domingo, 29 de março de 2026

Ateus detonam, supostamente, ao explicar a realidade

Aqui segue um comentário sobre o que filósofos ateus afirmaram sobre a existência de Deus.

Filósofos ateus apelam para a intersubjetividade para explicar a existência de Deus. Deus seria criação da intersubjetividade.

A realidade criada pela intersubjetividade seria uma realidade não empírica, mas real, pois produz efeitos, tendo consequências empíricas. O ser humano viveria na objetividade, subjetividade e intersubjetividade, e Deus estaria como criatura da intersubjetividade.

Entretanto, Deus não seria a estrutura da realidade no seu aspecto mais fundamental. Nesse caso, quem seria? O ser humano, é óbvio. Seria o seguinte: os seres humanos criadores da realidade fundamental por meio da intersubjetividade.

Então, tudo seria criado pelo cérebro, mas não reduzido ao cérebro.

O exemplo dado, do ponto desenhado e apagado continuar a existir, seria que o ponto desenhado constitui apenas a representação do ponto objetivo real mas virtual, ou seja, ideal, e não o próprio ponto. Vamos analisar esse argumento. Antes, vejamos outro. O personagem Batman existe na realidade intersubjetiva.

Raciocinando com os pressupostos apontados acima, quando a humanidade começou a existir, por acaso, por variados e complexos processos evolutivos, que seguiram leis evolutivas que teriam trazido à existência corpos complexos a partir de seres simples, não sabendo como isso ocorreu, de que forma isso veio a ser realidade, como a existência foi possível. Pois bem.

Nesse tempo não havia o poder para criar as leis intersubjetivas, nem os personagens virtuais que transcendem a matéria, pois não havia um número x de indivíduos capazes de criar essa realidade intersubjetiva. Então não havia ética, moral, bom, belo, justiça, etc. Havia apenas a realidade com suas leis objetivas naturais, que o ateísmo não sabe explicar de onde se originam.

O problema é que há uma inteligência superior por trás do surgimento da humanidade, e não sendo assim, não há realidade. O surgimento dos dois sexos, a possibilidade de união entre os dois para a propagação da espécie, implicando uma teleologia, e etc., já é um obstáculo para o ateísmo.

A intersubjetividade que cria leis e valores que transcendem os próprios indivíduos e não se reduz ao cérebro implica a objetividade dessas leis e não a origem dela nos seres racionais. Se elas são objetivas, não são intersubjetivas na origem. E os filósofos citados concordam até aqui.

Na verdade os seres apenas percebem essa realidade através da razão. Não há uma criação das leis, mas de uma estrutura que suporta e realiza essas leis.

Um personagem fictício que é criado pela imaginação e está na mente, na memória, e não existe objetivamente, não é uma realidade física, nem espiritual, mas imaginária, virtual, ainda que com ela se faça muitas coisas, e a mesma tenha consequências empíricas na realidade, essas consequências não provem dela, mas dos seres que a criaram na mente. Assim, essa noção não tem a ver com a verdade de Deus. Entretanto, os personagens fictícios não são necessários para existir na mente dos seres humanos. Deus é.

O exemplo do ponto que foi desenhado e depois apagado. O mesmo passou a existir no desenho, deixou de existir quando foi apagado, mas continuou a existir na memória e na sua forma fundamental de ponto. O arquétipo do ponto da mente ou na memória não é o mesmo que a existência do ponto em algum lugar. O ponto existe objetivamente na ideia e veio à existência empírica no desenho.

Depois da morte de uma pessoa, essa pode continuar existindo na memória das outras pessoas e nas suas consequências no mundo. Isso não tem a ver com a sua existência objetiva, mas com a existência na recordação. A sua existência na recordação de outros não é a mesma e nem antecede sua existência empírica. Também, sua inexistência empírica não tem a ver com uma ideia sua, que não existia antes e que agora existe na memória de outros.

Entretanto, antes disso, a pessoa real e empiricamente existiu. Agora, basta provar que a mesma exista em outra realidade que transcende a física. Ao invés de apelar para a imaginação, onde a ideia deixada na memória por uma pessoa que existiu, deve-se utilizar a razão e estabelecer os princípios que demonstram a realidade da pessoa existindo em seu princípio vital espiritual, que é a alma humana, após a morte.

A existência ontológica e intersubjetiva não é a mesma que a existência objetiva. A pessoa deixou de existir permanecendo a alma, em sentido objetivo.

Exemplo do ponto não pode ser usado em comparação com a existência de uma pessoa, pois se o ponto existe idealmente e não é o que é representado graficamente por meio físico, isso não é o que ocorre com uma pessoa, pois do contrário a sua existência real, empírica, física, seria um reflexo da sua existência ideal, e sua existência no mundo seria menor que a existência na ideia.

Menor por estar fadada ao desaparecimento, enquanto a ideal seria permanente, intocável. Ou seja, haveria uma pessoa x ideal, sem consciência, sem estrutura alguma, sem existência real, a não ser a imaginária, e a mesma pessoa na realidade tangente apenas representando essa idealidade, o que é um absurdo.

Na verdade, o que se está tentando substituir com esses raciocínios é a existência da alma, que é parte da pessoa que sobrevive após a morte da mesma. E também a existência ideal da pessoa na mente de Deus, antes de criá-la, e sua existência real na alma, depois da morte. Não se trata de uma existência subjetiva, nem intersubjetiva, mas objetiva, real, embora espiritual.

Vejamos o caso ainda mais. Um ponto existe. Existe na ideia. Na realidade ele pode ser desenhado. Após ser apagado, continua a existir, pois não era o próprio ponto, mas apenas a representação do ponto.

Uma pessoa existe. Na realidade, essa pessoa nasceu e morrerá. Após a morte, continuará a existir na estrutura ontológica, na intersubjetividade.

Mas, o ponto existe idealmente, e a pessoa, antes de vir à existência estava na ideia de quem?

Uma imagem da pessoa representaria a pessoa, assim como o ponto desenhado representaria o ponto ideal. No entanto, o ponto desenhado está na realidade como a pessoa viva, e não a imagem daquela pessoa viva. Assim, o ponto ideal continua intacto após o apagamento do ponto no desenho.

Em relação à pessoa, que é real, física, empírica, após a morte nada idealmente dela está intacto, pois nem existia. E na realidade também, nada continuou intacto, pois houve corrupção e a alma se separou.

Isso acontece porque não é possível que o ser contingente exista sem ter sido criado. Primeiro, porque sem o Criador não havia ideia daquela pessoa. Segundo, porque na realidade essa pessoa existe, está viva, e na morte deixa de existir fisicamente. Não tendo idealidade anterior, pois não foi criada por seres humanos, nem em suas intersubjetividades, não existe desse modo, ficando a existir no modo criado após sua existência na intersubjetividade, na memória. A ideia criada da mesma veio após a sua existência e não antes. Por isso, o exemplo do ponto é bastante imperfeito.

Ainda, a ideia da pessoa está na memória e não é uma criação intersubjetiva, mas um dado da realidade que permaneceu gravado. Por fim, a existência intersubjetiva da pessoa é apenas a recordação da realidade objetiva da mesma. É o mesmo que lembrar de qualquer outra coisa, até mesmo de uma coisa imaginária. Não há nesse ponto a explicação da realidade da pessoa em si.

Portanto, o exemplo do ponto não é idêntico, e a intenção de provar a realidade intersubjetiva como criação de Deus na própria intersubjetividade se mostra equívoca.

Sabemos que um fenômeno observado e não explicado, pode ser explicado por hipóteses, já que existe algo que explique o fenômeno e é necessário, para conhecê-lo, partir de raciocínios válidos. Esse algo existente é necessário, por conta do efeito que é real.

Isso estaria na antropologia, sociologia, filosofia: há realidade não observáveis diretamente. Os efeitos são mensuráveis. Para explicar os efeitos observados, é possível retroativamente afirmar o que deveria ser para que o efeito exista.

Essa realidade estudada não tem realidade física, mas tem consequências na mesma, e portanto ela existe objetivamente.

Há realidades que são empíricas, mas não observáveis diretamente. Deus seria essa realidade, com seus efeitos claros, na sociedade religiosa, por exemplo. Deus não seria a estrutura da realidade no seu aspecto mais fundamental, mas é uma realidade intersubjetiva, porque faz diferença, uma diferença empírica, que depende da coletividade.

O filósofo fez tudo isso para provar que Deus não é a realidade objetiva, mas criada intersubjetivamente. No entanto, partindo da sua própria apresentação, com o rigor científico que o mesmo advoga, vejamos:

É fácil ver que o mundo é uma realidade. O mundo é um efeito. Não é razoável crer que o mundo exista desde sempre com toda a complexidade existente, com suas leis objetivas. Postular isso, é apenas uma afirmação, sem prova racional, o que não é nada filosófico.

O mundo, portanto, é o efeito. Para explicar o mundo há que retroativamente encontrar o que poderia tê-lo feito vir à existência. Essa realidade que, não é empírica no sentido material, pode ser conhecida pelos seus efeitos, no mundo que existe. Essa realidade é Deus.

O filósofo parte de outro pressuposto. De fato, olha para a intersubjetividade e vê os efeitos da humanidade no mundo realizados a partir da ideia de Deus e conclui que Deus passou a existir dessa ação intersubjetiva. Mas não explicou a origem da própria humanidade, como feito acima, onde há explicação de toda a criação.

Com isso, se tenta provar a realidade de Deus que transcende a individualidade e subjetividade, ao mesmo tempo que provoca efeitos empíricos no mundo. Tenta-se com isso entender o que é do espírito agindo na realidade empírica.

O problema é que o raciocínio parte do dogma de que o cérebro produz tudo, ainda que reconhecendo que a criação intersubjetiva supera os limites das ideias criadas pelo cérebro. Como pode algo produzido humanamente superar os limites das individualidades humanas, se isso não for espiritual?

Deus seria, de algum modo, independente do ser humano, ao menos subjetivamente, mas estaria acima do controle da mente subjetiva e agiria no mundo material por meio da ação da coletividade humana. Com isso, tem-se a ideia do poder de Deus e de sua ação no mundo. Apenas os meios usados para estabelece-las são errôneos.

Entretanto, esses lampejos da verdade estão no meio de uma estrutura frágil e equivocada de pensamento, pois pressupõe que a humanidade tenha sido originada pela força do acaso, quando na verdade essa mesma realidade humana deve entrar no problema da busca da sua origem. E essa origem, como mostrado acima, é Deus.

 Deus está acima da humanidade, influencia toda a realidade, e assim aparece nas leis naturais, morais, éticas, e é percebido na intersubjetividade. O método filosófico para provar a existência de Deus é eficaz.

 

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=srYsJuPoQzk.

 

Gledson Meireles.

sábado, 28 de março de 2026

NISTO CREMOS: estudo do capítulo 7, sobre a natureza da humanidade

Estudo do capítulo 7

A natureza da humanidade

do documento da Igreja Adventista do Sétimo Dia

NISTO CREMOS

 

Caro leitor, o presente artigo é o início de um estudo dos documentos Nisto Cremos e do Catecismo da Igreja Católica sobre a natureza humana. O estudo será dividido em duas partes.

O comentário abaixo é a primeira parte, que resumirá o ensino expresso no documento Nisto Cremos, seguido de um comentário que tem o objetivo de fornecer a resposta fundamental ao que o tema aborda e convidar para o estudo do tema, para maior aprofundamento. Essa é a primeira parte.

A segunda parte será o estudo do tema no Catecismo da Igreja Católica, onde poderá ser visto como o mesmo é abordado na doutrina católica, qual a linguagem empregada, quais os pressupostos utilizados e como é feita a fundamentação da doutrina na Bíblia.

O leitor adventista do sétimo dia poderá comparar as duas doutrinas e fazer o devido estudo bíblico para confirmar o que cada uma ensina. Certamente ficará surpreso ao entender qual a verdadeira doutrina sobre a alma na Igreja Católica Romana.

 

A natureza da humanidade

Nisto Cremos, capítulo 7


Serão resumidas algumas partes e depois comentadas.

 A origem do homem. Muito interessante o documento adventista Nisto Cremos, quando fala de um concílio divino realizado no qual há a criação do homem, citando Gênesis 1, 26. É o propósito de Deus Uno e Trino criando o ser humano.

Depois disso, o documento afirma a criação do homem a partir do “fôlego de vida”, que transformou o homem em criatura vivente.

A afirmação de que existe uma clara descontinuidade entre os seres humanos e o reino animal é importante no debate. Adão é filho de Deus (Lc 3, 38).

Comentário: Entendamos melhor o que a IASD ensina sobre o fôlego de vida e a descontinuidade entre seres humanos e animais.

Esse fôlego de vida, para os cristãos adventistas, é apenas a energia que vivifica o ser humano, não sendo uma parte imaterial do mesmo. Com isso, pretende ter oferecido mais uma refutação da noção de alma imortal.

No entanto, nada aqui refuta essa doutrina. O que há no documento é uma explicação do texto bíblico, no original hebraico, onde o fôlego de vida é mostrado na criação no momento em que é infuso na imagem de argila e essa se torna um ser vivo.

Para o cristão católico, crer que esse fôlego é a energia divina criadora da vida não é problema algum, e está conforme a fé católica. Assim, o cristão adventista em diálogo com o cristão católico devem ajustar esse ponto. O diálogo deve deixar clara a questão do fôlego de vida em Gênesis 2, 7 em ambos os credos, adventista e católico.

Quando se diz que há descontinuidade entre os seres humanos e os animais, de alguma forma estamos de acordo que a inteligência humana não é apenas diversa em grau em relação aos animais, mas há algo que radicalmente diferencia seres humanos e reino animal.

Esse é outro ponto em que cristãos adventistas e católicos podem dialogar e reconhecer as concordâncias.

 

A unidade da natureza humana. Nesse tópico o documento se põe a estudar se os seres humanos são constituídos de partes independentes, como sendo corpo, alma e espírito.

Comentário: a concepção de dualismo que os adventistas possuem é fundamentalmente platônica. Assim, a refutação que fazem toca diretamente a doutrina grega sobre a alma.

De modo algum é o que o cristão católico pensa sobre a alma. O adventismo acredita que a doutrina da alma no catolicismo é basicamente a mesma do platonismo pelo fato de que ambas as abordagens ensinarem a imortalidade da alma. No entanto, há algo que é preciso conhecer e que faz bastante diferença.

Portanto, o que está sendo atingido pela doutrina adventista é a noção de alma segundo pressupostos gregos, onde há independência entre corpo e alma, como sendo duas partes independentes. A doutrina católica não ensina isso.

Esse ponto deve ser bastante conhecido, pois faz diferença importante. Isso aparece diversas vezes na apologética adventista, com todos os apologistas, que creem ser a doutrina basicamente idêntica à da filosofia grega. O livro A imortalidade da alma não é lenda corrige esses pressupostos. Vale a pena todo adventista ler.

Quando Deus converteu os elementos da terra em um ser vivente, “soprou” o “fôlego de vida” nas narinas de Adão, até então um ser inanimado.

Comentário: Na verdade, a noção de que Deus converteu os elementos da terra em ser vivente é concomitante ao soprar o fôlego, que é a energia vital criadora, pois o texto bíblico diz que o Senhor soprou nas narinas e o homem tornou-se ser vivente. Foi naquele instante que isso ocorreu. Ao que parece não havia o corpo humano ainda como temos hoje, antes do fôlego de vida.

De qualquer forma, há duas etapas na criação. A primeira é a formação do corpo a partir dos elementos da terra. A segunda é a infusão do fôlego de vida. Nesse momento, quando o fôlego de vida é insuflado nas narinas do corpo formado, esse se torna alma vivente.

O homem foi formado do barro da terra e recebeu o sopro de vida e se tornou alma vivente.

A respeito do sopro do todo-poderoso, Jó 33, 4, a comparação feita é a de correntes de eletricidade fluindo através de componentes elétricos que convertem um quieto e inanimado painel de vidro, feito de armação de madeira e metal, em uma sucessão de cores na tela do televisor ligado. “A eletricidade traz som e movimento” ao que antes não tinha essas condições.

Comentário: O corpo humano recebe o fôlego e torna-se vivo. Leiamos o texto sagrado:

O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gênesis 2, 7).

Mas ainda não há explicação do que faz cada indivíduo, já que todos possuem uma energia comum. Que energia individual existe em cada um? O que faz cada um ser uma pessoa com características individuais? A energia não faz as mesmas conexões neuronais em todos os indivíduos e não forma uma pessoa de igual inteligência, vontade, sentimentos e emoções. A energia que faz a televisão transmitir os canais é a mesma e tem o mesmo efeito em todos os aparelhos. No ser humano esse efeito pode apenas ser comparado ao da vida, e não mais quando à individualidade. Cada um tem suas próprias decisões. O que mais fez esse fôlego soprado por Deus? Esse ponto deve ser refletido. É o momento em que há divergência entre adventistas e católicos quanto à natureza do homem, e aqui é visto o momento em que o adventismo tenta uma conclusão a partir do texto bíblico, que o mesmo não fornece.

Homem – uma alma vivente. Assim inicia essa parte da explicação do Nisto Cremos: “O que realizou o fôlego de vida? Quando Deus formou o ser humano do pó da terra, todos os órgãos se achavam presentes: coração, pulmões, rins, fígado, baço, cérebro, etc. – todos perfeitos, mas sem vida. Então Deus assoprou seu próprio fôlego de vida para dentro desse ser inanimado, e o homem “tornou-se alma vivente”.

A equação é: “pó da terra (elementos terrestres) + fôlego de vida = ser vivente ou alma vivente.”

A união dos elementos da terra com o fôlego de vida resultou em alma. Esse fôlego de vida é a energia que vivifica a todos, não sendo parte individual, limitado às pessoas. O termo nephesh chayyah é usado para o ser humano e para os animais em Gn 1, 20.24, 2, 19). Esse termo é expresso em grego por psuche.

O homem passou a ser uma alma vivente, e o relatório da criação não diz que recebeu uma alma, entendida como “uma unidade separada que, na criação, foi unida ao corpo do homem”.

Comentário: Nesse momento, fica mais uma vez complicada a explicação adventista de que o fôlego realizou apenas a vivificação. Antes havia uma imagem feita de argila, mas depois há uma pessoa, com todas as características de ser humano. De fato, parece mais o que o fôlego realizou que apenas dar vida. Deus criou o ser humano dando-lhe corpo e alma ao formar os elementos e soprar-lhe o fôlego. Assim, o fôlego de vida não é a alma, mas é o que fez o ser humano viver, formando algo nele que sustente a vida. Esse é mais um ponto a ser discutido entre o cristão adventista e o cristão católico. A doutrina católica parte desse mesmo texto é conclui que o fôlego de vida criador fez o corpo e alma que sustenta a vida no ser humano. E isso é evidente nos efeitos de que o homem tornou-se alma vivente.

Uma unidade indivisível. No relato da criação a Escritura retrata o homem como um todo.

O significado bíblico de alma. Nephesh pode ser pessoa ou eu (a própria pessoa). Também pode ser vida, desejos, sede das afeições. A alma é mortal nesse sentido de pessoa. No NT o Nisto Cremos enfatiza que a alma é mortal: “não é imortal, mas sujeita à morte” e “Pode ser destruída”.

 

Depois afirma que não existe na Bíblia qualquer texto que indique possiblidade da alma sobreviver ao corpo, continuando a alma como entidade consciente.

 

Comentário: Nesse ponto o documento não avalia a questão em sua profundidade, mas continua a demonstrar que o termo nephesh tem o sentido de alma e que no contexto geral é mostrada como algo mortal. Ainda não há nenhuma profundida no estudo da natureza humana, com aludido acima, quando se questiona a sede da individualidade, o que há mais que corpo e energia de vida, que caracteriza cada uma a partir da criação. Há diferenças físicas e psicológicas em todos. Não basta mostrar que o temo nephesh é alma e significa pessoa, desejos, afeições, e que pode ser destruída. Há algo não explicado quando se estuda cada texto em particular. Isso fica bem claro no livro A imortalidade da alma não é lenda.

 

O cristão católico em diálogo como cristão adventista deve chamar a atenção a esse particular, que emerge da cena da criação e não se reduz ao significado do termo alma nesse texto.

 

O significado bíblico de espírito. Ruach é a “energizante centelha de vida”. Interessante que, como citado no Nisto Cremos, em 1 Sm 1, 15 é também sede das emoções, como em Gn 34, 3 é sede das afeições, e psuche, no Novo Testamento em Mc 14, 34 indica emoções. Isso quer dizer que a Bíblia usa os termos em sentidos similares, contendo vários significados tanto em hebraico como em grego.

Afirma o Nisto Cremos que o ruach do homem é idêntico ao dos animais, citando Ecl 3, 19.

Os termos ruach e pneuma não seriam usados em referência ao homem como sendo uma entidade inteligente capaz de existir independente do corpo físico, como existência consciente.

Comentário: Aparece nesse momento uma exigência de que o termo espírito esteja diretamente associado ao homem como tendo uma entidade imaterial imortal separável do corpo. Caso não se encontre uma passagem assim, estaria provada a afirmação de que espírito é associado ao ser humano somente como energia de vida, respiração, afeição, emoção, e nada mais.

Essa forma de estudar parece ter mais fundamento na filologia do que com a teologia. Parte-se do que um termo significa na maioria das vezes e se tira daí um conclusão teológica.

Entretanto, é certo que a Bíblia diz mais sobre o espírito em relação ao ser humano do que o que o Nisto Cremos traz. Também aqui é necessário convidar o leitor a estudar o livro A imortalidade da alma não é lenda. O estudo da Bíblia revela profunda doutrina que o termo espírito revela em referência à natureza humana, e que diz respeito à parte imaterial imortal do ser humano.

 

Unidade de corpo, alma e espírito. O documento questiona qual a relação entre corpo, alma e espírito?

 

Comentário: É um questionamento válido e importante. Ao pensar que o corpo recebeu vida e se tornou alma vivente não é a única coisa que o texto bíblico ensina. Há mais que isso na doutrina bíblica. Partindo da criação, onde Deus forma o homem do pó da terra e insufla nesse o fôlego de vida, tem-se que aquele corpo formado dos elementos terrestres foi vivificado pelo fôlego de vida dado por Deus e se tornou uma alma vivente com certas características que o diferenciam dos demais seres da criação. A inteligência humana está nesse rol. O que faz no homem ter a capacidade racional que o animal não possui?

União dupla. Reconhece o adventismo que a Bíblia “não define precisamente” esse relacionamento, e por vezes alma e espírito são sinônimos.

Também cita Mt 10, 28 como um exemplo em que o Senhor Jesus caracteriza o homem como corpo e alma. Em comparação com 1 Cor 7, 34, onde São Paulo identifica corpo e espírito. Em Mateus 10, 28 a alma se refere “às mais elevadas faculdades do homem”, a mente, e em 1 Cor 7, 34 o espírito é que se refere às mais nobres faculdades. O corpo inclui os aspectos físicos e emocionais da pessoa, explica o documento.

Comentário: Essa parte é muito importante, pois a Escritura não define com precisão a relação entre corpo e alma ou corpo e espírito na natureza humana. De fato, a relação corpo-alma ou corpo-espírito é algo que deve ser buscado em toda a revelação. Se alma é em Mt10, 28 o conjunto das mais elevadas faculdade do homem, essa parte não pode ser morta. É o que diz o texto. O homem não pode matar as mais elevadas faculdades humanas, e, portanto, ela permanece após a morte, pois é imortal. É o que podemos concluir da passagem, embora o Nisto Cremos apresente doutrina que negue tal conclusão. O estudo adventista possui esse salto, conforme aludido acima.

 

União tripla. Aqui o documento trata de 1 Ts 5, 23, uma exceção, onde São Paulo fala em termos de unidade tripla. Nesse texto, espírito é “o mais elevado princípio de inteligência e pensamentos”, e a alma seria a parte que expressa a natureza humana pelos instintos, emoções e desejos. A mente, a razão influencia a natureza inferior, os impulsos. A mente do homem é conformada à mente de Deus, a razão é santificada e a natureza inferior é influenciada, e os impulsos contrários a Deus se sujeitam à vontade de Deus. (Nota 6). A alma é explicada como desejos, sentimentos, emoções. Encontra-se embasado o conceito da unidade da natureza humana.

União indivisível e harmoniosa. Então, o Nisto Cremos afirma que é claro que todo ser humano é uma união indivisível. O corpo, a alma e o espírito funcionam em íntima cooperação.

Comentário: O problema é que vemos aqui reconhecido que os termos alma e espírito possuem sentidos variados e até sinônimos.  Assim, nesse texto espírito é o mais elevado princípio de inteligência e pensamentos e a alma seria a parte dos instintos, emoções e desejos. Também há referência à parte inferior da natureza. Essa antropologia é a mesma que ensina a Igreja Católica, como pode ser vista no Catecismo, usando termos diversos e forma diversa de explicação. Não é comum na doutrina católica associar alma a instintos, emoções e desejos, como pode ser visto no estudo exaustivo no livro A imortalidade da alma não é lenda. Essa forma de explicar é comum entre os protestantes. A doutrina católica possui uma forma mais definida de explicar os termos alma e espírito, e a concepção é inteiramente bíblica.

Gledson Meireles.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Pastor batista Dr. Jerry A. Johnson se torna católico

O pastor batista, erudito americano, Dr. Jerry, é convertido ao catolicismo. Sua busca pela verdade, seu aprofundamento no estudo, levou-o à Igreja Católica Romana.

Isso chocou e deixou muitos surpresos.

Vale a pena conhecer a história de conversão desse pastor e estudar a fé protestante. No blog há artigos que tratam diretamente da doutrina batista.

O leitor ficará surpreso com os temas tratados. Bom estudo.

Gledson Meireles.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Tradição e Ellen White

Sola Scriptura


A Igreja Católica ensina que há três fontes de autoridade, sendo a Bíblia Sagrada, a Tradição Apostólica e o Magistério da Igreja. Esse ensino é claro, direto, e unânime.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia ensina que somente a Bíblia Sagrada é fonte de autoridade de fé e prática.

Como já estudado em outros artigos no blog, a doutrina adventista tem sua fonte na interpretação bíblica e há uma instância que serve de autoridade bastante importante para a confirmação da doutrina, ou de testemunho sobre a mesma.

Esse é o papel de Ellen Gould White, que para os adventistas, embora não saibam disso, e ensinem que a profetiza tem uma autoridade menor, que é orientadora nos pressupostos, confirmadora da doutrina, e não julgadora e nem fonte da mesma, essa autoridade é, não obstante, semelhante ao lugar que a Tradição Apostólica tem na Igreja Católica Romana.

Vejamos nas palavras de um pastor adventista qual a autoridade de Ellen White e comparemos com o que há na Igreja Católica em relação à Tradição no rol de autoridade doutrinal.

Já foi explicado aqui que Ellen White não é como o Magistério eclesiástico, não é também como o papa. Essa comparação é feita muito comumente quando protestantes debatem com adventistas do sétimo dia. É uma incompreensão do que é tradição católica e do que é Ellen White no adventismo.

No entanto, há a Tradição Apostólica, que é um autoridade para a Igreja Católica que tem certa semelhança com a autoridade de Ellen White para a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

O pastor usa a doutrina da imortalidade da alma para mostrar a força de pressuposições diferentes que levam a lugares diferentes.

A pressuposição platônica de que a alma é inerentemente imortal seria preciso forçar o texto bíblico a dizer isso. Mas se se sai do pressuposto de que o texto bíblico tem que dizer o que a alma é, você chega em lugar diferente. Esse é o pressuposto bíblico.

Há um problema grave acima. De fato, nunca se pode partir de um pressuposto extrabíblico e forçar na exegese para que algo se adeque ao que a Bíblia ensina. Assim, não se deve partir da doutrina da imortalidade da alma em Platão e procurar textos na Bíblia que falem de alma imortal ou forçar textos para que pareçam com o que Platão ensinou.

No entanto, procurar o ensino da palavra alma na Bíblia e afirmar que o sentido de alma é totalmente diverso do que o platonismo ensina, como se a Bíblia não ensinasse nada com algum ponto de contato com a doutrina da alma imortal em Platão, é um erro fundamental. De fato, o sentido do termo alma na cultura grega é diferente daquele que tem alma na cultura hebraica. Mas o que a Igreja Católica ensina a respeito da alma não é platônico, mas bíblico. E o uso do termo alma, que vem mais comumente do helenismo, apenas descreve o que a Bíblia ensina sobre a parte imaterial do ser humano.

Desse modo, a imortalidade da alma é doutrina bíblica, mas não é a mesma doutrina platônico. O estudante da doutrina católica deve partir desse pressuposto para entender o catecismo.

Assim, não é simplesmente dizer que a Igreja Católica tem outras fontes de autoridade e que a Igreja Adventista somente tem a Bíblia, e que a doutrina sobre a alma vem da Bíblia somente, como se a doutrina católica sobre a alma viesse de outro pressuposto que não o bíblico.

Como afirmado acima, pode-se afirmar que o que a IASD faz é um estudo do termo nephesh na Bíblia de certa forma que encontra o conceito de que esse termo é geralmente mortal e com isso afirma que não há dualismo na Bíblia e que a alma morre.

Aqui não é o lugar para mostrar que isso não é tão simples é está equivocado. Há um livro que faz um estudo exaustivo desse tema e responde a todas as objeções e prova cabalmente que a Bíblia tem o ensino sobre a espiritualidade imortal de parte da natureza humana, a qual sobrevive na morte, o que é semelhante ao que a alma é no conceito helenístico. O livro é A imortalidade da alma não é lenda. O texto está sendo revisado para melhor apresentação do tema, mas já pode ser livro no scribd e no blog.

1º A Igreja Católica não usa a filosofia de Platão e Aristóteles para provar a alma. O uso da terminologia ou da linguagem filosófica em alguma parte da teologia católica não significa que a doutrina seja de origem alheia à Bíblia, mas que a terminologia serve de ferramenta para veicular conceitos de forma mais exata e compreensível.

Isso pode parecer chocante para o protestante adventista. E o leitor é convidado a estudar o tema. Leia o livro mencionado acima.

2º Os referenciais bíblicos usados pela IASD são como ditos acima, pois a Igreja Adventista parte do que o termo alma geralmente significa no texto bíblico original e conclui que a alma morre. No entanto, não encontra na Bíblia o que realmente a Igreja Católica fundamenta a doutrina da alma no texto bíblico, por usar um pressuposto bíblico equivocado, que não se aprofunda no sentido do texto, como faz a Igreja Católica, mas usa-se mais os termos que o texto emprega de forma geral e os compara com sentido do mesmo termo em outra cultura, o que leva a equívocos.

O livro resolve esse problema, e tantos outros, apresentando uma refutação formal sobre o tema.

E, por fim, o que o pastor diz sobre Ellen White é essencialmente o que um apologista católico responde a um apologista adventista sobre o papel da Tradição.

Vamos analisar cada afirmação e concluir a partir da mesma.

A Bíblia é suficiente. Todo protestante concorda. Disso, os protestantes concluem que não há necessidade de Ellen White para trazer testemunhos proféticos extracanônicos.

Então, o pastor afirma:

Já que a Bíblia é suficiente e nós não precisaríamos de nada nem ninguém pra desenvolver a exegese, pra dialogar sobre exegese, para poder apresentar, para ensinar, para corrigir e fazer todas as outras funções que um profeta tem pra fazer, então nós também não precisaríamos de nenhum teólogo, não precisaríamos de nenhum pastor, nós não precisaríamos de nenhum líder de igreja que gosta de estudar e fazer exegese porque no final das contas a Bíblia é suficiente

A suficiência da Bíblia não nega ou não minimiza a necessidade ou a vitalidade e a importância de um ministério profético, e num grau obviamente diferente, de um ministério pastoral, de um ministério de um teólogo...esses outros agentes usados por Deus ele têm suas respectivas funções de reforço doutrinário, de reforço de testemunho”.

Pois bem. A Tradição Apostólica é no catolicismo fonte de doutrina, onde os apóstolos ensinaram a doutrina cristã. Contudo, a Bíblia é suficiente para provar toda a doutrina, mas isso não quer dizer que minimiza a autoridade da Tradição.

A Igreja Católica também responde que se a Bíblia é suficiente para que servem a autoridade das igrejas, as tradições respectivas, os teólogos? Então, em primeiro lugar deve-se afirmar que para os demais protestantes a tradição tem papel semelhante à tradição apostólica no catolicismo, ainda que ensinem que a tradição é falível. Para os adventistas a questão que se compara aqui é sobre a autoridade de Ellen White.

De fato, aqui o pastor fazer diferenciação do dom profético com os outros ministérios que possuem grau diferente, como os pastores, os teólogos, etc. Isso é o mesmo que a Tradição é na Igreja Católica, que tem obviamente grau diferente das interpretações dos padres e dos teólogos. Algo reconhecidamente como parte da Tradição é doutrina revelada.

Ellen White não é fonte de doutrina para os adventistas, e a Tradição é fonte de doutrina para os católicos. No entanto, vemos que, conforme explicado, com as devidas qualificações, o ministério profético de Ellen White para o adventismo é comparável à autoridade da Tradição no catolicismo. De fato, sendo Ellen White considerada inspirada uma doutrina confirmada com sua autoridade se torna inquestionável pelos adventistas do sétimo dia.

 

FONTE: Vídeo. Como as doutrinas adventistas foram realmente formadas. Foi invenção profética ou exegese? (Pastor adventista Ricardo Nogarotto).


Gledson Meireles.

sábado, 14 de março de 2026

Debate Ariel vs. Elizeu


No presente comentário o leitor verificará o que o pastor apresentou para defender sua posição sobre a idolatria, bem como seu conhecimento sobre a doutrina católica, que se reflete em sua resposta.

No início o pastor explica idolatria como culto àquilo que é visível. Mas, de fato, mesmo ao invisível pode haver idolatria, pois a latria é o culto que somente Deus pode receber. Assim, a explicação está incompleta. Entretanto, o que ficou patente foram as incoerências.

 

1)      Imagens para conectar-se com Deus. Isso não é católico

A noção que o pastor apresenta sobre as imagens e seu uso é que essas são objetos pelos quais se tem conexão com Deus. Sendo objetos não criados por Deus, mas confeccionados pelo homem, seriam proibidos.

É preciso explicar esse ponto. A doutrina católica não ensina que as imagens são para se ter contato com Deus, não são usadas para ter contato com o divino, como o pastor pensa.

Esse problema de compreensão é radical, e formula as argumentações. Se há alguém que pensa assim das imagens, está errado. O pastor pensa estar refutando uma doutrina católica, mas está apenas respondendo a algo que não é católico de forma alguma.

Imagens são representações, e recebem o culto pelo que representam, e não possuem poder algum e nem são meios de conectar com Deus e nem com os santos. São objetos de valor religioso por seu símbolo. Esse é o ponto básico, que o pastor não compreende. Passou despercebido em todo o debate.

 

2)      Encarnação de Cristo e as imagens

 

O pastor parece compreender que a humanidade viu a Deus através de Cristo. Mas acredita que a encarnação não permite imagens, que a dimensão corporal de Cristo não é de proveito para a Igreja, e que é preciso crer sem ter visto.

 

No entanto, essa argumentação é falha. A fé em Cristo existe mesmo para aqueles que o viram. Os apóstolos e discípulos viram Cristo e creram, exercendo fé. Assim, a fé em Cristo não foi invalidada pela presença dEle e também não o é por suas imagens, aquelas que O representam.

 

Tomé não havia visto Cristo ressuscitado, e é disso que a passagem trata quando o Senhor afirma que felizes os que creram sem terem visto. Todos nós não vimos a Cristo nem vimos Sua ressurreição, mas cremos. Isso é o que basta.

 

Desse modo, argumentar que imagens de Cristo não seriam permitidas porque a Lei continua em vigor e que as imagens invalidariam a fé é algo sem sentido. Primeiro, a Lei contra os ídolos é eterna, e por isso está em vigor. Mas não há proibição às imagens em si. Muito menos às imagens religiosas. É o ponto número um para entender a questão.

 

 

3)      Imagens em ambiente de culto

As imagens do Antigo Testamento como a arca e os querubins estavam no Templo, lugar de culto por excelência. Assim, é permitido o uso de imagens em ambiente de culto. A argumentação protestante cai aqui.

Quando o pastor argumenta que a confecção das imagens do Antigo Testamento é tratada na Bíblia em passagens narrativas, ou seja, supondo que não há ordem para confeccionar imagens e concluindo que as mesmas são proibidas, é também bastante falha.

Primeiro, o pastor tenta definir as imagens da arca e dos querubins para refutar as imagens cristãs, dizendo que não são imagens de quem já morreu.

Mas, quando diz que a arca representa o trono de Deus e os anjos representam aqueles que protegem a Sua santidade, está mudando de argumento de forma sutil. Está tentando justificar o uso daquelas imagens religiosas, que possuem grande significado espiritual, mas não pode negar o fato de que as mesmas existem no Templo de Deus, lugar de culto. Explicou o sentido daquelas imagens mas não pode negar que as mesmas estavam em lugar de culto. É esse o principal ponto da doutrina católica.

Quando diz que não há ordem para se prostrar diante da Arca, parece que o mesmo não conhece bem a Bíblia, pois é parte integrante da espiritualidade do povo de Deus reverenciar a arca com a prostração. É uma tentativa de refutação bastante falha. Todo o povo de Deus venerava a arca de vários modos, principalmente com a prostração.

Ainda, quando se diz que não se pode justificar algo por uma passagem narrativa da Escritura, isso é um princípio que não há na própria Escritura. O apologista católico, Ariel, mostrou bem essa questão quando apresentou a passagem em que Jesus justifica a Sua atitude por meio de uma passagem narrativa. O pastor tentou refutar explicando o contexto da passagem, mas não o fato de que a mesma é narrativa e foi utilizada pelo Senhor Jesus para justificar Sua autoridade e a permissão que os discípulos tinham para agirem como agiram.

Ou seja, a explicação do pastor sobre as imagens e a explicação do mesmo sobre a passagem narrativa foram utilizadas no lugar em que deveria haver resposta sobre os fatos: 1º - há imagens no lugar de culto e 2º - passagem narrativa é usada para validar um comportamento. Contra fatos não há argumento.

Outra questão é que o que Deus mandou fazer seria ornamento. Mas a Arca não é ornamento, mas um símbolo de verdade espiritual sublime. Ela não foi feita para ornamentar, mas para ensinar uma verdade espiritual. A Arca não é mero objeto de decoração, mas símbolo do trono de Deus, como o pastor mesmo acredita. Assim, deve sujeitar-se a mais essa refutação.

Outro ponto é que nem todas as imagens feitas foram ordenadas diretamente por Deus, mas os artistas tinham a inspiração de Deus para agirem livremente e enfeitar o templo com imagens sagradas. Imagens que serviam de ensino de verdades espirituais.

E, por fim, Josué naquele momento, em Josué 7, estava em momento de frustração, como diz o pastor, mas isso nada tem a ver com sua prostração diante da arca, ou seja, com o gesto de prostração em si mesmo, já que era o modo comum do povo de Deus de venerar a Arca da Aliança.

Quando Deus manda que Josué se levante não está ligado ao fato de que tenha reverenciado a arca, mas manda que o mesmo não fique ali parado, pois estava ali há horas, mandando-o agir conforme era o seu dever: tirar o interdito e ir santificar o povo (vv. 11-13).

Até mesmo as palavras do Senhor a Josué mostram isso, pois não questiona sua atitude para com a Arca, mas pergunta por que estava ele com o rosto por terra. E depois manda-o fazer o necessário para a santificação do povo que havia pecado.

Assim como o comportamento de Davi que comeu os pães da proposição não é norma para todos fazerem isso, mas justificou a ocasião em que os discípulos colhiam espigas milho no sábado para alimentarem-se, assim os exemplos citados da Bíblia orientam e mostram a essência do comportamento cristão de acordo com a doutrina bíblica em todos os assuntos necessários.

Quando a arca saía do templo, carregada em procissão solene, o povo devia manter certa distância. Não é uma ordem para afastar-se da arca, como se fosse uma doutrina bíblica para todos os tempos, mas uma medida de afastamento por reverência bastante profunda. Usar essa passagem simplesmente como uma ordem para afastar-se da arca é uma explicação bastante frágil. De fato, a arca era muito reverenciada, com a aprovação de Deus, por todos os fieis judeus. Desse modo, as imagens no Antigo Testamento estavam no ambiente de culto e eram veneradas.

 

4)      Sábado e Domingo e as imagens

 

O apologista católico mostrou que a autoridade da Igreja apostólica e os indícios bíblicos fundamentam a guarda do domingo e não do sábado, mas argumentou que essa mudança não está clara na Bíblia. Por que os protestantes a aceitam?

O pastor acredita igualmente que o princípio para a guarda do domingo está na Bíblia e por isso aceita essa observância, mas diz que não guarda um dia apenas, e diz que não há os princípios em relação às imagens. O argumento católico é que assim como na questão do domingo há princípios bíblicos, como mostrados acima, para o uso correto das imagens.

 

O pastor defende que não é permitido uso de imagens no culto, que as mesmas não podem ser usadas para se conectar com Deus, e que a prostração, e qualquer reverência às imagens constitui idolatria. Contudo, a Bíblia mostra que as primeiras imagens estavam no Templo, ambiente de culto, e eram muito veneradas. Ainda, em nenhum lugar há o ensino de que as imagens são usadas para conectar-se com Deus, e isso é um erro básico que o pastor acredita e que pode ser empecilho para que o mesmo entenda a verdadeira doutrina, ou seja, de que as imagens na Bíblia e na Igreja são usadas com fins de ensinar verdades espirituais.

 

5)      A imortalidade da alma

 

O tema veio à tona no debate, e o pastor crê que os santos estão no céu, sabe que há discussão no meio protestante sobre a possibilidade de que os mesmos intercedam pelos vivos, mas nega que possamos pedir intercessão aos santos. Nega também que os mesmos estejam em oração, pois crê que há somente descanso no céu para as almas. Ou seja, nem mesmo oração poderiam fazer, o que redunda na conclusão que o pastor acredita que a oração dos santos no céu seria para eles algo cansativo. Há momentos no debate em que há clara alegação de que oração, combate, etc., é cansativo e por isso os santos estão descansando.

 

O problema é que: no céu, junto de Deus, há somente felicidade. Não há cansaço. A alma, sendo espiritual, não pode se cansar. Para os que não creem na imortalidade da alma, devem estudar o tema para aprender a doutrina bíblica.

 

Enfim, essas foram as considerações sobre o que o debatedor protestante apresentou no debate sobre a Idolatria.

 

6)      A prostração

 

Primeiro, o pastor argumenta que a prostração em si é adoração. O exemplo de Naamã foi usado para isso. Ele argumenta que se Naamã pediu perdão porque iria com o seu patrão ao templo e se prostraria diante de um deu falso com ele, então o gesto em si era adoração. Mas é justamente o contrário.

 

De fato, Eliseu permitiu que Naamã continuasse a frequentar o templo a trabalho e ali prostrar-se. O pastor afirma que seria um gesto civil, social. Mas, essa explicação não responde, porque não é permitido saudar um ídolo mesmo civilmente. Assim, o pastor está refutado. Mas continuemos.

 

A verdadeira adoração começa no coração e é mostrada no ato. Se Naamã foi convertido, não mais adorava deus falso, mas apenas o Deus verdadeiro, a sua prostração, se fosse em si adoração, o tornaria idólatra. Ele não poderia adorar aquele ídolo em seu íntimo e nem prostrar-se com essa intenção.

 

Portanto, Naamã iria prostrar-se com o seu patrão no culto ao deus falso apenas como acompanhante do patrão, mas sem a intenção de adorar, o que tornava o gesto um simples gesto, sem sentido.

 

Desse modo, o gesto em si pode ter vários sentidos conforme o que é definido no íntimo do coração daquele que o faz. Naamã não mais servia ao ídolo, e sua prostração não tinha nada mais a ver com aquele deu falso.

 

Veja como a verdade é sublime.

 

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

FONTE: VÍDEO 


Gledson Meireles.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Livro: A Reforma Protestante, uma visão adventista, Glauber Araújo, 2017.

Um cristão no século primeiro, nos dias de Cristo e dos apóstolos, nos quarenta dias em que Cristo ficou na terra após a ressurreição, não tinha ainda a clareza da fé e da doutrina da Igreja como temos hoje. Também, mesmos nos anos posteriores, até o final do século primeiro.

Esse é o primeiro princípio que o cristão católico precisa ter. Os apóstolos criam em Jesus, criam em Sua obra de salvação, criam que Ele é o Filho de Deus, em unidade com o Pai, e criam no Espírito Santo prometido. Criam no Pai, no Filho e no Espírito Santo, e batizavam nesse Nome.

No entanto, se perguntássemos a eles, e aos demais cristãos, o que é a Trindade, não saberiam dizer, porque o termo trindade ainda não havia sido usado. Existia a realidade, mas não o nome. De igual modo, não havia a doutrina sobre Deus toda desenvolvida.

Os apóstolos e primeiros cristãos conheciam os familiares de Jesus. Conheciam de perto a virgem Maria, e sabiam que Jesus era seu filho único. Por isso, na cruz ela foi entregue aos cuidados do discípulo amado, São João apóstolo.

Assim, não tinham tido nenhum problema quanto a esse fato, e ninguém pensava em dizer que Maria teve outros filhos. Chamavam alguns de seus familiares próximos, criados no núcleo familiar de Jesus, de seus irmãos e irmãs, na língua aramaica, mas conheciam as verdadeiras relações parentescas desses com o Senhor.

Dessa forma, se fossem perguntados por algum desavisado se os irmãos de Jesus eram filhos de Maria, diriam que não, obviamente, pois Ele fora filho único. Essas questões não estavam em discussão no primeiro século.

São João recebeu Maria em sua casa, como mãe. Esse sentimento do discípulo amado era o mesmo de todos os demais apóstolos, que nutriam carinho especial pela mãe do Senhor. Então, todos os cristãos tinham amor filial para com a virgem Maria.

Mas, é esperado que não houve uma doutrina completa sobre a pessoa de Maria, já que não havia tido questionamentos que impulsionassem o desenvolvimento nesse campo. A realidade existia, da virgem mãe, mãe dos discípulos, e etc., mas não uma mariologia como mais tarde foi se desenvolvendo no mesmo sentido original.

O mesmo sobre o pecado original, a imaculada conceição, e outras doutrinas, que existiam em seu núcleo e eram cridas, estão na Bíblia, mas não são respondidas todas as dificuldades claramente. Os cristãos criam na santidade total de Cristo, como criam na santidade perfeita da Sua mãe Maria. No entanto, não havia questionamentos a respeito desses temas. Sabiam que Cristo é Deus, que Maria é humana, mas não havia ainda explicação da santidade de Maria, recebida por graça, desde o nascimento, ao mesmo tempo em que todos são salvos por Cristo.

Todos criam que Jesus é o Messias, o Cristo, o Filho de Deus, verdadeiro homem, vindo do céu, igual ao Pai. Mas não tinham toda a doutrina da união hipostática pronta, nem esses termos eram utilizados. Sabiam que não se podia negar que o Cristo veio na carne, mas não tinham o repertório preparado para enfrentar objeções à doutrina das duas naturezas de Cristo, por exemplo, pois essas questões feitas desse modo ainda não haviam surgido.

A respeito da justificação, também era doutrina revelada e conhecida, mas não nos termos que vieram ser desenvolvidos mais tarde. Não poderiam dizer a exata relação entre fé e obras, não podiam falar de justificação forense, como afirmam os protestantes, não tinham fórmulas prontas para explicar a doutrina. No entanto, a mesma já existia.

Se questionássemos sobre o dia de culto cristão, saberiam que se tratava do primeiro dia da semana, dia do Senhor, o dia em que reuniam-se para ler as Escrituras, fazer orações, comer do Corpo e do Sangue de Jesus, como cristãos.

Mas, se colocássemos a questão do sábado e do domingo para discussão, eles não estavam prontos a responder com todo o desenvolvimento apologético que os cristãos católicos possuem hoje em dia. Sabiam falar do sábado da Antiga Aliança como dia de repouso, hoje cumpriam as muitas prescrições legais, e sabiam do dia da ressurreição, que agora festejavam reunindo-se para cumprir o que Cristo disse: Fazei isso em memória de mim, mas não viam uma coisa contra a outra.

Assim, é preciso muita cautela quando se diz que uma doutrina não existia no primeiro século e que não está na Bíblia, porque não se encontra a mesma explícita nas Escrituras, e também não se vê a mesma claramente defendida nos padres da Igreja no período apostólico. Deve-se fazer a justa distinção entre o que é de fato um são desenvolvimento e uma ruptura.

O cristão adventista que lê as linhas acima certamente fica surpreso com o que está acompanhando e, por certo, já entrevê objeções sérias ao que está sendo apresentado. Mas, com calma verá que essas coisas são irrefutáveis.

Pois bem. O autor concorda que a Reforma Protestante fragmentou a cristandade, e apresenta dados de que há 47 mil denominações, algo que incomoda muitos apologistas protestantes. Também afirma que a reforma foi uma verdadeira revolução religiosa.

Enfim, sabendo que os adventistas do sétimo dia vieram trezentos anos depois da reforma, apresenta o livro como reflexão sobre o que une os adventistas ao movimento iniciado pelo padre Martinho Lutero.

O primeiro capítulo é escrito por Jean Rukowski. Nessa apresentação convidamos o leitor adventista a refletir mais, a mergulhar em águas mais profundas, em busca da verdade.

Rukowski afirma que a simples expressão “reforma” já indica que há algo anterior que está sendo reformado. De fato, há a Igreja Católica. Não se trata da Igreja Ortodoxa, já separada de Roma há algum tempo, nem de quaisquer outras igrejas orientais, que também se afastaram da unidade eclesiásticas em 451 d. C., nem de outros grupos heréticos que se opunham à Igreja Católica na Idade Média, como cátaros e valdenses. Nenhum desses tantos partidos estava sendo reformado naquele momento. A Reforma iniciou-se no seio da Igreja Católica Apostólica Romana, por membros insatisfeitos, em sua maioria padres.

Isso já é curioso. Deus está olhando para uma parcela importante do Seu povo. Imagine a Igreja espalhada em toda a terra, mas a Reforma inicia-se no Ocidente, naquela Igreja que tem a sede na cidade de Roma.

Ainda, todos criam que aquela igreja era a mesma que vinha dos tempos apostólicos, mas que havia abusado do seu poder, afastado da sua mensagem em vários pontos, e propunham um retorno às origens, uma volta à piedade da igreja apostólica, como afirma Rukowski.

Portanto, a Igreja Católica é a Igreja verdadeira. Os adventistas dirão que muitos dos membros verdadeiros estão no meio católico, mas que a mesma não seria a Igreja verdadeira, mas apenas uma das igrejas, a maior, a mais importante, a mais influente. No entanto, mesmo essa ideia é problemática, porque Deus estaria lidando com a maior parte do seu povo em um sistema diferente daquele que seria o verdadeiro, o que não faz o menor sentido, uma vez que o Cristianismo já tinha quase quinze séculos de existência. Assim, a tentativa de reforma da Igreja é mais um indício histórico da sua veracidade.

Gledson Meireles.