Foi publicado um vídeo com ideias
ateístas fazendo um resumo da doutrina bíblica sob uma linguagem que torna tudo
um mito, uma fábula, uma mentira, uma coisa sem sentido. E todos os adeptos do
ateísmo aplaudem, porque consideram essa abordagem a única correta, crítica e
erudita, a única coerente, normal, saudável. E nessa leitura chegam a encontrar
a paz de espírito que tanto procuram, pois veem nela a expressão da verdade,
contra o erro e a “ignorância religiosa”. De fato, o ser humano procura algo
que faça sentido à sua busca pela verdade.
Pois bem, vamos analisar as palavras
do autor, com sua linguagem interessante, sua imaginação fértil, seu senso de
humor, e seu talento para formular esse texto chamativo. No entanto, como a questão
é a busca da verdade, tudo isso é apenas adereço. Vamos ao essencial.
O sacrifício humano de Cristo e a
posse do salvo pelo Espírito Santo são vistos de maneira estranha. Uma maldição
no jardim mágico, onde as duas pessoas eram uma proveniente do pó e a outra da
costela. Assim se inicia a história relida pela imaginação do autor.
“Deus não gostou” que os seres
humanos pensassem por conta própria, afirma, mas preferia que eles simplesmente
obedecessem. Pensar por conta própria, a verdade, e a obediência, o mal. Há
algo bem curioso aqui. Quem preferiria obedecer? De fato, o ser humano quer
liberdade e não curvar-se em obediência. E assim o discurso é aberto de forma
bastante natural e agradável.
Bem. Essa leitura parte do fato de
que não há Deus, e de que Deu não é. E depois, entra na história para tentar
mostrar as incoerências do texto considerado a revelação de Deus.
Entretanto, apenas outra história
humana estaria sendo contada na Bíblia. O homem pensando por si é o bem maior.
Nem a Deus deveria obedecer. Ou melhor, para o ateísmo, onde não há divindade,
a mente humana deve procurar o “sentido” da vida e as “leis” para o bem viver
de modo a encontrarem o fundamento para viver da melhor forma possível, como sendo
melhores que quaisquer cristãos, já que estarão fazendo o bem sem esperarem quaisquer
recompensas.
Então existe o melhor a ser feito, o
bem a buscar para ter uma vida virtuosa e uma felicidade na vida. Esse melhor é o que é, sem fonte espiritual,
e as regras e leis que existem são, talvez, a emergência de uma realidade que
surge da interação dos seres morais, que, não se sabe como, criam a moral a partir
dessas relações. Cada um não tem a moral em si, e essa existiria objetivamente,
mas começaria a ser experimentada a partir da relação humana.
Pois bem. O melhor a ser vivido, a
positividade da virtude, as leis morais, tudo o que rege a humanidade seria algo que leva o ser humano ao melhor dessa
existência, embora cada um individualmente não tenha a possibilidade de trazer
a si esse bem de forma certa, infalível e duradoura. É algo bom que flui da
humanidade, quando a própria humanidade individual não tem esse bem que lhe faz
feliz. Seria como zero + zero + zero e etc. resultasse em muita coisa. O nada
criando algo que fundamenta a existência do ser humano e o leva ao melhor que
pode existir.
Entretanto, tudo o que existe é
imanente, provindo da própria humanidade ou, talvez, de algo que é puramente
físico, acima ou anterior à humanidade, mas que não pode de forma alguma ser
chamado, considerado, assemelhado, identificado a Deus. Por quê?
Porque há um dogma ateu que diz que
tudo é imanente. Não há divindade. Portanto, sinta-se satisfeito com a
resposta, e não procure de forma alguma aquilo que a razão pura, segundo o
raciocínio mais reto, possa indicar, porque isso será chamado de imaginação.
Mas a própria ideia de Deus criticada
pelo ateísmo traz consigo a perfeição. O que é o padrão para o melhor para a
vida humana. Obedecer ao que é perfeito é garantia de felicidade plena. Seguir
as virtudes, os valores, o bem, para encontrar o equilíbrio suficiente para bem
viver.
Pensar por si afastando-se do padrão
garantidor da felicidade é um erro, uma fraqueza e um contrassenso. O ateísmo
concorda com isso. Mas a razão move a buscar o que é racional, lógico, bom e
verdadeiro. Então, a obediência nesse caso é o que a própria razão ensina.
Portanto, o que subjaz na história bíblica nada mais é que a própria refutação
daquilo que o autor tentou destruir. Obedecer ao que é objetivamente bom para o
ser humano é uma atitude inteligente. Justamente o que a Bíblia ensina.
Outra parte interessante da crítica é
que Deus não teria pedido o consentimento da jovem Maria para ser a mãe do
Salvador. Mas subentende-se da leitura bíblica que Maria deu seu sim de forma
plena, voluntária, livre. Então, essa questão é apenas mais uma interpretação
ateísta.
E mais. Jesus teria relativizado e
bagunçado tudo o que Deus havia estabelecido. Os homens estavam certos ao
condenar Jesus. E a lógica que é usada é que os que estavam tentando obedecer
às regras do sistema antigo foram considerados errados.
Nessa interpretação ateísta da
Bíblia, Jesus estaria errado ao ensinar. O texto antigo deveria continuar como
tal, sem quaisquer reformas. Os homens que levaram Jesus à condenação estariam
certos. Com essa lógica, muitos aderem às interpretações ateístas da Bíblia,
pois a mente humana só considera um raciocínio que faz sentido, e esse faz,
ainda que seja um recorte, uma porção da Escritura analisada através de uma
crítica limitada.
E, por fim, uma afirmação
interessante é que as orações dos cristãos pediriam para Deus mudar a mente das
pessoas ao redor, mesmo contra a vontade delas.
Essa afirmação esconde o medo de
render-se a outra opinião. Ela tem a pretensão de que não se deve mudar contra
a vontade, o que relativamente está correto. Porém, nem sempre a mudança “contra”
a vontade é errada, porque sendo o ser humano falível, imperfeito e inclinado a
coisas que lhe fazem mal, é surpreendentemente comum encontrar resistência à
mudança que lhe faria bem. Mas, o que importa a seguir a própria opinião.
Ninguém defende isso de maneira crua, mas é o que subjaz no pensamento
criticado acima. É com esse tipo de pensamento que o ateísmo tenta refutar o
pensamento religioso, geral, e cristão, em particular.
Nessa crítica foi mostrada a raiz da aceitação desse pensamento ateísta por muitas pessoas. Ela quer ensinar a liberdade, a criticidade, a coerência. Tudo o que o cristão crê, ensina e deseja. Por isso, o ateísmo, por outros caminhos, adere-se aos valores eternos, sem perceber que o faz por meios bem inadequados. Se não fosse assim, por certa coerência interna, ninguém concordaria com seus raciocínios.
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