terça-feira, 4 de janeiro de 2022

John Owen: estudo dos capítulos 2, 3 e 4 do livro I (The Death of Death in the Death of Christ)

O primeiro capítulo do livro 1 já foi estudado. Segue agora o estudo de mais três capítulos, do livro A morte da morte na morte de Cristo, do teólogo reformado puritano John Owen. Não estão sendo usados os títulos dos capítulos respectivos, que o leitor deve ler na obra original. São apenas estudos dos mesmos, com a devida resposta de acordo com a fé católica. Estudo feito totalmente com fundamento bíblico.


Capítulo 2

Sobre o objetivo

Owen demonstra que os meios são todas as coisas que são usadas para atingir o fim proposto, e são causas do fim de alguma forma. Com isso, ele trabalhará a tese para explicar a redenção.

Explica que o fim da morte de Cristo é a satisfação da justiça de Deus. E afirma que os meios não são considerados bons em si mesmos. A tese partirá desse princípio, que é estabelecer o agente em ação, os meios empregados e o fim efetuado.

Parece não haver nada a ser objetado nesse capítulo, que fica à espera do que será proposto, e somente ao longo do processo é que se irá inserindo a crítica onde os pontos em questão destoarem da revelação bíblica.

O que se diz do fim de uma ação, dos meios empregados, da natureza dos meios, servirá para corroborar a tese. No entanto, é no desenvolvimento da mesma que se pode entendê-la bem. Não são todas as coisas que necessitam de refutação.

 

Capítulo 3

Do Agente da Redenção, a Trindade, e a primeira coisa atribuída ao Pai

Na redenção, as causas secundárias, as ações dos homens, foram excessivamente contra suas intenções, e fizeram somente o que foi determinado fazerem, como está em Atos 4, 28. Cristo entregou Sua própria vida, conforme João 10, 17-18.

Ações do Pai: o envio do Filho, e a punição pelos nossos pecados.

De passagem, citando o texto de 1 Timóteo 4, 10, onde Deus Pai é chamado de Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem, o autor explica a passagem afirmando que não se fala aí da redenção, efetuada por Cristo, mas da “salvação e preservação de todos” pela Providência de Deus.

Com isso, o reformado pensa ter respondido à questão referente à redenção universal, afirmando que o texto não diz respeito à cruz, mas à Providência de Deus, que é relativa a todas as coisas, as todas as pessoas, incluindo, logicamente, a Igreja.

Dessa forma, um texto que usamos para provar que Cristo morreu por todos, é interpretado pelos calvinistas como não falando desse assunto, como não constituindo prova da expiação ilimitada, e como não servindo para provar que todas as pessoas são alvo da graça da cruz.

Contudo, o autor apenas afirma que é assim, mas não fornece nenhuma prova da sua interpretação, não expõe nenhum princípio hermenêutico, não faz qualquer exegese, apenas afirma que não se trata da redenção, mas da providência. Uma afirmação que serve de autoridade para os reformados, que aceitam essa interpretação, e não podem agir de outra forma, uma vez que se aceitarem a expiação ilimitada deixam de ser calvinistas.

Outra coisa é que essa interpretação fornece uma explicação razoável para o reformado que tem que lidar com textos que mostram que Deus é Salvador de todos. É uma forma de responder a essa dificuldade.

No entanto, a leitura natural da passagem mostra que Deus é Salvador, que nos salvou pela cruz do Seu Filho, é que essa redenção é efetuada em favor do mundo inteiro.

Pergunte o leitor, se é reformado, ou não, de onde vem a autoridade para interpretar esse texto assim? Certamente da tradição reformada. Pense nisso. Quais então sãos as bases pelas quais essa interpretação se assenta? E, por fim, cada uma das razões apresentadas estão de acordo com a verdade, com o princípio bíblico de cada passagem estudada, como da mesma de 1 Tm 4, 10? Essa interpretação convence você? Por quê? Deus é o Salvador de todos apenas pela Providência? E por que tipo chama Deus de nosso salvador, falando a cristãos? Agora está apenas tratando da especialidade de Deus em tratar os eleitos, providencialmente? Não é mais comum e natural que a Bíblia fale de redenção, de salvação, de salvador, em relação à cruz? Por que nessa passagem não é referente a isso?

Não foi Deus considerado em Atos 20, 28, ter adquirido a Igreja com o Seu próprio sangue? A própria teologia reformada deve conceder que a divindade de Cristo é aludida aí, e que o sangue de Cristo é o sangue de Deus, pela união hipostática, onde a Pessoa de Jesus é divina, e Sua humanidade está unida à Sua divindade. Então, com essa acepção, temos o Senhor Deus salvador da Igreja pelo Seu sangue. Por isso, 1 Timóteo 4, 10 fala de Deus Salvador no sentido da redenção universal.

Se a obra inteira de John Owen não responder satisfatoriamente a essas questões, e não provar o motivo dessa passagem não ser lida em relação à cruz de Cristo, temos então, nesse passo, de fato, um texto que refuta a doutrina reformada.

Agora, passemos ao estudo do texto, para formar uma base sólida pela qual possamos analisar o livro de Owen.

Em 1 Timóteo 4, 1, o assunto é a apostasia da fé no fim do mundo (vv. 1-3). É estabelecida a doutrina para que corrija as heresias (v. 6). O verso 7 fala das fábulas, que devemos rejeitar. O verso 8 trata da piedade, que é útil para tem a promessa da vida presente e futura. Está tratando de coisas espirituais, da salvação, da graça, para a fim temporal e para a vida eterna. Trata portanto dos exercícios espirituais. E então, temos o verso 10: “Se nos afadigamos e sofremos ultrajes, é porque pusemos a nossa esperança em Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, sobretudo dos fieis”. Não se trata apenas da providência, como se apenas os sofrimentos do mundo, os ultrajes, fossem o assunto em questão.

Os fieis põem a esperança em Deus, e o contexto inteiro é salvífico. Não se trata da providência comum, como o autor repete em outro lugar da obra, onde Deus trata de homens e animais (Salmo 36, 6). Não se trata de esperança para a vida física, mas para tudo.

Dessa forma, a esperança em Deus Salvador inclui a redenção. Ele é o Salvador de todos, especialmente dos que creem, o que confirma a redenção universal. As fadigas e sofrimentos são postos em Deus que nos salvará, não apenas nos auxiliando, ajudando, prevenindo, preservando, protegendo, entre tantas fadigas temporais, mas nos levando para o Seu reino de glória. Ele salva a todos, pois a obra da cruz de Cristo foi por todos, mas salva somente os que creem e aceitam a obra da redenção.

Talvez um texto que deve ser rapidamente comentado é Isaías 53, 2. Tal passagem não tem a ver com a aparência humana de Cristo, mas sua aparência na cruz, após ter sofridos todos os ultrajes.

Owen trata de algumas afirmações:

1.      Todos os pecados de todos os homens.

2.      Todos os pecados de alguns homens.

3.      Alguns pecados de todos os homens.

E afirma que, se for a terceira opção, ninguém será salvo. Se for a primeira, porque há punição pela descrença, que é pecado, e que Cristo morreu por ela. A segunda é a posição calvinista, onde só os eleitos tiveram seus pecados perdoados na cruz.

A resposta é que a primeira está correta, pois Cristo morreu por todos os homens, perdoando todos os pecados, mas só irá aplicar a redenção nos que creem por seu livre-arbítrio auxiliado pela graça.

Deus enviou Seu Filho ao mundo para que vivamos por Ele (1 João 4, 9). Esse texto pode iluminar a questão. Deus enviou Jesus “ao mundo” para que nós vivamos por Ele. Então, o mundo refere-se a todos, e nós formamos a Igreja. Cristo veio a todos, e nós que cremos já estamos vivendo por intermédio dEle a vida da graça.

A promessa do Pai ao Filho e o pedido do Filho ao Pai é dirigido ao fim particular de trazer filhos a Deus, o primeiro ato.

Devemos considerar essa comparação. Como os sacrifícios antigos eram realizados para perdoar os pecados do Povo de Israel, o Povo Eleito, agora é feito por todos os povos, tanto Israel e como as Nações, o mundo inteiro.

Assim como os sacrifícios serviam para perdoar todo e qualquer israelita, e não somente um grupo entre os israelitas naturais, mas todo o israelita e todo o que tivesse entrado no povo e praticasse a Lei, os prosélitos, assim o sacrifício de Cristo é para todo o povo eleito, e servirá eficazmente para o que aceitar a Jesus Cristo como salvador.



Capítulo 4

Sobre a obra do Filho

No capítulo quarto John Owen argumenta que Cristo é agente da redenção (como pessoa da trindade, pois o capítulo desenvolve essa doutrina) agente voluntário, e que morre por determinadas pessoas e faz por elas a intercessão.

Com isso, Jesus teria morrido pelos filhos que o Senhor lhe deu (cf. Hb 2,13), “não por causa de todo o mundo, toda a posteridade de Adão”, mas somente pelos filhos.

Em Hebreus 2, 3 está escrito: “Como, então, escaparemos nós se agora desprezarmos a mensagem da salvação, tão sublime, anunciada primeiramente pelo Senhor e depois confirmada pelos que a ouviram...”.

Essa passagem exorta os cristãos a aceitarem a mensagem, para não acontecer como os antigos, que desviaram-se do caminho reto, como está no verso 1. A mensagem antiga anunciada pelos anjos era válida, a tal ponto de ser castigado o que a transgredisse (v. 2). Agora, maior ainda é a mensagem da salvação, anunciada por Jesus Cristo.

Todo o contexto é de salvação para todos. A mensagem é endereçada a todos, e as admoestações para que os ouvintes não se afastem da mesma e não sejam reprovados. Não há nenhuma noção de uma obra de redenção dirigida apenas aos eleitos aqui, já que não seria possível que os eleitos se desviassem do plano salvador.

É no sentido geral que o texto está exortando. Confirmando essa bela doutrina, o versículo 9 diz: “...Assim, pela graça de Deus, a sua morte aproveita a todos os  homens”. O leitor leu corretamente: a morte de Cristo aproveita a todos os homens (cf. Hb 2, 9).

Contudo, o reformado dirá que “todos os homens” são todos os eleitos, são os filhos de que fala adiante, no verso 13. Mas, deve-se lembrar que desde o início do capítulo, temos visto que a mensagem é geral, universal, e a responsabilidade de ater-se a ela é de cada um, em particular, para que não seja reprovado.

Os “numerosos filhos” do verso 10 estão entre “todos os homens” do verso 9. Jesus veio em socorro à raça de Abraão (v. 16). Dirão alguns, que somente é raça de Abraão os que creem, e somente os que creem é que tem Jesus como salvador. Mas o texto do livro sagrado de Hebreus, capítulo 2, não vem desenvolvendo essa doutrina. Pelo contrário, está aberto a todos desde o verso primeiro.

A mesma noção está em Hebreus 3, 3, que diz: “E sua casa somos nós, contanto que permaneçamos firmes, até o fim, professando intrepidamente a nossa fé e ufanos da esperança que nos pertence”. Que ninguém perca a fé a ponto de abandonar o Deus vivo, exorta o verso 12.

E nada mais claro que o verso 14 que ensina: “Porque somos incorporados a Cristo, mas sob a condição de conservarmos firme até o fim nossa fé dos primeiros dias”. Todo o capítulo é fechado com o tema da exortação contra a descrença.

Com tais asseverações, a Palavra de Deus é clara que Cristo é o salvador de todos, e que chama da todos a Si, para que usufruam da Sua graça, como Seus irmãos (v. 13), tendo, no entanto, o livre-arbítrio iluminado e fortalecido pela graça, sendo responsáveis agora a manterem-se firmes em Cristo, na fé em Cristo, incorporados a Cristo. Somente o próprio homem pode sair dessa comunhão. Ninguém pode tirá-lo. Há uma condição para manter-se incorporado a Cristo, que é a manutenção da fé, a perseverança na fé.

Então, entendemos bem que Cristo morreu por todos, e aqueles que se achegam a Ele e não O deixam, são os filhos que Deus lhe deu, contanto que permaneçam até o fim. Por isso, Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (cf. Ef 5, 25), pois Deus amou o mundo e deu Seu Filho para que todo o que crer faça parte da Igreja.

Assim, a Igreja está contida no amor de Deus, e tem em si aplicado o amor de Deus e de Cristo, infalivelmente conhecido. Por isso, Cristo morreu pelos ímpios, pois todos são ímpios. Note que Romanos 5, 6 afirma que Cristo morreu quando todos ainda eram fracos e pecadores.

É por isso que o evangelho diz que Cristo é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29). Se Cristo morreu pelo mundo, certamente morreu pela Igreja. O contrário não seria possível, se tivesse morrido somente pela Igreja, determinada, não poderia ter morrido pelo mundo. Não se concebe nessa teologia da cruz que se trate por mundo a Igreja espalhada pelo mundo. A Igreja está contida no plano universal da redenção, porque a Igreja adere a Cristo pela fé e torna-se eleita.

Por isso, falando da eficácia da morte de Jesus, Hebreus 9 afirma: “Por isso, ele é mediador do novo testamento. Pela sua morte expiou os pecados cometidos no decorrer do primeiro testamento, para que os eleitos recebam a herança eterna que lhes foi prometida”. Tantos os eleitos do Antigo Testamento como os do Novo Testamento.

E no verso 28: “Assim Cristo se ofereceu uma só vez para tomar sobre si os pecados da multidão, e aparecerá uma segunda vez, não porém em razão do pecado, mas para trazer a salvação àqueles que o esperam”. Esses são os “muitos” que Cristo resgatou (cf. Mateus 20, 28)

Cristo veio ao mundo para salvar a multidão, ofereceu o sacrifício pelos pecados da multidão, da humanidade inteira, do mundo. Agora, virá segunda vez para trazer a salvação, não à multidão, mas aos que O esperam. Tem-se que a cruz de Cristo é suficiente e entregue por todos, e a salvação é para aqueles que continuam na graça, que mantiveram a fé, e que esperam em Jesus.

Cristo morreu por mim (cf. Gálatas 2, 20), pode dizer o cristão. Pois não é pela Lei, mas pela graça através da fé, uma vez que todos podem ter fé, se não opuserem obstáculo à graça.

Assim como o Sumo Sacerdote entrava no santo dos santos para oferecer o sacrifício anual por todo o povo, Cristo veio oferecer uma só vez o sacrifício por todos, judeus e gentios, a humanidade inteira, e entrou nos céus (cf. Hebreus 9, 7).

Dirão alguns: o sacrifício propiciatório é o fundamento para a intercessão. Cristo intercede por aqueles que Ele morreu. Então, se intercede por todos, todos serão salvos?

Essa dificuldade já está desfeita acima, mas é necessário maiores esclarecimentos. A Bíblia ensina que é necessário permanecer unido a Cristo (cf. Jo 15, 1-5; Hebreus 3, 14). Assim, a intercessão de Cristo é por aqueles que estão nEle. Por isso, está escrito: “É por isso que lhe é possível levar a termo a salvação daqueles que por ele vão a Deus” (Hebreus 7, 25).

Somente os que vão a Deus por meio de Cristo é que entram no rol dos que recebem o benefício da intercessão, o que pode levar a termo a salvação. É um processo. Na eternidade, tudo é conhecido, tudo é resolvido, tudo está consumado, objetivamente.

No tempo, tudo acontece conforme o plano de Deus, com o livre-arbítrio e a graça em comunhão. Não se trata apenas de uma diferença de perspectiva ou de ênfase, com se um sistema, o reformado, fosse criado a partir do olhar para o que se passa na eternidade e a posição católica estivesse preocupada com a realidade temporal. Não é isso.

Há uma diferença do que ocorre, já que na teologia reformada somente um grupo é amado com amor salvífico, e é eleito para que o Filho venha a morrer por ele, enquanto que a teologia católica ensina que desde a eternidade o plano de Deus para a salvação do mundo em Cristo oferece a graça indistintamente a toda e qualquer pessoa e levará eficazmente à salvação os que abraçarem e perseverarem na fé. Cristo alcançou para nós uma salvação eterna, basta que a acolhamos.

Resta então saber por que Cristo não orou pelo mundo, por que se recusou a orar pelo mundo, como diz John Owen?

O contexto da oração de João 17 mostra que o mundo ali representado significa aqueles que rejeitam o plano de Deus, e por isso não tiveram a intercessão de Cristo. Trata-se do sistema maligno, cujas obras são más, e que estão contrárias ao plano de salvação. Por outro lado, Cristo ora por todos os que irão crer, o que não indica que estejam determinados e sejam um grupo que tem o benefício da cruz, mas que livremente, pelo livre-arbítrio, podem usufruir da graça da cruz, e são já objetos do amor de Deus, da oração de Cristo, para que creiam e sejam salvos.

Salvos se perseverar incorporados a Cristo, recebendo todas as graças salvíficas Rm 8, 33-34, recebendo a perfeição alcançada por Jesus na cruz: “Por uma só oblação ele realizou a perfeição definitiva daqueles que recebem a santificação” (cf. Hebreus 10, 14), mas não esquecendo, como está no mesmo capítulo de Hebreus 10, versículo 26: “Depois de termos recebido e conhecido a verdade, se a abandonarmos voluntariamente, já não haverá sacrifício para expiar este pecado.

Se os crentes Hebreus cressem na impossibilidade da queda da graça, na "imperdibilidade" da salvação, da eterna preservação dos santos, não teriam motivo de crer e esperar na graça para que fossem preservados da queda. Teriam no máximo a dúvida de não ser do número dos eleitos, o que poderia dar fundamento ao temor da heresia e apostasia.

Cristo levará para o céu aqueles que o Pai lhe deu, que são os que ouvem a Palavra de Deus, que vão a Cristo (cf. João 17, 24). Portanto, nada pode separar os fieis do amor Deus (cf. Rom 8, 33-34), a não ser o próprio fiel por própria força de vontade.

Para a fé católica, que aceita toda essa teologia, da propiciação de Cristo, completa, definitiva, objetiva na cruz, e na aplicação sob a condição da fé, e salvação sob a condição da perseverança, pode crer e pedir a Deus que nos mantenha na graça, e pode temer, com real temor, na possibilidade do abandono voluntário da verdade (cf. Hb 10, 26) e na condenação (Hb 10, 27), confiando na misericórdia de Deus que pode nos preservar infalivelmente. Uma vez que vamos a Deus por meio de Cristo, Ele pode nos salvar (Hb 7, 25; Rom 8, 33-34).

A tese de que Cristo morreu pelos eleitos e faz sua intercessão somente por eles não pode ser provada, já que Cristo morreu por todos e intercede por aqueles que vão a Deus por meio dele.

Gledson Meireles. 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

John Owen: refutando a sua explicação de João 3, 16

 Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3, 16)

 

John Owen afirma que os argumentos contrários à doutrina calvinista são tirados da Escritura de modo pervertido, e outros são fundados no abuso da razão.

 

Os argumentos dos mais fortes adversários, são primeiro os lugares que afirmam que Cristo morreu pelo mundo, ou que fazem menção da palavra mundo no plano da redenção.

 

Segundo, as passagens que mencionam todos e cada homem, na obra de Cristo morrendo por eles, ou que dizem que Deus quer a salvação deles.

 

E terceiro, as passagem que dizem que Cristo comprou ou morreu pelos que perecem.

 

Disso, diz Owen, são tirados três argumentos ou sofismas em que insistem, que conforme Jo 3, 16 Deus amou o mundo, João 6, 51 Jesus deu a vida pelo mundo,  1 Jo 2,2 Jesus fez a propiciação pelos pecados de todo o mundo. Ainda outros textos são João 1, 29 – João 4, 42 – 2 Cor 5, 19, nas citações de Armínio. Afirma que os adversários dizem que não há resposta, e dá a eles liberdade de gabar-se.

 

Pois bem. Sabemos que os católicos também eram adversários de Owen. E, por isso, é bom que tenhamos respostas para os argumentos reformados, que são bastante sutis, muito difíceis às vezes de serem distinguidos da correta interpretação, em pontos bastante tênues.

 

Em muitos lugares da Bíblia aprendemos que Jesus veio salvar o mundo:

 

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” (João 1, 29),

 

“Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3, 16).

 

“E diziam à mulher: “Já não é por causa da tua declaração que cremos, mas nós mesmos ouvimos e sabemos ser este verdadeiramente o Salvador do mundo” (João 4, 42).

 

“porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo”. (João 6, 33).

 

“...E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.” (João 6, 51).

 

“Porque é Deus que, em Cristo, reconciliava consigo o mundo, não levando mais em conta os pecados dos homens, e pôs em nossos lábios a mensagem da reconciliação.” (2 Coríntios 5, 19).

 

“Ele é a expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 João 2, 2).

 

John Owen afirma que os adversários podem provar o resultado tirado de João 3, 16 em favor da expiação ilimitada, pela razão e sentido da palavra mundo e pelos lugares da Escritura aludidos, e irá testar ambos os argumentos. Primeiro, irá tentar mostrar que a palavra mundo não significa todas as pessoas, mas os eleitos. E depois irá tentar estabelecer que as passagens que usam a palavra mundo em conexão com a redenção são restritas aos eleitos.

 

“O mundo inteiro contem todo e cada homem no mundo; Cristo morreu pelo mundo inteiro, então, etc.”

 

Certamente, Deus amou o mundo (as pessoas), e não o mundo físico criado, a matéria da terra, plantas e tudo o que serve para nossa habitação aqui. Deus amou o mundo, Deus deu o filho para morrer e salvá-lo.

 

Por isso, é possível fazer o silogismo correto: Deus amou o mundo e deu seu Filho único ao mundo. Portanto, Jesus veio salvar o mundo. Mundo aqui significa todas as pessoas, e não apenas algumas. O calvinismo deve esforçar-se para que a palavra mundo nessas passagens não tenha o sentido de totalidade. Para isso, apresenta muitos argumentos.

 

“Esta palavra “mundo” na Escritura significa todo e cada homem no mundo; mas Cristo é dito morrer pelo mundo: segue-se, etc”.

 

Deve-se notar se o significado da palavra mundo é universal em todos os lugares em que ela é usada, ou tem o sentido de particular, intencionando somente alguns. Na primeira acepção o argumento é falso, afirma Owen. No segundo seria assim:

 

“Em alguns lugares na Escritura a palavra “mundo” significa todo e cada homem no mundo, de todas as idades, tempos e condições; mas Cristo é dito morrer pelo mundo: então, etc.”

 

Afirma que aqui se trata de uma conclusão universal tirada de uma proposição particular. E portanto não aceita o resultado da interpretação.

 

Em cada lugar onde se menciona a morte de Cristo, é dito que ele morreu pelo mundo ou somente em alguns lugares?

 

Um lugar diz que Cristo intencionou morrer pelo mundo. Os outros lugares falam da suficiência, o que concordam os calvinistas.

 

Os argumentos apegam-se ao significado da palavra mundo como se todas as passagens fossem claras para redenção universal. Essa é a crítica de John Owen.

 

A primeira prova, tirando argumentos do texto usado, que é João 3, 16, contra os universalistas, explica o texto com o sentido universal e com o sentido calvinista. E contra a explicação primeira, de que Deus teve a propensão para com aqueles que iriam crer.

 

1º O que é o amor-causa do envio de Cristo?

2º Quem são o objeto desse amor?

 Em que esse oferecimento consiste: salvador ou tem a ver com a encarnação?

4º É a distribuição às pessoas do mundo ou é restritiva a alguns?

5º A vida eterna fruto recebido pelos que crerão, e não como fim intencionado por Deus.

 

De forma resumida, eis o que John Owen argumenta:

 

Primeiro: O amor de Deus, até o ato da vontade que causou o envio de Cristo, é o mais eminente ato de amor à criatura. Nenhum amor maior que dar o Filho pela redenção. O propósito de enviar ou dar Cristo não é absolutamente subordinado ao amor de Deus aos eleitos, como fim do outro, mas são coordenados ao mesmo fim supremo. A passagem teria o sentido da manifestação da glória de Deus, misericórdia temperada com justiça.

Segundo: O mundo refere-se aos eleitos somente, que não são considerados em João 3, 16 literalmente, mas sob tal noção, sendo verdadeiro deles.

Terceiro: todo crente refere-se somente aos eleitos, como alvo do ato declarativo da intenção de Deus, sem distribuição da graça divina no mundo, mas direcionada às pessoas a serem salvas. Que o bem foi intencionado, o amor e a intenção imutável do bem maior.

Quarto: as ovelhas não perecerão, mas terão vida eterna. Essa passagem aludida contem expressão da particular meta e intenção de Deus. Nesse plano, que é a certa salvação de crentes em Cristo.

 

Para melhor provar e convencer, estabelecer e comparar diversas palavras e expressões deste lugar.

 

Primeiro: diferença sobre a causa do envio de Cristo, chamado aqui de amor.

Segundo: especial amor de Deus aos Seus eleitos.

Terceiro: sobre a intenção de Deus em enviar o Filho, dito ser crentes que devem ser salvos. “dito ser que crentes possam ser salvos”.

 

Amor é a afeição natural e propensão em Deus ao bem da criatura, como explicam os adversários, conforme Owen, ou é o ato da vontade, como ensinam os calvinistas, eterno propósito de fazer bem ao homem.

 

Owen irá mostrar o que é mais de acordo com a mente de Deus.

 

Se Deus tem afeição natural por todos por que não usa o poder para cumprir seu desejo?

O amor especial de Deus pelos eleitos – é o mais eminente e transcendente amor. Isso pode ser visto na expressão “de tal forma”, em João 3, 16.

 

Explicando o amor grandioso de Deus, John Owen escreve que Deus “poderia ter manifestado sua justiça à eternidade na condenação de todos os pecadores”.

 

Isso é verdade, e a linguagem é idêntica à usada em uma explicação católica sobre o assunto. No entanto, como no calvinismo o amor é um ato de vontade de Deus, assim como na teologia católica, a justiça aí prevista no merecimento de todos os pecadores é algo artificial se tivermos como pano de fundo toda a teologia reformada sobre o caso, se Deus determinou criar seres humanos que cairão no pecado e por isso serão culpados e condenados para mostrar a justiça de Deus. Seria algo de pura escolha, não tendo sentido algum nem no amor nem na justiça, objetivamente falando, mas a pura manifestação da justiça e bondade de Deus.

 

No caso da doutrina católica que reconhece e aceita o livre-arbítrio, Deus poderia ter manifestado sua justiça condenando a todos, mas quis dar a salvação a Deus os pecadores enviando o Seu único Filho, Jesus Cristo. Tudo agora faz sentido.

 

O texto citado de Romanos 8, 32, é para ressaltar o amor de Deus, como a intensa afeição, a intenção eterna imutável pelo mundo, no sentido de homens no mundo os pecadores eleitos, “por nós todos”.

 

Se Cristo foi entregue “por nós”, isso significaria somente os eleitos. E com isso, todas as coisas que por causa disso viriam de Cristo deveriam ser somente dos eleitos: Deus “nos dará também com ele todas as coisas”.

 

Essa linguagem particular é que estaria explicando de fato a eleição, de um grupo, mostrando assim que a redenção particular é a doutrina bíblica.

 

Para entender o texto, vejamos se o capítulo 8 de Romanos de fato pode ser lido nessa acepção da expiação limitada.

 

No v. 1 temos que não há condenação para os que estão em Cristo. O que era impossível à Lei Deus fez em Cristo, enviando-O por causa do pecado, para condenar o pecado (v. 3).

 

Isso mostra que objetivamente a Lei tinha seu valor, mas não podia justificar. Da mesma forma objetiva, Cristo é o salvador. Isso mostra que é possível a todos achegar-se a Ele.

 

O verso 4 é lido com particular interesse pelos reformados, certamente, por mostra que a justiça é realizada “em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito”. No entanto, a mesma frase pode ser lida na perspectiva da redenção universal, que abre a porta da graça a todos, e aplica a justiça naqueles que vivem segundo o Espírito.

É verdade que o amor é querer bem a alguém, e é ato da vontade de Deus. No entanto, se na teologia reformada Deus ama salvificamente apenas os eleitos, e ama os demais de forma a determinar sua condenação, na doutrina católica Deus ama a todos e quer a salvação de todos (1 Tm 2, 4), amando o mundo, entregando o filho, amando os que irão crer, com amor maior, e amando os que irão perseverar na fé, os eleitos, com o amor supremo, dando-lhes a graça eficaz. Assim, Deus ama a todos, conforme a Bíblia, e ama mais os eleitos, pois por seu livre-arbítrio iluminados pela graça amaram a Deus, crendo em Deus e em Jesus Cristo salvador.

 

Por isso, conforme Rom 5, 8 quando éramos pecadores, Cristo morreu por nós. Cristo morreu por inimigos, mas sabemos que não somente os eleitos eram inimigos, mas todos. Agora, já justificados, e por consequência os eleitos esperam a redenção completa, a glorificação (cf. vv. 9-10).

 

Por Adão entrou o pecado no mundo. Que mundo? Os eleitos apenas? Não, mas o mundo inteiro. Por isso a morte passou a todo gênero humano, porque todos pecaram (v. 12). Esse verso não há como conciliar com a fé reformada.

 

O pecado entrou “no mundo”, que é todo gênero humano, todos pecaram. Não há uma só pessoa que esteja fora dessa condição.

 

Assim, “o dom de Deus e o benefício da graça (...) foram concedidos copiosamente a todos” (v15). Temos novamente a teologia da expiação ilimitada.

 

O texto de 1 Jo 4, 9-10 é também lido como tratando apenas dos eleitos. Owen explica que o amor velle alicui bonum é o bem aos amados sendo a salvação só aos eleitos. Causa do envio de Cristo e de todas as outras coisas Rm 8, 32.

 

A palavra mundo em 1 Jo 4 aparece nos versos 1 “se levantaram no mundo” (na terra), 3 “e já está agora no mundo” (na terra), 4 “do que aquele que está no mundo” (na terra), 5 “eles são do mundo” (do sistema do mal), “falam segundo o mundo, e o mundo os ouve” (o sistema do mal, as pessoas do mal).

 

O v. 9 fala do amor de Deus para conosco, o envio de Cristo para que vivamos por Ele. Certamente a palavra “mundo” nesse verso é o planeta terra. Deus enviou Seu filho ao mundo, porque diz: “Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco, em nos ter enviado ao mundo o Seu Filho único...”. Portanto, o amor de Deus para conosco, os cristãos. Deus enviou Jesus ao mundo, à terra, para que nós, cristãos, vivamos por Ele.

 

O verso 14 diz que “o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo”, no sentido de da humanidade, das pessoas.

 

O verso 17 usa novamente o termo, com outro sentido: “...assim também nós o somos neste mundo” (que é a terra).

Em 1 João 5, 4 está escrito: “...todo o que nasceu de Deus vence o mundo” (no sentido de sistema da iniquidade, do mal), assim como no v. 19, onde “o mundo inteiro jaz sob o Maligno”.

 

Toda a linguagem que trata da Igreja, dos cristãos, de “nós”, aqui, está conforme a doutrina da expiação limitada, onde todos os que professa a fé está unidos a Cristo. Não é portanto uma prova de que a redenção é restrita somente aos eleitos.

 

Em segundo lugar, continuar John Owen, o objeto do amor – todos – ou os eleitos, em oposição aos judeus como nação. Owen passa a argumentar contra as provas de que o mundo não significa os eleitos.

 

Os eleitos não são aqui considerados, mas sobre outra noção, como homens espalhados em todo o mundo. Deve provar que mundo significa todo e qualquer homem no mundo, que não pode ser indefinidamente significado, como homens eleitos, embora não considerado sobre aquela formalidade. Não colocar a palavra eleito no mundo, para tirar consequências absurdas. De acordo com Owen, não há consequências absurdas, porque todos os que serão salvos devem crer.

 

O amor de Deus em João 3, 16 não é distributivo, mas declarativo do fim em enviar Cristo, que significa que todos os crentes serão salvos, é a explicação de Owen.

 

Por que não revelar Jesus a todo o mundo? Estranho, escreve Owen. A resposta é que Jesus veio aos judeus, em primeiro lugar, não manifestando sua humanidade a toda a terra, e deixou a Igreja para isso, para pregar o Evangelho, a ir ao mundo inteiro. O próprio evangelho é claro em ensinar que Jesus veio primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel.

 

Owen elenca certas dificuldades, que serão rapidamente respondidas:

 

1 – Alguns amados e odiados desde a eternidade

 

Todos são alvo do amor de Deus, e somente recebe a reprovação pela suas más ações, pela recusa da graça, sendo então odiados. Na lógica da eternidade Deus conhece aqueles que seriam odiados por recusarem a graça da salvação.

 

2 – Amor infrutífero e em vão a inúmeros.

 

A suficiência da morte de Cristo para salvar a todos é algo que concordamos. Assim, a justiça prevê que Deus tenha o mínimo a dar a iguais pecadores para que sejam salvas, e que dê mais conforme sua liberalidade, e aos que mais necessitam.

 

3 – Filho dado a quem não ouviu uma palavra dele nem recebeu poder de crer nele.

 

A graça comum também flui da cruz de Cristo, de forma que qualquer salvo, em qualquer lugar, será salvo pela cruz de Cristo. Se crê em Deus e crê que Deus é galardoador dos que o procuram, essa fé é salvadora. E se Deus deu o Filho ao mundo, todos do mundo receberão o poder de crer, se somente não crerão pela recusa voluntária.

 

4 – Deus mutável no amor ou ainda ama quem está no inferno.

 

Deus conhece desde a eternidade os que recusarão Seu amor. Na presciência Deus conhece os réprobos e não lhes dá o amor final por punição. Jesus veio aos seus que o recusaram. Amor pelos que o rejeitaram, como Salvador. É a mesma ideia aqui.

 

5 – Não dá todas as coisas Rm 8, 32

 

Todas as coisas são dadas aos que creem, na coletividade.

 

6 – Não sabe quem crerá e será salvo

 

Deu sabe quem será salvo, pela presciência.

 

Agora, por último, sobre os meios: crer. O meio pelo qual os eleitos virão a fazer parte da Igreja, participar do amor.

 

Sabemos que a fé é causada pela graça, e que o livre-arbítrio é dado por Deus a todos. Assim, o homem pode crer uma vez que a graça o capacita a crer. Uma vez que crê em Jesus, isso não o faz “superior” e não há motivo de gabar-se como se não tivesse recebido. Isso está conforme 1 Cor 4, 7.

 

Por que Deus amou outros então? Deus amou a todos para dar o suficiente da graça para que todos sejam salvos, pois Deus quer que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (1 Tm 2, 4). Isso responde a questão. Seria um problema para o calvinismo que afirma que Deus ama a todos, mas não com o amor salvífico, ainda que tal doutrina não se encontre na Bíblia. Assim, o reformado tem a pergunta irrespondível: Por que Deus ama se Ele determinou a queda e a condenação? Ama para as coisas temporais e odeia eternamente como filho da ira? Ama oferecendo a salvação ao mesmo tempo em que odeia pelo decreto que deixou o ímpio na reprovação? A dificuldade está do lado reformado. Deus amou a todos e somente os que creem participarão da salvação, porque são livres e receberam a graça para isso. Está respondida a dificuldade proposta por Owen.

 

No entanto, John afirma que Deus não deu o filho para quem não irá crer, muito menos quem não irá ouvir dele, e quem ele não irá dar a graça eficaz.

 

A redenção geral ou a redenção eficaz tem o mais firme e mais forte fundamento nessas palavras do Salvador?

 

No entanto, a Bíblia diz que Deus deu o Seu único Filho para que todo o que crer não pereça. Isso é diferente de entender que “Deus deu Seu Filho único para que os eleitos creiam”, e que “Não deu o Filho para quem Ele sabe que não irá crer”.

 

O amor de Deus é a causa do bem. Assim, o amor de Deus causa a graça. Se Deus amou o mundo, há graça para todos. E se o mundo significa todas as pessoas, todos recebem a suficiente graça para que conheçam a Deus.

 

O fato bíblico é que Deus amou o mundo deu o Filho para que aquele que crer tenha a vida eterna.


Gledson Meireles.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

John Owen: o objetivo da morte de Cristo

 

A morte da morte na morte de Cristo (livro de John Owen)

Estudo do Capítulo 1, Livro 1, sobre o objetivo da morte de Cristo

John Owen começa seu livro estudando o objetivo da morte de Cristo, aquilo que o Pai intencionou fazer nela, e o que foi de fato cumprido e realizado por ela.

Em Mateus 18, 11, conforme é citado, Jesus veio para salvar o que estava perdido. Já de início, podemos perguntar a Owen, e a todo protestante reformado, quem estava perdido? Uma parte da humanidade apenas? Havia uma parte salva e outra perdida? De fato, não. Todas as pessoas estavam mortas em pecado, toda a humanidade necessitava do salvador. Jesus veio para o que estava perdido, então veio para todos.

Portanto, o primeiro texto citado no livro, de John Owen, já pode ser entendido como ensinando a expiação ilimitada: Jesus Cristo morreu na cruz para salvar todo e qualquer indivíduo. Essa foi a intenção de Jesus Cristo ao vir ao mundo. Agora, repitamos a leitura de Mateus 18, 11 seguido de Lucas 19, 10:

Porque o Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido.” (Mateus 18, 11)

Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.” (Lucas 19, 10)

Em 1 Timóteo 1, 15 vemos que Jesus veio ao mundo salvar os pecadores: “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.

Perguntamos então: segundo a Bíblia, quem são os pecadores? Só um grupo de pessoas entre a humanidade? Há necessidade de identificá-los? Outra vez, não. Pois de fato, todos são pecadores. Então, Jesus veio para todos. Por isso, São Paulo podia incluir-se com certeza entre os que foram alvos da cruz de Cristo.

Mas, em Mateus 20, 28 é dito também que Jesus veio dar Sua vida em resgate por muitos. Nos textos anteriores usam-se expressões que denotam todos, e agora temos passagem que fala de muitos: “Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.

Aqui, o Calvinismo enxerga uma limitação. E lê os textos que fala de “muitos” de forma a torná-los o modelo principal para a leitura dos demais. Jesus não teria vindo dar sua vida por todos os pecadores, mas por muitos, um grupo seleto, os eleitos apenas. No entanto, a palavra muitos aqui contrasta a única Pessoa de Cristo com a humanidade.
E, somente em sentido mais estrito, fala-se dos eleitos.

Sabemos que a Bíblia não se contradiz. Não se está dizendo que não exista o grupo dos eleitos, mas o que a teologia reformada ensina é que somente os eleitos podem receber a graça da Cruz desde a intenção de Deus na eternidade. Isso significa que há o restante da humanidade que não teria sido alvo do sacrifício da cruz. Assim, o calvinista afirma que os pecadores que Deus salva pelo sacrifício de Jesus são apenas os eleitos.

Gálatas 1, 4: Jesus entregou-se a si mesmo por nossos pecados. A vontade e intenção de Deus seria separar os eleitos do mundo. Por isso, ele amou a Igreja, como está em Efésios 5, 25-27. Então, não teria amado o mundo, mas somente a Igreja, que conteria somente os eleitos.

Dessa forma, a teologia reformada lê os textos como absolutamente realizando o que pretendem, ou seja, que somente os eleitos tiveram os pecados perdoados na cruz, e somente eles serão livrados do mundo mau, segundo a vontade do Pai.

Em Tito 2, 14: Jesus entregou-se por nós para nos redimir de toda iniquidade e purificar um povo peculiar e zeloso de boas obras. Assim, a obra da cruz teria sido feita pelo Povo específico, a Igreja, os eleitos. Essa seria a intenção e o desígnio de Cristo e do Pai. Por Cristo temos acesso à graça (Rm 5, 2).

Essa leitura portanto é feita pelo motivo da morte de Cristo apresentar o efeito e produto da obra como está em Romanos 5, 10, que diz que quando éramos inimigos fomos reconciliados com Deus pela morte do Filho, e também em 2 Coríntios 5, 18 e 19, onde Deus estava reconciliando o mundo em Cristo, não imputando as faltas dos pecadores.

Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida.

Mas, veja que o texto indica a expiação ilimitada. Todos são inimigos de Deus. Na cruz, fomos reconciliados com Deus. Agora, já reconciliados, seremos salvos pela vida de Cristo. Isso mostra que uma vez feitos amigos de Deus, nos aguarda a salvação final. Essa salvação é mostrada na Bíblia como fruto da graça da perseverança, que com certeza irá chegar ao fim nos eleitos, mas que muitos, que vivem na amizade de Deus, alcançada na cruz, podem voltar atrás, e não alcançar a perseverança final.

Ao invés de pensar que os que renegam a fé são os que nunca foram salvos, deve-se reconhecer que são aqueles que negam a graça que receberam, negando a salvação, deixando de prosseguir e ser salvo pela vida de Cristo. Ainda, que no sentido alcançado na cruz já somos amigos de Deus. Falta ainda ser reconciliado individualmente, quando há a conversão.

Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.

Outra vez, Deus tem em Sua vontade a reconciliação do “mundo”, e não somente dos eleitos. Ao reconciliar o mundo, Deus não “imputa” os pecados do mundo. Assim, por causa da cruz, Deus põe “em nós a palavra da reconciliação”.

Da mesma forma que Deus reconcilia todos em Cristo, ainda que ainda sejam inimigos, e não imputa os pecados, ainda que estejam em pecados, agora, os que já foram reconciliados, pessoalmente, e tornados amigos na paz de Deus, podem esperar a salvação. É isso o que as passagens estão ensinando. O contexto é ilimitado para a intenção de Deus e Cristo na obra da cruz.

Isso mostra mais uma vez que a cruz tem em seu objetivo a salvação do mundo. Somente então, é que a palavra é aplicada naquele que a receber. Não há lugar para pensar que a cruz é restrita aos eleitos. Em cada texto isso é previsto. Veja: Deus reconciliou o mundo consigo. Não é dito que reconciliou apenas os eleitos. E a interpretação geral corrobora isso. Ainda, Cristo aboliu em sua carne a inimizade que havia contra Deus.

Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades.” (cf. Ef 2,15-16).

O reformado lê esse texto entendendo que somente o eleito tem a inimizade com Deus desfeita na cruz, recebendo a paz com Deus. E, ainda, que se o texto estivesse endereçado a todos, então todos os indivíduos deveriam tornar-se amigos de Deus, e receber a salvação. Portanto, preferem limitar isso aos eleitos, por entender que o efeito da cruz tem que ser aplicado. Essa exigência está na teologia reformada, e não no texto, e contexto bíblico. Leia novamente.

No entanto, o contexto bíblico é geral nessa passagem também, visto que fala dos judeus e dos pagãos, que pela cruz foram unidos, pois Cristo desfez a inimizade na Sua carne, criando um só povo, um só homem, criando na cruz um só corpo, ou seja, as nações pagãs e os judeus agora formam um único povo em Cristo, e todos podem, a partir da cruz, aproximar-se de Deus.

A vontade de Deus expressa pela cruz de Cristo foi de fato alcançada. O caminho foi aberto. Agora, na vida de cada indivíduo, há a responsabilidade pessoal de ir a Cristo pela fé, tanto para os judeus quanto para os pagãos, pois estamos reconciliados, com Deus. De forma geral. E, como diz em alhures, devemos entrar no Povo e ser salvo pela vida de Cristo.

Veja que mesmo ainda sendo inimigos, pela cruz já éramos amigos. No entanto, somente na justificação é que a amizade é estabelecida particularmente. Isso não significa que somente o eleito teve a intenção de Deus de um dia receber a graça da cruz. Pelo contrário, a Bíblia está dizendo que todos já estão reconciliados com Deus pela cruz, seja proveniente do povo judeu ou das nações. E mostra que quando se torna amigo de Deus vem depois a salvação pela vida de Cristo.

Também, sobre os efeitos da cruz, são citados os textos de Hb 9, 12; Gl 3, 13; 1 Pedro 2,24; Rm 3, 23-25; Cl 1, 14; Hb 9, 14, 1 Jo 1, 7, Hb 1, 3, 13, 12, Ef 5, 25-27, Fl 1, 29, Gl 4, 4-5, Ef 1, 14, Hb 9, 15.

Jesus efetuou a eterna redenção. Isso não quer dizer que somente o eleito foi pensado ali, pois somente ele teria a redenção aplicada. Significa, porém, que Cristo efetuou a eterna redenção para todos, e que todos tem o direito de aproximar-se de Deus para recebê-la. É ao mundo inteiro, é endereçada aos dois povos feitos um só.

Ele nos resgatou da maldição da Lei. Isso foi feito na cruz, mas apenas quem está em Cristo, quem for a Cristo, terá a maldição cancelada em si. Na cruz, todos já temos a maldição desfeita. Deve-se entender isso, o efeito alcançado na cruz, e o efeito da cruz aplicado no indivíduo. O efeito é universal, na cruz, e é particular, para o indivíduo, e somente chegará ao fim se o fiel perseverar. Não é dito que somente o eleito foi resgatado da maldição da lei, mas que o resgate da maldição da Lei na cruz é para todos.

Jesus levou nossos pecados sobre o madeiro. É referente aos pecados de todos, dos que já viveram e dos que ainda nascerão até o fim dos tempos. Portanto, na cruz já está pago pecados futuros e pecados de quem ainda não existe. Por isso, em qualquer tempo que alguém confessar o Nome de Cristo, esse receberá o perdão e a reconciliação. Não se pode dizer que esse texto esteja dizendo que somente os pecados dos eleitos foram postos sobre Jesus. Por isso, o texto diz que Cristo levou os pecados para “que mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça”.

Temos na cruz a remissão pelo sangue de Cristo, o perdão dos pecados. Uma vez que nos convertemos, temos esse perdão aplicado em nós. Que o perdão seja dado na cruz, a todos, não significa que todos irão recebê-lo, pois está condicionado à fé que o indivíduo deve exercer livremente.

E assim, para o reformado, todos os efeitos da morte de Cristo são entendidos eficazmente servindo para quem está envolvido nela, ou seja, todos pelos quais Cristo morreu serão salvos, serão reconciliados, justificando, adotados, santificados, terão a graça eficaz e entrarão na glória.

No entanto, os textos estão apenas mostrando o que a morte de Cristo preparou, e os efeitos dela na alma do que crê e mantem-se unido a Cristo. Não é dito que os efeitos da morte tiveram um público específico para usufruir deles, mas que o mundo inteiro pode experimentar esses efeitos salutares, sendo, contudo, especialmente experimentado pelos eleitos. Por isso, na cruz os eleitos são reconciliados, mas somente na conversão é que essa reconciliação se aplica a eles. Assim, todos são reconciliados, ficando à espera da conversão para receber esse benefício da cruz.

Por tudo isso, sendo que a morte de Cristo causa a reconciliação com Deus, a justificação e a santificação, a adoção, a posse comprada, o que significa que a morte de Cristo garante a todos os que estão previstos nela, a eterna redenção, a graça na terra e a glória no céu, o calvinista afirma que esses efeitos irão eficazmente ser aplicados.

Então, o problema que o Calvinismo propõe para ser resolvido é que, se a morte de Cristo confere realmente o que foi dito acima, que é a salvação a todos, se Cristo morreu por todos, poder-se-ia dizer que ou o Pai e Cristo falharam no objetivo proposto, não realizando o que intencionaram, ou todos os descendentes de Adão serão salvos. Ou Deus falhou ou haverá o universalismo.

E como a primeira opção é blasfema e a segunda contradiz a Escritura, o Calvinismo prefere afirmar que a morte de Cristo foi intencionada somente aos eleitos.

Podemos afirmar, ao cristão reformado, que Jesus morreu por todos, oferecendo ao Pai sua morte na cruz para que todos se salvem. No entanto, como explica Santo Afonso, Jesus não distribuiu igualmente Sua graça a todos, mas aos eleitos de maneira especial.

Assim, Ele ora pelos eleitos em João 17, 19. Por isso, Ele é o Salvador de todos, mas em especial dos eleitos, como diz São Paulo em 1 Timóteo 4, 10. Por isso, a Escritura afirma que Cristo morreu por todos (2 Cor 5, 14-15). Cristo cancelou o decreto condenação a toda a posteridade de Adão (Cl 2, 14-15). Ele deu redenção por todos (1 Timóteo 2, 5-6). A propiciação pelos nossos pecados, e não somente os nossos, mas os do mundo inteiro (1 João 2, 2).

Jesus não só preparou preço suficiente pela redenção de todos, mas também o entregou ao Pai. Ele oferece o remédio a todos os doentes que querem ser curados. Todos recebem a graça, ainda que uma graça menor, uma graça remota, como diz Santo Afonso. Então, se aceitam a graça, podem receber mais, maior graça, a graça eficaz, para serem salvos.

Santo Afonso explica, sobre a certeza da salvação, que: “A promessa feita aos eleitos é uma fundação certa para eles, mas não para nós individualmente, desde que não sabemos que nós somos dos eleitos. A fundação certa, então, que cada um de nós deve esperar pela salvação, não é a promessa particular feita aos eleitos, mas a promessa geral de assistência feita a todos os fieis para salvá-los se eles correspondem à graça”.

Cristo morreu por todos, e os eleitos finalmente receberão a graça eficaz, enquanto os não eleitos ficam sem a salvação por não terem aceitado a graça, ou por terem decaído da graça, e por sua negação, não obtiveram a graça eficaz. Ao invés de pensar que Cristo morreu por muitos porque só foi pelos eleitos, esses muitos são os eleitos porque eles são aqueles que perseveraram na graça. A verdade então é que Cristo morre por todos, dá a graça a todos, e só os eleitos crescem na graça até a salvação. Neste capítulo é possível entender o motivo do calvinista não aceitar a expiação ilimitada, e como devemos responder a isso, mostrando que a expiação ilimitada é o ensino bíblico.

Gledson Meireles.

sábado, 25 de dezembro de 2021

Feliz Natal

 Feliz e Santo Natal a todos.

Que nosso Senhor e Salvador, que veio ao mundo, para nos salvar, que nasceu em Belém da Judeia, comemorado hoje, nos dê a graça de louvá-lo e glorificá-lo.

Leiam o artigo sobre a perseverança dos santos. O texto ficou enorme, mas divirtam-se, o assunto vale a pena.

Gledson Meireles.