quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Tiago menor, filho de Alfeu e Maria

Alguns protestantes interpretam erroneamente que a Maria mãe de Tiago seria a mesma mãe de Jesus. O presente artigo refuta essa interpretação. 


O contexto gramatical

É importante muitas vezes explicar o óbvio. Leitores aparentemente competentes não entendem certas coisas no texto que são óbvias para leitores iniciantes. Portanto, vejamos nessas passagens bíblicas o que é dito das mulheres que estavam no calvário onde Cristo foi crucificado e no dia da ressurreição.

 

“54 E o centurião e os que com ele guardavam a Jesus, vendo o terremoto, e as coisas que haviam sucedido, tiveram grande temor, e disseram: Verdadeiramente este era o Filho de Deus.

55 E estavam ali, olhando de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galiléia, para o servir;

56 Entre as quais estavam Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.” (Mateus 27, 54-56)

 

            São citadas três das mulheres que vieram da Galileia para servir Jesus: Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. O contexto prova que essa Maria, mãe de Tiago e de José, não é a mãe de Jesus, pois todo texto se refere à Pessoa de Jesus, e quando cita essa Maria o texto sagrado diz: Maria mãe de Tiago e de José. Ou seja, das mulheres que seguiram Jesus estava Maria mãe de Tiago. Não há outra interpretação, pois é muito óbvia.

 

“39 E o centurião, que estava defronte dele, vendo que assim clamando expirara, disse: Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus.

40 E também ali estavam algumas mulheres, olhando de longe, entre as quais também Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé;

41 As quais também o seguiam, e o serviam, quando estava na Galiléia; e muitas outras, que tinham subido com ele a Jerusalém.”  (Marcos 15, 39-41).

            Novamente, o texto inspirado afirma que entre as mulheres que vieram da Galileia estava Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, que seguia Jesus. É bastante claro, gramaticalmente, que o evangelista é claro ao identificar essas mulheres que foram a Jerusalém para servir Jesus.

            E quanto ao número delas, temos que outra vez são citadas três: Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé.

 

           

23 Tendo, pois, os soldados crucificado a Jesus, tomaram as suas vestes, e fizeram quatro partes, para cada soldado uma parte; e também a túnica. A túnica, porém, tecida toda de alto a baixo, não tinha costura.

24 Disseram, pois, uns aos outros: Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver de quem será. Para que se cumprisse a Escritura que diz: Repartiram entre si as minhas vestes, E sobre a minha vestidura lançaram sortes. Os soldados, pois, fizeram estas coisas.

25 E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena.(João 19, 23-25 (https://www.bibliaonline.com.br/acf/jo/19)).

 

O texto inteiro refere-se à Pessoa de Jesus. E na cena temos identificadas três mulheres: a mãe de Jesus, a irmã de sua mãe, chamada Maria de Clopas, e Maria Madalena.

No texto de São João, vemos que o mesmo utiliza duas identificações para a Maria, mãe de Tiago e de José. De fato, ele escreve: a irmã de sua mãe, Maria mulher de Clopas. Assim, explica que essa Maria tem parentesco com a mãe de Jesus e é mulher de Clopas. Nas outras passagens ela foi identificada pelos filhos: Tiago e José. E o Tiago é identificado como o menor.

“1 E, no fim do sábado, quando já despontava o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro” (Mateus 28, 1).

Como essa Maria já está identificada, ela aparece como a outra Maria, ao lado de Maria Madalena. É muito claro que não se trata da virgem Maria mãe de Jesus.

“1 E, passado o sábado, Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-lo.” (Marcos 16, 1)

O texto de São Marcos tira toda dúvida, pois afirma que essa outra Maria é Maria, mãe de Tiago. Em São Mateus foram citadas duas mulheres, e em São Marcos aparecem três: Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé.

“1 E no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram elas ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado, e algumas outras com elas. 10 E eram Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago, e as outras que com elas estavam, as que diziam estas coisas aos apóstolos” (Lucas 24, 1.10).

São Lucas cita Maria Madalena, Joana, Maria mãe de Tiago e menciona a presença de outras.

Com isso, temos que o número três é o padrão de citação dos evangelhos para as mulheres que estavam no momento da crucificação e que foram ao túmulo de Jesus no domingo.

 Cristo apareceu a Cefas e depois aos doze. Depois a mais de 500 irmãos. Depois a Tiago e por então a todos os apóstolos. Por fim apareceu a São Paulo (1 Cor 15, 5-8).

Quando São Paulo vai a Jerusalém para encontrar com os apóstolos, ele apenas viu São Pedro e São Tiago. Em Atos 9, 27 e Gálatas 1, 18-19 temos a contextualização de que o termo apóstolos se refere aos doze. Assim, mais uma prova de que São Tiago é um dos doze apóstolos, e não um dos apóstolos em sentido geral, como Barnabé, Andrônico e Júnias.

Conclusão: Pela Bíblia é provado que Maria mãe de Tiago é parente da mãe de Jesus e que Tiago é um dos doze apóstolos.


Gledson Meireles.

sábado, 23 de novembro de 2024

Respondendo a um vídeo de um apologista adventista

          O apologista adventista Davi Caldas expôs suas razões para não ser católico romano. Vamos analisá-las detidamente.

 

Parte 1:

1ª razão: Não acreditar que a Igreja Católica Apostólica Romana foi fundada por Jesus Cristo, nem que existia nas primeiras décadas do Cristianismo e nem que existia no primeiro século.

Tem alguma lógica isso? Veremos.

O apologista parece entender que Igreja Católica Romana é somente aquela que está sob a autoridade do papa que reside em Roma. Então, nesse sentido, não poderia existir nas primeiras décadas do Cristianismo. Mas, não poderia existir nem no primeiro século? Isso não é verdade.

Mas também o apologista não acredita no sistema da instituição católica em que o papa é chefe da Igreja.

Pois bem. Ele admite que a Igreja surgiu em Jerusalém, no ano 30 d. C., e durante uns trinta e cinco anos esteve sob a autoridade dos apóstolos, sendo a sede do Cristianismo mundial. De Jerusalém para as igrejas de todo o mundo.

Um exemplo é o Concílio de Jerusalém, onde suas decisões foram levadas a todas as igrejas em todos os lugares.

O que o apologista não entendeu é que isso é o que a Igreja Católica está ensinando. Nesses primeiros anos, de 30 d. C. a 70 d. C., aproximadamente, a sede da Igreja Católica estava em Jerusalém. O nome da Igreja poderia ser Igreja Católica Apostólica Jerusalemita, pois sua sede estava em Jerusalém, onde residiam os apóstolos, Pedro e os onze, como afirma a Bíblia Sagrada.

Então, o governo era central, e não poderia deixar de ser. Os únicos autorizados legitimamente por Jesus Cristo foram os apóstolos. Seu governo central estava ainda na capital, na cidade de Jerusalém.

Todas as demais igrejas estavam sob essa mesma autoridade: a igreja de Corinto, da Galácia, de Antioquia, de Éfeso, do Ponto, da Capadócia, da Ásia, da Bitínia, etc.

Elas podiam ter diferenças de língua, de raça, de costumes, de cultura local, de ênfases particulares, mas nunca na doutrina ensinada pelos apóstolos. São Paulo ensinava a mesma doutrina e costume em todas as Igrejas e exigia obediência. São João, São Pedro, São Tiago e os demais ensinavam a mesma doutrina, de modo inspirado, infalível, de forma que não havia qualquer lugar que ensinasse doutrina e costume diferente daquele conjunto de doutrinas apostólico.

É necessário reconhecer esse fato para não concluir erradamente. E, aliás, não há como negar o que está posto acima. É irrefutável

Então, a Igreja de Roma, ou seja, a igreja local da cidade de Roma era sem significância por algum tempo. Mas depois de 42 d. C., aproximadamente, São Pedro vai para Roma e organiza aquela comunidade, que era composta por maioria judaica.

A autoridade de Roma começa aí, não primeiramente por ser capital do Império Romano, mas porque os apóstolos São Pedro e São Paulo foram para lá e estabeleceram aquela igreja local.

Por volta de 49 d. C. os apóstolos reúnem-se em Jerusalém para o Concílio, como mencionado acima. Até o ano 70 d. C. a sede da Igreja foi Jerusalém. Após esse tempo passou a ser Roma. Os dados históricos mostram isso.

Quando a sede passou para Roma, então podemos falar da Igreja Católica Apostólica Romana, ainda no tempo em que viviam os apóstolos. De fato, foi vontade de Jesus que o evangelho fosse pregado por São Paulo em Roma: Pois assim como você deu testemunho a meu respeito em Jerusalém, é necessário que você testemunhe também em Roma (Atos 23, 11).

Não se trata de outra Igreja, como estamos vendo, mas a mesma, os mesmos apóstolos, as mesmas autoridades, a mesma doutrina. Apenas o local de pregação e logo a sede da Igreja foi mudado, por circunstâncias históricas, para Roma. Pode-se ver que após 70 d. C. foi essa a situação da Igreja Católica, que aos poucos foi sendo mais e mais organizada.

Até agora vemos que a Igreja Católica fundada por Jesus teve sede em Jerusalém e depois em Roma. Isso é indicado já na Bíblia e corroborado pela histórica, sem sombra de dúvida.

É algo que impacta a mente de um protestante, então é melhor não se deter nesses dados tão exatamente, e deixa-los mais frouxos, de modo que fiquem mais palatáveis. É como que uma resistência para não aceitar o óbvio.

1ª fato estabelecido: a Igreja Católica Apostólica Romana foi fundada por Jesus, organizada pelos apóstolos, teve sede central mundial em Jerusalém e depois em Roma, e estabeleceu outras sedes secundárias em outras cidades mais tarde.

Parte 2:

Passemos para mais um fato. A Igreja era judaica, diz o apologista, composta de judeus, e estava em terras judaicas. Era reconhecida como mais uma fação judaica, uma seita do judaísmo.

Isso é verdadeiro, já que muitos viam os cristãos como mais uma seita judaica. No entanto, sabemos que não era isso. De fato, a Igreja Católica fundada por Jesus e entre à autoridade dos apóstolos foi a continuação da antiga fé judaica, em sua forma máxima, aperfeiçoada pelo próprio Cristo e sob a inspiração do Espírito Santo. Desse modo, os judeus que estavam abraçando o Cristianismo continuavam na mesma religião dos patriarcas, agora em sua fase definitiva.

Vamos entender melhor: o mesmo que era ensinado em uma localidade era ensinado em todas, numa unidade perfeita entre os que se mantinham fieis ao ensino apostólico. Não havia tolerância para introdução de outra doutrina, nem mesmo se um apóstolo viesse a ensinar algo diferente ou até um anjo do céu aparecesse pregando outro evangelho. Nesse caso, ambos os pregadores deveria ser considerados anátema.

Os decretos do concílio, a carta conciliar, de Jerusalém, obrigada os cristãos onde quer que estivessem. Então, a Igreja Católica era uma só. Organizada pelos apóstolos, com autoridades instituídas por eles, e pelos que eles ordenavam. Assim foi se desenvolvendo a organização do sistema católico:

1º Apóstolos (Os doze e São Paulo)

2º Bispos (São Timóteo, São Tito, por exemplo)

3º Presbíteros (aqueles que estavam sob a supervisão dos presbíteros epíscopos, chamados mais tarde somente de bispos)

No primeiro plano São Pedro se destacava dos demais apóstolos como chefe.

 

Parte 3:

Prova-se assim que a Igreja era somente uma. Não se trata de mito, mas de uma perspectiva bíblica. As diferenças de língua, costumes, ênfases locais, e outras de pouca importância, sempre existiram, naquele tempo e hoje. O que era fato no primeiro século é que todos estavam unidos na mesma fé dos apóstolos.

A Igreja em Roma, em Corinto, na Galácia, em Colossos e em outros lugares, todas tinham a mesma doutrina e costumes apostólicos. Pode-se dizer que era a mesma instituição. Não havia governo local que tornasse uma igreja autônoma, como se um apóstolo não pudesse ensinar ali ou que um sucessor dos apóstolos não pudesse supervisionar.

De fato, os mesmos evangelhos, as mesmas cartas apostólicas que já estavam sendo escritas circulavam entre as igrejas, levando o mesmo ensino em todos os lugares, assim também os mesmos livros do Antigo Testamento.

Nada de diferenças por motivo de liderança e administração por outras pessoas, pois todos seguiam o modelo apostólico e assim devia ser.

 

 

Parte 4

O apologista chega a mencionar que havia igrejas com “teologia diferente”. É claro que não pode citar um exemplo sequer. Como já provado, a única teologia reconhecida e adotada era a ensinada pelos apóstolos de Jesus Cristo.

“...mesmo se um anjo vier do céu e pregar outro evangelho, que seja maldito para sempre” (Gl 1, 8).

Quem está acompanhando a resposta desde o início não tem como refutar isso.

Assim, quando se diz que as diversas comunidades que iam surgindo em muitos lugares tinham perfis diferentes, isso já está explicado. A Igreja de Roma, de fala grega e costumes latinos, certamente diferencia-se daquela de Jerusalém, que falava aramaico e seguia os costumes orientais judaicos. No entanto, a mesma doutrina pregada pelos apóstolos em Jerusalém foi também pregada em Roma. Isso o leitor não pode deixar de lembrar. É um fato do Novo Testamento.

Dessa forma, quando o autor admite que as igrejas, ou seja, as comunidades locais dos cristãos, era unidas umas às outras, e que tinham conexão, comunhão, unidade, deve também reconhecer o que foi explicado acima, de modo a admitir o que a Bíblia ensina.

Parece mesmo que o autor quer que tenhamos a ideia de que as igrejas locais do Novo Testamento, tratadas acima, eram unidas em torno de doutrinas fundamentais, mas que tinham diferenças teológicas em alguns pontos. Isso é errado. Não há prova dessa afirmação. Portanto, esse ponto quebra todo o raciocínio correto, e os dados históricos que seguem esse modo de pensar muitas vezes contradizem o que o autor quer provar.

O autor protestante lembra o fato de que havia diferenças entre cristãos judeus e cristãos gentílicos. Isso é verdade, e já está dito no livro dos Atos dos Apóstolos. No entanto, em nenhum lugar se trata de doutrina, mas de costumes culturais.

Vejamos: Naqueles dias, como crescesse o número dos discípulos, houve queixas dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas teriam sido negligenciadas na distribuição diária (Atos 6, 1). Veja que se trata de algo prático, na distribuição diária referente às viúvas. Então, para resolver essa situação administrativa surge o cargo dos diáconos, estabelecido pelos apóstolos, sob a inspiração do Espírito Santo, que existe até os dias de hoje na Igreja Católica.

Então, o mesmo ensino era pregado por São Pedro, São Paulo, São Tiago, São Bartolomeu, São Mateus, e São Marcos, São Lucas, e os demais apóstolos. E a administração seguia o modelo que estabeleceram.

Imaginar que igreja petrinas, paulinas, joaninas, tiaguinas, bartolominas, etc., tinha perfins e ênfases diferentes como se fossem modernas denominações protestantes não é apenas um erro cronológico mas teológico. Não se pode aceitar tal noção. Ela não existe.

Seria como dizer que São Paulo ensinava uma doutrina diferente daquela de São Pedro. Assim, ser refutado pelo Novo Testamento que mostra os apóstolos ensinando o mesmo e unidos em concílio com os presbíteros que haviam ordenado, chegando a um consenso, na unidade do Espírito Santo. Então, admitir diferenças culturais, linguísticas, e etc., é uma coisa. Ensinar que havia diferenças teológicas é um erro.

 

Parte 5

As tensões mencionadas acima entre judeus de origem hebraica e judeus de origem helênica não tocou a doutrina. Isso é o que ensina a Bíblia.

O autor protestante fala de divisões na Igreja primitiva. Houve ou não houve? Sim, mas todas foram combatidas, reprovadas e condenadas pela autoridade apostólica. Nenhuma foi acatada, nem com a ideia de “unidade” em alguns pontos, como modernamente aconteceu. Naqueles primeiros dias, como já visto, não havia doutrina tolerada senão aquela ensinada por Cristo e pelos apóstolos.

Talvez as tensões de Romanos 14, 1-6 sejam lembradas como exemplo. Mas isso foi tratado por São Paulo como algo que não poderia dar origem a divisão. Comida, bebida e dias para serem guardados foram costumes que os apóstolos deram liberdade. Assim, é um exemplo que mostra a autoridade apostólica estabelecendo o que fazia parte da diversidade da Igreja. A história da Igreja Católica mostra que isso continua até os dias de hoje.

O apologista reconhece que o apóstolo São Paulo repreende os que introduzem divisões. Isso prova que a unidade era profunda, e somente os apóstolos julgavam aquilo que estava ou não conforme a unidade da Igreja deixada por Cristo e que deveria ser mantida.

Mas, e os partidarismos de Corinto? São Paulo fala que entre os cristãos de Corinto havia ciúmes e contenda. Em 1 Cor 3, 4 escreve: ...um diz: “Eu sou de Paulo” – e outro -: “Eu sou de Apolo” - , não é isso um modo de pensar totalmente humano.

Ou seja, o apóstolo repreendeu e reprovou como humano o pensamento de ciúme e rivalidade e apego aos líderes. De fato, Paulo e Apolo ensinavam o mesmo evangelho. No entanto, uns estavam criando um espírito de divisão ao apegar-se a uma autoridade apenas em detrimento de outras. São Paulo afirma que todos são da comunidade: Paulo, Apolo, Cefas, etc. Assim, ele mostra que todos estão unidos. O erro estava nos cristãos coríntios, e ali estavam sendo corrigidos.

Desse modo, nenhum exemplo de divisão tolerada. O que ocorreu ali é algo que testemunha da fraqueza humana e acontece em toda a história da Igreja Católica. Nenhuma divergência de doutrina, nenhuma diferença teológica, nenhuma denominação nova, nada de divisão em pontos de fé.

 

Parte 6

E depois o apologista menciona o campo das heresias. Pois bem. Haver dentro da Igreja ciúmes e contendas não mostra que há o tipo de divisão que cause o surgimento de outra denominação. Isso deve ter ficado claro.

Agora, quanto às heresias, essas foram mais duramente criticadas e anatematizadas. O texto de Gálatas 1, 8 citado acima já mostra como os apóstolos eram intolerantes com as heresias.

Os judaizantes ensinavam que era necessária a circuncisão. São Paulo afirmou que os que assim circuncidassem estariam separados de Cristo (Gl 5, 4). Usaram da autoridade para desligar quem cresse e agisse contra o ensino apostólico, pronunciando um julgamento contra os hereges.

Os gnósticos, os que negavam a ressureição, os que negavam que Jesus veio na carne, todos foram anatematizados. Nenhuma dessas ideias foi acatadas, nenhuma diferença aceitável. Nenhuma divisão de fato.

 

Parte 7

O apologista adventista reconhece que havia uma só Igreja no tempo dos apóstolos. Ou seja, ele é obrigado é reconhecer o fato. Mas, ele introduz um elemento para que possa continuar com sua tese de aceitação das divisões na Igreja, o que não é aceitável no Novo Testamento, como estamos vendo.

Assim, ele afirma que havia uma só Igreja debaixo dos apóstolos, que administravam a Igreja universal. Vimos que esse é um fato inegável.

No entanto, o apologista afirma que com o tempo isso ficou impossível de manter uma administração muito centralizada. Em outras palavras, parece que os apóstolos deixaram uma organização enquanto viviam, mas com o crescimento da Igreja os sucessores foram “perdendo o controle” e a administração foi ficando cada vez menos centralizada. Errado.

A história eclesiástica mostra que o governo monárquico continuou. Isso está claro na patrística do século segundo, terceiro, quarto, quinto, etc., com um crescendo patente.

E as igrejas que surgiam com a pregação de cristãos em lugares que os apóstolos nem sabiam? Essas igrejas deviam ser instruídas por algum diácono, presbítero ou bispo que os apóstolos deixaram com essa incumbência. Assim, como aconteceu em Atos 8, quando sabiam de uma comunidade que faltava algum sacramento, como o da imposição das mãos, os apóstolos iam até lá, ministravam o sacramento, instruíam a comunidade, fortalecia os cristãos na fé. Obviamente todas as igrejas que surgiam estavam sob a autoridade apostólica.

Em tempo de pouca tecnologia, onde os meios de comunicação eram lentos, tudo muito demorado, como diz o apologista, o  governo da Igreja não foi descentralizando, como afirmou, mas centro cada vez mais centralizado, mais organizado no modelo monárquico, onde os bispos, os presbíteros e os diáconos eram as três ordenas da hierarquia apostólica. Por exemplo,  surgem depois os patriarcados.

No modelo que o apologista propôs, os apóstolos foram o governo mundial da Igreja em seu tempo, sendo depois seguido de uma descentralização rápida e organização de lideranças locais. Isso é falso. Não há esse modelo em nenhum lugar.

A própria admissão de que as cartas dos apóstolos e bispos eram lidas e copiadas e espalhadas por toda parte mostra como eram organizadas essas igrejas, em total unidade de doutrina e moral e obedientes a um conjunto de autoridade apostólica.

 

Parte 8

Mas o apologista tentou uma explicação, infeliz, por sinal, de que as igrejas estavam unidas por algumas doutrinas fundamentais. Perguntamos: “algumas”? Quais? Os apóstolos deixaram a Igreja unidade, e nunca ensinaram que havia um corpo de doutrina fundamental e outras doutrinas secundárias. Assim, afirmar que algumas doutrinas fundamentais que estavam nos escritos apostólicos é algo que foi bastante irrefletido afirmar. Os escritos apostólicos são os livros do Novo Testamento, inspirados, a Palavra de Deus, onde tudo é fundamental, tudo deve ser crido.

O Novo Testamento foi praticamente escrito para fortalecer a fé, confirmar o ensino apostólico, combater heresias, de modo que esse estilo apologético explica o motivo de algumas doutrinas não serem afirmadas claramente, pois não eram motivos de divergência no primeiro século.

 

Parte 9

A Igreja teria perdido parte da sua pureza doutrinal em algum momento, podemos concluir pelo que diz o apologista. A Igreja não seria centralizada, centralizadora, mas seria semelhante aos batistas, de tipo congregacionalista, que obedece as regras de uma convenção, que mantem as igrejas nos princípios batistas.

Assim, as igrejas subapostólicas seriam lideradas por um grupo para mantê-las unidas nos princípios fundamentais? Quais princípios?  Os deixados pelos apóstolos.

Sabemos que esses líderes foram os bispos, os presbíteros e os diáconos. Também foram reunidos sínodos e concílios nos séculos dois e três, e concílios ecumênicos a partir do século quarto. Isso refuta o que o apologista explicou.

Obviamente, montanistas, donatistas, e outros foram excomungados pela Igreja. Desse modo, vemos que a autoridade apostólica estava em pleno vigor, não tolerando o mínimo de divergência em termos de doutrina e moral cristã.

O apologista admite que havia autoridade central na Igreja, mas tenta fazê-la parecer uma convenção batista com igrejas locais autônomas. A história mostra o contrário, que havia o modelo monárquico, cada vez mais eficazmente organizado.

Com a destruição de Jerusalém e a perda de sua importância simbólica surge outra sede de governo da Igreja. O apologista afirma que foi por motivo de ser a capital do Império. Mas isso não é correto. O motivo primordial é aquele da origem apostólica do governo da Igreja de Roma, estabelecido pelos apóstolos Pedro e Paulo. Tal ponto o apologista relegou para segundo plano, o que é um equívoco. Ele parece não conhecer bem essa fase da história.

Claramente o poder do papado foi crescendo ao passar dos anos. No entanto, esse poder crescente é quase exclusivo à esfera temporal, pois a espiritual já está em pleno vigor no primeiro século, com expressões no século, terceiro e etc., aumentando sua expressão ao passo que o poder temporal aumenta.

Depois, afirma que havia igrejas que discordavam de Roma. De fato, mas foram todas consideradas heréticas. Mas ver a autoridade dos primeiros concílios.

 

Parte 10

 

Orígenes afirma que heresias surgem de coisas importantes para a vida humana. Assim, no Cristianismo surgiram várias heresias, mas isso não depõe contra a veracidade do mesmo (cf. Contra Celso, Livro III, 12).

Assim, as heresias sempre surgem da Igreja Católica. Dela saíram gnósticos, judaizantes, montanistas, donatistas, paulicianos, apolinarianos, ebionitas, arianos, nestorianos, monofisitas, valdenses, albigenses, wiclifitas, hussitas, luteranos, presbiterianos, anabatistas, e tantos outros.

Até mesmo essas divisões apontam para a origem santa da Igreja Católica Apostólica Romana. Dela saíram igrejas após o concílio de Calcedônia, e outras, como a Igreja Ortodoxa em 1054. Há também heresias que não aceitaram as decisões de Éfeso em 431. É certo que muitas voltaram à comunhão com a Igreja Católica, daquelas separadas em 451 em Calcedônia, não sendo absorvidas, mas enxertadas novamente na comunhão, sendo que atualmente há vinte e três igrejas católicas sui juris orientais de cinco ritos diferentes.

O papa Vítor, bispo de Roma, já demonstra poder papal ao ameaçar de excomunhão igrejas da Ásia. A divisão nunca foi a norma para a Igreja internamente, mas como um todo o Cristianismo, como todos os grupos humanos, sempre sofreu divisões.

Mas, entre as divisões que surgem a Igreja Católica mantem sua mesma doutrina e estrutura desde o primeiro século, como foi provado acima.

 

 

Parte 11

 

Cristo fundou uma Igreja, visível. Essa instituição prega Sua mensagem de salvação, batiza, instrui na fé, organiza, supervisiona, etc. Assim, essa única Igreja espalhada pelo mundo, como deveria ser, é a Igreja Católica.

Não havia no primeiro século muitas instituições, mas uma só. São Paulo e São Pedro, por exemplo, ensinaram a mesma doutrina. Assim, quando São Pedro agiu de modo não conforme a ética do evangelho ao evitar sentar-se à mesma com os gentios, foi logo admoestado por São Paulo. Havia sido questões de atitudes pessoais quanto a uma determinada questão, e não uma doutrina na qual divergissem.

Quando se diz que não havia uma só igreja há o erro fundamental já apontado acima. Mas vamos exemplificar mais.

Os apóstolos pregavam o evangelho em todas as partes possíveis. Os cristãos judeus começaram a reivindicar certos preceitos para serem observados pelos cristãos vindos do paganismo.

Foi decidido no Concílio de Jerusalem que certas observâncias não eram mais obrigatórias. A decisão do concílio deveria ser acatada por cristãos em toda parte e não somente em Jerusalém. Foi lida a carta conciliar em Antioquia e levada a toda a Igreja. Isso mostra a unidade da Igreja, estando sob uma autoridade comum, sendo uma só instituição. Não havia cristãos que não estivessem obrigados a aceitar a autoridade do concílio.

Por exemplo, se os judaizantes se opuserem à decisão dos apóstolos, seriam considerados hereges e postos fora da comunhão. Nasceria assim uma dissidência sem aprovação de Cristo e Sua Igreja.

Essa mesma Igreja cresceu e tornou-se grande o suficiente para chegar a uma certa hegemonia na Europa Ocidental, como reconhece o apologista. Outras igrejas que se separaram estavam na mesma categoria que os antigos judaizantes, gnósticos, ebionitas e etc., não sendo reconhecidas pela autoridade legítima.

 

Parte 12

Comparemos agora a Igreja Católica Apostólica Romana a uma denominação protestante, e não ao Protestantismo inteiro. Escolhamos a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

A ICAR surge no século primeiro, com Cristo e os apóstolos. A IASD surge de um movimento protestante no século dezenove interpreta a Bíblia de uma forma nova com o intuito de reformar a Igreja e anunciar verdades antes desconhecidas.

Como instituição, a ICAR tem igrejas locais, governadas por presbíteros. No seu conjunto essas igrejas estão sob a supervisão do bispo. As paróquias lideradas pelos padres formam a diocese governada por um só bispo. Todas as dioceses estão unidas ao papa, bispo da cidade de Roma. Se um concílio ocorrer todos os católicos devem aderir à sua decisão, assim como foi no Concílio de Jerusalém.

Quando à IASD, uma conferência adventista não obriga os batistas, nem os congregacionalistas, nem os luteranos, nem os anglicanos, nem os assembleianos, nem os católicos, nem os ortodoxos, etc, e não pode reivindicar autoridade semelhante à do concílio de Jerusalém.

Alguém poderia afirmar que um concílio da ICAR não obriga ortodoxos, luteranos, presbiterianos, anglicanos, batistas, metodistas, adventistas, etc.

No entanto, pode-se dizer que, como a respeito do concílio de Jerusalém, os que não acatam a autoridade dos concílios católicos recusam-se a obedecer à autoridade legítima.

Foi assim que após o concílio de Jerusalém surgem heresias, como também dissidências após os sínodos locais dos séculos posteriores, e principalmente após os Concílios Ecumênicos, como o de Niceia I, de Éfeso, de Calcedônia, de Constantinopla e outros. Sempre haverão dissidências, mas essas não são legitimadas pelo Novo Testamento.

Se Ellen Gould White ficasse obediente à autoridade da Igreja Metodista, não poderia desassociar-se da instituição e não seria co-fundadora da IASD.

Por sua vez, a Igreja Metodista, que surgiu de um movimento de avivamento da Igreja Anglicana, não poderia torna-se denominação se se submetesse à autoridade da Igreja Anglicana.

Assim, se a Igreja Anglicana, ou seja, a Igreja da Inglaterra continuasse sob a autoridade da Igreja Católica, não seria hoje uma denominação protestante.

Parte 13

Mas, o protestante dirá que se submete apenas à Bíblia, e assim está autorizado a opor-se às autoridades eclesiásticas. Porém, essa postura leva colocar a própria interpretação contra a da Igreja, o que incialmente não é legítimo.

Nenhum cristão do primeiro século opunha-se à autoridade apostólica como direito legítimo, assim como não se pode opor-se aos sucessores dos apostólicos que conservam mesma autoridade em matéria de fé e prática.

A Bíblia afirma: “É necessário que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós” (1 Cor 11, 19). A unidade é a norma. A divisão não é norma, mas algo permitido por Deus para exercitar os sinceros. Vemos que desde o princípio os que se mantem sob a autoridade eclesiástica conservam a doutrina e a desenvolvem com princípios bíblicos claros, ao passo que os que se colocam contra as autoridades muitas vezes dão origem a novos movimentos, denominações, heresias, como demonstram os dados da história.

Cristo não afirmou que a unidade da Igreja seria apenas espiritual e invisível, mas mostrou ser a unidade do rebanho visível: Quem vos ouve a mim ouve (Lucas 10, 16). Seguir o modelo apostólico leva a considerar esse princípio e rever as posições.

O apologista afirma que quando se nega doutrinas fundamentais então surge a necessidade de desligamento. Mas, na historia esse desligamento é feito pelas autoridades competentes e não dos membros dissidentes.

Assim, os apóstolos pregavam e exigiam a fé na sua pregação. No decorrer da história foi ocorrendo o contrário. Por exemplo, os donatistas, embora em grande número, foram condenados por sua doutrina no Concílio de Arles, em 314. Deveriam submeter-se, mas conservaram-se fora da comunhão católica, formando uma denominação que durou até o século sétimo. A autoridade legítima não era donatista, mas católica.

 

 

Parte 14

No fim, o apologista afirma que as brigas que os protestantes tinham entre si foram diminuindo e houve amadurecimento, de modo que atualmente há melhor relação entre os protestantes.

Mas, do mesmo modo houve amadurecimento entre os católicos, que consideram os protestantes como irmãos em Cristo e esforçam-se por uma unidade cada vez maior.

O apologista critica a posição católica onde a Bíblia estaria abaixo do magistério e da tradição. Mais adiante ele fala da Bíblia no mesmo patamar da tradição e do magistério, o que geraria distorções doutrinais.

Contudo, de maneira simples é fácil notar que o modelo Bíblia, tradição e magistério gera menos distorções que o Sola Scriptura. É uma refutação radical.

Ainda, as passagens fáceis de serem interpretadas são pontos de unidade entre todos os cristãos. Um exemplo é o Credo Apostólico. No segundo exemplo seriam as doutrinas fundamentais do Protestantismo, que geram a unidade fundamental entre os protestantes.

Em comparação com a ICAR, essas doutrinas uniriam as diversas denominações. Por outro lado, o autor criticou essa comparação da ICAR com o Protestantismo inteiro por serem diferentes categorias.

Quando São Paulo falou do irmão fraco na fé em Romanos 14, a questão envolvia membros da mesma Igreja, sob a autoridade do próprio apóstolo. Não se pode ler isso como se se tratasse, por exemplo, de dizer que uma denominação é vegetariana, como a IASD e outra come carne como a ICAR, pois a autoridade que está afirmando a permissão das duas práticas é a mesma, contrariamente ao que ocorre hoje, onde a autoridade da ICAR é uma e da IASD outra.

O princípio de unidade demonstrado na Igreja Católica desde o início está provado.

Gledson Meireles.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Livro: Muito antes de Lutero - refutação: O recebimento da justiça de Cristo

Refutação: O recebimento da justiça de Cristo

 

As citações em que se vêem os padres da Igreja falando do recebimento da justiça de Cristo pelos crentes, citadas por Busenitz, seriam um prenúncio da doutrina dos Reformadores.

Um exemplo, talvez o mais evidente, segundo o autor reformado, seria da Epístola a Diogneto, na qual ele escreve que: “Pois o que mais conseguiria cobrir nossos pecados exceto sua justiça”, falando da “doce permuta”, onde a “perversidade de muitos fosse oculta em um único justo, e a justiça de um justificasse muitos transgressores”.

Essas palavras estariam “em plena concordância com a visão clássica da Reforma”, mas também estão em total conformidade com a perspectiva Católica ensinada no Concílio de Trento.

E não podia ser diferente, pois a doutrina de Trento é a mesma doutrina da Sagrada Escritura e testemunhada pelos padres da Igreja.

Mas, há um ponto em que devemos nos deter mais. O autor protestante não diz que essa doutrina escrita por esse autor do século segundo é igual à dos reformadores, mas que os “pais prenunciam a doutrina” dos reformadores sobre a justiça imputada de Cristo. Assim, o que Diogneto escreveu está em total concordância com o Concílio de Trento, mas, talvez, apenas seria exemplo do preparo para o desenvolvimento da doutrina dos reformadores.

Jordan Cooper, por sua vez, explica a passagem de Diogneto como se fosse idêntica a dos Reformadores, onde a justiça de Cristo é colocada sobre o pecado mas não infundida, causando transformação interior. Para Cooper, isso seria coerente com a afirmação do autor Diogneto, onde fala da justiça alheia.

Contudo, diferentemente da doutrina dos reformadores, é um fato que Diogneto não escreve que o pecado é apenas coberto sem deixar de existir. Não diz que a justificação é apenas a não imputação do pecado e imputação da justiça. Diz sim, que a perversidade de muitos fica oculta no único justo e a Sua justiça justifica muitos transgressores. Essa linguagem é linguagem católica.

Isso se entende de forma realista, pois o que para Deus é oculto não existe. Se os pecados ficam ocultos para Deus na justificação do pecador, é porque eles são perdoados, destruídos, e a justiça de Cristo cobre o seu lugar, limpando a alma pecadora.

A Bíblia afirma: “Ora, sabemos que o juízo de Deus contra aqueles que fazem tais coisas corresponde à verdade” (Romanos 2, 2). Deus não pode imputar a justiça de Cristo sem que ela seja dada ao pecador, e não imputar o pecado se o mesmo continua no pecador. A imputação da justiça inclui sua infusão na justificação e a não imputação significa ao mesmo tempo o perdão e a destruição do pecado.

Imputar a justiça e não transferi-la realmente ao justificado e não imputar o pecado que está no pecador é mentira. Por outro lado, o juízo de Deus corresponde à verdade. Quando Deus justifica o ímpio, o ímpio é declarado justo, pois, recebe a justiça de Cristo.

Um ponto importante é que o Concílio de Trento não ensina que a justiça do pecador possa justificar. Por isso, o pecador não pode vangloriar-se, pois não é sua própria justiça a base da justificação. Esse ponto é mantido na doutrina dos reformadores protestantes.

Agora com citação de São Basílio (300-379), no século quarto, Busenitz fala da justificação não pela própria justiça, mas o pecador é justificado unicamente pela fé em Cristo.

Obviamente, como diz Michael Haykin, São Basílio se opõe fundamentalmente à noção de que o homem possa salvar-se a si mesmo por meio das boas obras. E afirma que esse texto de São Basílio era um dos citados pelos reformadores para provar que a doutrina reformada não era nova.

Vamos notando aqui como é comprovada a doutrina por meio da patrística. O autor Nathan Busenitz citou a Carta a Diogneto, do século II, e agora cita São Basílio do século IV.

Vemos que isso é o que faz a Igreja Católica. Por exemplo, para corroborar a doutrina da imaculada conceição, que é combatida pelos protestantes, a Igreja cita fontes do século II, III, IV e assim por diante, de modo a formar um corpo de textos para reforçar o argumento.

A próxima citação é de São João Crisóstomo (347-407), do quarto século e início do quinto século. Ele afirma que o propósito da morte de Cristo foi fazer o bem em nós...a fim de nos tornar justos. Os pecados não foram somente abolidos na cruz mas a justiça de Cristo foi concedida, diz São João Crisóstomo.´

Ainda, Cristo se fez pecador para tornar justos os pecadores. Obviamente não se trata de tornar-se pecador ontologicamente, mas ser vítima do pecado, sem pecado, inocentemente, para que os pecadores, de fato, se tornem realmente justos.

E São João Crisóstomo especifica a palavra da Escritura, afirmando que São Paulo não escreveu que Jesus se tornou pecador, mas “pecado” para que fôssemos feitos “justiça”.

Cristo que não pecou e não conheceu pecado, Se tornou pecado, no sentido de vítima inocente oferecida em sacrifício, para que o pecador que não operou para a justiça e não conheceu a justiça, tenha a justiça d de Cristo.

E afirma que a justificação não é por obras, pois não se pode encontrar nenhuma mancha, “mas pela graça, caso em que todos os pecados são destruídos”. É claro que se os pecados são destruídos eles deixam de existir. É a mesma doutrina do Concílio de Trento.

Mas Busenitz entende bem a permuta, onde Cristo assume a culpa do pecador e a Sua justiça é dada ao pecador. Deus tratou a Cristo “como uma oferta pelo pecado sobre a cruz”, como explicado acima. E afirma que os crentes não são justos por hábito, e conclui o autor protestante: “mas Deus, por causa de Cristo, os trata como qualitativamente justos (em termos de sua condição perante ele”. Esse ponto está errado.

Como afirmado antes, Deus não trata os pecadores justificados “como qualitativamente justos”, mas infunde a justiça de Cristo para que sejam de fato justos, não com justiça própria, mas com a de Cristo. E a partir daí construam a justiça própria com as boas obras que Deus preparou.

São João Crisóstomo  escreve: “fomos, de uma vez por todas, libertos da punição, e despidos de toda iniquidade, e fomos também renascidos do alto, e ressuscitados, tendo sepultado o velho homem, e fomos redimidos, santificados, levados à adoção, justificados, e feitos irmãos do Filho Unigênito, e herdeiros do mesmo corpo juntamente com ele, e reconhecidos como sua carne, até mesmo como um corpo com a cabeça, fomos unidos a ele!”

Note o leitor que São João Crisóstomo fala da libertação da punição, do perdão, da regeneração, da ressurreição espiritual, da redenção, da santificação, da adoção, da justificação, tudo como sendo o mesmo momento. O mesmo que é ensinado no Concílio de Trento, e diferentemente do que é ensinado pelos Reformadores.

A imensurável justiça de Cristo é a base pela qual Deus declara justo o pecador, conforme 2 Coríntios 5, 21, porque Deus dá ao pecador a justiça de Cristo e não apenas  imputa a justiça como sendo o pecador, como já explicado acima. Assim, o entendimento protestante da imputação apenas é um erro grave.

O Cânon 10 do Concílio de Trento ensina: “Se alguém disser que os homens são justos sem a justiça de Cristo, pela qual Ele mereceu para nós sermos justificados, ou que é por aquela justiça mesma que eles são formalmente justos, que seja anátema.” Então, a justiça humana não pode justificar.

Assim, ensina o Cânon 11: “Se alguém disser que os homens são justificados ou pela imputação somente da justiça de Cristo ou pela remissão dos pecados somente à exclusão da graça e da caridade que é derramada nos seus corações pelo Espírito Santo, e que é inerente neles, ou mesmo que a graça pela qual somos justificados é somente o favor de Deus, que seja anátema”.

Portanto, é preciso que o cristão católico creia que a justificação acontece quando Deus declara justo o pecador, tornando-o justo verdadeiramente, e perdoando seus pecados, ao mesmo tempo em que derramada o amor nos corações perdoados pela ação do Espírito Santo. É como algo forense e transformador no interior do ímpio. limpando o seu pecado e santificando-o.

Assim, o que escreve São João Crisóstomo está de acordo com o Concílio de Trento e tem essa oposição à doutrina dos reformadores.

Continua citando São João Crisóstomo, quando diz que fomos comprados e adornados pelo sangue de Cristo e nos igualamos a anjos e arcanjos. Isso significa o que está acima explicado no Concílio de Trento, que na justificação há também a ação interna do Espírito Santo. De fato, continua São João Crisóstomo, ensinando que os redimidos estão revestidos do próprio Rei.

Não se trata apenas de tirar a capa do pecado e por o manto de Cristo, mas recebê-lo por ter sido declarado justo e tornado justo nessa justiça.

A citação de São João Crisóstomo, citada em seguida, corrobora essa leitura: “Aqueles que, por sua fé em Cristo, haviam abandonado o fardo de seus pecados como uma velha capa...”. Se os pecados são abandonados, ficaram para trás, como acontece ao deixar uma velha capa. O homem assim perdoado não está com seus antigos pecados por baixo da capa, mas deixou-os naquela capa velha deixada. O fardo dos pecados é equiparado à capa que é tirada.

Assim, ele fala da “luz da justificação”, que ilumina a alma, e não apenas que cobre o pecado.

Essa linguagem não “está de acordo com a ênfase da Reforma na natureza extrínseca da justiça imputada de Cristo, com a qual o crente é revestido”.

Nathan Busenitz afirma que o corpus patrístico prenuncia distinções importantes da doutrina reformada. Uma dela é a necessidade da justiça extrínseca, a qual vem de Deus. Mas isso é o mesmo que ensina o Concílio de Trento. Não é a justiça própria que justifica, é necessária uma justiça extrínseca. Sem a justiça de Cristo não há justificação, e quem ensinar isso seja anátema, declara o concílio.

A imputação do pecado do crente a Cristo é algo pacífico, pois Jesus se fez pecado por nós, e a imputação da justiça alheia ao crente é também aceitável, contanto que a justiça seja derramada no interior do justificado.

A continuidade que há entre os pais da Igreja e o Concílio de Trento é clara. Quanto às ênfases dos Reformadores, nada é encontrado no corpus patrístico.

E o autor protestante tenta através da investigação histórica uma aproximação entre o entendimento de Santo Agostinho e o dos reformadores, pois entende que está em conformidade.

Em nota há uma citação de São Cirilo de Jerusalém (313-386) que mostra que a justiça que pode ser acumulada por uma vida de boas obras é dada por Cristo instantaneamente. Mas isso corrobora a leitura católica de sempre.

A justiça através das boas obras, na graça de Deus, que pode ser alcançada por muitos anos é recebida gratuitamente e imediatamente na justificação: “Para os justos, foram muitos anos sendo aprazíveis a Deus; mas o que lograram alcançar após muitos anos de bem fazer, esse Jesus agora lhes concede em uma hora apenas. (Homilia sobre a Humildade, 20, 3)”

Dificilmente Lutero escreveria algo assim, pois ensinava que as obras antes da justificação são pecaminosas e mesmo as boas obras na graça não contam em nada para a salvação. Ao passo que São Cirilo fala naturalmente das obras dos justos, alcançadas aos poucos durante a vida, e as compara com a obra imensa concluída por Cristo que pode ser recebida pela fé.

Gledson Meireles.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Livro: Glórias de Maria, Santo Afonso Ligório: o amor de Maria por nós

 

A grandeza do amor de uma mãe. O amor de mãe é um impulso necessário de sua natureza, afirma Santo Afonso. Ele cita Isaías 49, 15.

Depois, citando Eclo 24, 24, ensina que Maria é nossa mãe por amor e não pela carne. “Ela nos ama tão grandemente porque ela ama a Deus tão grandemente”. Essa é a beleza da mariologia. O cristão deve guardar essas palavras com santa devoção. Essa é a razão do seu amor.

O amor de Maria por Deus é o maior. Assim, ninguém nos ama mais do que ela, afirma Santo Afonso. Obviamente não se compara ao amor de Deus por nós. Mas falando das criaturas, a que nos ama mais é a virgem Maria nossa mãe.

Deus nos deu Seu filho único por amor. São Boaventura afirma que Maria nos deu seu filho único por amor. Não se trata nunca de igualar Maria a Deus, nem de colocar seu amor no mesmo patamar do amor de Deus, mas de apresentar seu amor por nós que está imergido no amor de Deus.

A coragem de Maria é superior àquela de Abraão, que a levaria mesmo a sacrificar Jesus por nós. São palavras fortíssimas para engrandecer essas virtudes marianas, mas que estão de acordo com a doutrina bíblica.

Santo Afonso fornece um exemplo de poderosa oração: “Muitos corretamente rezam, Senhor, concede-me as graças que Maria pede por me”, pois os desejos de Maria são melhores que os nossos.

Santo Anselmo pede a Jesus e a Maria a graça para amá-los. Assim, a graça vem de Cristo, por intercessão de Maria. Isso está no mesmo modelo do fato de Caná da Galileia, onde Jesus fez o milagre a pedido de Maria.

Eis os exemplos bíblicos que Santo Afonso procura para mostrar as glória de mãe de Jesus, com tantas citações dos santos e exemplos da tradição.

Gledson Meireles.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Livro: Glórias de Maria, de Santo Afonso Ligório

 Continuando a comentar o livro de Santo Afonso Ligório, Glórias de Maria.

Maria é nossa mãe. Santo Afonso afirma que Maria é mãe de nossas almas e de nossa salvação. No mesmo instante continua afirmando que Jesus veio para restaurar a vida da graça pela Sua cruz. Ou seja, Jesus é o Salvador, e é Ele quem restaura a vida da graça pelo seu sacrifício na cruz. Então, já de início, pode-se pensar que chamar Maria de mãe da salvação tem um sentido diferente.

Isso não significa que o protestante irá reconhecer prontamente essa doutrina, mas que deve estar consciente que, para santo Afonso, a frase “Maria é mãe da salvação” não significa que ela é salvadora ou que tenham dado ao sacrifício de Cristo algo que estivesse falando.

Depois santo Afonso afirma: “Por nos reconciliar, Ele tornou-se Pai de nossas almas”, falando de Jesus, e cita logo em seguida Isaías 9, 6. E conclui: Se Jesus é o Pai das nossas almas, então Maria é a mãe. Isso é o modo de desenvolver a mariologia, muito bíblico e belo. É um verdadeiro devocional cristão católico.

E explica por meio das palavras de São Bernardino que quando Maria deu consentimento para ser a mãe de Jesus ela pediu por nossa salvação, por esse consentimento, e nos carregou no seu ventre. Dessa forma, Santo Afonso como que diz que fomos carregados no ventre de Maria na Pessoa de Cristo, o que é magnificamente bíblico e conforme a tradição da Igreja. E como Maria não teve outros filhos na carne, ela tem os filhos espirituais.

E citando Santo Agostinho, que viveu no século entre quarto e quinto, Maria se tornou nossa mãe também na cruz: Por cooperar na cruz no nascimento dos fieis para a vida da graça, ela se tornou mãe de todos os membros de Cristo”

A citação do Cântico dos Cânticos é muito oportuna: “puseram-me a guardar as vinhas, mas não guardei a minha própria vinha”, afirmando que o sentido dessa passagem é que Maria para salvar muitas almas expôs seu próprio filho à morte. É um modo de associar a virgem Maria ao sacrifício da cruz, pela fé, não como alguém que oferece algo ao infinito sacrifício de Jesus.

Falando da profecia de Simeão, onde uma lança traspassará a alma de Maria, diz Santo Afonso que a lança que traspassou o lado de Jesus também traspassou a alma de Maria. Somos filhos das dores de Maria. Isso nos coloca, como Igreja, associados com Maria no sacrifício nossa mãe de Jesus.

E quanto ao amor de Maria, São Boaventura afirma que o amor que ela teve por Deus Pai e por Deus Filho fez com que ela consentisse na morte do filho para que pudéssemos ser salvos. Mostra a fé de Maria, na sua profundidade, que vendo Deus amando o mundo e Jesus se entregando por amor dos pecadores, ela por amor a Deus consentiu na morte salvífica do próprio filho. Maneira bela de ensinar essa verdade do evangelho.

Mais à frente afirma que Jesus preparou Maria para cooperar na nossa salvação e se tornar Mãe das almas. Cita o fato de Jesus tê-la entregue como mãe de São João apóstolo, entregando Maria a todos os que são Seus discípulos. Como discípulos de Jesus somos filhos de Maria. Não é natural que um cristão não queira ser filho de Maria.

No Salmo 86, 16 Santo Afonso afirma que Davi se pôs sob Maria, antes que ela nascesse, em profecia: “salvai o filho de vossa escrava”.

Maria é nosso refúgio. Santo Afonso escreve: “Bendito seja Deus  que nos deu Maria como seguro refúgio em todos os perigos da vida”. É uma prova de que o sentido de nossa veneração a Maria está dentro do plano de Deus e serve para Sua maior glória, e não uma glória centrada em Maria. Por glorificar Maria o cristão está vivendo a graça dada por Deus para glorifica-Lo ainda mais. Esse é o sentido.

E na oração afirma: Depois de Deus vós sereis meu refúgio. Isso mostra a máxima veneração a Nossa Senhora, acima dos demais santos e anjos, como é costume na Igreja Católica desde sempre, para com a mãe de Jesus.

Dessa forma, trata-se de uma mariologia bastante bíblica e conforme a doutrina do evangelho, que coloca-nos em Cristo e por Ele, o Redentor e Salvador, como filhos de Sua mãe, associados a ela, como salvos por Cristo. Assim como ela associou-se na redenção, temos também que, salvos por Cristo, tem parte na redenção e salvação dos pecadores, quando anunciamos o evangelho, quando rezamos para conversão das almas, quando oferecemos a Deus sacrifícios para clamar por perdão dos pecados. É um belo devocional.

Gledson Meireles.