quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O que é o lago de fogo em Apocalipse 20, 10?

 Refutação: • Apocalipse 20:10 e o significado do “lago de fogo”


Tradicionalmente o “lago de fogo” é interpretado como o inferno, onde há um fogo espiritual e literal, ou seja, existe mesmo, onde sofrem as almas ímpias e depois os réprobos ressuscitados. O fogo é espiritual, já que é a punição pelo pecado, e literal, já que atinge as almas e corpos ressuscitados não glorificados.

A interpretação mortalista expressa no livro é muito curiosa. Como o lago de fogo é a segunda morte, então a doutrina aniquilacionista ensina que o castigo anterior à segunda morte não é o lago de fogo. Muito curioso. Mas, faltou explicar onde está isso na Bíblia.

Essa noção é, ao que parece, bastante nova, pois cria uma punição temporária por causa do pecado antes da entrada no lago de fogo e enxofre, conceito que não se encontra em nenhum versículo bíblico. Essa é a primeira refutação.

O autor afirma que Ap 20, 14 explica Ap 20, 10, apenas dizendo que o “tormeno eterno”, que é realizado no lago de fogo, é somente a “segunda morte”, no sentido de destruição e inexistência. O primeiro texto citado expressa o seguinte: A morte e a morada dos subterrânea foram lançadas no tanque de fogo. A segunda morte é esta: o tanque de fogo (Ap 20, 14). O segundo texto afirma: O Demônio, sedutor delas, foi lançado num lago de fogo e de enxofre, onde já estavam a Fera e o falso profeta, e onde serão atormentados, dia e noite, pelos séuclos dos séculos (Ap 20, 10).  Na doutrina mortalista o tormento seria a inexistência. Isso já pode ser considerado parte da primeria refutação. No entanto, nessa simbologia temos o Demônio, que é espírito, lançado no fogo. A imagem supõe a existência da besta e do falso profeta ainda ali. De fato, não faz muito sentido o tormento simbolizar a inexistência.

Mas, é interessante que o autor mortalista admitiu que nesse verso é mostrado o “tormento eterno dos ímpios”, embora interprete esse “tormento” como a inexistência. Como visto, é óbvio, permanecendo o fato de que a linguagem bíblica expressa claramente o tormento eterno. O restante é uma interpretação do mortalismo, e vamos ver se ela é válida. Pelo primeiro sinal de incoerência, parece que não. De fato, a Bíblia não ensina que os ímpios sofrerão proporcionalmente e depois serão destruídos. Pelo contrário, o tormento se dá no lago de fogo e não antes.

Assim, o conceito tradicional de segunda morte é que essa punição eterna vem após a punição temporal da morte física. É uma segunda punição. Ou seja, há duas punições para o pecado, a morte e o inferno. A primeria é a morte física por onde todos passam, salvos e não salvos. A segunda é o inferno, onde somente os réprobos sofrem. É preciso ver que mesmo os salvos, já perdoados e na posse da vida eterna, passam pelo salário do pecado que é a morte (cf. Rm 6, 23) e não estão mais sob o poder da segunda morte. De fato, o texto de Rm 6, 23 tem estreita relação com a segunda morte, ao dizer que a morte é o salário do pecado e afirmar que a vida eterna é o dom de Deus. Assim, se entende que São João use a expressão segunda “morte” para tratar da morte final.

Como a morte é o salário do pecado, tanto a primeira como a segunda são punições. Mas, a segunda é irreversível, pois os mortos ficam presos nas suas cadeias longe de Deus eternamente. A primeira foi uma prisão temporária, a segunda é eterna, pode-se dizer. Portanto, morte não é inexistência.

Dessa forma, não é a doutrina aniquilacionista que possui uma interpetação plausível com mais sentido. Assim, pode-se pensar que todos passam pela primeira morte, porque todos pecaram, mas somente os que rejeitarem a salvação é que sofrerão a segunda punição, a segunda morte, por rejeitarem o perdão de Deus.

Como já afirmado, a morte não é inexistência. Os ímpios sofrerão no final “no” lago de fogo, e não antes de entrarem no lago de fogo, como fica na interpretação que o livro mortalista apresenta.

Desse modo, é preciso notar que há um lugar de punição, o tanque de fogo e enxofre, para os que serão condenados após o juízo.

O argumento de que a segunda morte poderia ser a “separação da alma e do corpo” é muito bom, é franco, pode-se dizer, usando a linguagem que o autor mortalista empregou para se referir a um argumento imortalista. Faz sentido perguntar. Mas ele parte do pressuposto que o termo “morte” no versículo está sendo usado no sentido literal, explicando uma figura de linguagem, e que esse sentido seria o mesmo que inexistência.

Diante disso, pode-se responder que a linguagem do Apocalipse é simbólica, e por isso a explicação da segunda morte é necessária, e se trata de ela ser “o lago de fogo”. O autor discorda dessa interpretação, e afirma o contrário, ou melhor, afirma que o lago de fogo é que é usado como símbolo da segunda morte. Essa explicação é curiosa, e vamos testá-la. O símbolo é a segunda morte ou o lago de fogo? Certamente, o lago de fogo e, possivelmente, ambos. Os ímpios estão mortos em faltas e pecados (Ef 2, 1). O salário do pecado é a morte, como afirma a Escritura. Serão mortos aqueles que já estão mortos? Sim. Uma vez que os mortos em faltas e pecados estão mortos espiritualmente, e não literalmente, estão em condenação mas não sofrendo a condenação ainda, é perfeitamente compreensível a passagem. Assim, e o mortalismo afirma que a segunda morte é a inexistência, ela é chamada de segunda porque há uma primeira morte espiritual naqueles que irão provar a segunda. O argumento que afirma sejam zumbis os que morrerão novamente não faz sentido.

Vejamos de outra forma: há uma morte física para todos. Mas também há uma morte espiritual nos impíos. Esses morrem fisicamente, mas nem por isso estão morrendo outra vez no mesmo sentido. Assim, quando se fala da segunda morte está sendo relacionada a primeira morte física com a segunda. Estamos de acordo. No entanto, a segunda morte é o lago de fogo.

Também, ninguém pensa que os mortos são julgados, condenados e morrem novamente, mas julgados, condenados e lançados no lago de fogo e enxofre. Esse lago é o sentido da segunda morte. Não se trata de uma morte igual em natureza à primeira.

Assim, o que faz pensar que a segunda morte é diferente da primeira é essa linguagem apocalíptica que usa o termo morte em um conceito de “castigo”, como se falasse do segundo castigo.

Eis que outro argumento aniquilacionista, muito bom por sinal, entra em jogo. São João explicaria que o lago de fogo é a segunda morte por se tratar de algo simbólico, não sendo o próprio significado o conceito. Formidável.

Assim explica o livro mortalista: “Note ainda que João não diz que a segunda morte é o lago de fogo, como interpretam os imortalistas, mas precisamente o contrário: que o lago de fogo é a segunda morte.” Não. O original grego afirma que a segunda morte é o lago de fogo. De fato, o símbolo “segunda morte” é usado em Ap 2, 11: o vencedor não sofrerá dano algum da segunda morte. Assim também em Ap 20, 6: Sobre eles a segunda morte não tem poder. Então, São João explica mais adiante o que significa o tanque de fogo aonde foi lançado o Demônio e onde estavam a Fera e o falso profeta (Ap 20, 10). No versículo 14 está a explicação: A segunda morte é está: o tanque de fogo.

É justamente por isso que tradicionalmente o lago de fogo é o inferno, um lugar espiritual, que não é literalmente um “lago” comparado a um lago de água, como que mudando apenas seu conteúdo para as chamas de fogo, mas que esse “lago” simboliza o suplício eterno. Está vendo, o lago também pode ser um símbolo.

Tudo está no campo das figuras de linguagem apocalípticas. Assim, todos concordamos que o lago tipifica outra coisa, e essa coisa não é a “inexistência”, mas um castigo eterno para os réprobos ressuscitados e conscientes, um lugar espiritual de suplício. É pacífico que o castigo no lago de fogo é eterno, ou melhor, tem duração eterna, seja ele qual for.

De outra forma, estaria o autor apenas literalizando o termo “morte”, e quando se diz que a segunda morte é o lago de fogo, estaria apenas mostrando que a primeira morte é idêntica à segunda, como entendem os mortalistas, o que já está refutado, pois essa morte não é inexistência, e nem que a primeira e a segunda “morte” são os mesmos fatos em natureza. Pelo contrário, o contexto indica que são os dois castigos pelo pecado, e são diferentes. A segunda é o lago de fogo.

Se é assim, se a segunda morte é apenas inexistência, e traz o sentido somente disso, vamos interpretar o texto e ver se o conceito encaixa-se perfeitamente.  Se a alegoria do fogo é usada apenas para representar outra morte física, isso deverá fazer sentido no contexto.

Se a morte é um “sono”, com a diferença que a primeria há despertar e a segunda não, então a morte seria algo que ninguém saberia o que é, já que não se tem consciência quando não existe. E a explicação do Targum é bastante importante, mas não é maior que aquilo que o texto bíblico explicita. E certamente a segunda morte no Targum não é explicitamente a inexistência, mas a condenação, restando explicar a natureza dessa.

Voltando ao texto do Ap 20, no verso 10 o Demônio é lançado no lago de fogo e enxofre, que na interpretação mortalista signficia o fim, a inexistência. Então o Demônio deixou de existir. E o texto afirma que lá estavam a Fera e o falso profeta, ou seja, interpretado como se não existissem mais. Seria o “lá na inexistência”, onde já estavam esses seres citados.

Mas o Apocalipse afirma que eles estavam sendo “atormentados, dia e noite”. E a outra questão é que o Demônio é lançado no lago após sua derrota, sem dizer o mínimo sobre um castigo “antes” de ser lançado ali. A punição se identifica com o lago de fogo, e não com outra coisa. Isso mostra que essa inovação interpretativa não deu certo. Não existe castigo proporcional antes do lago de fogo. Parece que está refutado o argumento aniquilacionista.

Na interpretação mortalista, fundamentada no argumento do Dr. Bacchiocchi, “a segunda morte é o lago de fogo”. Assim, o autor do livro explica que o símbolo é interpretado em Ap 20, 10.14 como é feito em Ap 1, 20, onde as estrelas são os anjos e os candelabros são as igrejas.

O texto grego assim diz em Apocalipse 1, 20: “As sete estrelas os anjos das sete igrejas são, e os candelabros sete, (as) sete igrejas são”, se formos traduzir literalmente.

Aqui temos duas refutações: a primeira, é que o grego explica o simbolismo usando a estrutura “estrelas são anjos e candelabros são igrejas”. Segundo, os anjos podem também ser um símbolo, pois possivelmente se referem aos bispos das igrejas e não aos anjos literais, pois seria estranho o apóstolo João escrever cartas a anjos literais.

Dessa forma, quando o autor do livro mortalista afirma: Note ainda que João não diz que a segunda morte é o lago de fogo, como interpretam os imortalistas, mas precisamente o contrário: que o lago de fogo é a segunda morte. Se o lago de fogo da visão que João recebeu significasse um lago de fogo literal, João nem ao menos precisaria explicar do que ele se trata, já que seu significado seria o próprio conceito.”, ele não consultou o texto grego, mas usou o argumento do Dr. Bacchiochi. E a partir daquele argumento construiu mais um, como se o lago de fogo fosse o símbolo.

E o texto grego assim afirma: “οτος (este) (a) θάνατος (morte) (a) δεύτερός (segunda) στιν, (é) (o) λίμνη (lago) το (de) πυρός (fogo)”: podendo ser traduzido assim: esta a morte segunda é o lago de fogo.

Ou seja, o contrário do que o autor do livro mortalista afirmou, pois ele seguiu uma tradução em português. Novamente, em grego literal está assim: “Esta a morte segunda é o lago de fogo”. O Apocalipse está explicando a segunda morte como símbolo, e o lago de fogo como o conceito.

A tradução da King James e da Almeida Corrigida e Fiel fizeram o contrário, o que corrobora a interpretação do livro, mas que não é o que está no original grego.

A versão da Ave Maria assim traduz: “A segunda morte é esta: o tanque de fogo”. Em outras palavras, o tanque de fogo é o conceito de segunda morte, para usar o raciocínio do autor mortlaista, ao mesmo tempo que refutando sua interpretação.

Ao invés de pensar que os ímpios morreriam outra vez, e seus corpos voltariam à corrupção, por assim dizer, a morte é explicada de outra forma: ela não é como a primeira, mas é o lago de fogo. Dessa maneira, há razão, causa, motivo e circunstância para interpretar o que é a segunda morte.

Desse modo, temos:

Ap 1, 20

As sete estrelas são os anjos

Ap 1, 20

Os sete candelabros, as sete igrejas

Ap 20, 14

A segunda morte é esta: o tanque de fogo

 

O grego literal está aproximadamente assim: “as sete estrelas, anjos das sete igrejas são e os candelabros sete, sete igrejas são”: “ο πτ στέρες γγελοι τν πτ κκλησιν εσίν κα α λυχνίαι α πτ  πτ κκλησίαι κκλησίαι”.

A estrutura usada em Ap 20, 14, onde o símbolo é explicado, mostra que aquilo que está no lugar do símbolo é a “segunda morte”.

Então, essa versão que o livro mortalista trouxe, e serviu para o seu argumento inteiro, não traduziu conforme o original em relação à estrutura: “Então a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. O lago de fogo é a segunda morte.” Aqui o lago de fogo está no lugar do símbolo, mas no original não. Assim, essa é de fato mais uma refutação.

Quando São João explica que a segunda morte é o lago de fogo, os judeus entenderam que se tratava do hades igual a inferno, como na parábola do rico e Lázaro.

Jesus afirma que na Sua vinda os ímpios serão consumidos, como nos dias de Sodoma. Ainda, a explicação mortalista da figura do fogo e enxofre caindo do céu como aquilo que aniquilará os ímpios, criando um lago de fogo e enxofre onde eles estão, torna toda a cena literal, o que contradiz o que o autor mortalista quis explicar acima. Ainda, contradiz aquela noção de que haverá castigo proporcional antes do lago de fogo.

Em outras palavras, se o fogo que cairá do céu é literal, criando um lago de fogo, então não haverá um castigo instantâneo, e assim o lago de fogo é o lugar do tormento proporcional, o que contraria a explicação anterior. Se o fogo que cai do céu aniquila os ímpios, e a figura do lago de fogo é apenas um símbolo para mostrar o que aconteceu aos condenados, então não houve castigo proporcional, contrariando a doutrina aniquilacionista proposta no livro. Das duas formas não há como harmonizar com a doutrina bíblica. E também houve incoerência na própria interpretação mortalista apresentada.

Se o lago de fogo não pode ter um fogo literal, já que a morte e o hades são nele lançados, também a forma de “aniquilar” os ímpios também deverá ser sem fogo. Ou haverá fogo? O aniquilacionista decide.

E a explicação de que o lago de fogo causa tormeno apenas no sentido simbólico é plausível, mas não se sustenta diante do que já foi exposto acima. E falta ainda ficar claro como será a completa aniquilação, como ensina o aniquilacionismo, se é pelo fogo e enxofre que cairá do céu instantaneamente, como falam as imagens proféticas, ou se realmente esse fogo formará um lago onde por um período temporário individual cada um irá ser consumido por séculos talvez, no tempo proporcional às suas faltas. É isso que dá introduzir outras interpretações das figuras bíblicas.

Se o fogo devorador cai do céu e elimina em um só instante a todos os ímpios, não há graus de castigo. Se o lago de fogo é apenas uma forma de mostrar o que aconteceu com os que morreram no fogo que caiu do céu na vinda de Jesus, de fato a explicação parece negar que haja castigo proporcional. De fato, não há como morrer instantaneamente e ao mesmo tempo ter um castigo proporcional às culpas. Por essa incoerência, surge mais uma refutação.

Portanto, a explicação de que o tormento diário para sempre é apenas parte do sentido simbólico foi bastante plausível no contexto da apresentação da doutrina aniquilacionista. Bom argumento. No entanto, em geral foram mostrados muitos problemas que invalidam a interpretação.

Gledson Meireles.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Veneração e adoração: Pastor Yago e Padre José Eduardo, parte 3

O pastor Yago inicia seu vídeo com uma ironia, de que será canonizado pelo milagre de ter mudado a teologia católica, pois os apologistas católicos mudaram o que haviam dito após sua resposta. Já vimos que isso não aconteceu, mas vejamos o motivo do pastor Yago não ter compreendido isso.

A resposta católica seria que a veneração não possui sacrifício, e por isso não é adoração na veneração.

1º Ao ler o início da resposta do padre Eduardo, o pastor Yago afirma que sua esperança é que os católicos não sejam idólatras !!!!!!!!!!!!!!!!. E logo continua dizendo que o católico que não é idólatra é na sua visão um mau católico. Ou seja, ele acredita com toda certeza que o verdadeiro católico é idólatra, contrariamente ao que disse segundos antes. Assim, se ele ele acredita que talvez os católicos não sejam idólatras, então crê que todos os católicos não estão agindo como verdadeiros católicos, pois do contrário ele crê que todos são, e os que não são católicos mas continuam na Igreja Católica são de fato mau católicos. Sua afirmação já tem essa contradição interna. Isso passa despercebido, mas mostra o motivo da incompreensão que o pastor tem da teologia católica.

2º Sua prova de que os católicos seriam idólatras seria que os mesmos dão características  exclusivamente divinas como a mediação a Maria e a intermediação aos santos. Seria a intenção dos católicos que se expressaria nos seus atos externos.  Em primeiro lugar, a mediação e intermediação, que praticamente é a mesma coisa, não é exclusivamente divina quando se trata do que fazem os santos. Alguém que ora por outra pessoa, pedindo a Deus a graça, a bênção, a outra pessoa, está agindo entre Deus e a pessoa, sendo um intermediador, um intercessor. Assim, a fala do pastor Yago já não se sustenta, pois essa ação é humana e não exclusivamente divina. Pedir a Maria e crer que ela pode interceder a Deus não é conceder que ela tem atributo próprio da divindade, mas apenas afirmar que estando no céu e sendo a Mãe de Cristo ela terá condições de pedir com fé a Deus por nós.

3º O pastor Yago esclareceu que seu exemplo da importância do ato interno era para mostrar que haveria idolatria sem sacrifício. Se há ato interno de idolatria, não é necessário sacrifício para o pecado da idolatria existir. Até aqui, nada de novo. 

4º O pastor entende que o sacrifício da missa é repetição, ainda que a teologia católica entenda que não é. Assim, percebe-se mais uma vez um motivo pelo qual o pastor não entende a teologia católica, por não aceitar compreendê-la. A Igreja ensina que não há repetição do sacrifício, mas repete-se o rito para tornar presente o único sacrifício da cruz por meio sacramental. Então o pastor diz que são apenas palavras diferentes e diz que se trata de repetição. Não aceita a explicação da Igreja. É como afirmar que a Igreja ensina a repetição do sacrifício, onde Jesus morre na cruz milhares de vezes, quando a Igreja não ensina isso. É lamentável o resultado dessa postura.

Vejamos: Cristo morreu, ressuscitou e subiu aos céus. Não morre mais. Fato. Cremos nisso.

O pastor explica que há repetição do sacrifício de Jesus na missa, que não é repetição mas o mesmo sacrifício, que é o mesmo mas está sendo novo sacrifício, acontecendo toda missa mas é o mesmo, de novo, mas sendo o mesmo. Assim, as palavras, segundo sua crítica, poderiam significar qualquer coisa. De fato, ele não entendeu nada.

Se o católico crê que Jesus morreu na cruz, ressuscitou, subiu ao céu, está sendo à direita de Deus Pai, então não crê que Jesus morre na cruz na missa. É claro que isso não pode ocorrer de novo. O que ocorre de novo, o que se repete, é o ato da missa, que torna espiritualmente e de forma sacramental o sacrifício presente, como se estivesse ocorrendo naquele ato, com seu poder. Só isso.

Depois ele afirma que o livro de Hebreus ensina que não há sacrifício à parte do único sacrifício, como se a missa fosse outro sacrifício, o que não é o caso, demonstrando que não compreendeu.

A missa é a celebração. Somente isso. O poder da cruz é eterno, e se mostra sacramentalmente ali.

5º O conceito de adoração como sendo a disposição do coração é doutrina católica de sempre, e não uma novidade entre os apologistas católicos proveniente do vídeo do pastor Yago, como pareceu ao pastor.

6º Não há na fé católica nada que atribua características divinas a Maria e aos santos, e portanto os atos externos de veneração aos santos não podem ser adoração de forma alguma.

Houve um desentendimento mútuo. O padre percebeu as incoerências e contradições do pastor, e o pastor entendeu que o padre estava se contradizendo o tempo todo. Portanto, trata-se de uma questão bastante profunda. O padre entende que o pastor tem dificuldade em entender o Catolicismo, e o pastor pensa o mesmo do padre em relação ao Protestantismo.

O pastor Yago fez bem em ler todo o texto do padre José e também em usar partes de vídeos de seus debates. Ele esclareceu bem sua posição, e isso é louvável. O padre certamente pode fazer o mesmo ao ver a resposta do pastor.

O padre afirma "adoração em primeiro lugar é sacrificar". O pastor entendeu que o sacrifício define o que é adoração e o separa de veneração.

Quando o padre afirma que católicos e protestantes estão unido na adoração ao Deus Trino e que os atos são secundários, significa simplesmente que os demais atos não são idolatria já que a adoração ao único Deus já previne desse pecado.

O pastor entende que a fé no único Deus compartilhada por ambos os lados não garante que alguém irá colocar outro em pé de igualdade com Deus e cometer o pecado de idolatria. São exemplos de incompreensões, mas ambos os lados estão afirmando coisas verdadeiras.

Só é adoração se tiver sacrifício OU adoração é intenção do coração e se a intenção não for de adorar igualando a Deus então não é adoração.

A resposta é a segunda, pois mesmo não tendo sacrifício pode haver adoração. Isso não é novidade para os católicos, mas é a própria doutrina católica.

Certamente, o que se está tentando esclarecer é que na Igreja Católica dentre todos os atos externos os atos relacionados ao sacrifício de Cristo celebrado na missa são unicamente oferecidos a Deus e a ninguém mais, caracterizando os cristãos católicos como adoradores do único Deus somente e não que os demais atos não pudessem ser adoração mesmo sem sacrifício segundo a intenção do coração.

Gledson Meireles.

Veneração e adoração: pastor Yago e Padre José Eduardo, parte 2

 

O pastor Yago certamente não quer confundir a audiência católica, mas acredita piamente que os católicos são idólatras, pelos motivos que expôs em seu vídeo. No entanto, ele está errado, e o artigo Para melhor entender adoração e veneração refuta o pastor Yago.

O padre José Eduardo explica o sentido dos “atos externos” que fazemos, e que são mal entendidos pelos protestantes.

O padre acredita que o pastor faz  confusão propositalmente, pois do contrário seria incapacidade cognitiva. Mas, ao que parece, não é de propósito, mas algo mais atrelado à incapacidade cognitiva, não por falta de inteligência, mas pelos motivos que já foram expostos no artigo anterior, e ficará mais claro quando for comentado o vídeo resposta do pastor Yago ao padre Eduardo sobre o tema em debate. Vejamos o que o pastor Yago diz e analisemos melhor o motivo de sua não compreensão da doutrina católica.

O padre afirma que o sacrifício é o ato supremo de adoração. De fato, ele já o disse em entrevista, e parte da mesma está postada em seu instagram. Assim, não é verdade que os apologistas católicos limitam a adoração ao sacrifício. Ficou bem explicado pelo padre José.

Ainda, o padre escreve que a idolatria é a confissão de divindade de uma criatura que alguém erige como Criador.

O padre percebe a contradição que o pastor Yago fez em seu vídeo, assim como está provado no artigo aludido acima. Assim, o padre mostra que adoração inclui sacrifício, entre tantos atos. O pastor Yago tentou refutar um espantalho.

O próximo artigo analisará o vídeo resposta do pastor Yago.

Gledson Meireles.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Para melhor entender adoração e veneração

Vamos começar com o Catecismo da Igreja Católica para debater o tema.

Citando o Diálogo com Trifão, de São Justino, temos que “Não pomos as nossas esperanças em algum outro – pois outro não existe – mas no mesmo que vós, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó”. O mesmo podemos hoje afirmar, que o nosso Senhor, de Abraão, de Isaque, de Jacó, de São Pedro, de São Paulo, de Santo Agostinho, de Santo Antônio, e etc., é Aquele em que pomos nossas esperanças.

Aqui temos a veneração aos santos de Deus e a adoração a Deus. E o Catecismo (n. 2096) afirma que adorar a Deus é, em resumo aqui, reconhecê-Lo como Deus, Criador, Salvador, Senhor, Mestre.

Qual a diferença prática funcional de latria para hiperdulia? Honra e veneração a Maria e a Deus? Há intercessão, concessão de louvor, honra, graça, oração, aceitação no coração, prostração, tratamento de instrumento de redenção. Qual a diferença? Segundo o pastor, não existe diferença.

A resposta ortodoxa e católica de que a adoração envolve sacrifício não é aceita pelo pastor. Vejamos se o pastor de fato refuta a resposta católica.

O que é idolatria, dulia, hiperdulia, adoração? O pastor trata de diferença FUNCIONAL. Esse é o tema. Para ele, não há diferença e isso é o importante.

Latria: sacrifícios a Deus. Idolatria, sacrifícios a ídolos.

O ponto fundamental que o pastor quer provar é que na Bíblia inteira não haveria a relação exclusiva entre adoração e sacrifício, mas a adoração está atrelada também a vários outros elementos que são comuns na veneração católico-romana.

Adoração no sentido interior. Isso é prioritário. E antes de tudo uma subserviência interior. Percebe-se aqui que o pastor aqui usa até a linguagem e teologia católica para ensinar essa verdade: a adoração é uma disposição do coração. Não é comum um pastor usar essa linguagem ao falar de adoração, como vemos entre os padres. Portanto, o pastor Yago aprendeu bem esse ponto. Ele cita Ezequiel 14.

Como a adoração é dependente de sacrifícios, se ela é interna? Nesse ponto o pastor erra. Ele não entende a doutrina católica em geral, e desliza em mais um ponto fundamental. Para o catolicismo a adoração é antes de tudo uma disposição do coração, a adoração em espírito. A adoração não depende do sacrifício para existir, mas funciona atrelada ao verdadeiro sacrifício. Assim, não há novidade alguma para a fé católica essa resposta do pastor relativa a essa questão específica.

Depois o pastor oferece um exemplo de adoração, que é erguer interiormente algo ou alguém mais alto do que deveria. Certamente ele pode estar pensando que o católico ergue Maria dentro do seu coração mais alto do que deveria, de forma exagerada, tornando-a mais alta que Deus, ou em pé de igualdade com Deus, constituindo idolatria. Isso não existe e ninguém poderia em sã consciência afirmar que os cristãos católicos fazem isso em seus corações.

Mais adiante, o apologista mostra exemplo de dulia aplicado a dinheiro, como está em Mateus 6. O que ele quer provar com isso? Que a veneração também está atrelada ao conceito de adoração, e isso poderia refutar a fé católica, pois o termo fala de idolatria interior. Os demais exemplos são todos usados na fé cristã católica para mostrar que a adoração é fundamentalmente interior, e não depende de nada exterior. Portanto, o pastor está dando uma aula de catequese católica sem perceber.

O desejo exagerado e desordenado é a explicação pelo pastor como idolatria. É importante notar novamente a linguagem católica que o pastor usa para ensinar essa doutrina. É algo que parece mostrar as boas influências da fé católica que o pastor tem em seus estudos.

Na parte II o pastor aprofunda a questão. A adoração envolve sacrifícios mas não está restrita a isso. A expressão corporal, a ida ao templo e até uma festa podem ser adoração.

Depois, afirma que quando o referente muda o entendimento do ato muda. Isso é magnífico. É totalmente o que a doutrina católica ensina, e que normalmente os pastores protestantes, e mesmo apologistas, não costumam perceber.

O ponto básico parece ser o seguinte: não é necessário um sacrifício para haver adoração, mas basta a prostração. A prostração de um servo diante do senhor humano é um reconhecimento de autoridade, mas diante de Deus, por exemplo, já é adoração. Ponto positivo, pois é justamente o entendimento católico sobre o fato.

Aqui mostra-se que na prática a adoração e a veneração podem ser iguais, mas há uma diferença no sentido interior do ato, que é uma diferença invisível. É a doutrina católica.

E como as palavras adoração, prostração, serviço, são usadas na Bíblia? A idolatria e a adoração se expressavam de modo muito mais amplo. Assim, a atitude de adoração não depende da oferta de sacrifício: pode ser prostração, o ato de curvar-se, beijo. O beijo pode ser expressão de adoração. O pastor está tentando provar que o ato em si não depende da existência de sacrifícios, de uma liturgia sacrificial, para serem adoração, mas sim de uma disposição interior. Isso está correto. E qual a novidade aqui? O pastor entendeu bem o que é adoração, e soube diferenciar o que se passa no interior e do que é feito exteriormente, de modo que pode haver o mesmo ato, como prostrar-se, com diferentes sentidos.

Seu objetivo foi mostrar que o sacrifício não é necessário para haver adoração, mas ele refuta muito do entendimento protestante que diz que a própria prostração, por exemplo, em contexto religioso e espiritual, seria adoração. Ou seja, um ato externo em relação a uma imagem seria adoração pelo próprio ato, sem consideração ao que se passa no espírito do fiel. Isso já está claro, e até aqui o pastor não apresentou nenhuma dificuldade para a fé católica.

Um observador que olhasse um israelita prostrado diante de Deus notaria a semelhança com um adorador de outro deus, “mas havia uma notável diferença”, afirma o pastor. Então ele está pronto para entender que para um cristão católico ajoelhar-se diante de uma imagem pode não ser adoração, mesmo que o ato seja semelhante.

Ele diz que o israelita não se prostrava diante de imagens, o que era proibido pela lei, ainda que existissem imagens na religião dos judeus, como os querubins e etc. Então, aparece o outro erro do pastor. Ele afirma que se o objeto ligado ao culto passa a ser tratado como objeto de veneração, há condenação de idolatria, citando o caso da serpente de bronze em 2 Rs 18. Isso já está explicado em artigo neste blog, para quem tiver interesse em estudar.

A existência de imagens é uma coisa, prestar às imagens honra religiosa, é outra coisa, afirma o pastor.

Aqui ele parte para outra questão: antes já entendeu que o culto de adoração é acima de tudo interno, e transparece nos atos. Se alguém prostra-se diante de um superior humano, seria honra, se a prostração é diante de Deus, seria adoração. Mas, nesse ponto específico o pastor ainda não entende que há imagens que podem ser cultuadas com gestos de veneração. É um obstáculo que o pastor Yago ainda possui no entendimento do tema:

Atos iguais podem ter sentidos diferentes segundo a disposição interior.

Imagens religiosas podem existir no culto a Deus, como aquelas no templo no Antigo Testamento.

Agora, a ideia de que as mesmas podiam ser honradas com atos externos, com a disposição correta de honra a objetos rituais, isso não pode ser negado.

Para quem deseja estudar, há muitos artigos no blog sobre o tema. Em resumo, vemos que na Bíblia quando se diz que o adorador prostrou-se diante de Deus para adorar, ele está prostrado diante da arca, que é um objeto. Portanto, está refutado o que o pastor afirmou sobre o caso específico das imagens. O restante o pastor está correto e em conformidade com a doutrina católica.

A adoração se manifesta de várias formas, uma delas é o sacrífico. Muito bem, mas a fé católica ensina isso. Continuemos.

O ministério do sacerdócio levita se estendia em ajudar ao povo, por exemplo. O serviço ao povo é uma forma de adoração a Deus. Ou seja, o pastor mais uma vez, sem perceber, concorda com a fé católica de que o serviço a outro redunda em adoração a Deus. Assim, a veneração a Maria, por ser a mãe de Jesus, é em última instância adoração a Deus.

A citação de David Peterson ajuda a entender melhor o que a explicação do pastor tem em conformidade com a doutrina católica.

1º é a atitude do coração que realmente importa.

2º adoração como expressão de reverência ou grata submissão.

 

A interpretação do autor sobre o tabernáculo, a arca e o templo:

O ritual associado a essas instituições servia para reconhecer o poder e a presença de Deus.

Aqui podemos lembrar que os gestos ligados ao tabernáculo, à arca e ao templo, que eram materiais, eram imagens, servem para adorar a Deus, que é invisível. É uma forma de utilizar o que o pastor está afirmando, partindo da citação que faz, e estabelecer esse ponto de contato com a fé católica.

Na parte III que trata sobre o que adoração no Novo Testamento sem a presença de sacrifício. O caso de Cornélio em Atos 10, 26.

A prostração diante do anjo no Apocalipse foi vista como adoração. Mas e o que foi dito e explicado acima: a prostração pode ser sinal de uma disposição interior diferente e não ser adoração. Assim, está estabelecido que o ato de prostrar-se pode ser adoração ou veneração (honra).

Segundo, as imagens sagradas no templo, por exemplo, podem ser tratadas com rituais associados a elas, mas que servem para o culto de Deus. Outro conceito legítimo.

Caso se argumente que o ato de prostrar-se diante do anjo é adoração, então a afirmação contradiz tudo o que foi dito anteriormente. O ato em si não pode provar nada.

Adoração como sacrifício de louvor. Correto.

Nada que possa contradizer a fé católica.

Ao final, o pastor usa o exemplo de cantar para a esposa, no contexto conjugal, e introduz linguagem de culto, usando palavras que são relacionadas a Deus para uma criatura, o que já seria idolatria.

O problema é que de fato não se devem confundir os contextos. Também deve-se ver que na antiguidade, desde o Antigo Testamento, a linguagem utilizada pelo povo fiel para expressar honra, reverência no sentido cultural e adoração espiritual é muitas vezes a mesma, pois a linguagem também é uma forma externa do culto interior, o que pode mudar segundo a disposição do coração, o que refuta o pastor totalmente. Assim, um elogio profundo a alguém e um louvor a Deus com palavras semelhantes não significa idolatria, pois o fiel sabe o significado do seu ato em seu coração.

1º Há adoração sem sacrifício real, como diz o pastor.

2º Se os louvores, ofertas e serviços aos santos forem adoração e não veneração, então o pastor contradiz tudo o que explicou acima, pois as palavras estariam sendo maiores que a disposição interior. Portanto, não faz sentido. Há um lugar para a honra aos santos servos de Deus, e um lugar à adoração a Deus, que são totalmente diferentes.

3º Não há um culto de veneração separado como se fosse semelhante ao de adoração, mas todos os cultos ou atos de veneração feitos aos santos estão no contexto do culto único de adoração dado a Deus.

Parece que o pastor continua com a mesma ideia  errônea de que os atos de veneração e adoração são iguais, e que a "prática" é que seria a prova, e portanto são a mesma coisa, contradizendo o que disse em todo o vídeo, como analisado acima, ou seja, de que a disposição do coração é que faz a verdadeira adoração. Se a abstração, a doutrina, a disposição interna valem, são elas que dão sentido à prática. Se é a prática, então tudo o que o pastor disse não está valendo. Onde está então a refutação à doutrina católica? Não existe.

Os erros de interpretação mostrados ao longo do artigo levaram a essa conclusão errada do apologista protestante.

Para quem quiser aprofundar-se no tema, leia mais artigo no blog sobre adoração e veneração.

Gledson Meireles.