Apocalipse 4: A visão do trono celestial
O texto abaixo é um breve
estudo com base no Comentário ao Apocalipse, de Carlos Nougué, e também no
comentário Revelação de Jesus Cristo, do teólogo adventista Ranko Stefanovic, para um
diálogo com os irmãos adventistas do sétimo dia.
O cristão adventista que esteja estudando a doutrina católica encontrará um material importante aqui.
Versículo
1:
O comentador cristão católico lembra que alguns supõem ser esse verso uma alusão a 1 Ts 4,
14-17. Podemos assim dizer que seria o arrebatamento da Igreja. Mas, como
Ezequiel 1, 1, que escreve: “e eis que os céus se abriram e tive visões de
Deus”, as portas dos céus se abrem. Então, trata-se apenas de mais uma visão,
em comparação a Ap 1, 9. A porta aberta no céu não necessariamente indica que o
arrebatamento do apóstolo signifique o arrebatamento da Igreja, mas que o
apóstolo subiu ao céu para ter as visões.
Ranko Stefanovic,
comentador adventista, explica que a porta aberta é a do templo celestial. O
que concorda com o comentário cristão católico.
Versículo 2: A visão de
Deus sem nomeação e em sua essência invisível simbolizada: Alguém sentado. É o Senhor Deus. Na interpretação católica antiga,
na Idade Média, houve quem entendesse tratar-se de Cristo sentado aqui, mas
isso não é correto, visto que Cristo ainda não entrou em cena nessa visão.
Versículo 3: Deus é
apresentado com aparência de pedras preciosas, de jaspe e sardônica. A Bíblia de Jerusalém traduz jaspe e cornalina.
Deus é a luz das criaturas que já habitam
ou ainda habitarão no céu, diz o comentador. O texto de Ez 18, 13 e Ap 21
são lembrados. O jaspe pode ser da cor verdade, conforme diz André de Cesareia,
e o arco-íris, continua o comentador, simboliza em Gênesis e Ezequiel a
misericórdia, é aqui apresentado com a tonalidade verde de esmeralda.
Versículo
4:
há muitas interpretações católicas sobre a identidade dos 24 anciãos. O
comentador expõe a sua opinião, de que se trata de anjos. Muitos dos antigos comentadores
afirmam que os 24 anciões simbolizam todos os eleitos. Ou seriam os 12
patriarcas e os 12 apóstolos. Allo afirma que se trata do senado de Deus, como
aparece em Isaías e Daniel, e seriam anjos. Os anciãos são entendidos como
anjos, pois em 7, 13 aparecem distintos daqueles que chegam da grande
tribulação vestidos de branco. Então seriam os anjos reitores do tempo, da história humana e das revoluções do
universo. Mas, aqui creio que podemos continuar com a intepretação antiga
em bem fundada de que se trata de um símbolos dos santos eleitos do AT e NT no
céu.
Para os adventistas os
24 anciãos representam a humanidade redimida e glorificada. Mas, pergunta-se:
como foram aos céus? Isso porque os adventistas não creem na imortalidade da
alma, e então para ir ao céu haveria necessidade da ressurreição. No entanto, a
ressurreição ainda não ocorreu. Assim, pensam que os santos que foram ressuscitados
em Mt 27, 52 teriam ido com Jesus ao céu. E para isso também cita o texto de
Efésios 4, 8, onde Jesus tendo subido às alturas levou cativo o cativeiro.
Primeiro, é verdade que
na ascensão Jesus levou os santos ao céu.
Segundo, Jesus subiu
aos céus em Atos 1, 9, e ninguém foi visto subindo com Ele. Assim, os que
subiram com Jesus foram invisivelmente.
Terceiro, antes da
ressurreição de Jesus Cristo não há santos glorificados. Se os santos que foram
ressuscitados e vistos foram ressuscitados glorificados, estariam glorificados
antes de Jesus ressuscitar, o que não é exato. Assim, esses santos
ressuscitaram assim como Lázaro, em João 11, em uma ressurreição para a vida
física. Eles não subiram ressuscitados ao céu. Subiram em espírito.
Quarto, o texto de
Efésios 4, 8 diz respeito aos santos que estavam cativos na morte, santos do
Antigo Testamento e todos os que morrem até a ressurreição de Cristo, os quais
Jesus levou ao céu em suas almas. Desse modo, eles podem estar no céu na glória
em suas almas imortais.
Entretanto, diz Efésios
2, 6: e com ele nos ressuscitou e nos fez
assentar nos céus, em Cristo Jesus. Em vida, estamos espiritualmente
assentados em Cristo nos céu. Após a
morte, os salvos estão com Cristo
(cf. Fl 1, 23). Dessa forma, os vinte e quatro anciãos são pessoas redimidas,
mas ainda não ressuscitadas, e estão espiritualmente, nas suas almas, no céu.
Veja que Efésios 4, 9
afirma que Cristo desceu às profundezas da terra e depois subiu: Que significa “subiu”, senão que ele também
desceu às profundezas da terra?. Isso significa que é após a ressurreição
que Jesus levou os cativos salvos, todos eles, e não somente um grupo de
cativos. O texto é geral.
Caso contrário, os
ressuscitados deveriam ficar à espera de Cristo por três diz para depois subir.
Estariam ressuscitados glorificados antes do redentor. E seriam um grupo
apenas, e não todos os salvos. Por isso, essa intepretação adventista não tem
respaldo bíblico.
Assim, crendo na alma
imortal, todos os redimidos que estavam na prisão da morte foram levados ao céu
quando Cristo subiu para o céu.
Versículo
5:
os relâmpagos, vozes e trovões figuram o poder de Deus. As sete lâmpadas, que
são os sete espíritos, já foram entendidos, pelos antigos, como anjos de Deus.
Mas a interpretação comum na Igreja Católica é de que se trata do Espírito
Santo, como está também em Ap 1, 4. O comentador afirma que mesmo André de
Cesareia, que entendia tratar-se de anjos, afirmou que poderia não o ser, e
assim seriam as energias do Espírito
vivificante. Temos que se trata realmente do Santo Espírito de Deus.
Versículo
6:
o mar de vidro é a infinitude do reino espiritual e a imensidão do universo
material, afirma o comentador. Comentadores medievais virão a imensidão dos
santos nesse símbolo. Poderiam ser também símbolos de qualidades de Cristo,
como da realeza, do sacerdócio, da humanidade e da obra de dispensação do
Espírito vivificante. Os quatro animais cheios de olhos simbolizam anjos que governam, sob Deus, a criação.
Mas, outras
intepretações comuns, como dos quatro animais simbolizando os quatro
evangelistas ou os quatro evangelhos, são plausíveis. Nougué afirma que isso “é
difícil de aceitar”, visto que é incomum um superior figurar um inferior. Mas,
se os evangelhos são tidos em sua acepção real de Palavra de Deus, são assim superiores aos anjos. Portanto, o
símbolo tradicional referente aos evangelhos pode manter-se razoavelmente.
Também, ainda assim, podem simbolizar o conjunto
dos pregadores do Verbo, referida por Allo como a intepretação dos
comentadores que estenderam a interpretação dos 4 evangelhos. É importante
notar que essas noções lançaram luz sobre o que pensam os cristãos adventistas
sobre certas passagens do Apocalipse.
Versículo
7:
os quatro animais são anjos.
Versículo
8:
Santo, Santo, Santo é parte da liturgia da missa.
Versículo
9-11:
os anciãos falam em nome dos homens, segundo o comentador. Mas, como vimos
acima, os anciãos são santos redimidos, e por isso falam da própria salvação.
Os santos que morreram já estão no céu.
A respeito do templo
celeste e dos templos terrestres. O sacrifício cruento antigo é figura do
sacrifício incruento cristão, diariamente celebrado, onde Cristo está presente
pela transubstanciação.
O templo antigo é
figura do templo novo. A liturgia no templo celestial é o protótipo para a
liturgia da missa, que aos domingos principalmente celebra o sacrifício de
Cristo até que Ele venha. Nas igrejas há o altar, sob o altar há relíquias
muitas vezes, lembrando as almas debaixo no altar no Apocalipse. Sobre o altar
há Cristo nas espécies pão e vinho, o Cordeiro imolador, o mediador, e diante
do altar há incenso, também usado na liturgia em dias especiais, e prostrações
e cânticos. Interessante essas palavras citadas de Bacuez, inclusive quando diz
que na liturgia tem também o livre que não é dado a todos ler e compreender.
Certamente fala da Escritura, onde a leitura não era comum a todos e a
compreensão deve ser conforme o magistério da Igreja. De qualquer forma, mostra
a origem bíblica da liturgia cristão católica.
Fonte: NOUGUÉ, Carlos, Comentário ao Apocalipse, Edições Santo Tomás, 2025.
STEFANOVIC,
Ranko. Revelation of Jesus Christ, Andrews University Press, Michigan, 2002.
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