Comentando: Capítulo 9
Batistas, a ceia do
Senhor e a tradição cristã
Ernest
A. Payne afirmou que entre os batistas não havia unanimidade quando à Ceia do
Senhor, e que não existia uma tradição dominante. Essa afirmação será
confrontada por Michael A. G. Haykin, que afirma ser “pouco preciso” a
conclusão de Payne e também que tal posição deve ser “seriamente considerada”.
Para
nós cristãos católicos, que temos uma tradição milenar, e que essas questões
foram debatidas ao longo dos séculos, podendo ser definida no século XIII,
ainda que outras tantas divergências tenham surgido após essa definição, nós
podemos ficar tranquilos quanto à precisão e veracidade da doutrina clara da
eucaristia. Entre nós há unidade e a tradição é clara.
No
entanto, para os batistas, que rompem com a tradição no sentido de ter o texto bíblico
como autoridade única e final em matéria de fé, lendo os padres da Igreja,
concílios e etc., e aceitando somente o que a interpretação vigente na
denominação aceita, tem-se que tal opinião de renomados historiadores de que
não há unidade de fé entre os batistas ao longo dos séculos de sua existência,
que é relativamente recente, do século 17 ao 21, é mais um ponto negativo para
essa tradição.
De
fato, quanto tempo tivemos para definir questões cruciais para a vida cristã, e
uma denominação surge em cena e reinventa a doutrina com intuito de buscar
resgatá-la.
À
primeira vista isso já parece fora daquilo que Jesus prometeu aos apóstolos, de
que o Espírito Santo guiará a Igreja para toda a verdade. Mas no século 17 a
questão da eucaristia já havia sido esclarecida satisfatoriamente, pois a
Igreja Católica havia trabalhado para isso, em muitas ocasiões, inclusive no
Concílio de Trento. Assim, não é prudente abraçar a decisão de um grupo cristão
dissidente que destoe da tradição cristã apostólica.
O
padre Zwínglio deixou a Igreja e ensinava que a ceia era um memorial. Debates
recentes mostraram que na sua opinião a ceia era também algo mais. Disso
podemos esperar, já que um padre que cria na transubstanciação e conhecia a
grandeza dessa doutrina certamente preservou algo dela.
No
entanto, a ideia básica de que a Ceia era um memorial apenas dominou a fé de
muitos cristãos dissidentes, e os batistas abraçaram essa doutrina, no século
19. Assim, um padre cristão católico diverge da Igreja e influencia uma
tradição cristã protestante surgida no século dezessete.
No
século 19 a doutrina batista predominante era zwingliana, ou seja, os elementos
da ceia do Senhor eram meramente memoriais.
Haykin
mostra que antes dos batistas havia prevalecido no Protestantismo a visão de
João Calvino, onde a ceia possui a natureza de sinais e garantia de uma
realidade presente. Pela fé é transmitido o que é simbolizado na ceia, o
próprio Cristo. Os elementos seriam simbólicos, mas ocorria a realidade espiritual
no momento da celebração. Entre os batistas, mais tarde, a opinião de apenas símbolo
prevaleceu.
Esse reviver sincero da alma...:
Um
texto-chave para a compreensão precisa da doutrina batista é a Segunda
Confissão de Fé de Londres (1677 e 1689). Assim, temos um testemunho
extra-bíblico, uma confissão de fé, um resumo doutrinal, para entender melhor o
entendimento de uma doutrina bíblica em determinada denominação. Embora o
documento não seja tido como infalível, ele é um testemunho, uma bússola
prática, uma expressão da interpretação bíblica ali alcançada.
Assim,
para entender como pensam os batistas não basta ler o que o texto bíblico está
afirmando, mas ler a confissão denominacional e ver como o texto bíblico é
interpretado pelas igrejas batistas. Essa reflexão é importante para entender que
a tradição molda a forma de entender a doutrina.
Desse
modo, para início de conversa, os cristãos batistas não possuem qualquer
vantagem em relação aos cristãos católicos quando esses são criticados por
aderirem à tradição. Eles precisariam provar que sua interpretação é melhor,
exata e correta para substituir a doutrina católica, e mostrar que a Confissão
de Fé acima citada expressa a doutrina fielmente a ponto de suplantar as
definições do Concílio de Trento. Se não, deve-se continuar com a definição oficial
do Concílio de Trento de 1546.
A
declaração de fé batista de 1677 e 1689 tem em consideração confissões de fé
presbiteriana e congregacionalista, com concordâncias doutrinárias demonstrando
solidariedade fundamental com essas comunidades reformadas, como afirma Haykin.
Assim,
os batistas opõem-se à doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana em união
com a tradição reformada. O corpo e o sangue de Cristo estariam presentes
espiritualmente “na fé dos Crentes”.
Outra
observação feita por Haykin é que os batistas tratam não mais de sacramento,
mas de ordenança. É uma boa observação, já que católicos, luteranos,
presbiterianos e congregacionalistas não haviam se oposto ao termo. Os batistas
se colocam mais radicalmente nesse sentido. Os batistas negaram até a
explanação luterana. Afastam-se da tradição católica e luterana.
Nesse
momento, os batistas virtualmente se unem aos reformados, na doutrina
desenvolvida por João Calvino. A comunhão com Cristo, que tem o Seu corpo no
céu, é feita pelo Espírito, como escreve o pastor batista Hercules Collins, que
morreu em 1702.
E
é citado o apologeta batista Benjamin Keach, para o qual a ceia transmite ou
comunica os méritos de Cristo por meio da fé. E o ensino da Segunda Confissão
de Londres é abrangente quanto à ceia: há obrigação de observá-la, ela é uma
lembrança perpétua, confirma na fé nos benefícios trazidos por Cristo, nutre e
faz crescer espiritualmente, para o compromisso com Cristo e comunhão com ele e
uns com os outros, e etc. Isso é apenas um resumo. Vemos que a importância da
Ceia é mantida entre as igrejas que se separaram da Igreja Católica, mas depois
dos luteranos todos negam a presença física sacramental de Cristo.
Os
batistas estavam unidos com os puritanos, e esses contrariavam o pensamento de
zwínglio. Assim, os batistas afastaram-se do zwinglianismo nesse ponto, pode-se
afirmar. Os batistas ainda criam na doutrina e pensamento reformado, de
Calvino. Essa é a doutrina que prevaleceu nos primeiros tempos batistas.
Sua presença, que refrigera a
alma.
Interessante que Haykin mostra o batista William Mitchel (1662-1705)
apresentando a doutrina da ceia em termos calvinistas e enfatizando o caráter
memorial. Ele seguia “Calvino e seus antepassados batistas”, onde a ceia é meio
de nutrição espiritual e onde há encontro com Cristo. É impressionante como o
escritor batista se esforça por enfatizar que a participação do Corpo e Sangue
de Jesus não é feita de maneira corporal e carnal, para negar a
transubstanciação.
Anne
Dutton (1692-1751) escreve que na ceia Jesus se comunica, “tendo seu corpo
entregue e seu sangue derramado”, o que tem semelhança com autores católicos e
que seria uma frase criticada por batistas se lida fora do contexto. Outros a
criticariam de qualquer jeito. Essas observações são feitas para o leitor
entender a importância do tema e a profundidade da doutrina cristã católica da
eucaristia.
Também
é citado o jovem batista Staveley, para o qual, pelas suas palavras, que
concordam com a doutrina de Calvino, a ceia do Senhor era mais que um memorial.
Um memorial do Salvador ausente:
Os batistas começaram a adotar a doutrina de que a Ceia é primária ou meramente
um memorial, um ensino de inspiração zwingliana. Isso se deu no último
trimestre do século XIII. Haykin cita Abraham Booth (1734-1086) falando da ceia
como memorial.
A
visão memorialista da ceia é reconhecida como “mais pobre”. De fato, a visão
católica é riquíssima, bíblica, original. As demais vão afastando-se aos
poucos, mas há teólogos protestantes que tentam aproximar-se novamente.
A mudança para o memorialismo.
Segundo Michael Walker, como reação ao reavivamento do catolicismo inglês os
batistas adotaram a visão memorialista, a partir de 1830, reforçando aquilo que
iniciara com Stutcliff.
Assim,
vemos que a tradição batista tem uma teologia fraca a respeito da ceia do Senhor,
e com isso abre-se o apelo ao resgate da tradição cristã, pode-se dizer.
Gledson
Meireles.
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