segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A Igreja e o papado...

Desta maneira, a Igreja pôde vir a ser o ponto de encontro entre aqueles povos. Da articulação que ela realizou entre romanos e germanos é que sairia a Idade Média.” (ênfase acrescentada)
 
A Idade Média surgiu por uma influência direta do trabalho da Igreja Católica. No início da Idade Média a Igreja Católica foi o ponto de encontro e de união entre duas culturas importantes para a civilização de todo o período, fazendo desse encontro o que foi a cultura, a sociedade, Cristandade, durante um milênio.
 
O império Romano caiu em 476 e a Igreja, única instituição que restou, foi herdeira natural dele.
 
Desde o princípio, por sua própria natureza, o clero estava distanciado dos demais cristãos.”
 
A hierarquia não foi um produto da história, mas a mola propulsora que engendrou tudo o que foi realizado na história da Igreja. Apenas algumas regras administrativas foram introduzidas no século IV. O celibato obrigatório já aparece em Concílio, na Espanha, em 306. Antes disso, existia em sua caráter opcional.
 
Por sua vez, as heresias contribuíram para a formação e a organização da hierarquia.
 
Qualquer idéia que parecesse herética era, então, submetida à apreciação do bispo local.
 
Os bispos eram os responsáveis por manter a pureza doutrinal. Isso é o mesmo que encontramos no primeiro século, nas sete cartas às igrejas da Ásia.
 
Entretanto, a figura dos concílios não eliminava uma tendência que se fazia sentir desde os primeiros tempos, a da constituição de uma monarquia eclesiástica.”
 
O lugar ocupado pelo papa é garantido mesmo diante da importância dos concílios. Quando sínodos locais se mostraram ineficientes para combates grandes e poderosas heresias, o papel do papa foi preponderante:
 
Foi em razão disso que o bispo de Roma se sobrepôs a seus pares, podendo usar a partir de fins do século IV o título de papa, quer dizer, pai de todos os cristãos.
 
O papa é o pai de todos os cristãos. É preciso lembrar que nesse período o Oriente e o Ocidente tinha uma só Igreja Católica, a qual reconhecia a autoridade do papa.
Nos primeiros três séculos (anos 1-100, aproximadamente a partir de 33, de 100-200 e de 200-300) os papas não buscaram explicitamente estar em lugar de destaque nas questões de governo:
Seu poder foi se construindo ao sabor das circunstâncias.”
No século IV já se pode ver o bispo de Roma reconhecido em autoridade sobre os demais bispos:
Outro fator foi o apoio que o bispo de Roma recebeu — a autoridade sobre os outros bispos foi-lhe concedida em 378 e confirmada e ampliada em 445 — do imperador, desejoso de fortalecer e dar prestígio à sua capital.
No século VIII o papa buscou a justificação para o poder que possuía na prática, e sem intenção:
Por fim, gozando na prática de um poder e de um prestígio que não tinha a princípio buscado, o papa elaborou em meados do século VIII a grande justificativa para aquela situação.
A doação de Constantino serviu para esse fim. Tratou-se sim de um documento ilegítimo, mas não como uma falsificação da forma como hoje entende-se o termo. Tais documentos tinham a intenção de justificar reivindicações reconhecidas e legítimas, como era a do papado.

Os monges

Começa então o período do crescimento do monasticismo, a vida reclusa dos monges.

 
No início, muitas dessas pessoas procuravam o isolamento para fugir ao contato com o crescente número de cristãos superficialmente convertidos.”
 
Parte do clero tornou-se monacal, ou seja, adotou vida solitária de monge, para fugir às influências maléficas do mundo, por causa do esfriamento espiritual já em grande parte sentido nesse tempo. 
 
Santo Antão inicia esse modelo de vida espiritual (251-356) e São Pacômio o estrutura de modo que os monges deviam reunir-se num mesmo local.
 
São Bento (480-547) estabeleceu um clero regular, o preceito ora et labora, utilizando de regras anteriores e introduzindo melhorias. O trabalho alcança uma compreensão bastante influente na cultura que se desenvolvia:
 
Enfim, orar é uma forma de trabalhar, trabalhar é uma forma de orar.
 
Para a evangelização das massas os beneditinos desempenharam um papel fundamental:
 
Graças a essa espiritualidade vigorosa, a Ordem Beneditina conheceu até o século XII imenso sucesso e cumpriu um papel de primeiríssima grandeza.
 
Para os que pensam que os monges, escolhendo vida solitária, estavam afastados do povo e desobrigados da pregação, o fato era que a evangelização aconteceu em grande escala por seu ministério:
 
Em busca de isolamento, mas também de novas almas a converter para sua fé, os beneditinos alargaram as fronteiras da Cristandade ocidental.
 
 
O poder temporal enfraquece a Igreja
 
A influência da Igreja na sociedade, na esfera temporal, teve um gradual desenvolvimento, e como base estava o seu poder espiritual. No tempo dos carolíngios o poder temporal começou a aumentar significativamente. O Estado Pontifício surge da natural relação com o poder político, e em 754-756 Pepino, o Breve, faz doações de terra ao papa, iniciando assim nova fase na história da Igreja.
 
A Igreja, levada pelos acontecimentos, estabeleceu com os francos “uma sociedade onde o papa ocupou, primeiro, o lugar de sócio menor, depois de igual, pretendendo, por fim, a direção suprema”
 
Dessa fase algumas mudanças foram empreendidas pelo rei. O dízimo voluntário na antiguidade torna-se obrigatório em 585 e ganha peso de Estado em 765. Nessa relação o Estado ainda possui maior influência que a Igreja:
 
Estreitavam-se, portanto, as relações Estado-Igreja, com predomínio do primeiro na época de Carlos Magno.
 
Os cânones da Igreja prescreviam sobre a nomeação dos bispos, mas nesse tempo os soberanos tomaram para si essa incumbência, não como usurpação, mas como serviço cristão:
 
Os bispos eram nomeados pelo soberano, contrariamente à tradição canônica, mas o fato não era considerado uma usurpação, e sim um serviço prestado pelo monarca à Igreja, quase um dever do cargo.
 
A Igreja era a maior proprietária de terras no Ocidente desde o fim do Império Romano no século V. O costume da doação foi aconselhado por Santo Agostinho:
 
A recomendação de Santo Agostinho (354-430) era seguida com freqüência: todo cristão deveria deixar à Igreja em testamento “a parte de um filho”; e caso não tivesse descendentes, deveria nomeá-la sua única herdeira.
 
Na reforma do monasticismo no século IX o clero secular retoma a primeira escala no processo de evangelização:
 
O clero secular retomava a direção do movimento de cristianização e o episcopado aumentava seu poder político.
 
A intenção de fugir das intromissões políticas, e baseado em princípios do Evangelho, em que Jesus é o Rei dos reis, os bispos deveriam ser os conselheiros reais. Com o tempo, esse costume teve resultado negativo na vida da Igreja, enfraquecendo-a.
 
Apesar de não ter sido intenção clerical enfraquecer a monarquia (mas apenas submetê-la ao controle episcopal), tal teoria contribuiu para aumentar a autonomia da nobreza, o que teve reflexos negativos sobre a Igreja, com a generalização do sistema de “igreja própria”, já existente no século VII e que se estenderia até o século XII.” (ênfase acrescentada)
 
As igrejas próprias usurpavam a autoridade, no momento em que os latifundiários faziam as vezes dos bispos. O controle da Igreja em seu nível administrativo caía assim, na prática, nas mãos do poder secular, com grande prejuízo espiritual. Os leigos mandavam na Igreja, de 888-1057.
 



A Paz de Deus e a Trégua de Deus foram movimentos criados pela Igreja com o fim de estabelecer a paz na sociedade, proteger os cristãos, amparar os pobres.

 

Como a idéia básica da Paz e da Trégua de Deus era a preservação da ordem religiosa, social e política desejada por Deus, entende-se que a partir de fins do século XI ela tenha derivado para a idéia de Guerra Santa, que procurava impor aquela ordem dentro (Cruzada contra hereges) e fora (Cruzada contra muçulmanos) da Cristandade.

 

Para quem vê no papa um homem de poder ilimitado ou quase, e lembra-se do fato de que o imperador Henrique IV enfrentou o frio rigoroso do inverso com roupas de penitência para alcançar o perdão papal, deve primeiro pensar no seguinte:

 

Aproveitando-se do fato, parte da nobreza alemã se revoltou, levando o imperador a ir até Canossa, no norte italiano, em 1077, para pedir absolvição ao papa.”

 

Então, o penitente monarca, uma vez perdoado e sido retirado da excomunhão, agiu como bom católico submisso que era. Isso é o que pensam, mas o que ocorreu foi um pouco diferente:

 

Isso permitiu a Henrique IV restabelecer seu poder na Alemanha, eleger um antipapa e marchar contra Roma.

 

Mas, e o papa, que pode mandar e desmandar, como pensam tantos, convocou o seu exército e lutou contra o rei, destruindo tudo o que via pela frente¿ Na verdade, não. Veja o que ele fez:

Gregório teve de fugir, exilando-se na Sicília, onde morreria pouco depois.”

 

O mosteiro de Cluny foi reformado, surgiu do Cisterciense, e no século XIII estava preparado o tempo em que o papa alcançou poder máximo na esfera temporal.

 

Enfim, no século XIII estavam reunidas todas as condições para o exercício do poder papal sobre a comunidade cristã.

 

O tempo de Inocêncio III foi o maior fulgor, e esse papa antigiu o supremo poder papal sobre a sociedade. Críticas ocorreram, já que há tanto tempo o poder leigo havia acostumado-se a imiscuir-se em assuntos eclesiásticos, e de todos os lados o papado era criticado.

 

Eram produto da cultura intermediária, tanto no caso das manifestações que ficaram na ortodoxia (cistercienses, franciscanos, dominicanos) quanto no das que caíram na heresia (cátaros, valdenses, fraticelli).

 

Importante o fato de que cátaros, valdenses e fraticelli eram cristãos católicos caídos em heresia.

 

Essas heresias tiveram a oposição e perseguição da Igreja, mas nem todas com o mesmo rigor.

 

De postura menos radical, porém, essa seita pôde sobreviver. A repressão católica a cada heresia era proporcional ao perigo por ela representado.

 

Quando o papado e o poder temporal envolveu-se em acirrada luta:

 

Filipe acusou Bonifácio de ter sido eleito papa ilegitimamente e em 1303 conseguiu prendê-lo na cidade de Anagni.

 

Quando o poder papal sobre a sociedade estava em declínio, surge também a teoria que ataca o próprio poder de papa, em sua natureza religiosa. Foi o conciliarismo de 1414.
 
Continua.

Gledson Meireles.

cf. citações de FRANCO JÚNIOR, Hilário. Idade Média: o nascimento do Ocidente. 2 ed. rev. e ampl. São Paulo: Editora Brasiliense, 2001, cap. IV, pp. 89-111.

domingo, 4 de setembro de 2016

Introdução do estudo sobre as imagens

Introdução


O culto às imagens é geralmente considerado pelos protestantes como idolatria, aberração, doutrina contrária à Escritura, heresia, e tudo o mais nesse sentido. Afirma-se, nos círculos teológicos e apologéticos do Protestantismo, que o culto das imagens não era conhecido na antiguidade, e que foi surgindo aos poucos, mais exatamente a partir do século IV, e que foi promulgado em 787 em Niceia, quando a imperadora Irene deu sanção a essa doutrina que contrariava todos os ensinos precedentes, entendido como contrariando o verdadeiro ensino do Evangelho. Essa é a maneira de ver dos protestantes, aqueles entendidos no assunto, os que estudam teologia, os versados na apologética, os pastores, os que ministram aulas nas escolas dominicais e sabáticas.

Mas, não somente isso. Essa opinião é a mesma dos membros de esmagadora maioria das Igrejas, mesmo aqueles com conhecimento bíblico bastante reduzido, para dizer o essencial, e que pode ser constatado com simples conversa com um protestante, seja ele membro de igrejas históricas ou pentecostais, formado ou iletrado. Mesmo os “não” iconoclastas possuem uma ideia bastante negativa diante do modo como as imagens são tratadas no Catolicismo. Desse modo, pode-se afirmar que de maneira geral a repulsa às imagens é um traço típico do Protestantismo.

Portanto, tendo em vista a questão das imagens cristãs, o Catolicismo tem sido alvo de acusação de idolatria, mesmo quando sabemos que a Igreja condena a idolatria expressamente em toda a sua doutrina. Para este estudo, uma obra atual da apologética protestante servirá de consulta, já que segundo consta do seu prefácio essa foi considerada “um tesouro apologético” e um compêndio original sobre o tema.[1]

Dessa forma, o estudo que será feito aqui responderá a muitas objeções da obra aludida. Penso que o modo como será tratada a questão aqui é mais exaustivo em comparação com o que tem sido escrito nos livros impressos da apologética católica e protestante nesse particular, em especial na área bíblica. Não oferece argumentos originais, certamente, mas procura uma forma especial de lidar com as questões para que a Palavra de Deus seja melhor apresentada.

Cremos de todo o coração, conforme o ensino da Igreja Católica, que o culto máximo, não somente em grau, mas de natureza única, é somente oferecido a Deus, que é o Senhor de todas as coisas, a Quem amamos e devemos amar de todo o coração, alma, entendimento e força, e oferecer o nosso nada, que somente Deus pode preencher. Esse é o elemento fundamental que existe na adoração.

Mas, há também o culto das criaturas. Precisemos então o termo “culto” quando empregado nesse sentido. Muitos leem no Evangelho onde Jesus afirma em Mateus 4,8 que “somente” a Deus prestarás “culto”. O que não sabem é que, a expressão “prestarás culto” é somente uma palavra no original grego, a qual é latreia em grego, ou latria em latim, e significa a adoração. Essa palavra é praticamente a transcrição do termo grego.

Portanto, não se deve pensar apenas em uma liturgia organizada e em uma série de atos exteriores quando se trata do prestar culto, ou para aquilo que significa latria (adoração), como se somente existisse o culto a Deus. Há vários cultos, mas somente o culto absoluto é reservado a Deus.

Para melhor entender essa realidade, pode-se comparar com o amor: há o amor dos pais para com os filhos e vice-versa, dos esposos, dos parentes entre si, dos amigos, dos seres humanos para com os animais, o amor para com o próximo e etc. Porém, há também o amor a Deus. Esse amor é necessariamente exclusivo, e assim deve ser maior não somente em grau mas em natureza, maior do que qualquer dos vários amores que o ser humano possa prestar. Devemos o amor a Deus acima de todas as coisas e com todas as forças, e aos outros seres e tudo o mais na criação não podemos ter esse amor. Devemos amar a todos, porém não com o amor que devemos a Deus. O mesmo ocorre com a adoração.

Na verdade, o culto a Deus é o culto absoluto, de onde todo culto cristão emana. Ele é único, e por causa dele brotam, no coração do crente, homenagens motivadas por esse amor.

Dessa forma, existe também outro movimento do nosso espírito que damos às demais criaturas que merecem recebê-lo (e todas as pessoas exercem isso de alguma forma), e ao qual damos também o nome de culto.[2]

Porém, conforme o uso técnico da palavra, segundo a verdade, esse culto para com outros seres não é a latria ou adoração, mas trata-se antes da reverência e da honra relativa. A latria é somente dada a Deus, que é o Supremo Senhor de tudo, e somente Ele deve ser adorado.

Reconhecendo isso, a doutrina cristã católica distingue a adoração e a veneração, que não são a mesma coisa. O Frei Battistini explica que adorar “é o ato de considerar Deus como único Criador e Senhor do mundo” enquanto venerar “é imitar, honrar, louvar...”.[3] O padre Vicente afirma que a adoração devemos somente a Deus, e que a veneração “implica respeito, admiração, imitação, amor, etc.”[4] O diácono Francisco explica que: “Idolatria é adoração de imagem como se ela fosse um Deus.” Diz ainda que as imagens servem para ensinar, são usadas para fins catequéticos.[5]

O teólogo renomado Dom Estêvão Bittencout mostra a diferença entre os dois cultos, onde o de latreia é a adoração, que é o “reconhecimento da soberania absoluta de Deus”, e o de proskynesis constitui a veneração. Mais adiante faremos um estudo bíblico a respeito desses termos.

Por isso, se alguém tem amor para com os outros, reconhece os exemplos de outros e os imita, tem algum sentimento de respeito e homenagem a alguém, isso pode ser chamado de culto de veneração. As ações que nascerem desse motivo são os atos de veneração.

Desse modo, a honra máxima é somente dada a Deus, e por causa de Deus há uma honra que Ele quer e permite que nós a ofereçamos a Seus servos. A essa honra também chamamos de culto. Por isso há o culto dos santos e o culto das imagens. Esse “culto” é o que foi expresso no parágrafo anterior.

A esse respeito é importantíssima a exposição dessa doutrina feita por Santo Agostinho.[6] Ele afirma que o ofício da missa, celebrado sobre os túmulos dos santos, não é dirigido aos santos, mas é feita em memória desses, e “nossa emoção é aumentada pelas associações dos lugares, e o amor é excitado tanto para aqueles que são nossos exemplos, e para com Ele por cuja ajuda nós podemos seguir tais exemplos”. É uma exposição perfeita do culto cristão dos santos. Esse é feito a Deus, e por Deus os santos são associados, e pela graça de Deus nós podemos seguir seus exemplos. Oh, tamanha graça do Senhor para conosco!

Dessa exposição, Santo Agostinho afirma que o grego para latria não tem tradução exata para o latim. Mas esse culto é o de sacrifício oferecido a Deus, e somente a Ele.

Assim sendo, o termo “culto” também significa veneração, reverência, homenagem, admiração. Nesse caso, são sinônimos. Assim, cultuar as imagens significa venerá-las, admirá-las, homenageá-las, pelo que elas significam. Isso é prestar culto às imagens, e por elas esse culto é dirigido às pessoas que estão nelas simbolizadas. Prostrar-se diante de uma imagem tem o sentido de dirigir esse culto àquela pessoa que está ali representada, e não à imagem em sua materialidade. É à imagem sagrada naquilo que ela ensina.

A Bíblia ensina que há a prostração (proskynesis) que é uma inclinação profunda diante de alguém.[7] Essa reverência é usada tanto diante de Deus como diante de criaturas santas. Há também a dulia (doulos) que é o serviço. Por exemplo, esse termo é empregado no serviço que os escravos prestavam a seus senhores. E nós devemos servir uns aos outros, como é o natural, e mais ainda no sentido espiritual do Evangelho. Portanto, também a dulia é usada para o serviço divino e o serviço das criaturas. Nesse caso, afirmar que dulia é prestada religiosamente só a Deus não é correto, já que o serviço ao próximo, como ensinado no Evangelho, é um serviço religioso e espiritual e é prestado aos homens. Assim, o serviço de homenagem aos santos é também chamado de dulia.

Não obstante, há o culto de adoração (latreia), que é o serviço exclusivo de Deus. A Escritura reserva esse termo a Deus em Mateus 4,8: “somente a Deus prestarás culto” (latreia). A frase geralmente é vertida assim: “Adorarás o Senhor teu Deus, e somente a Ele prestarás culto (servirás)”. O termo usado para “adorarás” é proskynesis, que é a palavra tecnicamente usada para reverência. Essa pode ser uma inclinação, uma homenagem feita por gesto de ajoelhar, prostrar, etc. É o que chama-se tecnicamente veneração. Aqui, o ato de ajoelhar é chamado adorar, e é usado o verbo proskynesis, o mesmo que é empregado em tantos casos, mesmo diante de pessoas.

Contudo, o termo seguinte dessa afirmação categórica de Jesus, o qual é precedido da palavra “somente” é latreia. É o mesmo que dizer: somente a Deus adorarás. Esse termo indica a adoração, principalmente a interior, que vem do coração, e está na intenção recôndita do ser humano, conhecida absolutamente por Deus, e de igual modo os gestos que vem dessa adoração são substanciados por ela, e sem essa atitude interior a adoração não existe.

Por isso, a Igreja Católica ensina que há a latria, que é a adoração propriamente dita, reservada unicamente a Deus Pai, Filho e Espírito Santo, bem como a dulia, que é a veneração que pode ser dada aos santos, às imagens e relíquias. Essas últimas são veneradas por causa dos santos. Há também a hiperdulia, dada à virgem Maria, que é a primeira de todos os santos e, portanto, recebe essa super-veneração, já que é considerada como a maior dos santos e anjos por ser mãe do Senhor Jesus Cristo.

Sendo o culto cristão de natureza racional (Romanos 12,1) não há como confundir as três coisas, já que a inteligência, justamente orientada e iluminada pelo Espírito Santo mostra a Deus como o Maior e Único digno da honra absoluta, que é diferente de todas as demais honras. A definição técnica e a prática podem confundir, e serem objeto de confusão entre as massas, mas não há se for feita a devida distinção intelectual. Essa é a que deve exercer a diferença.

Sabemos que os santos devem ser honrados por sua vida dedicada fielmente a Deus, e por esse motivo essa honra é manifestada, e por isso o nosso conhecimento dessa verdade não permite que estejamos adorando quem quer que seja fora de Deus.

Dessa forma, a adoração não é meramente um sentimento, mas está radicada nas nossas potências espirituais, e, por ser assim, as atitudes exteriores somente possuem significado se acompanhadas dessas motivações interiores fundamentadas na Palavra de Deus.

Portanto, toda reverência prestada diante de uma imagem irá inevitavelmente à pessoa que está representada nela. E essa reverência será ditada conforme o que passa-se no coração daquele que a oferece.

Embora isso seja compreensível, há quem afirme que não podemos “prostrar-se diante de imagens”, nem beijá-las, nem carregá-las, e nem possuí-las. E afirmam ainda que tudo isso constituiria idolatria. Isso não pode ser provado pela Bíblia nem pela razão. Seria preciso provar que o gesto externo garante por si mesmo o fato da adoração, e que qualquer honra religiosa a objetos sejam propriamente adoração.

Assim, o presente estudo irá fazer a distinção entre a verdade e o erro no que concerne o culto das imagens, como está revelado na Palavra de Deus.

Gledson Meireles.




[1] SILVA, Paulo Cristiano da. Desmascarando a Idolatria: o que todo católico precisa saber. Editora CACP. 2015.
[2] Para que alguém refute essa afirmação é necessário provar que o sentimento e as ações que estão nessa concepção de culto não existem, ou que sejam contrárias à verdade e ao princípio da realidade, ou melhor, à própria existência real e natural desse princípio como podemos perceber.  Ou seja, deve provar que essa concepção é essencialmente errônea. Não deve conceber outra ideia referente ao termo “culto” para depois apresentar suas objeções, mas tentar em primeiro lugar refutar o que foi expressa acima.
[3] BATTISTINI, Frei. A Igreja do Deus Vivo: curso bíblico popular sobre a verdadeira Igreja, 25ª edição, Petrópolis - RJ, 1996, Editora Vozes, página 25.
[4] REUS, Vicente, padre. Resposta da Bíblia: a partir do seu sentido original. Edição Revista e Atualizada, Porto Alegre – RS, 2004, página 40.
[5] ARAÚJO, Diácono Francisco Almeida de., Em Defesa da Fé, Anápolis - GO, 1993, página 22.
[6]  Por Dave Armstrong: http://www.patheos.com/blogs/davearmstrong/2016/04/st-augustine-was-catholic-not-proto-protestant.html. Baseado em: Against Faustus, Book XX, section 21; NPNF 1, Vol. IV. Acesso em: 12 Abril 2016.
[7] Afirma-se comumente, entre os protestantes, que é justamente isso o que significa adoração. Assim afirma: “A palavra comumente usada para adoração na Bíblia Sagrada é proskyneo (“prostrar-se e adorar”), não latreia, conforme Mateus 4,10...”. (Paulo Cristiano da Silva. Desmascarando a Idolatria: o que todo católico precisa saber. Editora CACP, p. 125.) Esquece-se que, no texto de Mt 4,10 Jesus coloca o “somente” antes do verbo latreia e não de proskyneo. Isso não desfaz o fato de que muitas e muitas vezes, comumente, como foi dito, essa palavra indique também adoração, mas que, de outra forma, pela sua acepção mais técnica, latreia foi visto como o termo que denota a adoração a Deus de forma exclusiva. De qualquer jeito, o protestante considera os atos como ajoelhar, por exemplo, perante uma imagem ou pessoa, como adoração verdadeira. Esse é um erro que será tratado no presente estudo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A IMORTALIDADE DA ALMA E A RESSURREIÇÃO

A esperança da Igreja é viver para sempre com o Senhor nosso Deus. Antes desse dia, todos os salvos devem ressuscitar para ir morar com Cristo. Essa esperança, porém, não está oposta à verdade de que já em espírito os salvos podem usufruir, após a morte, das bênçãos da salvação eterna no céu, enquanto aguardam o dia em que tudo será colocado sob os pés de Jesus Nosso Senhor, e o Reino será entregue a Deus Pai. É, portanto, de máxima importância saber o que devemos crer sobre a imortalidade da alma e conhecer a verdade da ressurreição dos mortos, e saber que as duas coisas são ensinadas na Bíblia Sagrada.
O artigo da ressurreição da carne coloca-nos em um estranho dilema. Redescobrimos a indivisibilidade do homem; vivemos com intensidade nova a nossa corporeidade, experimentando-a como maneira inevitável de realizar o ser único do homem. A partir deste ponto estamos em condições de compreender de modo novo a mensagem bíblica que não confere imortalidade à alma separada, mas ao homem inteiro. Deste sentimento surgiu, em nosso século, sobretudo na teologia evangélica, uma forte oposição à doutrina grega da imortalidade da alma que, injustamente, passou a ser considerada como pensamento cristão. Na verdade, ela exprimiria uma dualismo nada cristão; a fé cristã saberia a respeito de uma ressurreição dos mortos pelo poder de Deus, exclusivamente.[1] Joseph Ratzinger.
As palavras do papa Emérito Bento XVI, quando ainda cardeal, esboça o que será tratado aqui, e mostra antecipadamente qual a base que muitos têm para voltar-se contra a doutrina da imortalidade da alma. Como afirma o eminente teólogo, de forma mais incisiva, ou seja, mais principalmente, no meio protestante apareceu uma oposição contra a fé na imortalidade da alma sob seus moldes gregos. Esse é o erro fundamental, pois passa-se a atacar a forma grega de pensamento sobre a natureza da alma imortal, de modo a parecer que a doutrina cristã é a mesma que aquela da filosofia grega, e pelo fato de que ambas as partes tem a crença da imortalidade da alma humana com algo comum, isso tornaria as duas coisas iguais.[2]
Muitos sem o saber fazem essa identificação, e constroem edifícios sobre esse terreno falso. É, portanto, necessário saber que há distinção e procurar entender o que a doutrina cristã católica ensina de fato sobre o assunto. Isso será feito enquanto estudamos a Bíblia para aprender sobre o tema, e colocarmo-nos diante das mais ferrenhas objeções. Antes, porém, de responder aos argumentos que confrontam a verdade da imortalidade da alma, é necessário aprender de Deus, conforme está posto na Revelação inspirada: a Bíblia.
O papa Bento XVI afirma a “mensagem bíblica que não confere imortalidade à alma separada, mas ao homem inteiro”. Ainda mostra que, com o passar dos tempos, os judeus criam na imortalidade da alma, de uma forma semelhante aos gregos: “Claro que, no judaísmo tardio, já existia uma doutrina da imortalidade de colorido helenístico”. Desse modo, há uma visão propriamente judaica sobre a composição do homem como também uma ponte de ligação com a concepção grega da natureza humana. Cumpre descobrir qual é essa estreita relação.
Porém, a Bíblia apresenta algo novo que os gregos não sabiam. Esses já criam na imortalidade da alma, mas a Bíblia traz a fé na ressurreição, dando esperança a que a vida dos corpos será novamente concedida no fim do mundo.
No início, a imortalidade da alma em sua concepção grega era contraposta à ressurreição dos mortos, conforme o ensino da revelação de Deus na Bíblia. Mais tarde essas duas coisas foram entendidas pelos cristãos, já na revelação do Novo Testamento, como realidades complementares, onde a ressurreição é a esperança final. Esse foi o fruto do Evangelho.
De fato, “o pensamento bíblico supõe a indivisa unidade do homem”, como afirma o cardeal Ratzinger. Diante disso, não há lugar para uma divisão de corpo e alma. Até os termos são profundamente ligados, não havendo palavra para o corpo exclusivamente sem a alma, e nem o inverso, ou seja, não há termo somente para a alma sem supor o corpo. Há poucas exceções, com matizes judaicos e gregos transparecendo, mas com fundo totalmente judeu. Isso mostra que a doutrina é radicalmente bíblica. É o ensinamento de Deus.
Assim, a Bíblia fala da ressurreição dos mortos, e não apenas da ressurreição dos corpos. Continua a reflexão do cardeal. E nesse aspecto a imortalidade refere-se ao homem, e não apenas à alma humana ou apenas de uma parte de homem. A ressurreição da carne denota a salvação da humanidade do homem, e não uma expressão que significa somente a parte corporal isolada da alma.
É tremenda a explicação do cardeal Ratzinger aqui. Ele mostra o nexo que nasce da fé bíblica da imortalidade no interior mesmo da filosofia grega. É uma forma de entender a doutrina bíblica em sua pureza, eu diria, sob moldes gregos, talvez, que mostra que a alma permanece, não por ser isolada, mas que está à espera do desfecho da história do mundo e do homem, desfecho esse que será realizado por Deus, quando vier renovar todas as coisas, com o Novo Céu e a Nova Terra.
É fundamental saber o que o cardeal apresenta sobre o estado intermediário. Ele afirma que essa questão foi muito debatida no tempo patrístico, como ocorreu também depois de Lutero. Então apresenta a fé do Novo Testamento, que já tem em Jesus Cristo a ressurreição iniciada, e por isso sobrevivemos após a morte. Os textos apresentados são bastante claros, como veremos nos estudos, e esses são Filipenses capítulo 1 verso 23, 2 Coríntios capítulo 5 versos 8 e, também, 1 Tessalonicenses capítulo 5 verso 10.
E esclarece diretamente o cardeal: “Portanto, na perspectiva do Novo Testamento, é insustentável a idéia do sono da morte, objeto de repetidos estudos de teólogos luteranos e trazida à baila ultimamente pelo Catecismo Holandês.” A tônica do debate está posta, e é nessa que o presente estudo irá caminhar.
A fórmula bíblica sobre o homem não é aquela do dualismo grego, mas um “conceito-humano total e dialógico da imortalidade”. O homem continua a existir na “lembrança de Deus”. Essa não é a memória de Deus simplesmente como ensinam muitos, de que o homem não existe mais na morte, e que estaria apenas na lembrança de Deus. Pelo contrário, o homem não deixa de existir, em sua essência, e está na memória de Deus. Então, isso tem outro significado. A alma não é o homem completo, mas também não é um elemento isolado, mas é o que deve ser completado no fim. Deus não permite que a alma deixe de existir após a morte, e promete a ressurreição do homem no último dia.
Essas contribuições partem do simples fato de termos a alma imortal para entender o fato na perspectiva totalmente bíblica: “o sentido concreto dessa constatação.” A Bíblia ensina essa verdade, mas sua proposição é substancialmente diferente daquilo que uma terminologia grega poderia transmitir. É o que exprime o cardeal Ratzinger nessa brilhante explicação.
Portanto, ao entrever essa temática não se pode esquecer de que deve-se entender a exposição doutrinal em sua fonte cristã, radicada na revelação do Antigo Testamento.
Origem do problema moderno sobre a alma
Continuando com a reflexão do teólogo Ratzinger, ele mostra que os teólogos protestantes Carl Stange (1870-1959) e Adolf Schlatter (1852-1938), auxiliados de alguma forma por Paul Althaus, iniciaram a mudança de concepção sobre a imortalidade da alma, ou seja, isso é algo que afeta o que sabemos quanto à natureza da alma.[3]
Segundo a leitura que fizeram da Bíblia, e de Martinho Lutero, afirmaram que trata-se de “dualismo Platônico” a doutrina de que a alma e o corpo são separados na morte. A doutrina bíblica seria aquela de que na morte perecem corpo e alma. Althaus escreveu uma retratação, mas isso não influenciou a onda do novo pensamento. A ideia de que falar da alma não é bíblico foi aceita em termos gerais, sentido mesmo em âmbito católico, embora a doutrina não tenha sido aí inserida.
Constatando isso, é possível identificar que a atual onda de repúdio da verdade da imortalidade da alma não é um fruto apenas de uma nova interpretação bíblica por parte de protestantes eruditos, ou até de leigos, como se tal doutrina fosse verdadeira. Na verdade, é uma heresia que foi introduzida recentemente em meios mais largos que os anteriores, que ficavam mais restritos entre os adventistas e testemunhas de Jeová, tendo sido agora tornado comum entre alguns pentecostais, e que ultimamente tem influenciado membros de outras denominações.
Gledson Meireles.





[1] RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo: preleções sobre o Símbolo Apostólico, Editora Herder, São Paulo, 1970. Disponível em: <https://sumateologica.files.wordpress.com/2009/09/joseph-ratzinger-introducao-ao-cristianismo.pdf>. Acesso em 24 Jan. 2016.

[2] Ideias que o livro do apologista protestante Lucas Banzoli: A lenda da Imortalidade da Alma, rebate, como “uma alma imortal presa dentro do nosso corpo” e “ou um "espírito" se desligando da prisão do corpo e habitando em outro lugar”, que aparece repetidas vezes no livro, não constituem a doutrina cristã, mas a filosofia grega ou o espiritismo, o que prova ser essa visão do autor do livro sobre o conteúdo que ele rejeita, e que constitui um dos problemas da obra. Embora tal constatação possa ser respondida que nesse ponto essa distinção entre a visão cristã dualista e aquela dos filósofos gregos é inócua, e nada vale para o caso em questão, pois o que está sendo apresentada é a visão holista do ser humano como a visão supostamente bíblica contra qualquer tipo de dualismo, é preciso insistir que é profundamente necessário ter a correta apreciação da opinião oposta, já que isso influencia na própria concepção do autor ao formular suas refutações. Isso seria idêntico a tratar a doutrina holista proposta no livro aludido como sendo a mesma que é ensinada na filosofia grega epicurista, por essa compartilhar o mesmo elemento central, que é a ausência de uma alma espiritual que pode separar-se do corpo. O autor não estaria satisfeito ao ler uma refutação que tivesse no pano de fundo a opinião dos epicureus, e diria não ser essa doutrina o que ele apresenta, mas que estaria mostrando o que a Bíblia ensina. Assim, não é correto manter o  que subjaz na refutação como aquilo que é permeado essencialmente da visão platônica do ser humano, reputada como a doutrina cristã da imortalidade da alma. Necessário se faz adotar terminologia técnica mais exata e fazer as distinções fundamentais.


[3] Em níveis mais amplos, foi Edward White quem afirmou a mortalidade da alma, influenciando de certa forma o protestantismo em geral. Depois os Adventistas do Sétimo Dia e as Testemunhas de Jeová continuaram exercer essa influência. Há muitos de outras denominações que já adotaram o mesmo parecer desses grupos nessa questão.
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