Introdução
Certamente a maior bênção
para uma mulher judia era ter muitos filhos. Mas, para mulheres como Isabel, a
mãe de João Batista, já idosa e estéril, e Maria, a mãe de Jesus, para essas um
único filho foi o recebimento de grandes bênçãos. Santa Isabel foi por graça de
Deus curada da sua infertilidade, e tornou-se a mãe do precursor do Messias,
São João Batista. A virgem Maria, por sua vez, recebeu a maior das graças de
Deus, pode-se afirmar que recebeu todas as bênçãos, de uma forma singular. (cf. Ef 1, 3) Não precisou de mais filhos para
sua felicidade.
Antes de começar a
refutação do artigo, é preciso ter algumas informações importantes sobre a
questão. É dogma de fé cristã católica que a mãe de Jesus permaneceu virgem
após o nascimento de Jesus, que foi o seu primogênito e unigênito. Dessa forma,
não há outros filhos de Maria, outros irmãos de Jesus nesse sentido.
Houve irmãos no sentido
de parentes ou primos. O fato é unânime na Igreja, mas o modo com que isso é
explicado não é unânime, havendo diferenças de interpretações, como as que
afirmam ser os irmãos de Jesus filhos de José de um casamento anterior, ou que
são filhos de Maria de Cléofas, irmãs (prima) da mãe de Jesus. O fato
permanece, eles não são filhos de Maria, mãe de Jesus.
Para os protestantes,
esses irmãos de Jesus só poderiam ser filhos da Sua mãe, porque interpretam a
palavra “irmãos” no contexto como se referindo literalmente a filhos da mesma
mãe e pai, e no caso de Jesus, filhos da mesma mãe. Essa opinião não foi
adotada nem pelos reformadores protestantes, que seguiam somente a Bíblia, pois
em seus estudos da Escritura chegaram à conclusão que Maria permaneceu virgem,
que Jesus é Seu filho único. No entanto, após algum tempo, predominou no
Protestantismo a ideia de que Maria teve outros filhos.
O artigo em questão
tenta provar essa afirmação, não diretamente, mas por identificar a Maria mãe
de Tiago e José com Maria mãe de Jesus. Apresentando algumas razões para isso,
torna-se importante considerá-las atentamente, e refutá-las com fundamento
bíblico onde se fizer necessário.
Alguns protestantes
interpretam essas passagens tão rigidamente a ponto de criarem mais “Marias”, mais
Tiagos, mais Pedros, etc., o que é esperado de ideias fantasiosas, frutos da imaginação.
Assim, para alguns a Maria de Cléofas e a Maria mãe de Tiago e José já seriam
duas, e não a mesma. Isso introduz problemas, e causa maior confusão. No
entanto, a Bíblia indica que essa era a mesma Maria.
No entanto, o artigo
que está sendo analisado aqui tem seus motivos para identificar Maria mãe de
Jesus com a Maria mãe de Tiago e José. Por isso, faz-se necessário lidar com o
que o artigo afirma. Antes, porém, tomando momento para estudar mais o
Evangelho, é útil rever algumas passagens e aprender mais sobre o modo de Deus
revelar os fatos importantes da vida de Jesus.
Maria Madalena e a
outra Maria: foram ver o túmulo (Mt 28,1). O anjo aparece a elas. (v. 2) Jesus
aparece depois. (v. 9) Os discípulos (que são os apóstolos) são chamados de irmãos por Jesus. Aqui
trata-se do sentido espiritual. (vv. 8.10. 16). Alguns dos apóstolos, mesmo com
essa aparição na Galileia, ainda não criam totalmente. (v. 17) Certamente, um
deles era Tomé.
Maria Madalena, Maria
mãe de Tiago e Salomé compraram aromas para ungir Jesus. (Marcos 16, 1) São
Mateus não incluiu Salomé, talvez porque não estava referindo-se à compra dos
aromas. Então, no v. 2, passa a narrar a ida ao sepulcro. Pelo que informa,
essas três mulheres foram juntas ao túmulo. Viram de repente a pedra do túmulo
retirada e um jovem dentro do túmulo. (v. 4 e 5) O anjo manda dizer “aos
discípulos e a Pedro”. Isso quer dizer: aos apóstolos e a Pedro. Essa forma de
linguagem do evangelho não distingue Pedro dos demais, mas apenas destaca-o.
(v. 7) Pelo que São Mateus afirma, sabemos que os discípulos são todos os apóstolos.
São Marcos narra a aparição primeiro a Maria Madalena. De fato, as mulheres
viram Jesus nesse momento, mas, pelo que se pode notar, Madalena precedeu as
outras nessa ocasião. (cf. Mt 28,9) Mais tarde Jesus aparece a mais dois
discípulos. Marcos não restringe o número somente aos onze, mas afirma “os que
estiveram com ele”, no verso 10. Assim, inclui os discípulos de Emaús. (cf.
Lucas 24, 12-35) Pode-se afirmar que nem sempre estavam junto com os onze. Por
isso, ao ver Jesus, foram avisar os outros discípulos. (v. 13) Narra então a
aparição do v. 14, à mesa e com a censura de Jesus. No v. 19 o texto remete à
ascensão do Senhor. Pelo contexto tem-se a impressão que Jesus aparece aos
apóstolos e logo depois vai para os céus, não narrando os 40 dias que ficou na
terra. De fato, não era intenção do evangelista mostrar isso, mas resumiu os
fatos importantes para essa ocasião. Essa
observação é importante para a intepretação bíblica correta.
As mulheres que haviam
estado com Jesus na Galileia vão ao túmulo com os aromas para ungir o corpo.
(Lucas 24,1) Elas viram dois anjos. (vv. 4. 24) Os outros evangelhos mostram
apenas um, sem que afirmem “somente” um. Apenas não estavam narrando algo que
necessitasse de falar dos dois anjos. Omitem detalhes que são completados pelos
outros evangelhos. Elas contaram a
notícia aos onze e a todos os demais. Isso pode ter ocorrido na mesma ocasião,
ou logo após, quando passaram dando a notícia nos lugares em que os discípulos
se encontravam. Estavam várias mulheres ali: Maria Madalena, Joana e Maria, mãe
de Tiago, e as outras. Pode-se pensar que os apóstolos e os demais discípulos
não estavam todos no mesmo lugar quando as mulheres voltaram do túmulo. De
fato, afirma o evangelho que Pedro foi ao túmulo e voltou para sua casa. (cf.
Lc 24, 12)
Maria Madalena vai ao
sepulcro, encontra-o aberto e corre para avisar Pedro. (João 20,1) Pedro e João
vão ao túmulo e creem. Maria Madalena fica próxima do lugar, chorando. (v. 11)
Pelo relato, poder-se-ia pensar que estivesse sozinha, mas sabemos que não
estava. O evangelista não cita as demais pessoas porque o núcleo que está
mostrando nessa cena é a chegada de Pedro e o discípulo amado ao túmulo, e as
coisas que aconteceram com Maria Madalena. Também tem-se a impressão de que
aparição dos anjos foi imediatamente seguida da aparição do Senhor. (v. 14)
Mas, sabemos que foi alguns instantes depois, o que harmoniza com o relato,
apenas ele não tem intenção de mostrar o momento exato, cronometrado do evento.
Em todas essas cenas
não há menção da mãe de Jesus. De fato, há de entender-se que ela não foi ao sepulcro.
A razão disso é que a virgem Maria estava certa da ressurreição do Senhor, e
seria falta de fé procurá-Lo no túmulo no terceiro dia. Ele acompanhou Seu
Filho Jesus até a cruz. Ela cresceu na fé durante toda a vida que passou com o
Senhor. Foi aos poucos entendendo Sua missão, mas não tinha dúvidas quanto à
Sua identidade e poder. Mais do que todos, sabia que Sua origem era divina, e
sabia não ser possível que a morte o dominasse. Sua fé era grandiosa. Por tudo
isso, é improvável que Maria tenha ido ao túmulo, e pelos relatos dos
evangelhos não há o mínimo sinal da sua presença com as outras mulheres.
Dos demais discípulos,
todos duvidavam de alguma forma, ainda quando tiveram a primeira aparição do
Senhor ressuscitado. Contudo, nada disso é dito sobre a virgem Maria, e não há
como esperar que tal coisa ocorresse. Ela esperava cumprir o que Deus havia
dito a ela. Isso incluía a ressurreição. (cf. Lucas 1,45).
É verdade que a mera
omissão de um nome não significa que ele não tenha feito parte da cena. Em
Marcos 6,3 são citados irmãos de Jesus. Fala-se da Maria, sua mãe, nomeia seus
irmãos, e menciona suas irmãs. Jesus está como centro de ligação. Ele é filho
de Maria e irmão de... Naturalmente, pode-se pensar que Maria é mãe dos outros
mencionados também. Mas, há problemas bíblicos se isso for concluído com base
na passagem. Em nenhuma passagem esses “irmãos” e “irmãs” são chamados de
filhos de Maria. Isso é digno de nota. E existem muitos outros motivos que
levam a concluir que eles são filhos de outra mulher.
Ainda, é verdade que o
fato de uma Maria ser chamada de mãe de Tiago, ou de mãe de Tiago e José, não
exclui outros filhos. Há ainda, pelo menos, Simão e Judas e outras irmãs. Contudo,
essa Maria não é mãe de Jesus.
Refutação
do artigo
1.
De fato, “nenhum pai judeu daria o
mesmo nome para duas filhas.” Portanto, essa passagem pode estar usando o
termo “irmã” no sentido de “parente”, e essa outra Maria era membro da família
de Jesus, sendo sua prima. Talvez também no sentido de cunhada. De alguma forma
ela era parte da família de Maria e José.
2.
Os dois Tiago do grupo de apóstolos são
o filho de Zebedeu, e o filho de Alfeu com essa Maria citada como irmã da mãe
de Jesus. Alfeu e Cléofas sendo, certamente, a mesma pessoa, com seus nomes
grego e aramaico. Como Pedro era também Cefas, levando alguns protestantes a
entender que são duas pessoas, o mesmo pode ter ocorrido com Alfeu. E esse
Alfeu mais provavelmente não é o mesmo Alfeu pai de Mateus ou Levi, que também
traz dois nomes. E esses dois nomes também não são semelhantes, embora
referindo-se à mesma pessoa. Há quem acredite que se trata da mesma pessoa os
dois Alfeus mencionados, mas é importante notar que os dois apóstolos, que
seriam irmãos nessa interpretação, não são elencados como parentes, pelo modo
que são apresentados nas litas de apóstolos ou em outras partes dos evangelhos.
3.
Objeta-se que Lucas não teria razão para
usar nomes diferentes referentes à mesma pessoa. Isso não se impõe, já que o
evangelista também não teria o motivo de chamar Maria mãe de Jesus de “mãe de
Tiago ou José” ou “mãe de Tiago”, que é praticamente variante da forma consagrada
que os evangelhos empregam ao se referir à virgem Maria. Chega a contradizer as
outras passagens dos evangelhos.
4.
A Maria de Clopas é uma pessoa pouco
comentada na Bíblia, mas citada em relação a Clopas, que indica ser alguém
conhecido, a ponto de identificar sua esposa. Porém, nem mesmo sobre ele há
referências no Novo Testamento, fazendo-se assim um personagem quase
desconhecido para os leitores da Escritura. A afirmação de que Maria não pode
ser a mãe do Tiago de Alfeu parece ultrapassar o que os dados que surgem do
estudo permitem. A forma de referir-se a Maria como mãe de Tiago e José é uma
evidência de que não se tratava de mãe de Jesus, pelo motivo de ser uma forma
destacada de todas as outras que falam da virgem Maria. Então, essa Maria mãe
de Tiago não pode ser a mãe de Jesus. Mas, pode ser sua prima, ou irmã em
sentido lato.
5.
“Antes
de responder a isso, eu tenho uma pergunta melhor: por que raios esses mesmos
evangelistas teriam omitido por completo o fato da mãe de Jesus estar ao pé da
cruz, como diz João?” Os outros evangelistas não citaram a mãe de Jesus
como São João, porque a citação dela em João 19,25-27 se dá pelo motivo da
entrega dela ao discípulo amado, coisa que os outros evangelistas não fazem. Quem
leu a introdução deste artigo já pode compreender isso. Geralmente, por conta
de outras preocupações do autor em descrever certas ocasiões, omite-se
personagens que, à luz de outras passagens, são mostradas no local em que o
evangelista, por sua forma de narrar, omitindo alguns detalhes e pessoas, deu a
entender que não estava. Deve-se ter em mente a intenção do autor no momento e
entender porque ele permite essas omissões.
Que
sinais o texto mostra para provar essa afirmação? Um deles é o que diz São
Mateus ao citar as mulheres. Ele o faz de modo a entender que entre as mulheres
que cita, não deve ser entendida a mãe de Jesus, pois tem o objeto de falar das
que “haviam seguido Jesus desde a Galileia para o servir”. Entender a Mãe de
Tiago e de José como identificando a Sua mãe, confunde não só esse pormenor,
mas também introduz uma identificação mais perturbadora ainda, como se
dissesse: “Essas mulheres haviam seguido Jesus para o servir, entre elas estava
Maria a mãe de Tiago”. Ninguém entenderia que se tratava de sua mãe. Todas as
passagens evidenciam que essa Maria não era a mãe de Jesus, mas a de Tiago e de
José. (cf. Mt 27,55-56; Mc 15,40-41; Lc 23, 55-56; Lc 24, 1.9-10)
6.
“Se
a narrativa da apologética católica estiver correta, significa simplesmente que
Mateus, Marcos e Lucas ignoraram solenemente a presença da mãe de Jesus,
que seria obviamente a presença mais importante.” Por meio de outra
perspectiva, reconhece-se a maior importância da virgem Maria, de alguma,
forma, se não restringir-se a entender somente segundo a narrativa católica. Correto,
mas isso não implica em que ela não podia ser omitida da cena, esquecida pelo
autor, ignorada “solenemente”. De fato, ela não é citada pelos evangelhos
sinóticos.
7.
Essa omissão não é “trágica”, mas muito
comum nos evangelhos. Os evangelistas citam pessoas segundo o objetivo que têm
em narrar certos fatos. Como os sinóticos não falam da entrega de Maria ao
discípulo amado, ela não é citada. Os outros se limitam a falar das mulheres
que ajudaram Jesus desde a Galileia. Isso já foi provado na introdução acima, em
outro artigo sobre o assunto, que pode ser acessado aqui.
8.
“Observe
que embora nem todos mencionem os mesmos nomes, todos eles mencionam os mais
importantes e omitem os menos importantes.” Por essa perspectiva, Maria
Madalena seria a mais importante dessas mulheres. Nesse caso, a identificação
da outra Maria torna-se mais harmoniosa ainda. De fato, essa parente de Jesus
estava sempre com Ele, entre as outras mulheres, seguindo e servindo Jesus,
sendo citada várias vezes. Também era mãe de um dos apóstolos chamado Tiago.
Descobre-se aqui o motivo de citar essa parente de Jesus em todos esses
lugares. Os evangelistas não esqueceram de citar a mãe de Jesus, mas o que
descreviam não exigia que o fizessem.
9.
O problema que poderia deixar de existir
ao citar Maria mãe de José de outra forma, implica nesses problemas maiores, já
indicados acima. Causa confusão e evidência não ser essa a intepretação
correta.
10.
Nas
narrações do dia da ressurreição é praticamente impossível encontrar menção à
mãe de Jesus. Os evangelistas citam a outra Maria, que é Maria mãe de Tiago,
que seria estranho tratar-se da mãe de Jesus. Que ela estava aos pés da cruz,
isso é contado no evangelho de João, mas que tenha ido ao túmulo pela manhã não
consta nada. É infimamente provável, para não dizer absolutamente improvável, que
ela estivesse entre as outras mulheres.
11.
A
omissão de pessoas relevantes para a história. Como já afirmado, essa omissão
se dá com relação a eventos contextuais, e não relativos à história da salvação
em geral.
12.
Há
portanto explicação do porquê a mãe de Jesus não aparecer em certas narrativas,
e se ela fosse chamada de forma diferente, como entende o artigo em
consideração, isso implica em problemas insolúveis.
13.
Associar a Tiago como vendo o “primogênito” de
Maria morrer, não é explicação satisfatória. Essa explicação nega as evidências
acima, e mostra-se estranha. De fato, os evangelistas já mencionam Maria mãe de
Tiago antes da morte de Jesus, na crucificação.
14.
Se
Tiago estivesse diante da cruz, e fosse o discípulo amado, duas coisas tornar-se-iam,
pelo menos, estranhas também. Ele como incrédulo ficou até o fim, acompanhando
Maria. Os outros “irmãos” incrédulos seriam menos corajosos que ele. E no
próprio texto, isso é mais importante, afirma: “Está aí o seu filho”-“Eis aí
sua mãe” (cf. João 19,26-27) a quem JÁ SERIAM filho e mãe, e que A PARTIR
daquele momento é que Maria foi para a casa do filho que SEMPRE teria andado
com ela (seria mais do que uma verdade óbvia em relação ao parentesco), o que
torna a explicação mais improvável ainda. Não somente improvável à luz da
própria passagem, mas não explica, e contradiz o que foi explicado acima. Em
nenhum momento pode ser imaginado que esse Tiago, suposto ser irmão do Senhor e
não apóstolo, incrédulo, não seria um bom filho, que não tivesse cuidados especiais
para com a mãe, já que estaria frequentemente com ela, até ao pé da cruz.
Gledson Meireles.
Nenhum comentário:
Postar um comentário