domingo, 25 de janeiro de 2026

Livro: Revelação de Jesus Cristo: comentário sobre o livro da revelação, de Ranko Stefanovic

Apocalipse 4: A visão do trono celestial

O texto abaixo é um breve estudo com base no Comentário ao Apocalipse, de Carlos Nougué, e também no comentário Revelação de Jesus Cristo, do teólogo adventista Ranko Stefanovic, para um diálogo com os irmãos adventistas do sétimo dia.

O cristão adventista que esteja estudando a doutrina católica encontrará um material importante aqui.

Versículo 1: O comentador cristão católico lembra que alguns supõem ser esse verso uma alusão a 1 Ts 4, 14-17. Podemos assim dizer que seria o arrebatamento da Igreja. Mas, como Ezequiel 1, 1, que escreve: “e eis que os céus se abriram e tive visões de Deus”, as portas dos céus se abrem. Então, trata-se apenas de mais uma visão, em comparação a Ap 1, 9. A porta aberta no céu não necessariamente indica que o arrebatamento do apóstolo signifique o arrebatamento da Igreja, mas que o apóstolo subiu ao céu para ter as visões.

Ranko Stefanovic, comentador adventista, explica que a porta aberta é a do templo celestial. O que concorda com o comentário cristão católico.

Versículo 2: A visão de Deus sem nomeação e em sua essência invisível simbolizada: Alguém sentado. É o Senhor Deus. Na interpretação católica antiga, na Idade Média, houve quem entendesse tratar-se de Cristo sentado aqui, mas isso não é correto, visto que Cristo ainda não entrou em cena nessa visão.

Versículo 3: Deus é apresentado com aparência de pedras preciosas, de jaspe e sardônica. A  Bíblia de Jerusalém traduz jaspe e cornalina. Deus é a luz das criaturas que já habitam ou ainda habitarão no céu, diz o comentador. O texto de Ez 18, 13 e Ap 21 são lembrados. O jaspe pode ser da cor verdade, conforme diz André de Cesareia, e o arco-íris, continua o comentador, simboliza em Gênesis e Ezequiel a misericórdia, é aqui apresentado com a tonalidade verde de esmeralda.

Versículo 4: há muitas interpretações católicas sobre a identidade dos 24 anciãos. O comentador expõe a sua opinião, de que se trata de anjos. Muitos dos antigos comentadores afirmam que os 24 anciões simbolizam todos os eleitos. Ou seriam os 12 patriarcas e os 12 apóstolos. Allo afirma que se trata do senado de Deus, como aparece em Isaías e Daniel, e seriam anjos. Os anciãos são entendidos como anjos, pois em 7, 13 aparecem distintos daqueles que chegam da grande tribulação vestidos de branco. Então seriam os anjos reitores do tempo, da história humana e das revoluções do universo. Mas, aqui creio que podemos continuar com a intepretação antiga em bem fundada de que se trata de um símbolos dos santos eleitos do AT e NT no céu.

Para os adventistas os 24 anciãos representam a humanidade redimida e glorificada. Mas, pergunta-se: como foram aos céus? Isso porque os adventistas não creem na imortalidade da alma, e então para ir ao céu haveria necessidade da ressurreição. No entanto, a ressurreição ainda não ocorreu. Assim, pensam que os santos que foram ressuscitados em Mt 27, 52 teriam ido com Jesus ao céu. E para isso também cita o texto de Efésios 4, 8, onde Jesus tendo subido às alturas levou cativo o cativeiro.

Primeiro, é verdade que na ascensão Jesus levou os santos ao céu.

Segundo, Jesus subiu aos céus em Atos 1, 9, e ninguém foi visto subindo com Ele. Assim, os que subiram com Jesus foram invisivelmente.

Terceiro, antes da ressurreição de Jesus Cristo não há santos glorificados. Se os santos que foram ressuscitados e vistos foram ressuscitados glorificados, estariam glorificados antes de Jesus ressuscitar, o que não é exato. Assim, esses santos ressuscitaram assim como Lázaro, em João 11, em uma ressurreição para a vida física. Eles não subiram ressuscitados ao céu. Subiram em espírito.

Quarto, o texto de Efésios 4, 8 diz respeito aos santos que estavam cativos na morte, santos do Antigo Testamento e todos os que morrem até a ressurreição de Cristo, os quais Jesus levou ao céu em suas almas. Desse modo, eles podem estar no céu na glória em suas almas imortais.

Entretanto, diz Efésios 2, 6: e com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, em Cristo Jesus. Em vida, estamos espiritualmente assentados em Cristo nos céu. Após a morte, os salvos estão com Cristo (cf. Fl 1, 23). Dessa forma, os vinte e quatro anciãos são pessoas redimidas, mas ainda não ressuscitadas, e estão espiritualmente, nas suas almas, no céu.

Veja que Efésios 4, 9 afirma que Cristo desceu às profundezas da terra e depois subiu: Que significa “subiu”, senão que ele também desceu às profundezas da terra?. Isso significa que é após a ressurreição que Jesus levou os cativos salvos, todos eles, e não somente um grupo de cativos. O texto é geral.

Caso contrário, os ressuscitados deveriam ficar à espera de Cristo por três diz para depois subir. Estariam ressuscitados glorificados antes do redentor. E seriam um grupo apenas, e não todos os salvos. Por isso, essa intepretação adventista não tem respaldo bíblico.

Assim, crendo na alma imortal, todos os redimidos que estavam na prisão da morte foram levados ao céu quando Cristo subiu para o céu.

Versículo 5: os relâmpagos, vozes e trovões figuram o poder de Deus. As sete lâmpadas, que são os sete espíritos, já foram entendidos, pelos antigos, como anjos de Deus. Mas a interpretação comum na Igreja Católica é de que se trata do Espírito Santo, como está também em Ap 1, 4. O comentador afirma que mesmo André de Cesareia, que entendia tratar-se de anjos, afirmou que poderia não o ser, e assim seriam as energias do Espírito vivificante. Temos que se trata realmente do Santo Espírito de Deus.

Versículo 6: o mar de vidro é a infinitude do reino espiritual e a imensidão do universo material, afirma o comentador. Comentadores medievais virão a imensidão dos santos nesse símbolo. Poderiam ser também símbolos de qualidades de Cristo, como da realeza, do sacerdócio, da humanidade e da obra de dispensação do Espírito vivificante. Os quatro animais cheios de olhos simbolizam anjos que governam, sob Deus, a criação.

Mas, outras intepretações comuns, como dos quatro animais simbolizando os quatro evangelistas ou os quatro evangelhos, são plausíveis. Nougué afirma que isso “é difícil de aceitar”, visto que é incomum um superior figurar um inferior. Mas, se os evangelhos são tidos em sua acepção real de Palavra de Deus, são assim superiores aos anjos. Portanto, o símbolo tradicional referente aos evangelhos pode manter-se razoavelmente. Também, ainda assim, podem simbolizar o conjunto dos pregadores do Verbo, referida por Allo como a intepretação dos comentadores que estenderam a interpretação dos 4 evangelhos. É importante notar que essas noções lançaram luz sobre o que pensam os cristãos adventistas sobre certas passagens do Apocalipse.

Versículo 7:  os quatro animais são anjos.

Versículo 8: Santo, Santo, Santo é parte da liturgia da missa.

Versículo 9-11: os anciãos falam em nome dos homens, segundo o comentador. Mas, como vimos acima, os anciãos são santos redimidos, e por isso falam da própria salvação. Os santos que morreram já estão no céu.

A respeito do templo celeste e dos templos terrestres. O sacrifício cruento antigo é figura do sacrifício incruento cristão, diariamente celebrado, onde Cristo está presente pela transubstanciação.

O templo antigo é figura do templo novo. A liturgia no templo celestial é o protótipo para a liturgia da missa, que aos domingos principalmente celebra o sacrifício de Cristo até que Ele venha. Nas igrejas há o altar, sob o altar há relíquias muitas vezes, lembrando as almas debaixo no altar no Apocalipse. Sobre o altar há Cristo nas espécies pão e vinho, o Cordeiro imolador, o mediador, e diante do altar há incenso, também usado na liturgia em dias especiais, e prostrações e cânticos. Interessante essas palavras citadas de Bacuez, inclusive quando diz que na liturgia tem também o livre que não é dado a todos ler e compreender. Certamente fala da Escritura, onde a leitura não era comum a todos e a compreensão deve ser conforme o magistério da Igreja. De qualquer forma, mostra a origem bíblica da liturgia cristão católica.

Fonte: NOUGUÉ, Carlos, Comentário ao Apocalipse, Edições Santo Tomás, 2025.

STEFANOVIC, Ranko. Revelation of Jesus Christ, Andrews University Press, Michigan, 2002.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Refutando argumentos contra o Cristianismo, formulados pelo filósofo Matheus Benites

Vamos refletir.

No presente estudo será demonstrada a veracidade do Cristianismo.  As ferramentas usadas serão apenas a razão e a lógica. A razão é a capacidade humana de pensar, com leis intrínsecas que mostram o funcionamento normal do intelecto. Pela razão compreendemos e julgamos proposições. Na lógica operamos na razão com um sistema de regras para construir pensamentos válidos.

Pois bem. O Cristianismo é uma religião. Sendo assim, é algo espiritual, revelado por Deus, superando a razão em suas proposições e ensinos. No entanto, a investigação que será feita partirá da razão, para fundamentar a religião cristã, não apelando para a revelação divina, embora os temas estejam interligados.

Olhando para a realidade humana, vemos que todos os povos são naturalmente religiosos. Há religiões de todas as espécies, mas o fato comum é que o homem tende a conceber o conceito de espiritualidade. É um fato que a religião é parte da vida humana.

Sendo assim, é uma conclusão pobre afirmar que a religião é apenas fruto da mente humana, uma criação como a arte, a cultura e a sociedade, como se nela não houvesse algo sobrenatural. A razão indica que o fenômeno religioso está intrinsecamente radicado em ditames raciocinais. Os ensinamentos da religião em si ou de cada religião está em outro escopo a ser considerado. Basicamente temos que a religião é algo compatível com a racionalidade. E mais, ela segue a razão embora seu desenvolvimento seja a partir daí independente, no campo da fé. Agora fazemos apenas uma investigação racional.

O filósofo ateus Matheus Benites se pôs a analisar o Cristianismo em cinco proposições cristãs essenciais, a saber:

Deus é trino, maximamente amoroso, onipotente, onisciente e autoexistente.

Jesus é a primeira pessoa da trindade, nasceu de uma mãe virgem, morreu e ressuscitou pelos nossos pecados, prometendo uma segunda vinda.

O pecado original e a queda do homem.

A revelação pelas Sagradas Escrituras, a Bíblia é a Palavra revelada, seus escritos são inspirados.

Os milagres, são intervenções de Deus no curso da história.

Essas ideias são sujeitas a serem verdadeiras ou falsas assim como as ideias filosóficas. Então, ainda que estejam no campo da fé as proposições doutrinais, elas são compreensíveis pela mente humana, e a razão pode analisá-las. Como dito acima, o mundo está cheio de religiões, e em cada uma delas há um corpo doutrinal. O cristianismo é uma das maiores religiões do mundo, e por suas proposições sabemos se tratar da verdadeira religião, por sua verdade e conformidade com a realidade. É o que será provado.

A razão é a ferramenta básica para buscar a verdade. Encontramos Deus ao verificar suas obras na natureza, às quais falam à inteligência (cf. Rm 1,19). Assim, a fé está em concordância e relação íntima com a razão. A partir da razão alcançamos coisas espirituais. A fé é o avanço nessas coisas. A razão é o toque nesse sistema espiritual, a chegada aos umbrais da fé. Desse modo, o filósofo sem a fé terá apenas a razão para fazer esse escrutínio. Mas isso é o suficiente para levá-lo a progredir em sua natureza humana que exige mais que a pura razão e suas proposições para uma vida integral.

Deus é trino, maximamente amoroso, onipotente, onisciente e autoexistente.

Quando analisamos essa proposição é praticamente impossível imaginar um Deus em três pessoas. Não é irracional, mas escondido da razão. É compreensível, mas não claro. Há um Deus eterno e todo-poderoso, mas nesse Deus, a sua natureza, não é cabalmente revelada à luz da razão pura.

Vendo a Sagrada Escritura apresentado Jesus, e o Cristianismo propondo que Ele é Deus, em Sua segunda Pessoa, temos algo adicional ao conhecimento racional. Existe um Deus, mas Ele não é uma pessoa somente, mas três.

Em Mateus 27, 46 lemos Jesus gritando: Meus Deus, meus Deus, por que me abandonaste? Ali temos que Jesus fala com Deus. Então, à primeira vista, é lógico que Ele não é a pessoa de Deus com quem Ele está falando. Ele é outro. Essa constatação está de acordo com a proposição cristã de que Deus tem pessoas em si. Jesus é a segunda. Então o “meu Deus” de Jesus é referente ao Pai, como Ele o diz: Eu e o Pai somos um (João 10, 30). Essa constatação mostra que a ideia cristã concorda com essa cena de Jesus falando com Deus e mostrando sua intimidade com Ele.

Assim, Jesus é de fato outro, explicado na teologia como Pessoa, mas é ao mesmo tempo um como o Pai, formando dois em estreitíssima relação.

A razão indica a existência de Deus e exige que haja um só Deus todo-poderoso, no final das contas. E a fé cristã advoga essa unidade de Deus, afirmando que realmente se trata de um só, mas em sua doutrina revela que em Deus há uma sociedade de pessoas. Aliás, vem daí o senso social do homem, inato e natural, mas com essa explicação da fé que segue a reta razão.

Eis que olhando para o Antigo Testamento e o comparando ao Novo Testamento há percepção de uma diferente atitude de Deus em relação ao povo. Como o cristão dissidente Marcião afirmava que havia dois deuses, e que o Deus do Antigo Testamento era mau. Essa divergência cristã é aceita por muitos, inclusive é utilizada pelos ateus para negar a existência de Deus, pois aquele Deus parece não ter a bondade exigida pela natureza de Deus como Sumo bem.

No entanto, o próprio povo judeu, que serve a Deus no Antigo Testamento, entende, percebe, e aceita a bondade de Deus. Por exemplo, Salmos 33, 5: Ele ama a justiça e o juízo, a terra está cheia da bondade do Senhor. Portanto, ver em certos atos de Deus uma maldade é uma opinião, uma perspectiva, uma parcialidade. Deus é muito mais que certas atitudes aparentemente más. A água é H2O, quimicamente, e só isso? Não, a água é o berço da vida, um recurso fundamental para a manutenção da vida, um elemento sagrado nas religiões. A mesma coisa vista sob diferentes pontos de vista. O cientista observando a matéria dos elementos H2O, as religiões lendo e ensinamento a importância da água para a santificação, usando sua simbologia para avivar a fé, a medicina tratando da água para mostrar sua importância para a manutenção da saúde. Não se deve parar na análise científica, assim como não se pode ficar apenas em sua simbologia religiosa, nem restringir o conhecimento apenas do ponto de vista medicinal, mas tudo enriquece o conhecimento.

Pois bem. É claro que o povo de Deus o via como Deus bom. Marcião teve outra opinião. Os ateus seguem muito de Marcião.

Deus deu mandamentos para apedrejar homossexuais, os que não guardavam o sábado, os filhos desobedientes, etc., não condenou a escravidão e a tolerou e endossou em casos de escravos estrangeiros e mandou cometer genocídios contra outros povos. Essas passagens terríveis são usadas contra a revelação, contra o Cristianismo.

Em primeiro lugar, elas atestam a condição sócio-cultural-religiosa na antiguidade. Israel era o povo menos dado a tais excessos, embora os tenha cometido. É um ponto a favor da grandeza de Deus no meio daquele povo, tão ínfimo e tão desenvolvido moralmente. É patente o crescimento moral do povo do Antigo Testamento. Essa constatação condiz com a ideia de que a relação espiritual com o Deus bom santifica e faz bem.

Mas, por que Deus não exprimiu-se de modo a satisfazer as exigências morais mais elevadas e desenvolvidas como, por exemplo, a que temos no século 21? Por que não encontrou outros meios para libertar o povo a não ser mandando guerrear e cometer atrocidades inimagináveis?

De fato, são coisas que causam aversão, repulsa e repugnação. Mas, vemos Deus odiar o divórcio, em passagem explícita, mas ao mesmo tempo tolerou e endossou o divórcio por muito tempo na antiga lei. Ele levou o povo por uma pedagogia sábia, embora não muitas vezes claras e fáceis de explicar para a mente moderna. Isso significa que as atrocidades ali vistas no Antigo Testamento também não estão relacionadas à vontade de Deus nem contrariam sua bondade permanente, mas foram males menores permitidos para atingir determinados fins. Assim, as pragas do Egito sobre uma sociedade opressora foi o único meio para a libertação dos hebreus escravizados. Não tinham exército, foram auxiliados milagrosamente, fugiram do país. Tudo muito bem compreensível.

Do ponto de vista puramente racional, vemos um povo de fé, na prática da sua religião, sendo ajudando pelo Deus a quem serve, usando de meios possíveis e de intervenções milagrosas para atingir o objetivo, que é sempre o bem. A libertação, a formação de uma sociedade feliz que serve a Deus. É o que diz o texto da Escritura.

Mas a hostilidade do mundo, os pecados da humanidade, as traições, os assassinatos, o mal natural, como enchentes, incêndios, rios, tempestades, etc., não seriam melhor explicadas pelo naturalismo que concebe forças e causas puramente impessoais? Não.

Em primeiro lugar essa é a constatação empírica e o entendimento racional da situação do mundo que está inteiramente conforme a fé revelada. Nenhuma dessas coisas depõem contra a existência de Deus e contra a veracidade da religião cristã. Pelo contrário, as causas naturais existem devido a uma fonte todo poderosa e funcionam segundo leis bastante rígidas e as intempéries são certamente reações naturais para intervenções feitas no funcionamento original do universo. O mau moral e o mal natural causam reações de diversas naturezas.

O que tudo isso indica é que essas forças possuem uma origem, essas leis precisam ter sido criadas. Essa exigência racional não é apenas um costume ou fraqueza, mas obedece ao sistema da lógica. Ordem, beleza, leis naturais, ditames morais, e etc., apontam para uma Inteligência poderosa que deu a elas existência e não à noção de que as mesmas são assim naturalmente e autoexistentes. A mente humana reconhece sua limitação e debilidade muitas vezes.

Como as leis impessoais existiriam, como a moralidade tão concebivelmente elevada teria origem por si mesma, refletindo uma perfeição ou alto grau de organização que necessitaria de uma inteligência superior para entendê-la e uma força maior para segui-la e criar uma sociedade perfeita, por assim dizer, se para isso é exigido que uma Inteligência tenha disposto tais realidades para funcionarem assim? É claro que pode haver problemas na realidade natural assim como o há na realidade racional por motivos extrínsecos a cada uma causando males, erros de funcionamento, hostilidades e etc. É o mal no mundo explicado naturalmente e indicando racionalmente sua origem espiritual. A razão exige tudo isso.

Assim, o ateu não ficaria incomodado ao notar todas as coisas na terra se o senso de justiça, que supõe uma justiça perfeita, não o afetasse. Ainda, a indignação contra os males naturais e morais suspiram por uma solução. Racionalmente falando, o ser deseja que as coisas não fossem assim. Antes, deseja mais, que as mesmas não sejam assim. De onde vem tal desejo de todos? Dessa forma, na razão há indicação da existência de Deus todo-poderoso, capaz de criar, origem de toda a criação, e bom e justo para dar uma solução da tudo isso. São ditames racionais.

Quando se para nas explicações naturais o filósofo ateu aceita as contradições do seu pensamento e abre mão do desejo que existe na razão para a solução de todos os males.

É uma busca de melhorar a sua consciência na crença de que tudo é naturalmente assim, e não há o que fazer quanto à maior parte do que existe, e não haverá forma de justiça para toda o mal praticado pela humanidade em geral, nem para  todo o mal natural. Trata-se de uma opinião limitada e limitante da força da razão, suspendendo julgamentos e exigências da razão, colocando de lado pensamentos lógicos e se satisfazendo com a perspectiva natural irracional. Não se trata de escolher entre Deus e a natureza para explicar a realidade, mas quando se escolhe a natureza, os problemas descritos acima surgem e são contrários a sã razão.

A hostilidade e falta de harmonia muitas vezes encontrada na natureza é usada como argumento de que um Deus bom e todo-poderoso não poderia ser criado o munod assim e, portanto, tudo não passa de algo natural que surgiu espontaneamente em razão alguma nem propósito algum. Essa posição possui lacunas e contraria a própria razão, e portanto deve ser rejeitada.

A teoria da evolução é aceita pelo filósofo como fato. No entanto, ainda não é totalmente provada e um consenso dos mais renomados cientistas. A Igreja Católica não se opõe radicalmente à teoria da evolução, desde que a mesma seja de fato científica, e, sendo assim, estará conforme os dados revelados.

Mas o filósofo utiliza da evolução como prova de que Deus inteligente, sábio e bom não poderia ter criado o mundo assim, pelo sofrimento de milhões de anos das espécies em evolução e etc.

Nesse argumento fica subentendido que há algo racional contrário a certas explicações naturais evolucionistas. Ainda, sendo a teoria provada falsa, o argumento cai e será mais uma evidência da criação não-evolucionista, diríamos, já que mesmo na evolução se for real foi de fato Deus que dirigiu todo o processo, mas caso não seja e evolução a teoria correta, o argumento evidencia mais a Deus contra a objeção formulada.

Deus poderia ter criador outros métodos que não a predação, como o marimbondo citado que destrói uma colmeia inteira. Mas eis que na ciência atual é estudado tal caso e dele são tiradas lições. Não será isso mesmo o propósito divino ao mostrar ao homem os efeitos do pecado em toda a terra? Não é o exemplo de algo que suscita indignação da mente que procura o bem e a justiça? Assim, volta-se a pensar que se tal coisa é puramente natural, fruto de processo irracional e não tem nenhum fim, é uma lástima pensar nesse sofrimento de espécies sem finalidade alguma. Mas, uma vez admitindo-se Deus, tudo ganha sentido.

Ainda, o pensamento de que Deus deveria ter outros métodos para dirigir a natureza e criar situações diferentes que evitassem tais deformidades, é uma opinião indignada, válida, por sinal, mas apenas reflete a moralidade que temos diante das injustiças, e tal modo de pensar específico pode ser diferente quando se considera outros fatos na natureza e no mundo criado. Tais processos racionais são plausíveis mas nenhum substancia um argumento contra Deus.

Da mesma forma que a imperfeição encontrada na natureza serve de argumento contra a existência de Deus, anseio por justiça e harmonia no mundo, que só pode ter uma realização por um poder muito grande, estabelece a existência de Deus. O problema é que o primeiro contem falhas racionais, e o segundo segue os ditames da razão.

A volta ao paraíso está alicerçada nos ditames da razão, e por isso tais casos na natureza trazem indignação e clamam por uma solução. Como afirmar que o ataque das vespas asiáticas a abelhas não serve para nenhum propósito? Ao pensar que os seres possuem início e uma explicação, o filósofo já admitiu que isso pode não ser, que há seres que possivelmente não tenham explicação. Porém, no caso desses exemplos da natureza, afirma dogmaticamente que não servem tais coisas a nenhum propósito. Mas isso é incoerente e já demonstrado que provavelmente há sim um propósito para tudo. E, como já demonstrado, já necessidade de explicação para a origem do ser, e na criação não há seres autoexistentes.

E, pela observação racional vemos que o mundo não foi criado totalmente sem nenhuma possibilidade de progresso e evolução, mas de alguma forma foi posto em estado de caminhada, como explica a Igreja. A própria criação em etapas de dias mostra isso, e é também o que diz as teoria científica sobre a origem da vida.

Por fim, pensar que essas coisas na realidade são totalmente incompatíveis com a bondade de Deus e formular argumento contra Sua existência não faz sentido, pois esconde o desejo de que isso deveria ser feito assim e assim e não como realimente é se Deus é o criador, o que nada mais é que uma exigência humana, uma das possibilidades de opinião que podem ser formuladas.

Por tudo isso, aprendemos que de fato a razão nos aponta para Deus, e que o mesmo é o princípio de todas as coisas, que Ele tem poder para realizar o desejo íntimo radicado em nossa natureza, que é Bom, como indica os anseios profundos que aparecem em nós, e é autoexistente, já que não se pode abrir ao infinito a criação de deus em cascata, incorrendo em problema absurdo. Deus é trino, é amoroso, é é onipotente, onisciente e eterno, e tudo isso é tem, pelo menos, respaldo racional.

Jesus é a primeira pessoa da trindade, nasceu de uma mãe virgem, morreu e ressuscitou pelos nossos pecados, prometendo uma segunda vinda.

Jesus é criticado por ser falado do inferno, por ter sido duro com certas pessoas em suas pregações, pela descrição do juízo onde separa ovelha de cabritos, pela expulsão de demônio e suas permissão de que os mesmos entrassem nos porcos, e pela figueira amaldiçoada.

Mais uma vez há a escolha de uma moralidade para ser vivida por certo personagem, com características que mais se adequam à opinião do julgador. Jesus seria menos perfeito em comparação com outros líderes de religiões por esses exemplos citados.

No entanto, isso supõe que Jesus não sabia o que estava dizendo: que não falava do inferno real, mas como que dava sua opinião. Essa observação sugere que Jesus era um ser humano como outro e não divino também. E, partindo disso, julga a doutrina ensinada por Ele. Essa avaliação ultrapassa a razão.

De fato, no budismo há uma consequência cármica. A vida moral é vista como um caminho de libertação, e pelas leis cármicas as consequências incluem renascimento e outro ciclo de existência e sofrimento.

Jesus trata da moralidade com amor, da mesma forma, e fala da justiça de Deus no juízo e do sofrimento do inferno, de modo direto. São duas formas entre duas pessoas de ensinar a necessidade de viver bem moralmente e as consequências das más ações. Fica na subjetividade pensar em que foi nesses exemplos mais moral e perfeito. O argumento parece não ir muito além disso. Seria como se Deus, sendo amoroso, não pudesse falar das consequências do pecado, quando nisso podemos ver a pura atuação do amor, que é prevenir as pessoas do sofrimento.

Quando Jesus amaldiçoa a figueira, certamente usando o exemplo para admoestar o povo de Israel, simbolizado ali, pois sabia que a figueira não estava no tempo de dar frutos, ele exortava à vida espiritual com frutos para Deus. Não se trata de algo puro e simples para fazer uma figueira secar, aquele ato não era para a figueira em si, mas há uma finalidade moral bem elevada no ato.

Da mesma forma, Jesus permite aos espíritos ir para os porcos. Ele não colocou os demônios nos porcos e ordenou que os porcos fossem se afogar no mar, como diz o filósofo. Essas palavras para falar da cena mostram que o filósofo tem indignação grande com essa cena do evangelho, colocando aquilo como exemplo de falha humana. Na verdade, a cena mostra Jesus não destruindo os espíritos, como o filósofo crê que seria o melhor a ser feito. Mas não estamos aqui diante de mais uma opinião do que poderia ser ou não melhor a ser feito sem diminuir em nada a pessoa de Jesus? Como pensava Jesus? E como sabemos que o que julgamos ser o mais correto o é de fato naquela situação? Assim, nada de falho em Jesus nas cenas descritas.

Ainda mais, os porcos sofreram dor e morreram afogados. Por que isso? Mas porque durante milhares de anos porcos não mortos para servirem de alimento à humanidade, sendo a carne mais consumida? Não sofrem eles? Não são a humanidade inteligente que aceita dar tal sofrimento aos porcos para um bem maior que é produzir alimentos? Assim, não sabemos se realmente não teve propósito alguém aquela permissão dos espíritos possuírem os porcos. É valido pensar que se não sabemos exaustivamente sobre o assunto não é possível afirmar categoricamente que não houve propósito. Não há indício de falha alguma, pois toda a cena, bastante forte, chamou atenção de tantos.

Seria possível que o ser humano escreveu como se Deus agisse daquela maneira. Assim acontece com as obras humanas, nas ficções, nos mitos, etc. Não é o caso da Bíblia pelo que sabemos. Ainda, também é possível nas análises, como feitas pelos filósofos ateus a respeito das ações de Cristo, que algo seja projetado naquela análise, de forma a impor o pensamento ou algo do mesmo no objeto analisado.

Quando fala do nascimento virginal de Jesus, certamente é algo incomum, não esperado, extremamente curioso, improvável, e, certamente, impossível. Por isso, sabemos tratar-se de uma intervenção de Deus. Não é razoável pensar que isso é impossível para Deus, mas somente em termos naturais há impossibilidade. Uma vez que sabemos que Deus existe, é totalmente possível o nascimento virginal.

Talvez não se trate de violação das leis naturais, mas a força de Deus agiu criando o processo de concepção justamente como se ocorresse naturalmente no organismo da virgem. Assim o fazem cientificamente com os camundongos, numa comparação imperfeita, mas apenas para mostrar que não há quebra das leis, mas uma intervenção que faz as mesmas funcionarem em outra circunstância para um fim idêntico, que é a geração de um descendente.

A palavra jovem em Isaías é traduzida por uma palavra que também significa jovem e virgem. O contexto mostra que se trata realmente de profecia, pois não é estupendo que uma jovem conceba um filho, mas uma virgem sim. Portanto, o contexto implica que se trata de virgem quando se lê o hebraico original em Isaías.

Os mitos nas outras culturas podem facilmente refletir a tradição antiga da vinda do messias, do salvador, já que a promessa de Deus para esse fato foi feita no início da humanidade. Desse modo, em vários lugares encontram-se a noção de filho de Deus, embora com deturpações. A versão bíblica reflete o original.

Quando os evangelhos tratam do nascimento de Jesus, com textos diferentes, não há contradição na mensagem. São Mateus escreve para os judeus e usa o modo de entender adaptado aos judeus, mas mostra que o nascimento foi por força miraculosa. Lucas se dirige aos gentios e compõe seu livro com linguagem mais compreensível para as nações, e da mesma forma, relata o nascimento de Jesus como filho de Deus gerado sem intervenção humana.

O massacre comandado por Herodes não tendo outras narrativas não implica que não aconteceu. A Bíblia fornece credibilidade história e é uma fonte consistente. Não há razão para negar um relato bíblico apenas pelo fato de não ser encontrada outra fonte com o mesmo relato. Há também a questão de que fatos importantes são contados uma só vez, e não aparecem em outras narrativas. Mas isso também não prova que os fatos são mentira.

No minuto 36 o filósofo chega a dizer “não leiam” a Bíblia quando a intenção foi falar “não leem” a Bíblia, corrigindo imediatamente. Um ato falho? De qualquer forma, deve-se repensar cada argumento usado contra o Cristianismo.

A ler as profecias interpretadas no Novo Testamento temos perfeita compreensão do sentido dos textos e não contrário. Quando se fala do Messias, nunca é limitado a Israel, pois os textos antigos incluem as nações sob a luz da era messiânica, o que concorda com a narrativa do Novo Testamento. Assim, afirmar que se tratam de reinterpretações erradas é um tanto equivocado.

Quando se aceita Deus, cremos na possibilidade de milagres. Se os cientistas, conhecendo as leis naturais, conseguiram induzir a partenogênese em camundongos, como negar que o criador das leis possa fazer isso no ventre da virgem Maria. A Bíblia trata de que foi algo impossível humanamente, possível para Deus, em um equilíbrio fenomenal de apresentação do caso. Assim, é digno de fé o relato bíblico. Naturalmente é impossível sim, mas a fé cristã tem essa proposição por ter ela fidelidade original, legitimidade, guardada nos escritos bíblicos e na tradição de modo a não deixar espaço para dúvida. Nenhum vestígio na crítica textual pode por em dúvida a narrativa do nascimento de Jesus.

O pecado original e a queda do homem.

A evidência do pecado original está na mera observação da própria mente de cada um, na realidade do mundo, do comportamento do ser humano, se imperfeições que assolam a ordem estabelecida. É algo empírico.

O filósofo Nietzshce foi citado. Um exemplo para reflexão é o do papa Leão I foi modelo de homem cristão e líder forte. Homem de fé, grande teólogo, soube governar a Igreja com sabedoria e autoridade. Destemido salvou a cidade de Roma enfrentando sem armas a Átila, rei temido por todos. Nietzsche erra em ver fraqueza, pobreza, doença, negação da vida. Em inúmeros exemplos cristãos, como esse do papa Leão, os valores aí superam e refutam a crítica e Nietzsche.

 

A revelação pelas Sagradas Escrituras, a Bíblia é a Palavra revelada, seus escritos são inspirados.

A crítica textual, nos milhares de manuscritos bíblicos, demonstra cabalmente que a mensagem da Bíblia permaneceu intacta. A verdade religiosa que se aprende lendo a Escritura é clara em seu fundamento e não há o que objetar.

Mas eis que alguém diz: só creio se os originais estivessem preservados! Será mesmo. Obviamente, logicamente, possivelmente, provavelmente esse não creria. Primeiro, se as cópias mais antigas comparadas a cópias recentes, e comparadas a pergaminhos encontrados recentemente testemunham a integralidade da mensagem, é uma evidência fortíssima de que o texto o ensino foi preservado. Não há como não aceitar. E, partir daí, não há como não crer.

 

Os milagres, são intervenções de Deus no curso da história.

Os testemunhos são negados. A violação das leis da natureza é usada como contra-argumento. A experiência firme e inalterável deveria antes estar aberta à possibilidade de que, se as mesmas são até aqui observadas assim, há possibilidade de mudança. Assim, o milagre é possível. Ainda que Hume tenha posto em dúvidas as leis objetivas da realidade, onde a experiência é que estabeleceria firmemente e inalteravelmente as leis da natureza, isso não pode impossibilitar o milagre. Em certo momento pode-se ser pego de surpresa com um funcionamento anormal de determinadas leis naturais.

Ainda, para haver milagre não é necessário que a lei natureza seja mudança, mas que uma força maior seja exercida. Assim, o machado de Eliseu boia na água? Eliseu cortou um pedaço de madeira, jogou-o na água e o machado veio à tona (2 Rs 6, 6).  É necessário suspender as leis da gravidade ou as fazer funcionarem de outra forma? Não. Basta que o poder divino intervenha fazendo aquele objeto subir na água, como uma mão física o faria sem quebrar a lei gravitacional. Assim, racionalmente os milagres são possíveis.

Por causa da existência de tantas fraudes, etc., o filósofo crê que é mais razoável supor que são mentira, fruto de alucinações, de desejos ocultos, etc., do que crer na mensagem bíblica, embora o que se vê, mesmo na análise puramente textual, a partir da crítica textual, é que a Bíblia é um documento sério e legítimo, digno de confiança.

Embora a noção de milagres seja a de que não que ocorre naturalmente, e não é visto aos milhares todos os dias, mas que é uma intervenção de Deus de forma extraordinária, parece que o filósofo acha que o milagre deveria ser corriqueiro. Ponto fraco na sua análise. O milagre é um dos meios pelos quais Deus fala à mente humana. Hoje há várias curas de doenças, vários salvamentos,  fenômenos inexplicáveis, etc. São inúmeros exemplos. Mas normalmente Deus se vale da própria criação, dos estudos, da cultura, da Igreja, da Bíblia, etc., para levar pessoas ao conhecimento da Sua vontade. A filosofia é um dos meios.

Gledson Meireles.