domingo, 7 de maio de 2017

É possível provar até o primado de Billy Graham?


Quando o assunto é o papado do apóstolo São Pedro, sempre me vem à mente o tema do desenvolvimento da doutrina. Isso porque de fato Pedro foi papa, exerceu seu ministério após a ascensão de Jesus, mas, porém, de um modo diferente, essencialmente o mesmo de sempre, mas não nos mesmos moldes que o papa Francisco faz atualmente.

Nem mesmo os papas que viveram alguns séculos depois viveram como Pedro, e não puderam exercer o mesmo tipo de papado que Pedro exerceu, já que os tempos mudaram, as circunstâncias exigiram diferentes atitudes. Por isso, o papa Francisco não tem a mesma autoridade que tinha o papa Inocêncio III, nem teve o papa Lino a mesma autoridade que o papa Leão I, mas todos eles possuem a mesma autoridade estritamente papal, que é aquela de apascentar as ovelhas e cordeiros. O que difere foi o seu poder temporal, e a consciência do alcance e natureza da sua jurisdição espiritual.

A palavra-chave na discussão sobre o papado de Pedro parece ser jurisdição. Muitos negam a primazia de Pedro, mas ultimamente tem havido aceitação geral de que houve uma primazia petrina de honra apenas, e até mesmo que Pedro foi de fato o líder da Igreja primitiva, mas que esse papel não era o de um papa, nem que foi transferido a um sucessor, nem que teve alcance universal, nem que foi essa a intenção de Jesus quando escolheu os doze, tornando o cargo e função de Pedro apenas possuindo notoriedade proveniente de sua personalidade ativa e influente, como parece ter sido essa a posição de Adolf von Harnack, e que muitos defendem hoje em dia.

Portanto, se alguém considera “ser papa” a pessoa que mora em um palácio, que fala em rede de comunicação, que viaja o mundo inteiro, que conhece do dogma solenemente proclamado da infalibilidade papal, que tem o reconhecimento da Igreja Católica inteira da sua autoridade jurisdicional, como bispo de Roma, a qual requer que os demais bispos estejam unidos a ele para resolver questões de ordem moral e doutrinal, e que possuiu em muitos momentos da história o poder de sagrar reis, instituir leis, reger com grande influência uma sociedade, e outras coisas desse teor, então essa pessoa primeiro deverá entender que tudo isso provem do fato desse alguém ter obtido de Jesus uma autoridade ímpar, e é dela que foi desenvolvido tudo isso, e depois entender esse tipo de autoridade. Se ainda essa prerrogativa for negada, então fica mais difícil chegar a um acordo razoável, já que a raiz da questão não foi admitida.

Pedro foi papa, ainda que muitas dessas coisas não tenham sido realizadas por ele.

Vamos à Bíblia Sagrada, e vejamos quais as provas que existem de que Pedro foi papa, e quais os obstáculos que há (se há algum) para que alguém não creia que Pedro foi papa, segundo a doutrina oficial da Igreja Católica. Ou seja, considerando a verdadeira doutrina. O texto de Mateus 16,18 será comentado abaixo.

Muito tem sido publicado sobre o papado. As Testemunhas de Jeová afirmam que Pedro teve um importante papel no início do Cristianismo. O artigo trata do primado ou poder supremos, o que é negado. Interpreta “Pedro” como “pedaço de rocha”. Questiona se a Igreja é construída sobre Pedro, e se esse é o cabeça de todos os seguidores de Jesus.

Cita a questão de quem seria o maior, e conclui de tal que se houve um apóstolo maior ninguém teria discutido isso. O contexto de Mateus 16,16-18 é explicado como elogio, e que Jesus iria construir a Igreja sobre uma Pedra mais sólida do que Pedro. (https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/wp20151201/pedro-foi-primeiro-papa/)

Vemos que alguns itens foram abordados:

1)    A autoridade de Pedro sobre os outros apóstolos.

2)    O Bispo Romano aceito entre todas as igrejas.

3)    Os seus sucessores

4)    Pedro não clama supremacia papal

5)    Pedro tinha liderança. (Isso é aceito)

(https://www.gotquestions.org/Portugues/Sao-Pedro-primeiro-papa.html)

José Francisco Botelho afirma: “A origem e a justificativa do papado dependem desse pescador da Galiléia.”

Sobre o nome Pedro: “Para muitos, esse apelido é uma investidura de poder.” (...) “Para muitos teólogos, esse trecho é a prova de que Pedro foi escolhido como o maior representante de Cristo sobre a Terra”. Revelador é o resumo que o autor mostra de John Meier, confira.

Botelho afirma: “Sua importância como líder do cristianismo primitivo foi gigantesca.”

Falando da história registrada por Eusébio de Cesareia, fundamentada em outros historiadores mais antigos, afirma: “Verdade ou não, o fato é que, já no século 2, Pedro era tido pelos líderes católicos como o primeiro bispo de Roma.”

O achado arqueológico da necrópole do século 1, em Roma, dentro da basílica do Vaticano, com um “grande mártir” entre os sepultados diz, pelo menos, alguma coisa. Não é apenas uma crença fraca de que os restos mortais é de Pedro, mas de que a ideia de que uma confirmação arqueológica de testemunhos bíblicos, (ao menos indiretos de que Pedro foi a Roma) e históricos não venha a dizer alguma coisa.

A importância do assunto é refletida nessas palavras: “Esses episódios da vida de Pedro inspiraram nada menos do que os grandes cismas do catolicismo.” E a origem de outros movimentos, como a Igreja Ortodoxa e o Protestantismo, afirma Botelho: “Esses movimentos negavam, antes de mais nada, a autoridade suprema do papado sobre o cristianismo.” Algo curioso: “Em várias épocas, ortodoxos e protestantes usaram argumentos idênticos...”

Termina o artigo: “Para qualquer cristão, esse patriarca ardoroso e contraditório foi, de fato, o sustentáculo da Igreja em sua fase primitiva – o primeiro líder de uma revolução espiritual que, nos milênios seguintes, mudaria os rumos do mundo.” (http://super.abril.com.br/historia/sao-pedro-o-primeiro-papa/)

“Ele foi um apóstolo importante por ser ousado e o seu ministério foi essencial na fundação da igreja” (https://www.respostas.com.br/pedro-foi-o-primeiro-papa/)

O entendimento de sucessão também é diferente. No site respostas cristas é afirmado que Matias foi apenas substituído. Esso seria o caso, e não de sucessão. Sobre Timóteo e Tito serem bispos, é citado o fato de serem itinerantes, como se isso alterasse em algo a natureza do papado. O papa poderia ser itinerante, como foi São Pedro, por algum tempo, e ainda assim ter autoridade reconhecida, como líder cristão. (e não como um chefe secular, é claro.)

Quanto ao entendimento da monarquia episcopal: “Quando dizemos que o Bispo de Roma é o infalível guardião da fé, não queremos dizer que ele está num lugar em que ele possa agir isoladamente do resto do corpo episcopal.

Lembrando que as ideias de Wycliffe apregoadas hoje continuam sob anátema: ““não é necessário acreditar que a Igreja Romana possui supremacia em relação às outras Igrejas.

O que é dito da Igreja de Roma está de acordo com a posição reconhecida que a Sede de Roma tem na Igreja Católica: (http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/papado/960-sao-clemente-romano-prova-o-papado-nos-primordios-da-igreja) Alguém sugeriu um debate sobre esse tema. Este artigo serve para esse fim.

Foi publicado hoje um artigo irônico sob o título: 50 Provas do primado de Billy Graham com o intuito de desbancar os raciocínios usados para defender o papado, com base em escrito de Dave Armstrong, usando sua metodologia, e com isso tentando refutar o mesmo radicalmente. Certamente, cada item da lista não prova o que supostamente provaria, dentro desse contexto irônico, porque falta o fundamento.

1. O tópico um só seria mais apropriado se o mesmo tivesse o fim de mostrar Billy Graham como (supostamente, é claro) o papa dos batistas, ou de uma Igreja Batistas específica.

2. O item 2 está atrelado ao número um.

3. Isoladamente esse item não tem valor, já que missionários podem pregar mais que o papa. Em adição ao ofício de papa, ele serve para realçar o mesmo.

4. Continua o mesmo que o item 3.

5. Tem o efeito do mesmo item 3.

6. Prova apenas que se trata de um missionário bastante influente.

7. Tem a mesma essência que os itens tratados anteriormente, a partir do 3.

8. Continua falando, essencialmente, do mesmo assunto do item 3.

9. Esse item revela o mesmo que foi dito anteriormente, e ainda propõe um “papado” diverso, onde o papa auxilia na conversão de pessoas que entram para igrejas diferentes.

10. Contato com reis e outras autoridades não faz o papa. É certo que o papa tem esses contatos, e por isso é preciso provar o fundamento, pois essas relações políticas é algo diretamente fora da questão.

11. A grande fama é parte da figura do papa, mas provem dela. Para provar é preciso o mesmo que foi indicado no item 10.

12. Item que só teria sentido como peso cumulativo.

13. O mesmo que o item 12.

14. Em essência é o mesmo que foi dito nos itens, por exemplo, 6 a 8.

15 Continua essencialmente o mesmo do item 14. Aumenta o peso cumulativo.

16. Aumento de peso cumulativo.

17. Aumento de peso cumulativo.

18. Aumento de peso cumulativo.

19. Tem a ver com sua fama.

20. Parece não ter tanta relevância esse item.

21. Igual ao item 20.

22. Item interessante como sendo princípio de unidade.

23. Peso cumulativo.

24. Peso cumulativo.

25. Peso cumulativo.

26. Peso cumulativo.

27. Item que tem a mesma essência de vários anteriores.

28. Peso cumulativo. Esses itens em si não provam, mas devem ser lidos como parte de comprovação de um princípio. O que falta é o princípio. (Como, como certa, irão alegar que falta na lista sobre Pedro).

29. Peso cumulativo.

30. O mesmo peso do item 7, por exemplo.

31. Não há novidade neste item.

32. Igual ao anterior.

33. Há relação com itens já comentados anteriormente. É uma repetição.

34. Peso cumulativo.

35. Peso cumulativo.

36. Mais peso cumulativo.

37. Peso cumulativo.

38. Peso cumulativo.

39. Peso cumulativo

40. Peso cumulativo.

41. Peso cumulativo. Não é tão grande como proferir o primeiro discurso da Igreja, no dia de sua inauguração em Pentecostes, mas é cumulativo.

42. Peso cumulativo.

43. Peso cumulativo.

44. Peso cumulativo.

45. Peso cumulativo.

46. Peso cumulativo.

47. Peso cumulativo, e curioso.

48. Peso cumulativo.

49. Peso cumulativo.

50. Peso cumulativo.

Em todos os itens que, em si mesmos, não falariam nada ou quase nada, apenas coloquei-os como peso cumulativo. O que falta para fazer de Billy Graham uma papa, (entendendo que o artigo é irônico) é uma base forte, que o faça tal. Essa tem a favor de Pedro, e de ninguém mais. Falta mostrar o mesmo fundamento para continuar as teses a respeito do pastor Billy Graham, e que não funciona com mais ninguém.

Algumas provas do primado petrino, como elencadas por Dave Armstrong, são muito fortes, como as primeiras 3, com ênfase nas 2 primeiras, como o Dave mesmo acredita, e dão base ao princípio do papado, sendo complementadas por outras tantas, que tem o papel de corroborá-las. Elas não são fortes em si mesmas ou quando lidas fora do contexto do assunto. É esse o valor geral das 50 provas, chamadas de “argumento ruim, mas ruim mesmo”, no artigo de crítica à lista do Dave Armstrong.

Dessa forma, o exemplo, do que o Dr. William Craig usou para refutar o outro debatedor não serve para refutar o Dave, pois esse usa pontos sólidos, para formar seu argumento, e somente depois acrescenta evidências que corroboram-no.

O que precisa ser provado, é claro, é o que está sendo rechaçado nessas palavras: “Nenhuma delas é uma prova de fato no sentido objetivo de um papado ou de uma primazia de governo, tal como: “Pedro é o papa dos cristãos”, ou então: “Pedro governa toda a Igreja”. Estamos, no geral, debatendo uma questão resolvida: “Caso encerrado”, como está no artigo irônico.

Admitindo alguma verdade nas provas do Dave Armstrong: “É simples: que Pedro era uma figura importante, até central na Igreja do primeiro século.

Quando afirmei acima que a jurisdição é a palavra-chave, veja a comprovação, no mesmo conceito: “Alguém pode ser o mais importante de um grupo, sem contudo liderar este grupo ou presidi-lo.

A liderança do papa refere-se aos pastores cristãos católicos, e não aos de outras denominações. E como o papa é de uma Igreja, a Católica, e os bispos seus irmãos iguais em hierarquia, dignidade e atividade, mas menores em extensão desses atributos, por motivo de um só ser escolhido como princípio visível de unidade, então o caso de Billy Graham é um tanto falho, mesmo em termos irônicos, já que representa o Protestantismo ortodoxo, mas em termos mais estritos é membro de uma denominação, que não tem ligação visível e possui tantas divergências doutrinais claras, que inviabilizam a devida comparação com o papa na Igreja Católica.

E o poder de jurisdição-governo-papado é negado ter sido possuído por Pedro, e, a partir dele, por todos os papas na história. Não adianta escrever muito então. Ah, sim. Adianta, pois o Espírito Santo guia nossa mente para que abrace a verdade. É supérfluo em termos meramente humanos, mas não em termos de atividade espiritual.

A prova para o primado é tão simples como a prova que o artigo traz apresentando Marcos 10,42. Vejamos.

Dave Armstrong afirma que a doutrina do papado é derivada da primazia evidente de Pedro. (É o mesmo, em princípio, o que o artigo sobre Billy Graham chamou de “o principal, o mais importante, mais influente ou mais destacável”). A primazia é ligada ao governo, é claro, e ninguém pode negar. O governo sempre tem primazia, mas a primazia nem sempre governa. Pedro foi papa. Mas, hoje nega-se que Pedro teve poder de liderança. Esse é o ponto.

Dave afirma ainda, como já foi comentado acima, que a doutrina do papado, como todas as doutrinas cristãs, foram desenvolvidas. Esse é outro ponto negado por muitos, que não creem em desenvolvimento, mesmo que o vejam. E impossível negar, mas há quem dê outro nome a isso, e depois passe a refutar o desenvolvimento, que é outra coisa.

Há ainda a afirmação da “liderança e prerrogativas de São Pedro”. O que é chamado de liderança e prerrogativas está no bojo do que acima foi colocado sob o título de “principal, importante, de destaque”, mas negam, porém, e de forma mais contundente, o poder de liderar como o papa fez durante praticamente toda a história cristã. (http://www.patheos.com/blogs/davearmstrong/2015/10/50-nt-proofs-for-petrine-primacy-the-papacy.html)

Será que o grande apologista Dave esqueceu de lembrar que o que foi explicado como peso cumulativo das provas não significaria que cada uma das provas individualmente não serviriam para nada, e não seriam prova de forma alguma, e que assim a soma de provas inúteis não faz um sólido argumento, e refutar tal coisa que eventualmente surgiria nessa inteira questão?

Parece que não. Já nas primeiras 3 provas, que constituem a verdadeira prova, isso fica de certo modo evidente.

A prova número 1 condensa todo o sentido de Mateus 16,18 e fornece as refutações necessárias: Pedro é a pedra no cenário em que Jesus é o Construtor, portanto é posto como fundamento, não como fundador, o que significa um administrador, não o Senhor da Igreja, e o pastor conforme Efésio 4,11, como foi dado pelo Bom Pastor (João 10,11).

Depois, a segunda prova esclarece que Mateus 16,19 o poder das chaves tem a ver com disciplina eclesiástica, o que inclui muitas coisas, (fazendo necessário o poder de exercer essa disciplina), e na prova 3 o poder de ligar e desligar é explicado que trata-se de termo rabínico para proibir e permitir, e que Pedro foi o único a receber esse poder por nome e no singular, o que o faz preeminente.

Esses fatos não podem ser negados. E se a implicação acima referida não é aceita, que seja apresentada outra melhor.

Essas provas são, como mostra Dave Armstrong, “as mais explícitas evidências bíblicas para o papado”.

A pedra sobre a qual Jesus colocou a Igreja é singular. Ele é o construtor nessa passagem, e não a pedra que está sendo posta.

O poder do papa de ligar e desligar não é só seu, mas de todos os bispos. O que a Igreja ressalta ao apresentar o papa como tendo a prerrogativa em pessoa é que Pedro foi o único que, nomeadamente, recebeu esse poder de Jesus. Os demais receberam após Pedro, e como grupo, do qual o apóstolo era parte, e por isso unido a Pedro.

A lista apresentada pelo Dave é construída a partir desse ponto inicial, desse fundamento. Ele mostra que Paulo é importante, mas quis mostrar o que seria consistente com a doutrina de que Pedro é o chefe da Igreja¿ Ele não diz que cada ponto é uma prova, mas que a lista mostra pontos consistentes com o que foi provado, o que é “muito forte”, segundo sua opinião, sendo assim provas adicionais e de peso cumulativo. É algo bem diferente, e que não pode ser facilmente refutado, se é que pode ser.

Para isso, a doutrina em seu núcleo é admitida, ainda que falte alguma prova explícita de algum ato, por exemplo, de Pedro “mandando” em algum apóstolo ou outro cristão, ou exercendo seu poder papal de forma explícita e inequívoca, provando seu poder de liderança e jurisdição universal.

As provas 30, 38 e 43, da lista do Dave Armstrong, usadas como exemplo de que não provam nada, cai no erro que o Dave explicou: elas são parte de uma lista de indicações do primado de Pedro. Há outros textos que sugerem essa conclusão, e essas provas estão em consonância com a mesma.

Portanto, para refutar a lista do apologista Dave Armstrong, deve-se refutar o princípio, o fundamento dela.

Segue o artigo que publiquei há algum tempo, sobre Mateus 16,18:

Pedro é a Pedra de Mateus 16,18

Em refutação à explicação do Lucas Banzoli  (apologista protestante no site que tem como objetivo refutar o Catolicismo: http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/) de que a pedra de Mateus 16,18, é a confissão de Pedro, segue-se a simples reflexão.

16 E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.

17 E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus.

18 Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; 

(Tradução Corrigida e Fiel, Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil)

Nos versos anteriores, 13-15, Jesus havia questionado a respeito da opinião do povo sobre Sua Pessoa, e também o que diziam os apóstolos sobre isso. Pedro responde prontamente: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Então, Jesus dirige-lhe também uma palavra, dizendo: “tu és Pedro”. Entende-se assim o contexto.

Pedro fez a confissão a respeito de Jesus como verdadeiro Messias e Filho de Deus, e Jesus mostra-lhe que por sua fé ele será Pedro. Como entender isso?

O apóstolo Pedro chamava-se Simão, e era filho de Jonas. Jesus mudou seu nome para Pedro (em grego Petros), nome que vem de Kepha, transliterado na Bíblia como Cefas, e significa pedra. Assim, lemos em João 1,42: E levou-o a Jesus. E, olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro). Outras traduções, como a King James Version (em inglês) e a Bíblia de Jerusalém trazem também o termo como significando pedra, mostrando a unanimidade dos eruditos quanto ao sentido do mesmo.

Temos assim o diálogo entre Jesus e Pedro. Jesus questiona sobre Sua identidade, Pedro responde por revelação de Deus, e Jesus mostra a Pedro a missão que devia cumprir, e o motivo de ter recebido o nome Pedro. De fato, Jesus refere-se em todo o diálogo a Pedro, e a ninguém mais. Uma leitura atenta evidencia isso:

a) Bem-aventurado és tu

b) porque to não revelou

c) eu te digo que tu és Pedro

Assim, a sequência somente pode ser dirigida a ele, tendo-o como referência: e sobre esta pedra edificarei a minha igreja. Temos Pedro em a-b-c, por que não estaria também na sequência normal do texto em d?

Cristo não diria tudo isso para, sem razão, mudar de objeto quando afirma sobre a pedra. Pedro é bem-aventurado (feliz), Pedro recebeu a revelação, Pedro foi nomeado pelo Senhor Jesus, Pedro é a PEDRA nessa passagem. Esse é o motivo de sua mudança de nome, ele foi encarregado de ser a pedra da Igreja onde Cristo iria construir. Então, nesse verso Jesus é o Construtor e Pedro o material da construção: a pedra.

Temos igualmente que prestar atenção aos dizeres do texto: “Tu és Pedro”. Para quem está familiarizado com o nome do apóstolo isso parece óbvio, pois ele é Pedro. Mas, o caso não é esse. Notemos que Pedro não fala: “Tu és Jesus”, pois ele conhecia o Senhor e sabia do Seu Nome. Ele diz: “Tu és o Cristo”. A palavra Cristo vem do grego, tradução do hebraico Messias (ungido). Assim, é como afirmar: “Senhor Jesus, tu é o Cristo”.

Da mesma forma, Jesus não diria, nesse sentido, ao apóstolo Tiago: “Tu és Tiago”, ou a Bartolomeu: “Tu és Bartolomeu”, nem ao mesmo apóstolo Simão: “Tu és Simão”. Diferentemente, ele diz a Simão - filho de João, para não confundirmos com o outro apóstolo, chamado também de Simão, o zelota. E, então, diz a Simão: “Tu és Pedro” (palavra que tem o sentido de pedra), ou seja: “Simão, tu és Pedra”.

Assim, fica claro o sentido: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...” É com toda a certeza que Se refere à pessoa do apóstolo Simão Pedro.

 
Gledson Meireles.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Eleição e Predestinação em Romanos 9-11

São Paulo inicia o capítulo 9 mostrando sua tristeza e seu desejo pela salvação dos judeus.  O verso 3 trata dos israelitas “segundo a carne”. Essa qualificação é importante, pois tem a ver com todos os judeus ligados pelos laços da natureza física.

Em continuação, no verso 6 é feita a distinção entre os israelitas por natureza e os israelitas por conta da promessa de Deus. Assim, é dito que “nem todos os que descendem de Israel são Israel”, ou mesmo, como está no versículo seguinte, “nem todos os descendentes de Abraão são seus filhos”. Tem-se assim os que são parte do povo judeu e os que nele fazem parte da promessa, ou que devem aceitar a promessa. Mais ainda. Todos são chamados a aceitar a promessa, pois a carne não é garantia de aceitação, mas a fé na promessa de Deus.

A promessa é aquela da descendência de Abraão e Sara, e Isaac e Rebeca. (vv. 9-11) A escolha de um e de outro para a eleição antes do nascimento tem o objetivo de mostrar a liberdade da escolha de Deus, que não depende de obras, mas de Deus mesmo, da Sua misericórdia.

Em Gênesis 25,23 explica a esse respeito: “e Iahweh lhe disse: Há duas nações em teu seio, dois povos saídos de ti se separarão, um povo dominará um povo, o mais velho servirá ao mais novo”. Por isso o verso 12 afirma que “O maior servirá ao menor”. E o 13: “Amei a Jacó e aborreci Esaú”. Jacó representa a nação de Israel e Esaú a nação de Edom. Esse povo recebeu a ira de Deus, enquanto Israel a bênção. Deus escolheu Israel para preparar o povo do Messias.

Essas bênçãos são materiais, tendo a ver com a formação do povo e seu sucesso como nação. O mesmo já havia ocorrido desde o início, com o chamado de Abraão. A serva de Sarai recebe a promessa de grande descendência: “Eu multiplicarei grandemente a tua descendência de tal modo que não se poderá contá-la.” (Gn 16,9)

No entanto, a Aliança seria feita por meio de Isaac, e não do filho de Agar, Ismael. O Senhor diz a Abraão: “Não, mas tua mulher Sara te dará um filho: tu o chamarás Isaac; estabelecerei minha aliança com ele, como uma aliança perpétua, com sua descendência depois dele.” (Gn 17,19) E Ismael recebe também uma bênção: “Em favor de Ismael também, eu te ouvi: eu o abençôo, o tornarei fecundo, o farei crescer extremamente; gerará doze príncipes e dele farei uma grande nação.” E Ismael foi circuncidado, junto com seu pai Abraão. (v. 26)

Dessa forma, entende-se que a Aliança tem como fim a salvação de um povo que irá aderir a Deus por meio da fé e não por meio de obras, ou por laços de sangue. Deus está formando um novo modo de entrar na Sua comunhão. Ele não está passando por uns e os deixando de lado, ao passo que escolhendo outros para Si. Na verdade, Ele está estabelecendo para todos um caminho diferente daquele que o homem imagina.

Em Jacó e Esaú as duas nações foram divididas, e a última não teve as bênçãos que também seriam perdidas pelos edomitas, não fosse a prece de Abraão. Mas, não tem essa situação a ver com a salvação dos povos em questão nem em particular de seus indivíduos.

Então, São Paulo mostra o exemplo do Faraó, em quem Deus mostrou Seu poder, para que o Seu Nome fosse celebrado. Depois, usa o exemplo através das palavras: “farei misericórdia a quem fizer misericórdia e terei piedade de quem tiver piedade”. (Rm 9, 15) E: “De modo que ele faz misericórdia a quem quer e endurece a quem quer.” (v. 18)

Daí nascem os vasos para uso nobre e os vasos da ira. Essa separação tem feito muitos refletir a partir dela sem olhar o contexto inteiro, não só do capitulo 9, mas também dos capítulos 10 e 11. Em primeiro lugar, um oleiro faz vasos para diversos usos, mas nenhum deles é feito para ser destruído, nem para ser descartado. Quem seria louco o suficiente para trabalhar diligentemente em uma obra destinada a ser destruída assim que terminasse de ser produzida? Os vasos recebem diferentes atribuições, diferentes tratamentos, mas a sua produção não é para serem quebrados, mas para servir a algum fim.

Dessa forma, Deus como o oleiro não fez alguém para ser reprovado, mas usa seus vasos para diferentes fins. Deus dá ao homem liberdade para agir por diferentes meios, e andar em diversos caminhos. Somente assim entende-se a paciente espera de Deus para agir em juízo contra esses vasos da ira. Todos são feitos por Deus, mas uns estão como vasos de uso nobre, e outros como vasos de perdição.

Mas, algumas palavras tendem a descobrir, ou melhor, tirar o véu para a compreensão do assunto que está sendo desenvolvido. O verso 22 fala que Deus “suportou com muita longanimidade”, ou seja, suporta pacientemente, “os vasos de ira, prontos para perdição”. Essa atitude de Deus coloca Sua ação fora do âmbito do primeiro endurecimento, já que Ele “suporta” o que já estão endurecidos. A ação de Deus está sobreposta a essa primeira atitude do homem.

É verdade que os vasos do oleiro são obras suas. Contudo, o Senhor usa dessa comparação para mostrar que há entre Sua obra aqueles que serão como os vasos da eleição e outros como os vasos da ira. Assim, os vasos da misericórdia são todos os que são convertidos, tanto entre judeus como entre os gentios, assim como está no verso 24.

Para lembrar daquela distinção do início, de que entre o Povo inteiro segundo a carne há um Povo segundo a eleição da graça, isso é reafirmado no verso 29: “E ainda como Isaías havia predito: “Se o Senhor dos Exércitos, não nos tivesse preservado um germe, teríamos ficado como Sodoma, teríamos ficado como Gomorra. Deus faz assim para não ter o Povo inteiro em queda. Assim, a ação de Deus segundo o Seu santo beneplácito é sempre para salvar. O juízo não é o seu desejo primordial, mas a consequência da resposta do homem.

Deus está revelando que a Sua promessa irá ser cumprida. Ela foi feita desde Abraão, passando por Isaac e por Jacó, e assim para sempre. Ismael e Esaú ficaram fora dessa eleição, não para serem condenados, mas porque não quis Deus que fosse assim, ou seja, que todos os descendentes físicos do patriarca Abraão estivessem destinados à formação do Povo eleito, mas somente aquela parte que viria pela promessa. Deus faz o que quer, e Suas obras são santíssimas. E o faz assim para incluir outros, ou seja, todas as nações, nesse plano que iniciou com o Povo Eleito.

Essa semente da promessa, também, inclusive, tem a parte relativa à carne, pois Isaac é filho legítimo e descendente físico de Abraão. Mas não só isso. É por ele que os demais descendentes terão parte no povo pela promessa da qual esse descendente igualmente natural veio a existir. Não é por ser descendente por meio de Isaac que alguém pode fazer parte do preservado germe, mas pela promessa que tocou a ele.

Entendido isso, leiamos o versos 30 a 32: “(30)Que diremos, então? Que os gentios, sem procurar a justiça, alcançaram justiça, isto é, a justiça da fé, (31) ao passo que Israel, procurando uma lei de justiça, não conseguiu esta Lei. (32) E por quê? Porque não a procurou pela fé, mas como se a conseguisse pelas obras. Esbarraram na pedra de tropeço.
 
Dessa forma, explica-se o modo pelo qual devemos atingir a justiça, e encontrá-la: por meio da fé. Israel como povo não procurou dessa forma, e isso fez com que as nações pudessem cumprir o que Israel não pode fazer.

De quem fala São Paulo? Do Povo de Israel inteiro ou dos eleitos nele? Para responder isso, continue a leitura no capítulo 10.

Em primeiro lugar, não se pode falar tão absolutamente de alguns eleitos dentre o povo, como se tal estivesse fechado à inclusão de outros, já que a promessa é aberta a todos, e o germe preservado no presente tem como fim manter a promessa, visando à conversão da inteira nação.

De fato, São Paulo deseja que sejam salvos, e afirma que eles têm um zelo não esclarecido, não conhecendo a justiça de Deus, mas procurando estabelecer a própria. (vv. 1-3) Isso é o mesmo que está em Rm 9, 32, que apontou a pedra de tropeço, e em 10, 11 afirma: “Com efeito, a Escritura diz: “Quem nele crê não será confundido.

Está tratando de Israel, que não creu no Cristo, o Messias, e que esbarrou na pedra de tropeço, que tem esperança de que sejam salvos, que eles tem zelo por Deus, “mas não é zelo esclarecido”, que não conhecem a justiça de Deus, mas estabelecem a própria.

Qualquer um, lendo esse texto de forma isolada poderia concluir que está falando de Israel que está fora da eleição, não tendo como ser salvo. Pois, que proveito teria o grande esforço espiritual para salvar a esses, como São Paulo mostra em Romanos 9, 1-3 e 10,1-3, se esses já fosse do número preparado para a salvação?

Ainda, se esses israelitas estivessem fora do descendente eleito, não haveria porque ter esperança de que fossem salvos.

Desse modo, o assunto é um tanto diferente do que se pode extrair dessas duas hipóteses acima.

A Bíblia afirma que Israel ouviu a pregação do Evangelho, e que não obedeceu. (vv. 15-19) Esse é o texto que prepara para entender a natureza desse endurecimento e qual o objetivo dele.

De fato, em Romanos 11,1 é mostrando novamente que Deus não rejeitou Israel. É o mesmo Israel descrito acima, na mesma situação espiritual.

São Paulo faz a distinção entre o Israel que ainda está endurecido e o Israel que já encontrou a salvação, afirmando que ele também é israelita, descendente de Abraão. Assim, o assunto tem a ver com o Israel natural, e sua salvação.

Com isso, novamente temos o assunto da eleição de um grupo, no verso 4, que será preservado entre os judeus. É “o resto segundo a eleição da graça”.

Como vemos, foi mostrada a situação de Israel e das nações. E agora chega-se ao remanescente judaico.

Em Romanos 11,7 está escrito: “E se é por graça, não é pelas obras; do contrário, a graça não é mais graça.

E no verso 8: “Que concluir? Aquilo a que tanto aspira, Israel não conseguiu: conseguiram-no, porém, os escolhidos. E os demais ficaram endurecidos.

Está vendo? Aqui há a comparação entre Israel como povo inteiro, e os escolhidos israelitas. O primeiro, o Povo de Israel, não conseguiu encontrar a graça, e o segundo grupo, “os escolhidos” conseguiram. Assim, o Israel permaneceu no endurecimento. Alguém, dirá: então, tem-se aí os eleitos e os que estão fora da eleição. Não.

Leiamos o verso 9: “Como está escrito: Deus-lhes Deus um espírito de torpor, olhos para não verem, ouvidos para não ouvirem, até o dia de hoje.” E o verso 11: “Então, pergunto: teriam eles tropeçado para cair? De modo algum.

A totalidade de Israel foi endurecida apenas para provocar o ciúme do povo, e tornar possível a entrada das nações na Aliança com Deus. Isso está escrito nos versos 11 a 15.

E Romanos 11,14 é muito instrutivo nessa questão: “na esperança de provocar o ciúme dos de meu sangue e de salvar alguns deles.”

São Paulo está tratando daqueles que, dentre os judeus ainda não convertidos, que estão endurecidos, e mostra que há esperança de salvação.

A partir daí, usa sempre o condicional: “se perseverares na bondade”, para os que já estão enxertados na Oliveira, e “se não permanecerem na incredulidade”, dos que estão longe da fé, e que fazem parte do povo judeu, podendo ser novamente colocado na Aliança de salvação, enxertados na Oliveira novamente.

Por isso, o verso 28 afirma que os dons e o chamado são irrevogáveis, referindo-se ao Povo de Israel.

De tudo o que foi mostrado na Palavra de Deus, nesses capítulo 9, 10 e 11 da Epístola aos Romanos, no que se refere à salvação, temos alguns ensinos, como:

1) O Povo de Israel continua no plano de Deus.

2) Que parte de Israel foi endurecida, por não receber o Messias Jesus nosso Senhor, e para que os gentios fossem salvos.

3) Que há uma parte eleita pela eleição da graça, como no tempo do profeta Elias Deus preparou 7.000 homens que não dobraram o joelho a Baal. Essa parte recebe o Evangelho agora.

4) Que a parte endurecida agora, irá no fim receber o Evangelho, pois agora são inimigos por causa do Evangelho, mas amados por causa da Eleição. Está tratando do povo de Israel em geral.

5) Os pagãos foram desobedientes, em geral, e agora encontram misericórdia, enquanto que os judeus, em geral, estão na desobediência graças à misericórdia de Deus para com os gentios, para que os judeus “também obtenham misericórdia no tempo presente”, que é o tempo até a vinda de Jesus.

6) Todos foram encerrados por Deus em desobediência, para fazer misericórdia com todos. (Rm 11,32).

Assim, Deus endurece aqueles que rejeitam o Evangelho, mas que isso tem como fim salvar e não condenar. Se alguns são condenados é porque não acolheram e foram desobedientes ao Evangelho.
 
Gledson Meireles.