Debate Lucas vs. 25 católicos
Abaixo há apenas algumas considerações sobre pontos do debate, de forma a deixar o leitor
instigado a estudar mais. Os dois primeiros itens serão tratados mais longamente,
e os últimos terão apenas comentários breves.
O
debate em geral. A postura dos debatedores não
contribuiu muito para o esclarecimento de cada tema. Muitas interrupções.
Os temas debatidos
foram o celibato obrigatório do clero antibíblico, a Bíblia não ensina rezar
para santo, a tradição oral romanista não é confiável, o magistério católico
contradiz a si mesmo e os católicos acrescentaram 7 livros ao Antigo
Testamento.
Os argumentos
apresentados foram bons, e as respostas muitas vezes não tão claras e, às
vezes, a lógica dos argumentos falhava em certos momentos por parte dos
católicos, embora estivessem corretos na doutrina, mostrando pouco treino em
debater essas questões.
As citações bíblicas
não foram muitas, em ambos os lados, mas suficientes para apresentar o tema.
O uso da razão e da lógica
por parte do debatedor protestante foi bem utilizado nas argumentações, mas
falhando nos pontos importantes, como será demonstrado abaixo.
Os fatos históricos
mencionados são importantes para a compreensão dos temas e deveriam ser melhor
aproveitados.
A base bíblica para a
doutrina católica mostrou-se sólida, mas houve mal-entendidos nas
argumentações, não deixando-a clara.
1)
Celibato
obrigatório
Contexto: Tito 1, 6: Devem ser escolhidos entre quem seja
irrepreensível, casado uma só vez, tenha filhos fieis e não acusados de má
conduta ou insubordinação.
Explicação.
Esse é o conselho geral para escolha dos candidatos ao sacerdócio: moral
irrepreensível, casados uma só vez, com filhos fieis e obedientes. Não havia um
número considerável de celibatários naquele tempo. Não houve uma lei para
escolha de homens apenas celibatários para o sacerdócio. Também não era lei que os candidatos fossem casados. Assim, há uma espécie
de costume e não de lei imutável.
Um homem que houvesse
tido vida repreensível, ou casado mais de uma vez, ou tenha tido filhos
acusados de má conduta, ou seja, que causaram escândalo, não seria aceito, pelo motivo que
exclui o mesmo como apto para o sacerdócio. O contexto imediato não proíbe que
sejam escolhidos homens celibatários.
Se a Bíblia dissesse
que deveriam ser escolhidos somente homens entre os celibatários, não haveria
proibição de casamento para os demais homens, mas uma escolha entre aqueles que
já haviam decidido não se casar, como faz a ICAR, no rito latino. E,
automaticamente, os homens casados estariam fora dessa possibilidade de ser
tornarem parte do clero.
São Paulo era
celibatário, sendo assim desde a juventude, ou mesmo se fosse viúvo não há
diferença nesse particular, pois ele claramente defende o celibato como estado
de vida superior ao do matrimônio. Desse modo, o apóstolo não iria ensinar uma lei
contrária àquilo que o mesmo ensinava ser preferencial.
Se se objetar que São
Paulo opinou sobre o celibato voluntário e não obrigatório, ainda assim a
contradição da intepretação protestante continua. Biblicamente, o protestante
tem de reconhecer que sua interpretação coloca uma passagem contra a outra.
Portanto, está refutado.
Demonstração.
Se há uma regra que diz que devem ser escolhidos apenas homens casados, então
São Paulo estaria advogando um estado de vida superior como proibido para o
sacerdócio. O celibatário não poderia ser ministro do evangelho. Assim, a
interpretação protestante está errada.
Exposição.
Com isso, temos que assumindo a realidade geral, onde poderiam haver
celibatários, como São Paulo e outros apóstolos, a regra seria escolher homens
celibatários, de preferência, ou se não houvesse, que fossem moralmente
ilibados, casados uma única vez, e tivessem filhos de conduta moral
irrepreensível. O próprio São Paulo estava na categoria dos celibatários.
A Igreja, com o tempo,
adotou a disciplina mais conveniente e mais de acordo com o espírito do
evangelho. De fato, o celibato é apresentado como preferível ao matrimônio.
Assim, o rito latino exige que os candidatos ao clero seja celibatário, o que é
um estado de vida com fundamento bíblico.
O argumento protestante
era contrário ao celibato em si. Hoje é contrário à obrigação do celibato pela
Igreja, de modo a manter a oposição.
A interpretação de 1
Cor 9, 5 da mulher irmã como esposa cristã encerra a mesma contradição acima.
São Paulo não estava advogando o direito de ter esposa cristã, pois ele outros
apóstolos eram celibatário. Tratava-se de mulheres irmãs, como diz o texto
original e contexto bíblico já apresentado.
Em Mateus 19, 12 Jesus
mostra a superioridade do celibato. Obviamente, não está tratando da obrigação
dos sacerdotes serem celibatários, mas mostra que há aqueles que escolhem esse
modo de vida por causa do Reino dos Céus. Afirmar que a Igreja não pode
escolher somente entre os celibatários para compor o clero é negar a autoridade
da mesma e afirmar algo que vai além da questão, como se o casamento do clero
fosse algo obrigatório, contrariamente ao que já foi explicado. Portanto, a
Igreja usa da sua autoridade para incluir na disciplina essa norma. E não há
objeção contra a autoridade da Igreja em escolher normas santas de vida.
E um argumento quase
foi formado durante o debate, tendo a ver com a imoralidade, que seria
combatida por meio do casamento do clero. Isso hoje é empiricamente provado ser
sem grandes efeitos. A esmagadora maioria dos pastores protestantes são
casados. No entanto, é possível perceber facilmente que a imoralidade não é
rara nesse meio, já que, assim como há entre o clero católicos, muitas notícias
de escândalos são veiculadas em referência aos ministros protestantes. A vida
cristã com suas normas santas é que se mostra eficaz contra tais coisas. O
casamento em si não parece ser uma barreira importante nesse sentido.
Desse modo, a ideia
contrária à obrigação do celibato para os que serão parte do clero não pode
tornar-se motivo de alguém contra a ICAR, como motivo de não ser católico.
Seria um argumento falho demais, uma opinião privada bastante frágil.
Proposições bíblicas:
1. Não
há regra bíblica para o casamento ou não dos ministros do evangelho.
2. Celibato
é superior ao matrimônio.
A Igreja, nesse caso,
escolhe adotar a forma de vida mais conveniente para o clero, e possui esse
direito.
Em determinado momento
o apologista protestante questiona se a igreja tem autoridade para mudar essa
norma. Segundo o que ele pensa, deveria haver liberdade para casar-se ou não. O
argumento do apologista protestante poderia ser formulado da seguinte maneira:
a Bíblia deixa livre ao ministro casar ou não. Essa é a lei. Impor o celibato é
errado.
Esse ponto entra na
questão da autoridade da Igreja que com sabedoria maior adota a norma mais
conveniente para o ofício do clero. Essa norma não fere qualquer lei bíblica.
Pelo contrário, como visto, auxilia na maior conformidade com o estilo de vida
de Jesus.
A citação de História
Eclesiástica III, 30 não ajuda muito nesse sentido, já que contem erro, pois é
dito que São Paulo era casado, não andava com a esposa para facilitar seu
ministério e menciona a sua esposa em suas epístolas. Trata-se de um erro de
interpretação bíblica.
Conclusão.
Se
há uma regra e a Igreja escolhe outra, isso é antibíblico.
Se
não há regra alguma e a Igreja decide formular uma, isso não contraria a Bíblia.
A formulação da regra desse ser bíblica.
É essa a posição da Igreja Católica.
2)
Rezar
para santos
O apologista
protestante tentou refutar a oração aos santos com base em Ap 5, 8 citado pelo
debatedor católico, dizendo que a fumaça subiu, o que significa que não estava
no céu, mas veio da terra. O problema é que o argumento católico fica de pé,
pois a ênfase não é se as orações vieram da terra e subiram até o trono de
Deus, mas que foram intermediadas pelos anciãos. Os anciãos possuem uma função
nessa entrega das orações.
Mas, alguém orou para
os anciãos? O texto não diz. O fato é que os anciãos participam das orações. Se
é assim, é portanto bom pedir aos santos que intercedem por Deus, pois eles
realizam esse ofício.
O tema é intercessão,
ou tem a ver com isso. De fato, o Lucas quer que seja mostrado um texto claro
onde um cristão no NT esteja orando a alguém que já morreu e pedindo que
interceda por Deus. É uma exigência pensada, já que assim, uma vez não havendo
o texto, venceria o debate. O problema é que deve ser tratada a doutrina em
seus fundamentos, com princípios bíblicos, e não apenas textos com certas
exigências.
Alguém poderia pedir um
texto em que o Pai, o Filho e o Espírito Santo estejam sentados em um trono. Ou
em três tronos. Não há tal texto, embora a Bíblia, no Apocalipse, mostre o Pai
e o Filho no trono e os sete espíritos de
Deus diante do trono, em linguagem simbólica para tratar do Pai do Filho e
do Espírito Santo, mostrando a trindade. Assim, não havendo um texto em que mostre o Espírito no trono não é
prova alguma contra a trindade, assim como não é prova alguma contra a prática
de rezar aos santos a falta de uma passagem mostrando alguém na Bíblia orando
diretamente ao santo por intercessão. É necessário entender a doutrina.
Há ou não direito de
dirigir-se aos santos do céu. Biblicamente sim. É preciso entender a doutrina.
Se os anciãos levaram os pedidos da terra até Deus, está implícito que podemos
pedir aos anciãos a sua intercessão. De fato, dessa passagem não se pode dizer
que é proibido pedir aos anciãos, o que seria um non sequitur. E em nenhum texto bíblico há proibição de rezar aos
santos. O que existe são implicações favoráveis, como a citada acima.
O termo santo: se todos
os cristãos são santos, é correto afirmar que os que estão na glória do céu são
santos.
E exigido exemplo de
oração aos santos já falecidos na Bíblia. Não há exemplo direto, mas princípios
que corroboram a prática. E não há qualquer proibição dessa prática.
Deveria haver o ensino
direto para rezar aos santos e um exemplo disso explicitamente no texto
bíblico. Embora no debate tenha sido mostrado, de certa forma, o princípio da
intercessão, parece que não foi suficiente.
Diga-se, de passagem, o
caso de Onesífero não é exemplo de intercessão dos santos no céu, mas de oração
pela alma de um falecido.
1ª razão: As orações são sempre para Deus.
São os exemplos de
orações encontrados na Bíblia. Não se pode deles afirmar que é proibido rezar
pedindo intercessão aos já falecidos.
2ª razão: Estado de inconsciência dos mortos.
Os mortos estão
conscientes. Leia o livro A imortalidade da alma não é lenda.
3) 3) A tradição “romanista” não seria
confiável
Sobre a questão de Petros e Petra o aramaico seria desfeito pelo grego, que diferencia os
termos. Mas isso não procede uma vez que petros
e petra são intercambiáveis no grego
e são o mesmo termo em aramaico. Então, não se pode partir desses termos em
grego para incluir outro sentido além do original e contra o original a não ser
para desenvolver um significado
secundário.
O único modo de saber com
exatidão sobre o que foi pregado por Jesus é a Escritura Sagrada. O conteúdo da
tradição apostólica está em fontes não inspiradas, e somente por meio da
autoridade da Igreja é que se pode chegar à certeza desse depósito, pois a
Igreja tem a promessa de ser guiada à verdade, e poder ler os santos padres e
demais escritores cristãos, como identificar nas fontes litúrgicas,
arqueológicas e nas decisões conciliares e documentos magisteriais dos papas, aquilo
que é tradição apostólica. Isso ocorre no caso da do batismo infantil, da
imaculada conceição e assunção de Maria, por exemplo.
4) 4) O magistério católico se contradiz
Em questões de fé e
moral o magistério não se contradiz. Há mudança na aplicação de princípios em
períodos diferentes da história. Certas mudanças de ensinos da Igreja não são
de fato contradições como os protestantes entendem. Esse ponto é complexo.
5) 5) Os católicos acrescentaram 7 livros ao Antigo Testamento
Essa questão é ampla e
complexa, não será feita considerações aqui. O fato é que o cânon católico que
foi estabelecido em Trento é o mesmo que o dos antigos concílios, incluindo o
de Florença. Contra fatos não há argumentos.
Gledson Meireles.