (cf. 1 Tm 2, 4).

Os frutos da morte de Cristo não pertencem apenas aos eleitos, mas são apropriados livremente por eles, pois receberam de bom grado a graça, alcançando a graça eficaz. São particularmente os eleitos mostrando em Romanos 8, 32-34, o que não significa que a redenção não seja universal. Os frutos e benefícios foram alcançados para todos, serão usufruídos por quem crer, e eficazmente aplicados nos eleitos.

Em Efésios 1, 7 é dito que em Cristo “temos a redenção”. Owen argumenta que todos não têm a redenção, e por isso Cristo não teria morrido por todos. De fato, os que são bem-aventurados e o serão para sempre, são os filhos da promessa. No entanto, Owen não prova que toda a graça da cruz é somente para alguns, e que toda a graça será em todos eles aplicada, uma vez que a condição relativa para a aplicação dos frutos e benefícios da cruz são claramente estabelecidos, e deve-se considerar sempre o livre-arbítrio do pecador que deve ser auxiliado pela graça. Essa dificuldade não pode ser resolvida na teologia reformada. Todo o estudo trata dessa questão e a apresenta como patente em toda a Escritura, mesmo diante das argumentações interessantes de Owen.

Em relação a 2 Coríntios 5, 21, o argumento baseia-se na maior grandeza da morte de Cristo que da sua intercessão. Se Cristo morreu por todos, por que não intercede por todos? A reposta já foi dada inúmeras vezes, é está baseada no motivo de que apenas os que se apresentam a Deus por meio de Cristo podem usufruir de Sua intercessão (cf. Hb 7, 25) e não o fato de Cristo ter morrido na cruz sem a participação voluntária dos salvos, pelo livre-arbítrio iluminado pela graça.

Por isso, a existência do livre-arbítrio é de enorme importância para entender essa economia da graça, onde os frutos e benefícios da cruz não serão aplicados a todos sem a verdadeira participação deles. Assim, como todos não participam da graça, pela natural consequência que existe pela ação de seres livres, e pela apresentação que a Escritura faz da forma que a graça leva o pecador à salvação, a intercessão somente é feita por aqueles que se aproximam de Deus. Por esse motivo, tantas passagens bíblicas que são muralhas contra interpretações da fé reformada.

Cristo foi feito pecado na cruz, o que significa que foi feito sacrifício pelo pecado. Por Ele podemos receber, e de fato recebemos a graça da justificação quando nEle estamos. Resta provar que todos pelos quais Cristo morreu serão justificados, o que não é em nenhuma passagem manifesta ou ensinada tal noção, que são negadas pela própria existência das condições já apresentadas.

Ainda, ao citar João 15, 13, onde Jesus usa da comparação de que há maior amor a quem dá a vida pelos amigos, entendendo com isso os eleitos, lembremo-nos de que Judas Iscariotes, escolhido por Deus e Cristo para o apostolado, servindo a Jesus em Seu ministério até o dia da última ceia, foi chamado por Jesus de amigo, ainda que fosse traidor. Assim, Cristo morreu por Judas Iscariotes também. Portanto, é mais uma prova de que Cristo morreu por todos, e está estabelecida a doutrina da expiação ilimitada.

A morte da cruz é fundamento para a intercessão. E a condição para receber os benefícios da cruz e ter a intercessão de Cristo é a aceitação da graça, operada pela Palavra de Deus.

Em João 17, 9 Jesus ora apenas pelos apóstolos, não pelo mundo que é oposto à sua graça, mas ao mesmo tempo roga por todos os que crerão, o que não só está e acordo com a visão reformada, mas igualmente harmonioso com a doutrina católica de que o Senhor conhece todas as coisas e ora pelos que irão crer, usando do seu livre-arbítrio. No entanto, nem todos os que irão crer perseverarão. Essa é outra característica que devemos considerar, e que somente está de acordo com a redenção universal, que trata da verdadeira fé professada verdadeiramente por muitos e depois negada pelos mesmos.

Outra passagem é aquela que ensina que Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (cf. Ef 5, 25). Owen também cita Atos 20, 28. O objeto de amor é a noiva de Cristo. Isso não significa que Cristo não amou mais ninguém, mas que o especial amor aplicado é somente pela Igreja, e por isso todos são chamados a fazerem parte dessa união com o Senhor. Ao invés de provar a expiação limitada, o entendimento geral prova a expiação ilimitada.

Portanto, se não se pode dessa metáfora afirmar dois amores, como se houvesse um amor pela Igreja e outro amor por outros, fora da Igreja. Entretanto, o amor a todos é que forma a Igreja.

Na verdade, os eleitos foram também filhos da ira, como os reformados reconhecem, para depois da justificação e regeneração se tornarem filhos de Deus, amados por Deus, e terem o amor de Deus em seus corações (cf. Ef 2, 3; Rm 5, 5). Aqueles que ainda não fazem parte da Igreja não usufruem do amor de Cristo aplicado neles, que é o amor que forma a Igreja. Portanto, Cristo morreu por todos e Seu amor é manifestado e comunicado somente naqueles que estão em Sua Igreja. Isso está conforme a redenção universal.

Assim, a entrega de Cristo pela Igreja não é prova da expiação limitada, mas antes supõe, como é aparente, a expiação ilimitada, que chama a todos ao amor de Deus em Cristo Jesus.

Esses argumentos que Owen propôs não puderam refutar a redenção universal, mas são apenas exemplos que muitas vezes retratam a vida da graça dos eleitos, e nos convida a participar dela, como objetos do amor de Deus em Cristo. Como afirma Owen, os obstinados não serão satisfeitos com mais argumentos. Espero que esses sejam suficientes para a fé na redenção universal operada pelo Senhor Jesus Cristo na cruz.

Gledson Meireles.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

John Owen: estudo dos capítulos 16 e 17, livro III

 Capítulo 16

 

Cristo morreu em lugar do pecador, Rm 5, 6-8; Gl 3, 13; 2 Cor 5, 21. Como estamos vendo, a expiação ilimitada é a doutrina bíblica. Uma vez que todos são pecadores, Cristo então morreu por todos.

 Mas, Owen argumenta que há a ideia de comutação de pessoas, uma no lugar da outra. Se se considera essa realidade a todos, então todos são redimidos, restaurados, justificados e feitos justos em Cristo. Owen considera isso estar em oposição às Escrituras. E apresenta razões pelas quais Cristo não satisfez a justiça de Deus por todo e qualquer homem.

Uma das razões é que ser satisfeito e exigir satisfação são contraditórios, e não pode ser afirmado do mesmo em respeito ao mesmo. E Deus irá exigir o último centavo, Mt 5, 26. Primeiro, tal passagem, como a de Mateus 18, 34, refere-se antes ao purgatório, podendo ser lida quanto ao perdão das penas, à purificação devido às faltas, aos pecados dos fieis já perdoados, que podem sofrer danos ainda que estejam sobre o verdadeiro fundamento que é Jesus. Dessa forma, a passagem não contradiz o valor da obra da cruz.

 Caso fosse o castigo relativo às penas do inferno, não se pode afirmar que Jesus tenha sofrido a separação total de Deus, pelo Seu próprio ser divino, mas sofreu a mesma dor e separação por meio de Sua natureza humana, em favor de nós, pecadores, obtendo-nos o perdão dos pecados. Assim, ainda assim, ao que não se apropriar pela fé do sacrifício, não poderá ter parte nele, e não usufruirá do seu valor.

 Segundo, ainda que a obra da cruz tenha eficazmente aplacado a ira divina e resgatado a todos, ainda resta a parte do pecador, que é possuidor do livre-arbítrio, e que irá a Cristo ou não, após o chamado externo e interno, para que possa ser beneficiado pela graça proveniente do sacrifício de Jesus. Toda a fé bíblica e a interpretação da Igreja afirma que o homem pode negligenciar sua salvação e Deus não irá efetuar nada senão em atenção ao dom do livre-arbítrio que concedeu ao ser humano.

 Mas, pode-se objetar, como o faz Owen, de que há almas no inferno, então não houve satisfação por elas, embora essa dificuldade já esteja desfeita pelo que foi colocado anteriormente. O sangue de Cristo foi posto sobre quem o Salvador não quis nenhum bem? Morreu Cristo por Caim ou pelo Faraó?

 A resposta de que Cristo morreu por eles e eles poderiam ser salvos caso tivessem acreditado não é suficiente para Owen, porque eles não ouviram essa condição. Cristo sabia que eles não tinham cumprido a condição, sem teriam mais a possibilidade de cumprir, qualquer intenção de fazer o bem seria em vão e frustrada, o que não deve ser dita do Filho de Deus. Rejeita por fim a redenção sob a condição de crer.

Owen argumenta que a mediação de Cristo é mostrada obtendo o bem a todos pelos quais morreu, como está em Hebreus 9. Mas, o texto diz respeito à eficácia objetiva, e não à aplicação garantida a todos, visto a condição imposta pela sabedoria e propósito de Deus.

Cristo entrou no céu “adquirindo-nos uma redenção eterna” (cf. Hb 9, 12) está agora como “intercessor nosso ante a face de Deus” (v. 24). O sacrifício de Jesus foi suficiente “para destruição do pecado pelo sacrifício de si mesmo” (v. 26).

Em nenhum lugar é dito que o preço da redenção eterna, a intercessão e o perdão dos pecados será aplicado a todos pelos quais Cristo morreu. Esses são os efeitos da morte de Cristo, o bem que Ele adquiriu, o ofício que Ele obteve por isso, e o efeito que é o perdão dos pecados.

Antes, então, a Escritura está apresentando o valor da sua morte, que nos trouxe a redenção eterna, a todos nós neste mundo. A intercessão, que já está em vigor e em funcionamento, para todos na Igreja, está aberta a todos os que irão crer. E o perdão dos pecados está garantido ao que crê, pois que o pecado foi destruído pelo sacrifício, mas continua no pecador até o arrependimento e confissão individual, até a sua justificação.

Quanto às afirmações expressamente feitas quanto à vinda de Cristo para salvar o Seu povo dos seus pecados, Se entregou pela Igreja, e etc., temos também, com idêntica definição, Hebreus 10, 30, citando o Salmo 134, 14, que trata do julgamento do Povo de Deus (cf. julgar, krinei, em grego, e יָדִ֣ין -ḏîn, em hebraico), onde está escrito: “O Senhor julgará o seu povo”, e o verso 31 de Hebreus continua no contexto de juízo: “É horrendo cair nas mãos do Deus vivo”.

Pelo que estamos estudando desde o início do livro, diante de tantas objeções, com profundo raciocínio partindo das afirmações da Sagrada Escritura, vimos que o Senhor Jesus morreu por todos. Dessa forma, nessa concepção, não se estranha que Deus julgará o “seu povo”. Com isso, não se exclui o julgamento de ninguém, pois a Escritura ensina que todas as nações serão julgadas (cf. Mateus 25), e que nós temos que comparecer diante do tribunal de Cristo (cf. 2 Coríntios 5, 10).

Caso as argumentações de Owen estivessem corretas, teríamos aqui um exemplo de afirmação expressa e específica do julgamento de Deus no Seu povo, deixando todos os demais povos e nações, os que não pertencem ao povo de Deus, fora do juízo, contrariando toda a Escritura. De fato, definir o juízo ao “seu povo” é idêntico em extensão a vir salvar o “seu povo” (cf. Mt 1, 21) dos seus pecados, e restringir a salvação somente ao “seu povo” por tal motivo é o mesmo que afirmar que haverá somente o julgamento do “seu povo” sem estrapolação de limites. Novamente essa alegação que tenta fundamentar a expiação limitada não passa no crivo da Escritura.

Por essa razão, há passagens na Escritura onde o Senhor mostra seu desejo de salvar a todos. Assim, diz o Senhor Jesus: “Porque o Filho do Homem veio salvar o que estava perdido” (cf. Mateus 18, 11) com indefinição total, mostrando que todos estão perdidos. O contexto de amor de Deus, pressupõe o Senhor indo atrás da ovelha desgarrada. As ovelhas que já estão no aprisco são aqueles salvas por Cristo e já convertidas. As demais ainda deverão entrar no aprisco. O convite é feito a todos, e todos podem ser envolvidos por essa graça.

É conhecida a explicação reformada sobre 1 Timóteo 2, 6, onde “todos” (por todos, hyper panton) indicaria somente algo de todo tipo de toda espécie, de toda qualidade, com relação ao verso 1, não incluindo a todos em geral, não significando a todos e a cada um.

Por isso, explica a teologia reformada, o texto segue com exemplos para mostrar os sujeitos que compõem “todos os homens”, que seriam os reis, todos os constituídos em autoridade. Dessa forma, “todos os homens” seria explicado como referindo-se aos reis e governantes, e não a todos sem exceção.

No entanto, a passagem é clara ao ensinar a oração de intercessão “por todos os homens”. De fato, orar por todos os reis e pessoas constituídas em autoridade exclui algum rei ou governante, ou quer dizer mesmo todos os reis sem exceção e todos os governantes? Por essa razão, o termo todos em relação às autoridades nesse contexto é geral, não excluindo ninguém.

Mas, bem mais abrangente é o que temos no contexto. Assim, o verso 4 passa a repetir o alcance universal que está no verso 1: “o qual deseja que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”, falando do desejo de Deus, que certamente não está se referindo a todos os reis e governantes, que são sujeitos de receberem oração para que tenhamos uma vida calma e tranquilo em um governo de justiça, mas que trata do desejo de Deus de salvar a todos. Dessa forma, devemos orar por todos, em especial por todos os reis, mas não restringindo o sentido de todos os homens, antes, apenas realçando a importância de orar pelas autoridades constituídas.

Outra vez, no verso 5, Jesus é mediador “entre Deus e os homens”, o que não alude a nenhum exceção. E o verso 6, tratando expressamente e diretamente do resgate efetuado na cruz, ensina: que Jesus “se entregou como resgate por todos”. E, naturalmente, não há qualificação para a palavra todos, e ninguém diria que se refere o desejo de Deus e o resgate de Cristo em favor da salvação seria somete das autoridades. Seria uma leitura desastrosa.

O contexto é claríssimo sobre o desejo de Deus de salvar a todos e o resgate de Cristo entregue em favor de todos. A intenção e a obra de redenção estão aí delineadas. O exemplo dos reis, todos os reis, e todas as autoridades, foi apenas uma referência especial ao lembrar a importância de oração de intercessão por esses homens que estão em posição de influência acima de tantos outros. Dessa forma, todos os homens do verso 1 é igual é todos os homens do verso 4, corroborado pelos versos seguintes, 5 e 6. Todo o contexto imediato.

Continuando nesse contexto, para ilustrar mais essa verdade, o verso 8 diz: “Quero, pois, que os homens orem em todo lugar...”. A palavra homens (andras) aí, sem maiores qualificações, pelo contexto direto, quer dizer todos os homens. Todos os homens são ensinados a orar. Depois, seguem orientações às mulheres.

Em 1 Timóteo 2, 5, Jesus é o único mediador entre Deus e os homens (anthropon), indicando a todos os homens, toda a humanidade. O mediador é o Homem (anthropos) Jesus. Mais uma vez é claro o ensino de que a cruz tem valor salvífico em favor de toda a humanidade pecadora.

Outra passagem importante, que não ensina a expiação limitada, e contem alusão à possibilidade de perda da graça, é 2 Coríntios 5, 5.9. O texto diz que temos o penhor do Espírito (cf. penhor, arrabona em grego). Nós temos esse penhor por estarmos unidos a Cristo, para sermos recebidos no céu, e para que tenhamos a vida eterna.

O verso 10 diz que devemos comparar diante do tribunal de Cristo, e nesse contexto, o verso 9 é imprescindível para desfazer qualquer dificuldade dentro do assunto que estamos tratando: “nos esforçamos por agradar-lhe”, porque teremos de ir ao tribunal (cf. 2 Coríntios 5, 9-10). No contexto que já vimos acima, do julgamento do Povo de Deus, entende-se que o penhor do Espírito não está afirmando impossibilidade de cair da graça, o que implica novamente que a morte de Cristo não se restringe aos eleitos. Assim, somos exortados a nos esforçar para agradar a Deus, pois teremos de comparecer diante do tribunal.

Dessa forma, o texto continua: “O amor de Cristo nos constrange, considerando que, se um só morreu por todos, logo todos morreram”, mas que devemos viver para Cristo (v. 15).

Essa verdade informa o conteúdo e modo de pregação do evangelho, como diz em 2 Coríntios 5, 20: “Em nome de Cristo vos rogamos: reconciliai-vos com Deus”. O apelativo “Vos rogamos” é uma forma de dizer “vos imploramos” (do grego δεόμεθα, deometha). Uma forma cristã católica de chamar o pecador à salvação, à reconciliação com Deus, no ministério entregue aos apóstolos e à Igreja docente.

Isso não parece em nada com o modo reformado de pensamento, onde o evangelho é pregado para distinguir os eleitos, e é afastada qualquer menção e semelhança a uma súplica, a um convite menos incisivo ao pecador, no anúncio do evangelho, pela ênfase que se dá à eleição e predestinação, conteúdos que dão forma a todo discurso calvinista. A Escritura, porém, costuma usar também formas do amor, rogando ao pecador para que se entregue à salvação, o que está no contexto da expiação ilimitada.

Os apóstolos procuravam persuadir os homens para que cressem, e se reconciliassem com Deus, pois Cristo morreu por todos, um só morreu por todos (vv. 11.20, cf. v. 14.). A razão disso é para que ninguém receba a graça de Deus em vão (cf. 2 Cor 6, 1).

Seria impossível que a graça de Deus fosse em vão se não houvesse a expiação ilimitada, que comprou a todos, resgatando-os do pecado, dando-lhes a graça sob a condição da fé livre, em resposta ao dom da fé conferido pela graça da cruz. O contexto trata da graça da salvação, o que na teologia reformada é unicamente dada pela graça eficaz.

Dessa forma, o texto estritamente compreendido não faz sentido para o reformado. Pode ser lido, porém, naturalmente na fé católica, que reconhece a graça suficiente e necessária a todos, que somente será eficaz nos eleitos, pela sua abertura à graça. Por tudo isso, São Paulo, inspirado pelo Santo Espírito, diz: “exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão” (no grego, em vão “eis kenon”), no mesmo sentido do texto de Gálatas, comentado em outro lugar.

Como poderia a graça ser vã nos eleitos? Como poderia a Escritura exortar os eleitos a não receber a graça de Deus em vão? Isso não seria eficaz, psicologicamente, naqueles que não creem na possibilidade do “não-eleito” receber a graça, e não se sentiria sinceramente no perigo de possuir a graça salvífica em vão, lendo a passagem e não tendo proveito do seu sentido.

Primeiro, por crer que sua fé é verdadeira, e sua confiança no perdão dos pecados pelo sangue de Cristo é genuína, o cristão reformado não irá crer que a graça possa ser vã para o eleito, e para si, que acredita ser um dos eleitos.

Segundo, porque não crê que a graça salvífica, que efetua a reconciliação, possa ser dada a todos, e não se incluiria fora do número dos predestinados.

Terceiro, porque somente a opinião de que o texto é um mero auxílio para fomentar a vida de santidade e união com Cristo com uma exortação contendo uma ameaça “impossível” de ser realizada, não é o que a Escritura apresenta em qualquer lugar.

Somente a fé na expiação ilimitada é que se pode entender o dever de receber a graça da salvação e não deixá-la em vão, pois é uma possibilidade real, resultado da fraqueza do pecador, da negligência voluntária, pelo mau uso do livre-arbítrio com o dom da graça. Parece que o argumento baseado na expiação limitada já está refutado.

O motivo dos sofrimentos por que passa o evangelizador é a “esperança em Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens” (cf. 1 Tm 4, 10). Essa passagem não necessita ser lida como tratando da Providência geral a todos, e em especial dos eleitos, como não se tratasse de salvação espiritual, mas de cuidado com as coisas temporais, unicamente porque são mencionados fadigas e ultrajes, pois a real verdade é de fato que o “Deus vivo é o Salvador de todos os homens, sobretudo dos fieis”.

Menos provavelmente o apóstolo diria que o motivo de seus sofrimentos era a esperança no Deus vivo que cuida de todos, mas mais ainda dos crentes. Parece mais digno de fé ter que Deus é o Salvador (Soter) de todos os homens (panton anthopon), especialmente dos fieis (malista piston), pois os especiais cuidados de Deus para com os fieis está realmente incluso na Providência geral, assim como o governo de toda a criação. No entanto, as penúrias dos cristãos por motivo da esperança em Deus estão diretamente relacionadas à salvação, pela qual sofrem ao anunciá-la. Nesse contexto, Deus é Salvador de todos os homens por ter enviado Seu Filho ao mundo para que o mundo seja salvo por Ele, conforme as Escrituras. E pelo que já foi exposto antes, tal leitura não apresenta qualquer problema.

 

 

Capítulo 17

 Da santificação e da causa da fé e do que foi adquirido pela morte de Cristo.

 Argumento tirado do efeito e fruto da morte de Cristo para a santificação, pode ser resumido da seguinte forma: Se o sangue de Cristo lava, purifica, limpa e santifica aqueles pelos quais foi derramado, ou pelos quais ele foi um sacrifício, então certamente ele foi o sacrifício somente por esses considerados no evento, que são lavados, purificados, limpos e santificados. Sabendo que todos não o são, o que é muito aparente, a fé sendo o primeiro princípio da purificação do coração, uma vez que todos não tem fé, conforme 2 Ts 3, 2, e a fé é dos eleitos, como diz Tt 1, 1, a consequência entendo, diz Owen, é inegável. Então passa a mostrar os argumentos pelos tipos e pelas claras expressões referentes ao assunto. Passemos agora a apresentar a doutrina bíblica em consideração aos argumentos de Owen, refutando-os.

O texto de 2 Tessalonicenses 3, 2 afirma “nem todos possuem a fé”. Em Tito 1, 1 está escrito, na Almeida Corrigida e Fiel: “Paulo, servo de Deus, e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus, e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade”, e na versão da Ave-Maria: “Paulo, servo de Deus, apóstolo de Jesus Cristo para levar aos eleitos de Deus a fé e o profundo conhecimento da verdade que conduz à piedade.

No grego “(kata) segundo (pistin) a (eklekton) dos eleitos (Theou) de Deus”. Nem todos os homens possuem a fé, e a Palavra de Deus fala da fé dos eleitos, ou em outra tradução, que Deus enviou a Igreja para levar a fé aos eleitos? O que se pode concluir daí? O original grego afirma “a fé dos eleitos”, e é nesse sentido que devemos formular a doutrina, de acordo com a Palavra de Deus.

Que os eleitos têm a fé, e nem todos possuem a fé, conclui-se que nem todos são eleitos. Isso é bíblico. Que nem todos possuem a fé, e os eleitos possuem a fé, não se pode afirmar que Jesus não morreu por todos. Não se pode afirmar que alguém que não seja eleito possa ter fé. Parece haver um salto aqui. Uma conclusão que não está nas premissas.

Nos versículo 3 e 4 do mesmo capítulo, Deus Pai é chamado de Salvador (Soter) e Jesus também é chamado de Salvador (Soter). O Pai é o Salvador, pois enviou o Filho para nos salvar. É por tal motivo de 1 Timóteo 4, 10, ao chamar Deus de Salvador está ensinando a mesma verdade.

No capítulo 2 verso 10-11 temos essa verdade evangélica: “Não defraudando, antes mostrando toda a boa lealdade, para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador. Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens.” O verso 11 literalmente afirma: “Apareceu para a graça de Deus trazendo salvação a todos os homens”.

O contexto novamente chama Deus Pai de Salvador, e que Sua graça veio trazer a salvação a todos. Não se pode dizer daí que se trata da Providência em relação à criação, do cuidado da natureza e dos negócios temporais, mas da graça de Deus que manifestou-se, que veio, agora, em Jesus Cristo, para trazer a salvação a todos, ser fonte de salvação a todos, como está na tradução da Bíblia Ave-Maria.

Essa graça, como já explicada na apresentação de Tito 2, 14, foi dada para formar o povo de predileção, o povo eleito que é “zeloso na prática do bem”. Antes disso, a graça está aberta a todos, terminando finalmente antes da parusia com a reunião total dos eleitos. A graça manifestada a todos os  homens prova a graça geral, e a aceitação pelos eleitos testemunha a graça eficaz. A graça de Deus trazendo salvação a todos os homens, mostra que a cruz de Cristo, a causa meritória de salvação, foi realizada em favor de todos os homens. A graça da cruz por todos, e por isso pode-se dizer que Cristo com certeza se entregou por nós. Aos que serão resgatados, purificados e constituídos povo, a graça será aceita e aplicada eficazmente (cf. Tito 2, 14). Por isso, o sangue de Cristo purificará Seu povo, pois esse é o que irá receber o Salvador e perseverar na fé, embora todos possam aceitar a fé, mas que por culpa própria não perseveram.

De fato, a fé o primeiro princípio da purificação do coração (Atos 15, 9). No contexto do Concílio de Jerusalém, o apóstolo São Pedro faz a revelação que recebeu de Deus, como apóstolo a anunciar a verdade unificadora do Evangelho, que Deus o escolheu para que anunciasse aos “pagãos a palavra do Evangelho e cressem”. Essa proposição é universal, dizendo aos pagãos, e não somente a alguns pagãos, ou aos pagãos eleitos, mas a todos. O contexto está mostra a dificuldade que tinham os cristãos judeus de aceitar que o evangelho fosse aberto às outras nações.

O verso 8 diz: “E Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós”. O texto afirma que Deus conhece os corações (kardiognostes), dando aos pagãos o Espírito Santo. Isso mostra que Deus viu que aqueles estavam abertos à graça e suas moções. Por isso, deu-lhes o dom do Espírito Santo.

Por que antes de conferir o dom é dito que Deus conhece os corações? Isso não seria  compatível com o eterno conselho de dar a fé a uns e deixar outros na incredulidade, quando o Senhor antes de conferir Seu dom salvífico sonda os corações. Não são todos igualmente pecadores? Não estão todos na iniquidade, fora da graça, longe de Deus, e carecendo da glória? Por que o Senhor verifica os corações antes de derramar Sua graça? Temos assim, mais um exemplo de que o livre-arbítrio é considerado no plano de Deus para responder ao estímulo da graça divina.

Então diz: “Nem fez distinção alguma entre nós e eles, purificando pela fé os seus corações” (Atos 15, 9). E tal verdade foi proclamada no primeiro sermão aos pagãos, quando São Pedro, inspirado pelo Santo Espírito de Deus, disse: “Então, Pedro tomou a palavra e disse: “Em verdade, reconheço que Deus não faz distinção de pessoas, mas em toda e qualquer nação lhe é agradável aquele que o temer e fizer o que é justo”.

E continua, com algo tremendo: “Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos.” (Atos 15, 35-36). Jesus apareceu não a todo o povo mas às “testemunhas que Deus havia predestinado”, ou seja, aos apóstolos que comeram e beberam com Jesus após Sua ressurreição.

Temos aqui um exemplo onde todo o povo significa todo e cada um judeu. Cristão não apareceu a todo o povo, mas às testemunhas que Deus escolheu de antemão, os apóstolos, conforme a passagem lida acima. É um exemplo do uso da palavra “todo”, em sentido pleno, e também de um ato do decreto de Deus, em Sabedoria e Justiça, com toda a liberalidade que Lhe é própria, fazendo sempre o bem. Não há obrigação de Jesus aparecer a todos. O mesmo não é dito de uma eleição para a salvação eterna, onde somente alguns são eleitos e outros deixados para a eterna perdição. Nesse quesito entra a justiça de Deus, como nos é revelada nas páginas sagradas da Bíblia. Cristo é o Senhor de todos, sem exceção, mas salvará os que estão abertos à graça, aos que temem a Deus e fazem o que é justo, como revela a Escritura (cf. Atos 10, 36).

Agora, prossigamos com o argumento de Owen, que pretende provar que o sangue de Cristo eficazmente deverá atuar em todos pelos quais Cristo morreu.

Afirma que é evidente que o sangue de Cristo é eficaz para aqueles fins de lavar, purgar, e santificar. Primeira pelo tipo dele, e segundo pelas claras expressões em relação à oblação de Cristo.

O tipo é o sacrifício ou expiação, comparado ao sacrifico de Cristo, Hb 9, 13. O que foi carnalmente e legalmente no tipo deve ser espiritualmente no antítipo. O tipo purificava os corpos, o antítipo purifica os espíritos.

No entanto, devemos dizer que os sacrifícios antigos não purificavam legalmente e carnalmente a toda a humanidade pelo fato de ser realizados cotidianamente. Também, não se pode dizer que eram legalmente eficazes para os israelitas que não tivessem sido receptáculos dos seus benefícios. Em si eram bons e frutuosos em sua finalidade, mas cada israelita deveria oferecer por si quando tivesse de receber uma bênção. A mulher que dava à luz deveria oferecer o sacrifício pela sua purificação. Obviamente os sacrifícios diários não tinham a eficácia de purificar legalmente todas as mulheres que tivessem dado à luz, mas cada uma oferecia por si mesma. É apenas um exemplo.

Também, os sacrifícios diários valiam em favor do povo, pois todo judeu estava incluso na Aliança pela circuncisão, pela pertença natural, por sua convicção e fé firme no verdadeiro Deus. Legalmente eram todos beneficiados pelos sacrifícios cotidianos, pelo sacrifício do Dia da Expiação, e pelos sacríficos que porventura oferecessem particularmente. O sacrifício pelo povo agia legalmente em favor de todo o povo. No entanto, cada vez que pecassem deveriam satisfazer por mais um sacrifício.

Se agora o sacrifício de Cristo purifica as consciência, por sua intrínseca eficácia, não é possível afirmar que todos deverão ser purificados se Cristo morreu por todos. Resta ainda a condição de cada uma vir e oferecer-se a Deus, aproximando-se de Deus por meio de Cristo.

Owen não aceita a distinção de Armínio. A resposta de Armínio, de que o sacrifício santifica não pela oferta, mas pela aspersão, e o sangue purifica não em respeito à oblação mas por meio de sua aplicação, é considerado por Owen como fraca e insatisfatória.

Ainda que o teólogo reformado aceite a distinção e divisão da oblação e aplicação, tentará refutar a divisão entre oblação e aplicação. De fato, esse é o argumento que fundamenta as proposições acima, os argumentos que foram feitos. Embora esteja o leitor consciente de inúmeras outras provas que estão sendo fornecidas contra a expiação limitada.

Owen afirma que o sangue de Cristo santifica pela aplicação, mas que a aplicação é garantida a todos pelos quais Cristo foi uma oblação. Esse é ponto de discórdia. Afirma então, que a prova consiste no que é dito que o sangue santifica e purifica, e deve que deve responder ao tipo, que também santificava para purificação da carne.

Em segundo lugar seria porque o sangue de Cristo derramado e a morte do Salvador efetua a purificação, e etc., e que foi intencionado para esse propósito. Para isso, cita vários textos que serão analisados a seguir.

Romanos 6, 5-6, sobre a participação na morte de Cristo seguida da ressureição como efeito certo. Ninguém duvida que aquele que é batizado e crê firmemente em Cristo está crucificado com Ele e será ressuscitado com certeza. Não se pode dizer que os que não estão com Cristo não foram objetos da sua oblação, e de que não podem, pelo decreto eterno, vir a Cristo. O texto apenas está mostrando o efeito da cruz no salvo, e não afirmando que tal efeito irá a todos pelos quais Jesus Cristo ofereceu a sua oblação. Falta tal suposição.

Por isso, versículos adiante, no verso 16, há a exortação de que pela liberdade da graça, não devemos servir ao pecado, pois o mesmo leva à morte, a saber, a morte espiritual que é a condenação, e a obediência leva à vida. Cometer pecados, vivendo vida pecaminosa, servindo ao pecado, tem como fim a morte. A obediência é mostrada como via contrária, que leva à justiça, que leva à vida eterna, como está no verso 23. Mais uma vez o contexto não oferece o conceito de que aquele que está crucificado por Cristo e liberto do pecado não possa voltar e viver sob o domínio do pecado, mas exorta para que isso não ocorra, levando em conta o livre-arbítrio do crente, e mostrando a necessidade da vida de boas obras sob o conceito da obediência (cf. Romanos 6, 16.23).

Owen continua a argumentar, de forma eloquente e profunda, em favor da aplicação certa dos benefícios da cruz a todos pelos quais Cristo morreu, incluindo a condição, que é a fé, sendo a mesma fruto da aquisição da morte de Cristo. Dos textos citados para tirar seu argumento, estudemos os mesmos e concluamos a favor da doutrina bíblica, passando pelo crivo novamente os argumentos de Owen.

Que a morte de Cristo é objetivamente suficiente e poderosa para salvar a todos não é  dúvida para nenhum cristão. Que a mesma seja certa a ser aplicada a todos pelos quais Cristo morreu, não é algo que os textos bíblicos estudados ensinam. Tal ponto já está refutado. Basta agora tratar, com maior ênfase, da condição de crer para ser salvo.

Em 2 Coríntios 1, 20 está escrito que as promessas de Deus são sim. Owen afirma que isso significa “confirmado, ratificado, inalteravelmente estabelecido, e irrevogavelmente entregue a nós”. As promessas são a transmissão dos legados para nós, confirmado pela morte do testador, Hb 9, 16; 7, 22; confirmado com muitos, Daniel 9, 26-27. Que promessas são essas? A soma delas em Jer 31, 33-34 e Hb 8, 10-12. Santificação 10, 11 e justificação 12. Promessa de circuncisar e dar novos corações Dt 30, 6 Ez 36, 26. Promessas imutáveis pela morte Hb 9, 23; Cl 1, 14 para nos livrar Hb 2, 14-15.

Lugares mais claros, Tt 2, 14, Ef 5, 25-26 – intenão e certo efeito. O sangue de Crisot nos purifica de todo pecado 1 Cor 1, 30.

Tudo o que Owen argumenta como efeito certo da morte de Cristo deve ser entendido dos eleitos, mas não exclui a intenção de Deus e de Cristo e realizar e oferecer respectivamente a oblação por todos os homens e deixa-los inescusáveis perante Deus.

Uma palavra deve ser dita do texto de Daniel 9, 26-27 citado por Owen, da aliança com “muitos”, o que não é relativo ao Novo Testamento ou Nova Aliança.

A nova aliança é mais perfeita e contem melhores promessas (cf. Hb 8, 6).  O livro de Hebreus 3, 12 exorta para que “ninguém venha a perder interiormente a fé, a ponto de abandonar o Deus vivo”. Para ser santo é preciso primeiro crer e ser justificado. Para a justificação é necessário a fé e o batismo.

Para o leitor que acompanha o estudo desde o início, sabe que essa é a doutrina bíblica, que apresenta o crente ainda sujeito à fraqueza e mau uso do livre-arbítrio, capaz de perder a fé e abandonar a Deus. Dessa forma, toda a Igreja é exortada ao dever de uns pelos outros animar-se mutuamente, para que ninguém se apegue ao pecado (v. 13). E continua a Palavra de Deus com verdade luminosa: “Porque somos incorporados a Cristo, mas sob a condição de conservarmos firme até o fim nossa fé dos primeiros dias”.

Há, portanto, a possibilidade de perder a fé e afastar-se de Deus, e de endurecer o coração pela sedução do pecado (v. 13), pois há uma condição de continuar unido a Jesus Cristo, que é a conservação da fé até o fim. A perda da fé afasta o salvo de Cristo.

A passagem é suficientemente clara em si. Por esse motivo, os dispensacionalistas tendem a dizer que o livro de Hebreus é endereçado a outra dispensação, onde as obras terão parte na salvação, e a perda a mesma será uma realidade, a partir de passagens como essas, impossíveis de serem negadas nesse sentido que apresentam, e de admitirem outro sentido, e afirma que seriam endereçadas aos judeus apenas. Os que conservam-se no calvinismo e dispensacionalismo, conseguem por esse subterfúgio fugir desses lugares que mostram a possibilidade de cair da graça e a necessidade de conversar a fé para ser salvo, “dividindo” a palavra para outro público e tempo.

Por sua vez, os reformados que não pertencem ao dispensacionalismo deveram procurar outras explicações para passagens tão claras, que dispensam esclarecimentos nesses pontos. São obstáculos que denunciam erros teológicos do sistema reformado.

Por isso, a fé continua, pelo padrão bíblico do evangelho, das cartas de São Paulo, do livro de Hebreus, do Apocalipse, enfim, de toda a Bíblia, a fé é uma condição para receber os benefícios da cruz de Cristo e de continuar incorporado a Cristo. Os muitos outros textos que provam essa afirmação foram apresentados nos capítulos precedentes com suficiente estudo de cada contexto e do texto geral da doutrina bíblica.

Porém, continua o argumento de Owen, a fé é efeito da graça gratuita de Deus. De fato, a fé é um dom, e é parte do efeito da cruz de Jesus, da graça de Deus. Corretamente entendido isso, temos de considerar o livre-arbítrio informado pela graça, que responde livremente, e não que seja irresistivelmente convencido. Por isso, ainda à aqueles que já estão na fé, é exortado a esforçarem-se e manterem a fé até o fim, caso contrário a perderão, se afastarão de Deus e serão desligados de Cristo. Dessa forma, por essas passagens de luminosidade tamanha, temos que a fé que é fruto da aquisição da morte de Cristo está aberta a todos, mas não é eficazmente aplicada a todos, uma vez que muitos não perseveram. E havendo quem não persevera a receba a fé, conclui-se que Cristo não morreu apenas pelos eleitos, mas por todos os homens.

Sim, a santificação é enraizada na cruz, como proveniente dela, e a fé é um dom e fruto que nos vem pela graça trazida igualmente pela cruz. Todos os eleitos irão crer, ser santos e perseverar, mas não se pode restringir aos eleitos todos os efeitos da cruz, pois a Bíblia ensina que Jesus se entregou por todos, em resgate por todos, e muitos são os que voltam atrás, deixando a fé, e rejeitando o Senhor que os resgatou, como ensina a doutrina bíblica. A nova aliança foi inaugurada, está aberta a todos, e todos os que fizeram a aliança terão as promessas de Jeremias 31, 33-34 e Hebreus 8, 10-12, e a circuncisão do coração e o novo coração da parte de Deus, como ensina Deuteronômio 30, 6 e Ezequiel 36, 26, sob a condição que guardem a fé. Jesus destruiu o império da morte, libertou os que estavam escravizados pelo medo da morte, entregando-se pelos pecado do povo (cf. Hebreus 2, 17), em geral, e não somente de alguns. A unidade inseparável da oblação e intercessão não foi provada por Owen pelos motivos bíblicos estabelecidos.

 Cristo comprou tudo pelo seu sangue (1 Pedro 1, 18-19). Owen argumenta que tudo o que é feito por Deus e por Cristo não serviria em nada se não fosse aplicado a nós. Se há em nós algum poder para acreditar, e o ato de fé procede desse poder, estaria em nosso poder fazer a morte de Cristo eficaz em nós ou não. Sendo a fé tão necessária para a salvação, a sua causa é a primeira e principal para a salvação. Cristo mereceu ou adquiriu a fé para nós ou não, foi a fé fruto e efeito da morte de Cristo ou não? Mas não apenas isso. Cristo adquiriu a fé para todos pelos quais morreu ou deu-lhes condição? Se sim, todos crerão, e se não, qual a condição? Eis o argumento.

A resposta já foi dada pelos inúmeros textos apresentados, onde a graça de Deus é para todos e a fé pode ser perdida. Assim, como a fé é um dom, Deus pode concedê-la, gratuitamente, e o fiel, mais cedo ou mais tarde, por pura má vontade, negar a fé e deixar de tê-la. Assim, a fé é um fruto da cruz, alcançado pelo pecador por meio da graça de Deus, e é um meio necessário para se chegar à salvação, a condição sine qua non para todos os que têm o uso suficiente da razão, pode ser usufruída por todos, e pode ser perdida caso não houver perseverança.

Mas, continua Owen, a fé é dada a todos os membros da aliança. Sim, aos que já fazem parte da aliança, pois muitos creem e logo voltam atrás, como aquele que é comparado a um terreno árido que não é propício para que a semente germine. Todos os membros da aliança recebem a fé.

De fato, não há condição para ter fé, já que se trata de um dom de Deus, mas a mesma é mostrada na Escritura como algo que pode ser concedido e perdido. Assim, não está em nossa vontade crer ou não crer, efetivar a obra de Cristo ou não, fazer algo puramente espiritual por nossa própria força (cf. 1 Coríntios 2, 14). Não se trata disso, mas há uma cooperação entre Deus e nós, não por que queremos, mas porque esse foi o plano de Deus em nosso favor. Dessa forma, a fé pode vir a nós, vasos de barro sujeitos a trincas e quebras, que devemos nos confiar somente em Deus para que possa levar-nos até o fim à glória do céu.

E, por isso, não somos causa da nossa salvação, uma vez que não podemos pensar por nós mesmo algo de bom, mas que todo bem nos vem de Deus, e o sacrifício de Cristo permanece em todo o esplender ainda que muitos pecadores o rejeitem.

Como não podemos crer por nossas próprias forças, a fé é um dom, preparado e infundido pela graça, após uma preparação pelos movimentos internos da graça que convidam o pecador a abrir-se livremente. Uma vez tendo a fé, é dever guardá-la (Jd 4, aqui a fé no sentido de sistema de doutrina, que nutre a fé em Cristo Salvador.) ou pode-se perdê-la. Essa parte está em nossa responsabilidade, mas sabemos que não podemos por si só tudo conseguir. Podemos tudo naquele que nos fortalece.

Se Cristo adquiriu a fé para todos na cruz, e todos não creem não significa que Cristo não tenha morrido por todos, mas que nem todos abrem-se à graça. Esse elemento é negado no sistema doutrinal de Owen, que não admite o livre-arbítrio, por entendê-lo mal.

A distinção de que algumas graças são garantidas e outras dependem de nós não é tão exato para explicar essa relação da graça com o livre-arbítrio. Todas as graças nos vem de Deus, não podemos fazer nada por nós mesmo. Se mim nada podeis fazer, diz o Senhor Jesus.

Que fomos eleitos em Cristo para a santidade, isso é uma verdade, e será eficaz e cumprida totalmente nos eleitos, que são livres para acolher a graça e perseverar. Não foi o decreto de Deus que determinou que seriam santos, mas o decreto de santidade foi preparado para os que se entregariam aos motivos da graça de Deus.

Pensar no chamado de Deus, Rm 8, 30, é também pensar na resposta do homem. Deus chama, e só após o acolhimento do chamado é que há a justificação. Na presciência tudo é explicado, por isso o texto o diz com clareza que a predestinação é baseada na presciência de Deus.

Eis que Owen apresenta vigorosa e sinteticamente a tese da eleição e reprovação pelos textos de Ef 1, 9; 1 Cor 4, 7; At 13, 48 e Rm 9, 7, onde Deus faz crer os que estão destinados à vida eterna, causando a diferentes entre os que não creem, cegando-os.

Em 1 Cor 4, 3 São Paulo afirma que o Senhor é quem o julga, e que receberemos no julgamento o louvor que merecemos (v. 5). O verso 7 exorta a não considerar os dons como se não tivéssemos recebido. Isso, portanto, não sugere que o Senhor dá o dom a uns para diferenciá-los e distingui-los de outros, como se desse o dom da fé a uns e deixasse outros na cegueira determinada pelo decreto de reprovação. Os eleitos são aqueles que aceitaram a graça e receberam o dom da perseverança, conseguindo através da graça maiores graças.

Que todos os bens da aliança são seus efeitos, fruto e compra da morte de Cristo não há o que negar. O problema é garantir que pela aplicação certa nos eleitos os demais ficaram fora do escopo de intenção da oblação da cruz.

A fé pertence às boas coisas da aliança (Jer. 31:33, 34; Heb. 8:10-12; Ezek. 36:25-27), e é imprescindível para a salvação. No entanto, deve-se considerar também o elemento mínimo exigido para a fé salvífica, como já exposto antes, que é crer na existência de Deus e no Seu poder de retribuir aos que O buscam, e no caso da resposta ao anúncio do evangelho, a fé em Cristo salvador e o batismo. Quem não crer, não pode ser batizado, e, portanto, já está condenado. De fato, aquele que já possuí a fé, em Deus, aceitará o evangelho e o batismo. Ser justificado aí não é garantia total da perseverança, mas já testifica do bem que flui da cruz de Cristo.

Cristo nos salva perfeitamente, mas se formos a ele, diz o texto de Hb 7, 25. A redenção eterna, Hb 9, 12, é aplicada sob a condição já apresentada. Entretanto, a fé está no rol dos dons adquirido para nós na cruz, pois Cristo é o autor da fé (Hb 12, 2).

O fruto e efeito adquirido e realizado pela morte de Cristo é concedido a todos, sob a condição de que creiam, e não há ensino de que terão fé todos pelos quais Cristo morreu, mas que somente os que crerão serão salvos. A obra da cruz é para todos, e a salvação efetiva para os que crerem.

O argumento do tipo ao antítipo restringiria a oblação de Cristo aos eleitos. Tal caso já foi refutado. Israel como tipo da Igreja. Correto. No entanto, nem todos os israelitas naturais foram eleitos, assim como nem todos os membros da Igreja são eleitos.

Em termos novos, espirituais, já profetizados e revelados no Novo Testamento, o Israel verdadeiro é aquele da promessa. Assim, somente os que creem serão salvos. No entanto, pelo já exposto antes, nem todos os que creem perseveram. O verdadeiro israelita é um verdadeiro crente (cf. João 1, 47), mas somente será salvo o que fizer a vontade do Pai, o que pratica a Lei (cf. Rm 2, 13), que pratica os mandamentos (Jo 19, 17). E a Escritura mostra que há os que desobedecem, não praticam a palavra, não fazem a vontade de Deus. Israel não era o tipo de todo o mundo, mas da Igreja, conforme Gl 6, 16. Assim, a Igreja visível é recipiente de todas as promessas. Somente os eleitos perseverarão. No entanto, mesmo os hereges e apóstatas foram comprados por Cristo, e negaram o Senhor que os resgatou e santificou.

Gledson Meireles.