domingo, 25 de janeiro de 2026

Livro: Revelação de Jesus Cristo: comentário sobre o livro da revelação, de Ranko Stefanovic

Apocalipse 4: A visão do trono celestial

O texto abaixo é um breve estudo com base no Comentário ao Apocalipse, de Carlos Nougué, e também no comentário Revelação de Jesus Cristo, do teólogo adventista Ranko Stefanovic, para um diálogo com os irmãos adventistas do sétimo dia.

O cristão adventista que esteja estudando a doutrina católica encontrará um material importante aqui.

Versículo 1: O comentador cristão católico lembra que alguns supõem ser esse verso uma alusão a 1 Ts 4, 14-17. Podemos assim dizer que seria o arrebatamento da Igreja. Mas, como Ezequiel 1, 1, que escreve: “e eis que os céus se abriram e tive visões de Deus”, as portas dos céus se abrem. Então, trata-se apenas de mais uma visão, em comparação a Ap 1, 9. A porta aberta no céu não necessariamente indica que o arrebatamento do apóstolo signifique o arrebatamento da Igreja, mas que o apóstolo subiu ao céu para ter as visões.

Ranko Stefanovic, comentador adventista, explica que a porta aberta é a do templo celestial. O que concorda com o comentário cristão católico.

Versículo 2: A visão de Deus sem nomeação e em sua essência invisível simbolizada: Alguém sentado. É o Senhor Deus. Na interpretação católica antiga, na Idade Média, houve quem entendesse tratar-se de Cristo sentado aqui, mas isso não é correto, visto que Cristo ainda não entrou em cena nessa visão.

Versículo 3: Deus é apresentado com aparência de pedras preciosas, de jaspe e sardônica. A  Bíblia de Jerusalém traduz jaspe e cornalina. Deus é a luz das criaturas que já habitam ou ainda habitarão no céu, diz o comentador. O texto de Ez 18, 13 e Ap 21 são lembrados. O jaspe pode ser da cor verdade, conforme diz André de Cesareia, e o arco-íris, continua o comentador, simboliza em Gênesis e Ezequiel a misericórdia, é aqui apresentado com a tonalidade verde de esmeralda.

Versículo 4: há muitas interpretações católicas sobre a identidade dos 24 anciãos. O comentador expõe a sua opinião, de que se trata de anjos. Muitos dos antigos comentadores afirmam que os 24 anciões simbolizam todos os eleitos. Ou seriam os 12 patriarcas e os 12 apóstolos. Allo afirma que se trata do senado de Deus, como aparece em Isaías e Daniel, e seriam anjos. Os anciãos são entendidos como anjos, pois em 7, 13 aparecem distintos daqueles que chegam da grande tribulação vestidos de branco. Então seriam os anjos reitores do tempo, da história humana e das revoluções do universo. Mas, aqui creio que podemos continuar com a intepretação antiga em bem fundada de que se trata de um símbolos dos santos eleitos do AT e NT no céu.

Para os adventistas os 24 anciãos representam a humanidade redimida e glorificada. Mas, pergunta-se: como foram aos céus? Isso porque os adventistas não creem na imortalidade da alma, e então para ir ao céu haveria necessidade da ressurreição. No entanto, a ressurreição ainda não ocorreu. Assim, pensam que os santos que foram ressuscitados em Mt 27, 52 teriam ido com Jesus ao céu. E para isso também cita o texto de Efésios 4, 8, onde Jesus tendo subido às alturas levou cativo o cativeiro.

Primeiro, é verdade que na ascensão Jesus levou os santos ao céu.

Segundo, Jesus subiu aos céus em Atos 1, 9, e ninguém foi visto subindo com Ele. Assim, os que subiram com Jesus foram invisivelmente.

Terceiro, antes da ressurreição de Jesus Cristo não há santos glorificados. Se os santos que foram ressuscitados e vistos foram ressuscitados glorificados, estariam glorificados antes de Jesus ressuscitar, o que não é exato. Assim, esses santos ressuscitaram assim como Lázaro, em João 11, em uma ressurreição para a vida física. Eles não subiram ressuscitados ao céu. Subiram em espírito.

Quarto, o texto de Efésios 4, 8 diz respeito aos santos que estavam cativos na morte, santos do Antigo Testamento e todos os que morrem até a ressurreição de Cristo, os quais Jesus levou ao céu em suas almas. Desse modo, eles podem estar no céu na glória em suas almas imortais.

Entretanto, diz Efésios 2, 6: e com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, em Cristo Jesus. Em vida, estamos espiritualmente assentados em Cristo nos céu. Após a morte, os salvos estão com Cristo (cf. Fl 1, 23). Dessa forma, os vinte e quatro anciãos são pessoas redimidas, mas ainda não ressuscitadas, e estão espiritualmente, nas suas almas, no céu.

Veja que Efésios 4, 9 afirma que Cristo desceu às profundezas da terra e depois subiu: Que significa “subiu”, senão que ele também desceu às profundezas da terra?. Isso significa que é após a ressurreição que Jesus levou os cativos salvos, todos eles, e não somente um grupo de cativos. O texto é geral.

Caso contrário, os ressuscitados deveriam ficar à espera de Cristo por três diz para depois subir. Estariam ressuscitados glorificados antes do redentor. E seriam um grupo apenas, e não todos os salvos. Por isso, essa intepretação adventista não tem respaldo bíblico.

Assim, crendo na alma imortal, todos os redimidos que estavam na prisão da morte foram levados ao céu quando Cristo subiu para o céu.

Versículo 5: os relâmpagos, vozes e trovões figuram o poder de Deus. As sete lâmpadas, que são os sete espíritos, já foram entendidos, pelos antigos, como anjos de Deus. Mas a interpretação comum na Igreja Católica é de que se trata do Espírito Santo, como está também em Ap 1, 4. O comentador afirma que mesmo André de Cesareia, que entendia tratar-se de anjos, afirmou que poderia não o ser, e assim seriam as energias do Espírito vivificante. Temos que se trata realmente do Santo Espírito de Deus.

Versículo 6: o mar de vidro é a infinitude do reino espiritual e a imensidão do universo material, afirma o comentador. Comentadores medievais virão a imensidão dos santos nesse símbolo. Poderiam ser também símbolos de qualidades de Cristo, como da realeza, do sacerdócio, da humanidade e da obra de dispensação do Espírito vivificante. Os quatro animais cheios de olhos simbolizam anjos que governam, sob Deus, a criação.

Mas, outras intepretações comuns, como dos quatro animais simbolizando os quatro evangelistas ou os quatro evangelhos, são plausíveis. Nougué afirma que isso “é difícil de aceitar”, visto que é incomum um superior figurar um inferior. Mas, se os evangelhos são tidos em sua acepção real de Palavra de Deus, são assim superiores aos anjos. Portanto, o símbolo tradicional referente aos evangelhos pode manter-se razoavelmente. Também, ainda assim, podem simbolizar o conjunto dos pregadores do Verbo, referida por Allo como a intepretação dos comentadores que estenderam a interpretação dos 4 evangelhos. É importante notar que essas noções lançaram luz sobre o que pensam os cristãos adventistas sobre certas passagens do Apocalipse.

Versículo 7:  os quatro animais são anjos.

Versículo 8: Santo, Santo, Santo é parte da liturgia da missa.

Versículo 9-11: os anciãos falam em nome dos homens, segundo o comentador. Mas, como vimos acima, os anciãos são santos redimidos, e por isso falam da própria salvação. Os santos que morreram já estão no céu.

A respeito do templo celeste e dos templos terrestres. O sacrifício cruento antigo é figura do sacrifício incruento cristão, diariamente celebrado, onde Cristo está presente pela transubstanciação.

O templo antigo é figura do templo novo. A liturgia no templo celestial é o protótipo para a liturgia da missa, que aos domingos principalmente celebra o sacrifício de Cristo até que Ele venha. Nas igrejas há o altar, sob o altar há relíquias muitas vezes, lembrando as almas debaixo no altar no Apocalipse. Sobre o altar há Cristo nas espécies pão e vinho, o Cordeiro imolador, o mediador, e diante do altar há incenso, também usado na liturgia em dias especiais, e prostrações e cânticos. Interessante essas palavras citadas de Bacuez, inclusive quando diz que na liturgia tem também o livre que não é dado a todos ler e compreender. Certamente fala da Escritura, onde a leitura não era comum a todos e a compreensão deve ser conforme o magistério da Igreja. De qualquer forma, mostra a origem bíblica da liturgia cristão católica.

Fonte: NOUGUÉ, Carlos, Comentário ao Apocalipse, Edições Santo Tomás, 2025.

STEFANOVIC, Ranko. Revelation of Jesus Christ, Andrews University Press, Michigan, 2002.

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